terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O matrimônio homossexual ou a politização da natureza

“A intenção do reconhecimento legal do matrimônio homossexual (demandado agora pelo primeiro ministro David Cameron) é um fato político que busca eliminar a identidade do verdadeiro matrimônio, uma conseqüência da politização que se fez da natureza humana com o fim de modificá-la e refundá-la a partir da legislação. Deve-se dizê-lo desde o princípio: nunca houve norma alguma, em nenhuma cultura, que pretendesse reconhecer as uniões homossexuais como verdadeiro matrimônio.
A niilista revolução francesa já não tomou como base da ordem humana a natureza humana, conforme a idéia de uma ordem natural, mas segundo a nova ordem constitucional: o homem como questão de direitos, modificável até a decomposição. É moderno – sustentava Nicolás Gómez Dávila – o que seja produto de um ato inicial de soberba, o que pareça permitir-nos eludir a condição humana.
A Igreja católica britânica já apertou o botão de alarme diante do projeto do governo britânico de legalizar o matrimônio homossexual. Segundo o cardeal Keith O’Brien, trata-se de “uma grotesca subversão de um direito humano universalmente aceito”, afirmando, assim mesmo, que “nenhum governo tem a autoridade moral para desmantelar a definição universalmente reconhecida do matrimônio”.
O matrimônio homossexual é um contrasenso, um erro conceitual, uma incoerência dos princípios que se contrapõem de um modo inaceitável, uma manipulação, uma mentira e uma injustiça, enquanto não respeita a gramática da linguagem corporal entre um homem e uma mulher. Não se trata de rejeitar um conflito, mas de negá-lo, declarando abertamente sua falta de existência: não existe o matrimônio homossexual. Submeter a natureza, em lugar de reconhecê-la, modificar a linguagem do amor terá como resultado contradizer uma noção universalmente admitida, que não perdeu nenhuma vigência.
Ademais, não pode a legislação decidir o matrimônio, fundado só no afeto e na satisfação pessoal, na liberdade e na cultura, no desejo como a categoria que leva à união ou à rápida separação. O reconhecimento do matrimônio homossexual e sua equiparação com a família é uma injustiça cometida pelo legislador, que não pode conceder aos homossexuais os direitos reservados aos esposos.
Em sua Alocução ao Tribunal da Rota Romana (21-I-1999), o Papa João Paulo II afirmou a incongruência de pretender atribuir uma realidade conjugal à união entre pessoas do mesmo sexo. Opõe-se a isso, sobretudo, “a impossibilidade objetiva de fazer frutificar o matrimônio mediante a transmissão da vida, segundo o projeto inscrito por Deus na estrutura do ser humano”, e se opõe igualmente “a ausência dos pressupostos para a complementariedade interpessoal querida pelo Criador, no plano físico-biológico, entre o varão e a mulher”. A idéia de equiparar as relações homossexuais com o matrimônio no que se refere a suas conseqüências jurídicas significaria tratar “igualmente” o desigual, o que vai contra o próprio princípio de igualdade. Tratar os homossexuais com igualdade significa tratá-los de maneira diferente que aos esposos, porque são duas realidades distintas.
É uma obviedade – que brota da mesma constituição somática e psíquica do ser humano – a alteridade homem-mulher ordenada a uma vida sexual especificamente humana. A sexualidade é a fecunda linguagem corporal do amor entre um homem e uma mulher, e tem seu lugar próprio no matrimônio, único “lugar digno” para trazer ao mundo um ser humano, como afirmara há dias Bento XVI.
Já percebia com perspicácia E. Fromm que a polaridade sexual ensaiava desvanecer-se, e com ela o amor erótico, fundado na dita polaridade. Homens e mulheres querem ser idênticos, não iguais como polos opostos. Segundo Fromm, o desvio homossexual é um fracasso na realização da união polarizada, e por isso o homossexual sofre a dor da “separatividade” nunca resolvida; fracasso, contudo, que compartilha com o heterossexual corrente que não pode amar.
Neste horizonte, a homossexualidade se apresenta como algo estranho à natureza. Ninguém poderá discutir que as relações sexuais são estéreis, considerando que no plano biológico a sexualidade adquire seu primeiro sentido na reprodução. Assim mesmo, a estrutura do corpo humano não permite uma verdadeira união amorosa entre dois corpos do mesmo sexo. O intento de submeter a realidade à ideologia só será causa de sofrimentos.
A legislação não poderá nunca destruir a natureza, visto que o matrimônio é a união de um homem e uma mulher, ordenada à procriação e educação dos filhos. Nenhum parlamento tem poder algum sobre a realidade. Os homossexuais não podem casar-se porque não está em seu poder fazê-lo: não se pode fazer depender o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, das diferentes pulsões, da vontade ou dos desejos das pessoas.
Ninguém poderá discutir tampouco a essencial contribuição ao bem comum da família, uma contribuição que os homossexuais não estão em condições de oferecer. Exigir prestações sem dar nada em troca é algo essencialmente injusto. É a família quem assegura, graças aos filhos, o futuro inclusive das pensões, oferecendo uma notável segurança a seus membros e sendo, assim mesmo, o lugar onde se mantém viva a identidade de um povo. O próprio Estado se encontra obrigado a reconhecer a família como célula autêntica da sociedade, já que não existe outra forma de vida capaz de prestar sua contribuição ao bem comum na mesma medida. Matrimônio e família se encontram em uma melhor situação que qualquer outra fórmula de convivência alternativa, não em razão de privilégios políticos ou infundados, mas precisamente em virtude de sua inestimável contribuição ao bem da comunidade.
Os homossexuais deverão ter todos os direitos como os demais cidadãos, mas não por sua homossexualidade, e sim à margem dela. Não está nos homossexuais o poder casar-se. Nenhuma lei poderá fazer de uma relação homossexual um matrimônio sem perverter, ao mesmo tempo, as leis da natureza na assunção de um falso direito à autodeterminação.”
(Roberto Esteban Duque, El Matrimonio Homosexual o la Politización de la Naturaleza)

sábado, 3 de dezembro de 2016

Cinco "dubia"


“Em um escândalo de gravidade sem precedentes mesmo no reinado escandaloso do Papa Francisco como Papa Católico desde 2013, quando foi desafiado por quatro honrados Cardeais em sua aparente negação da própria base do ensino da Igreja sobre a moral, ele acaba de dar respostas em público que praticamente afirmam a liberdade do homem em relação à lei moral do Deus Todo-Poderoso. Com essa afirmação papal da religião Conciliar do homem em oposição à religião católica de Deus, um cisma na Igreja Universal é iminente. Durante meio século desde o Vaticano II, os papas conciliares conseguiram manter-se, de certa forma, como chefes de duas religiões opostas, mas essa contradição não poderia durar indefinidamente e logo deveria resultar em uma divisão.
Em 2014 e 2015 Francisco realizou Sínodos em Roma para consultar os bispos do mundo sobre questões relativas à família humana. Em 19 de março deste ano ele publicou sua Exortação Apostólica pós-sinodal sobre “Amor na Família”, cujo oitavo de nove capítulos suscitou controvérsias desde o começo. Em 15 de setembro quatro Cardeais em particular enviaram ao Papa uma carta privada e perfeitamente respeitosa na qual pediram a ele, como Sumo Pontífice, que esclarecesse cinco “dubia” ou pontos duvidosos de doutrina deixados pouco claros na Exortação. Aqui está a essência dos cinco pontos:
1. Da Exortação nº 305, uma pessoa casada vivendo como marido e mulher com uma pessoa que não seja seu cônjuge legítimo a partir de agora pode receber a Absolvição e a Comunhão sacramentais enquanto eles continuam a viver em seu estado semimatrimonial?
2. Da nº 304, alguém precisa acreditar que existam ainda normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus, e que são sem exceção obrigatórias?
3. Da nº 301, alguém pode, ainda, dizer que uma pessoa vivendo em violação aos mandamentos de Deus, por exemplo, em adultério, está em uma situação objetiva de pecado habitual grave?
4. Da nº 302, alguém pode, ainda, dizer que as circunstâncias ou intenções em torno de um ato intrinsecamente mau em si mesmo nunca podem mudá-lo para que seja subjetivamente bom, ou aceitável como uma escolha?
5. Da nº 303, ainda, devemos excluir qualquer papel criador da consciência, e então esta consciência nunca poderá autorizar exceções às normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus por seu objeto?
Para estas cinco questões de sim-ou-não a resposta da Igreja Católica de Seu Divino Senhor em diante sempre foi clara e nunca mudou: a Comunhão não pode ser dada aos adúlteros; há normas morais absolutas; tal “pecado habitual grave” existe; as boas intenções não podem tornar atos maus em bons; a consciência não pode fazer com que atos maus sejam legítimos. Em outras palavras, para as cinco perguntas de sim ou não, preto ou branco, a resposta da Igreja sempre foi: 1. Não, 2. Sim, 3. Sim, 4. Sim, 5. Sim.
Em 16 de novembro, há apenas dez dias, os quatro Cardeais escreveram sua carta pública (cf. Mt. XVIII, 15-17). Em 18 de novembro, em uma entrevista concedida ao periódico italiano Avvenire, o Papa Francisco respondeu o exato oposto das questões sim-ou-não: 1. Sim, 2. Não, 3. Não, 4. Não, 5. Não. (Ele afirmou que cada vez que “tais coisas não sejam pretas ou brancas, somos chamados a discernir”, mas estava meramente tentando confundir as questões imutáveis de princípio com questões instáveis de aplicação de princípios que vêm após as questões de princípio).
Todo crédito aos quatro Cardeais por obterem luz e verdade para muitas ovelhas confusas que desejam entrar no Paraíso: Brandmüller, Burke, Caffara e Meisner. Eles podem estar imersos no Novus Ordo, mas obviamente não perderam toda a coragem ou senso de seu dever. Não se pode questionar que eles tenham agido de outra forma que não com o melhor dos motivos para pressionar o Papa a fazer-se a si mesmo mais claro. E onde essa clareza deixa a Igreja? Deve ser à beira do cisma.”
(Mons. Richard Williamson, Five “Dubia”)

