segunda-feira, 18 de março de 2019

Jorge Luis Borges: Limites


Dos caminhos que estendem o poente
Um (não sei qual) há de ser percorrido
A última vez, por mim, indiferente,
E sem que o adivinhe, submetido

A Quem prefixa onipotentes normas
E uma secreta e rígida medida
Às sombras, imaginações e formas
Que destecem e tecem esta vida.

Se para tudo há término e há compasso
E última vez e nunca mais e olvido,
Quem nos dirá de quem, em nosso espaço,
Sem sabê-lo, nos temos despedido?

Sob o cristal já gris a noite apaga;
Do alto dos livros que um borrão tisnado
Da sombra espalha pela mesa vaga,
Algum deles jamais será folheado.

Há no Sul um portão enferrujado
Com grandes jarras de alvenaria
E tunas que a mim estará vedado
Como se fosse uma litografia.

Para sempre fechaste a porta certa
E há um espelho que te aguarda insano;
A encruzilhada te parece aberta
E a vigília, quadrifonte, Jano.

Entre as memórias sempre existe aquela
Que se perdeu um dia no horizonte;
Não se verão descer àquela fonte
Nem o alvo sol nem a lua amarela.

Não achará tua voz o tom que o persa
Deu à sua língua de aves e de rosas,
Quando ao acaso, ante a luz dispersa,
Queiras dizer as coisas mais preciosas.

E o incessante Ródano e o logo,
Todo o ontem sobre o qual hoje me inclino?
Tão perdido estará como Cartago
Que no fogo e no sal viu o latino.

Creio ouvir na manhã o atarefado
Rumor de uma longínqua multidão.
É tudo o que foi caro e olvidado;
Espaço e tempo e Borges já se vão.


Tradução de Augusto de Campos

quarta-feira, 13 de março de 2019

Entendendo Francisco


“Imaginemos que você seja um comuna e, incidentalmente, o Papa. Uma das coisas que você fará (além de ser grosseiro, vulgar e arrogante o tempo inteiro, como convém a um velho comunista ressentido) é odiar os ricos. Ainda que, como o Papa, você agora se qualifique como um bilionário, ainda que com um par de asteriscos anexados.
Você é, acabamos de dizer, velho, arrogante, vulgar e geralmente insuportável (tem que ser, sendo um Papa comuna). Isto significa que você deformará a mensagem de Cristo à vontade a fim de satisfazer seu ódio aos ricos. Tem que ser assim, porque um Papa comuna realmente não pode fazer nada diferente.
E assim aconteceu que o tal Papa viaja aos EAU e convenientemente se esquece da parte “em espírito” das bem-aventuranças. Abençoados são os pobres. E nada mais.
Ora, o homem odeia os ricos, embora com costumeira coerência não desdenhe a companhia de alguns proprietários de jatinhos. Ele precisa avaliar seu público em relação ao fato. Portanto, aponta que muitos dos cristãos dos EAU presentes à costumeira missa ao ar livre são trabalhadores domésticos de pessoas ricas do lugar. Note-se aqui: o problema com os empregadores de tais trabalhadores domésticos não é que sejam – como muitos deles serão – muçulmanos.
Não.
É que eles são ricos.
Entendam o homem, por favor. Ele é um comunista. O ódio social o devora. Ele não acredita em Deus, de jeito nenhum. Por que se importará se um homem morrer muçulmano? Mas que um homem viva como um rico, esse é o problema.
Tudo bastante previsível em um comunista devorado pelo ódio social. Não me surpreendeu em nada sua última doutrina comuna caseira. Uma vez que você entenda o Comunismo, a inveja social e o ódio social, Francisco é um livro aberto.
O que me irrita é que inúmeras publicações católicas agora vão tentar dar às palavras de um velho comuna um verniz de Catolicismo, em vez de admitir que o homem não dá a mínima para o Catolicismo.”

