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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Da seita neomodernista que ocupa a Igreja Católica


“Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II e da reação do movimento tradicionalista na subsequente crise da Igreja, podem-se distinguir três tendências divergentes sobre a relação a ter entre a Igreja Católica e a Igreja oficial. Quer dizer, entre o corpo místico de Nosso Senhor Jesus Cristo e os clérigos e fiéis unidos à hierarquia e às reformas pós-conciliares.
Para uns, são duas igrejas substancialmente distintas, absolutamente separadas, e não se pode pertencer às duas ao mesmo tempo. Estas duas igrejas têm uma fé diferente, ritos diferentes, uma legislação diferente. A lógica os leva também a já não rezar publicamente pelo papa atualmente reinante, porque ele é papa de outra Igreja, que não é – ou já não é – católica.
Para outros, ao contrário, a Igreja oficial, hierárquica, romana, conciliar não é uma Igreja à parte, mas sim a Igreja Católica real, una, a verdadeira, a visível, a Igreja de hoje, e é inadmissível fazer uma distinção real entre a Igreja conciliar, oficial, e a Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo. A lógica levará também a procurar a pertença oficial, visivelmente, canonicamente, a esta hierarquia, para bem assegurar a pertença à única Igreja, católica e apostólica.
Estas duas concepções, durante já cerca de meio século de debates entre tradicionalistas, dividiu-os e levou-os a formar duas pontas extremas, conhecidas comumente por “sedevacantistas” e “acordistas”. Nossa análise pode parecer sumária, mas a experiência o tem provado: quando um tradicionalista, clérigo ou leigo, já não faz a distinção entre a Igreja oficial e a Igreja católica, ele acaba um dia ou outro se colocando a serviço da primeira, e assim abandona o combate da fé exigido pela segunda nestes tempos de clara e geral apostasia.
Na verdade, o problema é mal colocado, e permanece um dilema entre dois termos de uma alternativa. Pois há uma distinção a fazer entre a Igreja oficial e a Igreja Católica, e ela foi feita por todos os nossos antigos combatentes da fé depois do concílio. Basta que refresquemos a memória e nos lembremos de fórmulas bem conhecidas: “A Igreja ocupada”, “Roma ocupada”.
A Igreja conciliar e neomodernista não é portanto nem uma Igreja substancialmente diferente da Igreja Católica nem absolutamente idêntica; ela tem misteriosamente algo de um e de outra: é um corpo estranho que ocupa a Igreja Católica. É preciso distingui-las sem separá-las.
Precisemos bem: um “corpo”, e não uma “doença”, uma “tendência”, um “espírito”, uma “concepção falsa” como se procura demonstrar no DICI n° 273, recusando em princípio considerar a Igreja conciliar como uma “sociedade distinta de outra” (p. 8). Esta negação poderia, rigorosamente, ser admitida no sentido definido acima, de uma sociedade absolutamente, substancialmente diferente da Igreja Católica. Mas ela nos parece perigosa, em seu sentido óbvio, e, em todo caso, contrária à doutrina de São Pio X, que qualifica os modernistas de associação secreta (cladestinum foedus; Motu próprio de 1 de setembro de 1910) que se oculta no seio mesmo e no coração da Igreja (sinu gremioque Ecclesiae; Pascendi, 1907).
O que o magistério ensina originalmente como modernismo, nossos antigos o chamaram em termos enérgicos de sujeito do neomodernismo, qualificando suas hierarquias de “seita”; e não se vê em que o princípio tenha mudado hoje em dia... Que se nos permita, mesmo se este debate desagrade hoje em dia a alguns na Tradição, trazer à memória algumas citações lapidares:
Dom Lefebvre: Isso é uma seita que se apossou de Roma, se apossou da alavanca de comando da Igreja” (Conferência em Flavigny, dezembro 1988, Fideliter n° 68, p. 10).
Padre Tissier de Mallerais: “[...] nas circunstâncias de uma Igreja ocupada pela seita progressista [...]” (Fideliter n° 53, p. 38, set-out 1986).
Padre Calmel: “[…] organizações ocultas de uma falsa Igreja, de uma Igreja aparente” (Itinéraires n° 123, p. 174, maio 1968); “Igreja aparente no seio mesmo da Igreja verdadeira” [...]” (Itinéraires n° 106, p. 178, set. 1966).
Padre Marcille: “[...] a seita no poder na Igreja [...] a seita conciliar a favor do poder que ela ocupa [...]” (Fideliter n° 96, pp. 67 e 71, nov-dez 1993).
Marcel de Corte: “É a parte que se erige para tudo, a seita que se erige na Igreja una, santa, católica, apostólica e romana. Por um instante, a parte permanece no todo que ela corrompe pouco a pouco” (Itinéraires n° 131, p. 266, março de 1969).
Jean Madiran: “[...] a seita campeada na Igreja [...]” (Itinéraires n° 137, p. 28, nov. 1969).
Henri Rambaud: “[...] a seita, pequena pelo nome em relação ao resto do rebanho, mas instalada nos postos de comando [...]” (Itinéraires n° 143, p. 111, maio 1970).
Resumindo com o Padre Berto: Jacques Maritain, em 1966, falou de “febre” neomodernista. Mas ele esquece que [se trata de] neomodernistas que jamais se admitirão tais, que permanecerão a todo custo no interior da Igreja, para “fazer crescer de dentro uma mutação substancial que não deixará da Igreja senão o nome [...]; eles constituem na Igreja uma associação secreta de assassinos da Igreja” (Itinéraires n° 112, p. 69, abril 1967).
Em 1964, em pleno concílio, Jean Madiran escreveu um artigo especial intitulado “A sociedade secreta do modernismo”, em Itinéraires. Cinqüenta anos depois, seu diagnóstico permanece ainda válido:
"Uma sociedade secreta, que consegue sobreviver quando é combatida, não vai conseguir prosperar quando já não for combatida? Depois da morte de São Pio X, ocupam-se de outra coisa, incluindo o modernismo doutrinal, jurídico, social, mas já não se ocupam da sociedade secreta instalada no seio da Igreja. A consequência de tal abstenção é que a sociedade secreta reforçou sua instalação, multiplicou seus progressos, desenvolveu seu poder; que é poder oculto e se torna muito maior; que ela foi muito mais forte para colocar à frente seus adeptos, para liquidar seus adversários, e para prevenir que se fale dela: impor um silêncio público a respeito dela mesma é o objetivo de todas as sociedades secretas." (Itinéraires n° 82, abril 1964, p. 100.)
Reduzir a Igreja conciliar e neomodernista a um conceito, uma tendência, um espírito, recusando-lhe o status de seita, de sociedade, de associação (Ecclesia=assembléia em grego), em que ela deve necessariamente se encarnar, e para qual de fato ela se move concreta e eficazmente, é ignorar os ensinamentos de São Pio X e de nossos antepassados na Tradição. Isso não é somente um erro teórico, mas também, em suas consequências práticas, uma predisposição de espírito a identificar pura e simplesmente a Igreja Católica, a que todos querem pertencer, e a hierarquia oficial e visível que a ocupa e a dirige depois de décadas, de que nós não fazemos (ainda) parte. Situação portanto “anormal”, que convém regularizar de uma maneira ou de outra.
Citemos algumas frases significativas de Dom Fellay: “O fato de ir a Roma não quer dizer que se esteja de acordo com eles. Mas é a Igreja. E é a verdadeira Igreja” (Sermão em Flavigny, em 2-9-2012, Nouvelles de Chrétiente, n° 137, p. 20.)
“A Igreja do Cristo está presente e move-se como tal, quer dizer, como única arca de salvação, somente lá onde está o vigário de Cristo” (Carta aos amigos e benfeitores de 13-04-2014).
“A Igreja oficial é a Igreja visível; é a Igreja Católica, e ponto final” (Sermão no Seminário de la Reja, 20-12-2014).
Compare-se com o que Dom Lefebvre disse a nossos padres reunidos em Écône, em 9 de setembro de 1988: “Nestes últimos tempos, disseram-nos que era necessário que a Tradição entrasse na Igreja visível. Eu penso que se comete nisso um erro gravíssimo, […] isso é enganar-se assimilando Igreja oficial e Igreja visível. Nós pertencemos à Igreja visível, à sociedade de fiéis submissos ao Papa, pois não recusamos a autoridade do papa, mas o que ele faz... Saímos, então, da Igreja oficial? De certa maneira sim, evidentemente. Todo o livro de M. Madiran A Heresia do Século XX é a história da heresia dos bispos, deve-se então sair do meio destes bispos, se não se quer perder sua alma” (Fideliter n° 66, nov.-dez.1988, pp. 27-28).