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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O Putsch da misericórdia

"Bergoglio foi levado ao balcão das bênçãos pelos que pensavam que havia chegado o momento de afundar finalmente a barca de Pedro. Para o povo de Deus bastou que lhe atirassem sem custo algum os amendoins da demagogia, aquela demagogia que depois do sessenta e oito comoveu as classes média e alta seduzidas pelo pobre fingido. O amor masoquista dos sacerdotes conciliares aos inimigos oficiais da Igreja de Cristo devia ser finalmente correspondido. Assim, cada maitresse à penser de Reppublica e arredores podia gritar ao mundo que a Igreja morreu e depois viva a nova Igreja!, por definição outra em relação à anterior: exilado um Papa, cria-se uma nova Igreja.
Mas em que consiste a nova Igreja, já não mais católica romana? É a que deve conquistar a primazia superando inclusive o protestantismo para pôr-se ao serviço e a reboque do século. Precisamente ao serviço da onda que está arrasando uma civilização junto com sua religião, depois da aniquilação da filosofia e da estética. Só a moral havia sobrevivido por algum tempo à filosofia e à estética por estar ligada ao espírito de sobrevivência da sociedade e dos indivíduos. A Igreja oficial com seu Magistério tratava de manter com vida a moral cristã, por muito debilitada que esta estivesse. Bento XVI advertiu: se se abandonam os princípios e se substituem pela liberdade do nada e de seu horror, não se salvará ninguém. Havia lançado o último alarme antes que se deflagrasse a guerra. Os princípios foram suprimidos, substituídos pela liberdade do nada, para o nada e para seu horror.
O sínodo da família foi estabelecido por Bergoglio como assembléia constituinte com a tarefa de decretar o fim da Igreja católica, com o repúdio de seu ensinamento a partir da moral da família. O programa desta morte anunciada está todo detalhado no parágrafo 9 da Relatio final do sínodo de 2014, que passou a ser a base para o sínodo definitivo de outubro próximo. Merece uma leitura cuidadosa. Lemos que se deve ter em conta principalmente isto: "... os indivíduos têm uma maior necessidade de cuidarem de si mesmos,... de se conhecerem interiormente, de viverem mais em sintonia com suas próprias emoções e seus sentimentos, de buscarem relações emocionais de qualidade", pelas quais "esta legítima aspiração pode estimular o desejo de comprometerem-se na construção de relações de doação e reciprocidade criativas, responsáveis e solidárias como as familiares", "... o desafio para a Igreja é o de ajudar os casais no amadurecimento da dimensão emocional e no desenvolvimento afetivo..."; e mais adiante, no parágrafo 10 – que em homenagem às bandeiras mencionará pelo menos o amor conjugal – se expressa a queixa de que "muitos tendem a permanecer nos estágios primários da vida emocional e sexual".
O alcance desta passagem representa provavelmente o verdadeiro manifesto da nova igreja de Bergoglio, que não tem mais nada que ver com a teologia e a moral católica. É o verdadeiro manifesto de uma revolução que deve ser proclamada oficialmente. Aquela que suprime a alma e consagra ao ídolo da matéria.
Quando Jesus se encontra com a mulher adúltera, não lhe pergunta qual foi o "caminho" psicológico que a conduziu à traição de seu marido, quais foram as pulsões e as emoções pelas quais se deixou levar. Não faz indagações psicológicas, mas diz-lhe simplesmente: "vai-te e não peques mais". Ordena-lhe recorrer à vontade e orientá-la pelos caminhos do bem. Fala do pecado que supõe a transgressão do mandamento divino. Fala ao espírito da mulher porque o homem, feito à imagem e semelhança de Deus, tem a capacidade de reconhecer o bem e é suscetível a persegui-lo: tem a sabedoria dada por Deus e a vontade para fazê-la frutífera. A transgressão ocorre quando o homem, por soberba, pensa alcançar uma sabedoria superior à que lhe foi dada e ordenar sua própria vontade numa direção oposta à desejada por Deus Criador e revelada por Jesus à consciência do homem individual.
Assim à Igreja foi dada a tarefa de perpetuar a paidéia cristã voltada à salvação da alma através da busca do bem que conduz à virtude e à felicidade duradoura, a despeito das tentações e da tirania da matéria. A Igreja a isto se dedicou durante séculos, apesar das insuficiências e das quedas de seus homens.
Mas eis que na visão do programa sinodal não há nada de tudo isto. Não há nenhuma indicação do bem a realizar e do mal que se deve evitar, da direção que se deve dar à vontade. Não consta a preocupação pela salvação das almas, mas pelo bem-estar dos corpos e das mentes. Não há um apelo à razão humana conformada ao logos divino revelado por Cristo, mas sim a atenção obsequiosa ao irracional que, abandonado a si mesmo, torna-se a anti-razão capaz de iluminar monstros. A Igreja teria que ensinar aquilo que os discípulos já sabem fazer muito bem por si mesmos: secundar impulsos, buscar emoções, trocar o bem pelo bem-estar, deixar de lado a razão e dar lugar precisamente ao irracional, como sugerem os sofistas anteriores a Sócrates e como prega o relativismo moderno. Por outra parte, inclusive fora de um ponto de vista religioso, dever-se-ia recordar com Jaspers que "rebelando-nos contra a razão, eludimos o elemento dialético de reflexão e tornamo-nos bárbaros no sentido grego da palavra, quer dizer, homens que falam uma linguagem sem sentido. Para este tipo de irracionalidade valem as palavras de Mefistófeles: 'despreza saber e razão, faculdades supremas do homem, deixa que o espírito de mentira te enrede cada vez mais em obras de falsidade e de feitiço, e eu já te terei em minhas mãos'".
Certamente a barbárie pós-moderna não precisava de estímulos "pastorais". Para ela trabalham o tempo todo movimentos homossexuais, pornografia e blasfêmia, Marco Pannella e Bill Gates, Elton John e a OMS, o abortismo de qualquer cor, a cultura da morte. Os frutos mais recentes são aqueles inomináveis daquele tipo genial que através da inseminação artificial pôde produzir a gravidez de sua mãe. Sem ter todavia o impulso – o que seria benéfico para ambos – de cegar-se com suas próprias mãos como o inculpável Édipo. E no entanto, e apesar de tudo isto, segundo a visão do mundo propagada por Bergoglio e outros marcianos (no sentido de "aquartelados em Santa Marta"), a Igreja não deve ensinar o que é objetivamente bom, os comportamentos não devem estar orientados ao que é bom para todos e que poderia ser irradiado por todos, mas devem voltar-se à satisfação de todas as forças que correspondem à subjetividade irracional do homem, ao mundo das pulsões e das emoções, a única lente com a qual ler a realidade para adaptá-la às próprias particulares exigências. É evidente que neste ambiente não há lugar para nenhuma outra norma que guie as ações humanas e ofereça inclusive um critério objetivo de juízo.
Por outra parte a massa festiva, faminta dos amendoins demagógicos, parece também totalmente inconsciente do que está acontecendo e incapaz de prever o que se vai passar, entre o ruído da mídia e as vozes persuasivas daqueles sacerdotes que se sentem também felizmente liberados.
Mas alguns na Igreja, assim como entre os fiéis, perceberam a traição ao Evangelho e a sua Igreja milenar, e não querem ser partícipes. Alguns não temem falar alto e claro. São homens que não se deixam intimidar pelas prepotências patronais nem pela indolência de seus irmãos, e muito menos pela propaganda de regime clérigo-comunista. Assim, o resultado do sínodo poderia ser tido como menos certo do que se tentou arranjar. Eis aqui, então, o golpe. Eis aqui a idéia formidável de outorgar veste sacra ao programa político revolucionário. Basta colocá-lo na forma solene do jubileu. Aquele que ocultará, inclusive aos desconcertados e aos ignorantes ou confundidos, a subversão da missão da Igreja sob uma carga de pathos religioso. A misericórdia de Bergoglio, a anistia geral com cancelamento retroativo do pecado, tem que ter uma veste teológica e sacra capaz de aniquilar qualquer resistência.
Para as religiões primitivas a exaltação mística representava também a sublimação do irracional e da carnalidade. O jubileu da misericórdia de Bergoglio aponta para a sublimação dos novos ritos da modernidade assumidos como ritos da nova Igreja do terceiro milênio, ecumênica, atéia e popular, e produzirá pela força mesma das coisas sua consagração definitiva. Um Vangi qualquer poderá forjar à sua maneira a estátua da nova misericórdia para colocar no lugar do São Pedro que abençoa.
A monarquia papal já foi substituída, em meio à indiferença geral, pela ditadura papal. Uma vez dissolvida a assembléia constituinte, se verá. Bergoglio diz ter pouco tempo. Mas não porque, como alguns pensam, já esteja avançado em anos. Pensa ter pouco tempo porque a revolução, para ser eficaz, deve jogar com o fator surpresa e talvez, no intento de domesticar os fiéis e de acostumá-los a tudo, se tenha abusado um pouco das surpresas, e até a náusea. Há pouco tempo porque a resistência, já preparada para o pior, quiçá se esteja organizando, e os frutos da nouvelle vague vaticana começam a parecer demasiado onerosos até para os simpatizantes de primeira hora.
Se as resistências forem rapidamente neutralizadas, depois com a misericórdia que tudo libera, que abre as portas da moral cristã à criatividade do século, todos se sentirão ébrios e liberados. Poder-se-á inclusive derrubar a basílica vaticana como se fez com a Bastilha, embora faça já tempo, ainda ali, que não haja quase ninguém para defendê-la. Enquanto isso, o Jubileu da Misericórdia se anuncia como a Declaração de Direitos de 89: dos que hoje se tornaram, sob renovados despojos, a carta de suicídio de uma civilização."
(Patrizia Fermani, Il Putsch della Misericordia)

