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sexta-feira, 24 de novembro de 2017
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Dom Tomás de Aquino: Orgulho ou preconceito?
“A revista VEJA publicou uma matéria sobre as controvertidas cerimônias realizadas no mosteiro da Santa Cruz (Nova Friburgo – RJ) entre as quais a de maior importância foi a sagração episcopal de Mgr Jean-Michel Faure. Esta sagração feita por Mgr Richard Williamson foi seguida da ordenação sacerdotal do Irmão André Zelaya de León, da Guatemala, monge de nosso mosteiro há mais de vinte anos. Ambas cerimônias foram apresentadas como atos de rebelião. Aliás, o título do artigo é: “Rebelião no altar”, artigo que se termina da seguinte maneira: “O francês Faure, cheio de orgulho, tem até apelido para o racha: La Resistance”. Orgulho mesmo ou preconceito da revista? Eis a questão.
Orgulho se pode tomar em dois sentidos. Ou será o senso da dignidade de sua condição como quando um filho da Santa Igreja se declara, com justo orgulho, católico, apostólico, romano. Ou será um vício, um pecado; pecado de rebelião contra Deus. O pecado de Lúcifer.
Talvez o autor do artigo quisesse deixar ao leitor a escolha, já que o jornalista da VEJA foi bastante cordial conosco, embora o tom geral do artigo indique de preferência o sentido de revolta. Seja como for, a pergunta permanece: orgulho de Mgr Faure, de Mgr Williamson e dos monges de Santa Cruz ou preconceito contra eles? A questão continua não respondida.
Retrocedamos no tempo, pois assim fazendo encontraremos o fio de Ariane que nos tirará do labirinto em que a crise atual da Igreja nos lançou, e nos fornecerá o necessário para responder à pergunta já feita. Retrocedamos até a Reforma protestante e ao declínio do Cristianismo na Europa e no mundo. Declínio contra o qual lutaram vitoriosamente, mas só por um tempo, o Concílio de Trento e os grandes santos da Contra-Reforma. Duas forças se chocaram então e se chocam até hoje. Uma nova religião que põe o homem no centro da civilização e combate a Igreja Católica antes de combater Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa para terminar negando a existência de Deus, com o marxismo, e mesmo corrompendo a eterna noção de Verdade com o Modernismo, condenado por São Pio X.
Dois mundos, dois amores; o amor de Deus levado até o esquecimento de si, e o amor de si mesmo levado até a negação de Deus. Dois mundos, duas forças, duas correntes históricas que se opõem há mais de cinco séculos. Qual das duas é movida pelo orgulho? Eis mais do que uma pista para encontrarmos a resposta à nossa pergunta inicial.
Aprofundemos pois a pista já indicada e entremos na atualidade, ou melhor, na história recente da Igreja. Falemos de Vaticano II. Os Papas do século XIX e do século XX até a morte de Pio XII haviam condenado o Liberalismo Católico dos que queriam a união da Igreja com os princípios da Revolução Francesa. Não só o Liberalismo mas também o Modernismo, o Neomodernismo, o Progressismo e demais erros modernos haviam sido devidamente condenados. A Igreja Católica dizia e dirá sempre “não” a estes erros.
Porém o velho sonho dos mais cruéis inimigos da Igreja realizar-se-ia. Um Concílio consagraria os teólogos modernistas, liberais e progressistas. Este Concílio foi o Concílio Vaticano II. Mas dois Bispos permaneceram fiéis e denunciaram este Concílio. Mas só dois? Não é pouco demais? Para um mundo que preza mais a quantidade do que a Verdade, dois é igual a nada. Mas em questão de doutrina não é o número que conta, e as doutrinas apregoadas pelo Vaticano II já haviam sido condenadas por Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII, São Pio X, Bento XV, Pio XI e Pio XII para citar apenas alguns da longa série de Papas que dista de São Pedro a Pio XII, os quais guardaram o depósito da Fé que lhes havia sido confiado por Deus Ele mesmo.
Mas o que isso tem que ver com a sagração do 19 de março de 2015 em Nova Friburgo? Isto tem tudo que ver com essa sagração, já que Mgr Williamson foi ele mesmo sagrado por estes dois bispos fiéis à Tradição bimilenar da Igreja. Estes dois bispos são Mgr Marcel Lefebvre e Mgr Antônio de Castro Mayer.
Contudo, eles sagraram Mgr Williamson, assim como Mgr Fellay, Mgr Tissier e Mgr de Galarreta, contra a vontade de João Paulo II em junho de 1988? Sim, é verdade. Logo eles são uns rebeldes e uns orgulhosos? Não. A verdade não se deixa encontrar tão facilmente assim. Desobedecer ao Papa pode ser, em casos extremos, um ato de virtude, enquanto que obedecê-lo pode ser, em casos extremos, um pecado. “Quem faz o mal porque lhe ordenaram, não faz ato de obediência, mas de rebelião”, diz São Bernardo.
A rebelião no altar não se deu em Nova Friburgo, no dia 19 de março. Se aprofundarmos a questão veremos que a rebelião no altar se deu não em Friburgo, mas em Roma desde o Concílio até hoje.
Quem duvidar do que afirmamos, que estude os livros que falam da crise atual e lá verão que o próprio Cardeal Ratzinger, futuro Bento XVI, afirma que o Vaticano II foi um “contra-Syllabus”, ou seja, que ele vai contra o ensinamento do Magistério da Igreja, contra uma doutrina já definida pelos Papas anteriores.
Não! Mgr Faure não falou com orgulho, ou melhor, falou com justo orgulho de defender este Magistério infalível da Igreja contra os erros de Vaticano II. Mas como um Concílio pode ensinar erros? Eis a grande pergunta. Leiam pois as obras de Mgr Marcel Lefebvre. Estudem, aprofundem-se na Fé, pois o mal é grande e a abominação da desolação foi posta no lugar santo. Portanto, a revolta no altar não está no mosteiro da Santa Cruz. A revolta no altar está – é triste repeti-lo – no Vaticano.
Mas quem nos crerá? Orgulho nosso ou preconceito da VEJA? Só estudando. Só rezando. Sem oração e estudo ninguém poderá encontrar a resposta. Ela está ao alcance de quem a procura, mas antes de tudo é preciso procurá-la. O que já dissemos é o suficiente por ora. Agora, caro leitor, lhe cabe a sua parte, caso deseje tirar a limpo se é orgulho nosso ou preconceito da VEJA chamar-nos de rebeldes. Bom trabalho.”
http://avozdaserra.com.br
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Liberalismo e Catolicismo
“O Liberalismo não conhece o temor, mas não conhece também a caridade. O Liberalismo elimina o temor, mas elimina também a caridade. O Liberalismo atrai, pois ele parece ter chegado ao alto da escada, mas na verdade não pôs os pés nem no primeiro degrau. O catolicismo, ao contrário, sabe ter o rosto antipático da verdadeira bondade, segundo a expressão de um ilustre escritor. Antipático ao pecado, mas sorridente à virtude. Somente o catolicismo sabe unir severidade e bondade, humildade e magnanimidade, para chegar a esta caridade que elimina o temor servil, para deixar permanecer somente este temor reverencial, todo cheio de santa intimidade entre a alma e seu Criador e Salvador.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, Os Doze Graus da Humildade)
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, Os Doze Graus da Humildade)
sábado, 18 de abril de 2015
Dom Tomás de Aquino: A perversão do espírito
“Desde os anos 90, o superior geral da Fraternidade e seus conselheiros mais próximos empreenderam uma tenebrosa tarefa: conduzir a Tradição aos braços da Roma modernista. Conscientes ou não da gravidade de seu crime, é isto o que fazem. Mons. Fellay destrói a obra de Mons. Lefebvre. O infantilismo de Dom Gérard, como o estigmatizou Mons. Lefebvre, retorna desta vez na caneta e no pensamento de Mons. Fellay e seus assistentes: Lendo-os – escreve este a seus confrades no episcopado (carta de 14 de abril de 2012) – pode-se perguntar seriamente se vocês crêem que esta Igreja visível cuja sede está em Roma é a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo (...)”. Mons. Fellay confunde as coisas. Mons. Fellay semeia a confusão, esquecendo as distinções que fez Mons. Lefebvre junto a tantos outros teólogos eminentes e pensadores católicos. “A Fraternidade São Pio X jamais deixou a Igreja. Ela está no coração da Igreja”, escreve com razão Mons. Tissier (Rivarol, 13 de junho de 2012). Mas Mons. Fellay foi seduzido por uma idéia que deitou profundas raízes em seu espírito. A regularização canônica deve ser obtida a qualquer preço. Isto já foi esquecido – dirão alguns. Mons. Fellay acaba de opor-se às declarações de Mons. Pozzo sobre esta questão. Pois bem, Monsenhor Fellay engana os seus. Ele oculta a verdade há anos. Nada retirou de suas afirmações. “Esta situação concreta, com a solução canônica proposta, é muito diferente daquela de 1988” – escreveu em resposta à carta de Mons. Williamson, Mons. Tissier e Mons. de Galarreta.
Mas tudo isto está no passado, repetirão os partidários de Mons. Fellay. Mas então por que o Pe. Alain Nely disse a uma superiora de um monastério: “a solução para a Fraternidade será um reconhecimento unilateral”? E ademais: “Eles não nos pedirão para assinar, não haverá um documento e não será necessária uma assinatura”. Isto ocorreu há aproximadamente um ano.
Com seus passos para diante e passos para trás, Menzingen tem hipnotizado toda sua gente, que crê em sua boa fé. Seja qual for sua duvidosa e muito estranha boa fé na qual eu não creio em absoluto, o fato é que a conduta de Mons. Fellay, considerada em seu conjunto, indica com bastante clareza a causa final que o impulsiona. Esta causa é uma aproximação com uma Roma que supostamente está a caminho de converter-se. Esta causa é o pragmatismo das negociações gradativas de Mons. Fellay, pois Roma não se converterá de uma vez. Como se converterá Roma? Só Deus o sabe. O que sabemos todos é que a Roma modernista pode alinhar uma longa série de túmulos, onde suas vítimas repousam na sombra da morte: Padre Augustin, Dom Gérard, Pe. de Blignères, Fraternidade São Pedro, Campos, Redentoristas, Oásis, Irmãos da Imaculada, etc. Neste belo cemitério todavia há lugar para a FSSPX. Se fosse por Mons. Fellay, a coisa já teria sido feita. Mas para alguns na Fraternidade, as comunidades “Ecclesia Dei” não estão assim em tão má situação. A Fraternidade estaria em boa companhia neste belo entorno.
