segunda-feira, 15 de julho de 2019

Corporativismo


“É uma doutrina político-econômica, que considera a sociedade humana naturalmente estruturada em grupos profissionais, concebidos como seus elementos básicos. Daí a ideia de constituir-se o governo não através de representantes de regiões geográficas, mas de representantes de agrupamentos profissionais ou corporações. Essa doutrina tem raízes nas ideias desenvolvidas pelas encíclicas Rerum Novarum (1891, Leão XIII) e Quadragesimo Anno (1931, Pio XI), que assinalaram e valorizaram o papel que a vida profissional desempenha na sociedade humana, acentuando que “o princípio de uma união para o conjunto das profissões, se acha no bem comum da sociedade, ao qual devem elas todas e cada uma por sua parte tender, pela coordenação de seus esforços” (Pio XI). No entanto, o moderno corporativismo se distanciou do pensamento da Igreja, estendendo o controle governamental a todas as esferas da vida e da atividade social, daí decorrendo a falta de autonomia e de liberdade em oposição às encíclicas citadas. “A ordem social exige que, no seio da sociedade civil, todas as comunidades inferiores possam desempenhar as funções que lhes são peculiares. Por isso, ao Estado compete não substituir-se aos grupos profissionais, e sim favorecer-lhes a expansão, quando necessário, a autoridade, no plano profissional, e coordenar-lhes as atividades para o bem comum nacional” (Pio XI). O corporativismo serviu como base ideológica para a política de controle, por parte do governo e do partido majoritário, das atividades patronais e do movimento operário, nos países de regime ditatorial, refletindo não a conjugação de esforços livres e conscientes de grupos profissionais, mas a imposição da vontade do ditador. No entanto, o corporativismo autêntico, baseado na organização de corporações livres, das quais participavam patrões e operários, tinha em vista institucionalizar as relações de classe, não à base da luta, mas do diálogo permanente. Por outro lado, porém, não pressupunha a extinção dos sindicatos, aos quais incumbia a defesa dos interesses dos operários de todas as corporações da mesma confissão. O tecido social devia assim ser urdido por linhas verticais, as corporações, e por linhas horizontais, os sindicatos.
O corporativismo seduziu o pensamento de Pio XI que o indicava como uma terceira via entre as democracias liberais, as quais lhe pareciam esgotadas, e os regimes totalitários de direita e de esquerda que cresciam com força ameaçadora. O corporativismo cristão foi de tal modo indevidamente identificado com as estruturas fascistas, que a derrocada do fascismo soterrou também a proposta alternativa cristã, que ainda Pio XII procurou resgatar. Só vários anos mais tarde, Paulo VI na Octogesima Adveniens, 1971, explicitava com clareza a ideia de que a Igreja renunciava a qualquer pretensão de propor modelos alternativos, considerando-os de responsabilidade das comunidades nacionais. Hoje o termo corporativismo vem assumindo o sentido pejorativo da defesa intransigente de interesses e privilégios cartoriais, sem nenhuma consideração com o bem comum.”
(Fernando Bastos de Ávila, Pequena Enciclopédia de Doutrina Social da Igreja)

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Santa Hildegarda sobre o Anticristo

“O Anticristo atrairá as pessoas dando-lhes completa liberdade de deixar de observar todos os mandamentos divinos e eclesiásticos, perdoando seus pecados e exigindo que somente creiam em sua divindade. Concederá liberdade total dos mandamentos de Deus e da Igreja e permitirá que todos vivam segundo suas paixões. Dirá que não é necessário jejuar nem amargar a vida com renúncias. Na verdade o Anticristo, possuído pelo diabo, quando abrir sua boca para seu ensinamento perverso, destruirá tudo que Deus havia estabelecido na Lei Antiga e na Nova, e afirmará que o incesto, a fornicação, o adultério e outros males semelhantes não são pecados.”
(Hildegarda de Bingen, Liber Divinorum Operum)

domingo, 7 de julho de 2019

França criminaliza sites pró-vida


“A lei de “interferência digital” dirige-se, segundo o texto da mesma, a impedir o funcionamento de sites que “deliberadamente enganem, intimidam e/ou exerçam pressão psicológica ou moral para desencorajar o recurso ao aborto” e prevê multas até 30 mil euros para quem os operar.
A lei foi aprovada pelos partidos de esquerda, os de direita votaram contra, com Bruno Retailleau, do Partido Republicano, a criticar a lei como sendo “totalmente contrária à liberdade de expressão”. O senador diz ainda que a nova lei contradiz o diploma que legalizou o aborto, em 1975, e que pede que as mulheres sejam informadas das alternativas a esta prática.
Do Partido Democrata Cristão também chegaram críticas, com Jean-Frédéric Poisson a apontar para a ironia de o Governo estar apostado em encerrar sites pró-vida enquanto se recusa a fazer o mesmo a páginas de internet que promovam uma visão fundamentalista e violenta do Islão, por exemplo.
Pelo menos dois bispos também condenaram a nova lei, nomeadamente o cardeal Vingt-Trois, de Paris que acusa o Governo de estar “obcecado” com o aborto e o arcebispo Georges Pontier, de Marselha, a dizer que a lei constitui um sério ataque aos princípios da democracia.
A nova lei surge poucos dias depois de o Governo ter proibido a transmissão de um anúncio dirigido a mulheres grávidas de crianças diagnosticadas com trissomia 21. No vídeo aparecem vários jovens com trissomia que explicam tudo o que as pessoas com esta condição podem alcançar na vida e na família, mas a entidade que regulamenta os conteúdos televisivos e, após recurso, o Conselho de Estado, consideram que o visionamento do anúncio pode perturbar a consciência de mulheres que tenham optado, na mesma situação, por abortar.”