domingo, 27 de novembro de 2016

Machado de Assis e o repulsivo herói de nosso tempo

“No conto “Evolução”, de Machado de Assis, publicado em Relíquias da Casa Velha (1906), Inácio, o narrador, fala sobre sua amizade com Benedito. Movido por um “sentimento de compostura” — que “toda a gente discreta apreciará” —, o narrador oculta os sobrenomes, seu e do amigo, mas o faz principalmente para obedecer à intenção machadiana: apresentar ao leitor o “cheiro” do seu personagem, odor comum a muitas pessoas, como se pode concluir da analogia que Inácio faz com as rosas.
Perceba-se que Machado não utiliza o substantivo “perfume”, preferindo o ambíguo “cheiro”, que pode se referir a um odor agradável ou à fetidez. Trata-se de uma imprecisão que se diluirá ao longo da história.
O artificialismo de Benedito começa a ser construído já no segundo parágrafo: ele tinge os cabelos utilizando um processo eficaz, só percebido por quem partilha da sua intimidade. E ainda que todo o resto seja natural — “pernas, braços, cabeça, olhos, roupa, sapatos, corrente do relógio e roupa”, lista Inácio com sutil ironia, não incluindo no rol nenhuma virtude ou valor —, Benedito é, moralmente, “pacato”; e intelectualmente, “menos original”.
Ser “pacato” em termos de caráter é outra das ambigüidades machadianas, exuberantes de sentido, ressaltada pela narração que afeta naturalidade ao utilizar um tom descomprometido para tratar de certo tema crucial.
Ainda no terceiro parágrafo, a característica de ser “menos original” em termos intelectuais começa a ganhar sua verdadeira dimensão — e iluminar o caráter “pacato” de Benedito.
A descrição de Inácio não deixa dúvidas:
Podemos compará-lo a uma hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter idéias de toda parte e de toda sorte, que se sentavam à mesa com a família da casa. Às vezes, acontecia acharem-se ali duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipáticas; ninguém brigava, o dono da casa impunha aos hóspedes a indulgência recíproca. Era assim que ele conseguia ajustar uma espécie de ateísmo vago com duas irmandades que fundou, não sei se na Gávea, na Tijuca ou no Engenho Novo. Usava assim, promiscuamente, a devoção, a irreligião e as meias de seda. […]
A distância de algumas linhas entre a moralidade “pacata” e a “promiscuidade” do personagem não diminui a contradição do relato — antes, agiganta o comportamento passivo do narrador, cujo pasmo se concretizará somente no último parágrafo do conto.
Mas engana-se o leitor que pensa em Benedito como um relativista ou um hipócrita. O caso é mais complexo.
À descrição da amizade que se aprofunda entre esses dois personagens soma-se a recorrência do comportamento que explica a “menor originalidade”, em termos intelectuais, de Benedito.
O personagem que pode oferecer a Inácio a “mesa de Lúculo” — general romano conhecido por seus fastuosos jantares —, mas não a “casa de Platão”, é um colecionador de lugares-comuns. Falando de política, música, jardinagem ou da mulher que amou, utiliza apenas chavões. “Os princípios são tudo e os homens nada” ou as observações de que a rosa “é a rainha das flores” e a mulher amada tinha dentes que eram “verdadeiras pérolas” encontram-se no mesmo patamar: frases vazias de um repetidor incansável.
Na vida social, apesar da riqueza, Benedito move-se não graças à sua própria vontade. Não obedece aos impulsos genuínos de uma personalidade madura, independente, mas, sempre induzido por Inácio, é o amigo que inflama seu desejo de se candidatar a deputado ou se tornar ministro.
O núcleo da narrativa trata, no entanto, de algo ainda mais grave — e obriga o leitor a retornar, seguidas vezes, num crescendo, à questão moral.
Quando se conhecem, Inácio “compara o Brasil a uma criança que está engatinhando” e “só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro”. Os olhos de Benedito brilham e ele exclama: “Bonita idéia!”.
O pensamento se concretiza na vida de Inácio, que tem personalidade própria: meses mais tarde, na Europa, quando os amigos se reencontram, o narrador trata, com investidores ingleses, da construção de uma estrada de ferro no Brasil.
Benedito não esconde seu deslumbramento diante da notícia. E passa a se comportar da mesma forma, buscando informações em ministérios e bancos. O mimetismo de Benedito é evidente — e vergonhoso.
Ali, em Londres, forma-se o deputado Benedito, mas segundo suas medíocres possibilidades:
[…] Recolheu com muito mais gosto os anexins políticos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto arsenal deles. […] Saboreava-os tanto que eu não sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas, que não forçam a reflexão, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.
Não se trata, portanto, de simples amor aos chavões, mas de viver sugando os outros. O “caráter pacato”, eufemismo machadiano, esconde um parasita voraz — de discursos, atitudes e idéias.
Um ano depois, quando há um novo encontro, Benedito, já eleito, expõe a Inácio o que, meses antes, aprendera com o próprio amigo. E lê um trecho do primeiro discurso que pronunciará na Câmara, concluindo:
[…] E aqui repetirei o que, há alguns anos, dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil é uma criança que engatinha; só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro.
Inácio já escutara sua frase antes, citada por Benedito como se pertencesse a ambos. Agora, vendo-a definitivamente seqüestrada, fica “assombrado, desvairado diante do abismo que a psicologia rasga a seus pés”.
Numa conclusão típica de Machado de Assis, Inácio descobre, mais que a personalidade doentia de um plagiário contumaz, “um efeito da lei da evolução”: não a vitória dos que se mimetizam, mas da própria fraude.
O cheiro de Benedito não lembra rosas. Seu “caráter pacato” exala um fedor nauseante. Como o personagem de Mikhail Lérmontov, Benedito é o repulsivo herói do nosso tempo.”

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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O retorno do caos


“Já foi citado nestes “Comentários” um fascinante parágrafo do livro Iota Unum, escrito pelo leigo italiano Romano Amerio e muito admirado por Dom Lefebvre. Amerio desmonta magistralmente em sua obra todos os erros doutrinários do Vaticano II. Na terceira parte do capítulo 42 ele escreve: (1) Se a crise atual tende a desnaturar a Igreja, e se (2) essa tendência é interna à Igreja e não provém de um ataque externo, como o foi em outras ocasiões, então (3) nós estamos caminhando para uma escuridão disforme que impossibilitará o diagnóstico e o prognóstico, e (4) mediante a qual não haverá outro refúgio para o homem senão o silêncio (edição espanhola em e-book, pg. 560; edição inglesa, pg. 713; edição francesa, pg. 579; edição italiana, pg. 594).
Ao se refletir sobre ele, vê-se que contém palavras fortes. Amerio está a dizer que nos encontramos à beira do caos, porque fica claro que (1) a atual crise tanto tende a desnaturar a Igreja, bem como (2) é interna à Igreja, quando o próprio Papa faz declarações tais como: “Não há um Deus católico” e “É preciso que os homossexuais sejam reavaliados”; afirmações cuja deliberada ambigüidade abre as portas para a inversão de todos os dogmas e da moral católica. Mas por que (3) o diagnóstico e o prognóstico católicos se tornarão impossíveis, e (4) como pode não haver mais nada por ser dito? Como pode Amerio chegar a uma conclusão tão sombria?
(3) Porque Nosso Senhor disse: “Eu sou a luz do mundo. Aquele que me segue, não andará nas trevas” (Jo 8, 12), o que sugere fortemente que a massa da população mundial que não O segue já está nas trevas. Ele também diz àqueles que o seguem: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 14), o que sugere fortemente que se o número de católicos convictos reduz a cada dia, então as trevas na Igreja e no mundo estão a se intensificar dia após dia. Tudo bem, alguém pode dizer, mas “trevas” é apenas uma metáfora. Por que o diagnóstico e o prognóstico católicos serão impossíveis de ser feitos?
(3) Porque mais e mais pessoas hoje estão incapacitadas de pensar. Porque desde que Nosso Senhor por meio de Sua Encarnação trouxe a graça sobrenatural para resgatar a natureza ferida e em combate, essa natureza não mais é capaz de se manter em pé sem essa graça. Então, quando os homens viram as costas para Jesus Cristo e para Deus, eles estão a minar a sua própria natureza e a repudiar o senso comum com o qual são dotados pela natureza para pensar, tanto no que diz respeito à relação do conteúdo de seu pensamento com a realidade, quanto no tocante à forma de proceder em conformidade com a lógica. Eles querem se libertar da realidade e da lógica para desafiar Deus, a fim de refazerem o mundo de acordo com suas fantasias.
Segue-se a isso que se Jesus Cristo veio para o resgate da humanidade e da natureza humana através do estabelecimento de Sua Igreja Católica, e se pelo Vaticano II os gentios também acabaram por repudiar esta Igreja, então o processo de laceração do homem por si mesmo, de sua natureza e de seu pensamento deu um passo tão grande com o Concílio, que se tornou virtualmente irreversível. Aqui está, tal como Amerio vê, implícito no Vaticano II, uma “escuridão disforme”, da qual o caos beligerante de opiniões que hoje orgulhosamente cambalhotam na Internet serve como um exemplo e uma antecipação.
Mas, (4) por que não gritar nessa escuridão? Por que “não há outro refúgio para o homem senão o silêncio”? Porque em um estrondo caótico a Verdade simplesmente não pode ser ouvida, exceto, pode-se acrescentar, por umas poucas almas que Deus predestinou para ouvi-la (At 13, 48). Essas almas são eleitas por Deus, não pelos homens, e podem vir dos ambientes mais surpreendentes. Elas não gostam da “escuridão disforme”, e Nosso Senhor as leva para o Pai (Jo 14, 6). Serão um importante auxílio para a Igreja e uma esperança para o mundo.”
(Mons. Richard Williamson, Chaos Returned)

