Mostrando postagens com marcador Modernismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Modernismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Modernistas contraditórios e modernistas coerentes


“A seita modernista assemelha-se ao famoso labirinto habitado pelo monstro Minotauro e construído engenhosamente por Dédalo, à maneira do rio Meandro, cuja correnteza obedecia à lei do fluxo e refluxo, de modo que não tinha começo nem fim. Como se sabe, quem entrava no labirinto não encontrava mais a saída, ficava perdido, a menos que tivesse o novelo de linha de Ariadne, e acabava devorado pelo Minotauro.
Assim também, em geral, quem entra para a seita modernista não percebe suas infinitas contradições, fica desorientado, e acaba tendo devoradas a fé e a razão. Entretanto, na seita modernista há quem queira conservar a fé apesar de enredado por contradições doutrinárias, e há também os que, percebendo as contradições, renegam a fé como adesão da inteligência à verdade revelada, aderem ao imanentismo religioso, ficam subjetivistas e rebaixam a razão a uma função pragmática, interessados apenas em resolver problemas concretos e imediatos.
Segundo o filósofo italiano Michele Federico Sciacca em seu belo estudo sobre O idealismo moderno, publicado no volume Heresias do nosso tempo (Porto, 1956), o filósofo idealista Giovanni Gentili teve o mérito de pôr em evidência as contradições dos modernistas: “o vosso princípio é intelectualista (Deus transcendente); o vosso método subjetivista (Deus imanente). Permaneceis católicos porque o princípio opõe-se ao vosso método, mas, na realidade, este método, julgado à luz desse princípio, leva ao ateísmo”. O modernismo, digamos assim, é duplamente herético: relativamente ao Cristianismo, porque o seu método leva ao ateísmo; relativamente ao próprio idealismo, de que é filho, porque o seu princípio (a transcendência) contradiz a imanência idealista.
Com efeito, o referido ensaio de Sciacca pode servir como um novelo de linha de Ariadne ajudando as pessoas que entraram no labirinto do modernismo a encontrar a saída e o retorno à integridade da fé católica.
Sciacca demonstra as raízes idealistas da seita modernista, apontando a sucessão histórica dos diversos autores modernistas, todos eles filiados de alguma forma à filosofia hegeliana. Diz ele: “É inegável a sucessão histórica (que significa também filiação intelectual) Hegel – Feuerbach – Strauss – Renan – Loisy; e Loisy é a expressão mais genuína do modernismo, enquanto das premissas tira as conclusões e sai do equívoco e da contradição dos outros seus companheiros de heresia. Com efeito, o modernismo, em muitos modernistas, foi, essencialmente, uma contradição entre o princípio (a transcendência de Deus e a revelação) e o método historicista ou pragmatista, que leva direito à imanência, à doutrina da formação histórica do dogma e, por conseguinte, à negação da Revelação, da divindade de Cristo e da divindade da Igreja Católica.” (o. c. p. 57)
Esta contradição do modernismo é muito bem ilustrada por Mons. Francesco Spadafora em sua obra La nuova esegesi (Albano, 1996), na qual o exímio exegeta mostra as devastadoras consequências da utilização do método histórico-crítico ou a “história das formas” de matriz racionalista-idealista sobre a exegese católica. Diz ele que tal método contrasta claramente com as três verdades reveladas que estão na base da exegese católica: a inspiração divina da Sagrada Escritura, sua inerrância absoluta, a historicidade dos nossos quatro Santos Evangelhos.
Conta também Mons. Spadafora suas várias tentativas vãs de convencer o cardeal Ratzinger sobre a situação catastrófica do Instituto Bíblico onde o método histórico-crítico era praticado pelos sequazes do famigerado cardeal Carlo Martini. Porém, o mais interessante que nos informa mons. Spadafora é que o documento da Pontifícia Comissão Bíblica, sob o título Interpretação da Bíblia na Igreja, tem um prefácio assinado pelo cardeal Ratzinger no qual o purpurado diz: “Na história da interpretação, o uso do método histórico-crítico assinalou o início de uma nova era. Graças a este método apareceram novas possibilidades de compreender o texto bíblico no seu sentido original.” (o.c. p. 15).
Monsenhor Spadafora conta que protestou vivamente junto ao cardeal Ratzinger contra a publicação do livro Exegese cristã hoje, de autoria do mesmo cardeal juntamente com o jesuíta Ignace de la Poterie, no qual o referido jesuíta repete suas teses errôneas sobre a inerrância bíblica. E comenta: “Sua Eminência o cardeal, participando do livro com seu estudo sobre a Formengeschichte de Bultmann, deu a impressão lógica de partilhar das heresias de Ignace de la Poterie.” E na página 129 conclui categoricamente:
“Efetivamente eu não vejo – e a exegese de hoje me dá a maior confirmação – como um exegeta católico possa adotar os sistemas racionalistas chamados pelo cardeal Ratzinger “método histórico-crítico” (formengeschichte e redaktionsgeschichte), sem renegar os dogmas quando não as verdades de fé divina e católica que devem estar no fundamento da exegese católica, as quais foram reiteradas ininterruptamente pelos romanos pontífices contra a agressão do modernismo (…) Por ora, basta citar Simon-Dorado: a formengeschichte contra o dogma católico notiones inspirationis, inerrantiae, traditionis apostolicae pervertit.”
E mais adiante, na página 207, Mons. Spadafora evidencia a contradição do ilustre cardeal: “No seu estudo, o cardeal alterna luzes e sombras em um crepúsculo humanamente sem esperança: admissões, reconhecimentos também exatos sobre a crise da exegese católica, juízos substancialmente negativos sobre o sistema Bultmann-Dibelius (a formegeschichte), mas também afirmações que contradizem as precedentes, como, por exemplo: “a Dei Verbum sublinhou a legitimidade e também a necessidade do método histórico”!
Como se vê, é muito procedente a observação do filósofo Giovanni Gentili reportada acima. A contradição da maioria dos modernistas é uma constante ao longo da história dessa heresia.
Mas voltemos à análise de Michele Federico Sciacca sobre as diversas implicações teológicas do idealismo. Explica o filósofo que, conforme a dialética hegeliana, há uma negação do ser e de cada ser, que se conserva “destruindo-se”. De maneira que a religião, segundo momento do Espírito Absoluto, conserva-se na filosofia, onde precisamente se nega. Isto significa que o momento religioso está contido no filosófico e que é por ele superado; mas o momento filosófico é o da plena racionalidade, é consciência reflexa do conteúdo religioso que, como tal, ainda é puramente “representativo”; a religião, portanto, fica absorvida e dissolvida na filosofia. E isto é mais que uma heresia: é a negação da religião como tal, quer enquanto se nega que ela tenha a sua autonomia na vida do espírito, quer enquanto se exclui radicalmente qualquer forma de saber revelado (…) Daqui a conclusão de alguns pensadores da chamada “esquerda” hegeliana: a religião, antes de o seu conteúdo ser reduzido à racionalidade do momento filosófico ou reflexo, é um “mito”, uma ficção poética.
Hoje pode-se dizer que assistimos ao esforço mundial de reduzir a religião à filosofia social, despojando-a de qualquer dogma e pondo-a a serviço de um grande projeto político. Realmente, para a consolidação da Nova Ordem Mundial, não vemos hoje a instrumentalização de todas as religiões, a promoção do sincretismo, um esforço de criar uma nova religião mundial que ajude a dar coesão a uma nova organização das nações? E mais não vemos tentativas de dar uma explicação meramente sociológica da origem da religião? A meu ver, tudo isto se filia à filosofia idealista, conforme a explicação de Sciacca.
Para remate destas considerações, desejaria assinalar que a imagem do labirinto de fato se adapta perfeitamente aos antros modernistas. O labirinto foi construído à maneira do rio Meandro que tinha fluxo e refluxo. Ora, sob o pontificado de João Paulo II e Bento XVI, houve um refluxo depois da violenta correnteza dos tempos de João XXIII e Paulo VI. Hoje temos um forte fluxo do modernismo sob o pontificado de Francisco I. Mas devo dizer que prefiro o clima de anarquia e plena liberdade promovido por Francisco àquela falsa ordem ou ditadura da nouvelle theologie vivida sob os reinados de João Paulo II e Bento XVI em que os teólogos condenados por Pio XII na Humani generis foram elevados à categoria de doutores da Igreja.
Prefiro o papa Francisco que, com toda franqueza, acolhe a Fraternidade São Pio X sem exigir nenhuma declaração doutrinária (porque sabe honestamente quanta contradição há no modernismo) a Bento XVI que tentava encobrir tudo com o manto da hermenêutica da continuidade. Prefiro o papa Francisco porque sabe que o seu irmão de ordem religiosa o Pe. Jacques Dupuis SJ tinha razão quando recusou retratar-se diante do cardeal Ratzinger, afirmando com plena coerência sua teoria do salto qualitativo da teologia católica das religiões como fruto do Vaticano II.”
(Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa, Modernistas Contraditórios e Modernistas Coerentes)

https://santamariadasvitorias.org

terça-feira, 14 de maio de 2019

"O cisma mais terrível que o mundo já conheceu"