https://mundabor.wordpress.com

domingo, 10 de março de 2019

A criação vertical do homem é um sinal do que tem que ser o homem em sua alma


“Quando Deus cria ao homem o cria vertical (…). Essa criação do corpo do homem vertical é um signo do que tem que ser o homem por dentro, em sua alma (…). Deus o criou com a cabeça acima do coração, com o coração acima do estômago, do sexo e dos pés. E essa hierarquia do homem vertical nos está indicando também o que o homem tem que ser por dentro:
Acima de tudo está a cabeça; quer dizer, a inteligência que me faz conhecer a realidade e conhecer a verdade. E essa verdade que a inteligência conhece se mostra ao coração, isto é, à vontade; para que a vontade ame o que é verdadeiro e o que é bom. E depois vêm também as paixões, os sentimentos e os instintos que, iluminados pela inteligência e governados pela vontade, servem para que o homem seja capaz de entusiasmar-se por tudo o que é verdadeiro e por tudo o que é bom.
Essa é a imagem do homem como Deus o criou: inteligência que conhece a verdade, se a mostra à vontade como algo bom sendo as paixões e os sentimentos governados pela vontade e dominados pela inteligência. Agora bem, o homem moderno é um homem posto “de pernas para o ar”. Ao homem vertical que Deus criou se lhe opõe um homem invertido. O que está acima? Acima de tudo estão as paixões, estão os instintos, estão os sentimentos. Pelo que se guia o homem? “Eu gosto”, “eu não gosto”; “tenho desejos”, “não tenho desejos”; “que lindo!”, “que feio!”. Nos guiamos pelos instintos. E depois vem a vontade. A vontade para satisfazer todos os caprichos dos instintos; e ao final, bem abaixo de tudo, vem a pobre inteligência. Para quê? Para justificar-me e dizer que tudo o que eu gosto está bem.”
(Alberto Ezcurra, Los Jóvenes y la Sociedad de Consumo)

http://www.sensusfidei.com.br

sexta-feira, 8 de março de 2019

Efeitos nefastos da ideologia da inclusividade


"É muito difícil para a discussão pública liberal rejeitar e suprimir os indícios claros da ciência e da erudição, mas a inclusividade deve fazê-lo para negar a teimosa diferença entre os grupos. É uma situação que deve de alguma forma ser resolvida, e o método adotado é redefinir a razão e a realidade para adequar-se às exigências da inclusividade e pisotear qualquer um que perceba haver um problema.
Toda investigação considerada legítima deve produzir resultados politicamente corretos, e o processo que levou até eles deve ser apresentado como inquestionavelmente livre e racional. O resultado é a corrupção da biologia, da sociologia e da psicologia, bem como do pensamento político e ético. A ciência e a erudição tornam-se distorcidas, o jornalismo, tendencioso e a educação, panfletária. O óbvio deve ser ignorado ou tratado como inconcebível, para que o mundo se torne incompreensível."
(James Kalb, Against Inclusiveness – How the Diversity Regime is Flattening America and the West and What to do About It)

segunda-feira, 4 de março de 2019

O que Santo Tomás de Aquino tem a dizer sobre a imigração?


“Olhando para o debate em torno da imigração, é assumido automaticamente que a posição da Igreja é uma de caridade incondicional para com aqueles que querem entrar na nação - legalmente ou ilegalmente. No entanto, será que isso é a verdade? O que é que a Bíblia diz em relação à imigração?
O que é que os estudiosos da Igreja e os teólogos dizem? Acima de tudo, o que é que o maior de todos os doutores, São Tomás de Aquino, diz em relação à imigração? Será que a sua opinião oferece algumas idéias em torno da questão candente que assola a nação e a obscurecer as fronteiras nacionais?
A imigração é um problema moderno, e como tal, algumas pessoas podem pensar que o medieval São Tomás não teria qualquer opinião em relação ao problema. Mas ele tem.
Nada mais temos que fazer que olhar para a sua obra-prima, a Summa Theologica, na segunda parte da primeira parte, questão 105, artigo 3 (I-II, Q. 105, Art. 3).
Lá encontramos a sua análise fundamentada em pontos de vista Bíblicos que pode ser acrescentada ao debate nacional visto que ela é totalmente aplicável ao presente.
Diz São Tomás:
A relação de um homem com os estrangeiros pode ser uma de duas: pacífica ou hostil; e ao orientar ambos os tipos de relação a Lei [de Moisés] continha preceitos ajustados.
Ao fazer esta afirmação, São Tomás afirma que nem todos os imigrantes são iguais. Todas as nações têm o direito de decidir quais os imigrantes que são benéficos - isto é, "pacíficos" - para o bem comum. Como assunto de defesa própria, o Estado pode rejeitar aqueles elementos criminosos, traidores, inimigos e outros que ele considere prejudiciais ou "hostis" para os seus cidadãos.
A segunda coisa que ele afirma é que a forma como se lida com a imigração é determinada pela Lei em ambos os tipos de imigrantes (hostis ou pacíficos). O Estado tem o direito de aplicar a sua lei.
Aos Judeus foram oferecidas três oportunidades de relações pacíficas com os estrangeiros. Primeiro, quando os estrangeiros passavam pelas suas terras como viajantes. Segundo, quando eles vinham para habitar nas suas terras como recém-chegados.
E em ambos estes casos a Lei, nos seus preceitos, fazia o tipo de provisão apropriado: porque está escrito (Êxodo 22:21): ’O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás [advenam]’; e mais uma vez (Êxodo 22:9): ’Também não oprimirás o estrangeiro [peregrino].’