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

As bênçãos e as maldições dos judeus


“Se há algum católico que procure por uma explicação mais profunda sobre a loucura que se segue em Gaza, deveria ler Moisés no Antigo Testamento. Ele diz, por exemplo, que se os israelitas não mantiverem os mandamentos de Deus, serão feridos com “loucura, cegueira e embotamento do espírito” (Dt 28, 28), dentre muitas outras maldições. Como disse o Pe. Meinvielle, os judeus são uma raça teológica, e não podem escapar de seu destino teológico – eles estão ligados a Deus como nenhum outro povo na terra.
No Deuteronômio, Moisés dá aos israelitas suas últimas instruções solenes antes de sua morte e da entrada deles na Terra Prometida. No capítulo 28 (que tem paralelo com Levíticos XXVI), Moisés deixa bem claro o espírito de Jeová (ou Yahweh), o Deus do Antigo Testamento, o mesmo Deus do Novo Testamento: os judeus serão especialmente abençoados (v. 1-14) se obedecerem ao único Deus verdadeiro, e serão especialmente amaldiçoados (v. 15-68) se desobedecerem a Ele. De qualquer modo, eles são uma raça especial, à qual é dado um conhecimento especial do verdadeiro Deus para uma missão especial que devem cumprir para Ele, com uma recompensa especial ou castigo especial recebidos Dele, dependendo de como cumpram essa missão.
Não é de se estranhar que os judeus pensem que sejam especiais! Entre as bênçãos listadas por Moisés, Deus os elevará “acima de todas as nações” (v.1); “os confirmará como um povo consagrado a Ele” (v.9); para ser “posto à frente, e não na cauda” (v. 13). Mas é de se notar que em cada um destes três versículos Moisés faz a superioridade dos israelitas dependente de sua obediência a Deus: se eles “ouvirem a voz de Deus e mantiverem todos os Seus mandamentos” (v.1); se eles “ouvirem Seus mandamentos e andarem pelos Seus caminhos” (v.9); se eles “obedecerem os mandamentos de Deus, os observarem e os porem em prática” (v.13).
Por outro lado, se os israelitas tentarem ser a nação superior segundo seus próprios termos, desobedecendo a Deus (v. 15), então uma infinidade de maldições cairá sobre eles (v. 16-68), e serão desprezados, odiados e espezinhados por todas as nações: serão “dispersados por todos os reinos da terra” (v. 28); serão feridos com “loucura, cegueira e embotamento do espírito” (v. 28 – pensem em Gaza!); o estrangeiro que habita no meio deles “se elevará cada vez mais”, e estará na frente, e eles estarão na cauda (v. 43-44); o inimigo porá um “jugo de ferro” sobre seu pescoço (v. 48); o Senhor Deus os afligirá com todos os tipos de sofrimento (v. 59-61), e eles serão “tirados da terra que entraram para possuir” (v. 63). E sofrerão tudo isso por não haverem mantido e cumprido as palavras da lei de Deus (v. 58).
Quem dera se todas essas bênçãos e maldições anunciadas pelo grande Moisés pudessem fazer com que os israelitas reconhecessem e servissem ao seu Messias e Deus Encarnado quando Ele veio, como fora profetizado por Moisés (Dt 18, 15-18)! Não! Em vez disso, eles o crucificaram, e já por cerca de dois mil anos vêm trazendo em suas cabeças todas as maldições de Moisés. Eles fizeram deles mesmos a mais desprezada e oprimida nação da terra, e perderam seu direito à Terra Prometida, sendo expulsos e dispersos por toda parte desde a destruição de Jerusalém em 70 d.C.
Nem a recuperação de sua posse da Terra Santa significa que a maldição está sendo levantada, pois eles estão fazendo isso nos seus próprios termos, e não nos de Deus, e então essa retomada se torna parte da maldição. Como disse Platão (Górgias), é melhor sofrer do que cometer uma injustiça, e, portanto, segundo a realidade espiritual, deve-se ter ainda mais compaixão pelos israelenses do que pelos palestinos. Paciência. Nós “todos temos pecados e precisamos da glória de Deus” (Rm 3, 22-23).”
(Mons. Richard Williamson, Moses Explains)

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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O legado de Lutero