Concluímos: com são Pio X, guardemos sempre no espírito que os neomodernistas formam uma seita que não quer jamais deixar a Igreja Católica, que a subverte do interior, e que são seus piores inimigos, verdadeiros lobos revestidos de pele de ovelha.
Com Monsenhor Lefebvre, não nos juntemos aos “católicos que confundem a Igreja Católica e romana eterna com a Roma humana e suscetível de ser invadida pelos inimigos cobertos de púrpura” (Carta ao Figaro, de 02-08-1976).”
(Dominicanos de Avrillé, Revista “Le Sel de la Terre”, edição de inverno de 2015)

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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Pe. Paul Kramer sobre Fátima e o atual momento da Igreja

"Agora que aconteceu o que Malachi Martin previu a partir de seu conhecimento do 3º Segredo, "o colapso do centro" (i.e o colapso do centro do Cristianismo – o papado); a Maçonaria já está de posse do Vaticano sob o maçom Jorge Bergoglio, que é um herege manifesto e infiel (pois nega as verdades mais básicas sobre religião que pertencem à Lei Natural). O reinado de perfídia de Bergoglio foi previsto por São Francisco de Assis e Irmã Jeanne de la Nativité (Jeanne le Royer). Isto é apenas o começo dos horrores. A política ecumênica de Bergoglio de despojar o Catolicismo de seus ensinamentos doutrinais e morais segundo a agenda maçônica de criar um "Cristianismo sem dogmas" ecumênico (dogmenfreies Christentum) visa à destruição do Cristianismo. A isso se seguirá a Nova Religião, que será Pagã. Todas essas coisas estão descritas na profecia católica. A Igreja terá que descer às catacumbas. Haverá uma vacância da Sé Romana por 25 meses ou mais. Parecerá que a Igreja Católica desapareceu da face da terra. As palavras de Nossa Senhora a Melanie Calvat cumprir-se-ão, "Roma perderá a fé e se tornará a sede do Anticristo".
O bispo Cosme do Amaral exagerou usando a palavra "apenas", quando deveria ter usado a palavra "principalmente" quando disse que o Segredo tem a ver "apenas" com nossa fé. De fato, o Terceiro Segredo refere-se primeiramente à nossa fé: o ataque à nossa fé pelos que "governam os senhores do mundo", que tentarão impor a religião mundial única (sobre a qual São Pio X alertou em Notre charge apostolique); seqüestrando o papado e usando um papa falso para levar o mundo à apostasia da comunhão inter-religiosa (como representada nas visões de Anna Katharina Emmerich), que se fundará no Paganismo. O verdadeiro papa terá muito que sofrer, como Nossa Senhora revelou à Beata Elena Aiello e outros. O terceiro segredo fala especificamente de um "papa" que estará completamente sob o poder do diabo. Isso tem sido divulgado por múltiplas fontes. A mais notável delas foi o Pe. Malachi Martin, confidente do Cardeal Augustin Bea, que havia recebido o conteúdo do Segredo de Bea. Quando mencionei a Malachi que eu acreditava que o Segredo revelava que haveria um antipapa que seria um herege, Malachi me respondeu, "Ah, se fosse apenas isso!" Deste modo, o 3º Segredo não está exclusivamente focado na perda de fé apenas, mas fala de papas, guerra mundial, perseguição, etc (como alguns que leram o segredo divulgaram); e do governo mundial ímpio contra o qual Bento XV alertou em seu Motu Proprio Bonum Sane (25 de julho de 1920) e que será inaugurado após a derrota das potências da OTAN na Terceira Guerra Mundial.
Creio que o motivo pelo qual Ottaviani se opôs à publicação do Segredo de início foi devido às mesmas apreensões e reservas que Wojtyła & Ratzinger tiveram sobre o texto parecer minar o dogma da indefectibilidade da Igreja – daí, a relutância deles em publicar o Segredo. Contudo, quando Paulo VI começou a alterar radicalmente a liturgia da Missa, Ottaviani reviu seu posicionamento neste ponto, e contornou o juramento de sigilo com a revelação da assim chamada "versão diplomática" do 3º Segredo (que foi publicada em Neues Europa),e que divulga os principais pontos do Segredo, sem mencionar seus detalhes particulares.
Leão XIII não tinha tais apreensões doutrinais, ou preocupações sobre o seqüestro do papado minando o dogma da indefectibilidade. Ele o viu numa visão profética, e previu-o em uma oração que publicou na Raccolta (nº 407 se não me engano). O texto-chave da oração, que li nas versões originais latina e italiana, diz: "Os mais maliciosos inimigos têm enchido de amargura a Igreja, esposa do Cordeiro Imaculado, têm-lhe dado a beber absinto, têm posto suas mãos ímpias sobre tudo o que para Ela é mais sagrado. Onde foram estabelecidas a Sé do Beatíssimo Pedro e a Cátedra da Verdade como Luz para as Nações, eles têm erguido o Trono da Abominação e da Impiedade, de sorte que, ferido o Pastor, possa dispersar-se o rebanho.” Deste modo dar-se-á o cumprimento da escritura: Lamentações 4:12.
Como disse o Cardeal Ratzinger em 1984, "o que foi revelado no Segredo corresponde ao que tem sempre sido revelado em muitas outras aparições marianas" (citado de memória), e as aparições marianas mais comprovadamente autênticas e aprovadas revelam a terceira guerra mundial, a perseguição sangrenta à Igreja, e a falsa religião que os governentes ímpios impingirão ao mundo.
A consagração da Rússia transformará a Rússia no instrumento de Deus contra o império do mal e seu líder, cujo trono estará provavelmente localizado em Astana, Cazaquistão. No entanto, o movimento pela república universal com sua religião universal já está corporificado no Bergoglianismo, que é o motor especificamente planejado segundo a doutrina maçônica a fim de transformar politicamente o mundo, e espiritualmente transformar a Igreja de tal modo que os adapte e modifique para se encaixarem na Nova Ordem.
Notre charge apostolique poderia ter sido escrita hoje contra o Bergoglianismo com muito pouca modificação – de fato, com uma pequena modificação, poder-se-ia editá-la de tal maneira que pareceria ser diretamente contra os bergoglianistas. Cito completas as seções mais ominosas:
"35. Nous craignons qu’il n’y ait encore pire. Le résultat de cette promiscuité au travail, le bénéficiaire de cette action sociale cosmopolite ne peut être qu’une démocratie qui ne sera ni catholique, ni protestante, ni juive; une religion (car le sillonnisme, les chefs l’ont dit, est une religion) plus universelle que l’Église catholique, réunissant tous les hommes devenus enfin frères et camarades dans “le règne de Dieu”. – “On ne travaille pas pour l’Église, on travaille pour l’humanité.” (Tememos que ainda haja pior. O resultado desta promiscuidade em trabalho, o beneficiário desta ação social cosmopolita só poderá ser uma democracia, que não será nem católica, nem protestante, nem judaica; uma religião (porque o sillonismo, os chefes o afirmaram, é uma religião) mais universal do que a Igreja Católica, reunindo todos os homens tornados enfim irmãos e camaradas "no reino de Deus". – "Não se trabalha pela Igreja, trabalha-se pela humanidade".)
"36. Et maintenant, pénétré de la plus vive tristesse, Nous Nous demandons, vénérables Frères, ce qu’est devenu le catholicisme du Sillon. Hélas! lui qui donnait autrefois de si belles espérances, ce fleuve limpide et impétueux a été capté dans sa marche par les ennemis modernes de l’Église et ne forme plus dorénavant qu’un misérable affluent du grand mouvement d’apostasie organisé, dans tous les pays, pour l’établissement d’une Église universelle qui n’aura ni dogmes, ni hiérarchie, ni règle pour l’esprit, ni frein pour les passions et qui, sous prétexte de liberté et de dignité humaine, ramènerait dans le monde, si elle pouvait triompher, le règne légal de la ruse et de la force, et l’oppression des faibles, de ceux qui souffrent et qui travaillent." (E agora, penetrado da mais viva tristeza, perguntamo-Nos, Veneráveis Irmãos, aonde foi parar o catolicismo do Sillon. Ah! Ele, que dava outrora tão belas esperanças, esta torrente límpida e impetuosa foi captada em sua marcha pelos inimigos modernos da Igreja, e agora já não é mais do que um miserável afluente do grande movimento de apostasia organizada, em todos os países, para o estabelecimento de uma Igreja universal que não terá nem dogmas, nem hierarquia, nem regra para o espírito, nem freio para as paixões, e que, sob o pretexto de liberdade e de dignidade humana, restauraria no mundo, se pudesse triunfar, o reino legal da fraude e da violência, e a opressão dos fracos, daqueles que sofrem e que trabalham.)
