domingo, 27 de outubro de 2019

A arte (?) ideológica contemporânea


“A arte tradicional, na maior parte dos países, representa geralmente os quatro temas que constituem, segundo Heidegger, o “mundo” dos homens.
A divindade, os homens, a natureza, o ideal
Quando a arte representa a divindade: é o caso da arte grega clássica que tanto marcou a nossa. É o caso da arte da Idade Média, principalmente religiosa. A arte religiosa constitui a maioria das obras-primas apresentadas nos nossos museus de arte antiga. A arte que representa o Buda pertence também a essa categoria. O Islão recusa-se a representar deus mas os versos do Corão são representados de maneira decorativa.
Quando a arte representa os homens: é nomeadamente o caso da arte do retrato. O rosto humano é representado não somente nas telas mas também nos monumentos e sob a forma de esculturas. No cristianismo a representação de Deus e a representação dos homens convergem frequentemente, porque Deus encarna num homem, o Cristo. Mas o retrato pode também representar um rei, um guerreiro, um simples camponês, mulheres ou crianças.
A arte pode também representar a natureza, a terra que conduz os homens. É a arte paisagista. No século XIX a arte paisagista ganhou uma conotação patriótica. Mas a arte patriótica é mais antiga do que isso.
A arte representa, por fim, o ideal, os ideais da sociedade. Representamos nos nossos monumentos nacionais uma mulher que simboliza a justiça, a bravura ou a caridade. Algumas cenas podem representar batalhas, a caridade aos pobres, cenas realistas mas onde se encarna um ideal na ação.
Estas artes não são ideológicas, no sentido das ideologias modernas. Dizer que a arte cristã é ideológica seria abusivo.
Ideologias modernas e destruição das formas de arte da tradição
Mas as ideologias modernas destruíram, a pouco e pouco, as formas de arte saídas da tradição e que representavam o mundo dos homens, sobre a terra, sob o céu e perante a divindade. A arte do Gestell (sistema utilitarista que controla os homens ao seu serviço), para utilizar este conceito de Heidegger, destrói tudo aquilo que não se enquadra na sua lógica utilitária.
Deus deixa de ser representado porque passa a ser associado à superstição. A arte ideológica oficial elimina toda a forma de herança religiosa e de transcendência. Ela será por vezes blasfema (veja-se o “Piss Christ”, por exemplo), para chocar, porque o escândalo é mediático e isso vende.
O ideal passa a ser considerado como um utensílio da repressão, em conformidade com as ideias dos falsos profetas Marx e Freud. É por isso evacuado sem cerimônias. O homem deixa de ser representado porque são as massas que passam a ser louvadas, e as particularidades do indivíduo, da sua classe, da sua profissão, da sua raça, passam a ser coisas irritantes que é preciso fazer esquecer para que os homens se tornem perfeitamente permutáveis no processo econômico e social. A paisagem, a natureza, desaparecem porque representam elementos de enraizamento do homem na sua terra.
A arte contemporânea: inumana, abstrata e desencarnada
A arte contemporânea, que se tornou a arte oficial obrigatória (vejam-se as paredes dos ministérios, das câmaras e dos edifícios oficiais) obedece a estes imperativos ideológicos. Já não deve representar o mundo tradicional.
Rompe deliberadamente com a herança religiosa e humanista da nossa civilização. É uma arte de ruptura revolucionária.
É abstrata e desencarnada porque rejeita toda a forma de enraizamento. Não encarna nenhum ideal, em nome de um subjetivismo total. A sua tendência dominante é representar, se é que ainda representa alguma coisa, o mundo quotidiano naquilo que tem de mais insignificante, utilitário ou prosaico. Frequentemente, quer-se chocante, porque ao chocar, atrai a atenção dos Media e dos financiamentos oligárquicos.
Esta arte é inumana no sentido próprio do termo, já que nunca representa a figura humana, e se a representa, é para a desfigurar o mais possível: como escreveu Salvador Dali, “um homem normal não tem vontade de sair com as meninas de Avinhão de Picasso” (ver o seu livro “Les cocus du vieil art moderne”).
A arte moderna: uma arte autoritária que interdita toda a forma de crítica
Por fim, esta arte inumana ou desumana é de natureza profundamente autoritária, como é, na essência, toda a ideologia. Esta arte estende-se para todo o lado. Interdita toda a forma de crítica, que é menosprezada, senão mesmo diabolizada com violência. O bom conformista não ousará nunca assumir que não gosta de uma celebrada obra dita contemporânea. Esta arte autoritária é irresponsável porque não responde ao pedido de um rei, de um burguês ou de um príncipe da Igreja, como antigamente. Ela responde à procura de uma burocracia anónima: Façam um fresco para as entradas dos nossos escritórios. Ademais, esta arte contemporânea é tão sustentada pelos poderes públicos como pelas pessoas privadas. É frequentemente financiada pelo imposto, isto é, pela força, o que acentua ainda mais o seu carácter autoritário.
Arte desenraizada, ideológica, inumana e autoritária, é objeto de uma propaganda mediática constante. Reflete o inchamento do ego do artista, que pensa substituir-se ao Deus criador, favorece as especulações financeiras e é o dinheiro, frequentemente, o seu único imperativo categórico; é desenraizada, como a ideologia, porque quer ter uma vocação universal. Esta arte ideológica dificilmente tem a preferência do povo, supostamente inculto, mas é venerada pela oligarquia dominante.
A arte contemporânea versus a arte tradicional humanista e enraizada
A ideologia da arte oficial emprega o seu dinamismo em torno a quatro pólos:
O dinheiro
O ego
Os Media
Abstração (negação das raízes)
A arte tradicional, que sobrevive nomeadamente na Rússia (São Petersburgo tem hoje em dia a maior escola de arte figurativa) e nalguns meios dissidentes no Ocidente, pode ser representada pelo esquema seguinte:
Ideal (o Bem, o Belo)
Divindade
Os homens
Natureza
A arte tradicional é humanista e enraizada, tem na maior parte do tempo uma dimensão espiritual ou idealista a fim de direcionar o homem para o alto. A arte ideológica, dita contemporânea, e que parece ter o seu centro em Nova Iorque, despreza Deus e os homens para estabelecer o ego e o dinheiro, os seus fetiches, como motores do seu dispositivo autoritário. Esta arte ideológica, frequentemente financiada pela força (o imposto) não é nem humanista nem democrática, contrariamente ao discurso dos seus promotores: estamos, sim, perante uma arte ideológica oficial.”
(Yvan Blot, L'art (?) Idéologique Contemporain : Inhumain, Désincarné et Abstrait)