I
Em breve começarão as comemorações do quinto centenário do chamado Dia da Reforma, no qual Lutero cravou suas célebres 95 teses na porta de uma igreja de Wittemberg. Aquelas teses, que destruiriam a unidade da fé, mudariam também traumaticamente as concepções filosóficas, políticas, econômicas e culturais vigentes, até o ponto de transformar a reforma luterana em um dos fatos mais importantes da História. A chamada Reforma, ao contrário do cisma do Oriente, não foi uma mera controvérsia eclesiástica, senão que supôs uma expressa rejeição ao Dogma e à Tradição, assim como uma negação do valor dos sacramentos. E os dogmas religiosos não são, como o ingênuo (crente ou incrédulo) pensa, meras enteléquias sem consequências sobre a realidade, senão condensação de verdades sobrenaturais que exercem um influxo muito fundo sobre nossa vida. Não se pode cortar o caule de uma roseira e pretender que as pétalas da rosa não murchem.
Durante todo um ano, vamos receber um bombardeio espantoso sobre as pretensas bondades do legado luterano. Nós, na série de quatro artigos que hoje iniciamos, oferecemos às três ou quatro leitoras que todavia nos suportam um modesto antídoto contra tal avalanche. Certamente, a Reforma de Lutero chegou quando a decadência da Igreja (minada pelo concubinato do clero, pela rapacidade e avareza de muitos religiosos e pela simonia institucionalizada) alcançava cotas lastimáveis. Mas não se dá remédio aos erros caindo em um maior; e a parábola evangélica do joio e do trigo já nos adverte contra o perigo de arrancar o joio antes do tempo (que foi, exatamente, o que quis fazer Lutero, conseguindo tão somente dispersá-lo).
No fundo daquele furor reformista de Lutero palpitava o fracasso espiritual de um homem que havia feito esforços ímprobos por alcançar a união com Deus. Mas todos seus sacrifícios, penitências e abnegações haviam sido em vão; e continuavam abrasando-o as concupiscências mais torpes (em cuja descrição, por pudor, não entraremos), que lhe causavam enorme angústia e ansiedade. Lutero considerou então (fazendo uma projeção teológica de suas próprias debilidades) que o homem pecador nada podia fazer para alcançar a salvação. Assim foi que concluiu que Cristo já havia sofrido por nossos pecados; e que, portanto, já estávamos perdoados. De modo que, para salvar-nos, bastava que se nos aplicassem os méritos de Jesus por meio da fé.
Esta justificação através exclusivamente da fé se funda em uma concepção pessimista da natureza humana, que nega a liberdade humana para vencer as tentações e também a graça dos sacramentos. O homem luterano, sem capacidade para sobrepor-se ao pecado e iluminado pela sola fide, suprime a mediação da Igreja; e será sua consciência, iluminada pelo Espírito Santo, que ordenará sua própria vida religiosa e interpretará livremente as Escrituras. E, como escreveu o grande Leonardo Castellani com seu habitual gracejo, “desde que Lutero assegurou a cada leitor da Bíblia a assistência do Espírito Santo, esta pessoa da Santíssima Trindade começou a dizer umas asneiras espantosas”. O livre exame luterano desencadeou a enfermidade da inteligência denominada diletantismo, que depois contagiou, por processo virulento de metástase, toda a cultura ocidental, primeiramente com as roupagens do fátuo endeusamento intelectual, por último com os farrapos lastimáveis do desejo de saber sem estudar e da soberba da ignorância. As consequências da Reforma luterana no plano filosófico e moral não se fariam esperar.
II
Ao afirmar o princípio do livre exame, que atribui ao homem uma faculdade onímoda para ordenar sua vida religiosa, Lutero antecipa o imperativo categórico de Kant, que proclamaria a suficiência absoluta da vontade humana para emanar normas de conduta, estabelecendo-se assim o homem como único legislador e árbitro de sua vida moral. Por sua vez, com sua tese do servo arbitrio, que julga o homem incapaz de eleger o bem, Lutero se torna involuntariamente o promotor do niilismo filosófico e ético.
Lutero, discípulo dos nominalistas Wesel e Biel, inseriu no pensamento de seus mestres um asfixiante pessimismo antropológico. Julgava que a inteligência humana, danificada pelo pecado original, estava incapacitada para abstrair o universal e pensar nas coisas do espírito; mas, ao mesmo tempo, considerava que era bastante apta para desenvolver-se com pragmatismo no mundo. Inevitavelmente, um homem eximido de discernir uma ordem moral pode refugiar-se em sua consciência subjetiva. O bem já não será uma categoria que o homem discerne através da razão, senão o que em cada momento determine que é bom (ou, dito de modo mais realista, o que lhe convenha) e o mal, o que entenda que seja mal (ou seja, o que lhe prejudique). Danilo Castellano observa com perspicácia que esta consideração da consciência permitirá depois a Rousseau afirmar no Emílio que “a consciência é a voz da alma, como as paixões o são do corpo”. Esta consciência, reduzida a mera pulsão subjetiva, acabará conformando ao homem de nossa época, uma massa disforme instintiva sem guia nem freio, órfão de razão e responsabilidade. Um homem que pauta suas decisões (que, inevitavelmente, já não serão morais) pela pura espontaneidade, que é a que lhe permite afirmar-se e ser “autêntico”, e até crer (risum teneatis) que é livre como o vento, embora seja escravo de suas paixões. E da consciência instintiva ao subconsciente freudiano há somente um passo.
Inevitavelmente, esta concepção luterana do homem, incapacitado para abstrair o universal, imporá o abandono da metafísica, que posteriores correntes filosóficas declararão inacessível (e, com o tempo, inútil). Como depois afirmaria Hegel, “a verdadeira figura em que existe a verdade não pode ser senão o sistema científico dela”. Ou seja, cada escola filosófica deve criar um sistema que se erija em verdade (naturalmente, refutada pela escola seguinte). Assim, conclui-se na extravagância de pensar que a razão humana é suficiente para dar fundamento a toda a vida do homem, restando excluída a ordem sobrenatural. E, com o tempo (porque os sistemas filosóficos, ao faltar-lhes o apoio de uma verdade universal, se tornam pendulares), conclui-se na extravagância contrária, segundo a qual a razão humana não tem autoridade para fundamentar a vida, o que desembocará nos sucessivos ceticismos, relativismos e niilismos do pensamento contemporâneo.
Como defende Belloc em Europa e a fé, “ao negar-se a realidade e até o ser, criam-se sistemas que se movem em um vazio atroz, para assentar-se finalmente em uma negação e desafio universais lançados contra toda instituição e todo postulado”. O desaparecimento do saber metafísico acaba degenerando na busca de verdades “sociológicas”, sempre conjunturais e cambiantes, carentes de fundamentação real. E, cedo ou tarde, propicia malfomações e excrescências irracionais; pois, lá onde falta a metafísica, afloram como cogumelos um sem-fim de superstições enlouquecidas, fanáticas e imprevisíveis. E surgem então, inevitavelmente, conceitos políticos mórbidos. Porque o legado de Lutero tem também, certamente, consequências políticas.
III
Se a inteligência humana, danificada pelo pecado original, está incapacitada para abstrair o universal, não pode aspirar a entender as leis da política. Deste modo, a doutrina de Lutero se torna legitimadora do Estado moderno, concebido como instrumento para ordenar a vida social e reprimir a intrínseca maldade humana, transformando suas leis positivas em norma ética. Frederick D. Wilhemsen nos chama a atenção para o paradoxo de que Lutero, que começou insuflando a rebelião dos camponeses alemães contra seus príncipes (pensando que os camponeses o apoiariam em sua luta contra Roma), acabou exortando os príncipes a esmagarem do modo mais implacável as revoltas camponesas (depois que os príncipes adotassem sua doutrina). “No fim das contas – escreve Wilhemsen – o luteranismo prega que o cidadão tem que obedecer ao príncipe em tudo, de uma maneira cega, pois o cristão sabe que a autoridade do príncipe vem de Deus, mas não sabe nada da lei natural, devido à corrupção de sua razão, o único instrumento capaz de descobrir essa lei”.
Certamente, a monarquia já havia tido tentações de fazer-se absoluta antes de Lutero. Mas os reis estavam limitados por uma lei humana, o costume, e por uma lei divina que não podiam violar. Ambas barreiras serão anuladas por Lutero, que em sua obsessão por combater o papado transforma o rei em representante de Deus na terra, afirmando que todo autêntico cristão está obrigado a submeter-se incondicionalmente a ele. A monarquia, antes de Lutero, se havia acomodado à sentença de Santo Isidoro (“Rex eris si recte facias; si non facias, non eris”); e assim havia chegado a ser, nas palavras de Donoso, “o mais perfeito de todos os governos possíveis, por ser uno, perpétuo e limitado”. Ao afastar esses limites que constrangiam o monarca, Lutero instaura a deificação do poder civil. O monarca se torna objeto de adoração cega; seu poder já nunca mais se assentará na “auctoritas” nem na “potestas”, senão que será puro exercício da força sem restrições (ou sem mais restrições que os regulamentos que ele mesmo evacua, submetidos a sua conveniência e capricho).
Assim se corrompe o princípio de autoridade, até sua confusão com a mera força despótica. Esta infração da ordem política – afirma Belloc – iria ter um efeito explosivo: o poder que mantinha as coisas unidas se tornará a partir desse momento um poder que separa cada uma das partes componentes. Com efeito, o poder absoluto mostrará logo, sob uma falsa fachada unificadora, sua íntima vocação desagregadora, fazendo da disputa pelo poder, a tensão social e a guerra constante o clima natural de uma Europa dividida.
Naturalmente, a doutrina luterana sobre a soberania absoluta dos reis será a que depois, convenientemente deslocada de sujeito, fundamentará o princípio da soberania popular. A onipotência do príncipe se transforma em vontade popular soberana, sua essência continua sendo a força despótica, capaz de determinar mediante maiorias o bem e a verdade segundo sua conveniência e capricho.
Wilhemsen defende que “a passividade do alemão diante de seu governo, seja este monárquico, imperial, republicano ou nazista, reflete uma teologia e uma religião cuja negação da lei natural exige que o homem obedeça passivamente, sem perguntar o porquê”. Suspeito que esta afirmação que Wilhemsen circunscreve ao alemão poderia se estender em geral ao homem contemporâneo, que crendo-se mais soberano que nunca está na realidade submetido passivamente a poderes ilimitados que já não controla. Começando com o poder do dinheiro, que o protestantismo liberou.
IV
A rebelião de Lutero daria asas a outro clérigo subversivo, Calvino, que como ele afirmou a depravação da natureza humana e negou que o homem tivesse livre arbítrio. Calvino acrescentou, no entanto, uma dimensão nova à doutrina luterana, afirmando a monstruosa doutrina da predestinação. Porém, embora o homem nada possa fazer para salvar-se, pode – segundo Calvino – saber antecipadamente qual é seu destino, pois a prosperidade material se estabelece como sinal de afeto divino. Esta doutrina abominável desencadearia a avareza dos abastados, que começaram a agitar as massas contra o Papado; e, enquanto as massas estavam entretidas agitando-se e desfrutando da anarquia moral gerada pela ruptura com Roma, os ricos as despojaram de suas terras. “É sempre vantajoso para o rico – afirma Belloc – negar os conceitos do bem e do mal, objetar as conclusões da filosofia popular e debilitar o forte poder da comunidade. Sempre está na natureza da grande riqueza (…) obter uma dominação cada vez maior sobre o corpo dos homens. E uma das melhores táticas para isso é atacar as restrições sociais estabelecidas”. Aos fazendeiros e possuidores de grandes fortunas havia chegado, com efeito, uma grande oportunidade com a Reforma. Em todos os lugares onde a riqueza se havia acumulado em umas poucas mãos, a ruptura com os antigos costumes foi para os ricos um poderoso incentivo. Fizeram como se seu objetivo fosse a renovação religiosa; mas seu verdadeiro fim era o Dinheiro. E assim conseguiram que seu desmesurado afã de lucro resultasse menos insuportável aos olhos dos pobres, entretidos com o pirulito da renovação religiosa. A doutrina católica havia combatido o industrialismo e a acumulação de riqueza; mas o protestantismo fez do afã de lucro um sinal de salvação.
E, enquanto crescia o afã de lucro, consumou-se o “isolamento da alma”, que Belloc considera com razão o mais nefasto legado da Reforma e define como uma “perda do arrimo coletivo, do são equilíbrio produzido pela vida comunitária”. Com efeito, o protestantismo introduziu um isolamento das almas que, ademais de gangrenar a teologia, a filosofia, a política, a economia e a vida social, destruiu a unidade psíquica da pessoa. Pois, ao questionar toda instituição humana e toda forma de conhecimento, levou os seres humanos a um desenraizamento crescente e a uma exaltação do individualismo cuja estação final é o desespero, como comprovamos nas sociedades modernas, integradas por indivíduos enfermos de solipsismo e, ao mesmo tempo, padronizados e amorfos. E a dissolução da religião coletiva facilitaria, enfim, o levantamento de sucessivas idolatrias substitutas, chamadas pomposamente ideologias, cujo cálice amargo continuamos hoje consumindo até a borra.
E, para terminar – last, but not least – não podemos deixar de nos referir, entre as consequências do luteranismo, a sua iconoclasia furibunda, que geraria uma arte inane e acabaria desembocando no feísmo mais exasperado, puro vômito de uma esterilidade presunçosa, que denominamos eufemisticamente “arte contemporânea”. Se a tradição católica, em seu esforço por penetrar melhor o conteúdo da Revelação, havia fomentado uma arte belíssima que encontra seu paradigma na beleza imaculada de Maria, a reforma protestante, ao declarar a ilicitude do culto à Virgem e aos santos, engendraria uma arte fossilizada e desumanizada, quando não vesanamente niilista.
Todas estas delícias do legado luterano, e algumas outras que nos ficaram no tinteiro, vamos celebrar neste centenário tão divino da morte que se aproxima.”
(Juan Manuel de Prada, El Legado de Lutero)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A Igreja apodrecida pelo liberalismo