http://rr.sapo.pt

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Apresentado nos EUA projeto de lei para acabar com a imunidade legislativa de grandes empresas de tecnologia


“O senador Josh Hawley (R-MO) propôs legislação na quarta-feira para acabar com a imunidade legislativa das grandes empresas de tecnologia, o que as impediria de censurar pontos de vista conservadores e alternativos praticamente sem recurso.
O Senador Hawley propôs a Lei do Fim do Apoio à Censura na Internet, que atualiza a maneira como o governo federal trata as empresas de redes sociais de acordo com a Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações (CDA).
A legislação dos conservadores do Missouri remove a imunidade das grandes empresas de tecnologia recebida nos termos da Seção 230, a menos que elas se submetam a uma auditoria externa que provaria que seus algoritmos e políticas de remoção de conteúdo permanecem politicamente neutros. A legislação do senador Hawley só se aplica a grandes empresas de tecnologia, como Google, Facebook e Twitter, e não a pequenas e médias empresas de tecnologia.
"Com a Seção 230, as empresas de tecnologia obtêm um acordo bastante favorável do qual nenhum outro setor pode gozar: isenção completa da tradicional responsabilidade editorial em troca de fornecer um fórum livre de censura política", disse o senador Hawley em um comunicado na quarta-feira. “Infelizmente, e de maneira previsível, as grandes empresas de tecnologia fracassaram em cumprir com suas obrigações.”
A legislação de Hawley surge no momento em que o Departamento de Justiça de Donald Trump (DOJ) e a Comissão Federal de Comércio (FTC) devem começar investigações antitruste nas maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos.
Outros conservadores, como o deputado Matt Gaetz (R-FL) e o senador Ted Cruz (R-TX), propuseram a eliminação ou a emenda da Seção 230 para restringir a capacidade das grandes empresas de tecnologia de censurarem pontos de vista conservadores e alternativos.
A legislação do Sen. Hawley iria:
Remover a imunidade automática, nos termos da Seção 230, de grandes empresas de tecnologia.
Dar às grandes empresas de tecnologia a capacidade de ganharem sua imunidade por meio de auditorias externas.
-No entanto, a Comissão Federal de Comércio só poderá certificar a imunidade das grandes empresas de redes sociais pelo voto de maioria absoluta da agência.
-As grandes empresas de tecnologia teriam que pagar pelo custo de conduzir as auditorias.
-As empresas teriam que renovar sua certificação de imunidade a cada dois anos.
Preservar a imunidade para pequenas e médias empresas.
-O projeto de lei não se aplica a empresas com menos de 30 milhões de usuários mensais ativos, com mais de 300 milhões de usuários ativos mensais em todo o mundo ou empresas que têm mais de US$ 500 milhões em receita anual global.
O senador continuou: “Há uma lista crescente de evidências que mostram grandes empresas de tecnologia tomando decisões editoriais para censurar pontos de vista dos quais discordam. Pior ainda, todo o processo está envolto em sigilo, porque essas empresas se recusam a divulgar seus protocolos”.
"Essa legislação simplesmente declara que, se os gigantes de tecnologia quiserem manter sua imunidade concedida pelo governo, eles devem trazer transparência e responsabilidade aos seus processos editoriais e provar que não discriminam", acrescentou Hawley.”

https://www.breitbart.com

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Marcel de Corte: A virtude da temperança