“No dia 04 de fevereiro, em Abu Dabi, o Papa Francisco e o Grande Imã de Al-Azhar, Ahamad Al-Tayyeb, subscreveram o Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum. A declaração inicia com o nome de um deus que, para ser comum, não deve ser outro que o Alá dos muçulmanos.
Na realidade, o Deus cristão é um em sua natureza, mas trino em suas pessoas, iguais e diversas, que são o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Desde os tempos de Ário, a Igreja combateu os antitrinitários e os deístas, que negavam tal mistério – o maior do Cristianismo – ou prescindiam dele. O islã, ao contrário, o recusava horrorizado, como proclama a sura A fé pura: “Ele é Alá, uno! Deus, o Eterno. Não engendrou, não foi engendrado. Não tem par!” (Corão 112, 2, 4).
O certo é que na Declaração de Abu Dabi não se rende culto ao Deus dos cristãos nem ao do islã, mas a uma divindade laica, a fraternidade humana, “que abraça todos os homens, une-os e torna-os iguais”. Não nos encontramos diante do espírito de Assis, que em seu sincretismo não deixa de reconhecer a primazia da dimensão religiosa sobre a secularista, e sim diante de uma afirmação indiferentista.
Na verdade, em nenhum momento se faz alusão a um fundamento metafísico dos valores da paz e da fraternidade aos quais constantemente se alude. Quando o documento afirma que “o pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos”, não professa o ecumenismo que Pio X condenou em Mortalium animos (1928), mas o indiferentismo religioso condenado por Leão XIII, na sua Encíclica Libertas (20 de junho de 1988), definido como sistema doutrinal “fundado na tese de que cada um pode professar a religião que preferir ou não professar nenhuma”.
Na Declaração de Abu Dabi, cristãos e muçulmanos se submetem ao princípio fundamental da Maçonaria, segundo o qual os valores da liberdade e igualdade da Revolução Francesa têm que ser sintetizados e cumpridos na fraternidade universal. Ahamad Al-Tayyeb, que redigiu o texto juntamente com o Papa Francisco, é o xeique hereditário da Irmandade de Sufis do Alto Egito. Al Azhar, a Universidade da qual é reitor, é caracterizada por sua proposta de esoterismo sufi como ponte iniciática entre a Maçonaria do Oriente e do Ocidente (cf. Gabriel Mandel, Federico II, el sufismo y la Masonería, Tipheret, Arcireale 2013).
O documento exorta com grande insistência “aos líderes do mundo inteiro, aos artífices da política internacional e da economia mundial”, “aos intelectuais, aos filósofos, aos homens de religião, aos artistas, aos operadores dos mass-media e aos homens de cultura”, que se comprometam em difundir “a cultura da tolerância, da aceitação do outro e da convivência”, e expressa “a forte convicção de que os verdadeiros ensinamentos das religiões convidam a permanecer ancorados aos valores da paz; apoiar os valores do conhecimento mútuo, da fraternidade humana e da convivência comum”.
Destaca-se que tais valores são “âncora de salvação para todos”. Por esse motivo, “Al Azhar e Igreja Católica pedem que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflexão em todas as escolas, nas universidades e nos institutos de educação e formação, a fim de contribuir para criar novas gerações que levem o bem e a paz e defendam por todo o lado o direito dos oprimidos e dos marginalizados”.
No dia 11 de abril, em Santa Marta, o Documento de Abu Dabi foi selado com um gesto simbólico: Francisco se prostrou diante de três dirigentes políticos sudaneses, beijando os seus pés e implorando a paz. Esse gesto expressa a submissão à autoridade política e a recusa da Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que representa Cristo, Nome diante do qual se dobra todo joelho no Céu e na Terra (Filipenses 2, 20), deve receber a homenagem dos homens e das nações, e não render homenagem a ninguém.
Ressoam as palavras de Pio XI, na Encíclica Quas primas: “Oh! Que felicidade poderíamos gozar, se os indivíduos, as famílias e as sociedades se deixassem governar por Cristo! Então, verdadeiramente – diremos com as mesmas palavras que nosso predecessor Leão XIII dirigiu há vinte e cinco anos a todos os Bispos do orbe católico -, será possível curar tantas feridas, todo direito recobrará o seu vigor antigo, voltarão os bens da paz, cairão das mãos as espadas e as armas, quando todos aceitarem de boa vontade o império de Cristo, quando o obedecerem, quando toda língua proclamar que Nosso Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai”.
Por outra parte, o gesto realizado pelo Papa Francisco em Santa Marta nega um sublime mistério cristão: a Encarnação, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, único Salvador e Redentor da humanidade. Ao negar esse mistério, nega-se a missão salvífica da Igreja, que é chamada a evangelizar e civilizar o mundo. O Sínodo da Amazônia, que será realizado no próximo mês de outubro, constituirá uma nova etapa nesta recusa da missão da Igreja, e que supõe também a recusa da missão do Vigário de Cristo? O Papa Francisco irá se ajoelhar diante dos representantes dos povos indígenas? Pedirá a eles que transmitam à Igreja a sabedoria tribal da qual são portadores?
O certo é que três dias depois, em 15 de abril, a catedral de Notre Dame, imagem plástica da Igreja, pegou fogo e as chamas consumiram a torre, deixando intacta a base. Por acaso isso não significa que, apesar do desmoronamento do topo da Igreja, sua divina estrutura resiste e nada poderá derrubá-la? Uma semana mais tarde, outro acontecimento fez tremer a opinião pública católica: uma série de atentados, cometidos por seguidores da mesma religião à qual se submete o Papa Bergoglio, transformaram a Páscoa da Ressurreição em um dia de Paixão para a Igreja universal, com 300 mortos e mais de 500 feridos.
Antes mesmo dos seus corpos, o fogo consumiu as ilusões dos católicos que, com aplausos e violões, entoavam aleluias, enquanto a Igreja vive sua Sexta e seu Sábado Santo. Pode-se objetar que aqueles que perpetraram os atentados do Sri Lanka, apesar de serem muçulmanos, não representam o islã. Nem mesmo o imã de Al Azhar, que assinou o documento de paz e fraternidade, representa todo o islã. Mas certamente o Papa Francisco representa a Igreja Católica. Até quando?
Não há verdadeira fraternidade se se prescinde do sobrenatural, que não nasce de vínculos com os homens, mas com Deus (1 Tessalonicenses 1, 4). Do mesmo modo, a paz não é possível prescindindo da paz cristã, porque a fonte da verdadeira paz é Cristo, Sabedoria encarnada, que “veio para anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz também àqueles que estavam perto” (Efésios 2, 17). A paz é uma graça de Deus, trazida à humanidade por Jesus Cristo, Filho de Deus e soberano dos Céus e da Terra.
A Igreja Católica que Ele fundou é a suprema depositária da paz, porque é guardiã da verdade, e a paz se funda na verdade e na justiça. O neomodernismo, implantado na cúpula da Igreja Católica, prega uma falsa paz e uma falsa fraternidade. Porém, a falsa paz traz a guerra ao mundo, assim como a falsa fraternidade conduz ao cisma, que é uma guerra civil na Igreja.
São Luís Orione tragicamente predisse em 26 de junho de 1913: “O modernismo e o semi-modernismo não têm remédio; cedo ou tarde se chega ao protestantismo ou a um cisma na Igreja que será o mais terrível que o mundo já conheceu” (Escritos, vol. 43, p. 53).”
(Roberto de Mattei, “Il Più Terribile Scisma Che Il Mondo Abbia Mai Visto”)

https://www.obramissionaria.com.br

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A alteração da doutrina da Igreja sobre a pena de morte