(Fr. Paul Kramer, em postagem no Facebook de 21/05/2016)

quinta-feira, 7 de março de 2013

Um bispo vestido de branco

“Na parte do Terceiro Segredo revelada pelo Vaticano no ano de 2000, há uma visão do Santo Padre “atravessando uma grande cidade meio em ruínas”, que é depois “morto por um grupo de soldados que nele disparavam vários tiros de armas de fogo e flechas, e do mesmo modo morriam um atrás do outro os demais Bispos, Padres, religiosos e religiosas de várias classes e posições”. Antes, nessa mesma visão, a Irmã Lúcia também afirmou ter visto alguém que ela identificou como “um Bispo vestido de branco”. Curiosamente, ela não se referiu ao Bispo de branco como sendo o Santo Padre, mas disse apenas que “tivemos a impressão de que ele era o Santo Padre”.
Ao contrário do que se noticiou no Vaticano em 2000, a visão do Papa sendo morto muito obviamente não se refere à fracassada tentativa de assassinato de João Paulo II, que não foi “morto por um grupo de soldados que nele disparavam vários tiros de armas de fogo e flechas”, mas em vez disso sobreviveu ao disparo de um único atirador. Nem a fracassada tentativa de assassinato de João Paulo II viu outros “Bispos, Padres, religiosos e religiosas de várias classes e posições” sendo mortos pelo mesmo “grupo de soldados”. É óbvio que a visão estava se referindo a outro evento.
Mas a questão que tem intrigado muitos é por que a Irmã Lúcia usou o termo “Bispo vestido de branco” na primeira parte da visão, ao invés do nome “Santo Padre”, a quem ela depois identificou como sendo assassinado. Refere-se essa visão a dois homens diferentes, um que é o Papa e outro que está apenas vestido como um papa? Profecias geralmente são obscuras até que se cumpram, mas eventos recentes podem lançar uma nova luz sobre essa estranha frase usada pela Irmã Lúcia.
Em 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI espantou o mundo ao anunciar que abdicaria de seu cargo como Papa em 28 de fevereiro de 2013. Essa notícia chocante colocou a mídia em polvorosa, não apenas com a reação dos católicos, mas também com muitas perguntas que o inesperado anúncio fez surgir. Por exemplo, um artigo da Reuters, datado de 13 de fevereiro, reportava que “autoridades da Igreja Católica, ainda atordoadas com a decisão, precisam decidir ainda qual será seu título e se ele vai continuar a usar o branco de um papa, o vermelho de um cardeal ou o preto de um sacerdote comum.”
Em 20 de fevereiro, uma dessas perguntas foi respondida pelo Pe. Georg Ratzinger, irmão do Papa Bento XVI, dizendo que o Pontífice continuará a usar branco após a abdicação. Dois dias depois, em 22 de fevereiro, o Vaticano respondeu outra pergunta quando noticiou que Bento XVI manterá seu nome papal: após a renúncia, o ex-Papa será chamado de Sua Santidade Bento XVI, Bispo Emérito de Roma.
Em 1º de março, não só Bento XVI será um ex-Papa que manteve seu nome papal, mas será também “um Bispo vestido de branco”. Será o futuro “Sua Santidade Bento XVI, Bispo Emérito de Roma”, o bispo vestido de branco a quem a Irmã Lúcia estava se referindo? Em caso afirmativo, é ele que é morto pelo grupo de soldados, como aparece na Visão? Ou estará a Visão talvez se referindo a um futuro papa – o que a Irmã Lúcia chama de “Santo Padre” - que estará reinando enquanto Bento XVI ainda estiver vivo?
É interessante notar que o Papa São Pio X teve duas visões que foram semelhantes à Visão de Fátima da Irmã Lúcia. Em 1909, durante uma audiência com membros da Ordem Franciscana, São Pio X teve uma visão de um futuro papa fugindo de Roma. Ele disse:
“O que vi é estarrecedor! Serei eu, ou será um meu sucessor? O certo é que o Papa deixará Roma e, ao sair do Vaticano, ele terá que passar sobre os cadáveres de seus sacerdotes!”
Pouco antes de morrer, o Papa São Pio X teve uma outra visão parecida, na qual ele viu um futuro papa de mesmo nome fugindo sobre os corpos de seus irmãos, antes de ser ele mesmo assassinado.
“Vi um dos meus sucessores, de mesmo nome, que estava fugindo sobre os corpos de seus irmãos. Ele terá refúgio em um esconderijo, mas, após um breve descanso, sofrerá uma morte cruel.”
À luz dessa visão, será muito interessante se o próximo papa escolher o nome de Pio XIII - “o mesmo nome” de Pio X. Só o tempo irá dizer como os eventos vão se desenrolar, mas o que parece certo é que estamos progredindo rapidamente para os eventos previstos em Fátima. Renovemos nossa coragem e zelo pela Fé, lembrando-nos sempre das palavras de Nossa Senhora de Fátima: No final, meu Imaculado Coração triunfará.”
(Robert J. Siscoe, A Bishop Dressed in White?)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A hermenêutica da continuidade

“A expressão “hermenêutica da continuidade” entrou em voga com a ascensão do Papa Bento XVI.
Em 22 de dezembro de 2005, em discurso à Cúria Romana, o Papa Bento XVI apresentou o que seria o programa de seu pontificado. A norma é que um Papa o faça em sua primeira encíclica, mas comentaristas especializados da época observaram que o Papa Bento tinha provavelmente definido o programa de seu pontificado nesse discurso de 22 de dezembro e não em sua primeira encíclica.
Nesse discurso, restava claro que o princípio essencial que seria o programa de seu pontificado era o Concílio Vaticano Segundo.
No entanto, diz o Papa, há um problema com o Concílio. Ele lamenta que muitos na Igreja busquem entender o Concílio através de uma “hermenêutica da ruptura” e uma “hermenêutica da descontinuidade” com o passado. (“Hermenêutica” basicamente significa “interpretação”. Ou seja, o que o Papa Bento diz é que muitos católicos têm interpretado o Concílio em ruptura com o passado.)
A maneira correta de abordagem ao Concílio, ele insiste, é por meio de uma “hermenêutica da continuidade”. Sua afirmação básica – e que tem sido sua desde quando era cardeal – é que o Vaticano II não constituiu uma ruptura com a Tradição, mas um desenvolvimento legítimo desta. Encontraremos esse desenvolvimento legítimo se abordarmos o Concílio por meio de uma hermenêutica – uma interpretação – de continuidade.
Deu-se a impressão em muitos de que o Papa Bento XVI planejava uma restauração da Tradição na Igreja.
Mas tal não é o caso. Sim, o Papa Bento publicou o motu proprio libertando a Missa Tridentina. Foi uma questão de justiça pela qual ele merece crédito e é algo que esperávamos que fosse fazer, baseados no que costumava dizer como cardeal.
Mas a hermenêutica da continuidade não sinaliza um retorno à Tradição. Pelo contrário, ela é mais uma tentativa, antes de mais nada, de salvar o Vaticano II.
O Vaticano II ainda é seu princípio essencial. A abordagem da chamada “hermenêutica da continuidade” somente irá nos proporcionar uma nova síntese entre a Tradição e o Vaticano II – uma síntese entre a Tradição e o Modernismo – que não é uma síntese legítima.
Nova Abordagem
Inicialmente eu queria somente chamar a atenção para um aspecto que nos mostra, desde o princípio, que a abordagem da “hermenêutica da continuidade” não sinaliza uma verdadeira restauração da Tradição. Trata-se do próprio termo. O Papa Bento não emprega a terminologia tradicional para a preservação da Tradição, mas inventou efetivamente um novo termo: “hermenêutica da continuidade”.
Isso se dá porque sua abordagem à Tradição está em desacordo com o que a Igreja ensinou por 2.000 anos.