https://ofogodavontade.wordpress.com

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Por que não vou a Roma


“Não vou a Roma porque não me convidam.
Não me convidam porque segundo Francisco sou um personagem estranho e radicalizado com o qual não se pode falar.
Para ir a Roma deveria ser um personagem com o qual se possa falar, como Mons. Fellay, que é tão simpático, tão gentil, tão compreensivo, tão tolerante e tão normal.
Em Roma sabem que não sou assim. Sabem que não sou assim porque não penso assim, como Mons. Fellay. Sabem que não quero estar em plena comunhão… com a igreja conciliar.
Isso não me torna sedevacantista, eclesiovacantista ou como queiram chamar-me.
Se me chamassem a Roma sem ser eu “reconciliante” como Mons. Fellay, com quem se pode falar, seria uma armadilha. A melhor forma de desfazer esta armadilha seria dizer a verdade na frente de Francisco. Mas Francisco não aceita senão “verdades brandas” como diría Gómez Dávila dos liberais, ou seja, verdades manchadas, turvadas ou perfumadas com um sorriso como o de Mons. Fellay. Por isso Francisco não convoca personagens estranhos ou radicalizados, senão ecumenistas, diplomáticos e tolerantes com os hereges, apóstatas e cismáticos. E judeus, naturalmente. Que dúvida cabe.
Por isso não vou a Roma. Porque sou (dito isso sem pedanteria mas sem rodeios) “excomungado”, “retrógrado”, “troglodita”, “pelagiano restauracionista” e “indesejável”. Ou seja, católico antiliberal intragável.”

Original em http://castigatridendomoreselrustico.blogspot.com.br

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O Anticristo e a Parusia


As Duas Bestas
Quando a estrutura temporal da Igreja perder a efusão do Espírito e a religião adulterada se transformar na Grande Rameira, então aparecerá o Homem do Pecado e o Falso Profeta, um Rei do Universo que será ao mesmo tempo como um Sumo Pontífice do Orbe, ou terá sob suas ordens um falso Pontífice, chamado nas profecias o "Pseudoprofeta". ...
O Anticristo será ao mesmo tempo uma corporação e uma pessoa individual que a encarnará e a governará.
1) Uma corporação, porque assim diz a definição que dele formula São João (I Carta, Iv, 3), a saber “spiritus qui solvit Jesum”, “espírito de apostasia”: e dizer um espírito é dizer um modo de ser que informa a quantidade de pessoas.
2) Um indivíduo, porque São Paulo (II Tessal, II, 3-4) o chama: "o homem da iniqüidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus."
Este último texto é impossível de aplicar a um corpo colegiado de indivíduos, como a maçonaria ou o filosofismo do século XVIII...
... O Anticristo é provavelmente o filosofismo do século XVIII, prolongação da pseudo-reforma protestante e precursor desta nova religião que vemos formando-se hoje em dia diante de nossos olhos, chame-se como se quiser (modernismo, aloguismo, antropolatria) que será sem dúvida a última heresia, pois não se pode mais ir além em matéria de heresias. E o Anticristo será também um homem singular, dado que todo espírito objetivo não existe nem atua senão encarnado, e todo grande movimento histórico suscita um homem. Todo grande movimento sociológico suscita e reveste uma grande cabeça para ser formado; como, por exemplo, Mussolini criou e ao mesmo tempo foi criatura do nacionalismo italiano...
O Advento – Está próxima a Parusia?
O autor do Apocalypsis afirma que a Parusia (ou seja a presença justiceira de Cristo na história humana) está próxima; desde o começo, em que intitula o livro de "Revelação d'Ele que está próximo", até o final, onde diz: "Venho logo"; e também: "Eis que estou à porta e chamo. Agüente um pouco. Volto já".
Volto já? Esta expressão desconcertante, pedra de tropeço dos incrédulos de hoje – e de sempre -, se verifica de três maneiras. Transcendental, mística e literal.
1) Transcendentalmente. O período dos últimos dias (ou seja o tempo da revelação cristã entre a Primeira e a Segunda Vinda) será muito breve, comparado com a duração total do mundo.
Uma antiga tradição hebraico-cristã, muito respeitável, atribui a "este século" (ao ciclo adâmico, desde Adão ao Juízo Final) uma duração de sete milênios, correspondentes aos sete dias da criação, porque "para Deus mil anos são como um dia" (Salm. LXXXIX, 4; II Petr. III, 8), correspondentes a dois milênios para a Lei Natural, dois milênios para a Lei Mosaica e dois milênios para a Lei Cristã; e o último milênio, o Domingo, para a transformação feliz do universo no Trono do Verbo ("Eu farei novos céus e nova terra") mediante a ação parusíaca.
Assim pois, em um sentido transcendental Cristo pôde dizer com verdade que sua Segunda Vinda estava próxima.
2) Misticamente. Todos os homens, não menos que as nações, estamos próximos do juízo por causa da morte, a qual pode sobrevir a qualquer momento; e sobrevém sempre à eterna ilusão e distração humana de um modo inesperado. A pedagogia de Cristo em todo o Evangelho é alertar continuamente o homem acerca da morte iminente e imprevista. "Néscio, esta noite mesmo te pedirão a alma. O que acumulaste, para quem ficará?"
Nossa experiência nos ensina que mesmo nos velhos enfermos e doentes terminais, a morte os surpreende de repente: no sentido de que não a esperam; e quem a vai esperar? Um santo religioso vimos morrer, o qual se enfureceu quando o Superior lhe falou dos últimos sacramentos. “Eu não sou homem de morrer sem sacramentos – disse - : mas estes superiores jovens são tão precipitados, que basta alguém sofrer qualquer coisinha, e já aparecem com os Santos Óleos.” Recebeu-os, no entanto, porque era dócil; e nessa mesma tarde estava morto.
Pois bem: o mesmo será no fim, igual aos tempos do Dilúvio: os homens comprarão, venderão, farão política, se casarão e engendrarão filhos; e como o relâmpago que surge no Leste e no mesmo instante está no Oeste, assim será a vinda do Filho do Homem. O sensato, pois, é pensar no fim como sempre próximo, porque de fato pode ser hoje mesmo, quando estamos sem azeite na candeia, como aconteceu com as Virgens Insensatas; devemos nele pensar como próximo, mas não como coisa certa – o que paralisaria a atividade humana, como aconteceu com os Tessalonicenses -, mas como coisa possível, prevista e esperada. E também santamente desejada. Vem, Senhor Jesus!
3) Literalmente. Cumpriu-se em seguida a profecia na destruição de Jerusalém, e depois na queda do Império Romano étnico, os dois typos do fim do século, ou seja do término do ciclo, que usaram Jesus Cristo mesmo e o discípulo amado: cumpriu-se em sua primeira fase para os ouvintes do Messias; e se cumprirá em sua forma completa para nós, que pensamos menos no Fim do Mundo que os primeiros cristãos. E, sem dúvida, estamos mais próximos que eles!
Porque o drama da História se desenvolve em planos escalonados, como todo drama se desenvolve em cenas que contêm todas a mesma idéia fundamental, a desdobrar-se no desenlace. E assim todas as grandes quedas dos impérios perseguidores da Igreja, as grandes ressurreições triunfais do cristianismo e as grandes varreduras que faz Deus de raças inteiras apóstatas ou degeneradas, podem ser consideradas como realizações parciais e figurativas da Presença (parousía) de Cristo na História e de sua revelação (apokalypsis) definitiva.
(Pe. Leonardo Castellani, Cristo ¿Vuelve o No Vuelve?)