"Com uma mensagem ex audientia Sanctissimi, a Congregação da Doutrina da Fé nos informou que um outro elemento da religião católica deve se considerar modificado oficialmente: a doutrina sobre a licitude da pena de morte.
O Catecismo publicado por João Paulo II, mesmo contendo inovações conciliares, ainda admitia (ainda que de maneira mais teórica) que a autoridade estatal pudesse cominar a pena capital em casos gravíssimos. Ao contrário, a modificação do número 2267 do referido catecismo nos diz que, contrariamente ao afirmado no passado, “a Igreja ensina, à luz do Evangelho, que ‘a pena de morte é inadmissível porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa’ e se empenha com determinação na sua abolição em todo o mundo”. Especifica-se, seguindo a doutrina conciliar, que a dignidade humana nunca se perde, nem mesmo por crimes gravíssimos (Santo Tomás ensinava o oposto).
Tal inovação fora anunciada no Discurso de 11 de outubro de 2017 aos participantes do encontro promovido pelo Pontifício Conselho para a Promoção da nova Evangelização, por nós comentado no Convegno di Rimini de outubro de 2017. Por ser gravíssima uma alteração da doutrina católica mesmo no menor dos pontos, toca-nos sublinhar os princípios evocados para tanto, princípios especialmente sublinhados pelo Papa Francisco no discurso aqui mencionado. De onde pode vir o conhecimento de uma doutrina diferente daquela transmitida? As fontes da Revelação foram lidas de modo mais acurado, por acaso? Ou será que, até agora, a infalibilidade cochilava? Papa Francisco responde enunciando a típica doutrina modernista sobre a evolução do dogma, apesar de fazer um apelo de todo retórico ao “Evangelho”. Vejamos o que diz o referido discurso.
Papa Francisco diz, claramente, a propósito do Catecismo que “não é suficiente encontrar uma linguagem nova para dizer a fé de sempre; é necessário e urgente que diante dos novos desafios e perspectivas que se abrem à humanidade, a Igreja possa exprimir a novidade do Evangelho de Cristo, que, apesar de contida na Palavra de Deus, não veio ainda à luz.” Não se iluda quem vê no novo curso eclesial uma simples mutação de linguagem. A fé de sempre não basta, nem basta encontrar um modo de exprimir adaptado ao homem de hoje: deve-se realizar um verdadeiro e próprio processo profético que tenha as necessidades do homem moderno (“desafios”) como verdadeira fonte de revelação divina. Francisco se faz mais explícito: “conhecer a Deus, como sabemos, não é em primeiro lugar um exercício teórico da razão humana, mas um desejo inextinguível impresso no coração de cada pessoa. É o conhecimento que vem do amor porque o Filho de Deus se encontrou no nosso caminho (Enc. Lumen Fidei, 28)”. Palavras aparentemente fascinantes, mas que revelam o pensamento modernista sobre a fé: não há verdades reveladas para aceitar, mas um “desejo” do divino que existe dentro do homem. Obviamente, tal desejo não está ligado a revelação de verdades externas ao homem (para serem acatadas pela razão iluminada pela fé – e, por isso mesmo, imutáveis), mas pode ser explicitado de muitos modos, conforme as circunstâncias de tempo e de lugar: assim nasceram as várias religiões e assim são possíveis infinitas modificações da doutrina, de acordo com as necessidades e sensibilidade dos tempos. Uma sociedade religiosa organizada como a Igreja Católica não poderá obviamente ignorar as mudanças na sensibilidade e, em tempo oportuno, deverá assimilar a experiência do seu momento histórico que, relendo o Evangelho, descobre “coisas novas”. Quem não o fizesse, estaria indubitavelmente resistindo ao Espírito Santo, que outra coisa não é que o espírito do mundo e da história. A operação, levada a termo para liberdade religiosa e o ecumenismo no Concílio Vaticano II, e para a “família” no Sínodo do Papa Bergoglio, foi estendida agora ao tema sensível da pena de morte.
O Papa prossegue de modo ainda mais explícito: “Esta problemática (da pena de morte) não pode ser reduzida a uma mera recordação do ensinamento histórico sem fazer emergir não apenas o progresso na doutrina pela obra dos últimos Pontífices, mas também a modificada consciência do povo cristão, que recusa uma atitude de consentimento diante de uma pena que lesa pesadamente a dignidade humana. Deve-se afirmar com força que a condenação à pena de morte é uma medida desumana que humilha, em qualquer modo, a dignidade pessoal”. Aqui a “modificada consciência do povo” é claramente apresentada como uma “fonte” da doutrina católica. E continua: “A Tradição é uma realidade viva e só uma visão parcial pode pensar o ‘depósito da fé’ como algo de estático. A Palavra de Deus não pode ser conservada com naftalina como se tratasse de uma velha coberta a ser protegida dos parasitas! Não. A Palavra de Deus é uma realidade dinâmica, sempre viva, que progride e cresce porque se volta a um cumprimento que os homens não podem parar”. É claro o chamado a uma permanente revelação: não se deve transmitir (seria "conservar com naftalina") mas progredir a um “cumprimento” inexorável, sob pena de pecado contra o Espírito Santo, explicitamente invocado pouco abaixo:
“Não se pode conservar a doutrina sem fazê-la progredir, nem se pode atá-la a uma leitura rígida e imutável sem humilhar a ação do Espírito Santo. ‘Deus, que muitas vezes e em diversos modos nos tempos antigos havia falado aos pais’ (Heb 1,1), não cessa de falar com a Esposa de Seu Filho (Dei Verbum). Somos chamados a fazer nossa essa voz, com uma atitude de ‘religiosa escuta’, para permitir à nossa existência eclesial progredir com o mesmo entusiasmo dos inícios, em direção aos novos horizontes que o Senhor pretende nos fazer alcançar”.
Dificilmente se poderia esperar uma exposição mais clara da doutrina modernista sobre a evolução do dogma, ainda que Papa Francisco repita muitas vezes que “não se trata de uma mudança de doutrina”. Quem raciocina como católico e pensa que a doutrina da Igreja corresponde a uma revelação concluída que deva ser transmitida só poderá ver uma contradição insanável, e se deverá perguntar se a Igreja errou até hoje ou se é o Papa Francisco que erra; em última análise se, para Cristo, a pena de morte é lícita ou não.
O modernista não verá contradições: Deus não revelou uma doutrina, mas está dentro de nós, e o impulso dado pelo “Cristo histórico” (Quem sabe o que disse? Não havia gravadores...) nos faz viver uma experiência religiosa que vivenciamos em comum na Igreja, com fórmulas acordadas entre nós. Essa é a ação “profética” do “Espírito Santo”, que nunca termina, ainda mais quando procuramos reviver “o entusiasmo dos inícios”. Assim harmonizaremos com novas fórmulas as nossas renovadas necessidades e desejos, inspirados por aquele espírito da história que é o próprio Deus, e ao qual não se deve resistir (e que de qualquer modo ‘não se pode parar’). É exatamente a doutrina que São Pio X condenou na Encíclica Pascendi.
No momento em que tal variação doutrinal vem imposta aos fiéis de modo oficial, é dever de cada um permanecer fiel à doutrina tradicional definida pela Igreja e professá-la nos modos e nos tempos apropriados, como fez Dom Marcel Lefebvre contra os erros do Concílio."
(Pe. Mauro Tranquillo, FSSPX, Pena de Morte, Modernismo e Papa Francisco)

http://permanencia.org.br

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Francisco nega a necessidade da fé em Jesus Cristo


“No domingo 15 de abril Francisco visitou a paróquia romana de São Paulo da Cruz. No encontro que teve com crianças da paróquia, uma menina lhe perguntou se os que não foram batizados são filhos de Deus. Ao que Francisco respondeu com outra pergunta, sibilina e maliciosa em grau supremo, fazendo crer à pequena, como bom modernista, que a “verdade” deve ser encontrada nas “profundezas do coração humano”: “E tu? Que pensas disto? Que te diz o coração? As pessoas não batizadas são filhas de Deus ou não?”
Quando a pobre criatura lhe respondeu afirmativamente, Francisco lhe fez saber que ela havia respondido corretamente a sua pergunta e a felicitou por ter um bom “olfato cristão”, já que “todos somos filhos de Deus”, inclusive “os não batizados” e os que professam “religiões muito distintas, e que têm ídolos”.
Por fim, Francisco explicou que a diferença entre os não batizados e os batizados reside no fato de que estes últimos são “mais filhos de Deus” [!!!] que os primeiros. Ou seja, segundo Francisco, o batismo não confere a filiação divina por adoção – só Cristo a possui por natureza – mas provoca em quem o recebe um aumento de “intensidade” em sua original e natural filiação divina – conceito soberanamente absurdo, como se pudesse existir uma gradação na filiação -, a qual deve, por conseguinte, atribuir-se indistintamente a todos os homens, em virtude de seu caráter comum de “criaturas”. O que implica, logicamente, a abolição da distinção entre a ordem natural e a sobrenatural, com todas as conseqüências que isto traz inevitavelmente aparelhadas no plano teológico, a saber, o panteísmo modernista da “imanência vital”, que faz da concepção humana a fonte da revelação divina: reler a respeito a luminosa encíclica Pascendi de São Pio X.
Depois um menino, cujo pai ateu havia morrido recentemente, perguntou-lhe se ele pensa que “está no Céu”, ao que Francisco respondeu de maneira afirmativa, dado que seguramente era uma “boa pessoa”, e aconselhou ao pequeno que lhe falasse e que lhe rezasse (!!!) - Parla con tuo papà, prega tuo papà -. Não lhe pediu que rezasse por ele, o que é o primeiro reflexo que todo bom cristão tem por um ser querido falecido, mas o animou a que rezasse a ele, como se se tratasse de um santo, como se fosse um fato certo e indubitável que seu pai não somente se salvou, mas que, ademais, conseguiu escapar aos suplícios do Purgatório, sendo admitido diretamente nas fileiras gloriosas da Igreja Triunfante, com sua alma resplandecente e imaculada gozando para sempre da visão beatífica...
Estamos aqui diante de uma antítese grotesca da necessária e piedosa obra de misericórdia espiritual que um autêntico Vigário de Cristo deveria ter inspirado na alma desta pobre criatura, explicando-lhe que suas orações em favor de seu pai defunto poderiam ser-lhe de grande proveito, seja ajudando-o a que tenha recebido da parte de Deus a graça da conversão final, seja, em caso de haver-se salvado, contribuindo com suas orações a que saldasse as penas temporais devidas por seus pecados, abreviando assim sua estada purificadora no Purgatório.
Mas não, destas elementares considerações cristãs diante da morte, nem sequer rastros encontramos no discurso bergogliano. Com efeito, graças a Francisco, nem o pai do menino poderá contar com os pios sufrágios de seu filho, nem este conhecerá a verdadeira doutrina cristã sobre a necessidade do batismo – in re ou in voto – e da fé em Jesus Cristo para alcançar a vida eterna.
Francisco mentiu descaradamente a todos estes pequenos que inocentemente acudiram a seu encontro nessa paróquia romana, a quem não somente omitiu brindar o benéfico alimento do ensinamento evangélico mas que ademais enganou com uma malícia diabólica, iniciando-os às elucubrações envenenadas da gnose panteísta.
Não viria mal ao ímpio ocupante de Santa Marta reler a seguinte passagem do Evangelho segundo São Mateus, na qual Nosso Senhor adverte severamente aos que constituem uma ocasião de escândalo para as crianças que crêem n'Ele:
"Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar." (Mt. 18, 6)
A doutrina professada por Bergoglio, portanto, se encontra nos antípodas da revelação divina. Trata-se, pura e simplesmente, de uma heresia manifesta e notória. Isto nem precisa ser demonstrado, pois deveria ser algo perfeitamente claro para qualquer cristão que conhecesse minimamente o catecismo ou que tivesse lido o Novo Testamento. Mais ainda: antes do Vaticano II, qualquer criança cristã teria estado em condições de perceber imediatamente o embuste e refutar sem vacilar tamanha impiedade. Não obstante a evidência flagrante da tolice bergogliana, e para utilidade daqueles que pudessem abrigar dúvidas a respeito, eis aqui algumas citações do magistério da Igreja, para dissipar qualquer tipo de ceticismo:
552. - Que é o sacramento do Batismo? O Batismo é um sacramento pelo qual renascemos para a graça de Deus e nos fazemos cristãos. 553. - Quais são os efeitos do sacramento do Batismo? O sacramento do Batismo confere a primeira graça santificante, pela qual se perdoa o pecado original, e também os atuais, se os há; remite toda a pena por eles devida; imprime o caráter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória e nos habilita para receber os demais sacramentos. (Catecismo maior de São Pio X)
O Batismo é o sacramento da regeneração pela água com a palavra, pois nascendo pela natureza filhos da ira, por ele renascemos em Cristo filhos de misericórdia e filhos de Deus. [...] A lei do Batismo foi imposta por Deus a todos os homens, de modo que se não renascem para Deus por graça do Batismo, são gerados por seus pais para a morte eterna: Quem não renasce da água e do Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus. [...] O Batismo confere à alma a divina graça, com a qual fica justificada, feita filha de Deus e herdeira do céu, e adquire uma formosura divina aos olhos de Deus. (Catecismo do Concílio de Trento)
O primeiro lugar entre os sacramentos é ocupado pelo santo batismo, que é a porta da vida espiritual, pois por ele nos fazemos membros de Cristo e do corpo da Igreja. E tendo pelo primeiro homem entrado a morte em todos, se não renascemos pela água e pelo Espírito, como diz a Verdade, não podemos entrar no reino dos céus. (Concílio de Florença, Decreto dos Armênios, Dz. 696)
Depois da miserável queda de Adão, todo o gênero humano, viciado com a mancha original, perdeu a participação da natureza divina e nos tornamos todos filhos da ira. Mas o misericordiosíssimo Deus de tal modo amou o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito, e o Verbo do Pai Eterno com aquele mesmo único divino amor assumiu da descendência de Adão a natureza humana, mas inocente e isenta de mancha, para que do novo e celestial Adão derivasse a graça do Espírito Santo a todos os filhos do primeiro pai; os quais, havendo sido pelo pecado do primeiro homem privados da adotiva filiação divina, feitos já pelo Verbo Incarnado irmãos, segundo a carne, do Filho Unigênito de Deus, receberam o poder de chegar a ser filhos de Deus. (Pio XII, encíclica Mystici Corporis, §6º)
Poder-se-iam multiplicar ad infinitum as citações, que Francisco de nenhuma maneira pode ignorar, mas com estas basta e sobra. Ao negar a necessidade do batismo e da fé em Jesus Cristo para alcançar a filiação divina por via da adoção, Francisco suprime de fato a distinção entre a natureza e a graça – o que o faz incorrer no erro panteísta -, tornando ociosa a obra da Redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo no altar da Cruz e a missão divina por Ele confiada a seu Corpo Místico, a Igreja.
Concluamos esta breve nota com uma citação do prólogo do Evangelho de São João, que põe mais ainda em evidência, se fosse possível, a heresia naturalista e panteísta que difunde desavergonhadamente e com um cinismo a toda prova Francisco há mais de cinco anos, ante o silêncio ensurdecedor da quase totalidade do clero católico, cachorros mudos e indolentes, incapazes de discriminar uma verdade de fé de uma heresia, tragicamente ineptos para distinguir um legítimo pastor de um lobo voraz disfarçado com pele de cordeiro:
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jn. 1, 11-13).”