“A temperança liga-se estreitamente à prudência pois modera as paixões do concupiscível e conserva-as num justo meio razoável entre o excesso e a carência. Ela se une à justiça pelos atos e pela rejeição à intemperança, vício essencialmente próprio ao indivíduo dedicado ao seu prazer pessoal. Ela é companheira da força, que luta pelo bem comum, já que é impossível ser forte sem ser temperante.
(...)
Não há nenhuma outra virtude que esteja em mais estreita conexão com todas as demais ou que lhe seja mais extensível: quase todas as virtudes, cardeais ou não, têm necessidade da temperança para se levar a efeito. Seu uso é freqüente, cotidiano, e, se a força a supera “de um certo modo” (quoad aliquid) por seu aspecto social, por sua freqüência necessária e pelos vínculos concretos com as demais virtudes, a temperança pode encontrar a preferência do moralista, não somente em relação à força, mas “mesmo à justiça”. Ela é uma virtude viril e Santo Tomás, seguindo Aristóteles, comenta com precisão que seu contrário “é um pecado de concupiscência” excessiva que, de ordinário, atribuímos às crianças. Igualmente destaca, acompanhando “o mestre daqueles que sabem”, que a intemperança é um vício mais grave que a pusilanimidade, porque é mais voluntária, mais própria do homem feito. O pusilânime tem quase sempre o espírito paralisado diante do perigo da morte física ou moral; é mais sujeito aos impulsos exteriores que sofre, mais sensível aos riscos e às ameaças em geral. O intemperante é atraído pelos gozos particulares, adjacentes ou acessórios às concupiscências da natureza. Ora, “é pura e simplesmente mais voluntário o que é voluntário nas ações singulares, nas quais culminam a virtude ou o vício, no sentido próprio dos termos”.
Mas, indo um pouco além, estas ações singulares não estão isoladas de seus prolongamentos sociais. A vergonha que se associa à intemperança se opõe à honra e distinção da virtude contrária. Sem dúvida, a intemperança é freqüente em meio à humanidade, e sua repetição, por demais visível, parece diminuir a vergonha e a desonra que se associam a ela na opinião dos homens. Todavia, elas não se apagam completamente dali: a natureza do vício ao qual sucumbe o intemperante, marcada por sua gravidade, opõe-se a isto. Demais, os estigmas deixados pela intemperança sobre o aspecto do homem ― a abjeção de sua conduta libidinosa ― apagam, diz-nos Santo Tomás com profundeza, o brilho e a beleza inerentes ao homem temperante, equilibrado, dono de si, seguro das finalidades que persegue, e cuja razão ilumina, por sua transparência, os atos virtuosos. Um visível envilecimento caracteriza o libidinoso e, na mulher, os artifícios que o dissimulam só acentuam a ausência de castidade. Todos esses sinais, ao mesmo tempo individuais e sociais, cujos sentidos são evidentíssimos, manifestam que o homem ou a mulher entregues à intemperança se rebaixam ao nível do animal, destruindo em si as marcas do seu caráter verdadeiramente humano.”

http://muralhasdacidade.blogspot.com.br

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Da proibição do véu islâmico

“Alguns tolos na Direita rejubilam quando em França se proíbe o uso do véu islâmico. Julgam eles que essa é uma medida em prol das nacionalidades e da civilização europeia. Enganam-se. A República que proíbe o uso do véu islâmico é a mesma República que proíbe o uso de crucifixos. Por isso, tais medidas anti-véu não são feitas em favor das pátrias e da tradição católica da Europa. São feitas em favor da república, do laicismo, da maçonaria, e visam neutralizar o "extremismo" para favorecer um "moderantismo" bastardo e aglutinador.
Lembrem-se, direitistas, que o uso de véu ou de lenço na cabeça, não é algo anti-europeu. Pelo contrário, se observarem como vestiam os nossos antepassados, concluirão que as modas modernas é que são anti-europeias."