Original em: http://www.ncsanjuanbautista.com.ar

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Os santos mártires de Gorkum

“Depois que Lutero rompeu com a Igreja, sua revolução religiosa foi contaminando toda a Europa como uma erisipela. Surgiram então outros “reformadores”, como Calvino, que tiveram maior ou menor sucesso em suas revoltas. Embora pregassem o “livre exame”, às vezes eles se combatiam entre si, procurando os de uma corrente convencer os de outras da superioridade da “sua verdade”. No ano de 1571, houve na Holanda uma luta entre luteranos e calvinistas, tornando-se vitoriosos os segundos. Nesse mesmo ano, os calvinistas realizaram na cidade de Embden seu primeiro sínodo no país, que então pertencia à católica Espanha. No dia 1º de abril daquele ano, parte dessa seita –– a dos “mendigos do mar”, formada por ex-marinheiros ou ex-piratas — conquistou as cidades de Briel e Vlissingen, ameaçando Gorkum também na Holanda.
Gorkum era uma pequena cidade de seis a sete mil habitantes, às margens do rio Mosa, dedicada à agricultura e ao comércio. Se bem que aproximadamente 60% de seus habitantes fossem católicos, parte deles não era praticante, e temia-se que, pressionada em seus haveres, abandonasse a verdadeira fé para não perder bens materiais.
O centro do catolicismo na cidade era o convento dos capuchinhos. Estes eram pouco numerosos, mas o ardor de seu zelo e a pureza de sua vida multiplicavam sua influência, tornando-os modelos da vida cristã. Sobressaía entre eles sobretudo seu jovem superior, Frei Nicolau Pik, homem piedoso e de pulso forte, que dirigia seus subalternos com doce firmeza e determinação. Sua família era da cidade e, na iminência da invasão calvinista, pressionou-o para que deixasse Gorkum e procurasse asilo em outra cidade. Mas Frei Nicolau não queria ouvir falar disso: abandonar seus frades à própria sorte, fugindo ele só do perigo?
Entretanto, para evitar o perigo de profanações, recolheu os vasos sagrados e as relíquias dos santos na cidadela, por ser o local mais seguro.
Protestantes traem sua cidade
religiosos, alguns eclesiásticos e um grupo mais determinado de católicos refugiaram-se na cidadela, na esperança de que chegasse o reforço que o governador, Gaspar Turco, havia pedido para enfrentar os protestantes.
Entrementes, o prefeito da cidade, por ordem dos assaltantes, fez soar os sinos para reunir os habitantes na grande praça. Propôs então a todos jurar ódio aos espanhóis e ao Duque de Alba, e fidelidade ao duque Guilherme de Nassau (líder dos protestantes holandeses revoltosos) e aos “santos Evangelhos” –– expressão dúbia, para ainda não falar em apostasia.
Os “mendigos do mar” puseram cerco então à cidadela. Esta não tinha condições para resistir por muito tempo, por falta de víveres e munição. Pior ainda, havia somente uma vintena de defensores hábeis, pois grande parte dos refugiados era composta de mulheres e crianças, ou de religiosos não afeitos às armas.
O cerco foi se fechando. Os defensores tiveram que abandonar uma primeira muralha para refugiar-se na segunda, por fim na terceira e última. Nessa iminência, alguns dos defensores jogaram suas armas e passaram-se para o inimigo. As mulheres, chorando, pressionaram o governador para que entregasse a cidadela, a fim de evitar o pior. Gaspar Turco pediu uma trégua para parlamentar. As condições impostas pelos protestantes foram duras: eles se propunham a não fazer nenhum mal aos que se encontravam na cidadela, leigos ou eclesiásticos, e a deixá-los livres. A única condição era que tornar-se-ia propriedade dos assaltantes tudo o que lhes pertencesse.
Os defensores preparam-se para o pior
Apesar disso, os eclesiásticos e os religiosos que se encontravam na cidadela, temendo o pior, confessaram-se uns aos outros e aos leigos. O Pe. Nicolau Pik, que havia levado consigo o Santíssimo Sacramento para não ser profanado pelos calvinistas, deu a comunhão a todos, preparando-se para os acontecimentos.
Quando foram abertas as portas da cidadela, os defensores ficaram chocados ao ver quantos católicos engrossavam as fileiras dos hereges. Logo que entraram, os calvinistas se lançaram sobre as vítimas, gritando: “Mostrai-nos vossos esconderijos, porque tudo o que tendes nos pertence”. E as agarravam, revirando seus bolsos, arrancando-lhes a roupa com brutalidade e violência. A garantia dada por eles não passou de pura ficção. Cada um tinha como ponto de honra rivalizar-se no modo de maltratar os prisioneiros, que denominavam “defensores do papismo e do despotismo espanhol”, porcos e outros epítetos que uma pena católica não pode reproduzir.
A ira deles caiu em determinado momento sobre Teodoro Brommer, que estava com seu filho e era um dos principais campeões da fé católica. Apesar do prometido, os hereges o enforcaram numa praça pública de Gorkum.
Começa a "via crucis" dos religiosos
Enfim, todos os leigos, depois de terem pago grosso resgate, foram libertos. Mas não os eclesiásticos e religiosos. Estes foram postos na prisão junto aos outros presos. Como não tinham comido nada desde a véspera e era uma sexta-feira, os hereges lhes ofereceram uma refeição de suculenta carne para os ver romper a abstinência. Eles preferiram acrescentar a seus sofrimentos físicos e morais, além da abstinência, também o jejum.
Os protestantes, que souberam que o Pe. Nicolau Pik havia levado consigo o Santíssimo Sacramento, apontaram-lhe uma pistola ao peito e perguntaram: “Onde está o Deus que você se fabrica no altar? Você, que do púlpito ensinava tantas besteiras aos imbecis, que diz agora, que tem esta pistola ao peito?”. Esse confessor da fé respondeu resolutamente: “Eu creio em tudo o que crê e ensina a Igreja Católica, Apostólica, Romana, e em particular na presença real de meu Deus nas espécies sacramentais”.
Os interrogatórios, as torturas, os maus tratos aos prisioneiros foram diários, até que os mandaram para a cidade de La Brille para serem julgados. Lá presidia os hereges o conde de Marck, inimigo de morte dos católicos, e que havia jurado não deixar escapar nenhum eclesiástico que lhe caísse às mãos. Dizia que jurara vingar os condes de Horn e de Egmont, justiçados pela Espanha por sua revolta.
Outros dois eclesiásticos e dois religiosos premonstratenses, os Pes. Adriano Becan e Tiago Lacop, juntaram-se aos prisioneiros de Gorkum.
Os protestantes tinham esperança de fazer apostatar especialmente um jovem religioso capuchinho de 18 anos, muito simples. Perguntaram-lhe se ainda acreditava em todas as bobagens dos papistas. Ele respondeu: “Eu creio exatamente em tudo o que crê o padre superior”.
Perguntaram ao Pe. Leonardo por que cria na autoridade do Papa. Ele respondeu que considerava esse ponto a pedra angular da fé católica, e não compreendia como os protestantes podiam criticar essa crença, pois diziam que a fé era livre. Segundo eles, cada um tinha o direito de encontrar na Bíblia o que o Espírito Santo lhe inspirasse. Então, se o Espírito Santo inspirasse alguém a descobrir nela a primazia e a infalibilidade de Pedro e seus sucessores, a que título podiam eles condenar isso? Ficou sem resposta.
Consuma-se o martírio dos 19 heróis
Finalmente, na madrugada de 9 de julho de 1572, à uma hora da manhã, fizeram levantar todos os prisioneiros e os levaram para um edifício abandonado. Percebendo que sua hora chegara, esses heróis de Cristo deram-se mais uma vez a absolvição e esperaram o martírio.
Por um requinte de crueldade e só para humilhá-los, embora os fossem enforcar, fizeram todos se despir para serem sentenciados. Vendo o horror da morte que o esperava, um jovem noviço fraquejou e apostatou. Mais tarde teria a graça da reconversão e narraria os horrores a que assistiu nessa noite. Mas infelizmente não foi o único a fraquejar. Um outro religioso, Guilherme, ao chegar seu turno de morrer, gritou que renunciava ao Papa e a tudo que quisessem, mas que lhe poupassem a vida. Esse infeliz caiu depois em tantos excessos que, apenas dois meses depois do martírio de seus irmãos, pereceu também numa forca, perdendo a coroa da glória eterna...
Ao todo foram 19 mártires de Jesus Cristo que deram sua vida pela verdadeira fé naquele dia, sendo dez capuchinhos, seis padres seculares, dois premonstratenses e um agostiniano.
Logo que morreu o último, os protestantes atiraram-se sobre eles selvagemente, cortando a um o nariz, a outra orelha ou a mão, a outro até as partes pudendas do corpo. Depois desfilaram pela cidade levando esse sinistro troféu na ponta da lança. Alguns chegaram mesmo a retirar dos cadáveres a gordura, para vendê-la a fábricas de ungüentos.
No mesmo dia, um dos principais católicos de Gorkum, com risco de vida, foi ter com as autoridades protestantes, pedindo os corpos dos mártires para dar-lhes sepultura cristã. Os hereges apressaram-se então a enterrá-los em duas fossas comuns. O escritor Estius narrou em 1603: “É lá que repousam em terra estrangeira, em meio aos inimigos da Igreja, até que Deus, apaziguado por seus méritos e preces, dê a paz a esses países belgas tão longamente perturbados, e inspire a seus servidores a vontade de recolher esses restos sagrados para dar-lhes as honras devidas”.”