https://in-exspectatione.blogspot.com.br

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A seca sobre Roma

“É difícil deixar de ver na seca que afeta Roma – a pior em, pelo menos, sessenta anos – algo como um oportuno sinal, enquanto açoite punitivo. Ali onde esteve a cátedra de Pedro e hoje se convida a dar palestras a velhas abortistas paradoxalmente tornadas promotoras da imigração “para compensar a abrupta queda da natalidade”, ali onde se recebem como visitantes ilustres pares de sodomitas e se celebra com cinismo ímpar que “pela primeira vez o magistério do Papa é paralelo ao da ONU”, ali vem hoje a faltar o mais vital dos elementos. De similar teor ao dos numerosos acontecimentos que, ao modo de sinais, vão sazonando o pontificado de Francisco (a pomba lançada por ele e arrebatada nos ares por um corvo; o terremoto sofrido na nação daquele mandatário que o visitou no Vaticano, desatado quase no mesmo momento de apertar-lhe a mão; os sinistros imediatamente consecutivos a suas viagens, como os ocorridos em Belém e em Lourdes, etc), este da seca sobre Roma vem a pôr o selo cósmico nas primaveris ilusões da vulgata conciliar, que na ordem do espírito já havia difundido uma aridez em verdade insuperável. Se a transposição modernista do ritual dos sacramentos trouxe consigo a conhecida taxa negativa de vocações sacerdotais e a prática extinção do matrimônio diante do altar, além da apostasia coletiva e da renúncia da Igreja a testemunhar o Evangelho, pouca coisa será que na cidade das fontane se lute por um sorvo. A propósito do anúncio de catástrofes naturais supostamente contido no Terceiro Segredo de Fátima, foi suficientemente claro o então bispo daquela localidade portuguesa: a perda da fé de um continente é pior que a aniquilação de uma nação.
Já conhecemos o conteúdo do Terceiro Segredo: faz anos que se impõe a nossos olhos. O corolário das catástrofes telúricas, em irônica correspondência com seu typos espiritual, não faz mais que confirmar o conhecido. Neste tempo de alianças com os protestantes para facilitar um serviço litúrgico comum que exclua explicitamente as incômodas noções de sacrifício e presença real, neste rarefeito tempo de comistão do sacro – ou seus restos – com o profano ou profaníssimo, com abundância de sacrilégios oferecidos à la carte pela mesma Hierarquia, dificilmente se poderá assimilar a igreja sedente em Roma com aquela imagem do Templo oferecida pelo profeta Ezequiel (47, 1ss.), debaixo de cujo umbral brotavam vivíficas águas que, com pouco andar, se faziam mais e mais profundas, símbolo da graça e seu efeito nas almas. Parece que Roma quis, ao invés, voltar a ser aquela Babilônia que o Príncipe dos Apóstolos soube estar pisando em seus dias, quando a urbs imperial perseguia cruentamente aos de Cristo.
Não temos notícia de que as testemunhas do Apocalipse (11, 3 ss.) tenham já começado sua profética missão. Mas consta que a eles será concedido “fechar o céu para que não chova durante os dias de sua pregação” antes de jazer na Grande Cidade, “que simbolicamente se chama Sodoma e Egito”.”

https://in-exspectatione.blogspot.com.br

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O modernismo será a religião do Anticristo

“O modernismo é a última evolução do protestantismo liberal e é a heresia mais sutil e complexa que já existiu e pode existir, de modo que sem dúvida será a religião do Anticristo; porque concilia em si as duas notas antagônicas com que São Paulo descreve misteriosamente o Homem do Pecado, e que até hoje pareciam incompatíveis: 1°, será adversário de toda religião e culto; 2°, se sentará no templo fazendo-se adorar como Deus. O modernismo desfaz toda religião existente, apropriando-se não obstante de suas formas exteriores, as quais esvazia de conteúdo para preenchê-las com a idolatria do Homem.”
(Pe. Leonardo Castellani, Comentarios en la Suma de Teologia de Santo Tomás)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O conservador moral é um progressista

