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sexta-feira, 1 de março de 2013

Três aspectos perturbadores da renúncia de Bento XVI

“Entre outras preocupações, existem três aspectos perturbadores da renúncia de Bento XVI.
1) Ela contradiz o aspecto de paternidade que é a natureza do cargo. Nos anos 80, os bispos dos Ritos Orientais não ficaram felizes quando o Vaticano os forçou a adotarem a aposentadoria compulsória aos 75 anos. Como um deles me explicou, “um pai de família não se aposenta”.
2) Ela se parece com o afastamento para se aposentar de um diretor executivo de uma empresa, dando a impressão de que mais uma característica secular foi adotada pela Igreja.
3) Ela abre a porta ao abuso. Mesmo que acreditemos nas palavras de Bento XVI de que ele renuncia por acreditar realmente que não tem mais forças para continuar, o precedente foi estabelecido para que um bom Papa seja pressionado a se aposentar sob o pretexto de saúde precária.
A Preocupação de de Mattei
Parece claro que o Papa Bento já estava pensando em se aposentar faz algum tempo. Em 29 de abril de 2009, ele parou para visitar o túmulo do Papa São Celestino V, o Papa que abdicou do cargo em 1296. Bento orou junto ao túmulo e deixou seu palium, símbolo de sua autoridade como Bispo de Roma, sobre o túmulo de Celestino. Em 4 de julho de 2010, ele visitou a Catedral de Sulmona, perto de Roma, e orou diante das relíquias de Celestino V.
A página de Chiesa na internet relata que o historiador da Igreja Roberto de Mattei expressa seu profundo incômodo com a renúncia de Bento XVI. Embora aceite sua “legalidade”, de Mattei ressalta que de um ponto de vista histórico a renúncia do Papa Bento “parece estar em absoluta descontinuidade com a tradição e a práxis da Igreja”.
“Não se pode comparar nem com Celestino V, que desistiu depois de ser arrastado para longe de sua cela de eremita à força, nem com Gregório XII, que foi forçado a renunciar a fim de resolver a questão gravíssima do Grande Cisma do Ocidente. Esses foram casos excepcionais. Mas qual é a exceção no ato de Bento XVI? A razão oficial, gravada em suas palavras de 11 de fevereiro, expressa, mais do que a exceção, a regra.”
É a “regra” que coincidiria simplesmente com “vigor tanto de corpo, como de alma”. Mas então “surge a pergunta”:
“Por mais de dois mil anos de história, quantos Papas reinaram em boa saúde e não testemunharam o declínio de suas faculdades e não sofreram de doenças e provações morais de todo tipo? O bem-estar físico jamais foi um critério de governança da Igreja. Tornar-se-á a partir de Bento XVI?”
Se tal for o caso, escreve de Mattei, o ato de Bento XVI causa um impacto “não apenas inovador, mas revolucionário”.
“A imagem da instituição pontifícia, aos olhos da opinião pública no mundo inteiro, seria de fato despida de sua sacralidade para ser entregue aos critérios de julgamento da modernidade.”
De Mattei ressalta que isso atingiria o objetivo repetidamente proposto por Hans Küng e outros teólogos progressistas: o de reduzir o Papa a “presidente de um conselho de administração, a um papel apenas arbitral, acompanhado de um sínodo permanente de bispos com poderes deliberativos.””
(John Vennari, Three Troubling Aspects of Benedict's Resignation)

domingo, 9 de setembro de 2012

John Vennari mostra o modernismo de Bento XVI



http://stdominic3order.blogspot.com.br/2012/08/quem-e-bento-xvi.html

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A hermenêutica da continuidade