Aqui, São Tomás reconhece o fato de que os outros irão querer visitar ou mesmo vir viver na terra por algum tempo. Tais estrangeiros merecem ser tratados com caridade, respeito e cortesia, algo que se deve dar a qualquer ser humano de boa índole. Nestes casos, a lei pode e deve proteger os estrangeiros de serem maltratados ou incomodados.
Terceiro: quando qualquer estrangeiro deseja ser admitido de todo à sua comunhão e ao modo de adoração. Em relação a isto, tem que ser observada uma certa ordem, porque eles não são admitidos imediatamente à cidadania (tal como ocorria em algumas nações onde ninguém era considerado cidadão exceto após terem passado duas ou três gerações, tal como o disse o Filósofo (Polit. iii, 1)).
São Tomás reconhece que existirão aqueles que desejarão ficar e passar a ser cidadãos da terra onde se encontram a visitar. No entanto, São Tomás estabelece como primeira condição de aceitação o desejo de se integrar totalmente na que hoje pode ser considerada a cultura e a vida da nação.
A segunda condição é que a concessão de cidadania não poderia ser imediata visto que o processo de integração demora o seu tempo; antes de mais, as pessoas têm que se adaptar à nação. Ele cita o filósofo Aristóteles como havendo dito que este processo demorava duas ou três gerações. São Tomás não dá um enquadramento temporal para esta integração, mas ele admite que pode demorar muito tempo.
O motivo para isto foi o de que, se fosse dada aos estrangeiros a permissão para se envolverem nos assuntos da nação mal se estabelecessem nela, muitos perigos poderiam ocorrer visto que o fato dos estrangeiros não terem ainda o bem comum firme nos seus corações poder-lhes-ia levar a tentar fazer algo que prejudicasse os locais.
O senso comum de São Tomás certamente que não é politicamente correto mas é bem lógico. O teólogo salienta que viver numa nação é algo de complexo, que exige tempo até que se entendam os pontos que afetam a mesma. Aqueles que se encontram familiarizados com a longa história da sua nação encontram-se em melhor posição para tomar decisões a longo prazo para o seu futuro.
É prejudicial e injusto colocar o futuro da nação nas mãos daqueles acabados de chegar, e que, embora sem culpa própria, pouca idéia fazem do que está a acontecer ou aconteceu na nação. Tal política pode levar à destruição da nação.
Como ilustração para este ponto, São Tomás de Aquino ressalva posteriormente que os Israelitas não trataram todas as nações de igual modo, visto que as nações mais próximas deles eram mais facilmente integradas dentro da população do que aquelas mais distantes. Alguns povos hostis nunca receberam permissão para serem admitidos dentro da nação dada a sua inimizade para com os Israelitas [ed: exemplo disto são os Amalequitas].
Mesmo assim, é possível, através duma dispensação, que um homem possa ver-lhe conferida a cidadania devido a algum ato de virtude: como tal, é reportado (Judite 14:6) que Aquior, o capitão dos filhos de Amom, "foi incorporado ao povo de Israel, assim como toda a sua descendência até o dia de hoje".
Dito de outra forma, as regras nem sempre eram rígidas devido à existência de exceções que eram conferidas com base nas circunstâncias. No entanto, tais exceções não eram arbitrárias, mas tinham em mente o bem comum. O exemplo de Aquior descreve a cidadania conferida ao capitão e à sua família devido aos bons serviços prestados à nação de Israel.
***
Estes são alguns dos pensamentos de São Tomás de Aquino em relação à imigração, e todo ele tem como base princípios Bíblicos. Torna-se claro que a imigração tem que ter duas coisas em mente: 1) a unidade da nação e 2) o bem comum da nação.
A imigração tem que ter como propósito a integração plena dos imigrantes, e não a desintegração nem a segregação. Esta imigração não só deveria tomar como base os benefícios mas também as responsabilidades de se unir em pleno à cidadania da nação. Ao se tornar num cidadão, a pessoa torna-se, a longo prazo, parte da família mais alargada, e não se torna alguém com ações da bolsa duma companhia que busca apenas o interesse imediato e de curta duração.
Mais ainda, São Tomás ensina que a imigração tem que ter em mente o bem comum dos nativos; ela não pode sobrepujar e nem destruir a nação.
Isto explica o porquê de tantos Americanos estarem tão pouco à vontade com a entrada maciça e desproporcional de imigrantes. Tal política introduz de modo artificial uma situação que destrói os pontos comuns de união, e varre por completo a habilidade social de absorver organicamente os novos elementos dentro da cultura unificada. Este tipo de imigração já não tem como ponto orientador o bem comum.
Uma imigração proporcional sempre foi um desenvolvimento saudável para a sociedade visto que injeta nova vida e novas qualidades para o corpo social. Mas quando ela perde a proporção e fragiliza o propósito do Estado, isso ameaça o bem-estar da nação. Quando isto acontece, a nação faria bem em seguir o conselho de São Tomás de Aquino e os princípios Bíblicos.
A nação deve praticar a justiça e a caridade com todos, incluindo com os estrangeiros, mas acima de tudo, ela deve proteger o bem comum e a sua unidade sob o risco de, de outro modo, deixar de existir.”
(John Horvat II: What Does Saint Thomas Say About Immigration?)