“Há dois tipos de conservadores nos campos do catolicismo: conservadores morais (mas liberais em dogma), e os simplesmente conservadores (ou católicos tradicionais).
Os conservadores morais (liberais em dogma) são aqueles católicos cujo catolicismo se resume a ser do movimento chamado pró-vida. Esses “conservadores” são perigosos, pois reduzem o catolicismo a ser pró-vida e ao mesmo tempo são liberais em assuntos dogmáticos. Por exemplo, o conservador moral ataca o aborto, mas opina que talvez o melhor seja que os sacerdotes se casem, modernizar a Igreja etc. O conservador moral luta contra a “cultura da morte”, mas crê que a presença de Cristo na Missa é questão de opinião. O conservador moral luta contra a pílula anticoncepcional, mas diz que a Virgem ter sido sempre virgem é apenas a opinião de teólogos. O conservador moral ataca o matrimônio gay, mas parece-lhe uma crueldade da Igreja que os divorciados não possam comungar. Por fim, o conservador moral é firme opositor da eutanásia, mas quer uma Igreja que modernize seus dogmas superados pela “ciência”.
O problema é que hoje em dia parece (para muitos) que ser pró-vida e inimigo do que chamam de “cultura da morte” é suficiente para ser um católico completo. Mas ser católico é imensamente mais e exige imensamente mais que o mero fato de estar filiado ao movimento pró-vida.
Então, cuidado! O catolicismo é antes de tudo uma fé, alguns postulados sobre Deus e suas relações com a humanidade. Desses postulados surge, em conseqüência, uma conduta, uma vida. Mas o ponto de partida é uma mensagem que fala à inteligência. Esse é um dos pontos negados pelo modernismo, que é a pior heresia de toda a história, pois busca destruir todo o edifício católico.
Não basta o conservadorismo moral para se ter uma verdadeira identidade católica; é necessária também a fidelidade dogmática.
Fidelidade ou conservadorismo dogmático é o que mantém com zelo a dogmática católica tal como foi definida ao longo dos séculos. Essa dogmática, o corpo de ensinamentos dogmáticos, configura uma visão da realidade, que não é “uma” visão a mais, mas “a” visão real, realíssima.
Em poucas palavras, o catolicismo, em primeiro lugar e antes de tudo, fala à inteligência do ser humano mostrando-lhe a realidade, e só depois o move...
Mas essa palavra que o catolicismo dirige ao homem em sua inteligência supõe nele a capacidade de “inteligir”, de receber essa voz.
Ora, filosoficamente falando, os pressupostos dessa inteligência são nada mais, nada menos que o realismo gnoseológico e metafísico.
Daí que a única filosofia compatível com a fé seja a filosofia realista, a que afirma a realidade extramental dos entes. Filosofia que não só afirma, sustenta e defende o realismo dos entes, mas a capacidade da inteligência para conhecer essa realidade.
Dessa estrutura conceitual surgem algumas conseqüências a nível de conduta, que formam o campo da moral. Mas não se trata de uma moral pensada como um conjunto de normas impostas caprichosamente ao homem, para limitar sua liberdade.
Trata-se, isto sim, de uma moral que é o correlato prático do reconhecimento teórico da natureza humana e suas exigências específicas.
Pelo já dito se compreende como fica mutilado e distorcido um catolicismo reduzido apenas ao movimento pró-vida.
A atitude pró-vida no católico é conseqüência de suas atitudes teóricas ou dogmáticas, e não sua certidão suficiente de catolicismo.
É por isso que o conservador unicamente moral é um católico que deixou de sê-lo, que reduziu seu catolicismo ao mínimo, a um catolicismo raquítico (que estrita e objetivamente já não o é).
Por outro lado, o simplesmente conservador (chamado aqui dessa forma não por ser uma corrente ou facção, mas porque conserva o dogma e a moral íntegros como o exige a Igreja), é simplesmente o católico completo, o católico consciente da estreita correlação entre o dogma e a moral (quer dizer o puramente católico, a quem deveríamos estritamente chamar somente assim: católico).
Se o simplesmente conservador é o católico completo, por que então inventar outro nome e chamá-lo de simplesmente conservador? A razão está na confusão (e no erro) que há hoje em dia em que se considera motivo suficiente do catolicismo ser um conservador moral.
Então, quando hoje alguém se autodenomina católico, faz-se quase necessário perguntar, católico pela metade ou a sério?
Em poucas palavras, o simplesmente conservador (ou simplesmente católico) aceita o pacote completo, enquanto o conservador moral escolhe do pacote a parte que mais lhe agrada.
Muitas vezes o conservador moral age dessa maneira porque quer agradar e sabe que o movimento pró-vida é comum com outras “confissões”.
No movimento pró-vida podem-se encontrar pessoas das mais diversas confissões religiosas, inclusive pessoas sem religião alguma.
De fato, é muito comum que os pró-vida repitam e repitam até a exaustão que sua luta é ciência e não religião, o que de certa forma é verdade.
Então o conservador moral sabe que na luta pró-vida está unido a muitos, e não isolado, que é o que faz o dogma, isola separando (a verdadeira religião das falsas seitas cristãs ou outras errôneas denominações).
Fé e moral íntegras: um binômio irrenunciável para o católico
Se vocês prestam bem atenção ao que vamos dizendo, poderão compreender o espírito que anima o mero conservadorismo moral...
O Papa São Pio X, último Papa santo, havia assinalado duas bases teóricas para o modernismo, que é um erro gravíssimo:
1) agnosticismo e
2) imanência vital.
Agnosticismo: Esta falsa tese sustenta que só conhecemos “fenômenos”, jamais conhecemos a realidade de nada em si mesma, só a “realidade” para nós, subjetivamente. Dizem erroneamente que é impossível saber por meio da inteligência se Deus existe, ou se existe a alma, ou se esta é imortal.
Imanência vital: Este erro sustenta que a religião e a fé são fruto da interioridade humana, criações humanas para remediar um pouco sua “indigência”. Na fé – dizem – o importante não são as teses, as “verdades”, os dogmas, mas os sentimentos e as emoções. O importante, para os que defendem esse erro, não é saber se Deus existe, mas senti-lo próximo de nós. A religião – supõem-no falsamente – é coisa de sentimento e não um conjunto de verdades sobre Deus. Crêem que a teologia e a filosofia não têm nada a ver com a religião, o que importa para eles é sentirmo-nos bem e abraçarmo-nos todos.
Nota: Naturalmente esses princípios estão condenados pela Igreja Católica.
Agora compreenderão vocês por que o conservador moral não valoriza a dogmática católica, mas a relega a um segundo ou terceiro lugar.
Em resumo: o conservador moral é um modernista e, portanto, sua postura está condenada pela suprema autoridade da Igreja.
Todos devemos ser pró-vida, mas não confundamos as coisas; ser católico é infinitamente mais que o mero fato de ser pró-vida.
E estejamos todos em guarda contra o agnosticismo e a doutrina da imanência vital, que são os dois erros que hoje mais obscurecem as inteligências.”
(Leonardo Rodríguez, Dos Tipos de Católicos. ¿Es Suficiente Ser Provida?)

domingo, 9 de setembro de 2012

John Vennari mostra o modernismo de Bento XVI



http://stdominic3order.blogspot.com.br/2012/08/quem-e-bento-xvi.html

quarta-feira, 28 de março de 2012

Uma análise de alguns pontos da Encíclica Pascendi (III)