http://accao-integral.blogspot.com.br

terça-feira, 25 de junho de 2019

Navegantes e naufragantes


“Na travessia do mar tempestuoso desta vida há católicos que infelizmente preferem ouvir o canto da Sereia ao canto da Stella Maris, o canto da Senhora Soberana do céu e da terra. Certissimamente vão naufragar porque se recusam a sofrer todas as humilhações que a Providência Divina envia aos eleitos para purificá-los na demanda do reino do céu.
A vida do católico aqui na terra sempre foi e será um esforço constante para não desertar do combate a ser travado sob os estandartes de Cristo Rei contra o reino de Satanás e do Anticristo. É a doutrina exposta e defendida pelos grandes teólogos e mestres da vida espiritual com base na Sagrada Escritura. É a doutrina de Santo Agostinho na monumental Cidade de Deus. Em um regime de cristandade, em um estado confessional católico, onde as autoridades políticas se empenham em organizar a sociedade conforme a lei de Deus, a luta contra os inimigos da salvação pode ser menos renhida, mas, mesmo assim, a vida do católico será sempre uma luta.
Desgraçadamente, a partir do Vaticano II semelhante concepção da vida católica como um combate foi sendo deixada de lado para ser finalmente substituída pelo mito do diálogo. Não o diálogo como sempre o entendeu toda a tradição desde a antiguidade, como, por exemplo, Platão. Não o diálogo como uma investigação de pessoas que, tendo os mesmos princípios e valores, se unem em um esforço comum para chegar à solução de um problema ou sanar uma dúvida que aflige a todos. Mas um diálogo de céticos desesperados e contraditórios que, não vendo sentido em nada, se unem apenas no afã de descobrir uma regra geral de como compartilhar melhor as alegrias e penas de uma vida efêmera. Sinceramente, acho que não há exagero nestas palavras.
Foi assim que deixando de lado o hino Stella Maris, muitos católicos passaram a ouvir e a cantar o canto da Sereia e abraçaram os ídolos dos tempos modernos: democracia, liberdade, igualdade de oportunidades, direitos humanos. E agora vêem-se até defrontados com a necessidade de dialogar sobre questões que a princípio pode causar-lhes alguma repugnância mas terão de engolir se não quiserem receber a pecha de fundamentalistas. Refiro-me aos tópicos constantes da agenda da nova ordem mundial: direitos reprodutivos e sexuais da mulher, aborto, “casamento homossexual”, ideologia do gênero etc.
Com efeito, desprezando a Virgem Prudente, a Sede da Sabedoria, e ouvindo a Sereia, não puderam ou não quiseram esses católicos que agora naufragam e estão consternados com a rejeição do nome do jurista Ives Gandra para o Supremo Tribunal Federal, não puderam ou não quiseram entender que o mundo pós-moderno, herdeiro de todos os erros condenados pelo magistério tradicional da Igreja, não dá mais lugar a quem queira defender nas instâncias públicas valores morais baseados em princípios metafísicos ou teológicos. Não quiseram reconhecer que mais cedo ou mais seriam alijados por seus companheiros de viagem a quem adulavam ao mesmo tempo que zombavam dos católicos tradicionalistas tachados de fundamentalistas e cismáticos. Foram merecidamente devorados pelo grande monstro, pelo Leviatã moderno, chamado democracia laica ou secular, ao som do canto da Sereia, enquanto os católicos fiéis à tradição da Igreja escapam do naufrágio, escapam de ser comidos pelo monstro ou tragados pelo dilúvio porque preferem ser marginalizados, preferem ficar de fora, cantando Stella Maris e rezando o santo rosário.
O grande imperador Filipe II dizia “prefiro não reinar a reinar sobre hereges.” Palavras de grande valor moral, palavras de espantosa atualidade. Realmente, que pode fazer um rei católico em um país de hereges? Que pode fazer hoje um governante católico quando as famílias estão desestruturadas e as instituições completamente aparelhadas por bandidos revolucionários?
Que bem poderá fazer hoje um juiz católico na suprema corte? Certamente bem pouco para não dizer nada.
As palavras de Filipe II me convencem ainda mais de como estão errados os príncipes e monarquistas que sonham com a restauração do trono a qualquer custo. Que vale uma monarquia oca, uma monarquia cerimonial? Conta-se que o Conde de Chambord, prejudicado pelo ralliement de Leão XIII, teria dito que se tivesse cingido a coroa da França, não o teriam deixado governar porque não transigiria nos princípios fundamentais da política católica.
Do mesmo modo, que bem poderá fazer hoje um jovem sacerdote que aspire ao episcopado? Uma vez no governo de uma diocese, quanta resistência dos modernistas e dos progressistas da teologia da libertação não encontrará? Realmente, esses tais que aspiram ao episcopado não aquilatam a cruz que pedem. Uma cruz talvez não para a salvação mas para a própria condenação. Não se trata de recusar o exercício da autoridade por comodismo, por falta de fortaleza, mas de, com prudência, examinar as circunstâncias e reconhecer que hoje, como está a sociedade, não há lugar para homens de bem no governo. A sociedade está reduzida a uma quadrilha de bandidos e degenerados. As instituições faliram.
As palavras de Filipe II me fazem ver também como estão errados os leigos e clérigos que correm atrás de títulos nobiliárquicos e honoríficos. A dignidade de um título se mede pelo valor de quem o confere. Ser nomeado cavaleiro por um grande monarca sem dúvida é um notável galardão. Ser nomeado monsenhor por um santo papa também. Mas hoje tudo isso é impossível.
Das palavras de Filipe II me utilizo também para ilustrar a situação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Há católicos “conservadores” ou linha média que desejam um acordo da Fraternidade com o Vaticano de Francisco I, fazem campanha para que ela tenha reconhecimento canônico de direito pontifício. Que bem poderá fazer a Fraternidade uma vez reconhecida? Muito mais nobre será sofrer o labéu de ter sido esbulhada nos anos setenta da sua estrutura canônica do que agora obter mediante termos ambíguos um reconhecimento. Muito mais nobre será agora pedir ao Vaticano que declare nula a supressão canônica ao tempo de Paulo VI do que estudar agora a viabilidade da ereção de uma prelazia pessoal.
Conta-se que o Patriarca José Bonifácio recusou o título de marquês de Santos, por discordar das atitudes de Dom Pedro I. Este, para desfeiteá-lo, agraciou sua favorita Domitila com o título de marquesa de Santos. O grande Joaquim Nabuco, embora também monarquista, recusou um título de visconde que lhe oferecia Dom Pedro II. Ambos são exemplos de autêntica nobreza não titulada.
A sociedade corrompeu-se a tal ponto hoje, que os verdadeiros católicos, se não quiserem trair sua consciência e sua fé, não podem mais esperar cargos e honrarias das altas esferas. Todos estamos assistindo perplexos aos desafios à autoridade do presidente dos EUA, que está longe de ser um estadista defensor dos valores tradicionais. Serve apenas para demonstrar o descontentamento de uma grande parcela da opinião pública. Não se sabe ainda como terminará a história.
Se nos Estados Unidos, onde o povo é mais culto e a sociedade bem mais organizada que a nossa, a situação é calamitosa, que dizer do Brasil depredado pelo lulopemedemismopetista e pela teologia da libertação?
Só nos resta rezar, só nos resta pedir o socorro da Estrela do Mar, bem longe da Sereia. Só nos resta salvar nossas famílias e pequenas comunidades.
Deus, venerunt gentes in heriditatem tuam, polluerunt templum sanctum tuum, posuerunt Ierusalem in pomorum custodiam. (Ps. 78)

http://santamariadasvitorias.org

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Dom Félix Sardá y Salvany: Modos de ter religião que equivalem a não a ter