O que é surpreendente é ver o comportamento dos fiéis. Como explicar a pouca reação de sua parte? E ainda mais dos sacerdotes. Certamente que eles esperam algo pior para agir. Uma assinatura. Mas o Pe. Nely já o disse: “Eles não pedirão a assinatura, não haverá documento”.
A força de Menzingen está em ocultar a verdade. Mas sobretudo sua força está na debilidade dos bons. Menzingen pesou em sua balança a força da Tradição, e pôde dar-se conta de sua debilidade ou de sua ingenuidade. A Tradição tem princípios invencíveis, mas quanto à força de apego a estes princípios, é outra coisa. A isto deve-se agregar a cumplicidade da vida mesma. É mais fácil para quem não tem mulher e filhos tomar uma decisão difícil, mas não é o mesmo para quem tem dez filhos que colocar em uma boa escola. Para os sacerdotes, é outra coisa. Que cada um meça suas responsabilidades.
Menzingen dominou a arte de governar à maneira de Maquiavel. Privacidade dos correios eletrônicos divulgados, processos iníquos dos Padres Pinaud e Salenave. Sanções desapiedadas aos bons sacerdotes que se atrevem a defender o pensamento e as diretivas de Mons. Lefebvre.
Mas estes fatos parecem perder-se nas memórias. Mons. Fellay mudou, dizem alguns. Ele já não quer o acordo. As coisas se arranjarão. Não há fogo na casa. Puro subjetivismo! Puro sentimentalismo!
“Quanto mais se analisam os documentos do Vaticano II e sua interpretação pelas autoridades da Igreja, mais nos damos conta que não se trata nem de erros superficiais nem de alguns erros particulares como o ecumenismo, a liberdade religiosa, a colegialidade, mas sim de uma perversão total do espírito, de toda uma nova filosofia fundada sobre o subjetivismo... É gravíssimo! Uma perversão total... É verdadeiramente espantoso” (Mons. Lefebvre, citado na carta de 7 de abril de 2012, dos três bispos a Mons. Fellay e seus assistentes). Está a Tradição mesma começando, também ela, a cair neste abismo? Desgraçadamente parece que sim. Um fraco rei faz fraca a forte gente, dizia um grande poeta português, Luiz de Camões. Mons. Fellay é este rei. Oxalá que não chegue a seus fins e que o amor da verdade possa de novo reflorir no seio da Tradição. Que o pequeno resto “pusillus grex” seja aguerrido para este novo combate, esta crise dentro da crise, esta crise no interior da Tradição, e que a hipocrisia de Menzingen seja conhecida e rechaçada com o vigor que convém aos discípulos d’Aquele que morreu porque veio ao mundo para dar testemunho da Verdade (Cf. João XVIII, 37).”
http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br
Mas tudo isto está no passado, repetirão os partidários de Mons. Fellay. Mas então por que o Pe. Alain Nely disse a uma superiora de um monastério: “a solução para a Fraternidade será um reconhecimento unilateral”? E ademais: “Eles não nos pedirão para assinar, não haverá um documento e não será necessária uma assinatura”. Isto ocorreu há aproximadamente um ano.
Com seus passos para diante e passos para trás, Menzingen tem hipnotizado toda sua gente, que crê em sua boa fé. Seja qual for sua duvidosa e muito estranha boa fé na qual eu não creio em absoluto, o fato é que a conduta de Mons. Fellay, considerada em seu conjunto, indica com bastante clareza a causa final que o impulsiona. Esta causa é uma aproximação com uma Roma que supostamente está a caminho de converter-se. Esta causa é o pragmatismo das negociações gradativas de Mons. Fellay, pois Roma não se converterá de uma vez. Como se converterá Roma? Só Deus o sabe. O que sabemos todos é que a Roma modernista pode alinhar uma longa série de túmulos, onde suas vítimas repousam na sombra da morte: Padre Augustin, Dom Gérard, Pe. de Blignères, Fraternidade São Pedro, Campos, Redentoristas, Oásis, Irmãos da Imaculada, etc. Neste belo cemitério todavia há lugar para a FSSPX. Se fosse por Mons. Fellay, a coisa já teria sido feita. Mas para alguns na Fraternidade, as comunidades “Ecclesia Dei” não estão assim em tão má situação. A Fraternidade estaria em boa companhia neste belo entorno.
O que é surpreendente é ver o comportamento dos fiéis. Como explicar a pouca reação de sua parte? E ainda mais dos sacerdotes. Certamente que eles esperam algo pior para agir. Uma assinatura. Mas o Pe. Nely já o disse: “Eles não pedirão a assinatura, não haverá documento”.
A força de Menzingen está em ocultar a verdade. Mas sobretudo sua força está na debilidade dos bons. Menzingen pesou em sua balança a força da Tradição, e pôde dar-se conta de sua debilidade ou de sua ingenuidade. A Tradição tem princípios invencíveis, mas quanto à força de apego a estes princípios, é outra coisa. A isto deve-se agregar a cumplicidade da vida mesma. É mais fácil para quem não tem mulher e filhos tomar uma decisão difícil, mas não é o mesmo para quem tem dez filhos que colocar em uma boa escola. Para os sacerdotes, é outra coisa. Que cada um meça suas responsabilidades.
Menzingen dominou a arte de governar à maneira de Maquiavel. Privacidade dos correios eletrônicos divulgados, processos iníquos dos Padres Pinaud e Salenave. Sanções desapiedadas aos bons sacerdotes que se atrevem a defender o pensamento e as diretivas de Mons. Lefebvre.
Mas estes fatos parecem perder-se nas memórias. Mons. Fellay mudou, dizem alguns. Ele já não quer o acordo. As coisas se arranjarão. Não há fogo na casa. Puro subjetivismo! Puro sentimentalismo!
“Quanto mais se analisam os documentos do Vaticano II e sua interpretação pelas autoridades da Igreja, mais nos damos conta que não se trata nem de erros superficiais nem de alguns erros particulares como o ecumenismo, a liberdade religiosa, a colegialidade, mas sim de uma perversão total do espírito, de toda uma nova filosofia fundada sobre o subjetivismo... É gravíssimo! Uma perversão total... É verdadeiramente espantoso” (Mons. Lefebvre, citado na carta de 7 de abril de 2012, dos três bispos a Mons. Fellay e seus assistentes). Está a Tradição mesma começando, também ela, a cair neste abismo? Desgraçadamente parece que sim. Um fraco rei faz fraca a forte gente, dizia um grande poeta português, Luiz de Camões. Mons. Fellay é este rei. Oxalá que não chegue a seus fins e que o amor da verdade possa de novo reflorir no seio da Tradição. Que o pequeno resto “pusillus grex” seja aguerrido para este novo combate, esta crise dentro da crise, esta crise no interior da Tradição, e que a hipocrisia de Menzingen seja conhecida e rechaçada com o vigor que convém aos discípulos d’Aquele que morreu porque veio ao mundo para dar testemunho da Verdade (Cf. João XVIII, 37).”
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segunda-feira, 6 de abril de 2015
Dom Tomás de Aquino: A verdade ocultada, ou a recusa de ver
“É com espanto que vemos a verdade, embora pública, sendo ignorada. Mas de que verdade estamos falando? De fatos os mais evidentes sobre a crise atual da Tradição em geral e da Fraternidade em particular, e que estão ao alcance de todos os que os querem conhecer. Verdade desconhecida, ocultada ou simplesmente não procurada; em todos os casos ignorada, para não dizer desprezada.
Alguns afirmam, como Dom Lourenço Fleichman que a resistência apresenta uma “argumentação vazia de fundamentos, baseada em falsas informações” (cf. “Sobre a Sagração Episcopal”).
Se for preciso reiterar o que já foi dito e pregar a tempo e a contratempo, não nos cansemos de fazê-lo, já que a isto nos exorta São Paulo. Se for preciso reproduzir os argumentos e relembrar os fatos, não nos cansemos de repeti-los e relembrá-los. Façamos mais uma vez o diagnóstico da doença que corrói a Tradição e ameaça a todos de morte. Este mal é o Liberalismo católico, pestilência dos tempos modernos, contradição encarnada na pessoa dos que o abraçam. Todos nós, que no mais das vezes nos consideramos imunes a este contágio universal, estamos susceptíveis a sermos vítimas deste mal.
E por isso é mister defender a obra, o pensamento, a linha intransigentemente católica de Dom Lefebvre, que não é outra senão a de São Pio X e a de todo o Magistério da Igreja desde sua fundação até a apostasia desencadeada pelo Concílio Vaticano II.
Mas entremos antes nos detalhes; aqueles detalhes sem os quais somos incapacitados de lograr qualquer diagnóstico real do desastre do qual somos testemunhas. Comecemos, pois, pelo movimento conhecido como GREC (Grupo para Reflexão Entre Católicos), e prossigamos até o dia de hoje numa brevíssima resenha de alguns fatos marcantes que nos apontarão a causa final que os motiva e explica.
Em 1995, pouco antes de falecer, o antigo embaixador da França no Vaticano, Gilbert Pérol, redigiu um artigo de “bons ofícios” com o intento de promover uma aproximação amistosa entre a Fraternidade e a Igreja oficial. A este projeto deu sequência sua esposa, a Sra. Huguette Pérol, e então uma primeira plataforma de trabalho foi constituída em 1998.
Pouco tempo depois este grupo tomou o nome já referido, GREC, e reuniu membros da Fraternidade São Pio X e do clero progressista. Com o passar dos anos este grupo atraiu a atenção do episcopado francês, não menos que a de Roma. O objetivo do GREC, como explica um de seus fundadores, o Pe. Michel Lelong, “é a necessária reconciliação entre a Tradição e Roma” [i]. Objetivo equívoco, pois como diz Dom Lefebvre: “Roma perdeu a fé... Roma está na apostasia” (cf. Conferência aos padres em Ecône por ocasião do retiro sacerdotal, em 1º de setembro de 1987). Mas para o GREC estas palavras de Dom Lefebvre não merecem atenção. São palavras ditas num “momento de angústia”, como diz um dos defensores da linha de Dom Fellay. Os integrantes do GREC creem ver os acontecimentos desde um ponto mais elevado, com mais serenidade, almejando assim uma “impossível reconciliação”, como diz muito bem o Pe. Rioult, reconciliação entre duas realidades opostas: entre a Igreja verdadeira, a Roma eterna, e a Igreja oficial, a Roma modernista. Na verdade aí está todo o drama por que está passando a Fraternidade, pois Menzingen não cessou, desde então, de procurar esta reconciliação preconizada pelo GREC, fazendo uso de sua autoridade para fazer cessar as críticas à Santa Sé, ou seja, aos modernistas que a ocupam.[ii] Está aí a razão de Dom Fellay ter pedido a Dom Williamson de cessar os seus “Comentários Eleison” e de não ter feito fortes críticas à última reunião ecumênica de Assis.