Por exemplo, o Papa Bento XVI nunca diz que a resposta à crise na Igreja é o retorno ao conselho do Papa Ágato, que disse: “nada se deve tirar daquelas coisas que foram definidas, nada mudar, nada acrescentar, mas deve-se conservá-las puras, quanto à palavra e ao conteúdo”.
O Papa Bento nunca diz que a resposta ao caos eclesiástico de nossos dias é o retorno à fórmula contida no Juramento Antimodernista, de que o católico é obrigado a “... acolher sinceramente a doutrina da fé transmitida a nós pelos apóstolos através dos padres ortodoxos, sempre com o mesmo sentido e igual conteúdo (eodem sensu eademque sententia). Portanto, rejeito totalmente a fantasiosa heresia da evolução dos dogmas de um significado a outro, diferente daquele que a Igreja professava primeiro.
Ele não pode usar uma tal terminologia porque ela entra em conflito com os novos ensinamentos do Vaticano II, com os novos ensinamentos sobre liberdade religiosa e ecumenismo. Esses novos ensinamentos são claramente “diferentes do que a Igreja professava primeiro.
Quando o Papa São Pio X lutava para manter a verdade católica e a Tradição, ele não aparecia com suas próprias frases originais no Juramento Antimodernista. A terminologia que empregou é a terminologia antiga da Igreja, encontrada nas obras dos padres e consagrada nas definições dogmáticas infalíveis em que um católico deve acreditar para sua salvação.
Já no século IV, São Vicente de Lérins explicava o que constituía o desenvolvimento correto da doutrina católica:
“Talvez alguém diga: Então nenhum progresso da religião é possível na Igreja de Cristo? Certamente que deve haver progresso, e grandíssimo!... Mas contanto que seja realmente um progresso e não uma modificação. Cresçam, pois, e multipliquem-se abundantemente, tanto em cada um como em todos, tanto no homem individual como na Igreja, segundo o progresso das idades e dos séculos, a inteligência, a ciência e a sabedoria, mas somente no seu gênero, isto é, na mesma doutrina, no mesmo sentido e no mesmo pensamento.”
O ensinamento de São Vicente de Lérins sobre a Tradição foi dogmática e infalivelmente consagrado no Vaticano I. Isso demonstra que exatamente o mesmo ensinamento sobre a Tradição foi mantido na Igreja por mais de 1.400 anos. O Vaticano I ensina na Constituição Dogmática Dei Filius:
“Daí segue que sempre se deve ter por verdadeiro sentido (sensus) dos dogmas aquele que a Santa Madre Igreja uma vez tenha declarado, não sendo jamais permitido, nem a título de uma inteligência mais elevada, afastar-se desse sentido.”
A Dei Filius do Vaticano I prossegue dizendo que qualquer desenvolvimento autêntico no entendimento da doutrina “deve progredir em sua própria categoria, no mesmo dogma, com o mesmo significado e a mesma explicação.” Essa é basicamente a mesma redação de São Vicente de Lérins, inalterada após mais de 1.400 anos.
E essa, como já dito, foi a redação empregada pelo Papa São Pio X em seu Juramento Antimodernista, no qual aquele que presta juramento jura diante de Deus “sinceramente acolher a doutrina de fé transmitida a nós pelos apóstolos através dos padres ortodoxos, sempre com o mesmo sentido e igual conteúdo (eodem sensu eademque sententia).”
O Papa Bento XVI nunca usa uma tal terminologia. Mesmo quando ainda era o Cardeal Ratzinger, ele jamais empregava essa terminologia. Permanece o triste fato de que o Papa Bento XVI e a maior parte de nossos líderes modernos da Igreja não podem sequer usar a terminologia tradicional quando afirmam que estão tentando manter a Tradição, mas aparecem com novas frases: “integração recíproca” e “hermenêutica da continuidade”.
O emprego dessa nova frase, junto com seu óbvio compromisso com os aspectos novos do Vaticano II, como o ecumenismo e a liberdade religiosa, diz-nos que, por mais que desejemos o contrário, o Papa Bento XVI não é um Papa da Tradição. Ele vai continuar com as novas políticas do Vaticano II, talvez não da forma agressiva de seu predecessor imediato. Ele talvez seja um pouco mais sutil e refinado e um pouco mais tradicional na aparência. O Papa Bento tentará até impor mais disciplina em certas áreas, especialmente em relação à liturgia, do que jamais fez João Paulo II.
Mas no fim das contas – no que se refere à doutrina – ainda será a nova orientação do Vaticano II que prevalecerá. Aquilo em que somos obrigados no Vaticano I e no Juramento Antimodernista a crer, a fé católica “com o mesmo sentido e a mesma explicação”, como a Igreja sempre ensinou, não será mencionado ou ratificado.
Desta forma, não importa quantas vezes ouvirmos o termo “hermenêutica da continuidade”, não importa quantas vezes nos disserem que o Vaticano II não constitui uma ruptura: o fato permanece de que a nova abordagem do Vaticano II ao que se chama de ecumenismo e liberdade religiosa – e, por extensão, a abordagem do Papa Bento XVI ao que se chama de ecumenismo e liberdade religiosa – está em desacordo com o Magistério tradicional dos séculos. Aqui não encontramos continuidade, mas ruptura.
Assim, e digo-o com todo o respeito, eu não me entusiasmarei com nenhuma notícia de que o Papa Bento XVI deseja um verdadeiro retorno à Tradição, até que ouçamo-lo exigir um retorno à fé católica “com o mesmo sentido e a mesma explicação” do que a Igreja sempre ensinou.”
(John Vennari, The Oath Against Modernism vs. the "Hermeneutic of Continuity”)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Uma análise de alguns pontos da Encíclica Pascendi (III)

“Mas isto não é uma flagrante contradição? Não, respondem eles, pois a negação dos milagres e das profecias vem do filósofo falando a filósofos e, portanto, considerando a vida de Jesus Cristo segundo a verdade histórica, enquanto que a afirmação do fiel se dirige a outros fiéis. Ora, o fiel considera a vida de Jesus Cristo como “vivida de novo” pela Fé e na Fé.
Eis aí o que parece ser uma loucura completa. No entanto, se nós procuramos ir mais a fundo na teoria modernista, nós veremos que a Fé acaba sendo sujeitada à ciência.
“Muito se enganaria, diz São Pio X, quem, postas estas teorias, se julgasse autorizado a crer que a ciência e a fé são independentes uma da outra. Por parte da ciência, essa independência está fora de dúvidas; mas, já não é assim por parte da fé, que não por um só, mas por três motivos, se deve submeter à ciência”. Podemos resumir esses motivos como se segue:
1ª. Porque as fórmulas religiosas pertencem ao mundo dos fenômenos e, por isso, estão submetidas à ciência.
2ª. Porque se a Fé tem Deus por objeto e, assim, escapa à ciência, a idéia que se faz de Deus, pertencendo à ordem da lógica, está subordinada à ciência. A ciência deve controlar a idéia de Deus e adaptá-la à evolução intelectual e moral dos povos.
3ª. A unidade da pessoa humana e do pensamento impõe a submissão da Fé à ciência.
Tudo isso é, evidentemente, contrário a toda a doutrina Católica, que ensina que a filosofia é a serva da teologia e da Fé, e não o contrário.
É por causa dessas contradições, ao menos na aparência, que se nós lermos um livro modernista encontraremos numa página a perfeita doutrina católica, e ao virar esta página encontraremos uma doutrina cheia de heresias, como diz São Pio X.
Ao escrever a história, o modernista será um racionalista que nega o sobrenatural, mas se ele prega numa igreja, ele fala a linguagem da Fé. Como historiador, ele desdenha os Padres da Igreja e os Concílios, mas se ele dá o catecismo, ele cita essas mesmas fontes com todo respeito.
Mas em tudo os modernistas dão a última palavra à sua falsa ciência, e arruínam a Fé Católica.
Mas já é tempo de terminar. A matéria é vasta demais para ser exposta de uma só vez, numa simples introdução à Pascendi. Vamos, pois, passar ao último ponto da doutrina modernista, fazendo uma breve aplicação à situação atual e ao Concílio Vaticano II, e assim terminaremos.
3. O reformador modernista
O sétimo e último item da doutrina modernista diz respeito ao reformador modernista. Este reformador, diz São Pio X, quer tudo reformar na Igreja e suas reformas se fazem pela ruptura com o que a Igreja sempre fez.