“O homem, diga-se o que quiser, é naturalmente religioso e, como disse Tertuliano, sua alma é naturalmente cristã. O ateísmo cru e desavergonhado é repulsivo por si próprio, e somente depois de muita corrupção e embrutecimento de seu coração o homem consegue torná-lo familiar e conatural. Por necessidade, pois, hão de ser poucos os ateus francos e descarados. Dá uma olhada ao teu redor e tu te convencerás desta verdade.
Mas o diabo, grande mestre de artimanhas, não parou até inventar e encontrar um modo que transformasse em verdadeiros ateus uma multidão de homens que se espantariam só com a palavra se lha chegassem a propor. Sim, senhor! Inventou o maldito certas formas de encoberto e vergonhoso ateísmo, com as quais ele tem em suas garras os desgraçados que se deixaram apanhar pelo laço, sem que eles mesmos se espantem, se embaracem, se deem conta, talvez, de sua situação miserabilíssima.
Tais formas de ateísmo disfarçado e vergonhoso, e muitas vezes inconsciente, são as que chamo aqui de modos de ter religião que equivalem a não a ter. E são, à primeira vista, três, às quais todas as demais podem se reduzir.
1º – Crer na religião, mas não praticar ato algum dela.
2º – Crer e praticar algo da religião, mas não a crer ou a praticar por completo.
3º – Praticar os atos da religião somente para parecer bom ou por outro motivo meramente natural e humano.
Eis aqui os três disfarces mais comuns do ateísmo vergonhoso, mais por desgraça do que muitos costumam imaginar. Um após o outro iremos apresentando aqui à guisa de refutação.
Vejamos o primeiro.
Dizer que crê na religião, mas não praticar ato algum dela.
É a forma mais comum do ateísmo vergonhoso que reina em nossa sociedade. Milhares de indivíduos não sentem ódio algum ao catolicismo, nem a seus dogmas, nem a seus preceitos, nem a seus ministros. Mais ainda: se perguntas à maior parte deles sobre sua religião, te dirão sem embaraço que são cristãos, e até se irritarão se tu lhes negas este título. E, contudo, não vão à missa aos domingos, porque, é claro, a manhã de domingo já está um tanto ocupada; nem jejuam nos dias de preceito, porque isso é coisa de padre e de freira; nem confessam nem comungam na Quaresma, porque essas banalidades são para as mulheres; nem rezam um minuto ao dia, porque essas coisas a mãe bem lhes ensinou quando eram pequenos, mas eles as esqueceram depois, na juventude. Crer? Ah, sim, isso sim, creem em tudo perfeitamente! Alguma vez lhes ouviram negar alguma coisa? Se bem que, para dizer a verdade, tampouco afirmá-la? De cabo a rabo afirmarão toda a profissão de fé que há no Ritual da Igreja, ainda que não saibam nada do que se diz nela. E não lhes venham com histórias de missa, de jejuns ou de sacramentos, pois que não querem ser beatos, ou, no máximo, guardam isto para a velhice.
Os tais são ateus práticos em toda forma, e a seu ateísmo só falta um rótulo que o chame assim. Religião que não se pratica não é religião, porque a religião ou é coisa prática ou não é nada. Pode-se ser um matemático muito bom somente em conhecer teoricamente a matemática, porque esta, como outras, é ciência especulativa que basta professar com o entendimento. Mas assim como não será sapateiro quem não faça sapatos, nem carpinteiro quem não trabalhe na madeira, nem pintor quem não maneje o pincel, também não é cristão quem não pratica obras cristãs, por mais que em seu interior diga que crê e que pensa como manda crer e pensar o cristianismo. Crer e obrar exige a lei. Crer é o fundamento, obrar é o edifício: e ninguém dirá que é construção perfeita a que conste somente de cimento sobre o qual ninguém se preocupou em edificar. Aquele que tem somente crença, uma vez que a tenha firme e verdadeira, porque mesmo disto se pode duvidar, nada tem se não acrescenta a ela as obras que serão sua consequência necessária. Um Apóstolo disse isto com frase de irrecusável autoridade: A fé sem obras é morta.
Vamos ao segundo.
Crer e praticar algo da religião, mas não a crer nem a praticar por completo.
Este é o segundo dos disfarces com que se costuma encobrir o ateísmo de certas pessoas, e é o que em outra parte chamamos de a meia religião. Alguns pegam do catolicismo, tanto de seus dogmas quanto de suas práticas, não o que este prescreve, mas o que a eles se acomoda, guiando-se não pela autoridade soberana da fé, mas segundo seu espírito privado, talvez por mera afeição ou capricho ou humor. Assim, creem em Deus e na Virgem, mas não na infalibilidade do Papa, que é tão dogma de fé quanto os dois primeiros; admitem o Céu e o Inferno, mas riem do Purgatório; confessam que há de se ir à missa nos dias de preceito, mas não que em outros dias igualmente preceituados se tenha de jejuar. Portam-se eles com certa autoridade independente acima do catolicismo, e dizem com uma desenvoltura sem igual: “Até aqui acho que está bom para mim; até lá, nem tanto; tal coisa admito sem pestanejar; esta outra não me desce de jeito nenhum”. Eles não reparam que, agindo com este critério, não são católicos “nem aqui nem na China”, senão que perfeitíssimos livres-pensadores.
Ora, religião assim mutilada e em farrapos não é a verdadeira religião. Não é a fé de Cristo, que exige a submissão absoluta: é fé humana a gosto do consumidor. A religião tem igual força de obrigar numa coisa e outra, entre as quais declarou obrigatórias. Supor que é falsa em algo, por mais que este algo seja tão pequeno como ponta de alfinete, é tomá-la por embusteira até em seus dogmas fundamentais. Ou em algo me pode enganar, ou em tudo me diz a verdade. E se em algo me pode enganar, não devo crê-la em nada; e se em tudo me diz a verdade, devo crê-la em tudo. Isto é o lógico e nada mais.