Lembremo-nos, ainda que sumariamente, de outros fatos:
* Resposta de 14 de abril de 2012, por Dom Fellay, aos três outros bispos da Fraternidade, na qual ele diz aos seus irmãos de episcopado que lhes “falta realismo e espírito sobrenatural”;
* Declaração doutrinal de 15 de abril de 2012. Esta declaração levantou uma reação tal, que Dom Fellay se viu impelido a retirá-la. Mas dela não se retratou até o dia de hoje. A Fraternidade não estava e não está todavia “madura” para aceitá-la.
* A 11 de maio de 2012, Dom Fellay dá uma entrevista ao canal de televisão americano CNS (Catholic News Service), na qual ele minimiza a gravidade do documento conciliar “Dignitatis Humanae”.
* Em julho de 2012 se reúne o Capítulo Geral da Fraternidade sem a presença de Dom Williamson, proibido de aí comparecer. O resultado deste capítulo foi o abandono da decisão do Capítulo Geral anterior (2006), o qual estabelecia que não se levaria a cabo nenhum acordo prático com Roma antes de um prévio “acordo doutrinal”. Em outros termos, antes da conversão de Roma.
* Pouco depois é notificada a expulsão de Dom Williamson da Fraternidade, expulsão que este considera nula; e Dom Williamson convida Dom Fellay a resignar o seu cargo a fim de que não se destrua a obra de Dom Lefebvre.
* Em 13 de junho de 2012 Dom Tissier de Mallerais se manifesta em entrevista ao jornal “Rivarol” contra a política de acordo, sem, entretanto, citar a pessoa de Dom Fellay. Note-se que Dom Tissier foi transferido de Ecône para um priorado nos Estados Unidos. Os seminaristas perderam assim o contato com o mais antigo colaborador de Dom Lefebvre.
Nos meses seguintes, declarações diversas, públicas e privadas, expressaram e reforçaram a política pragmática da Fraternidade com relação a Roma. “Reconhecimento unilateral” é a fórmula apta a obter a aceitação dos membros da Fraternidade. Mas esta é a mesma solução aceita por Dom Gérard (Barroux – França) em 1988, assim como por Campos em 2002. Um reconhecimento canônico tem sido suficiente, seja ele unilateral ou não, para criar uma dependência em relação às autoridades modernistas e desta feita lhes permitir que aniquilem toda a Tradição. Não são os inferiores que fazem os superiores, mas sim os superiores que fazem os inferiores, como observava Dom Lefebvre. É uma simples questão de bom senso. Mas o bom senso está desaparecendo da superfície da terra.
Convém lembrar igualmente os processos iníquos dos quais foram vítimas os padres Pinaud e Salenave, processos descritos e comentados pelo Pe. François Pivert no livro “Quel droit pour la Tradition catholique?”.
As comunidades religiosas que não aprovavam a política de Menzingen já haviam sido objeto de medidas diversas de pressão e vexação. A lista é longa. Recordemos o adiamento da ordenação dos diáconos dominicanos e capuchinhos em 2012. Os beneditinos de Bellaigue também foram ameaçados de ter a ordenação de seus candidatos delongada. Ora, isso se explica se considerarmos que os superiores destas três casas religiosas haviam estado em Menzingen para manifestar a Dom Fellay o seu desacordo.
No entanto, aqueles que apoiam Dom Fellay dizem que isso são águas passadas: o Capítulo Geral de 2012 deu uma solução satisfatória à questão; o que é falso. Tanto o Pe. Pflüger, primeiro assistente de Dom Fellay, como o Pe. Alain Nely, segundo assistente, retomaram o assunto, seja em conversas privadas, seja em retiros, seja ainda em entrevistas públicas.
Não se pode de modo algum dizer que tudo quanto era problemático está sanado na Fraternidade. Se isto fosse verdade, Dom Williamson teria que ser reabilitado, honrado e escutado, pois que foi sua iniciativa de redigir a carta ao Conselho Geral, assinada também por Dom Tissier e Dom de Galarreta, que salvou a Fraternidade em 2012 de um acordo com Roma. Três bispos contra os acordos era demais para Roma. Era melhor esperar por tempos mais propícios.
Para Dom Lefebvre este momento oportuno expressar-se-ia pela conversão de Roma e pela aceitação das doutrinas contidas nos documentos pontifícios Quanta Cura, Syllabus, Pascendi, Quas Primas, etc. Mas para Dom Fellay, os tempos propícios já chegaram e trazem consigo a diminuição do espírito de combate da parte da Fraternidade, ou seja, o alinhamento (“ralliement”, em francês) que culminou com sua declaração de 15 de abril de 2012 e que continua mesmo sem a assinatura de um acordo.
A conclusão de tudo isso é algo de espantoso e trágico. Estes fatos são públicos, na sua maioria. Por que não há uma maior reação à política de Dom Fellay? Ao que parece é porque o liberalismo e a apostasia já fazem sua obra dentro da própria Tradição. Dom Fellay, ajudado por muitos padres, criou um estado de desorientação tal que muitos fiéis já não são capazes de discernir mais nada do que está acontecendo com a obra de Dom Lefebvre.
É por isso que afirmamos que a verdade sobre estes acontecimentos permanece oculta embora seja pública. Seria a ocasião de citar a famosa frase de Chesterton, que segue: “o mundo moderno é dirigido por uma força oculta que se chama publicidade”. O que importa, como diria um amigo nosso, não são os fatos, mas a versão dos fatos. Ora, a versão triunfante é que Dom Williamson e Dom Faure são desobedientes e que os superiores da Fraternidade são os verdadeiros discípulos de Dom Lefebvre. Isto é falso, como o demonstramos. Eis aí o centro do drama.
“Agora é vossa hora e o poder das trevas” (Luc. XXII, 53). Talvez a Resistência tenha de sobreviver como os apóstolos e os discípulos dispersos durante o tempo da Paixão. É útil rememorar uma reflexão do grande pensador brasileiro, Gustavo Corção: “Não creio em nenhuma obra nos tempos atuais que reúna um grande número de pessoas.” Talvez a Resistência permaneça o pusillus grex ao qual Nosso Senhor exortou a não temer porque foi do agrado do Pai lhes dar o reino. Que a proteção da Santíssima Virgem possa nos guardar fiéis até o fim: “Ut Fidelis inveniatur.
[i] Pour la nécéssaire réconciliation, Nouvelles Éditions Latines, 2011, p. 15.
[ii] Ibidem, p. 50.”
http://syllabus-errorum.blogspot.com.br
Alguns afirmam, como Dom Lourenço Fleichman que a resistência apresenta uma “argumentação vazia de fundamentos, baseada em falsas informações” (cf. “Sobre a Sagração Episcopal”).
Se for preciso reiterar o que já foi dito e pregar a tempo e a contratempo, não nos cansemos de fazê-lo, já que a isto nos exorta São Paulo. Se for preciso reproduzir os argumentos e relembrar os fatos, não nos cansemos de repeti-los e relembrá-los. Façamos mais uma vez o diagnóstico da doença que corrói a Tradição e ameaça a todos de morte. Este mal é o Liberalismo católico, pestilência dos tempos modernos, contradição encarnada na pessoa dos que o abraçam. Todos nós, que no mais das vezes nos consideramos imunes a este contágio universal, estamos susceptíveis a sermos vítimas deste mal.
E por isso é mister defender a obra, o pensamento, a linha intransigentemente católica de Dom Lefebvre, que não é outra senão a de São Pio X e a de todo o Magistério da Igreja desde sua fundação até a apostasia desencadeada pelo Concílio Vaticano II.
Mas entremos antes nos detalhes; aqueles detalhes sem os quais somos incapacitados de lograr qualquer diagnóstico real do desastre do qual somos testemunhas. Comecemos, pois, pelo movimento conhecido como GREC (Grupo para Reflexão Entre Católicos), e prossigamos até o dia de hoje numa brevíssima resenha de alguns fatos marcantes que nos apontarão a causa final que os motiva e explica.
Em 1995, pouco antes de falecer, o antigo embaixador da França no Vaticano, Gilbert Pérol, redigiu um artigo de “bons ofícios” com o intento de promover uma aproximação amistosa entre a Fraternidade e a Igreja oficial. A este projeto deu sequência sua esposa, a Sra. Huguette Pérol, e então uma primeira plataforma de trabalho foi constituída em 1998.
Pouco tempo depois este grupo tomou o nome já referido, GREC, e reuniu membros da Fraternidade São Pio X e do clero progressista. Com o passar dos anos este grupo atraiu a atenção do episcopado francês, não menos que a de Roma. O objetivo do GREC, como explica um de seus fundadores, o Pe. Michel Lelong, “é a necessária reconciliação entre a Tradição e Roma” [i]. Objetivo equívoco, pois como diz Dom Lefebvre: “Roma perdeu a fé... Roma está na apostasia” (cf. Conferência aos padres em Ecône por ocasião do retiro sacerdotal, em 1º de setembro de 1987). Mas para o GREC estas palavras de Dom Lefebvre não merecem atenção. São palavras ditas num “momento de angústia”, como diz um dos defensores da linha de Dom Fellay. Os integrantes do GREC creem ver os acontecimentos desde um ponto mais elevado, com mais serenidade, almejando assim uma “impossível reconciliação”, como diz muito bem o Pe. Rioult, reconciliação entre duas realidades opostas: entre a Igreja verdadeira, a Roma eterna, e a Igreja oficial, a Roma modernista. Na verdade aí está todo o drama por que está passando a Fraternidade, pois Menzingen não cessou, desde então, de procurar esta reconciliação preconizada pelo GREC, fazendo uso de sua autoridade para fazer cessar as críticas à Santa Sé, ou seja, aos modernistas que a ocupam.[ii] Está aí a razão de Dom Fellay ter pedido a Dom Williamson de cessar os seus “Comentários Eleison” e de não ter feito fortes críticas à última reunião ecumênica de Assis.
