segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O estilo rebuscado é próprio das almas fúteis


“Quando vires alguém com um estilo rebuscado e cheio de adornos podes ter a certeza de que a sua alma apenas se ocupa igualmente de bagatelas. Uma alma verdadeiramente grande é mais tranquila e senhora de si a falar, e em tudo quanto diz há mais firmeza do que preocupação estilística. Tu conheces bem os nossos jovens elegantes, com a barba e o cabelo todo aparado, que parecem acabadinhos de sair da fábrica! De tais criaturas nada terás a esperar de firme ou sólido. O estilo é o adorno da alma: se for demasiado penteado, maquiado, artificial, em suma, só provará que a alma carece de sinceridade e tem em si algo que soa falso. Não é coisa digna de homens o cuidado extremo com o vestuário! Se nos fosse dado observar 'por dentro' a alma de um homem de bem — oh! que figura bela e venerável, que fulgor de magnificente tranquilidade nós contemplaríamos, que brilho não emitiriam a justiça, a coragem, a moderação e a prudência! E não só estas virtudes, mas ainda a frugalidade, o autodomínio, a paciência, a liberalidade, a gentileza e essa virtude, incrivelmente rara no homem, que é a humanidade — também estas fariam jorrar sobre a alma o seu sublime esplendor! E mais ainda, a presciência, o juízo crítico e, acima de todas, a magnanimidade — oh! deuses, quanta beleza, quanta severa dignidade não acrescentariam à figura, quanta autoridade e graça se não juntariam nela! Ninguém contemplaria tal figura sem a declarar tão digna de amor como de respeito.”
(Sêneca, Cartas a Lucílio)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Um cristianismo “desviado”