Quando, pois, nos assalte uma dúvida sobre algo de religião, convém averiguar se aquele ponto é livre ou de fé obrigatória. Se é o primeiro, estuda-se e decide-se pelo que aconselha as razões mais fortes. Se é o segundo, admite-se-lhe incontinentemente e sem vacilação. Deste modo se é católico; de outro modo não se passa de pobre racionalista. Também há sobre isto, nas Escrituras, sentença decisiva: Ainda que alguém guarde toda lei, se rechaça um de seus mandamentos, vem a ser réu de todos.
Eis aqui o terceiro.
Praticar os atos da religião somente para parecer bom ou por outro motivo meramente natural e humano.
É o terceiro e mais sutil invólucro com que se disfarça o ateísmo no mundo atual, e por isto temos de consagrar-lhe maior atenção. A alma de toda obra moral é a intenção ou o motivo formal que a vivifica. Por conseguinte, por mais recomendável que seja um ato, ele perde toda essência e valor se o motivo que interiormente o anima não é bom e legítimo como deve ser. Assim, as obras de religião devem ser praticadas por Deus, para obedecer a Deus, para honrar e servir a Deus. Se se exclui esta intenção, deixam de ser obras religiosas e são rebaixadas à categoria de obras meramente humanas e, ainda, mera hipocrisia. Venham os exemplos, que estes mais que as regras ilustrarão a questão.
Praticar as obras de religião somente para não se diferenciar dos demais, ou para lhes agradar, ou para não ser taxado, não é religião, porque não é servir a Deus, mas servir àquele fulano ou sicrano ao qual se trata de não descontentar.
Praticar as obras de religião puramente por profissão ou ofício a fim de ganhar com isto o sustento material, ou com aspiração ambiciosa de prosperar no mundo e adquirir um posto elevado ou até certo renome entre as pessoas não é ter religião, porque não é servir a Deus, mas servir à cobiça, à ambição ou à vaidade, isto é, ao miserável eu.
Praticar as obras de religião e recomendá-las somente como meio humano para deter as massas (como hoje se diz que se faz), pregando que a tranquilidade pública necessita do contrapeso poderoso das ideias religiosas; que sem religião não há respeito possível para a vida nem para a propriedade, fazendo da religião um mero guardamonte das propriedades ameaçadas pelo socialismo, ou uma simples bomba de auxílio nos momentos críticos de conflagração social, sem levar em conta para nada os interesses espirituais, que são os primeiros, sem pensar em Deus, na alma e na outra vida… tampouco é ter religião, porque isto não é servir a Deus, mas aos interesses materiais, como lhes servem o policial ou o guarda civil. Secundariamente, é claro que a religião também serve a isto, mas o primeiro nela deve ser a glória de Deus e a salvação da alma.
Praticar a religião somente pelo consolo ou bem-estar sensível que nela se encontre, pelas emoções que causa o culto, pela beleza de suas cerimônias, pela poesia de suas festas, pela grandeza de suas lembranças, por sua civilizadora influência na humanidade… tampouco é ter religião ou piedade, é somente ter pietismo e sentimentalismo humano, que não é, por certo, coisa igual. A poesia da religião é somente seu aroma exterior, e assim como não se diria que se alimenta de um manjar aquele que se contentasse em aspirar seus aromas, também não se pode dizer que tenha religião aquele que reduzisse todo seu catolicismo a recrear-se com a fragrância das obras católicas. Também há sobre isto, nas Escrituras, um texto que pode servir de punhal ou golpe de misericórdia a esta parte da questão: Nem todo aquele que me diz “Senhor! Senhor!” entrará no reino dos céus (disse Jesus), mas aquele que vive e obra conforme a vontade de meu Pai celestial.
Como se vê, amigo leitor, sobram ateus no mundo mesmo entre as pessoas que mostram ter certo horror a esta palavra. São ateus práticos, mas de que outro modo viveriam se fossem ateus até em teoria? Pela prática baseada na fé nós seremos julgados. Mas que importa ao diabo se prática ou teoricamente irão ao inferno os que ele deseja conduzir até lá? Como eles irão de um modo ou de outro, ele faz seu agosto negro, pois que isto ele leva em conta e nada mais. Sobretudo quando esta maneira de se condenar, suave e mansa, e até certo ponto decente e honrada, oferece a vantagem de não espantar a caça que com outros modos mais desavergonhados talvez não se deixasse apanhar. Estamos em tempos em que não é a impiedade feroz e aberta a que mais devemos temer, mas a mansa e compungida, que é a pior. Mais me espanta o ateísmo dos homens honrados, ou dos que se chamam assim, que o feroz e vociferador dos mais fogosos revolucionários. Aquela frase de muitos – “sou honrado!” –, fez condenar mais almas do que todos os crimes que se registram em todos os códigos. Aquele “sou honrado!” é o adormecedor de muitíssimas consciências, o paliativo de muitíssimas iniquidades, o verdadeiro ídolo que muitos interpuseram entre seu coração e seu Deus, para que não O vissem, não O amassem e não O obedecessem como é devido. Com este “sou honrado!” se pretende justificar toda indiferença, toda apostasia, toda impiedade formal. O ateísmo nunca soube encontrar um disfarce mais cômodo e que mais bobos pudesse enganar. Não, não se é honrado se não se tem religião; e não se tem religião se não se a pratica; e não se a pratica se não se a pratica toda e por seu verdadeiro motivo formal. Lúcifer foi o primeiro honrado deste tipo e não fez mais em substância que se rebelar contra Deus. Só por isso (só por isso!) foi e é o primeiro condenado.
Ah, meu amigo! Cuida que não sejas tu um dos tais honrados, decentes e de boa reputação que, por ter religião em um destes modos que equivale a não a ter, há de chorar por toda uma eternidade!”