http://catolicismo.com.br

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Discurso de ódio, ou a atribuição ao acusado do ódio sentido pelo acusador


“Em todas as causas às quais os otimistas inescrupulosos aderem há uma tendência de acusar os oponentes de ‘ódio’ e de ‘discurso de ódio’, embora esses oponentes sejam eles próprios o alvo desse ódio, e não a sua fonte. Os opositores do casamento gay na América regularmente recebem e-mails ameaçadores denunciando-os pelo ‘ódio’ que eles estão propagando. Duvidar da equivalência entre o sexo gay e o casamento heterossexual é evidenciar ‘homofobia’, o equivalente moral do racismo que levou a Auschwitz. Da mesma forma, a crítica pública ao Islã e aos islamitas é um sinal de ‘islamofobia’, agora transformada em crime no direito belga; e leis contra discursos que incitem o ódio fazem parte dos livros estatutários de muitos países europeus, tornando a mera discussão de questões que são da maior importância para o nosso futuro um crime. O ponto importante aqui não é o acerto ou engano das atitudes denunciadas, e sim o hábito de atribuir ao acusado o ódio sentido pelo acusador. Esse hábito encontra-se profundamente arraigado na psique humana e pode ser testemunhado em todas as caças às bruxas documentadas por Mackay e outros.”
(Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo)

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Como entender a Esquerda brasileira