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sexta-feira, 1 de março de 2019

Quem ama aos outros cumpriu a lei

"A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei.
Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor.
E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé.
A noite é passada, e o dia é chegado. Rejeitemos, pois, as obras das trevas, e vistamo-nos das armas da luz.
Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja.
Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências."
(Romanos 13, 8-14)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Otimismo ou esperança


"Diante das situações terrivelmente difíceis que são vividas na Igreja submersa em uma apostasia quase absoluta; da família que deixou de ser a célula básica de nossas sociedades para passar a ser agentes instrutores das perversidades impostas "culturalmente" pelo globalismo mediático maçônico; de nossas pátrias agonizando pelos ataques a seus excelsos valores fundacionais; e do mundo inteiro que parece a ponto de estourar; não deixa de nos surpreender continuar escutando que temos de ser otimistas. O pior no caso é que esta concepção é pregada até como um "imperativo religioso". Também se pretende que ao sermos cristãos jogamos do "lado vencedor", pelo que não temos de nos preocupar já que as coisas necessariamente se vão resolver, e que devemos pensar que, assim como os asfixiantes problemas mundiais, as difíceis situações particulares vão ter um final feliz se confiarmos adequadamente, ou rezarmos o suficiente. Cabe esclarecer então que nos referimos à pretensão de soluções puramente contingentes e mundanas.
Estas predisposições tão arraigadas no catolicismo moderno, ou melhor modernista, têm sua causa no imanentismo no qual fomos educados nas últimas décadas. E assim este otimismo que se autodenomina cristão não se apóia na realidade e na lógica sucessão dos acontecimentos, mas na ilusa pretensão de deixar a Deus as tarefas que correspondem aos homens, ou supõe que Ele suspenda as mesmas leis da natureza para estas situações que nós consideramos justas e portanto dignas da intervenção divina.
Esquecido então o realismo tomista para ser substituído pelo sentimentalismo carismático que tem raízes indubitavelmente protestantes (em tempos nos quais se homenageia Lutero no Vaticano), não admira que diante do fracasso de tão humanas expectativas, colocadas já não na Providência Divina mas em mundanos desejos, se possa chegar até ao abandono da fé por considerar que esta se fundamenta em um deus que nos decepcionou, e em casos mais extremos até levar a um desespero que pode inclusive terminar em suicídio.
É que se a Graça supõe a natureza, não resulta lógico que todas as situações terrenas se resolvam com intervenções extraordinárias de Deus (como seria o caso dos milagres), sem dar lugar à prática das virtudes na hora de enfrentar a luta cotidiana, a qual o cristão está obrigado a realizar para conseguir a eterna recompensa. Desta forma, muitas vezes cremos que só com nossas orações e boas intenções mudaremos o rumo natural dos acontecimentos e até dobraremos a vontade do malvado (chame-se este Bergoglio, Obama, Ban Ki Moon ou Rockefeller). Tudo isso dizemos sem negar de nenhuma maneira a eficácia das orações que têm que ser sempre o princípio de toda ação, e quando esta última não seja possível, até o único recurso, pondo sempre nas mãos de Deus o destino final de qualquer situação.