Este tema é importantíssimo na crise atual. É o tema da ruptura e da continuidade. As reformas da Igreja se fazem sempre num espírito de continuidade. As reformas modernistas se fazem num espírito de ruptura.
São Pio V reformou o missal em continuidade com o passado. Paulo VI publicou um novo missal em ruptura com o que se fazia antes.
São Pio X fez o decreto da comunhão freqüente em continuidade com o passado, como ele mesmo disse no texto do decreto. O novo Direito Canônico permite que a comunhão seja dada a não católicos e isto em ruptura com o que a Igreja sempre fez.
A proclamação dos dogmas está sempre em continuidade com a doutrina professada pelos papas ao longo da História da Igreja. A Declaração sobre a Liberdade Religiosa está em ruptura com o que a Igreja sempre ensinou. No entanto, Bento XVI quer convencer o mundo católico de que entre o Vaticano II e a Tradição da Igreja não há ruptura. Isto só faz adensar as trevas nas quais se encontram as inteligências de hoje. Podemos dizer que isto é o supra-sumo do modernismo, a não ser que Bento XVI reforme a doutrina do Vaticano II, condenando-o vigorosamente em tudo o que ele se opõe à Tradição. Mas será isto que ele fará? Quem viver verá. De nossa parte, tememos que ele aumente a confusão doutrinal que assola a Igreja.
Mas vejamos o reformador modernista, a quem, como vimos, a ruptura com o passado não assusta. Veremos como muitas das reformas pedidas por ele foram atendidas pelo Concílio Vaticano II e os Papas pós-conciliares.
São Pio X fala da “mania de reformar” dos modernistas.
“Nada, absolutamente nada há no catolicismo que eles não ataquem”, afirma São Pio X.
Eis alguns exemplos, tirados todos da Pascendi.
a) Reforma da filosofia, sobretudo nos seminários
“Eles (os modernistas) pedem que se relegue a filosofia escolástica à história da filosofia, entre os sistemas ultrapassados, e que se ensine a filosofia moderna”.
É o que já está feito. Mesmo antes do Concílio, o Papa atual Bento XVI assim como o seu antecessor João Paulo II não se formaram com a escolástica, mas sim com a filosofia moderna, ou melhor, eles conheceram as duas, a escolástica e a filosofia moderna, mas optaram pela filosofia moderna.
b) A separação entre a Igreja e o Estado
“Sim, diz São Pio X na Pascendi, os modernistas pedem a separação da Igreja e do Estado, assim como a do católico e do cidadão”. A razão dada é que para os modernistas a Igreja não foi instituída diretamente por Deus.
“E não basta para os modernistas que o Estado seja separado da Igreja. Assim como a Fé deve se subordinar à ciência, (...) assim é necessário que nos assuntos temporais a Igreja se submeta ao Estado” dizem eles. E isto foi realizado pelo Concílio Vaticano II com o documento Dignitatis Humanae e com a política do Vaticano, que fez pressão junto aos governos católicos para que se retirasse da Constituição o artigo que fazia desses países, países oficialmente católicos. Isto se deu com a Colômbia, Espanha e alguns outros estados.
c) Reforma do governo da Igreja
“Que o governo eclesiástico seja reformado em todos os seus setores; sobretudo a disciplina e a dogmática, dizem eles. Que o seu espírito e os seus procedimentos externos sejam adaptados à consciência moderna, que se inclina para a democracia. Que se confie uma parte do governo ao clero inferior e mesmo aos leigos. Que a autoridade seja descentralizada”.
O Vaticano II com o decreto sobre a colegialidade, e as diversas medidas tomadas por Paulo VI e seus sucessores, introduziu o princípio democrático dentro da Igreja.
A autoridade do Papa ficou diminuída diante dos Bispos.
A autoridade dos Bispos ficou diminuída por causa das conferências episcopais.
A autoridade dos párocos ficou diminuída por causa dos conselhos paroquianos.
Dentro das comunidades religiosas, a autoridade dos superiores ficou diminuída por causa da vaga de contestação e de desobediência que penetrou em toda parte.
d) Reforma das Congregações Romanas, dos ritos dos Sacramentos, do Direito Canônico, etc
Os modernistas, como diz São Pio X na Pascendi, pedem sobretudo a reforma do Santo Ofício e do Índex, duas congregações que velavam sobre a doutrina.
Ora, o Santo Ofício teve o seu nome modificado e sua importância diminuída. Quanto ao Índex, ele foi suprimido. O Índex estabelecia o catálogo de livros proibidos.
Além destas reformas que indicamos, há várias outras, pois, como diz São Pio X, o modernista tem a mania reformista.
Qual foi a instituição da Igreja, qual o Sacramento, qual foi o ritual, qual foi a prática de piedade, qual o ponto de doutrina que não foi modificado, atacado ou suprimido após o Concílio?
Todos os Sacramentos tiveram o seu rito modificado: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio. Todos sofreram modificações.
O Direito Canônico foi refeito para adaptá-lo ao Concílio Vaticano II.
As congregações romanas foram profundamente modificadas.
Foi feito um novo catecismo, enquanto que o Catecismo do Concílio de Trento (Catecismo Romano) e o Catecismo de São Pio X foram postos de lado.
A Via Sacra e o Rosário receberam acréscimos ou modificações.
As práticas de devoção tradicionais foram desprestigiadas. A disciplina das indulgências foi modificada. O calendário dos dias litúrgicos foi alterado, assim como o processo da canonização dos santos.
A doutrina, enfim, sofreu e sofre ainda ataques de toda parte, assim como a exegese, que é o estudo da Sagrada Escritura. Apenas para recordar alguns pontos: o dogma “fora da Igreja não há salvação” foi atacado; o dogma “A Igreja de Cristo é a Igreja Católica” foi posto em dúvida e a existência do limbo é igualmente posta em dúvida.
Seria difícil fazer a lista de todos os pontos de doutrina atacados pelos modernistas de hoje. Basta dizer que o modernismo na sua forma atual triunfou no Concílio e continua a triunfar, apesar de alguns atos contrários à correnteza revolucionária e reformista que domina o Vaticano.
Para concluir, lembremos que São Pio X diz que o sistema dos modernistas é como um corpo perfeitamente organizado. Não se pode adotar um ponto sem admitir todos os outros. Lançando um olhar sobre todo o sistema modernista, São Pio X não pode deixar de classificá-lo de encruzilhada ou reunião de todas as heresias. Se alguém, diz ele, se desse ao trabalho de recolher todos os erros que já existiram contra a Fé e de concentrar a substância como um suco formado de todos eles, ele não poderia fazer nada de mais bem sucedido que o sistema modernista.
Após ter explicado minuciosamente este sistema, São Pio X sente a necessidade de explicar como o agnosticismo tendo fechado a porta para Deus do lado da inteligência, é em vão que ele tenta abrir outra porta do lado do sentimento, pois, diz São Pio X, o que é o sentimento senão uma conseqüência diante da ação da inteligência ou dos sentidos? Retirai a inteligência e o homem seguirá os piores instintos. A emoção, o sentimento e tudo o que cativa a alma, longe de favorecer a descoberta da verdade, entravam a sua aquisição. O sentimento e a experiência sozinhos, sem serem esclarecidos e guiados pela razão, não conduzem a Deus. Por isso, o sistema modernista conduz ao aniquilamento de toda religião e ao ateísmo. Pior do que isso, a doutrina da imanência divina conduz diretamente ao panteísmo, porque ela não distingue suficientemente o homem de Deus, e que, certamente, preparará a vinda do Anticristo.
Para terminar, recordemos o que São Pio X nos diz desta queda progressiva do espírito humano.
“O primeiro passo foi pelo protestantismo, o segundo, pelo modernismo; o próximo será o do ateísmo”. Com o Concílio Vaticano II, triunfou o modernismo ou neomodernismo carregado nas costas pelo liberalismo, que procura, a todo custo, se harmonizar com o mundo moderno. Desta forma, vimos algo nunca visto na história da Igreja: um concílio ecumênico promover uma doutrina contrária à doutrina da Igreja.
Diante deste fato, não podemos deixar de pensar no que diz São João no Apocalipse (cap. XIII), quando ele viu uma besta subindo do mar, que representa o poder político, o governo mundial, e sobre sua cabeça ela trazia a blasfêmia. E os homens adoraram a besta e o dragão que deu o poder à besta. E São João viu outra besta subindo da terra, que tinha os chifres semelhantes ao Cordeiro, mas que falava como o dragão e induzia os homens a adorarem a besta que saía do mar. Podemos pensar que esta misteriosa figura representa os homens da Igreja, que trazem as insígnias do Cordeiro, isto é, de Nosso Senhor, mas que falam como o dragão, isto é, o como demônio, ensinando a heresia e, acima de tudo, o condensado de todas as heresias, que é o modernismo.