“Antes de entrar numa discussão envolvendo política no Brasil, você precisa saber que as palavras aqui não significam o mesmo que em outras partes do mundo civilizado. Assim, rasgue seus manuais de filosofia política e acompanhe os ensinamentos do mestre João Santana:
1- "Esquerda", no Brasil, é o PT. Tudo que se alie ao PT ganha o direito de ser chamado de "progressista", como, por exemplo, o PMDB, o PP, Sarney, Collor, a Igreja Universal, o Ahmadinejad e as Farc. Não existe algo como “extrema esquerda”: a esquerda é SEMPRE moderada.
2- Por via reflexa, tudo o que se oponha ao PT é "direita", "extrema direita" e "ultra direita", incluindo o Partido Socialista do Brasil e o Partido Verde. Gente como Marina Silva, Fernando Gabeira, Ferreira Gullar e Luiza Erundina se tornam "conservadores", pra não dizer apóstatas mesmo, traidores da única e verdadeira fé (que é o petismo ortodoxo). Você só pode fazer oposição legítima ao PT se, antes de cada frase, anunciar que está fazendo oposição "à esquerda da presidenta", como faz o Jean Wyllys.
3- Usar o estado, através do BNDES, pra transferir 6% do PIB nacional para 700 grandes compadres escolhidos a dedo costumava ser chamado de "clientelismo" quando os militares faziam. Mas se a esquerda faz, é "nacional-desenvolvimentismo". E se você aponta que é tudo igual, então você é "reaça".
4- Fazer leis separando as pessoas em virtude da cor da pele costumava ser chamado de "racismo" quando Hitler e os sul africanos faziam, mas se a esquerda faz é "discriminação positiva". E se você critica, o racista é VOCÊ! (vide “reversal russa”).
5- Usar assistencialismo pra cooptar grandes porções do eleitorado costumava se chamar "voto de cabresto", quando os coronéis de norte a sul faziam. Mas se a esquerda faz é "justiça social". E se você discorda é porque você é "fascista".
6- Todo mundo que é de esquerda (ver item 1) é super favorável a liberdade de expressão e de comunicação (vide “tolerância”, adiante). Mas desde que seja pra elogiar o governo. Porque se falar mal, é "tentativa de golpe" (ver item 8), da "direita" (ver item 2) e do "PIG" (ver item 9).
7- “Tolerância” é um conceito que se aplica apenas a quem é de “esquerda” (vide item 1). Os guerreiros da justiça social abraçam o conceito de “tolerância repressiva” do Marcuse: se você não estiver no seu “local de fala” (na opinião revolucionária corrente), você será sumariamente censurado sem que se veja nisso qualquer ofensa ao princípio democrático. Em países em que a esquerda tenha conseguido obliterar qualquer oposição, “censura” é sinônimo de “paredão”.
8- O próprio conceito de "golpe", no Brasil, é relativo. Apear um governo de esquerda, sem dúvida alguma, é "golpe". Inclusive se for democraticamente, via eleições ou impeachment, já que nesse caso o povo é "alienado" (quando o povo alienado elege um governo de "esquerda", ele instantaneamente adquire consciência política. Nem precisa ler ou estudar, basta digitar "13 confirma" que a pessoa, no mesmo instante, se torna politizada). Agora, derrubar um governo de direita, mesmo que seja pela guerrilha armada e pelo terrorismo, nunca é "golpe". Nesse caso, é "luta popular”. Ainda que o povo não tenha nem queira ter nada a ver com isso.
9- "Partido da imprensa golpista", também conhecido como "PIG", são os jornalões como a Folha que, apesar de publicarem as colunas de Guilherme Boulos, Vladimir Safatle, Antonio Prata, Juca Kfouri, Janio de Freitas, Gregório Duvivier, Carlos Heitor Cony, Mario Sergio Conti e Ricardo Melo (e do Xico Sá, antes de ele dar piti porque não pôde declarar voto a Dilma em seu comentário sobre a 29ª rodada do Brasileirão de 2014), são "reacionários, "fascistas" e "coxinhas", tudo junto e misturado. A Globo, apesar do “Esquenta” vender o funk como alta cultura, e apesar de colocar casal gay até na Malhação, é “conservadora” e de “direita”.
10- "Atentado terrorista" é sempre coisa da "direita raivosa". Quando um cara da "esquerda" explode bombas e mata inocentes, ele é "revolucionário" (também conhecido como "herói" - vide o verbete "Cesare Battisti").
11- Chamar alguém pelo gentílico (por exemplo, “mineiro”, “cearense” ou “pernambucano”) é "preconceito de origem" e “xenofobia”. Mas chamar alguém de "elite branca paulista", não. E eu não sei explicar o porquê. Próximo tópico.
12- "Privatizar", assim entendido como transferir para a iniciativa privada o controle de uma companhia estatal deficitária e cujas diretorias são utilizadas para a prática de prevaricação, lavagem de dinheiro e tráfico de influência, é um crime hediondo. Quem defende privatização é "coxinha". Quem aponta que a sociedade em geral ganha com as privatizações é “entreguista”. A não ser que o governo que privatiza seja de "esquerda". Aí é "concessão", que é uma coisa muito progressista feita em benefício do povo. Mas só a “esquerda” sabe como fazer “concessões”. Quando outro governo faz concessões, ele também é “entreguista”. E não vamos discutir mais isso, por favor.”
(Rafael Rosset, Como Entender a Esquerda Brasileira (?!))

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Será uma desgraça o Sínodo da Amazônia?