“A expressão “igreja Conciliar” reflete claramente uma realidade, algo real, a saber, a massa de pessoas e instituições que afirmam ser católicas, mas que na realidade estão a deslizar para a prática da nova religião humanista do Concílio Vaticano II. “Estão a deslizar” porque o conciliarismo, ou neomodernismo, é projetado precisamente para permitir que os católicos mantenham as aparências da Fé enquanto esvaziam a substância desta. Os católicos, no concreto, podem realizar esse processo de modo tão rápido ou tão lento quanto desejem, embora não precisem levá-lo até a sua conclusão; mas o conciliarismo, no abstrato, é totalmente oposto ao catolicismo e, se concluído, destrói tanto a Fé como a Igreja, conforme o fim para o qual foi planejado.
O processo não é difícil de se observar e de se entender, mas os liberais que hoje lideram a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, enquanto buscam a reconciliação com os conciliaristas em Roma, têm feito o melhor que podem para confundir a questão que envolve a igreja Conciliar e a Igreja Católica. Por exemplo: dirão eles que a Igreja Católica é visível, e a igreja Conciliar é a igreja visível; logo, a igreja Conciliar é a Igreja Católica – um argumento descartado anos atrás por Monsenhor Lefebvre, que o classificou como “infantil” (há muitas igrejas visíveis, e isso não faz com que sejam católicas). E igualmente infantil é o argumento pelo qual se defende que há apenas uma Igreja, e então a igreja Conciliar e a Igreja Católica devem ser uma só e a mesma (há, porém, milhares de igrejas falsas).
A verdade não é tão complicada. A Igreja Católica é um organismo vivo, é divina e humana, tal como seu Fundador, Jesus Cristo. Enquanto divina, como Sua Esposa Imaculada, ela não pode ser corrupta e nem corrompida; mas enquanto composta por seres humanos pecadores, ela pode estar, como qualquer outro organismo vivo, em estado parcial de putrefação. Assim, uma maneira simples de entender como a igreja Conciliar se relaciona com a Igreja Católica, é pensar em uma maçã em estado de putrefação.
Por um lado, a parte apodrecida pertence à maçã. Toda ela já foi a maçã. É uma corrupção da maçã, um parasita sobre a maçã, não poderia existir sem a maçã e permanece firmemente aderida à maçã, a menos que e até que caia. Do mesmo modo, o conciliarismo pertence à Igreja Católica na medida em que tudo na conciliar já foi católico. É uma corrupção da Igreja Católica, um parasita sobre a Igreja Católica, não poderia existir sem a Igreja Católica, e permanece firmemente aderido a alguma parte da Igreja Católica, a menos que e até que ela destrua essa parte, tal como foi projetada para fazer.
Por outro lado, a parte apodrecida não pertence à maçã. Nenhuma maçã foi criada para ser uma maçã apodrecida. Toda essa parte é uma transformação de alguma maçã, uma corrupção e um parasita da maçã, transformando-a em algo pior, resultando em algo muito diferente da maçã, algo que ninguém eu seu estado mental normal sonharia em comer ou em dizer que não é diferente da maçã. Do mesmo modo, o conciliarismo não pertence à Igreja Católica. É uma corrupção de algo católico, e é um parasita sobre tudo o que seja católico. Ele transforma a Igreja Católica (uma parte humana sua) em algo pior, resultando em algo essencialmente não católico, que nenhum católico em seu estado mental normal poderia chamar de católico, ou com que do mesmo modo iria querer se associar.
Em síntese, o conciliarismo é a parte apodrecida, e a “igreja Conciliar” é a única Igreja divina e humana que está sendo apodrecida em um ou outro de seus aspectos humanos. É claro que a Igreja Católica durará até o fim do mundo (Mt 28, 20), enquanto que a “igreja Conciliar” é meramente uma em uma longa lista de igrejas parasitas que surgiram ao longo dos séculos, que vivem do que elas apodrecem e apodrecem aquilo em que elas vivem. Uma praga sobre todos os liberais, confusos e que confundem!”
(Mons. Richard Williamson, “Igreja Conciliar”?)

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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O católico liberal