“Mas isto não é uma flagrante contradição? Não, respondem eles, pois a negação dos milagres e das profecias vem do filósofo falando a filósofos e, portanto, considerando a vida de Jesus Cristo segundo a verdade histórica, enquanto que a afirmação do fiel se dirige a outros fiéis. Ora, o fiel considera a vida de Jesus Cristo como “vivida de novo” pela Fé e na Fé.
Eis aí o que parece ser uma loucura completa. No entanto, se nós procuramos ir mais a fundo na teoria modernista, nós veremos que a Fé acaba sendo sujeitada à ciência.
“Muito se enganaria, diz São Pio X, quem, postas estas teorias, se julgasse autorizado a crer que a ciência e a fé são independentes uma da outra. Por parte da ciência, essa independência está fora de dúvidas; mas, já não é assim por parte da fé, que não por um só, mas por três motivos, se deve submeter à ciência”. Podemos resumir esses motivos como se segue:
1ª. Porque as fórmulas religiosas pertencem ao mundo dos fenômenos e, por isso, estão submetidas à ciência.
2ª. Porque se a Fé tem Deus por objeto e, assim, escapa à ciência, a idéia que se faz de Deus, pertencendo à ordem da lógica, está subordinada à ciência. A ciência deve controlar a idéia de Deus e adaptá-la à evolução intelectual e moral dos povos.
3ª. A unidade da pessoa humana e do pensamento impõe a submissão da Fé à ciência.
Tudo isso é, evidentemente, contrário a toda a doutrina Católica, que ensina que a filosofia é a serva da teologia e da Fé, e não o contrário.
É por causa dessas contradições, ao menos na aparência, que se nós lermos um livro modernista encontraremos numa página a perfeita doutrina católica, e ao virar esta página encontraremos uma doutrina cheia de heresias, como diz São Pio X.
Ao escrever a história, o modernista será um racionalista que nega o sobrenatural, mas se ele prega numa igreja, ele fala a linguagem da Fé. Como historiador, ele desdenha os Padres da Igreja e os Concílios, mas se ele dá o catecismo, ele cita essas mesmas fontes com todo respeito.
Mas em tudo os modernistas dão a última palavra à sua falsa ciência, e arruínam a Fé Católica.
Mas já é tempo de terminar. A matéria é vasta demais para ser exposta de uma só vez, numa simples introdução à Pascendi. Vamos, pois, passar ao último ponto da doutrina modernista, fazendo uma breve aplicação à situação atual e ao Concílio Vaticano II, e assim terminaremos.
3. O reformador modernista
O sétimo e último item da doutrina modernista diz respeito ao reformador modernista. Este reformador, diz São Pio X, quer tudo reformar na Igreja e suas reformas se fazem pela ruptura com o que a Igreja sempre fez.
Este tema é importantíssimo na crise atual. É o tema da ruptura e da continuidade. As reformas da Igreja se fazem sempre num espírito de continuidade. As reformas modernistas se fazem num espírito de ruptura.
São Pio V reformou o missal em continuidade com o passado. Paulo VI publicou um novo missal em ruptura com o que se fazia antes.
São Pio X fez o decreto da comunhão freqüente em continuidade com o passado, como ele mesmo disse no texto do decreto. O novo Direito Canônico permite que a comunhão seja dada a não católicos e isto em ruptura com o que a Igreja sempre fez.
A proclamação dos dogmas está sempre em continuidade com a doutrina professada pelos papas ao longo da História da Igreja. A Declaração sobre a Liberdade Religiosa está em ruptura com o que a Igreja sempre ensinou. No entanto, Bento XVI quer convencer o mundo católico de que entre o Vaticano II e a Tradição da Igreja não há ruptura. Isto só faz adensar as trevas nas quais se encontram as inteligências de hoje. Podemos dizer que isto é o supra-sumo do modernismo, a não ser que Bento XVI reforme a doutrina do Vaticano II, condenando-o vigorosamente em tudo o que ele se opõe à Tradição. Mas será isto que ele fará? Quem viver verá. De nossa parte, tememos que ele aumente a confusão doutrinal que assola a Igreja.
Mas vejamos o reformador modernista, a quem, como vimos, a ruptura com o passado não assusta. Veremos como muitas das reformas pedidas por ele foram atendidas pelo Concílio Vaticano II e os Papas pós-conciliares.
São Pio X fala da “mania de reformar” dos modernistas.
“Nada, absolutamente nada há no catolicismo que eles não ataquem”, afirma São Pio X.
Eis alguns exemplos, tirados todos da Pascendi.
a) Reforma da filosofia, sobretudo nos seminários
“Eles (os modernistas) pedem que se relegue a filosofia escolástica à história da filosofia, entre os sistemas ultrapassados, e que se ensine a filosofia moderna”.
É o que já está feito. Mesmo antes do Concílio, o Papa atual Bento XVI assim como o seu antecessor João Paulo II não se formaram com a escolástica, mas sim com a filosofia moderna, ou melhor, eles conheceram as duas, a escolástica e a filosofia moderna, mas optaram pela filosofia moderna.
b) A separação entre a Igreja e o Estado
“Sim, diz São Pio X na Pascendi, os modernistas pedem a separação da Igreja e do Estado, assim como a do católico e do cidadão”. A razão dada é que para os modernistas a Igreja não foi instituída diretamente por Deus.
“E não basta para os modernistas que o Estado seja separado da Igreja. Assim como a Fé deve se subordinar à ciência, (...) assim é necessário que nos assuntos temporais a Igreja se submeta ao Estado” dizem eles. E isto foi realizado pelo Concílio Vaticano II com o documento Dignitatis Humanae e com a política do Vaticano, que fez pressão junto aos governos católicos para que se retirasse da Constituição o artigo que fazia desses países, países oficialmente católicos. Isto se deu com a Colômbia, Espanha e alguns outros estados.
c) Reforma do governo da Igreja
“Que o governo eclesiástico seja reformado em todos os seus setores; sobretudo a disciplina e a dogmática, dizem eles. Que o seu espírito e os seus procedimentos externos sejam adaptados à consciência moderna, que se inclina para a democracia. Que se confie uma parte do governo ao clero inferior e mesmo aos leigos. Que a autoridade seja descentralizada”.
O Vaticano II com o decreto sobre a colegialidade, e as diversas medidas tomadas por Paulo VI e seus sucessores, introduziu o princípio democrático dentro da Igreja.
A autoridade do Papa ficou diminuída diante dos Bispos.
A autoridade dos Bispos ficou diminuída por causa das conferências episcopais.
A autoridade dos párocos ficou diminuída por causa dos conselhos paroquianos.
Dentro das comunidades religiosas, a autoridade dos superiores ficou diminuída por causa da vaga de contestação e de desobediência que penetrou em toda parte.
d) Reforma das Congregações Romanas, dos ritos dos Sacramentos, do Direito Canônico, etc
Os modernistas, como diz São Pio X na Pascendi, pedem sobretudo a reforma do Santo Ofício e do Índex, duas congregações que velavam sobre a doutrina.
Ora, o Santo Ofício teve o seu nome modificado e sua importância diminuída. Quanto ao Índex, ele foi suprimido. O Índex estabelecia o catálogo de livros proibidos.
Além destas reformas que indicamos, há várias outras, pois, como diz São Pio X, o modernista tem a mania reformista.
Qual foi a instituição da Igreja, qual o Sacramento, qual foi o ritual, qual foi a prática de piedade, qual o ponto de doutrina que não foi modificado, atacado ou suprimido após o Concílio?
Todos os Sacramentos tiveram o seu rito modificado: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio. Todos sofreram modificações.
O Direito Canônico foi refeito para adaptá-lo ao Concílio Vaticano II.
As congregações romanas foram profundamente modificadas.
Foi feito um novo catecismo, enquanto que o Catecismo do Concílio de Trento (Catecismo Romano) e o Catecismo de São Pio X foram postos de lado.
A Via Sacra e o Rosário receberam acréscimos ou modificações.
As práticas de devoção tradicionais foram desprestigiadas. A disciplina das indulgências foi modificada. O calendário dos dias litúrgicos foi alterado, assim como o processo da canonização dos santos.
A doutrina, enfim, sofreu e sofre ainda ataques de toda parte, assim como a exegese, que é o estudo da Sagrada Escritura. Apenas para recordar alguns pontos: o dogma “fora da Igreja não há salvação” foi atacado; o dogma “A Igreja de Cristo é a Igreja Católica” foi posto em dúvida e a existência do limbo é igualmente posta em dúvida.
Seria difícil fazer a lista de todos os pontos de doutrina atacados pelos modernistas de hoje. Basta dizer que o modernismo na sua forma atual triunfou no Concílio e continua a triunfar, apesar de alguns atos contrários à correnteza revolucionária e reformista que domina o Vaticano.
Para concluir, lembremos que São Pio X diz que o sistema dos modernistas é como um corpo perfeitamente organizado. Não se pode adotar um ponto sem admitir todos os outros. Lançando um olhar sobre todo o sistema modernista, São Pio X não pode deixar de classificá-lo de encruzilhada ou reunião de todas as heresias. Se alguém, diz ele, se desse ao trabalho de recolher todos os erros que já existiram contra a Fé e de concentrar a substância como um suco formado de todos eles, ele não poderia fazer nada de mais bem sucedido que o sistema modernista.
Após ter explicado minuciosamente este sistema, São Pio X sente a necessidade de explicar como o agnosticismo tendo fechado a porta para Deus do lado da inteligência, é em vão que ele tenta abrir outra porta do lado do sentimento, pois, diz São Pio X, o que é o sentimento senão uma conseqüência diante da ação da inteligência ou dos sentidos? Retirai a inteligência e o homem seguirá os piores instintos. A emoção, o sentimento e tudo o que cativa a alma, longe de favorecer a descoberta da verdade, entravam a sua aquisição. O sentimento e a experiência sozinhos, sem serem esclarecidos e guiados pela razão, não conduzem a Deus. Por isso, o sistema modernista conduz ao aniquilamento de toda religião e ao ateísmo. Pior do que isso, a doutrina da imanência divina conduz diretamente ao panteísmo, porque ela não distingue suficientemente o homem de Deus, e que, certamente, preparará a vinda do Anticristo.
Para terminar, recordemos o que São Pio X nos diz desta queda progressiva do espírito humano.
“O primeiro passo foi pelo protestantismo, o segundo, pelo modernismo; o próximo será o do ateísmo”. Com o Concílio Vaticano II, triunfou o modernismo ou neomodernismo carregado nas costas pelo liberalismo, que procura, a todo custo, se harmonizar com o mundo moderno. Desta forma, vimos algo nunca visto na história da Igreja: um concílio ecumênico promover uma doutrina contrária à doutrina da Igreja.
Diante deste fato, não podemos deixar de pensar no que diz São João no Apocalipse (cap. XIII), quando ele viu uma besta subindo do mar, que representa o poder político, o governo mundial, e sobre sua cabeça ela trazia a blasfêmia. E os homens adoraram a besta e o dragão que deu o poder à besta. E São João viu outra besta subindo da terra, que tinha os chifres semelhantes ao Cordeiro, mas que falava como o dragão e induzia os homens a adorarem a besta que saía do mar. Podemos pensar que esta misteriosa figura representa os homens da Igreja, que trazem as insígnias do Cordeiro, isto é, de Nosso Senhor, mas que falam como o dragão, isto é, o como demônio, ensinando a heresia e, acima de tudo, o condensado de todas as heresias, que é o modernismo.
Que o exemplo de Dom Lefebvre e de Dom Antônio de Castro Mayer e a intercessão de Nossa Senhora nos guardem sempre na pureza imaculada de nossa Fé e que esta inspire todos os nossos atos, pois a Fé age pela caridade, a qual nos obtém a vida eterna.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)

http://spessantotomas.blogspot.com/2011/10/enciclica-pascendi-por-dom-tomas-de.html

domingo, 25 de março de 2012

Uma análise de alguns pontos da Encíclica Pascendi (II)