“A espiritualidade do Vaticano II é uma desviação da espiritualidade cristã. Com efeito, é completamente orientada para o homem e não, como a espiritualidade tradicional, para Deus.
A espiritualidade do Vaticano II é um “pentecostes” pelo avesso: enquanto no primeiro pentecostes o céu e o Espírito Santo se derramaram sobre a terra e sobre os apóstolos, durante o Vaticano II o céu retirou-se da terra, abandonou-a, porque o homem moderno e o clérigo modernista já tinham abandonado o Deus transcendente pelo homem “onipotente”. De fato, “Deus não abandona se primeiro não é abandonado” (Santo Agostinho, citado pelo Concílio de Trento).
Assistimos no pós-concílio a uma desviação ou desmoronamento do cristianismo, que de teocêntrico passa a ser antropocêntrico. O fim último do neo-cristianismo conciliar é a paz entre as nações, a união entre as religiões, o diálogo entre os homens, o bem-estar, a harmonia ecológica, não mais a paz entre o homem e Deus, o culto de Deus, a pregação do Evangelho a todas as nações.
As promessas do Vaticano II revelaram-se falsas e ilusórias, como as que faz Satã ou o mundo. Realmente, a partir de 1962: 1) no mundo reina a guerra; 2) o homem é explorado, não há trabalho nem aposentadoria, perdeu todo ideal, é transviado, desorientado e desesperado; 3) o Evangelho é ignorado e desprezado, os pastores envergonham-se dele ou o camuflam filantropicamente.
Hoje os pastores não sabem e não querem falar em nome de Deus, negligentes quanto às opiniões e aos falsos dogmas da modernidade. E não só isso: hoje, quem ensina a verdade corre o risco do martírio midiático, do linchamento cultural e clerical.
Quando os cristãos se deixam atrair pela moda do mundo e se curvam ante ela e as fábulas (“ad fabulas autem convertentur” 2ª Tim. 4,4) para não serem perseguidos, abandonaram a via régia da Santa Cruz, que é a única a conduzir ao céu. Entretanto, também a maior parte dos tradicionalistas o fez. Nossa época é, verdadeiramente, uma época apocalíptica e anticristã, mas há quem queira iludir-nos dizendo que tudo vai bem e que os compromissos fortalecem a Igreja… o ambiente eclesial  não compreende mais qual seja a estrada a percorrer para ir ao céu: a larga ou a estreita. E contudo, Nosso Senhor no-lo ensinou (Mt. 26, 14) e deu-nos o exemplo.
Paulo VI proclamou ao 7 de dezembro de 1965 (Discurso de encerramento do Concílio Vaticano II): “A Igreja do Concílio ocupou-se suficientemente do homem como se apresenta em nossa época. O homem todo ocupado de si mesmo, que se faz o centro de tudo e ousa ser o princípio e o fim último de todas as realidades”. Não obstante, todo o discurso é um hino e este homem que desejaria ocupar o lugar de Deus, assinala o primado da antropologia sobre a teologia, é blasfemo e luciferino. O Vaticano II não é explicável sem o influxo nele da ação preternatural de Satã e dos seus acólitos (judaísmo talmúdico, maçonaria, marxismo, freudismo, panteísmo..). Como pensar poder conciliar Deus e Lúcifer? É impossível.
Parece que à terceira tentação de Satã dirigida a Cristo: “Dar-te-ei todo o mundo se prostrado por terra me adorares” (Lc. 4, 6), o Vaticano II não respondeu como Cristo “Aparta-te, Satanás. Está escrito: Adorarás somente a Deus” (Lc. 4, 8), mas “Eis me a teus pés e aos pés do homem que despreza a Deus para ser admirado e acolhido por ti”.
O ensinamento do Vaticano II não é mais o Evangelho de Deus ao homem mas a mensagem do “homem ao homem” (assim disse Paulo VI, discurso em Belém, aos 6 de janeiro de 1964).
Mas que coisa é o homem? Para São Bernardo de Claraval o homem reduzido a sua dimensão terrena “é um sêmen fedorento, é um saco de esterco e será alimento dos vermes”, ao passo que para Paulo VI é tudo, é a nova divindade do mundo moderno que – com Cartésio, Kant e Hegel – põe o Eu no lugar de Deus. Disse, outrossim, Paulo VI: “Honra ao homem, honra à ciência (…) honra ao homem rei da terra e hoje príncipe do céu” (Discurso por ocasião do Angelus de 7 de fevereiro de 1971). O Evangelho, ao contrário, nos diz que o “Príncipe (não do céu mas) deste mundo é Satanás” (Jo. 12. 31; 14, 30; 31, 11).
Este é o resultado ruinoso do diálogo do Vaticano II com o mundo moderno, como o resultado do diálogo de Eva e Adão com a serpente infernal foi o pecado original. O velho axioma sobre o qual se baseia toda a espiritualidade cristã (patrística, escolástica e neo-escolástica) “Não se discute com Satã” está fora de moda: cumpre, ao contrário “aggiornarsi” e converter-se ao mundo que “está entregue ao poder do Maligno” (1 Jo. 5, 19); esquecendo-se de que “Amar o mundo significa odiar a Deus” (Tg. 4, 4).
Para o cristianismo a última esperança não morre jamais porque se funda em Deus onipotente e próvido, enquanto para Paulo VI “os povos olham para as Nações Unidas como para a última esperança de concórdia e paz” (Discurso por ocasião do Angelus de 7 de fevereiro de 1971) e por isso que em todo o mundo reina a discórdia e a guerra que ameaça tornar-se atômica e mundial (cf. Síria 2016). O Pe. Dossetti, que participou do Vaticano II como teólogo do cardeal Giacomo Lercaro, disse: “Se fracassa o Evangelho, temos a Constituição!” (Ritorno a Monte Sole. Attualitá e autenticitá di don Giuseppe Dossetti, in Conquiste del lavoro, 27 de outubro de 2012, a cura de F. Lauria). Assim, a esperança teologal e sobrenaturalmente cristã torna-se naturalmente e materialmente demo-cristã.
Por que Deus se incarnou? Não para estabelecer a paz entre as nações, que é uma utopia. Não para eliminar a pobreza e a doença do mundo, outra utopia. Não para dar a saúde, o bem-estar, ao homem neste mundo, mas no céu.
A crise do ambiente eclesial hoje é gravíssima, mas Jesus vencerá também esta como venceu sempre. Nós devemos fazer nossa pequena parte: oração e penitência.”