“Em princípio, o ‘católico liberal’ não gosta de falar de princípios. Ele se atém ao campo dos fatos, pois aí ele pode mais facilmente usar seus talentos. Mas já aqui somos obrigados a crer que a mediocridade de seu discernimento da verdade naturalmente o levará a uma mediocridade na ação (a menos que a real teoria de justificativa de sua atitude seja simplesmente seu medo de agir e lutar).
De toda a forma, sabemos que qualquer ação ou vigoroso combate humano necessariamente pressupõe a percepção de um bem a ser obtido ou conservado. Esta é a única razão para o esforço; caso contrário, reagiríamos apenas um pouco, ou nem mesmo o faríamos. O mundo moderno chama isso de ‘lei da motivação’. É preciso amar profundamente para estar fortemente motivado; mas só se ama na medida em que se compreende a importância ou valor de um determinado bem. Não é então difícil de entender que haverá apenas uma fria indiferença, ou pelo menos, uma convicção muito fraca a respeito da verdade. Isto, por sua vez, produz uma pusilanimidade e uma covardia na ação. Este é freqüentemente o caso do ‘católico liberal’. Adicionemos a isto que o fato de seu exagerado desejo de conciliação, além de sua fé enfraquecida, o faz correr o risco de se meter em transações ambíguas e firmar lamentáveis compromissos. Isto tem como conseqüências recuos vergonhosos, capitulações e uma irreparável traição. As últimas poucas décadas testemunharam tudo isso. Mesmo assim, o ‘católico liberal’ não acredita em nada disso. Ele continua, ao contrário, expressando seu orgulho em sua solicitude para o que chama de ‘um desejo de paz’, ‘conduta prudente’, ‘atitude caridosa’, ‘sentido de realidade’, ‘política de resultados’. Observemos isso mais cuidadosamente.
Desejo de paz – O ‘católico liberal’ deseja a paz a qualquer custo. Contudo, esse custo é freqüentemente muito alto, pois ele acaba sendo, na concepção do ‘católico liberal’, o custo da verdade, dos direitos de Deus e da Igreja. Certamente todo católico deve trabalhar para a paz, isto é, para a tranqüilidade da ordem em todos os domínios. ‘Bem-aventurados os pacíficos ...’ Mas, como explica o Cardeal Pie, a paz é somente possível na verdade, pois a ordem é somente possível se as coisas estiverem dispostas de acordo com as exigências de suas relações mútuas. A paz entre os homens é portanto obtida quando suas atividades são ordenadas de acordo com a virtude. Em particular, as virtudes da justiça e caridade asseguram um respeito a todas as leis e poderes legítimos. Ora, a paz entre a Igreja e o mundo é impossível aqui embaixo: ‘Meu filho, quando entrares no serviço de Deus ... prepara a tua alma para a tentação’ (Eclo 2:1), ‘Todos os que querem viver piamente em Jesus Cristo, padecerão perseguição’ (II Tim 3:12).
Nosso Senhor claramente previu isso quando disse: ‘vocês serão odiados por causa de meu nome.’ Este é, de fato, o privilégio do católico, que sempre e em todo lugar atrai um ódio violento e é acusado de hipocrisia pelo próprio mundo que ele condena. A Igreja militante continuará a declarar guerra enquanto houver almas a salvar. Como resultado, o pacífico é sempre chamado a estar preparado para a guerra contra os destruidores da ordem na batalha contra a concupiscência, o mundo e o demônio. É por causa do amor à ordem e à paz que o pacífico ataca a ignorância, o erro e as paixões, a fim de salvar almas. O ‘católico liberal’ ao contrário não entende as verdadeiras condições para a paz, que é a permanência na ordem, pois a desordem invade sua mente, desordem que está presente até mesmo em seu nome. É a concordância de vontades o que ele deseja acima até, e apesar da, divergência e oposição de mentes. A única coisa que ele obtém é uma tolerância superficial e provisória em que o católico tem tudo a perder e nada a ganhar. Ele não obtém nem a verdadeira paz nem a estima de seus adversários. Repetidamente você o vê estendendo a mão com uma irritante insistência, oferecimento que estamos dispostos a recusar com desprezo! Não, o ‘católico liberal’ não é um pacífico, mas sim um pacifista. Ele tem duas características principais: uma aversão pelos seus irmãos católicos e um perfeito entendimento com o inimigo.
Atitude caridosa – Caridade! Caridade! Esta é a desculpa que o ‘católico liberal’ tenta apresentar. A verdadeira caridade é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor a Deus. Esses dois amores não são separáveis. Amamos a Deus e ao próximo como Deus deseja, isto é, visando a um fim e de uma forma que Ele quer, i.e., por e em Jesus Cristo e a Igreja. A verdadeira caridade sabe que o primeiro bem é a verdade; propagar isto é pois a primeira obrigação. Porque amamos fervorosamente, odiamos vigorosamente; juramos nosso inexplicável ódio ao mal, ao erro e ao pecado, e procuramos destruir cada obstáculo que se opõe à missão apostólica da Igreja. Comentando sobre a passagem de São Paulo, facientes veritatem in caritate, praticando a verdade na caridade, Cardeal Pie escreve: ‘A caridade implica antes de tudo o amor a Deus e à verdade. Ela não hesita em puxar a espada por uma causa divina, sabendo que somente com golpes duros e incisões salutares pode se vencer ou converter o inimigo.’ Será que o ‘católico liberal’ ama a Deus sobre todas as coisas quando desconsidera Suas verdades e ridiculariza Suas leis imprescritíveis? Amará ele seu próximo quando não o auxilia a se libertar dos erros e o ajuda através de verdades sobrenaturais? É possível amar o doente ignorando sua doença ao invés de curá-la? As almas são amadas quando mesmo as verdades elementares, que são necessárias para a salvação, são recusadas a elas para não lhes causar ansiedade? Não, a caridade do ‘católico liberal’ é mal orientada, quando e se não completamente deformada. Ele é mais um pregador hipócrita da caridade do que verdadeiramente caridoso, pois é todo doce com o incrédulo, mas amargo como fel com o católico. Seu coração está voltado para a ‘esquerda’, como suas idéias. Ele não tem nada para dar aos verdadeiros católicos senão amargura e violência. ‘Seu ardor é amargo, suas discussões ríspidas, sua caridade agressiva’ (Dom Sarda).
Conduta prudente – Pelo menos, o ‘católico liberal’ é ‘prudente’! Ele na prática assume a definição que criou: não é ela a virtude par excellence do ‘justo meio’ e aquela que regula todas as outras virtudes? Com uma modéstia que lhe causa satisfação, repete sem cessar que ele não compromete o bom objetivando idioticamente o perfeito. Em vez disso, ele sabiamente se contenta como o ‘possível’. Mas isso o faz mais justo? A prudência é definida como: recta ratio agibilium, que pode ser traduzida como a ‘arte de obter êxito,’ isto é, a habilidade de atingir o objetivo. A prudência nunca perde sua perspectiva que é o fim último do homem e do universo. Portanto, ela analisa todos os meios que auxiliarão na sua obtenção. Ela procura o maior bem possível numa dada circunstância, e, entretanto, considera isso apenas como um degrau para o fim último, e não como um fim em si mesmo. Ela cuida do doente de uma maneira útil, nunca todavia cedendo ao mal, a menos que seja obrigada a tolerá-lo por enquanto, aguardando um momento favorável para triunfar ainda mais completamente. A prudência certamente se dobra às circunstâncias, mas sempre para obter um bem maior. Ela trabalha incansavelmente em sua direção, intensificando todo bem possível. Ela nunca se senta resignada em ser conquistada, mas sempre acaba sendo o conquistador. Ela procura o sucesso, nunca desdenhando da força, mas controlando-a e usando-a para obter o fim em vista. A prudência do ‘católico liberal’, por outro lado, é sempre vulgar porque é míope, nunca vendo muito alto ou muito longe. Falta-lhe sabedoria que é o ‘conhecimento das mais altas causas’. Ele é débil e hesitante pois não há convicção na fé. Toda a confiança é colocada nas modestas e limitadas condições humanas, e nenhuma em Deus e Sua graça. Esta não é senão a prudência do mundo ou a ‘prudência carnal’. Ela não deseja nenhum tipo de batalha; ela desdenha a força em vez de colocá-la a serviço da verdade. Esse tipo de prudência somente sabe como capitular. Fundamentalmente, ela não é senão medo e mesmo covardia.
Sentido de realidade – O ‘católico liberal’ crê e mesmo proclama que é dotado de um ‘senso de realidade’, na falta de um ‘senso católico’. Ele não se interessa por teoria, mas se considera prático. Alega conhecer seu tempo, suas aspirações e necessidades. Para ele, a verdade deve ser apresentada numa forma inteiramente diferente às pessoas agora amadurecidamente impregnadas de liberdade. Ele pressiona a Igreja a levar em conta o progresso e Se colocar à sua disposição. Contudo, este infeliz indivíduo não tem o senso da realidade especulativa, nem natural nem sobrenatural, dado seu amor incrivelmente fraco pela verdade. Tampouco tem ele o senso da realidade prática, pois, surpreendentemente, falta-lhe psicologia. Ele pensa que conhece as aspirações de seu tempo, mas na realidade é totalmente ignorante das profundas aspirações de todos os tempos; por exemplo, a da inteligência por verdades universais e a da vontade pelo bem soberano. Ele não entende a invencível atração que a verdade exerce sobre toda e qualquer alma. Tendo uma excessiva confiança nos meios humanos, ele se esquece de se socorrer Naquele que fez o céu e a terra. Ele despreza a graça onipotente de Jesus Cristo, e tem em particular uma fé muito superficial na profunda afinidade entre a alma sacerdotal e a alma batizada. Por isso, seus sermões, se ele é padre, são ineficazes e enfadonhos, pois coloca ênfase na eloqüência e persuasão, em vez de na virtus Christi. Em vez de falar com autoridade de representante de Deus e embaixador de Cristo, ele se faz pequeno, humilde e suplicante. Conseqüentemente, obtém somente o sucesso humano e às vezes até mesmo indiferença e desprezo. Falta-lhe também psicologia frente a um adversário obstinado. Ele pensa que, com a capitulação freqüente ante ao adversário, ele receberá em troca mais, mas de fato, ele perde terreno a cada dia. Isto é o que ele chama de o ‘possível’, de ‘mal menor’. Mesmo assim, quando ele faz dessa atitude um sistema, o ‘mal menor’ se torna o maior de todos os males, e o ‘possível’ se encolhe sem cessar, pois quanto mais ele recua, mais o adversário avança e conquista o seu terreno. Essa é a história da resistência do ‘católico liberal’ nos últimos 50 anos. Assim, hoje chegamos a aceitar e respeitar a lei do secularismo! Este é o resultado de tal política e é enormemente triste!
Assim, esse dissimulado ‘justo meio’ se move sem cessar, sempre na direção do mal maior. É surpreendente ver como o ‘católico liberal’ se colocou entre a Igreja e a Revolução. Ele continuamente se aproxima do lado da revolução e se distancia cada vez mais da Igreja. Realmente, nesse sentido ele avança continuamente na direção da conformidade com o povo. Assim, o ‘católico liberal’, cuja intenção era a de conciliar a Igreja com a Revolução, tornou realmente possível a vitória da Revolução. Ele não ganhou nada da esquerda, perdeu muito da direita, não conseguiu nenhuma conversão, facilitou muita perversão e causou até mesmo uma multidão de apostasias. Ele nos acusa de colocar a Igreja em perigo, e ainda assim é Ela sozinha que se defende perante um mundo hostil, simplesmente anunciando o que Ela acredita e deseja. Ao contrário então, nós o acusamos de trair a Igreja. Ele coloca a fé em perigo ao destruir a resistência católica ou, por covardia, ao fazer um pacto com o próprio adversário.
Ao ‘católico liberal’ não falta inteligência. Ele tem uma eloqüência, um talento e um conhecimento mais perfeitos que qualquer um. É contudo sua posição que é imbecillus, segundo o significado latino. Em lugar de construir sobre a pedra, fundatus supra firmam petram, ele constrói sobre a areia movediça da liberdade em que ele é engolido. Sua posição é totalmente contraditória, pois ele deplora os próprios efeitos das causas que ama, e deseja combater a impiedade, a imoralidade e a heresia sem perceber que seu próprio liberalismo o conduz para essas conclusões.”
(Pe. Augustin Roussel, Libéralisme et Catholicisme)

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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Vida e obra de Robert Musil