Que o exemplo de Dom Lefebvre e de Dom Antônio de Castro Mayer e a intercessão de Nossa Senhora nos guardem sempre na pureza imaculada de nossa Fé e que esta inspire todos os nossos atos, pois a Fé age pela caridade, a qual nos obtém a vida eterna.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)

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domingo, 25 de março de 2012

Uma análise de alguns pontos da Encíclica Pascendi (II)

1. O filósofo modernista
Os princípios do filósofo modernista são praticamente os mesmos que já vimos em Kant: o agnosticismo e o imanentismo. O agnosticismo é o princípio negativo e o imanentismo é o princípio positivo. O agnosticismo diz que nós só podemos conhecer os fenômenos, ou seja, as aparências sensíveis. Todo o resto é incognoscível. Daí se deduz que os milagres são incognoscíveis, que a Revelação externa, assim como toda manifestação de Deus na História, é impossível, pois nós não teríamos meios de conhecê-la.
Assim também, as provas da existência de Deus, da existência da alma e toda a filosofia são desprovidas de valor. Essas teorias, sobretudo a negação de que podemos provar a existência de Deus, já foram condenadas pela Igreja. O Concílio Vaticano I definiu solenemente que a razão pode provar a existência de Deus a partir das criaturas.
Após destruir as bases do conhecimento, vem o princípio positivo, que será o imanentismo.
Eis como São Pio X explica essa passagem do agnosticismo para o imanentismo.
“Eles passam de um a outro da seguinte maneira: natural ou sobrenatural, a religião, tal como qualquer outro fato, pede uma explicação. Ora, a teologia natural uma vez repudiada, todo acesso à revelação suprimido pela rejeição dos motivos de credibilidade, toda a revelação externa inteiramente abolida, é claro que a explicação da existência da religião não deve ser procurada fora do homem. É, então, dentro do homem mesmo que ela se encontra, e como a religião é uma forma de vida, a religião deve se encontrar na vida mesma do homem. Eis aí a ‘imanência religiosa’.”
E São Pio X prossegue:
“Todo fenômeno vital ― e a religião é um deles, como eles dizem ― tem por primeiro estimulante uma necessidade, e como fundamento este movimento do coração chamado sentimento.
Por conseguinte, como o objeto da religião é Deus, devemos concluir que a fé, princípio e base de toda a religião, se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade do divino.”
Desses dois princípios vão decorrer inúmeras conseqüências.
Pelo primeiro princípio, que é o do agnosticismo, os modernistas negam que a inteligência possa provar a existência de Deus. Daí se deduz que Deus não é objeto de ciência e que Deus não pode ser objeto da história. Deste princípio, somado ao princípio da imanência vital, isto é, de que a religião é objeto só de sentimento, se conclui que:
1. A ciência, assim como a história, não tem Deus por objeto e, portanto, deve ser atéia, na prática.
2. A Fé é um sentimento.
3. A Fé não vem “pelo ouvido”, como ensina São Paulo, mas vem do subconsciente do próprio homem.
4. A revelação tem sua origem também nesse sentimento e, por isso, a consciência religiosa de cada um não está submetida à autoridade da Igreja.
5. O sentimento religioso transformou os fatos reais dos Evangelhos, e, portanto, é preciso suprimir dos Evangelhos tudo o que não está de acordo com a ciência.
6. Todas as religiões provêm do mesmo sentimento religioso e, portanto, todas as religiões são verdadeiras.
7. A religião católica nasceu da consciência de Jesus Cristo segundo as leis da imanência.
8. O dogma é uma expressão imperfeita do sentimento religioso e, portanto, o dogma pode e deve evoluir na medida em que o sentimento religioso evolui.
9. As fórmulas religiosas (ou dogmas) devem ser vivas, assim como o sentimento religioso.
10. Para permanecerem vivas, as fórmulas religiosas devem estar sempre adaptadas ao fiel e à sua fé. No dia em que essa adaptação cessa, elas perdem a sua razão de ser. Daí o pouco caso que os modernistas fazem do dogma.
Como se pode ver, e segundo a expressão de São Pio X, os modernistas chegaram a esta loucura de perverter a eterna noção da verdade. Para eles, a verdade não é a adequação da inteligência com a realidade (natural ou sobrenatural), mas sim a adequação da inteligência com o sentimento, com a vida, isto é, com algo que não tem conteúdo inteligível.
E, ao mesmo tempo que os modernistas se perdem em suas loucuras, eles têm a audácia de repreender a Igreja por se apegar teimosamente e esterilmente a fórmulas vãs e vagas, segundo eles, enquanto que ela, a Igreja, deixa a religião correr à sua ruína, dizem eles.
Como exemplo dessa audácia dos modernistas, podemos citar os ataques feitos à palavra transubstanciação (a qual significa a transformação da substância do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Nosso Senhor, no momento da Consagração). Podemos dar ainda como exemplo a definição da missa, a doutrina do reinado social de Nosso Senhor e a própria encíclica Pascendi julgada antiquada pelos neomodernistas. Tudo isso para os modernistas deve mudar com a vida e com o “progresso” da humanidade (os comunistas têm uma doutrina semelhante, ao dizer que o modo de pensar muda cada vez que mudam as estruturas econômicas).
2. O fiel modernista
Para o filósofo modernista, Deus só é objeto de sentimento. Se Ele existe ou não, isso não o interessa. Mas, para o fiel modernista Deus existe em si mesmo, independentemente do homem. E como o fiel modernista chega a essa certeza? Pela experiência individual. Assim, se os modernistas se separam dos racionalistas, é para adotarem a doutrina dos protestantes e dos pseudomísticos.
Eis como os modernistas explicam essa certeza da existência de Deus. “Se nós penetramos o sentimento religioso, descobrimos aí facilmente certa intuição do coração, graças à qual e sem nenhum intermediário o homem atinge a realidade mesma de Deus”.
E se perguntamos que tipo de conhecimento pode produzir essa intuição do coração, eles respondem: “Uma certeza da existência de Deus que ultrapassa toda certeza científica. Trata-se de uma verdadeira experiência, superior a todas as experiências racionais”. E se perguntamos por que há então homens que negam a existência de Deus, o fiel modernista dirá que é porque eles não se põem nas condições morais necessárias para fazer essa experiência. Desta forma, os modernistas suprimem toda atividade propriamente racional da Fé. A Fé modernista é irracional; ela é puro sentimento.
Tudo isso é evidentemente contrário à Fé católica e abre o caminho para o mais completo relativismo, pois se isso fosse verdade, todas as religiões seriam verdadeiras. E é isto que observa São Pio X ao escrever: “Uns de maneira velada e outros abertamente, todos eles afirmam que todas as religiões são verdadeiras”. E como poderiam eles negar essa conclusão? “Isto não poderia ser feito senão mostrando a falsidade do sentimento ou da fórmula (dogma) que o exprime. Mas, segundo eles, o sentimento é sempre e em toda parte o mesmo, substancialmente o mesmo, e quanto à fórmula religiosa, expressão do sentimento religioso, tudo o que eles pedem é que ela esteja adaptada ao fiel e ao mesmo tempo à sua fé”.
Mas os modernistas não reivindicam uma superioridade da religião católica sobre as outras? Sim, mas uma superioridade de grau e não de natureza, pois, dizem eles, “ela é mais verdadeira porque ela é mais viva”.
De todos esses erros eles tiram conseqüências importantes a respeito da Tradição, assunto que nos interessa de maneira toda especial, porque no documento que excomungou Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer estava dito que eles não tinham uma noção acertada de Tradição. Escutemos São Pio X:
“Outro ponto a respeito do qual os modernistas se põem em oposição flagrante com a fé Católica é que eles transferem para a Tradição o princípio da experiência religiosa. A Tradição, tal como a entende a Igreja, se encontra totalmente arruinada”.