http://santamariadasvitorias.org

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A mente do coletivista


“A FSP informa que Jair Bolsonaro já nomeou metade de seus ministros, mas nenhum deles é do Norte-Nordeste. E o faz em tom de "denúncia". O autor da matéria é Gustavo Maia, o mesmo que em 5 de novembro "denunciou" que todos os membros da equipe de transição eram homens.
A mente do coletivista é interessantíssima. Extrapolando o conceito de consciência de classe, o coletivista do século XXI só consegue raciocinar em termos de grupos, categorias ou classes. A sociedade, assim, seria o ajuntamento não de indivíduos e famílias, mas de milhares de pequenos sindicatos de gente que nunca se viu nem se conheceu, mas que rema unida pelo fato de partilharem não só uma declaração de renda similar, mas também um local de nascimento, uma determinada cor de pele, um gênero ou uma orientação sexual.
Logo, o coletivista espera genuinamente que eu, sendo homem, branco, heterossexual e paulistano, direcione todos os meus atos a defender essa específica classe de seres humanos parecidos comigo, e a atacar gratuitamente qualquer um que não seja meu próprio reflexo no espelho. Assim é que o Neymar é mais rico e mais famoso que a Marta não porque em boa parte do mundo as pessoas estão mais dispostas a pagar pra assistir homens, e não mulheres, jogando futebol, e sim porque em algum momento o sindicato dos homens se reuniu e decretou em ata que, a partir daquele momento, todos iriam sabotar o esporte feminino em detrimento do masculino. E se porventura a maioria das mulheres também prefere ver o Neymar à Marta jogando, e se a maioria das mulheres vota em candidatos homens, mesmo tendo à disposição candidaturas de outras mulheres para escolher, é porque foram coagidas pelo sindicato dos homens, também conhecido por "patriarcado". Aliás, o pouco interesse que grande parte das mulheres naturalmente nutre pelos dois assuntos (futebol e política) só pode ser uma construção social, um veneno inoculado pelos homens na cabecinha de cada menina desde a mais tenra idade, cabendo aos bondosos engenheiros sociais a tarefa de "desconstruir" paradigmas forçando uma igualdade que as próprias partes supostamente beneficiadas nunca pediram.
Evidentemente o coletivista é muito seletivo quanto aos setores em que quer impor suas "cotas" de representatividade. 99% dos pedreiros são homens, mas o coletivista não tem interesse em equalizar as chances das mulheres nessa área. Interessam posições de poder apenas.
Obviamente ninguém nunca explicou a vantagem concreta de se impor representatividade em cargos de chefia. Ninguém nunca se deu ao trabalho de elaborar porque uma mulher, um negro, ou um gay, ou qualquer membro de qualquer minoria imaginável, é objetivamente um líder melhor que, digamos, um homem branco. Trata-se de um daqueles truísmos politicamente corretos que você deve aceitar bovinamente como auto-demonstrável, e evitar questionar a menos que queira ser taxado como misógino, supremacista branco ou homofóbico.
Se tivesse que escolher, o coletivista preferiria afundar o país com um governo que representasse as minorias de acordo com o censo do IBGE, que prosperar com um governo em que as minorias que ele cafetina não estivessem representadas, ainda que, na prática, essas minorias fossem beneficiadas por essa prosperidade. O gabinete de Trump, por exemplo, é composto por 16 pessoas, sendo 15 secretários (equivalentes aos nossos ministros) e mais o vice-presidente. 4 são da Florida, 2 são de Indiana, só um é da California (o estado mais rico) e não há ninguém de Nova Iorque ou do Texas, também estados ricos e populosos. Apenas 3 são mulheres, a despeito de elas serem 51% da população. Apenas um é negro, apesar de 12% da população daquele país ser negra. Mas gente comum está pouco se lixando se os secretários de Trump são homens, mulheres ou cosplays do Pablo Vittar, porque a taxa de desemprego do país é a menor em 49 anos, as Forças Armadas estão sendo reequipadas com um orçamento extra de US$ 700 bilhões e o crime está em franca queda.
TODOS estão vivendo melhor, e pra gente normal é isso que interessa. Menos para os engenheiros sociais. Esses não vão descansar enquanto não formos todos iguais. Mesmo que pra isso precisemos nos tornar igualmente miseráveis.”
(Rafael Rosset, em postagem no Facebook de 21.11.2018)