“A expressão “hermenêutica da continuidade” entrou em voga com a ascensão do Papa Bento XVI.
Em 22 de dezembro de 2005, em discurso à Cúria Romana, o Papa Bento XVI apresentou o que seria o programa de seu pontificado. A norma é que um Papa o faça em sua primeira encíclica, mas comentaristas especializados da época observaram que o Papa Bento tinha provavelmente definido o programa de seu pontificado nesse discurso de 22 de dezembro e não em sua primeira encíclica.
Nesse discurso, restava claro que o princípio essencial que seria o programa de seu pontificado era o Concílio Vaticano Segundo.
No entanto, diz o Papa, há um problema com o Concílio. Ele lamenta que muitos na Igreja busquem entender o Concílio através de uma “hermenêutica da ruptura” e uma “hermenêutica da descontinuidade” com o passado. (“Hermenêutica” basicamente significa “interpretação”. Ou seja, o que o Papa Bento diz é que muitos católicos têm interpretado o Concílio em ruptura com o passado.)
A maneira correta de abordagem ao Concílio, ele insiste, é por meio de uma “hermenêutica da continuidade”. Sua afirmação básica – e que tem sido sua desde quando era cardeal – é que o Vaticano II não constituiu uma ruptura com a Tradição, mas um desenvolvimento legítimo desta. Encontraremos esse desenvolvimento legítimo se abordarmos o Concílio por meio de uma hermenêutica – uma interpretação – de continuidade.
Deu-se a impressão em muitos de que o Papa Bento XVI planejava uma restauração da Tradição na Igreja.
Mas tal não é o caso. Sim, o Papa Bento publicou o motu proprio libertando a Missa Tridentina. Foi uma questão de justiça pela qual ele merece crédito e é algo que esperávamos que fosse fazer, baseados no que costumava dizer como cardeal.
Mas a hermenêutica da continuidade não sinaliza um retorno à Tradição. Pelo contrário, ela é mais uma tentativa, antes de mais nada, de salvar o Vaticano II.
O Vaticano II ainda é seu princípio essencial. A abordagem da chamada “hermenêutica da continuidade” somente irá nos proporcionar uma nova síntese entre a Tradição e o Vaticano II – uma síntese entre a Tradição e o Modernismo – que não é uma síntese legítima.
Nova Abordagem
Inicialmente eu queria somente chamar a atenção para um aspecto que nos mostra, desde o princípio, que a abordagem da “hermenêutica da continuidade” não sinaliza uma verdadeira restauração da Tradição. Trata-se do próprio termo. O Papa Bento não emprega a terminologia tradicional para a preservação da Tradição, mas inventou efetivamente um novo termo: “hermenêutica da continuidade”.
Isso se dá porque sua abordagem à Tradição está em desacordo com o que a Igreja ensinou por 2.000 anos.
Por exemplo, o Papa Bento XVI nunca diz que a resposta à crise na Igreja é o retorno ao conselho do Papa Ágato, que disse: “nada se deve tirar daquelas coisas que foram definidas, nada mudar, nada acrescentar, mas deve-se conservá-las puras, quanto à palavra e ao conteúdo”.
O Papa Bento nunca diz que a resposta ao caos eclesiástico de nossos dias é o retorno à fórmula contida no Juramento Antimodernista, de que o católico é obrigado a “... acolher sinceramente a doutrina da fé transmitida a nós pelos apóstolos através dos padres ortodoxos, sempre com o mesmo sentido e igual conteúdo (eodem sensu eademque sententia). Portanto, rejeito totalmente a fantasiosa heresia da evolução dos dogmas de um significado a outro, diferente daquele que a Igreja professava primeiro.
Ele não pode usar uma tal terminologia porque ela entra em conflito com os novos ensinamentos do Vaticano II, com os novos ensinamentos sobre liberdade religiosa e ecumenismo. Esses novos ensinamentos são claramente “diferentes do que a Igreja professava primeiro.
Quando o Papa São Pio X lutava para manter a verdade católica e a Tradição, ele não aparecia com suas próprias frases originais no Juramento Antimodernista. A terminologia que empregou é a terminologia antiga da Igreja, encontrada nas obras dos padres e consagrada nas definições dogmáticas infalíveis em que um católico deve acreditar para sua salvação.