Lembremo-nos, ainda que sumariamente, de outros fatos:
* Resposta de 14 de abril de 2012, por Dom Fellay, aos três outros bispos da Fraternidade, na qual ele diz aos seus irmãos de episcopado que lhes “falta realismo e espírito sobrenatural”;
* Declaração doutrinal de 15 de abril de 2012. Esta declaração levantou uma reação tal, que Dom Fellay se viu impelido a retirá-la. Mas dela não se retratou até o dia de hoje. A Fraternidade não estava e não está todavia “madura” para aceitá-la.
* A 11 de maio de 2012, Dom Fellay dá uma entrevista ao canal de televisão americano CNS (Catholic News Service), na qual ele minimiza a gravidade do documento conciliar “Dignitatis Humanae”.
* Em julho de 2012 se reúne o Capítulo Geral da Fraternidade sem a presença de Dom Williamson, proibido de aí comparecer. O resultado deste capítulo foi o abandono da decisão do Capítulo Geral anterior (2006), o qual estabelecia que não se levaria a cabo nenhum acordo prático com Roma antes de um prévio “acordo doutrinal”. Em outros termos, antes da conversão de Roma.
* Pouco depois é notificada a expulsão de Dom Williamson da Fraternidade, expulsão que este considera nula; e Dom Williamson convida Dom Fellay a resignar o seu cargo a fim de que não se destrua a obra de Dom Lefebvre.
* Em 13 de junho de 2012 Dom Tissier de Mallerais se manifesta em entrevista ao jornal “Rivarol” contra a política de acordo, sem, entretanto, citar a pessoa de Dom Fellay. Note-se que Dom Tissier foi transferido de Ecône para um priorado nos Estados Unidos. Os seminaristas perderam assim o contato com o mais antigo colaborador de Dom Lefebvre.
Nos meses seguintes, declarações diversas, públicas e privadas, expressaram e reforçaram a política pragmática da Fraternidade com relação a Roma. “Reconhecimento unilateral” é a fórmula apta a obter a aceitação dos membros da Fraternidade. Mas esta é a mesma solução aceita por Dom Gérard (Barroux – França) em 1988, assim como por Campos em 2002. Um reconhecimento canônico tem sido suficiente, seja ele unilateral ou não, para criar uma dependência em relação às autoridades modernistas e desta feita lhes permitir que aniquilem toda a Tradição. Não são os inferiores que fazem os superiores, mas sim os superiores que fazem os inferiores, como observava Dom Lefebvre. É uma simples questão de bom senso. Mas o bom senso está desaparecendo da superfície da terra.
Convém lembrar igualmente os processos iníquos dos quais foram vítimas os padres Pinaud e Salenave, processos descritos e comentados pelo Pe. François Pivert no livro “Quel droit pour la Tradition catholique?”.
As comunidades religiosas que não aprovavam a política de Menzingen já haviam sido objeto de medidas diversas de pressão e vexação. A lista é longa. Recordemos o adiamento da ordenação dos diáconos dominicanos e capuchinhos em 2012. Os beneditinos de Bellaigue também foram ameaçados de ter a ordenação de seus candidatos delongada. Ora, isso se explica se considerarmos que os superiores destas três casas religiosas haviam estado em Menzingen para manifestar a Dom Fellay o seu desacordo.
No entanto, aqueles que apoiam Dom Fellay dizem que isso são águas passadas: o Capítulo Geral de 2012 deu uma solução satisfatória à questão; o que é falso. Tanto o Pe. Pflüger, primeiro assistente de Dom Fellay, como o Pe. Alain Nely, segundo assistente, retomaram o assunto, seja em conversas privadas, seja em retiros, seja ainda em entrevistas públicas.
Não se pode de modo algum dizer que tudo quanto era problemático está sanado na Fraternidade. Se isto fosse verdade, Dom Williamson teria que ser reabilitado, honrado e escutado, pois que foi sua iniciativa de redigir a carta ao Conselho Geral, assinada também por Dom Tissier e Dom de Galarreta, que salvou a Fraternidade em 2012 de um acordo com Roma. Três bispos contra os acordos era demais para Roma. Era melhor esperar por tempos mais propícios.
Para Dom Lefebvre este momento oportuno expressar-se-ia pela conversão de Roma e pela aceitação das doutrinas contidas nos documentos pontifícios Quanta Cura, Syllabus, Pascendi, Quas Primas, etc. Mas para Dom Fellay, os tempos propícios já chegaram e trazem consigo a diminuição do espírito de combate da parte da Fraternidade, ou seja, o alinhamento (“ralliement”, em francês) que culminou com sua declaração de 15 de abril de 2012 e que continua mesmo sem a assinatura de um acordo.
A conclusão de tudo isso é algo de espantoso e trágico. Estes fatos são públicos, na sua maioria. Por que não há uma maior reação à política de Dom Fellay? Ao que parece é porque o liberalismo e a apostasia já fazem sua obra dentro da própria Tradição. Dom Fellay, ajudado por muitos padres, criou um estado de desorientação tal que muitos fiéis já não são capazes de discernir mais nada do que está acontecendo com a obra de Dom Lefebvre.
É por isso que afirmamos que a verdade sobre estes acontecimentos permanece oculta embora seja pública. Seria a ocasião de citar a famosa frase de Chesterton, que segue: “o mundo moderno é dirigido por uma força oculta que se chama publicidade”. O que importa, como diria um amigo nosso, não são os fatos, mas a versão dos fatos. Ora, a versão triunfante é que Dom Williamson e Dom Faure são desobedientes e que os superiores da Fraternidade são os verdadeiros discípulos de Dom Lefebvre. Isto é falso, como o demonstramos. Eis aí o centro do drama.
“Agora é vossa hora e o poder das trevas” (Luc. XXII, 53). Talvez a Resistência tenha de sobreviver como os apóstolos e os discípulos dispersos durante o tempo da Paixão. É útil rememorar uma reflexão do grande pensador brasileiro, Gustavo Corção: “Não creio em nenhuma obra nos tempos atuais que reúna um grande número de pessoas.” Talvez a Resistência permaneça o pusillus grex ao qual Nosso Senhor exortou a não temer porque foi do agrado do Pai lhes dar o reino. Que a proteção da Santíssima Virgem possa nos guardar fiéis até o fim: “Ut Fidelis inveniatur.
[i] Pour la nécéssaire réconciliation, Nouvelles Éditions Latines, 2011, p. 15.
[ii] Ibidem, p. 50.”
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sábado, 28 de março de 2015
Dom Tomás de Aquino: Uma confissão de Menzingen
“O comunicado de Menzingen de 19 de março, ainda que breve, nos ensina um bom número de coisas. Entre outras, encontramos ali uma confissão: que Monsenhor Williamson foi expulso da Fraternidade São Pio X por causa de sua oposição à política acordista de Mons. Fellay.
Até o presente, Menzingen falava de desobediência: Monsenhor Williamson era um indisciplinado, um mau subordinado que não obedece às ordens recebidas. Agora, Menzingen confessa a verdadeira razão: “as vivas críticas” de Mons. Williamson a respeito das relações de Menzingen com Roma. O mesmo para Mons. Faure. Eis aqui sua falha.
O affaire da carta dos três bispos a Mons. Fellay e a seus assistentes não foi digerido. Relações com Roma, Mons. Lefebvre bem que as teve, mas com a esperança de que Roma se recuperasse, que desse marcha a ré. De fato, Mons. Lefebvre era quem dirigia as negociações e o fazia com uma certeza invencível, porque seu critério foi a fé de sempre. Inclusive, ao fazê-lo, quase caiu na armadilha de Roma. “Fui demasiado longe”, disse.
Pelo contrário, com Mons. Fellay, as coisas acontecem de maneira completamente diferente. Não é ele quem dirige as negociações. Não é ele quem tem a força de dizer a Roma: “Sou eu, o acusado, quem vos deveria julgar”. Não, Monsenhor Fellay não se apresenta como juiz dos erros de Roma. Apresenta-se mais como um culpado “em situação irregular” que deve reintegrar-se ao redil e que sofre porque “sua” Fraternidade não o segue.
Abramos um parêntese. Julgar Roma? Não é este o papel dos superiores e não dos inferiores? Decerto. Mas os superiores já julgaram. São Quanta Cura, Pascendi, Quas Primas, etc., que condenam aos papas liberais. É Roma, a Roma eterna, quem julgou à Roma neomodernista e neoprotestante. Monsenhor Fellay parece ter esquecido isto e o faz olvidar com sua “Igreja concreta de hoje em dia”. Fechemos o parêntese.
Monsenhor Williamson bloqueava as negociações de Menzingen. Ele constituía um entrave. Sabíamo-lo bem, mas a casa geral dava outra versão. Agora, ela confessa. São as “vivas críticas” de Mons. Williamson contra sua operação suicídio que foram a causa de sua expulsão. Já era tempo que Menzingen o dissesse. Já o fez agora.
No entanto, Menzingen falseia a questão ao dizer que estas vivas críticas eram sobre “toda relação com as autoridades romanas”. Não. Isto não é verdade. Elas eram sobre a incorporação a Roma, que poria a FSSPX sob o jugo modernista e liberal, pelo qual o demônio trata de chegar ao que Corção chamou “o pecado terminal”: fazer cair os últimos bastiões em uma última e monumental afronta a Deus.
E a isto não poderíamos prestar nosso concurso. O demônio não alcançará seus fins porque Nossa Senhora vela: Ipsa conteret. Eis aqui nossa esperança. Ela não será decepcionada, se nós somos fiéis pela graça de Deus: Fidelis inveniatur.”
Original em http://www.dominicainsavrille.fr
Até o presente, Menzingen falava de desobediência: Monsenhor Williamson era um indisciplinado, um mau subordinado que não obedece às ordens recebidas. Agora, Menzingen confessa a verdadeira razão: “as vivas críticas” de Mons. Williamson a respeito das relações de Menzingen com Roma. O mesmo para Mons. Faure. Eis aqui sua falha.