http://beneditinos.org.br

terça-feira, 18 de junho de 2019

A nacionalidade de Lênin


“Em Os Governantes da Rússia (3ª edição, pp. 28, 30), mencionei várias opiniões a respeito da nacionalidade de Lênin sem examiná-las criticamente. A principal razão foi que eu não tinha sido capaz de rastrear a origem da “lenda” de que Lênin foi casado com uma judia e que seus filhos falavam ídiche. Desde então, descobri o que parece ser a origem da história em O Judeu Internacional de Henry Ford, vol. I, p. 214. Lá lemos, junto com muitas informações úteis sobre o Bolchevismo e a Revolução Russa, as seguintes frases: “Talvez ele (Lênin) seja um gentio, mas por que seus filhos falam ídiche? ... A explicação para tudo isso parece ser que ele se casou com uma judia. Isso é um fato. Mas outra explicação pode ser que ele mesmo era judeu.” Nenhuma autoridade para tais alegações é citada em O Judeu Internacional. Ora, é certo que a esposa de Lênin era russa. Lênin pode ter aprendido ídiche, pois estava sempre em companhia de judeus que falavam essa língua, mas com sua esposa teria falado russo. Jamais houve qualquer menção a filhos desse casamento.
Os pesquisadores parecem concordar em que a aparência facial de Lênin não era a de um russo. “Astrakan, na costa noroeste do Cáspio”, escreve o Pe. E. A. Walsh, S.J, “foi o local de nascimento do pai de Lênin, Ilia Ulianov, que vinha de uma respeitável linhagem de classe média que tinha de algum modo cruzado com sangue mongol: a miscigenação era claramente visível no semblante do futuro ditador. Foi em Simbirsk sobre o Volga que Vladimir nasceu, em 10 de abril de 1870, enquanto seu pai trabalhava como Inspetor das Escolas Rurais, uma posição que lhe dava direito a ser chamado “Sua Excelência”. Na mesma cidade vivia a família de Alexander Kerensky.”
Por sua vez, o Inspetor Fitch da Scotland Yard, cuja tarefa era observar Lênin e Trotsky na Grã-Bretanha, testemunha a mesma aparência não-russa. “Foi a primeira vez que o havia visto,” escreve o ex-detetive, “um típico judeu de cabeça lisa, de forma oval, olhos apertados, com uma segurança demoníaca em cada linha de sua poderosa face magnética. A seu lado estava um diferente tipo de judeu, do tipo que se pode ver em qualquer loja do Soho, de nariz forte, rosto pálido, bigodes longos, com um pequeno tufo de barba balançando de seu queixo e uma grande massa de cabelo desgrenhado – Leiba Bronstein, depois conhecido como Lev Trotsky.”
O Pe. Walsh atribui a aparência não-russa nos traços de Lênin a uma mistura com sangue mongol. O Inspetor Fitch menospreza-o como judeu. M. de Poncins, que examina todas essas questões cuidadosamente, diz que “a origem de Lênin não é clara nem bem definida. Do lado de seu pai, há uma mistura de russo e tártaro, tão comum na Rússia. Do lado de sua mãe, há suspeita de algum sangue judeu. Sua mãe foi Maria Alexandrovna Blank, filha de um médico, Alexander Dimitrievitch Blank. Segundo Pierre Chasle (Vida de Lênin, Paris, 1929, p. 3), Alexander Blank veio da Volínia e era médico militar. Sua esposa, avó de Lênin, é tratada como alemã na publicação A Família Oulianoff em Simbirsk (Instituto Lênin, Moscou e Leningrado, 1925, p. 20). Alexander Blank era considerado em círculos judaico-soviéticos como sendo um judeu batizado. O nome Blank é muito comum na Alemanha e é um nome alemão, mas também é encontrado entre os judeus.” O relato desse autor parece ser um excelente resumo do presente estado da questão.”
(Pe. Denis Fahey, C.S.Sp., The Mystical Body of Christ and The Reorganization of Society)