“Sem questionar absolutamente a conclusão a que chegaram alguns ilustres dignitários eclesiásticos em seu juízo condenatório do Instrumentum laboris do próximo Sínodo da Amazônia, os quais o classificaram como herético e apóstata, desejaria apenas desenvolver algumas reflexões sobre a possibilidade de a referida assembléia episcopal, a ser mantida a orientação contida no Instrumentum laboris, constituir efetivamente, como pensam alguns, uma desgraça para a Igreja e uma ameaça para a soberania dos Estados da Região Amazônica.
Não me parece que as diretrizes que vierem a ser emanadas do Sínodo da Amazônia, ainda que tenham mais tarde uma repercussão e aplicação sobre toda a Igreja pós-conciliar, possam representar uma obra devastadora da Vinha do Senhor, corrompendo a fé e a moral dos pobres fiéis que ainda frequentam as paróquias Novus Ordo, com seus diáconos permanentes, suas ministras extraordinárias da Eucaristia, suas leitoras, salmistas, e as diversas pastorais e movimentos, como, por exemplo, a pastoral dos recasados, aliás, já admitidos, em grande medida, à recepção da sagrada Eucaristia.
Não creio que os católicos aggiornati, que em sua imensa maioria há décadas se acostumaram à nova liturgia e apoiam docilmente a famigerada campanha da fraternidade, venham a escandalizar-se e abandonar suas paróquias, caso as ministras da Eucaristia venham a ser “ordenadas” diaconisas e os diáconos permanentes se tornem padres casados. E caso sejam reincorporados os padres défroqués casados, os padres da Associação Internacional dos Padres Casados, que tinham apoio do então cardeal de Buenos Aires Jorge Maria Bergoglio, certamente a maioria dos católicos Novus Ordo não se oporá. Os católicos das paróquias renovadas por mais de cinqüenta anos de mudanças pós-conciliares vão encarar tudo com a maior naturalidade. E a Igreja do Vaticano II vai continuar sua marcha de ruptura com a Igreja de sempre, a Igreja Católica Romana, imutável em sua perene tradição.
Na verdade, o Sínodo da Amazônia vai limitar-se a divulgar urbi et orbi o que tem sido a prática pastoral e litúrgica constante dos rincões onde predomina a religiosidade reformada pela teologia neo-modernista do Vaticano II e dos ideólogos da teologia da libertação. Deste modo, o próximo sínodo cumprirá a missão para a qual foi estabelecido periodicamente na Igreja por Paulo VI: manter a Igreja em movimento, à luz do Vaticano II e da moderna produção teológica.
De maneira que todas aquelas aberrações litúrgicas e pastorais para as quais faziam vista grossa os predecessores de Bergoglio (se é que no fundo do coração não as aprovavam) agora, por ocasião do sínodo, vão conquistar maior amplitude, porque o erro é sempre mais contagioso quando promovido do alto. Este talvez seja o único problema do sínodo.
Causa-me aborrecimento ver alguns católicos conservadores (que eu chamaria filo-tradicionalistas por causa de sua simpatia pela liturgia romana antiga e por causa de algumas críticas que formulam a algumas reformas decorrentes do Vaticano II) desancando o bispo de Roma pela organização do Sínodo da Amazônia e acusando-o de romper com o magistério de seus predecessores imediatos, sobretudo no que concerne à teologia da libertação e à abertura aos ritos das religiões pagãs. Francisco poderia responder-lhes, se quisesse, dizendo que age com base no precedente da célebre controvérsia em torno dos ritos chineses. Estes ritos sincretistas, que produziram enorme confusão em detrimento das missões jesuíticas no Oriente ao tempo do Pe. Mateus Ricci, a princípio foram condenados e depois da supressão da Companhia de Jesus acabaram readmitidos. Francisco Bergoglio poderia também dizer aos católicos conservadores que admiram tanto João Paulo II que os novos ritos que provavelmente serão aprovados no próximo sínodo não serão nada extravagantes se comparados com a liturgia adotada nas viagens de João Paulo II a Papua-Guiné, quando uma mulher em topless fez leitura em sua missa, ou quando recebeu de uma sacerdotisa pagã o sinal de adorador de Shiva. Por que canonizar João Paulo II e desancar Francisco?
Inegavelmente cumpre dizer que há uma ruptura na Igreja pós-conciliar, mas é inaceitável que, por covardia, por oportunismo, por medo de escandalizar os devotos de João Paulo II que agora estão chocados com Francisco, não se diga onde reside a ruptura. Francisco não rompe com João Paulo II (nem sequer na questão da teologia da libertação), não rompe com Ratzinger (nem sequer na questão da admissão dos recasados à mesa da comunhão), não rompe com Montini nem com Roncalli. São todos estes que, na verdade, romperam com a tradição precedente ao Vaticano II. O que ocorre é que, ao contrário dos outros papas pós-conciliares que governaram a Igreja explorando as ambiguidades do Vaticano II e com isso conseguiram manobrar os incautos, os idiotas úteis, os companheiros de viagem, os ambiciosos por subir na carreira eclesiástica, Francisco não faz esse jogo político, não tenta enganar ninguém, mas diz claramente o que quer e aonde quer chegar.
Quanto à soberania do Brasil sobre a Amazônia, sinceramente parece-me ridículo pensar que as intrigas políticas de que o Sínodo possa vir a ser o teatro representem um perigo para a integridade do território nacional. O nosso presidente da República e o Exército Brasileiro têm plena consciência e responsabilidade para cumprir com valor sua missão de defesa da nação. Foi-se o tempo que as querelas teológicas podiam ter tanto alcance. Qual chefe de governo, hoje, lê as encíclicas papais e as põe em prática? Poderá haver muita verborragia demagógica e interesseira em torno da preservação das florestas, mas o Brasil saberá defender seus direitos.
De modo que, se cabe falar em desgraça para a Igreja ou ameaça para o Brasil decorrentes do Sínodo da Amazônia, é preciso que se aponte a sua fonte mais longínqua. A fonte não é o nosso Amazonas, a fonte não é o Tibre que passa a poucas quadras de distância do Vaticano, a fonte é o Reno, a fonte é a Nouvelle Theologie, que dominou a mente de todos os papas pós-conciliares e hoje avança sob o pontificado de Francisco.
Mas tenho plena confiança de que, se Deus permite tanta confusão em sua Igreja, é porque dessa barafunda toda há de tirar um bem muito maior; é porque obrigará os católicos a tomar uma posição (ou são católicos fiéis à tradição ou são modernistas, não é possível meio termo); é porque Deus obrigará os homens de fé, os teólogos de grande descortino, a aprofundar ainda mais seus estudos para esclarecer todos os pontos controvertidos, para fazer triunfar sobre o erro insidioso a verdade imutável e, por fim, o dogma brilhar com mais fulgor em toda a Igreja, para glória do nosso Divino Salvador e de nossa Mãe Maria Santíssima e para o bem de todos os que os amam e servem.
Portanto, se há desgraça e ameaça no Sínodo da Amazônia, os atingidos por tal desgraça não seremos nós os católicos da tradição. Desgraçados e ameaçados serão os católicos funâmbulos, os católicos do Instituto João Paulo II reestruturado por Francisco, os católicos ditos conservadores que preferiram ficar em cima do muro nestes últimos anos, servindo a uma Igreja que não é plenamente tradicional nem plenamente modernista. Estes serão os desgraçados.”

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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Jacques Plocard d’Assac: História da loja maçônica B'nai B'rith