O affaire da carta dos três bispos a Mons. Fellay e a seus assistentes não foi digerido. Relações com Roma, Mons. Lefebvre bem que as teve, mas com a esperança de que Roma se recuperasse, que desse marcha a ré. De fato, Mons. Lefebvre era quem dirigia as negociações e o fazia com uma certeza invencível, porque seu critério foi a fé de sempre. Inclusive, ao fazê-lo, quase caiu na armadilha de Roma. “Fui demasiado longe”, disse.
Pelo contrário, com Mons. Fellay, as coisas acontecem de maneira completamente diferente. Não é ele quem dirige as negociações. Não é ele quem tem a força de dizer a Roma: “Sou eu, o acusado, quem vos deveria julgar”. Não, Monsenhor Fellay não se apresenta como juiz dos erros de Roma. Apresenta-se mais como um culpado “em situação irregular” que deve reintegrar-se ao redil e que sofre porque “sua” Fraternidade não o segue.
Abramos um parêntese. Julgar Roma? Não é este o papel dos superiores e não dos inferiores? Decerto. Mas os superiores já julgaram. São Quanta Cura, Pascendi, Quas Primas, etc., que condenam aos papas liberais. É Roma, a Roma eterna, quem julgou à Roma neomodernista e neoprotestante. Monsenhor Fellay parece ter esquecido isto e o faz olvidar com sua “Igreja concreta de hoje em dia”. Fechemos o parêntese.
Monsenhor Williamson bloqueava as negociações de Menzingen. Ele constituía um entrave. Sabíamo-lo bem, mas a casa geral dava outra versão. Agora, ela confessa. São as “vivas críticas” de Mons. Williamson contra sua operação suicídio que foram a causa de sua expulsão. Já era tempo que Menzingen o dissesse. Já o fez agora.
No entanto, Menzingen falseia a questão ao dizer que estas vivas críticas eram sobre “toda relação com as autoridades romanas”. Não. Isto não é verdade. Elas eram sobre a incorporação a Roma, que poria a FSSPX sob o jugo modernista e liberal, pelo qual o demônio trata de chegar ao que Corção chamou “o pecado terminal”: fazer cair os últimos bastiões em uma última e monumental afronta a Deus.
E a isto não poderíamos prestar nosso concurso. O demônio não alcançará seus fins porque Nossa Senhora vela: Ipsa conteret. Eis aqui nossa esperança. Ela não será decepcionada, se nós somos fiéis pela graça de Deus: Fidelis inveniatur.”
Original em http://www.dominicainsavrille.fr
quarta-feira, 25 de março de 2015
Breve Resposta de Dom Tomás de Aquino ao Comunicado de Menzingen
“Menzingen acusa a ordenação de Dom Jean-Michel Faure de ter não nada em comum com as sagrações de 1988. Para tanto, a casa geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X faz certo número de considerações. Examinemos quatro delas:
1) Dom Williamson e Dom Jean-Michel Faure foram expulsos da Fraternidade porque estavam se opondo a qualquer relação com Roma.
Isto é falso. Eles estão contra a maneira pela qual o fazem Dom Fellay e seus assistentes – incluso aqui o capítulo geral de 2012 –, que buscam um acordo prático sem a conversão de Roma.
2) Dom Williamson e Dom Jean-Michel Faure não reconhecem as autoridades de Roma.
Isto é igualmente falso. Nem um nem outro são sedevacantistas.
3) Menzingen insinua que a publicidade do evento foi insuficiente, e a compara com a grande publicidade de 1988.
Comparada com a de 1988, a de 2015 foi realmente pequena, mas considerada em si mesma, não é uma questão menor. Se contarmos todos os que participaram na cerimônia, vemos representantes dos seguintes países: Inglaterra, França, Estados Unidos, México, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Colômbia e Brasil. Uma centena de fieis assistiram à cerimônia. Os meios de comunicação tanto telefonaram, como vieram ao local.
4) A quarta questão se refere ao estado de necessidade.
Dizemos que nos parece estarmos a ver ali a ponta de um iceberg bastante conhecido: o estado de necessidade de 1988 já não seria o de 2015. Roma já não é tão agressiva contra a Tradição como o era em 1988. Eis uma velha canção: Roma muda! Sim! Roma muda... para pior! E isto também na época de Bento XVI.
Conclusão: Menzingen desaprova a sagração de Dom Jean-Michel Faure; mais que isso, a ataca. É normal. Enquanto Menzingen não compreender que está no mau caminho, atacará sempre a resistência para defender sua política de aproximação com Roma.
No fundo, o que está em jogo é aquilo que disse Dom Lefebvre durante seu sermão histórico de Lille em agosto de 1976: Quero que, na hora de minha morte, quando Nosso Senhor me perguntar: “Que fizeste com tua graça episcopal e sacerdotal?”, eu não tenha de escutar de Sua boca: “Tu contribuíste para destruir a Igreja, tal como os outros”.
Nós tampouco. Eis porque continuamos o combate, e para isto precisamos de bispos. Essa é a explicação para a sagração de 19 de março. Não se deve buscá-la em nenhum outro lugar.”
http://borboletasaoluar.blogspot.com.br
1) Dom Williamson e Dom Jean-Michel Faure foram expulsos da Fraternidade porque estavam se opondo a qualquer relação com Roma.
Isto é falso. Eles estão contra a maneira pela qual o fazem Dom Fellay e seus assistentes – incluso aqui o capítulo geral de 2012 –, que buscam um acordo prático sem a conversão de Roma.
2) Dom Williamson e Dom Jean-Michel Faure não reconhecem as autoridades de Roma.
Isto é igualmente falso. Nem um nem outro são sedevacantistas.
3) Menzingen insinua que a publicidade do evento foi insuficiente, e a compara com a grande publicidade de 1988.
Comparada com a de 1988, a de 2015 foi realmente pequena, mas considerada em si mesma, não é uma questão menor. Se contarmos todos os que participaram na cerimônia, vemos representantes dos seguintes países: Inglaterra, França, Estados Unidos, México, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Colômbia e Brasil. Uma centena de fieis assistiram à cerimônia. Os meios de comunicação tanto telefonaram, como vieram ao local.
4) A quarta questão se refere ao estado de necessidade.
Dizemos que nos parece estarmos a ver ali a ponta de um iceberg bastante conhecido: o estado de necessidade de 1988 já não seria o de 2015. Roma já não é tão agressiva contra a Tradição como o era em 1988. Eis uma velha canção: Roma muda! Sim! Roma muda... para pior! E isto também na época de Bento XVI.
Conclusão: Menzingen desaprova a sagração de Dom Jean-Michel Faure; mais que isso, a ataca. É normal. Enquanto Menzingen não compreender que está no mau caminho, atacará sempre a resistência para defender sua política de aproximação com Roma.
No fundo, o que está em jogo é aquilo que disse Dom Lefebvre durante seu sermão histórico de Lille em agosto de 1976: Quero que, na hora de minha morte, quando Nosso Senhor me perguntar: “Que fizeste com tua graça episcopal e sacerdotal?”, eu não tenha de escutar de Sua boca: “Tu contribuíste para destruir a Igreja, tal como os outros”.
Nós tampouco. Eis porque continuamos o combate, e para isto precisamos de bispos. Essa é a explicação para a sagração de 19 de março. Não se deve buscá-la em nenhum outro lugar.”
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Dom Tomás de Aquino e os argumentos dos acordistas
“Duas correntes se manifestam hoje na Tradição. Uns querem um acordo. Outros não.
Uns dizem:
– É preciso entrar na Igreja.
Outros respondem:
– Quem já está dentro não precisa entrar.
– Mas nós precisamos da legalidade – retrucam os primeiros.
– Foi assim que caíram o Barroux, Campos e tantos outros – respondem os segundos.
– Mas nós não cairemos, não é possível que Deus permita que tal coisa aconteça.
– “Quem está de pé, cuidado para que não caia” – adverte São Paulo (I Cor. 10, 12).
As mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Se Bento XVI beatifica quem excomungou Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer, se Bento XVI celebra o jubileu de prata da reunião de Assis, se Bento XVI defende o Concílio Vaticano II como sendo a Tradição, então os males que vimos no pontificado de João Paulo II se repetirão no de Bento XVI.
Enquanto a Roma liberal dominar a Roma eterna, enquanto o maior desastre da história da Igreja desde a sua fundação, ou seja, o Concílio Vaticano II, for a referência privilegiada dos Bispos, dos Cardeais e do Santo Padre, não haverá solução.
– Mas Roma está mudando – retomam os defensores dos acordos.
– Mudando em quê?
– Roma liberou a missa e retirou as excomunhões – respondem os primeiros.
– Mas de que serve liberar a missa de sempre se Roma deixa coexistir as duas missas? Lemos no Antigo Testamento que Abraão expulsou a escrava Agar e Ismael seu filho para que Isaac não ficasse com o filho da escrava, pois diz São Paulo: “Aquele que tinha nascido segundo a carne perseguia o que tinha nascido segundo o espírito”, e São Paulo acrescenta: “assim também agora” (Gal. V, 29). Abraão fez isto atendendo, a contragosto, a um pedido de Sara, e Deus deu razão a Sara, pois a que é livre não devia ser equiparada à escrava. A missa nova é Agar. Ela não tem direitos. Ela tem de ser suprimida. Quanto ao levantamento das excomunhões, de que serve retirá-las se se beatifica quem as fulminou? Apesar de certo benefício jurídico desses dois atos, “liberação” da missa (que nunca fora proibida) e “levantamento” das excomunhões (que nunca tiveram validade), o benefício espiritual de cada um deles ficou bem comprometido pelo contexto contraditório em que foram realizados. Ou é João Paulo II que tem razão, ou é Dom Lefebvre. Não se pode exaltar João Paulo II e retirar, se é que retiraram, a excomunhão de Dom Lefebvre. Os dois não podem ter razão ao mesmo tempo. Isso é puro modernismo. Quanto à missa, dá-se o mesmo. Se se permitem as duas, o resultado é a contradição. É um princípio de dissolução. É um princípio de corrupção da fé católica.
– Mas – dirão os acordistas – Roma não pode pôr fim a esta crise de uma só vez. As coisas humanas não se resolvem de um só golpe. Para pôr ordem no caos atual, será necessário muito tempo.
– Sim. Não há a menor dúvida. Mas o começo desta ordem só virá quando o Papa tiver a intenção de instaurar esta ordem. E aqui uma questão se impõe. Bento XVI deseja pôr ordem na Igreja?