Previsão da Europa


"Ouvi, ainda, outra parábola: Houve um homem, pai de família, que plantou uma vinha, e circundou-a de um valado, e construiu nela um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores, e ausentou-se para longe.
E, chegando o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os seus frutos.
E os lavradores, apoderando-se dos servos, feriram um, mataram outro, e apedrejaram outro.
Depois enviou outros servos, em maior número do que os primeiros; e eles fizeram-lhes o mesmo.
E, por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito a meu filho.
Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança.
E, lançando mão dele, o arrastaram para fora da vinha, e o mataram.
Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?
Dizem-lhe eles: Dará afrontosa morte aos maus, e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe dêem os frutos.
Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, E é maravilhoso aos nossos olhos?
Portanto, eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos.
E, quem cair sobre esta pedra, despedaçar-se-á; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó.”
(Mateus 21, 33-44)

domingo, 25 de novembro de 2018

Religião revelada ou “religião dialogada”?


"O demolidor plano lucidamente projetado pelo neomodernismo desde os inícios do concílio Vaticano II chegou à sua completa maturação: sua decisiva instalação nos vértices da Catolicidade reforçou seu devastador influxo, concorrendo a desqualificar como intolerável desobediência à Hierarquia e a seus decretos a devida negação a uma “pastoral” fundada em falsos princípios ideológicos, que implicam a inatural redução das verdades do Depositum Fidei às variadas inclinações psicológicas de alguns fiéis cada vez mais desorientados pela desenvolta práxis inovadora difundida na suposta “igreja conciliar”.
Cremos inoportuno insistir na necessidade de desentranhar as insídias implícitas nas reiteradas referências neomodernistas à tranquilizadora predisposição conciliadora do diálogo, que contribui a enraizar os interlocutores na persuasão injustificada da impossibilidade de deduzir valorações e crenças de fontes superiores ao pretendido e indiscutido valor do conhecimento individual.
A arma psicológica empregada com altiva falta de escrúpulos pelos fautores do falso pressuposto da relatividade de toda afirmação e da conseguinte proibição de violar sua afirmada respeitabilidade é dada pela envilecedora repetição do sofisma agnóstico que considera a aspiração ao conhecimento e à posse da verdade como resíduo de um dogmatismo contrário à razão; a este respeito, não se pode deixar de perceber o curioso paradoxo pelo qual o pensamento laicista, por um lado, reivindica a presunçosa autossuficiência da razão, e por outro se apressa a libertá-la do dever de reconhecer a lei natural e a Verdade revelada em Cristo e em Sua Igreja.
* * *
No "diálogo" celebrado por quem afirma o “aggiornamento” conciliar, a verdade religiosa sofre distorções que derivam da forçada relativização à qual a racionalidade moderna submete toda proposição de tipo dogmático; se a philosophia perennis reconhecia no diálogo uma possível aproximação à busca de um conhecimento mais elevado e mais livre de preocupações subjetivistas, a cultura negadora da noção mesma de verdade ambicionou criar por sua vez um cômodo sucedâneo oportunamente predisposto para afirmar a tão trombeteada tolerância que se materializa na mais ampla abertura ao erro e no mais rigoroso ostracismo da Verdade.
A confrontação, concebida com base nos termos acima descritos, determina a regressão da razão a mero instrumento capaz de convalidar as turvas paixões que alimentam a opinião pública, persuadida de substituir a culpável deserção da Fé pelas pequenas ou grandes mentiras sancionadas pelo aplauso democrático da maioria.
Estas considerações permitem entender a direção fundamental do pontificado bergogliano, que, não obstante os juízos que tendem a situá-lo no prosaico marco dos tons modestos e improvisados de numerosas intervenções papais, revela-se caracterizado por uma decidida e precisa vontade de superar as barreiras e as incompreensões entre as religiões, facilitando assim a constituição daquela "superigreja" firmemente desejada pelos seculares inimigos do catolicismo.
Em conversa que remonta a junho passado, o Papa, comentando a passagem bíblica relativa ao mandamento dado por Deus aos pais de abster-se de comer o fruto da árvore do conhecimento no Paraíso terreno, afirmou que a Palavra divina não tem nenhuma conotação autoritária, que a salvaria do risco de cair na armadilha de uma perspectiva agradável a quem persevera desonesta e contraditoriamente no apontar o relativismo como a única verdade incontroversa.
Torna-se claro que, cedendo aos condicionamentos da perdurante mentalidade iluminista, as instâncias vinculantes e inderrogáveis da Fé e do Decálogo se desvanecem nas interpretações relativizantes de um renovado e infrutífero exercício hermenêutico.
A preparada e humilhante subjacência do Dogma e da moral aos ditames do saber profano obriga a falar de um cumprimento dos auspícios prévios à convocação e aos desenvolvimentos do concílio Vaticano II.
Durante uma alocução, ao final daquela histórica reunião e dirigida a expor um global reconhecimento de seu desenvolvimento e de seus resultados, o papa Paulo VI delineava o apavorante cumprimento da desejada convergência entre a religião do Deus que se fez homem e a contrarreligião do homem que se faz Deus; ao citado e funesto acordo são reconduzíveis as desconsideradas "aberturas" e as desoladoras capitulações que prepararam a catastrófica situação em ato na Igreja.
Igualmente distante da congelante avidez de maus humores pessimistas e das pueris aventadas euforias, o realismo cristão nos exorta a viver os presentes e dolorosos acontecimentos na certeza de que – como admoestavam inclusive os grandes pensadores anteriores à Revelação Divina – a verdade, enquanto eterna e absoluta, não pode adequar-se ao variar dos tempos."