"New York, 1º de outubro de 1843. No Café Sinsberner, onze judeus imigrados da Alemanha fazem uma misteriosa reunião. Trata-se de criar uma obediência maçônica reservada exclusivamente aos judeus.
A concepção não deixa de ser curiosa. Com efeito, a franco-maçonaria se proclama por cima de todas as religiões e de todas as raças; portanto não parece impossível que os judeus possam iniciar-se em alguma das lojas maçônicas existentes. Parece, contudo, que neste ambiente do século XIX não estava ausente certo racismo na sociedade protestante norte-americana. Um pouco por todos os lados se encontram inscrições discriminatórias indicando: "só se admitem cristãos" ou "a clientela judia é indesejável". A questão é que os onze judeus do Café Sinsberner desejavam uma obediência maçônica reservada aos judeus unicamente. Sem dúvida haviam medido o interesse que poderia haver em contar com uma sociedade secreta a sua disposição exclusiva. Ademais, devem buscar um nome. De início o grupo era chamado Bruder Hundes – ou União Fraternal – mas logo vão encontrar um melhor: será o de B'nai B'rith.
É interessante saber como se chega a ele. B'nai vem da raiz hebraica Ben que significa "filho" mas que pode significar também "príncipe, habitante, comunidade, discípulo". Quanto a B'rith, que originalmente tinha o sentido de parte de animal nos sacrifícios rituais, derivou depois no de "tratado, aliança, promessa". A expressão completa significa portanto: os Filhos da Aliança, os Príncipes da Promessa, os Filhos da União. Amiúde se encontra a deformação iídiche de Bne Briss usada na Alemanha. Os judeus sefarditas, no entanto, pronunciam Beni Berith.
Eis aqui os onze fundadores providos de um nome. É indispensável supor que já eram maçons, afiliados a lojas norte-americanas, visto que elegeram um ritual que é uma mistura do rito de York com o rito norte-americano de Old Fellows. Sua primeira loja levará o nome de New-York Lodge, cujo primeiro presidente será Julius Bien, embora o fundador da obediência fosse o Irmão Henry Jones. Os B'nai B'rith de 1843 parecem ser judeus vindos exclusivamente da Alemanha e seus escritos estavam em alemão.
O êxito é veloz nesta comunidade fechada onde as notícias correm. Um ano depois de sua fundação a ordem está em condição de abrir uma nova loja em New York e uma terceira em Baltimore. Mas a B'nai B'rith tinha uma vocação internacional. Precisava responder aos requerimentos do povo judeu disperso. Já em 1849, em Cincinnati, uma loja atuará em inglês. Em 1850 existem 20 lojas B'nai B'rith nos Estados Unidos, as quais reúnem 2.218 membros no total. Começa a aparecer então o verdadeiro caráter desta maçonaria: o de ocupar-se das comunidades judias no mundo inteiro e antes de mais nada na Europa.
Em 1851 se a vê intervir frente às autoridades norte-americanas para protestar contra um tratado firmado entre os EUA e a Suíça porque certos cantões da Confederação Helvética impunham restrições aos direitos dos judeus. A B'nai B'rith era suficientemente poderosa para obter um triunfo. Em 1857 o tratado foi modificado. Dali em diante seu poder internacional não iria mais ceder, mas somente incrementar-se. A B'nai B'rith hoje em dia é membro consultor do Conselho da Europa, das Nações Unidas, da UNESCO e da OEA.
Na Europa, a B'nai B'rith até 1882, depois de haver-se propagado por toda a Alemanha – o que se explica pela origem de seus fundadores – , se havia difundido na Europa Central e Oriental: Bucareste, Praga, Constantinopla, Viena, Cracóvia. Em 1905, já se encontram lojas na Basiléia e em Zurique, em 1912 em Copenhague e em 1923 em Haia e Amsterdam. Estes nomes indicam por si mesmos que os B'nai B'rith primeiro se desenvolveram em países de forte população judia. Mas será nos EUA, contudo, onde seu poder se afirmará rapidamente. Em 1913 se os vê fundarem a Anti-Defamation League, liga contra o anti-semitismo, à maneira das organizações francesas similares LICRE e MRAP.
Na França a loja-mãe France 1151 é criada em Paris em 1932. Nos anos seguintes à "Liberation" terá por dirigente o Irmão Pierre-Jean Bloch e é através da personalidade deste último que se pode dar conta do poder oculto desta maçonaria. Pierre-Jean Bloch ocupa, em Londres, uma posição de capital importância ao redor do Gen. de Gaulle: é agregado ao gabinete particular do Chefe da "França Livre". Ali se ocupa em especial (cf. "Dictionnaire politique" de Costón, t. 1) dos serviços políticos: depuração, luta contra os petainistas, serviços secretos gaullistas. Na Argélia ocupa o cargo de delegado geral do Interior. De Gaulle em seu regresso à França o encarrega da liquidação dos bens da imprensa interdita. Finalmente, nos diz Costón, "funda e dirige uma agência de publicidade encarregada da distribuição do Orçamento de Israel".
Os B'nai B'rith durante o século XX exerceram, especialmente nos EUA, um papel político importante. Um deles, Samuel Rosenman, será, simultaneamente, presidente dos B'nai B'rith do Estado de New York e conselheiro íntimo do Irmão Roosevelt para quem, diz-se, preparava amiúde documentos e discursos. E continuará desempenhando o mesmo papel com o Irmão Truman.
Qual é o objetivo da Ordem?
O Guide Juif de France o resume assim: unir os judeus "por seus mais altos interesses e os da Humanidade" e mais precisamente "defender o patrimônio religioso e espiritual por uma ação educativa e cultural coerente especialmente entre os jovens e, consequentemente, reagir quando assim convenha contra as tendências assimiladoras". O qual é perfeitamente louvável do ponto de vista judeu.
A loja France 1151 havia sido fundada por um advogado russo, Henri Sliosberg, nascido em Mir e que fora deputado na Duma, refugiando-se depois na França quando o Irmão Kerensky deixou finalmente, por sua política liberal, a porta aberta para que os bolcheviques ficassem com o poder. Iniciado na maçonaria russa imigrada à França em 1921, foi depois fundador das lojas Astrée Hermés, Gamoione e Lotus do rito escocês. A loja France 1151 se instalou em Paris na rua Rembrand 6. Rapidamente se difundiu a tal ponto que as novas lojas tiveram que reunir-se em uma União das associações francesas B'nai B'rith. Destaquemos entre elas uma loja, Zadoc Kahn, fundada em 1963 e um capítulo, Anne Franck, criado em 1964. Conhecem-se lojas provinciais em Belfort, Clermont-Ferrand, Colmar, Granoble, Lille, Lyon, Marselha, Metz, Mulhouse, Nancy, Nice, Estrasburgo, Troyes e Villeurbaine. Os B'nai B'rith são mais de 500.000 iniciados espalhados em uma cinquentena de países. O orçamento anual da Ordem foi estimado em 1976 em cerca de 20 milhões de dólares.
Resta-nos ver, entretanto, quais são as ligações existentes entre esta maçonaria e a maçonaria comum. O grande historiador Bernard Lazare, em seu livro L’Antisemitisme, assegura que no berço mesmo da maçonaria já havia judeus, que se os torna a encontrar no século XVII "ao redor de Weishaupt e Martínez de Pasqualis, um judeu de origem portuguesa" que organizou numerosas sociedades secretas na França. Para Bernard Lazare, a maçonaria representa os dois costados do espírito judeu: o racionalismo prático e o panteísmo. Assim é que se congratulava de que os enciclopedistas e os jacobinos "apesar de sua oposição, chegaram ao mesmo resultado, isto é: ao debilitamento do cristianismo".
A revista maçônica “Le symbolisme” em 1962 escreve que o primeiro papel dos franco-maçons "será glorificar a raça judia que guarda inalterável o depósito divino da ciência. Por isso é que se apoiarão nela para apagar as fronteiras".
É conhecida, igualmente, uma curiosa declaração do Rabino Irmão Magnin, aparecida em B’nai B’rith Magazine, vol. XXIII, p.8: "Os B'nai B'rith são um mal necessário. Em todo lugar onde a maçonaria confessar sem perigo que é judia tanto por natureza como por seu fim, as lojas comuns bastam para essa tarefa".
Esta identificação entre as finalidades judias e maçônicas não é recente. Faz mais de um século a Varieté lsraelitéen 1631, t. V, p. 74, declarou que "o espírito da maçonaria é o espírito do judaísmo em suas crenças fundamentais, suas idéias, sua linguagem, quase sua organização". "O advento dos tempos messiânicos verá o coroamento desta maravilhosa casa de oração de todos os povos dos quais Jerusalém será o centro e símbolo triunfante". Trata-se de uma idéia que se voltará a encontrar sem dúvida na grande reunião das religiões em Assis, onde se a poderá meditar nas palavras de Elias Eberlin em Les juifs d’aujourd’hui: Israel cumpre inexoravelmente "sua missão histórica de redenção da liberdade dos povos, o messias coletivo dos direitos do homem". Estas fórmulas e estas idéias, tradicionalmente no judaísmo, recordam recentes diretrizes romanas convidando os católicos a "preparar o mundo para a vinda do Messias agindo em conjunto com os judeus pela justiça social" (cf. Present 29-6-1985 e Jean Madiran: La question juive dans l’Eglise. Em: Itineraires, 31 de março de 1986).
Não se pode permanecer indiferente ao fato de que várias personalidades da B'nai B'rith se encontrem na origem das reformas propostas ao Concílio Vaticano II com vista a modificar a doutrina tradicional da Igreja em relação ao Judaísmo. Entre elas há que reter especialmente a presença do Irmão Label Katz, a mais alta autoridade da Ordem. Se, segundo o presidente norte-americano das B'nai B'rith, a missão da Ordem é a manutenção da "continuidade judia", não se pode dizer que serviria igualmente bem à "continuidade católica", a qual não é certamente sua missão."