– Certamente – dirão alguns dentre os acordistas.
– Nada é menos certo do que isso – respondemos nós. – Pôr ordem na Igreja não é imitar Napoleão, que estruturou a Revolução e, desta forma, a perpetuou. Para semear a desordem, é necessário um pouco de ordem, dizia Corção. Bento XVI é um homem de ordem, mas a ordem que ele deseja não é a trazida pela Realeza Social de Nosso Senhor Jesus Cristo: para ele “o problema do Concílio foi assimilar dois séculos de cultura liberal”. É isto o que Bento XVI dá sinais de querer fazer com sua hermenêutica da continuidade.
– Mas – insistem os outros – aos poucos Bento XVI tomará cada vez mais a defesa da Tradição. Ele precisa de nós. Ele quer a nossa ajuda para combater o modernismo.
– Campos também falava assim. Como Bento XVI pode querer nossa ajuda para combater o modernismo se ele mesmo é modernista? Ele pode combater certos modernistas, mas combater o modernismo, ele só poderá fazê-lo depois de deixar de ser modernista.
– Mas dessa forma não se chegará nunca a uma solução.
– Não sei. O que sei é que Santo Anselmo dizia que Deus não ama nada tanto neste mundo como a liberdade da sua Igreja. Pôr a Tradição sob a autoridade de homens que não professam a integridade da Fé católica é fazer exatamente o contrário do que Deus mais ama.
– Mas nesse caso o senhor está identificando a Tradição e a Igreja?
– Perfeitamente, já que a Igreja é essencialmente tradicional e não pode deixar de sê-lo.
– Mas então quem é Bento XVI, se ele não é tradicionalista?
– É um Papa liberal que escraviza a Igreja. Pôr-se sob sua autoridade sem que ele renegue os erros por ele professados é pôr Sara sob o jugo de Agar, Isaac sob o jugo de Ismael. Ora, nós somos filhos da livre e não da escrava cujo filho é Vaticano II, escravo de dois séculos de cultura liberal.
– Qual é então a solução?
– A conversão do Papa.
– Mas como obtê-la?
– Rezando e combatendo. Deus não nos pede a vitória, mas sim o combate. Como dizia Santa Joana d’Arc, “os soldados batalharão e Deus dará a vitória”, pelo Imaculado Coração de Maria. Eis aí toda a nossa esperança.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, Duas Correntes)
http://www.arautoveritatis.com/2012/02/duas-correntes.html
Uns dizem:
– É preciso entrar na Igreja.
Outros respondem:
– Quem já está dentro não precisa entrar.
– Mas nós precisamos da legalidade – retrucam os primeiros.
– Foi assim que caíram o Barroux, Campos e tantos outros – respondem os segundos.
– Mas nós não cairemos, não é possível que Deus permita que tal coisa aconteça.
– “Quem está de pé, cuidado para que não caia” – adverte São Paulo (I Cor. 10, 12).
As mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Se Bento XVI beatifica quem excomungou Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer, se Bento XVI celebra o jubileu de prata da reunião de Assis, se Bento XVI defende o Concílio Vaticano II como sendo a Tradição, então os males que vimos no pontificado de João Paulo II se repetirão no de Bento XVI.
Enquanto a Roma liberal dominar a Roma eterna, enquanto o maior desastre da história da Igreja desde a sua fundação, ou seja, o Concílio Vaticano II, for a referência privilegiada dos Bispos, dos Cardeais e do Santo Padre, não haverá solução.
– Mas Roma está mudando – retomam os defensores dos acordos.
– Mudando em quê?
– Roma liberou a missa e retirou as excomunhões – respondem os primeiros.
– Mas de que serve liberar a missa de sempre se Roma deixa coexistir as duas missas? Lemos no Antigo Testamento que Abraão expulsou a escrava Agar e Ismael seu filho para que Isaac não ficasse com o filho da escrava, pois diz São Paulo: “Aquele que tinha nascido segundo a carne perseguia o que tinha nascido segundo o espírito”, e São Paulo acrescenta: “assim também agora” (Gal. V, 29). Abraão fez isto atendendo, a contragosto, a um pedido de Sara, e Deus deu razão a Sara, pois a que é livre não devia ser equiparada à escrava. A missa nova é Agar. Ela não tem direitos. Ela tem de ser suprimida. Quanto ao levantamento das excomunhões, de que serve retirá-las se se beatifica quem as fulminou? Apesar de certo benefício jurídico desses dois atos, “liberação” da missa (que nunca fora proibida) e “levantamento” das excomunhões (que nunca tiveram validade), o benefício espiritual de cada um deles ficou bem comprometido pelo contexto contraditório em que foram realizados. Ou é João Paulo II que tem razão, ou é Dom Lefebvre. Não se pode exaltar João Paulo II e retirar, se é que retiraram, a excomunhão de Dom Lefebvre. Os dois não podem ter razão ao mesmo tempo. Isso é puro modernismo. Quanto à missa, dá-se o mesmo. Se se permitem as duas, o resultado é a contradição. É um princípio de dissolução. É um princípio de corrupção da fé católica.
– Mas – dirão os acordistas – Roma não pode pôr fim a esta crise de uma só vez. As coisas humanas não se resolvem de um só golpe. Para pôr ordem no caos atual, será necessário muito tempo.
– Sim. Não há a menor dúvida. Mas o começo desta ordem só virá quando o Papa tiver a intenção de instaurar esta ordem. E aqui uma questão se impõe. Bento XVI deseja pôr ordem na Igreja?
– Certamente – dirão alguns dentre os acordistas.
– Nada é menos certo do que isso – respondemos nós. – Pôr ordem na Igreja não é imitar Napoleão, que estruturou a Revolução e, desta forma, a perpetuou. Para semear a desordem, é necessário um pouco de ordem, dizia Corção. Bento XVI é um homem de ordem, mas a ordem que ele deseja não é a trazida pela Realeza Social de Nosso Senhor Jesus Cristo: para ele “o problema do Concílio foi assimilar dois séculos de cultura liberal”. É isto o que Bento XVI dá sinais de querer fazer com sua hermenêutica da continuidade.
– Mas – insistem os outros – aos poucos Bento XVI tomará cada vez mais a defesa da Tradição. Ele precisa de nós. Ele quer a nossa ajuda para combater o modernismo.
– Campos também falava assim. Como Bento XVI pode querer nossa ajuda para combater o modernismo se ele mesmo é modernista? Ele pode combater certos modernistas, mas combater o modernismo, ele só poderá fazê-lo depois de deixar de ser modernista.
– Mas dessa forma não se chegará nunca a uma solução.
– Não sei. O que sei é que Santo Anselmo dizia que Deus não ama nada tanto neste mundo como a liberdade da sua Igreja. Pôr a Tradição sob a autoridade de homens que não professam a integridade da Fé católica é fazer exatamente o contrário do que Deus mais ama.
– Mas nesse caso o senhor está identificando a Tradição e a Igreja?
– Perfeitamente, já que a Igreja é essencialmente tradicional e não pode deixar de sê-lo.
– Mas então quem é Bento XVI, se ele não é tradicionalista?
– É um Papa liberal que escraviza a Igreja. Pôr-se sob sua autoridade sem que ele renegue os erros por ele professados é pôr Sara sob o jugo de Agar, Isaac sob o jugo de Ismael. Ora, nós somos filhos da livre e não da escrava cujo filho é Vaticano II, escravo de dois séculos de cultura liberal.
– Qual é então a solução?
– A conversão do Papa.
– Mas como obtê-la?
– Rezando e combatendo. Deus não nos pede a vitória, mas sim o combate. Como dizia Santa Joana d’Arc, “os soldados batalharão e Deus dará a vitória”, pelo Imaculado Coração de Maria. Eis aí toda a nossa esperança.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, Duas Correntes)
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quarta-feira, 28 de março de 2012
Uma análise de alguns pontos da Encíclica Pascendi (III)
“Mas isto não é uma flagrante contradição? Não, respondem eles, pois a negação dos milagres e das profecias vem do filósofo falando a filósofos e, portanto, considerando a vida de Jesus Cristo segundo a verdade histórica, enquanto que a afirmação do fiel se dirige a outros fiéis. Ora, o fiel considera a vida de Jesus Cristo como “vivida de novo” pela Fé e na Fé.
Eis aí o que parece ser uma loucura completa. No entanto, se nós procuramos ir mais a fundo na teoria modernista, nós veremos que a Fé acaba sendo sujeitada à ciência.
“Muito se enganaria, diz São Pio X, quem, postas estas teorias, se julgasse autorizado a crer que a ciência e a fé são independentes uma da outra. Por parte da ciência, essa independência está fora de dúvidas; mas, já não é assim por parte da fé, que não por um só, mas por três motivos, se deve submeter à ciência”. Podemos resumir esses motivos como se segue:
1ª. Porque as fórmulas religiosas pertencem ao mundo dos fenômenos e, por isso, estão submetidas à ciência.
2ª. Porque se a Fé tem Deus por objeto e, assim, escapa à ciência, a idéia que se faz de Deus, pertencendo à ordem da lógica, está subordinada à ciência. A ciência deve controlar a idéia de Deus e adaptá-la à evolução intelectual e moral dos povos.
3ª. A unidade da pessoa humana e do pensamento impõe a submissão da Fé à ciência.
Tudo isso é, evidentemente, contrário a toda a doutrina Católica, que ensina que a filosofia é a serva da teologia e da Fé, e não o contrário.
É por causa dessas contradições, ao menos na aparência, que se nós lermos um livro modernista encontraremos numa página a perfeita doutrina católica, e ao virar esta página encontraremos uma doutrina cheia de heresias, como diz São Pio X.
Ao escrever a história, o modernista será um racionalista que nega o sobrenatural, mas se ele prega numa igreja, ele fala a linguagem da Fé. Como historiador, ele desdenha os Padres da Igreja e os Concílios, mas se ele dá o catecismo, ele cita essas mesmas fontes com todo respeito.
Mas em tudo os modernistas dão a última palavra à sua falsa ciência, e arruínam a Fé Católica.
Mas já é tempo de terminar. A matéria é vasta demais para ser exposta de uma só vez, numa simples introdução à Pascendi. Vamos, pois, passar ao último ponto da doutrina modernista, fazendo uma breve aplicação à situação atual e ao Concílio Vaticano II, e assim terminaremos.