Esta perda de objetividade nos leva a substituir a esperança por este otimismo baseado exclusivamente em uma consideração subjetiva do que cremos que deveria acontecer. A esperança também implica um desejo, mas não perde de vista a realidade objetiva, para assim oferecer-nos as ferramentas necessárias para enfrentá-la adequadamente. Muito mais peso tem a esperança, se nos referirmos à mesma como virtude teologal, já que deste modo pomos nossos desejos na correta perspectiva ao buscar um destino transcendente, relegando os desejos imanentes a um segundo plano. Assim diz o Catecismo nº 1817: "A esperança é a virtude teologal pela qual aspiramos ao Reino dos céus e à vida eterna como felicidade nossa, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças, mas nos auxílios da graça do Espírito Santo."
Então, se entendemos que temos que aspirar, antes de qualquer outra coisa, à nossa salvação eterna, bem supremo por excelência, deixaremos de lado a busca desesperada dos "acréscimos" para nos concentrarmos no que realmente importa: a busca do Reino (Mt. 6, 33). Por isso, percebemos, na postura dos eternos otimistas, que não se pede e se espera pelo que mais nos convenha confiando na Vontade Divina, mas que se quer sujeitar a vontade de Deus aos próprios desejos, sem deixar lugar a Sua Providência. E mais que resultados concretos, hoje é imprescindível pedir o auxílio da Graça para que o Espírito Santo nos fortaleça nas virtudes necessárias para não desfalecermos na batalha.
A Nova Ordem Mundial judaica operante no mundo (hoje de fato e proximamente de pleno direito) está impondo o laicismo maçônico, o materialismo tanto marxista como capitalista, o relativismo moral, e até o abandono da ordem natural para substituí-la pela desordem convencional; todos baseados em expectativas puramente mundanas a conseguir-se por meio da deusa Democracia. E nestas circunstâncias, recordo as palavras de um velho e santo cura que nos dizia que ao presenciar tantos desastres naturais, sociais, políticos e até eclesiásticos, muito se alegrava pois isso era um claro sinal de que se devia levantar as cabeças já que nossa salvação estava próxima, segundo o profetizado por Nosso Senhor (Mt. 21, 28), e por conseguinte o cumprimento da súplica que realizamos no Pai Nosso quando dizemos: "Venha a nós o Vosso Reino".
Quem continua pensando que todavia se pode conseguir uma vitória global sobre o inimigo não só põe suas expectativas em sucessos que excedem enormemente suas possibilidades, mas que ademais o distraem do combate que realmente tem à sua disposição, que é o que se leva a cabo defendendo a Verdade e vivendo n'Ela. E afinal de contas, apesar de que se nos acusa de nos conformarmos com o "pássaro na mão, de preferência a dois voando", ainda que resulte paradoxal, embarcamos em uma empresa muito mais laboriosa e humanamente perigosa mas realizável, que os que se empenham na voluntarista expectativa em prol de um "mundo feliz", preparando-se para a chuva de fogo com sombrinhas multicoloridas enquanto insistem que "sempre que choveu, parou".