https://adelantelafe.com

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Breve Quod aliquantum do Papa Pio VI contra a liberdade religiosa

“O efeito necessário da Constituição decretada pela Assembléia é aniquilar a religião católica e, com ela, a obediência devida aos reis.
Com este propósito ela estabelece como um direito humano na sociedade essa liberdade absoluta, que não só assegura o direito de permanecer indiferente às opiniões religiosas, como também concede plena autorização para livremente pensar, falar e escrever, e até mesmo imprimir tudo o que qualquer um queira em matéria religiosa, inclusive as mais desordenadas idéias.
Não obstante, é um direito monstruoso, o que a Assembléia reivindica como resultado da igualdade e da liberdade natural do homem.
Mas o que poderia ser mais insensato, do que estabelecer entre os homens essa igualdade e essa liberdade sem limites, que reprime a razão – o mais precioso dom natural dado ao homem e que o distingue dos animais?
Depois de haver criado o homem em um lugar provido com coisas deleitáveis, Deus não o ameaçou com a morte se comesse a fruta da árvore do bem e do mal? E com essa primeira proibição Ele não estabeleceu limites para a sua liberdade? Depois que o homem desobedeceu a ordem, incorrendo por meio disso em culpa, Deus não lhe impôs novas obrigações, por meio de Moisés? E apesar de deixar ao homem o livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal, Deus não lhe forneceu os preceitos e mandamentos, que poderiam salvá-lo "se ele os observasse"?
De onde, então, é a liberdade de pensamento e ação, que a Assembléia outorgou ao homem na sociedade, como um indiscutível direito natural? A invenção desse direito não é contrária ao direito do Supremo Criador, a quem nós devemos nossa existência e tudo o que temos? Podemos ignorar o fato de que o homem não foi criado apenas para si próprio, mas para ser útil ao seu próximo?...
O homem deve usar sua razão antes de tudo para mostrar-se agradecido ao seu Soberano Criador, para honrá-lo e admirá-lo, e para submeter toda a sua pessoa a Ele. Para isso, desde a sua infância, deve ser submisso àqueles que são superiores a ele em idade; deve ser educado e instruído por suas lições; deve ordenar sua vida de acordo com as leis da razão, da sociedade e da religião.
Essa exageração da igualdade e da liberdade, portanto, são para ele, desde o momento em que nasce, não mais do que sonhos imaginários e palavras sem sentido.”