3. O reformador modernista
O sétimo e último item da doutrina modernista diz respeito ao reformador modernista. Este reformador, diz São Pio X, quer tudo reformar na Igreja e suas reformas se fazem pela ruptura com o que a Igreja sempre fez.
Este tema é importantíssimo na crise atual. É o tema da ruptura e da continuidade. As reformas da Igreja se fazem sempre num espírito de continuidade. As reformas modernistas se fazem num espírito de ruptura.
São Pio V reformou o missal em continuidade com o passado. Paulo VI publicou um novo missal em ruptura com o que se fazia antes.
São Pio X fez o decreto da comunhão freqüente em continuidade com o passado, como ele mesmo disse no texto do decreto. O novo Direito Canônico permite que a comunhão seja dada a não católicos e isto em ruptura com o que a Igreja sempre fez.
A proclamação dos dogmas está sempre em continuidade com a doutrina professada pelos papas ao longo da História da Igreja. A Declaração sobre a Liberdade Religiosa está em ruptura com o que a Igreja sempre ensinou. No entanto, Bento XVI quer convencer o mundo católico de que entre o Vaticano II e a Tradição da Igreja não há ruptura. Isto só faz adensar as trevas nas quais se encontram as inteligências de hoje. Podemos dizer que isto é o supra-sumo do modernismo, a não ser que Bento XVI reforme a doutrina do Vaticano II, condenando-o vigorosamente em tudo o que ele se opõe à Tradição. Mas será isto que ele fará? Quem viver verá. De nossa parte, tememos que ele aumente a confusão doutrinal que assola a Igreja.
Mas vejamos o reformador modernista, a quem, como vimos, a ruptura com o passado não assusta. Veremos como muitas das reformas pedidas por ele foram atendidas pelo Concílio Vaticano II e os Papas pós-conciliares.
São Pio X fala da “mania de reformar” dos modernistas.
“Nada, absolutamente nada há no catolicismo que eles não ataquem”, afirma São Pio X.
Eis alguns exemplos, tirados todos da Pascendi.
a) Reforma da filosofia, sobretudo nos seminários
“Eles (os modernistas) pedem que se relegue a filosofia escolástica à história da filosofia, entre os sistemas ultrapassados, e que se ensine a filosofia moderna”.
É o que já está feito. Mesmo antes do Concílio, o Papa atual Bento XVI assim como o seu antecessor João Paulo II não se formaram com a escolástica, mas sim com a filosofia moderna, ou melhor, eles conheceram as duas, a escolástica e a filosofia moderna, mas optaram pela filosofia moderna.
b) A separação entre a Igreja e o Estado
“Sim, diz São Pio X na Pascendi, os modernistas pedem a separação da Igreja e do Estado, assim como a do católico e do cidadão”. A razão dada é que para os modernistas a Igreja não foi instituída diretamente por Deus.
“E não basta para os modernistas que o Estado seja separado da Igreja. Assim como a Fé deve se subordinar à ciência, (...) assim é necessário que nos assuntos temporais a Igreja se submeta ao Estado” dizem eles. E isto foi realizado pelo Concílio Vaticano II com o documento Dignitatis Humanae e com a política do Vaticano, que fez pressão junto aos governos católicos para que se retirasse da Constituição o artigo que fazia desses países, países oficialmente católicos. Isto se deu com a Colômbia, Espanha e alguns outros estados.
c) Reforma do governo da Igreja
“Que o governo eclesiástico seja reformado em todos os seus setores; sobretudo a disciplina e a dogmática, dizem eles. Que o seu espírito e os seus procedimentos externos sejam adaptados à consciência moderna, que se inclina para a democracia. Que se confie uma parte do governo ao clero inferior e mesmo aos leigos. Que a autoridade seja descentralizada”.
O Vaticano II com o decreto sobre a colegialidade, e as diversas medidas tomadas por Paulo VI e seus sucessores, introduziu o princípio democrático dentro da Igreja.
A autoridade do Papa ficou diminuída diante dos Bispos.
A autoridade dos Bispos ficou diminuída por causa das conferências episcopais.
A autoridade dos párocos ficou diminuída por causa dos conselhos paroquianos.
Dentro das comunidades religiosas, a autoridade dos superiores ficou diminuída por causa da vaga de contestação e de desobediência que penetrou em toda parte.
d) Reforma das Congregações Romanas, dos ritos dos Sacramentos, do Direito Canônico, etc
Os modernistas, como diz São Pio X na Pascendi, pedem sobretudo a reforma do Santo Ofício e do Índex, duas congregações que velavam sobre a doutrina.
Ora, o Santo Ofício teve o seu nome modificado e sua importância diminuída. Quanto ao Índex, ele foi suprimido. O Índex estabelecia o catálogo de livros proibidos.
Além destas reformas que indicamos, há várias outras, pois, como diz São Pio X, o modernista tem a mania reformista.
Qual foi a instituição da Igreja, qual o Sacramento, qual foi o ritual, qual foi a prática de piedade, qual o ponto de doutrina que não foi modificado, atacado ou suprimido após o Concílio?
Todos os Sacramentos tiveram o seu rito modificado: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio. Todos sofreram modificações.
O Direito Canônico foi refeito para adaptá-lo ao Concílio Vaticano II.
As congregações romanas foram profundamente modificadas.
Foi feito um novo catecismo, enquanto que o Catecismo do Concílio de Trento (Catecismo Romano) e o Catecismo de São Pio X foram postos de lado.
A Via Sacra e o Rosário receberam acréscimos ou modificações.
As práticas de devoção tradicionais foram desprestigiadas. A disciplina das indulgências foi modificada. O calendário dos dias litúrgicos foi alterado, assim como o processo da canonização dos santos.
A doutrina, enfim, sofreu e sofre ainda ataques de toda parte, assim como a exegese, que é o estudo da Sagrada Escritura. Apenas para recordar alguns pontos: o dogma “fora da Igreja não há salvação” foi atacado; o dogma “A Igreja de Cristo é a Igreja Católica” foi posto em dúvida e a existência do limbo é igualmente posta em dúvida.
Seria difícil fazer a lista de todos os pontos de doutrina atacados pelos modernistas de hoje. Basta dizer que o modernismo na sua forma atual triunfou no Concílio e continua a triunfar, apesar de alguns atos contrários à correnteza revolucionária e reformista que domina o Vaticano.
Para concluir, lembremos que São Pio X diz que o sistema dos modernistas é como um corpo perfeitamente organizado. Não se pode adotar um ponto sem admitir todos os outros. Lançando um olhar sobre todo o sistema modernista, São Pio X não pode deixar de classificá-lo de encruzilhada ou reunião de todas as heresias. Se alguém, diz ele, se desse ao trabalho de recolher todos os erros que já existiram contra a Fé e de concentrar a substância como um suco formado de todos eles, ele não poderia fazer nada de mais bem sucedido que o sistema modernista.
Após ter explicado minuciosamente este sistema, São Pio X sente a necessidade de explicar como o agnosticismo tendo fechado a porta para Deus do lado da inteligência, é em vão que ele tenta abrir outra porta do lado do sentimento, pois, diz São Pio X, o que é o sentimento senão uma conseqüência diante da ação da inteligência ou dos sentidos? Retirai a inteligência e o homem seguirá os piores instintos. A emoção, o sentimento e tudo o que cativa a alma, longe de favorecer a descoberta da verdade, entravam a sua aquisição. O sentimento e a experiência sozinhos, sem serem esclarecidos e guiados pela razão, não conduzem a Deus. Por isso, o sistema modernista conduz ao aniquilamento de toda religião e ao ateísmo. Pior do que isso, a doutrina da imanência divina conduz diretamente ao panteísmo, porque ela não distingue suficientemente o homem de Deus, e que, certamente, preparará a vinda do Anticristo.
Para terminar, recordemos o que São Pio X nos diz desta queda progressiva do espírito humano.
“O primeiro passo foi pelo protestantismo, o segundo, pelo modernismo; o próximo será o do ateísmo”. Com o Concílio Vaticano II, triunfou o modernismo ou neomodernismo carregado nas costas pelo liberalismo, que procura, a todo custo, se harmonizar com o mundo moderno. Desta forma, vimos algo nunca visto na história da Igreja: um concílio ecumênico promover uma doutrina contrária à doutrina da Igreja.
Diante deste fato, não podemos deixar de pensar no que diz São João no Apocalipse (cap. XIII), quando ele viu uma besta subindo do mar, que representa o poder político, o governo mundial, e sobre sua cabeça ela trazia a blasfêmia. E os homens adoraram a besta e o dragão que deu o poder à besta. E São João viu outra besta subindo da terra, que tinha os chifres semelhantes ao Cordeiro, mas que falava como o dragão e induzia os homens a adorarem a besta que saía do mar. Podemos pensar que esta misteriosa figura representa os homens da Igreja, que trazem as insígnias do Cordeiro, isto é, de Nosso Senhor, mas que falam como o dragão, isto é, o como demônio, ensinando a heresia e, acima de tudo, o condensado de todas as heresias, que é o modernismo.
Que o exemplo de Dom Lefebvre e de Dom Antônio de Castro Mayer e a intercessão de Nossa Senhora nos guardem sempre na pureza imaculada de nossa Fé e que esta inspire todos os nossos atos, pois a Fé age pela caridade, a qual nos obtém a vida eterna.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)
http://spessantotomas.blogspot.com/2011/10/enciclica-pascendi-por-dom-tomas-de.html
Eis aí o que parece ser uma loucura completa. No entanto, se nós procuramos ir mais a fundo na teoria modernista, nós veremos que a Fé acaba sendo sujeitada à ciência.
“Muito se enganaria, diz São Pio X, quem, postas estas teorias, se julgasse autorizado a crer que a ciência e a fé são independentes uma da outra. Por parte da ciência, essa independência está fora de dúvidas; mas, já não é assim por parte da fé, que não por um só, mas por três motivos, se deve submeter à ciência”. Podemos resumir esses motivos como se segue:
1ª. Porque as fórmulas religiosas pertencem ao mundo dos fenômenos e, por isso, estão submetidas à ciência.
2ª. Porque se a Fé tem Deus por objeto e, assim, escapa à ciência, a idéia que se faz de Deus, pertencendo à ordem da lógica, está subordinada à ciência. A ciência deve controlar a idéia de Deus e adaptá-la à evolução intelectual e moral dos povos.