1. O filósofo modernista
Os princípios do filósofo modernista são praticamente os mesmos que já vimos em Kant: o agnosticismo e o imanentismo. O agnosticismo é o princípio negativo e o imanentismo é o princípio positivo. O agnosticismo diz que nós só podemos conhecer os fenômenos, ou seja, as aparências sensíveis. Todo o resto é incognoscível. Daí se deduz que os milagres são incognoscíveis, que a Revelação externa, assim como toda manifestação de Deus na História, é impossível, pois nós não teríamos meios de conhecê-la.
Assim também, as provas da existência de Deus, da existência da alma e toda a filosofia são desprovidas de valor. Essas teorias, sobretudo a negação de que podemos provar a existência de Deus, já foram condenadas pela Igreja. O Concílio Vaticano I definiu solenemente que a razão pode provar a existência de Deus a partir das criaturas.
Após destruir as bases do conhecimento, vem o princípio positivo, que será o imanentismo.
Eis como São Pio X explica essa passagem do agnosticismo para o imanentismo.
“Eles passam de um a outro da seguinte maneira: natural ou sobrenatural, a religião, tal como qualquer outro fato, pede uma explicação. Ora, a teologia natural uma vez repudiada, todo acesso à revelação suprimido pela rejeição dos motivos de credibilidade, toda a revelação externa inteiramente abolida, é claro que a explicação da existência da religião não deve ser procurada fora do homem. É, então, dentro do homem mesmo que ela se encontra, e como a religião é uma forma de vida, a religião deve se encontrar na vida mesma do homem. Eis aí a ‘imanência religiosa’.”
E São Pio X prossegue:
“Todo fenômeno vital ― e a religião é um deles, como eles dizem ― tem por primeiro estimulante uma necessidade, e como fundamento este movimento do coração chamado sentimento.
Por conseguinte, como o objeto da religião é Deus, devemos concluir que a fé, princípio e base de toda a religião, se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade do divino.”
Desses dois princípios vão decorrer inúmeras conseqüências.
Pelo primeiro princípio, que é o do agnosticismo, os modernistas negam que a inteligência possa provar a existência de Deus. Daí se deduz que Deus não é objeto de ciência e que Deus não pode ser objeto da história. Deste princípio, somado ao princípio da imanência vital, isto é, de que a religião é objeto só de sentimento, se conclui que:
1. A ciência, assim como a história, não tem Deus por objeto e, portanto, deve ser atéia, na prática.
2. A Fé é um sentimento.
3. A Fé não vem “pelo ouvido”, como ensina São Paulo, mas vem do subconsciente do próprio homem.
4. A revelação tem sua origem também nesse sentimento e, por isso, a consciência religiosa de cada um não está submetida à autoridade da Igreja.
5. O sentimento religioso transformou os fatos reais dos Evangelhos, e, portanto, é preciso suprimir dos Evangelhos tudo o que não está de acordo com a ciência.
6. Todas as religiões provêm do mesmo sentimento religioso e, portanto, todas as religiões são verdadeiras.
7. A religião católica nasceu da consciência de Jesus Cristo segundo as leis da imanência.
8. O dogma é uma expressão imperfeita do sentimento religioso e, portanto, o dogma pode e deve evoluir na medida em que o sentimento religioso evolui.
9. As fórmulas religiosas (ou dogmas) devem ser vivas, assim como o sentimento religioso.
10. Para permanecerem vivas, as fórmulas religiosas devem estar sempre adaptadas ao fiel e à sua fé. No dia em que essa adaptação cessa, elas perdem a sua razão de ser. Daí o pouco caso que os modernistas fazem do dogma.
Como se pode ver, e segundo a expressão de São Pio X, os modernistas chegaram a esta loucura de perverter a eterna noção da verdade. Para eles, a verdade não é a adequação da inteligência com a realidade (natural ou sobrenatural), mas sim a adequação da inteligência com o sentimento, com a vida, isto é, com algo que não tem conteúdo inteligível.
E, ao mesmo tempo que os modernistas se perdem em suas loucuras, eles têm a audácia de repreender a Igreja por se apegar teimosamente e esterilmente a fórmulas vãs e vagas, segundo eles, enquanto que ela, a Igreja, deixa a religião correr à sua ruína, dizem eles.
Como exemplo dessa audácia dos modernistas, podemos citar os ataques feitos à palavra transubstanciação (a qual significa a transformação da substância do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Nosso Senhor, no momento da Consagração). Podemos dar ainda como exemplo a definição da missa, a doutrina do reinado social de Nosso Senhor e a própria encíclica Pascendi julgada antiquada pelos neomodernistas. Tudo isso para os modernistas deve mudar com a vida e com o “progresso” da humanidade (os comunistas têm uma doutrina semelhante, ao dizer que o modo de pensar muda cada vez que mudam as estruturas econômicas).
2. O fiel modernista
Para o filósofo modernista, Deus só é objeto de sentimento. Se Ele existe ou não, isso não o interessa. Mas, para o fiel modernista Deus existe em si mesmo, independentemente do homem. E como o fiel modernista chega a essa certeza? Pela experiência individual. Assim, se os modernistas se separam dos racionalistas, é para adotarem a doutrina dos protestantes e dos pseudomísticos.
Eis como os modernistas explicam essa certeza da existência de Deus. “Se nós penetramos o sentimento religioso, descobrimos aí facilmente certa intuição do coração, graças à qual e sem nenhum intermediário o homem atinge a realidade mesma de Deus”.
E se perguntamos que tipo de conhecimento pode produzir essa intuição do coração, eles respondem: “Uma certeza da existência de Deus que ultrapassa toda certeza científica. Trata-se de uma verdadeira experiência, superior a todas as experiências racionais”. E se perguntamos por que há então homens que negam a existência de Deus, o fiel modernista dirá que é porque eles não se põem nas condições morais necessárias para fazer essa experiência. Desta forma, os modernistas suprimem toda atividade propriamente racional da Fé. A Fé modernista é irracional; ela é puro sentimento.
Tudo isso é evidentemente contrário à Fé católica e abre o caminho para o mais completo relativismo, pois se isso fosse verdade, todas as religiões seriam verdadeiras. E é isto que observa São Pio X ao escrever: “Uns de maneira velada e outros abertamente, todos eles afirmam que todas as religiões são verdadeiras”. E como poderiam eles negar essa conclusão? “Isto não poderia ser feito senão mostrando a falsidade do sentimento ou da fórmula (dogma) que o exprime. Mas, segundo eles, o sentimento é sempre e em toda parte o mesmo, substancialmente o mesmo, e quanto à fórmula religiosa, expressão do sentimento religioso, tudo o que eles pedem é que ela esteja adaptada ao fiel e ao mesmo tempo à sua fé”.
Mas os modernistas não reivindicam uma superioridade da religião católica sobre as outras? Sim, mas uma superioridade de grau e não de natureza, pois, dizem eles, “ela é mais verdadeira porque ela é mais viva”.
De todos esses erros eles tiram conseqüências importantes a respeito da Tradição, assunto que nos interessa de maneira toda especial, porque no documento que excomungou Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer estava dito que eles não tinham uma noção acertada de Tradição. Escutemos São Pio X:
“Outro ponto a respeito do qual os modernistas se põem em oposição flagrante com a fé Católica é que eles transferem para a Tradição o princípio da experiência religiosa. A Tradição, tal como a entende a Igreja, se encontra totalmente arruinada”.
Antes de demonstrar o conceito que os modernistas têm da Tradição, vejamos o que ensina a Santa Igreja: A fonte da Fé é uma só: é a Revelação. Mas a Revelação foi transmitida aos homens de duas formas. Escrita e oral. A escrita é a Sagrada Escritura, a oral é a Tradição. Nesse sentido, diz o Concílio Vaticano I, seção III, cap. III Denz. 1792: “Fide divina et catholica ea omnia credenda sunt, quae in verbo Dei scripto vel tradito continentur...” (Deve ser crido com fé divina e católica tudo o que está contido na palavra de Deus escrita ou transmitida). Aqui, a palavra “transmitida” significa a Revelação sob forma oral, na medida em que ela não faz parte da Sagrada Escritura.
A palavra Tradição se entende também como sendo todo o Magistério infalível da Igreja, isto é, todos os dogmas ensinados pela Igreja. A Tradição possui uma anterioridade sobre a Escritura, porque a Santa Igreja foi constituída por Nosso Senhor antes que qualquer livro, Evangelho ou epístola, fosse escrito.
Vejamos agora o que dizem os modernistas. Para eles a Tradição é a “comunicação feita a outros de alguma experiência original, através da pregação e por meio de uma fórmula intelectual”. Que valor, que virtude atribuem eles a essa fórmula intelectual? “A essa fórmula intelectual, além da sua virtude representativa, como eles dizem, eles atribuem ainda uma virtude sugestiva”. Qual o papel dessa virtude sugestiva? Seu papel “se exerce sobre o fiel, para despertar nele o sentimento religioso, adormecido talvez, ou ainda para ajudá-lo a renovar as experiências já feitas ou para gerar nos descrentes o sentimento religioso e conduzi-los às experiências que se deseja para eles”.
“É assim, dizem eles, que a experiência religiosa vai se propagando através dos povos e não somente entre os contemporâneos, pela pregação propriamente dita, mas também de geração em geração, por escrito ou pela transmissão oral”. “A verdade de uma tradição seria, então, medida pela sua sobrevivência, de tal modo que se ela for viva ela é verdadeira, se ela se perder ou diminuir, ela é falsa ou menos verdadeira ou era verdadeira e não é mais”, podemos concluir:
Um neomodernista antes do Concílio dizia: “Toda teologia que não é atual é falsa”. Eis aí uma doutrina puramente modernista. Daí a importância dada pelos modernistas à expressão “Tradição viva”. Aliás, os modernistas têm sempre a palavra vida e seus derivados nos lábios. Tradição viva, magistério vivo, Rede Vida, imanência vital. Algumas dessas expressões podem ter um significado correto, pois não se pode excluir a palavra vida do vocabulário, mas é de se notar que são expressões caras aos modernistas e que, para eles, têm um significado especial. Para o modernista, tudo o que tem vida é verdadeiro. Por isso, todas as religiões existentes, ou seja, vivas, são verdadeiras.
Vejamos agora as relações entre a Fé e a ciência. Antes de mais nada, lembremos que ao condenar o agnosticismo, São Pio X lembra que é de Fé definida que a razão humana pode provar a existência de Deus a partir das criaturas. Este dogma foi definido pelo Concílio Vaticano I. Ora, para os modernistas não há nada em comum entre a Fé e a ciência. Deus não pode ser conhecido pela razão de modo algum. “O objeto da Fé é justamente o que a ciência declara ser ‘incognoscível’. Daí dois campos inteiramente distintos: a ciência se ocupa dos fenômenos e a Fé não tem nada a dizer em relação a eles. Por sua vez, a Fé se ocupa do que é divino e a ciência não tem nada o que dizer a respeito”. Logo, não pode haver conflito entre a ciência e a Fé, já que cada uma tem objetos inteiramente distintos. Como elas nunca se encontram, elas podem discordar entre si.
Mas se nós objetarmos que há realidades visíveis, que são objetos tanto da ciência como da Fé? Por exemplo, a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que respondem os modernistas? Eles dizem que foi a Fé que transfigurou a vida de Nosso Senhor e, assim, a Fé subtraiu a vida de Nosso Senhor do alcance da ciência, transportando-a ao nível do divino, que está acima da realidade sensível. Mas se nós perguntarmos: E os milagres e as profecias? Nosso Senhor não fez milagres e não profetizou vários acontecimentos? Não, responde a ciência agnóstica. Sim, responde a Fé modernista. Eis aí a doutrina deles.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Uma análise de alguns pontos da Encíclica Pascendi (I)