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Novamente, sedevacantismo


"Talvez um certo número de leitores destes “Comentários” possa irritar-se por mais uma vez voltar ao tema dos papas conciliares não serem totalmente papas, mas a tradução recente para o francês de um artigo em inglês de 1991 mostra por que é preciso demonstrar reiteradas vezes que os argumentos em prol do sedevacantismo não são tão conclusivos como parecem ser. Os liberais não precisam de tal demonstração, porque para eles o sedevacantismo não é uma tentação. No entanto, há certo número de almas católicas atraídas pela graça de Deus para longe do liberalismo em sentido à tradição católica para a qual o sedevacantismo torna-se positivamente perigoso. O diabo não se importa se nós perdemos o equilíbrio para a direita ou para a esquerda, desde que percamos nosso equilíbrio.
Pois, na verdade, o erro do sedevacantismo pode, em teoria, não ser um erro tão profundo e grave como a mentalidade universal apodrecida do liberalismo, mas, na prática, quantas vezes se observa que com o sedevacantismo as mentes se fecham, e que o que começou como uma opinião aceitável (que católico pode dizer que as palavras e ações do papa Francisco são católicas?) tende a tornar-se uma certeza dogmática inaceitável (que católico pode julgar com certeza uma questão tal?), para impôr-se como o dogma dos dogmas, como se a catolicidade de uma pessoa precisasse ser julgada pelo fato de ela crer ou não que não temos nenhum papa verdadeiro desde, digamos, Pio XII.
Uma razão oferecida pelos “Comentários” anteriores para essa dinâmica interna frequentemente observada no sedevacantismo pode ser a simplicidade do nó górdio com a qual se remove um problema angustiante e ameaçador para a fé: “Como podem esses destruidores da Igreja ser verdadeiros papas católicos?” Reposta: Na realidade, eles não são papas, absolutamente. “Oh, que alívio! Já não preciso ficar angustiado.” A mente fecha-se, o sedevacantismo deve ser pregado como se fosse o Evangelho para quem quiser ouvir (ou não ouvir), e na pior das hipóteses, ele pode ser estendido desde os papas até todos os cardeais, bispos e sacerdotes, de modo que um católico outrora crente se transforma num “home-aloner”, que desiste totalmente de ir à missa. Será que ele terá sucesso em manter a fé? E seus filhos? Aqui reside o perigo.
Portanto, para manter nossa fé católica em equilíbrio e evitar as armadilhas atuais tanto à esquerda quanto à direita, olhemos para os argumentos de BpS no artigo de 15 páginas mencionado acima. (“BpS” é uma abreviatura que muitos leitores não identificarão à primeira vista, mas não é necessário que seja explicitada aqui, porque estamos mais preocupados com seus argumentos do que com a sua pessoa). Em seu artigo, ao menos ele pensa e tem uma fé católica no Papado, caso contrário os papas conciliares não seriam um problema para ele. Esta lógica e esta fé são o que há de melhor nos sedevacantistas, mas nem BpS nem eles estão trabalhando a partir do quadro inteiro: Deus não pode deixar de velar por sua Igreja, mas ele pode deixar de velar por seus clérigos.
Aqui está, pois, seu argumento em poucas palavras: premissa maior: a Igreja é indefectível. Premissa menor: no Vaticano II a Igreja foi liberal, uma grande defecção. Conclusão: a Igreja Conciliar não é a verdadeira Igreja, o que significa que os papas conciliares que guiaram ou seguiram o Vaticano II não podem ter sido papas reais.
O argumento parece bom. Entretanto, a partir das mesmas premissas pode-se tirar uma conclusão liberal: a Igreja é indefectível, a Igreja tornou-se liberal, então eu também, como um católico, devo ser liberal. Assim, o fato de o sedevacantismo partilhar suas raízes com o liberalismo deveria fazer qualquer sedevacantista pensar duas vezes. BpS percebe as raízes comuns, e chama-as de “irônicas”, mas são muito mais do que isso. Elas mostram os liberais e sedevacantistas cometendo o mesmo erro, que deve estar na premissa maior. Na realidade, tanto aqueles como estes entendem mal a indefectibilidade da Igreja, assim como confundem a infalibilidade dos Papas. Confira estes “Comentários” da semana que vem para uma análise mais detalhada do argumento de BpS.
*