Antes de demonstrar o conceito que os modernistas têm da Tradição, vejamos o que ensina a Santa Igreja: A fonte da Fé é uma só: é a Revelação. Mas a Revelação foi transmitida aos homens de duas formas. Escrita e oral. A escrita é a Sagrada Escritura, a oral é a Tradição. Nesse sentido, diz o Concílio Vaticano I, seção III, cap. III Denz. 1792: “Fide divina et catholica ea omnia credenda sunt, quae in verbo Dei scripto vel tradito continentur...” (Deve ser crido com fé divina e católica tudo o que está contido na palavra de Deus escrita ou transmitida). Aqui, a palavra “transmitida” significa a Revelação sob forma oral, na medida em que ela não faz parte da Sagrada Escritura.
A palavra Tradição se entende também como sendo todo o Magistério infalível da Igreja, isto é, todos os dogmas ensinados pela Igreja. A Tradição possui uma anterioridade sobre a Escritura, porque a Santa Igreja foi constituída por Nosso Senhor antes que qualquer livro, Evangelho ou epístola, fosse escrito.
Vejamos agora o que dizem os modernistas. Para eles a Tradição é a “comunicação feita a outros de alguma experiência original, através da pregação e por meio de uma fórmula intelectual”. Que valor, que virtude atribuem eles a essa fórmula intelectual? “A essa fórmula intelectual, além da sua virtude representativa, como eles dizem, eles atribuem ainda uma virtude sugestiva”. Qual o papel dessa virtude sugestiva? Seu papel “se exerce sobre o fiel, para despertar nele o sentimento religioso, adormecido talvez, ou ainda para ajudá-lo a renovar as experiências já feitas ou para gerar nos descrentes o sentimento religioso e conduzi-los às experiências que se deseja para eles”.
“É assim, dizem eles, que a experiência religiosa vai se propagando através dos povos e não somente entre os contemporâneos, pela pregação propriamente dita, mas também de geração em geração, por escrito ou pela transmissão oral”. “A verdade de uma tradição seria, então, medida pela sua sobrevivência, de tal modo que se ela for viva ela é verdadeira, se ela se perder ou diminuir, ela é falsa ou menos verdadeira ou era verdadeira e não é mais”, podemos concluir:
Um neomodernista antes do Concílio dizia: “Toda teologia que não é atual é falsa”. Eis aí uma doutrina puramente modernista. Daí a importância dada pelos modernistas à expressão “Tradição viva”. Aliás, os modernistas têm sempre a palavra vida e seus derivados nos lábios. Tradição viva, magistério vivo, Rede Vida, imanência vital. Algumas dessas expressões podem ter um significado correto, pois não se pode excluir a palavra vida do vocabulário, mas é de se notar que são expressões caras aos modernistas e que, para eles, têm um significado especial. Para o modernista, tudo o que tem vida é verdadeiro. Por isso, todas as religiões existentes, ou seja, vivas, são verdadeiras.
Vejamos agora as relações entre a Fé e a ciência. Antes de mais nada, lembremos que ao condenar o agnosticismo, São Pio X lembra que é de Fé definida que a razão humana pode provar a existência de Deus a partir das criaturas. Este dogma foi definido pelo Concílio Vaticano I. Ora, para os modernistas não há nada em comum entre a Fé e a ciência. Deus não pode ser conhecido pela razão de modo algum. “O objeto da Fé é justamente o que a ciência declara ser ‘incognoscível’. Daí dois campos inteiramente distintos: a ciência se ocupa dos fenômenos e a Fé não tem nada a dizer em relação a eles. Por sua vez, a Fé se ocupa do que é divino e a ciência não tem nada o que dizer a respeito”. Logo, não pode haver conflito entre a ciência e a Fé, já que cada uma tem objetos inteiramente distintos. Como elas nunca se encontram, elas podem discordar entre si.
Mas se nós objetarmos que há realidades visíveis, que são objetos tanto da ciência como da Fé? Por exemplo, a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que respondem os modernistas? Eles dizem que foi a Fé que transfigurou a vida de Nosso Senhor e, assim, a Fé subtraiu a vida de Nosso Senhor do alcance da ciência, transportando-a ao nível do divino, que está acima da realidade sensível. Mas se nós perguntarmos: E os milagres e as profecias? Nosso Senhor não fez milagres e não profetizou vários acontecimentos? Não, responde a ciência agnóstica. Sim, responde a Fé modernista. Eis aí a doutrina deles.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Uma análise de alguns pontos da Encíclica Pascendi (I)

“São Pio X, ao terminar a primeira parte de sua magistral encíclica Pascendi, escreve que no caminho que conduz ao aniquilamento de toda religião os protestantes deram o primeiro passo, os modernistas o segundo e o próximo será o do completo ateísmo.
Vamos pois começar estudando este primeiro passo que foi dado pelos protestantes, isto é, por Lutero e todos aqueles que sofreram sua influência. Em seguida, examinaremos o segundo passo que é o modernismo, suas causas e seu conteúdo doutrinal. Para terminar examinaremos brevemente o modernismo nas reformas do Concílio Vaticano II.
I. Lutero e seus discípulos
Revoltando-se contra a autoridade doutrinal da Igreja, Lutero vai fazer da liberdade individual o árbitro supremo em matéria religiosa. Com o seu “livre exame”, Lutero abriu o caminho, como diz Leão XIII, às variações infinitas, às dúvidas e às negações a respeito das mais graves questões.
Ele não só ataca a Igreja, mas também a própria razão.
“A razão, dizia ele, é diretamente oposta à Fé [...] Entre os fiéis ela devia ser exterminada e enterrada (...) ela é a prostituta do demônio. Ela só pode blasfemar e desonrar tudo o que Deus fez ou disse.”
Lutero, antecipando-se aos modernistas e aos neomodernistas, vai atacar o método escolástico, que faz toda a solidez da teologia católica.
“É impossível reformar a Igreja”, diz ele, “se a teologia escolástica e a filosofia não são inteiramente desenraizadas, assim como o Direito Canônico”. E ainda: “A lógica não tem nenhuma utilidade em teologia, pois o Cristo não tem necessidade das invenções humanas”.
Este tesouro da Igreja que é a teologia e a filosofia escolásticas será sempre combatido pelos inimigos da Igreja. Descartes (1596-1650), filósofo francês, embora sendo católico, vai igualmente desprezar a escolástica e dar início à filosofia moderna, também chamada de filosofia separada. Após Descartes virá Kant, protestante, que marcará a filosofia com o seu sistema. Kant (1724-1804) é um dos pais do idealismo. Vamos tentar resumir o seu sistema.
Para Kant, nós só podemos conhecer as aparências das coisas, ou seja, a realidade acessível aos sentidos, os fenômenos, como ele diz. Para Kant, a única ciência verdadeira é a Física. A Física não atinge a essência das coisas, mas só o que está ao alcance dos sentidos.
A essência das coisas, para Kant, é incognoscível. Eis porque, para Kant, a filosofia não é uma ciência e nós não podemos conhecer nem a Deus, nem a alma, nem mesmo a Revelação ou qualquer intervenção de Deus na vida dos homens.
No entanto, Kant vai, através da moral, afirmar a existência de Deus, da alma, do Céu, etc. “Eu destruí a razão para dar lugar à Fé”, diz ele. Mas fazendo isso Kant tira todo fundamento à Fé. Para Kant a existência de Deus é uma verdade prática. Deve-se dizer que Deus existe porque é útil afirmar a sua existência, embora não se possa prová-la. Sua existência é útil e mesmo necessária à moral. Eis o único fundamento para afirmar a sua existência.
Assim, Kant vai separar as verdades em dois grupos: as verdades científicas, que são as da Física, e as verdades morais, que não são científicas. Deus, os milagres, a revelação, nada disso pode ser conhecido com certeza, nada disso é objeto de ciência. É, na verdade, o que pensam a maioria de nossos contemporâneos, sob a influência dessas doutrinas.
O sistema de Kant é bastante complexo. Vamos reter sobretudo o seu agnosticismo, isto é, a doutrina que nega que nós possamos conhecer a essência das coisas, ou seja, que só podemos conhecer as aparências sensíveis. Nós veremos esse agnosticismo presente no sistema dos modernistas.
Ao mesmo tempo que Kant professa o agnosticismo, ele ensina o imanentismo, isto é, nós encontramos a verdade dentro de nós mesmos, como se ela fosse fabricação nossa e não adequação de nossa inteligência com a realidade.
Agnosticismo e imanentismo serão os dois fundamentos do modernismo.
Após essa brevíssima incursão na filosofia de Kant, vejamos dois autores protestantes que podemos chamar de precursores do modernismo: Ernest Daniel Schleiermacher (1768- 1834) e David Friedrich Strauss (1808-1874).