http://www.sacralidade.com

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Marx e a esperança na história

"Marx foi um pensador burguês. Mal economista no sentido rigoroso e até científico do termo, não foi o melhor filósofo, mas teve o gênio de dar ao sentido exclusivamente econômico da vida um sopro de demência religiosa que desatou a esperança de uma mudança total provocada pela passagem dos meios de produção das mãos do capitalista às do povo organizado. Esta idéia foi semeada sobre uma consciência da qual não havia desaparecido a esperança escatológica no Reino de Deus e de uma transformação do homem provocada pelo fermento da graça divina e a conversão religiosa da vontade, mas em cujas convicções mais profundas havia entrado para sempre o culto do trabalho humano e a confiança em uma redenção puramente antropocêntrica.
Marx não examinou a atividade econômica em seu sentido lato, à luz da eficácia produtiva. Nessa ordem de reflexões o capitalismo tem sobre suas idéias todas as vantagens da eficiência e a seu favor o peso esmagador das estatísticas e o melhor standard de vida. Pensou a atividade econômica em termos de uma força transformadora da natureza e a dotou de um ímpeto soteriológico capaz de provocar o advento de um "homem novo", o produto de um salto qualitativo na evolução da espécie. Era uma idéia au jour, nascida de uma hipótese biológica e de um tremendo desejo de que fosse verdadeira para terminar com o dogma da criação a partir do nada. Marx nunca soube bem que coisa seria esse homem socialista, mas o sonho se harmonizava com suas ambições titânicas e coroava o esforço dialético de Hegel com um porvir. Naquele momento e até então a realização do socialismo não provocara a passagem da pré-história presente à verdadeira história, a visão deste fim último brotado do abraço da economia e do evolucionismo biológico iniciava a esperança na história.
Ter esperança na história é fundar o sentido da vida na fugidia mobilidade do tempo. Pessoalmente essa esperança é insustentável, porque supõe passar por cima da inevitável morte individual. Posso esperar para além da morte e se poderá discutir a sensatez de semelhante esperança. Mas esperar com o convencimento de que a morte tem a última palavra é indubitavelmente uma esperança desesperada, ou mais simplesmente uma forma bastante complicada de desesperação.
O marxismo não fala de esperanças pessoais e trata de fundar uma espécie de esperança coletiva. Eu espero por outros, mas não por outros que esperam pessoalmente isso que eu espero por eles, mas por outros que todavia não são e dos quais com certeza não sei o que esperarão, caso esperem algo. Minha esperança se adere a um especismo que permitirá às gerações sucessivas irem se sacrificando uma depois da outra atrás de uma ilusão que a morte de cada um apaga de um só golpe."
(Rubén Calderón Bouchet, Esperanza, Historia y Utopía)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

William Shakespeare: Soneto LXV

Se a morte predomina na bravura
Do bronze, pedra, terra e imenso mar,
Pode sobreviver a formosura,
Tendo da flor a força a devastar?
Como pode o aroma do verão
Deter o forte assédio destes dias,
Se portas de aço e duras rochas não
Podem vencer do Tempo a tirania?
Onde ocultar - meditação atroz -
O ouro que o Tempo quer em sua arca?
Que mão pode deter seu pé veloz,
Ou que beleza o Tempo não demarca?
Nenhuma! A menos que este meu amor
Em negra tinta guarde o seu fulgor.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A cultura pós-moderna é uma cultura sem amor

“A forma humana é sagrada para nós porque tem a marca da nossa corporalidade. A profanação intencional da forma humana tornou-se, para muitas pessoas, uma espécie de compulsão. E essa profanação é também uma negação do amor. É uma tentativa de refazer o mundo como se o amor não fizesse mais parte dele. E isso, certamente, é a característica mais importante da cultura pós-moderna: é uma cultura sem amor, que tem medo da beleza porque se perturba com o amor.”
(Roger Scruton, Beauty)