Para qualquer alma católica que hoje compreende a gravidade da crise na Igreja e se aflige em relação a isto, a simplicidade do sedevacantismo, que rejeita como inválidos a Igreja e os papas do Vaticano II, pode tornar-se uma séria tentação. Pior, a aparente lógica dos argumentos dos eclesiavacantistas e dos sedevacantistas podem tornar esta tentação uma armadilha mental que pode, na pior das hipóteses, levar um católico a perder a sua fé completamente. É por isso que estes “Comentários” retornarão mais detalhadamente ao argumento principal dos muitos argumentos expostos por BpS no artigo de 1991, mencionado aqui semana passada. Eis, novamente, o tal argumento:
Premissa maior: a Igreja Católica é absolutamente infalível (tem a garantia do próprio Deus de que durará até o fim do mundo – cf. Mt. XXVIII,20). Premissa menor: Mas a Igreja Conciliar ou Igreja Novus Ordo, solapada pelo neomodernismo e pelo liberalismo, representa uma absoluta falibilidade. Conclusão: a Igreja Novus Ordo é absolutamente não católica e seus papas são absolutamente não papas. Em outras palavras, a Igreja é absolutamente branca enquanto a Neoigreja é absolutamente preta, de modo que a Igreja e a Neoigreja são absolutamente diferentes. Para mentes que gostam de pensar no preto e no branco sem algo entre eles, este argumento tem muito apelo. Mas para mentes que reconhecem que na vida real as coisas são frequentemente cinzas, ou uma mistura de preto e de branco (sem que o preto deixe de ser preto ou o branco deixe de ser branco), o argumento é muito absoluto para ser verdadeiro. Assim, na premissa maior há um exagero sobre a infalibilidade da Igreja, e na premissa menor há um exagero em relação à falibilidade da Neoigreja. A teoria pode ser absoluta, mas a realidade raramente o é. Vejamos a infalibilidade e a falibilidade conciliar como são na realidade.
Quanto à premissa maior, os sedevacantistas frequentemente exageram a infalibilidade da Igreja, assim como frequentemente exageram a infalibilidade do papa, porque é isto que precisam para suportar seu horror emocional em relação ao que se tornou a Igreja Católica a partir do Concílio. Mas, na realidade, assim como aquela infalibilidade não exclui grandes erros de alguns papas na história da Igreja e somente se aplica quando o papa está seja ordinariamente dizendo o que a Igreja sempre disse, seja extraordinariamente empregando todas as quatro condições da definição de 1870, também a infalibilidade da Igreja não exclui absolutamente algumas grandes falibilidades em certos momentos da história eclesiástica, tais como os triunfos do Islã, do Protestantismo ou do Anticristo (Lc. XVIII,8), senão que exclui absolutamente uma falibilidade total ou uma falha total (Mt. XXVIII, 20). Assim, a infalibilidade não é tão absoluta quanto BpS pretende que seja.
Quanto à premissa menor, é verdade que a falibilidade do conciliarismo é consideravelmente mais grave do que aquela do Islã ou do Protestantismo, porque ataca a cabeça e o coração da Igreja em Roma, algo que estas últimas não fazem. Não obstante, mesmo meio século de conciliarismo (1965 a 2016) não fez a Igreja falhar totalmente. Por exemplo, Dom Lefebvre – e ele não estava sozinho – manteve a fé de 1970 a 1991, seus sucessores fizeram o mesmo, mais ou menos, de 1991 a 2012, e a combatida “Resistência” mantém-se na linha dele; e antes que a Igreja humanamente entre em colapso, num futuro não tão distante, sua infalibilidade inquestionavelmente será divinamente salva, antes do fim do mundo – Mt. XXIV, 21-22. Assim, o conciliarismo como uma falibilidade da Igreja também não é tão absoluto quanto BpS pretende que seja.
Desse modo, seus silogismos precisam ser reformulados – Premissa maior: a infalibilidade da Igreja não exclui grandes falhas, mas tão somente uma falibilidade total. Premissa menor: o Vaticano II foi uma grande, mas não total, falibilidade da Igreja (mesmo se os católicos conscientes de seu perigo tenham de evitá-la por completo, sob o risco de contaminação). Conclusão: a infalibilidade da Igreja não exclui o Vaticano II. Brevemente, a Igreja do próprio Deus é maior que toda a iniquidade do Demônio ou do homem, mesmo o Vaticano II. A falibilidade conciliar pode bem ser de uma gravidade sem precedente em toda a história da Igreja, mas a infalibilidade da Igreja e a infalibilidade dos papas vêm de Deus e não dos homens. Como liberais, os sedevacantistas estão pensando humanamente, todos humanamente demais.”
(Mons. Richard Williamson, Again, Sedevacantism)