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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Devaneios ambientalistas-ocultistas no “L’Osservatore Romano”


“Em editorial do dia 4 de janeiro de 2017, com o pretexto de libertar a cidade de Aleppo e a Síria da pobreza, das mudanças climáticas e do desequilíbrio demográfico, o jornal “L’Osservatore Romano” estampou uma apologia de métodos ocultistas pretensamente ambientalistas.
O autor da proposta anticristã é Carlo Triarico, presidente da Associação para a Agricultura Biodinâmica. Essa divulga o método de cultivo inventado há um século pelo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), idealizador da “antroposofia”, sistema derivado da Teosofia, com liturgias e rituais próprios voltados para as ciências ocultas.
O método apela para rituais de “adubação homeopática”. Estes incluem práticas supersticiosas como encher chifres de vaca com tripas de cervo macho para atrair “forças espirituais, cósmicas e astrais às plantas”.
O método foi definido de simples “magia” por quase todas as sociedades científicas que operam no setor agrícola italiano, em carta aberta ao ministro da Agricultura em novembro de 2015.
A publicação desses devaneios ocultistas no “L’Osservatore Romano” dá continuidade à pregação do mesmo autor. Em artigo de 28 de novembro, Triarico reivindicava com orgulho ter organizado uma conferência sobre a “Laudato Si”, a encíclica em favor da revolução ecológico-panteísta assinada pelo Papa Francisco I.
Triarico integrou as esquálidas dezenas de integrantes de “movimentos populares” que o pontífice recebeu no Vaticano no dia 5 de novembro de 2016.
Na ocasião, o Papa elogiou a revolução promovida por esses ativistas, entre os quais se encontrava João Pedro Stédile, líder do famigerado MST. Segundo o Pontífice, esses militantes da subversão fazem parte do “grande movimento de inovação pela casa comum que está crescendo no mundo”.
Agora é o jornal nascido para defender a Igreja e a boa ordem natural e social que se abre com frequência cada vez maior para esse ativista esotérico.
Foi também a Triarico que o “L’Osservatore Romano”, em artigo na edição de domingo, 18 de setembro, confiou a reprimenda apocalíptica à fusão entre a Bayer e Monsanto, lembrou o blog “Fratres in Unum”.
O editorial de janeiro estimulou um hino falacioso às virtudes milagrosas de um método de cultivo cheio de bruxedos “para acabar com a fome, criando condições para a resiliência camponesa às mudanças climáticas”, exorcizando a migração e as guerras, não só na Síria, mas em outros países como a “Jordânia, Irã, Egito, Argélia, Eritreia, Etiópia, Iêmen”, acrescentou “Fratres in Unum”.
O substrato comum à ecologia radical e à “teologia da libertação”, agora “teologia da libertação da Terra”, cheira fortemente a esoterismo ocidental, bruxaria oriental e satanismo planetário.
Durante sua longa existência, o quotidiano “L’Osservatore Romano”, editado pela Secretaria para a Comunicação da Santa Sé, manteve uma linha editorial independente que foi um farol da boa doutrina e da boa visualização dos problemas modernos.
Fundado em 1861 com o apoio do bem-aventurado Pio IX, então Papa felizmente reinante, sua finalidade explícita foi “apresentar com autoridade as posições da Santa Sé e opor-se eficazmente à imprensa liberal”.
A aprovação oficial do Estado Pontifício, do qual o Papa era rei, definia que o objetivo principal do jornal era “desmascarar e refutar as calúnias que são lançadas contra Roma e o Pontificado Romano”, com a certeza de que “o mal não terá a última palavra”.
Por isso “L’Osservatore Romano” tinha como dístico a promessa de Jesus Cristo ‘Non prævalebunt’ (“As portas do inferno não prevalecerão contra Ela”, São Mateus XVI, 18).
Entretanto, nova orientação foi imposta ao jornal no atual pontificado, adotando uma linha favorecedora dos movimentos e das ideologias tribalistas, subversivas, ambientalistas radicais afins com a teologia da libertação da Terra.
Para dor de inúmeros fiéis, essa orientação afina com a dos adversários anticatólicos que o jornal nasceu para combater.
Em recentes edições, essa nova tendência do “L’Osservatore Romano” vem superando os limites do acreditável. Não surpreendem então as informações de que os católicos já não mais o compram nas bancas, sua tiragem é mínima, e suas edições semanais em outras línguas beiram a extinção.”

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domingo, 25 de agosto de 2019

Dmitri Shostakovich: Concerto para Piano e Orquestra Nº 2


I. Allegro

II. Andante

III. Allegro

Boris Giltburg, piano
Vasily Petrenko, maestro
Royal Liverpool Philharmonic Orchestra