Já no século IV, São Vicente de Lérins explicava o que constituía o desenvolvimento correto da doutrina católica:
“Talvez alguém diga: Então nenhum progresso da religião é possível na Igreja de Cristo? Certamente que deve haver progresso, e grandíssimo!... Mas contanto que seja realmente um progresso e não uma modificação. Cresçam, pois, e multipliquem-se abundantemente, tanto em cada um como em todos, tanto no homem individual como na Igreja, segundo o progresso das idades e dos séculos, a inteligência, a ciência e a sabedoria, mas somente no seu gênero, isto é, na mesma doutrina, no mesmo sentido e no mesmo pensamento.”
O ensinamento de São Vicente de Lérins sobre a Tradição foi dogmática e infalivelmente consagrado no Vaticano I. Isso demonstra que exatamente o mesmo ensinamento sobre a Tradição foi mantido na Igreja por mais de 1.400 anos. O Vaticano I ensina na Constituição Dogmática Dei Filius:
“Daí segue que sempre se deve ter por verdadeiro sentido (sensus) dos dogmas aquele que a Santa Madre Igreja uma vez tenha declarado, não sendo jamais permitido, nem a título de uma inteligência mais elevada, afastar-se desse sentido.”
A Dei Filius do Vaticano I prossegue dizendo que qualquer desenvolvimento autêntico no entendimento da doutrina “deve progredir em sua própria categoria, no mesmo dogma, com o mesmo significado e a mesma explicação.” Essa é basicamente a mesma redação de São Vicente de Lérins, inalterada após mais de 1.400 anos.
E essa, como já dito, foi a redação empregada pelo Papa São Pio X em seu Juramento Antimodernista, no qual aquele que presta juramento jura diante de Deus “sinceramente acolher a doutrina de fé transmitida a nós pelos apóstolos através dos padres ortodoxos, sempre com o mesmo sentido e igual conteúdo (eodem sensu eademque sententia).”
O Papa Bento XVI nunca usa uma tal terminologia. Mesmo quando ainda era o Cardeal Ratzinger, ele jamais empregava essa terminologia. Permanece o triste fato de que o Papa Bento XVI e a maior parte de nossos líderes modernos da Igreja não podem sequer usar a terminologia tradicional quando afirmam que estão tentando manter a Tradição, mas aparecem com novas frases: “integração recíproca” e “hermenêutica da continuidade”.
O emprego dessa nova frase, junto com seu óbvio compromisso com os aspectos novos do Vaticano II, como o ecumenismo e a liberdade religiosa, diz-nos que, por mais que desejemos o contrário, o Papa Bento XVI não é um Papa da Tradição. Ele vai continuar com as novas políticas do Vaticano II, talvez não da forma agressiva de seu predecessor imediato. Ele talvez seja um pouco mais sutil e refinado e um pouco mais tradicional na aparência. O Papa Bento tentará até impor mais disciplina em certas áreas, especialmente em relação à liturgia, do que jamais fez João Paulo II.
Mas no fim das contas – no que se refere à doutrina – ainda será a nova orientação do Vaticano II que prevalecerá. Aquilo em que somos obrigados no Vaticano I e no Juramento Antimodernista a crer, a fé católica “com o mesmo sentido e a mesma explicação”, como a Igreja sempre ensinou, não será mencionado ou ratificado.
Desta forma, não importa quantas vezes ouvirmos o termo “hermenêutica da continuidade”, não importa quantas vezes nos disserem que o Vaticano II não constitui uma ruptura: o fato permanece de que a nova abordagem do Vaticano II ao que se chama de ecumenismo e liberdade religiosa – e, por extensão, a abordagem do Papa Bento XVI ao que se chama de ecumenismo e liberdade religiosa – está em desacordo com o Magistério tradicional dos séculos. Aqui não encontramos continuidade, mas ruptura.
Assim, e digo-o com todo o respeito, eu não me entusiasmarei com nenhuma notícia de que o Papa Bento XVI deseja um verdadeiro retorno à Tradição, até que ouçamo-lo exigir um retorno à fé católica “com o mesmo sentido e a mesma explicação” do que a Igreja sempre ensinou.”
(John Vennari, The Oath Against Modernism vs. the "Hermeneutic of Continuity”)