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domingo, 17 de fevereiro de 2019

Aquele que mente para si mesmo deixa de amar

“Sobretudo não minta para si mesmo. Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar, e para se distrair, na ausência de amor, entrega-se às paixões e aos gozos grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender-se. É por vezes bastante agradável ofender a si mesmo, não é verdade? Um indivíduo sabe que ninguém o ofendeu, mas que ele mesmo forjou uma ofensa e mente para embelezar, enegrecendo de propósito o quadro, que se ligou a uma palavra e fez dum montículo uma montanha — ele próprio o sabe, portanto é o primeiro a ofender-se, até o prazer, até experimentar uma grande satisfação, e por isso mesmo chega ao verdadeiro ódio… "
(Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O Pai


“No mundo estúpido em que vivemos - perfeitamente exemplificado pelo papa estúpido com quem vivemos - a diferença entre o amor paterno e o amor materno é cada vez mais negligenciada. Isso não é meramente um fenômeno religioso. Pelo contrário, eu diria que é o resultado do movimento de “emancipação”, que tornou o homem comum menos masculino, enquanto fazia a mulher comum menos feminina.
Há uma diferença fundamental entre o amor de um pai e de uma mãe. Em suma, consiste nisso: que, embora o amor da mãe seja incondicional e incondicionalmente indulgente, o amor do pai geralmente não é incondicional e, mais importante ainda, não é avesso ao castigo severo necessário, até o ponto da rejeição.
Não é por acaso que a religião cristã sempre identificou Deus como Pai não apenas de um ponto de vista bíblico, mas de um ponto de vista cotidiano; lá, onde a religião é vivida pelos homens e mulheres que trabalham nos campos e alimentam seus filhos. Da mesma forma, não é coincidência que outras religiões identifiquem Deus como mãe.
O cristianismo sempre ensinou que o amor de Deus por nós não exclui a punição final e infinitamente dura. Esse conceito é, devo dizer, viril até o âmago e, portanto, consciente ou instintivamente odiado por todas as feministas loucas que andam por aí, e por padres e prelados efeminados em todo o mundo. O próprio Francisco, em várias ocasiões, falou de um Deus totalmente perdoador e incondicionalmente dedicado que nossos antepassados mal reconheceriam como cristão.
Isso é profundamente anticristão e, portanto, totalmente errado. Vai contra dois mil anos de cristianismo. É uma paródia triste, patética, mas altamente corrosiva da nossa religião. É uma deformação monstruosa da Santíssima Trindade. Corrompe a percepção de Deus, destrói o medo d’Ele e se traduz em uma visão totalmente efeminada do certo e do errado. Essa visão efeminada do certo e do errado produz danos em todos os lugares, pois tudo o que é cristão, desde a pena de morte até a guerra justa, e do casamento até os muros é questionado como "muito severo".
O Papa Francisco não foi quem causou o problema aqui. Ele é apenas um dos muitos que perderam os conceitos básicos de Deus, Justiça e Verdade.
Mas precisamos condená-lo de maneira especial, porque ele trai a Cristo de um modo especialmente grave.”

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