sábado, 15 de junho de 2019

O privilégio sabatino

“Uma das promessas de Nossa Senhora do Carmo a São Simão Stock se refere ao "privilégio sabatino": consiste que aquele que morrer usando o escapulário, sairá do Purgatório no primeiro sábado após sua morte. Este privilégio foi confirmado pela Bula "Sacratissimo uti culmine" do Papa João XXII, que tem também o relato de uma visão sua sobre este privilégio. Porém, esta bula, analisada pela moderna crítica histórica, foi considerada como não-autêntica e infundada pela Igreja e pelos historiadores. Porém, a Igreja permitiu aos carmelitas pregarem que "o povo cristão pode acreditar piamente na ajuda que as almas dos seus irmãos e membros, que partiram desta vida na caridade, que usaram o escapulário durante a sua vida, que já observaram a castidade, que recitaram o Pequeno Ofício de Nossa Senhora, ou, se não conseguirem ler, observaram os dias de jejum da Igreja e abstiveram-se de carne às quartas e sábados (exceto quando o Natal for em tais dias), serão socorridos após a morte - especialmente aos sábados, o dia consagrado pela Igreja à Santíssima Virgem - através da intercessão incessante de Maria, das suas piedosas petições, dos seus méritos e da sua proteção especial" (citação retirada da Súmula de indulgências e privilégios concedidos à Confraria do Escapulário do Carmo, aprovada no dia 4 de julho de 1908 pela Congregação das Indulgências). Se uma pessoa pecar contra a castidade ou deixar um dia de fazer a obra prescrita, poderá recuperar o privilégio ao confessar-se e cumprir a penitência.
É de salientar o fato de que esta súmula, baseada num outro documento anterior do Santo Ofício (1613), não menciona nem a bula de João XXII nem as visões deste Papa sobre o privilégio sabatino. Mas, por outro lado, este documento exprime a apreciação e aprovação da Santa Sé à fidelidade ao Escapulário do Carmo. Apesar de o documento não mencionar a libertação imediata do purgatório no primeiro sábado após a morte (o privilégio sabatino em sentido estrito), ele faz referência à especial proteção e intercessão incessante de Maria para os verdadeiros devotos do Escapulário. E o documento prefere também usar o termo mais lato "aos sábados", nunca mencionando o termo "no primeiro sábado". Neste sentido, a idéia do primeiro sábado "teria que ser entendida em sentido largo ou translato, visto que a sucessão de dias da semana só pode ser critério na terra, onde o tempo é medido pelo movimento dos corpos; no purgatório há apenas almas separadas de seus corpos". Ou seja, segundo esta interpretação, o termo "no primeiro sábado" foi formulado apenas para uma melhor compreensão dos crentes ao privilégio sabatino, que consiste num auxílio especial da Virgem Maria aos devotos do Escapulário, que podem assim sair do Purgatório o mais rapidamente possível (em linguagem humana e figurada, "no primeiro sábado").
O privilégio sabatino, no seu sentido mais alargado dado pela Santa Sé, é válido e foi confirmado por vários Papas, tais como Alexandre V (1409), Clemente VII (1530), Paulo III (1534), Pio IV (1561), São Pio V (1566), Gregório XIII (1577), Paulo V (1613), Urbano VIII (1628), Clemente X (1673), Inocêncio XI (1678), São Pio X (1906), Pio XI (1922) e Pio XII (1950).[3][5] Em 1950, o Papa Pio XII afirmou que "certamente a piedosa Mãe não deixará de fazer que os filhos expiem no Purgatório suas culpas, alcancem o antes possível a pátria celestial por sua intercessão, segundo o chamado privilégio sabatino, que a tradição nos transmitiu". Apesar de toda esta confirmação, os católicos não são obrigados a acreditar no privilégio sabatino, porque ele pertence às revelações privadas, que não fazem parte da Revelação divina.”

https://pt.wikipedia.org