“Sessenta anos depois de sua morte – lembrados em 15 de abril –, Robert Musil continua ganhando em importância; ano a ano, ensaio a ensaio.
Quando o segundo milênio dava seus últimos suspiros a Alemanha fez o que todo mundo fez... Atendendo à necessidade dos registros – que é interessante e polêmica – e explorando o fim do milênio na justificativa de preservar a memória – e aproveitando para armar debates e aquecer as vendas –, a Alemanha também listou suas obras-primas... O resultado? O melhor romance alemão do século XX – na opinião de 33 autores, 33 críticos e 33 germanistas dos mais conhecidos e importantes do país; que votaram, cada um, em três títulos – é O homem sem qualidades (Der Mann ohne Eigenschaften) de Robert Musil.
Setenta e seis romances receberam voto. E o romance de Musil apareceu em primeiro lugar, com uma vantagem confortável sobre o segundo colocado: O processo, de Kafka. Pausa para a curiosidade... O terceiro da lista – e não vou promover contendas, apenas mencionar resultados – foi A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Desculpem, mas não posso me furtar ao questionamento; o Doutor Fausto é muito mais romance, embora tenha aparecido apenas em décimo lugar, depois de Os Budenbrook, inclusive, sétimo colocado, também de Thomas Mann... Em quarto lugar ficou Berlim Alexanderplatz, de Alfred Döblin; o quinto colocado foi O tambor, de Günter Grass; o sexto, Aniversários (Jahrestage), de Uwe Johnson – 2000 páginas inéditas no Brasil.
Mas voltemos a Musil, primeiro na lista e foco desse texto...
A vida
Robert Edler von MUSIL (1880-1942) nasceu em Klagenfurt, na Áustria, e morreu pobre – quase esquecido e dependendo da ajuda de amigos – em Genebra, na Suíça, em plena II Guerra Mundial.
Aos dez anos Musil entrou para a Escola Militar em Eisenstadt, destinado à carreira de oficial. Estudou durante mais de cinco anos em instituições do exército até chegar à Academia Militar de Viena, em 1897. Um ano depois, Musil decidiu largar a carreira de oficial e passou a estudar Engenharia em Brünn, obtendo o diploma da graduação em 1901. Depois de uma temporada em Stuttgart, cursou Filosofia e Psicologia experimental na Universidade de Berlim, doutorando-se em 1908 com tese sobre Ernst Mach (1838-1916), físico e filósofo austríaco. Os estudos de Mach sobre o fenômeno da descontinuidade e da dissociação, assim como suas teses a respeito do “eu condenado” (unrettbares Ich), seriam decisivos na formação de vários escritores vienenses, entre eles Arthur Schnitzler e o próprio Musil.
De 1914 a 1918, Musil participou ativamente da I Guerra Mundial na condição de oficial de Infantaria do exército austríaco. Ao final dos combates chegou a capitão, condecorado com a principal ordem de guerra do moribundo império (Ritterkreuz des Franz-Josephs-Ordens). Só a partir de 1923, e já morando em Berlim, é que Musil passaria a viver exclusivamente de sua condição de escritor.
A ascensão do nazismo, em 1933, obrigou o autor a se mudar para Viena e, mais tarde – depois de se sentir numa ratoeira, conforme ele mesmo chegou a escrever em seu diário –, para Genebra, onde veio a falecer em 15 de abril de 1942.
A arte
A publicação da primeira obra de Musil – O jovem Törless (Die Verwirrungen des Zöglings Törless, 1906) – só foi levada a cabo através do incentivo do crítico berlinense Alfred Kerr. O sucesso posterior, e também a aprovação da crítica, foi imediato. No romance, Musil detém-se – com admirável agudeza psicológica – na consciência de um estudante de internato, às voltas com situações que antecipam – de maneira genial e visionária – o sadismo e a opressão nazistas. O filme baseado no livro, realizado sessenta anos depois da publicação da obra, foi um grande êxito na Alemanha envolvida com a expurgação de um passado tenebroso.
As reuniões, de 1911 – duas novelas – e Três mulheres, de 1924 – três contos esticados –, foram as outras duas obras ficcionais publicadas por Musil antes de O homem sem qualidades. O drama Os entusiastas (Die Schwärmer, 1921) e a comédia Vicente ou A amiga dos homens importantes, de 1923, provaram que a pena de Musil também era afiada no teatro. O espólio literário do autor ainda revelaria várias obras de qualidade, entre elas o conto O melro (Die Amsel).
O homem sem qualidades é a síntese final, tanto da obra quanto da vida de Robert Musil. Todas as obras anteriores do autor são uma espécie de preparação ao Homem sem qualidades, toda sua vida parece ter sido direcionada para a escritura final do romance. Contando apenas o tempo ativo, Musil trabalhou em sua obra-prima durante cerca de 15 anos, de 1927 até o dia da morte. A primeira parte foi publicada em 1930. Logo depois de ter sido lançada a segunda parte – em 1933 –, a obra foi proibida tanto na Alemanha quanto na Áustria. A terceira parte, ainda organizada pelo autor, seria publicada em 1943, na Suíça. A edição de 1952, traria o acréscimo de um quarto volume, organizado por Adolf Frisé e baseado nas notas deixadas pelo autor.
A ação de O homem sem qualidades transcorre na Áustria imperial, dissimulada sob o nome de Kakânia. O romance constitui um vigoroso painel da existência burguesa no início do século XX e antecipa, de certa forma, as crises que a Europa viveria apenas na segunda metade daquele mesmo século. A obra é – em suma – o retrato ficcional apurado de um mundo em decadência.
Elaborado com fortes doses de sátira e humor, O homem sem qualidades é uma bola de neve de ações paralelas, que rola pela montanha do século abaixo, abarcando tempo e espaço, para ao fim engendrar um romance inteiriço, ainda que multiabrangente, pluritemático e panorâmico. Ulrich – o homem sem qualidades – faz três grandes tentativas de se tornar um homem importante. A primeira delas é na condição de oficial, a segunda no papel de engenheiro (vide a carreira do próprio Musil) e a terceira como matemático, exatamente as três profissões dominantes – e mais características – do século XX. Os três ofícios são essencialmente masculinos e revelam o semblante de uma época regida pelo militarismo, pela técnica e pelo cálculo que, juntos, acabaram desmascarando o imenso potencial autodestrutivo da humanidade. O relato acerca da busca “desencantada” de Ulrich lembra a velha busca – ainda sagrada – do Santo Graal.
A compreensão da realidade característica da obra e do pensamento de Musil é rematadamente satírica. A índole “ensaística” do autor arranca máscaras e sua ficção trabalha na confluência dos gêneros. Musil é um escritor “contemplativo”, de “postura clássica”, situado à janela do mundo e atento a seus movimentos. (Tanto que, em várias situações de suas obras, seus personagens aparecem à janela). Ao utilizar vários elementos do ensaio, e inclusive ensaios inteiros no corpo da ficção, além de fazer uso livre do discurso falsamente científico – ainda carregado de poesia – na compleição do romance, Musil dá vida à hibridez de sua narrativa. A frialdade da linguagem, a formalidade da postura do narrador são apenas superficiais. Se à primeira vista o olhar do narrador é marcado pelo intelectualismo – frio e impessoal –, logo se descobre que isso é apenas um meio apolíneo contra o perigo dionisíaco do mundo, e que a indiferença gelada da superfície apenas mascara a paixão ardente do interior.
Adotando uma atitude fundamentalmente irônica diante da sociedade, e decidido a lutar contra a estultice do século – contra “a imensa raça das cabeças medíocres e estúpidas” –, Musil muitas vezes foi compreendido como utopista, ou até místico, por alguns críticos, decididos a dinamitar o vigor de sua obra. O autor que foi tão corrosivo ao representar o mundo em sua realidade distorcida e deformada na figura mítica de uma Kakânia caquética, é transformado assim num sujeito extravagante e pouco afeito à realidade. Um leão sem garras nem dentes...
Já em 1972, Helmut Arntzen – crítico da obra de Musil – dizia que os críticos pareciam fazer gosto em apresentar o autor na condição de animal exótico, místico e de movimentos graciosos. Dessa forma, o escritor combativo e heróico – conforme Musil se compreendia – era transfigurado num metafísico dócil, no homme de lettres que ele sempre renegou, num autor distanciado da realidade, provido de alguns requintes matemáticos na linguagem e de outros tantos talentos psicológicos na análise da alma humana.
A postura “contemplativa” de Musil foi entendida como passiva, a “utopia do ensaísmo” pregada por Ulrich – seu personagem – como uma visão utópica do mundo. Na verdade, Musil fez apenas lutar pela recuperação da atividade de mensurar melhor, quantitativa e qualitativamente, os sentimentos e o “volume espiritual” das relações humanas; sem a ingenuidade do romantismo, mas sem a secura do realismo bruto. De quebra, deu nova fisionomia ao sujeito, nova potência ao “eu”, tornando-o estética e radicalmente consciente, ainda que fazendo-o perambular no âmbito daquilo que um outro crítico – Wolfgang Lange – chamou de “loucura calculada” ou “suspensão calculada da razão”.
A intuição poética de Musil, enriquecida por seu aguçado espírito científico, proporcionou ao autor a capacidade de traçar um vasto panorama ficcional de sua terra e da Europa do século XX. Postado à janela do mundo, Musil examina, em última instância, o valor da inteligência objetiva do homem diante das casualidades mundanas.”
(Marcelo Backes, Um Autor na Janela – A Vida e a Obra de Robert Musil num Instantâneo Panorâmico)

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