Como Kant, Schleiermacher dirá que a religião não tem nenhum fundamento racional. Os milagres, o pecado original, a divindade de Nosso Senhor, nada disso tem fundamento. Avançando por este caminho, ele dirá que pouco importa saber se Nosso Senhor é Deus ou não, pois a religião é um sentimento, um puro sentimento.
“Você crê que outrora, há dezenove séculos, algo aconteceu fora de você e para você. Nós, ao contrário, cremos que algo se passa em nós; temos nossa fé em Cristo. Por que você quer saber o que é o Cristo em si mesmo, o que é a Revelação em si mesma, e o que é o milagre em si mesmo? Esses juízos não têm nenhum interesse para a alma religiosa.”
Para Schleiermacher, o valor de um dogma, o valor da religião está na sua utilidade prática. O resto não tem nenhuma importância. Desta forma, sonhava ele reunir todas as confissões protestantes, reunindo-as na religião do sentimento, numa religião sem dogma, sem doutrina, sem nenhum conteúdo intelectual.
Schleiermacher fala de sentimento, de experiência emotiva e piedosa, a Bíblia mesma é só uma coleção de experiências religiosas que devem provocar em nós outras experiências.
Para ele, o dogma tem um papel puramente simbólico para exprimir muito imperfeitamente as diferentes experiências religiosas. O dogma não deve separar os homens, pois o importante é a experiência, o sentimento religioso. Sobre esta base pode-se fundar um ecumenismo tal como desejam os progressistas mais exaltados.
Após Schleiermacher, vejamos Strauss.
Strauss, assim como o seu mestre Ferdinand Christian Baur (1792-1860), vai se interessar pelo estudo das Sagradas Escrituras e, seguindo a teoria de Kant sobre a verdade prática e a verdade científica, ele vai opor o Jesus da história ao Jesus dos Evangelhos. Ele escreverá uma vida de Jesus na qual ele tenta explicar todos os milagres como sendo o fruto da imaginação das primeiras comunidades cristãs. Haverá, então, duas histórias de Jesus. Uma verdadeira, sem milagres, e outra, mística, com milagres.
II. O modernismo nos meios católicos
Praticamente todas as teses modernistas já haviam sido professadas pelos protestantes. Nos meios católicos, alguns sacerdotes foram tomados pelo desejo de não ficar atrás daquilo que lhes parecia ser um avanço científico dos protestantes alemães. Alguns desses sacerdotes mal formados e desdenhosos da escolástica se lançaram na leitura dos protestantes e dos filósofos modernos e adotaram em grande parte as suas teses.
É de todo esse conjunto de falsa ciência, de curiosidade malsã e de orgulho que vai nascer o modernismo.
Na França, o principal expoente do modernismo será o sacerdote Alfredo Loisy (1857-1940). E vários outros autores na França como na Inglaterra e na Itália vão se embrenhar pelo mesmo caminho. Em fevereiro de 1903, é condenado por Leão XIII um primeiro livro de Loisy. Em seguida, o Santo Ofício põe no Índex (lista dos livros proibidos) diversos livros do mesmo autor. Em 1907 São Pio X condena 65 proposições modernistas no documento Lamentabili. No mesmo ano, no dia 8 de setembro, é publicada a grande encíclica Pascendi.
III. Pascendi
A encíclica está dividida em três partes principais:
1. A doutrina modernista
2. A causa do modernismo
3. Os remédios contra o modernismo
Veremos breve e incompletamente as duas primeiras partes da encíclica, mas pensamos que será o suficiente para expor o essencial desta magnífica encíclica, que merece ser lida integralmente e estudada com maior profundidade do que podemos fazer neste breve artigo. Para indicar melhor o nexo do que acabamos de ver com a própria encíclica Pascendi, vamos começar pelas causas do modernismo, isto é, pela segunda parte.
A respeito da origem do modernismo, São Pio X indica três causas: duas morais e uma intelectual. As causas morais são: a curiosidade e o orgulho; e a intelectual é a ignorância.
a) A curiosidade, como diz São Pio X, se ela não é sabiamente regrada, basta para explicar todos os erros. A curiosidade é a mesma coisa que o espírito de novidade. Foi esse espírito de novidade que levou e continua a levar tantos católicos a ler os autores protestantes assim como os autores modernistas e os filósofos modernos (Kant, Hegel, Nietzsche, Bergson, Heidegger, Sartre, Teilhard de Chardin, Rahner, De Lubac, Congar, etc) e, desta forma, acabaram virando modernistas e perdendo a Fé. É o que se passa nos seminários progressistas.
b) A segunda causa, que é a mais importante, é o orgulho: “Em verdade, diz São Pio X, nenhum caminho leva mais diretamente e mais depressa ao modernismo do que o orgulho”.
“Que nos dêem um leigo católico, que nos dêem um padre, diz São Pio X, que tendo perdido de vista o princípio fundamental da vida cristã, a saber, que nós devemos renunciar a nós mesmos se quisermos seguir Jesus Cristo, e que não tenha arrancado o orgulho de seu coração: este leigo, este padre está maduro para todos os erros do modernismo.”
Quanto à ignorância, São Pio X diz:
“Sim, estes modernistas que se apresentam como doutores da Igreja, que elevam até as nuvens a filosofia moderna e que olham com tanto desprezo a escolástica, eles abraçaram esta filosofia moderna enredados pelas suas aparências enganadoras porque, ignorando a escolástica, lhes faltou o instrumento necessário para discernir os erros e dissipar os sofismas.”
E São Pio X conclui:
“Sim, é da aliança entre a falsa filosofia e a Fé que nasceu, repleto de erros, o sistema dos modernistas.”
Passando depois às causas, não mais da origem, mas da propagação do modernismo, São Pio X indica os ataques feitos contra a escolástica, contra a Tradição, contra a autoridade dos Padres da Igreja e contra o Magistério.
Mas é tempo de vermos a doutrina modernista, exposta e condenada pela Pascendi. Trata-se, como já vimos, da 1ª parte da encíclica. Esta parte está dividida em sete itens, que são como sete capítulos, nos quais vem exposta toda a doutrina modernista. Estes capítulos são os seguintes:
1. O filósofo modernista
2. O fiel modernista
3. O teólogo modernista
4. O historiador modernista
5. O crítico (exegeta) modernista
6. O apologeta modernista
7. O reformador modernista
Nós veremos apenas o 1º, o 2º e o 7º capítulo, ou seja: o filósofo modernista, o fiel modernista e o reformador modernista.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Os progressistas tentaram impedir a canonização de São Pio X


“Enquanto Pio XI, que pouco apreciava seu antecessor, havia deixado a causa de beatificação engavetada desde 1931, Pio XII, poucas semanas após eleito, tomou as necessárias medidas para pô-la em marcha novamente e, em 19 de agosto de 1939, fez público seu desejo de conceder a Pio X a honra de ser elevado aos altares o quanto antes. (...) Quando os processos apostólicos concluíram-se de modo favorável, Pio XII interveio pessoalmente mais uma vez: o cânone 2101 proibia a discussão do heroísmo das virtudes do servo de Deus até cinqüenta anos após sua morte. Era necessário esperar até 1964 para proclamar Pio X venerável? Em 2 de maio de 1949, Pio XII concedeu a permissão necessária para o processo prosseguir sem demoras.
Adversários do santo Papa começaram então a luta para evitar o sucesso da causa. Em 29 de novembro de 1949, em meio aos trabalhos da Congregação ante-preparatória para o reconhecimento das virtudes heróicas do servo de Deus, objeções inéditas foram levantadas dentro da Congregação. Alguns membros diziam que Pio X talvez tivesse faltado com a prudência e a caridade. Pode-se imaginar em que ocasiões! Teria sucesso essa oposição em paralisar o progresso da causa? Contudo, não levaram em conta a firme resolução de Pio XII. Com sabedoria, ao invés de silenciar as oposições, determinou à comissão histórica da Sagrada Congregação que realizasse um inquérito adicional, que logo dissipou todas as sombras lançadas sobre as virtudes do santo Papa. E a causa pôde então seguir seu caminho: em 3 de setembro de 1950, decreto do heroísmo das virtudes; em 11 de fevereiro de 1951, breve apostólico proclamando Pio X beato, enquanto se esperava a canonização de 1954.”
(Irmão Michel de la Sainte Trinité, The Whole Truth About Fatima – The Third Secret)