“São Pio X, ao terminar a primeira parte de sua magistral encíclica Pascendi, escreve que no caminho que conduz ao aniquilamento de toda religião os protestantes deram o primeiro passo, os modernistas o segundo e o próximo será o do completo ateísmo.
Vamos pois começar estudando este primeiro passo que foi dado pelos protestantes, isto é, por Lutero e todos aqueles que sofreram sua influência. Em seguida, examinaremos o segundo passo que é o modernismo, suas causas e seu conteúdo doutrinal. Para terminar examinaremos brevemente o modernismo nas reformas do Concílio Vaticano II.
I. Lutero e seus discípulos
Revoltando-se contra a autoridade doutrinal da Igreja, Lutero vai fazer da liberdade individual o árbitro supremo em matéria religiosa. Com o seu “livre exame”, Lutero abriu o caminho, como diz Leão XIII, às variações infinitas, às dúvidas e às negações a respeito das mais graves questões.
Ele não só ataca a Igreja, mas também a própria razão.
“A razão, dizia ele, é diretamente oposta à Fé [...] Entre os fiéis ela devia ser exterminada e enterrada (...) ela é a prostituta do demônio. Ela só pode blasfemar e desonrar tudo o que Deus fez ou disse.”
Lutero, antecipando-se aos modernistas e aos neomodernistas, vai atacar o método escolástico, que faz toda a solidez da teologia católica.
“É impossível reformar a Igreja”, diz ele, “se a teologia escolástica e a filosofia não são inteiramente desenraizadas, assim como o Direito Canônico”. E ainda: “A lógica não tem nenhuma utilidade em teologia, pois o Cristo não tem necessidade das invenções humanas”.
Este tesouro da Igreja que é a teologia e a filosofia escolásticas será sempre combatido pelos inimigos da Igreja. Descartes (1596-1650), filósofo francês, embora sendo católico, vai igualmente desprezar a escolástica e dar início à filosofia moderna, também chamada de filosofia separada. Após Descartes virá Kant, protestante, que marcará a filosofia com o seu sistema. Kant (1724-1804) é um dos pais do idealismo. Vamos tentar resumir o seu sistema.
Para Kant, nós só podemos conhecer as aparências das coisas, ou seja, a realidade acessível aos sentidos, os fenômenos, como ele diz. Para Kant, a única ciência verdadeira é a Física. A Física não atinge a essência das coisas, mas só o que está ao alcance dos sentidos.
A essência das coisas, para Kant, é incognoscível. Eis porque, para Kant, a filosofia não é uma ciência e nós não podemos conhecer nem a Deus, nem a alma, nem mesmo a Revelação ou qualquer intervenção de Deus na vida dos homens.
No entanto, Kant vai, através da moral, afirmar a existência de Deus, da alma, do Céu, etc. “Eu destruí a razão para dar lugar à Fé”, diz ele. Mas fazendo isso Kant tira todo fundamento à Fé. Para Kant a existência de Deus é uma verdade prática. Deve-se dizer que Deus existe porque é útil afirmar a sua existência, embora não se possa prová-la. Sua existência é útil e mesmo necessária à moral. Eis o único fundamento para afirmar a sua existência.
Assim, Kant vai separar as verdades em dois grupos: as verdades científicas, que são as da Física, e as verdades morais, que não são científicas. Deus, os milagres, a revelação, nada disso pode ser conhecido com certeza, nada disso é objeto de ciência. É, na verdade, o que pensam a maioria de nossos contemporâneos, sob a influência dessas doutrinas.
O sistema de Kant é bastante complexo. Vamos reter sobretudo o seu agnosticismo, isto é, a doutrina que nega que nós possamos conhecer a essência das coisas, ou seja, que só podemos conhecer as aparências sensíveis. Nós veremos esse agnosticismo presente no sistema dos modernistas.
Ao mesmo tempo que Kant professa o agnosticismo, ele ensina o imanentismo, isto é, nós encontramos a verdade dentro de nós mesmos, como se ela fosse fabricação nossa e não adequação de nossa inteligência com a realidade.
Agnosticismo e imanentismo serão os dois fundamentos do modernismo.
Após essa brevíssima incursão na filosofia de Kant, vejamos dois autores protestantes que podemos chamar de precursores do modernismo: Ernest Daniel Schleiermacher (1768- 1834) e David Friedrich Strauss (1808-1874).
Como Kant, Schleiermacher dirá que a religião não tem nenhum fundamento racional. Os milagres, o pecado original, a divindade de Nosso Senhor, nada disso tem fundamento. Avançando por este caminho, ele dirá que pouco importa saber se Nosso Senhor é Deus ou não, pois a religião é um sentimento, um puro sentimento.
“Você crê que outrora, há dezenove séculos, algo aconteceu fora de você e para você. Nós, ao contrário, cremos que algo se passa em nós; temos nossa fé em Cristo. Por que você quer saber o que é o Cristo em si mesmo, o que é a Revelação em si mesma, e o que é o milagre em si mesmo? Esses juízos não têm nenhum interesse para a alma religiosa.”
Para Schleiermacher, o valor de um dogma, o valor da religião está na sua utilidade prática. O resto não tem nenhuma importância. Desta forma, sonhava ele reunir todas as confissões protestantes, reunindo-as na religião do sentimento, numa religião sem dogma, sem doutrina, sem nenhum conteúdo intelectual.
Schleiermacher fala de sentimento, de experiência emotiva e piedosa, a Bíblia mesma é só uma coleção de experiências religiosas que devem provocar em nós outras experiências.
Para ele, o dogma tem um papel puramente simbólico para exprimir muito imperfeitamente as diferentes experiências religiosas. O dogma não deve separar os homens, pois o importante é a experiência, o sentimento religioso. Sobre esta base pode-se fundar um ecumenismo tal como desejam os progressistas mais exaltados.
Após Schleiermacher, vejamos Strauss.
Strauss, assim como o seu mestre Ferdinand Christian Baur (1792-1860), vai se interessar pelo estudo das Sagradas Escrituras e, seguindo a teoria de Kant sobre a verdade prática e a verdade científica, ele vai opor o Jesus da história ao Jesus dos Evangelhos. Ele escreverá uma vida de Jesus na qual ele tenta explicar todos os milagres como sendo o fruto da imaginação das primeiras comunidades cristãs. Haverá, então, duas histórias de Jesus. Uma verdadeira, sem milagres, e outra, mística, com milagres.
II. O modernismo nos meios católicos
Praticamente todas as teses modernistas já haviam sido professadas pelos protestantes. Nos meios católicos, alguns sacerdotes foram tomados pelo desejo de não ficar atrás daquilo que lhes parecia ser um avanço científico dos protestantes alemães. Alguns desses sacerdotes mal formados e desdenhosos da escolástica se lançaram na leitura dos protestantes e dos filósofos modernos e adotaram em grande parte as suas teses.
É de todo esse conjunto de falsa ciência, de curiosidade malsã e de orgulho que vai nascer o modernismo.
Na França, o principal expoente do modernismo será o sacerdote Alfredo Loisy (1857-1940). E vários outros autores na França como na Inglaterra e na Itália vão se embrenhar pelo mesmo caminho. Em fevereiro de 1903, é condenado por Leão XIII um primeiro livro de Loisy. Em seguida, o Santo Ofício põe no Índex (lista dos livros proibidos) diversos livros do mesmo autor. Em 1907 São Pio X condena 65 proposições modernistas no documento Lamentabili. No mesmo ano, no dia 8 de setembro, é publicada a grande encíclica Pascendi.
III. Pascendi
A encíclica está dividida em três partes principais:
1. A doutrina modernista
2. A causa do modernismo
3. Os remédios contra o modernismo
Veremos breve e incompletamente as duas primeiras partes da encíclica, mas pensamos que será o suficiente para expor o essencial desta magnífica encíclica, que merece ser lida integralmente e estudada com maior profundidade do que podemos fazer neste breve artigo. Para indicar melhor o nexo do que acabamos de ver com a própria encíclica Pascendi, vamos começar pelas causas do modernismo, isto é, pela segunda parte.
A respeito da origem do modernismo, São Pio X indica três causas: duas morais e uma intelectual. As causas morais são: a curiosidade e o orgulho; e a intelectual é a ignorância.
a) A curiosidade, como diz São Pio X, se ela não é sabiamente regrada, basta para explicar todos os erros. A curiosidade é a mesma coisa que o espírito de novidade. Foi esse espírito de novidade que levou e continua a levar tantos católicos a ler os autores protestantes assim como os autores modernistas e os filósofos modernos (Kant, Hegel, Nietzsche, Bergson, Heidegger, Sartre, Teilhard de Chardin, Rahner, De Lubac, Congar, etc) e, desta forma, acabaram virando modernistas e perdendo a Fé. É o que se passa nos seminários progressistas.
b) A segunda causa, que é a mais importante, é o orgulho: “Em verdade, diz São Pio X, nenhum caminho leva mais diretamente e mais depressa ao modernismo do que o orgulho”.
“Que nos dêem um leigo católico, que nos dêem um padre, diz São Pio X, que tendo perdido de vista o princípio fundamental da vida cristã, a saber, que nós devemos renunciar a nós mesmos se quisermos seguir Jesus Cristo, e que não tenha arrancado o orgulho de seu coração: este leigo, este padre está maduro para todos os erros do modernismo.”
Quanto à ignorância, São Pio X diz:
“Sim, estes modernistas que se apresentam como doutores da Igreja, que elevam até as nuvens a filosofia moderna e que olham com tanto desprezo a escolástica, eles abraçaram esta filosofia moderna enredados pelas suas aparências enganadoras porque, ignorando a escolástica, lhes faltou o instrumento necessário para discernir os erros e dissipar os sofismas.”
E São Pio X conclui:
“Sim, é da aliança entre a falsa filosofia e a Fé que nasceu, repleto de erros, o sistema dos modernistas.”
Passando depois às causas, não mais da origem, mas da propagação do modernismo, São Pio X indica os ataques feitos contra a escolástica, contra a Tradição, contra a autoridade dos Padres da Igreja e contra o Magistério.
Mas é tempo de vermos a doutrina modernista, exposta e condenada pela Pascendi. Trata-se, como já vimos, da 1ª parte da encíclica. Esta parte está dividida em sete itens, que são como sete capítulos, nos quais vem exposta toda a doutrina modernista. Estes capítulos são os seguintes:
1. O filósofo modernista
2. O fiel modernista
3. O teólogo modernista
4. O historiador modernista
5. O crítico (exegeta) modernista
6. O apologeta modernista
7. O reformador modernista
Nós veremos apenas o 1º, o 2º e o 7º capítulo, ou seja: o filósofo modernista, o fiel modernista e o reformador modernista.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)