3ª. A unidade da pessoa humana e do pensamento impõe a submissão da Fé à ciência.
Tudo isso é, evidentemente, contrário a toda a doutrina Católica, que ensina que a filosofia é a serva da teologia e da Fé, e não o contrário.
É por causa dessas contradições, ao menos na aparência, que se nós lermos um livro modernista encontraremos numa página a perfeita doutrina católica, e ao virar esta página encontraremos uma doutrina cheia de heresias, como diz São Pio X.
Ao escrever a história, o modernista será um racionalista que nega o sobrenatural, mas se ele prega numa igreja, ele fala a linguagem da Fé. Como historiador, ele desdenha os Padres da Igreja e os Concílios, mas se ele dá o catecismo, ele cita essas mesmas fontes com todo respeito.
Mas em tudo os modernistas dão a última palavra à sua falsa ciência, e arruínam a Fé Católica.
Mas já é tempo de terminar. A matéria é vasta demais para ser exposta de uma só vez, numa simples introdução à Pascendi. Vamos, pois, passar ao último ponto da doutrina modernista, fazendo uma breve aplicação à situação atual e ao Concílio Vaticano II, e assim terminaremos.
3. O reformador modernista
O sétimo e último item da doutrina modernista diz respeito ao reformador modernista. Este reformador, diz São Pio X, quer tudo reformar na Igreja e suas reformas se fazem pela ruptura com o que a Igreja sempre fez.
Este tema é importantíssimo na crise atual. É o tema da ruptura e da continuidade. As reformas da Igreja se fazem sempre num espírito de continuidade. As reformas modernistas se fazem num espírito de ruptura.
São Pio V reformou o missal em continuidade com o passado. Paulo VI publicou um novo missal em ruptura com o que se fazia antes.
São Pio X fez o decreto da comunhão freqüente em continuidade com o passado, como ele mesmo disse no texto do decreto. O novo Direito Canônico permite que a comunhão seja dada a não católicos e isto em ruptura com o que a Igreja sempre fez.
A proclamação dos dogmas está sempre em continuidade com a doutrina professada pelos papas ao longo da História da Igreja. A Declaração sobre a Liberdade Religiosa está em ruptura com o que a Igreja sempre ensinou. No entanto, Bento XVI quer convencer o mundo católico de que entre o Vaticano II e a Tradição da Igreja não há ruptura. Isto só faz adensar as trevas nas quais se encontram as inteligências de hoje. Podemos dizer que isto é o supra-sumo do modernismo, a não ser que Bento XVI reforme a doutrina do Vaticano II, condenando-o vigorosamente em tudo o que ele se opõe à Tradição. Mas será isto que ele fará? Quem viver verá. De nossa parte, tememos que ele aumente a confusão doutrinal que assola a Igreja.
Mas vejamos o reformador modernista, a quem, como vimos, a ruptura com o passado não assusta. Veremos como muitas das reformas pedidas por ele foram atendidas pelo Concílio Vaticano II e os Papas pós-conciliares.
São Pio X fala da “mania de reformar” dos modernistas.
“Nada, absolutamente nada há no catolicismo que eles não ataquem”, afirma São Pio X.
Eis alguns exemplos, tirados todos da Pascendi.
a) Reforma da filosofia, sobretudo nos seminários
“Eles (os modernistas) pedem que se relegue a filosofia escolástica à história da filosofia, entre os sistemas ultrapassados, e que se ensine a filosofia moderna”.
É o que já está feito. Mesmo antes do Concílio, o Papa atual Bento XVI assim como o seu antecessor João Paulo II não se formaram com a escolástica, mas sim com a filosofia moderna, ou melhor, eles conheceram as duas, a escolástica e a filosofia moderna, mas optaram pela filosofia moderna.
b) A separação entre a Igreja e o Estado
“Sim, diz São Pio X na Pascendi, os modernistas pedem a separação da Igreja e do Estado, assim como a do católico e do cidadão”. A razão dada é que para os modernistas a Igreja não foi instituída diretamente por Deus.
“E não basta para os modernistas que o Estado seja separado da Igreja. Assim como a Fé deve se subordinar à ciência, (...) assim é necessário que nos assuntos temporais a Igreja se submeta ao Estado” dizem eles. E isto foi realizado pelo Concílio Vaticano II com o documento Dignitatis Humanae e com a política do Vaticano, que fez pressão junto aos governos católicos para que se retirasse da Constituição o artigo que fazia desses países, países oficialmente católicos. Isto se deu com a Colômbia, Espanha e alguns outros estados.
c) Reforma do governo da Igreja
“Que o governo eclesiástico seja reformado em todos os seus setores; sobretudo a disciplina e a dogmática, dizem eles. Que o seu espírito e os seus procedimentos externos sejam adaptados à consciência moderna, que se inclina para a democracia. Que se confie uma parte do governo ao clero inferior e mesmo aos leigos. Que a autoridade seja descentralizada”.
O Vaticano II com o decreto sobre a colegialidade, e as diversas medidas tomadas por Paulo VI e seus sucessores, introduziu o princípio democrático dentro da Igreja.
A autoridade do Papa ficou diminuída diante dos Bispos.
A autoridade dos Bispos ficou diminuída por causa das conferências episcopais.
A autoridade dos párocos ficou diminuída por causa dos conselhos paroquianos.
Dentro das comunidades religiosas, a autoridade dos superiores ficou diminuída por causa da vaga de contestação e de desobediência que penetrou em toda parte.
d) Reforma das Congregações Romanas, dos ritos dos Sacramentos, do Direito Canônico, etc
Os modernistas, como diz São Pio X na Pascendi, pedem sobretudo a reforma do Santo Ofício e do Índex, duas congregações que velavam sobre a doutrina.
Ora, o Santo Ofício teve o seu nome modificado e sua importância diminuída. Quanto ao Índex, ele foi suprimido. O Índex estabelecia o catálogo de livros proibidos.
Além destas reformas que indicamos, há várias outras, pois, como diz São Pio X, o modernista tem a mania reformista.
Qual foi a instituição da Igreja, qual o Sacramento, qual foi o ritual, qual foi a prática de piedade, qual o ponto de doutrina que não foi modificado, atacado ou suprimido após o Concílio?
Todos os Sacramentos tiveram o seu rito modificado: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio. Todos sofreram modificações.
O Direito Canônico foi refeito para adaptá-lo ao Concílio Vaticano II.
As congregações romanas foram profundamente modificadas.
Foi feito um novo catecismo, enquanto que o Catecismo do Concílio de Trento (Catecismo Romano) e o Catecismo de São Pio X foram postos de lado.
A Via Sacra e o Rosário receberam acréscimos ou modificações.
As práticas de devoção tradicionais foram desprestigiadas. A disciplina das indulgências foi modificada. O calendário dos dias litúrgicos foi alterado, assim como o processo da canonização dos santos.
A doutrina, enfim, sofreu e sofre ainda ataques de toda parte, assim como a exegese, que é o estudo da Sagrada Escritura. Apenas para recordar alguns pontos: o dogma “fora da Igreja não há salvação” foi atacado; o dogma “A Igreja de Cristo é a Igreja Católica” foi posto em dúvida e a existência do limbo é igualmente posta em dúvida.
Seria difícil fazer a lista de todos os pontos de doutrina atacados pelos modernistas de hoje. Basta dizer que o modernismo na sua forma atual triunfou no Concílio e continua a triunfar, apesar de alguns atos contrários à correnteza revolucionária e reformista que domina o Vaticano.
Para concluir, lembremos que São Pio X diz que o sistema dos modernistas é como um corpo perfeitamente organizado. Não se pode adotar um ponto sem admitir todos os outros. Lançando um olhar sobre todo o sistema modernista, São Pio X não pode deixar de classificá-lo de encruzilhada ou reunião de todas as heresias. Se alguém, diz ele, se desse ao trabalho de recolher todos os erros que já existiram contra a Fé e de concentrar a substância como um suco formado de todos eles, ele não poderia fazer nada de mais bem sucedido que o sistema modernista.
Após ter explicado minuciosamente este sistema, São Pio X sente a necessidade de explicar como o agnosticismo tendo fechado a porta para Deus do lado da inteligência, é em vão que ele tenta abrir outra porta do lado do sentimento, pois, diz São Pio X, o que é o sentimento senão uma conseqüência diante da ação da inteligência ou dos sentidos? Retirai a inteligência e o homem seguirá os piores instintos. A emoção, o sentimento e tudo o que cativa a alma, longe de favorecer a descoberta da verdade, entravam a sua aquisição. O sentimento e a experiência sozinhos, sem serem esclarecidos e guiados pela razão, não conduzem a Deus. Por isso, o sistema modernista conduz ao aniquilamento de toda religião e ao ateísmo. Pior do que isso, a doutrina da imanência divina conduz diretamente ao panteísmo, porque ela não distingue suficientemente o homem de Deus, e que, certamente, preparará a vinda do Anticristo.
Para terminar, recordemos o que São Pio X nos diz desta queda progressiva do espírito humano.
“O primeiro passo foi pelo protestantismo, o segundo, pelo modernismo; o próximo será o do ateísmo”. Com o Concílio Vaticano II, triunfou o modernismo ou neomodernismo carregado nas costas pelo liberalismo, que procura, a todo custo, se harmonizar com o mundo moderno. Desta forma, vimos algo nunca visto na história da Igreja: um concílio ecumênico promover uma doutrina contrária à doutrina da Igreja.
Diante deste fato, não podemos deixar de pensar no que diz São João no Apocalipse (cap. XIII), quando ele viu uma besta subindo do mar, que representa o poder político, o governo mundial, e sobre sua cabeça ela trazia a blasfêmia. E os homens adoraram a besta e o dragão que deu o poder à besta. E São João viu outra besta subindo da terra, que tinha os chifres semelhantes ao Cordeiro, mas que falava como o dragão e induzia os homens a adorarem a besta que saía do mar. Podemos pensar que esta misteriosa figura representa os homens da Igreja, que trazem as insígnias do Cordeiro, isto é, de Nosso Senhor, mas que falam como o dragão, isto é, o como demônio, ensinando a heresia e, acima de tudo, o condensado de todas as heresias, que é o modernismo.
Que o exemplo de Dom Lefebvre e de Dom Antônio de Castro Mayer e a intercessão de Nossa Senhora nos guardem sempre na pureza imaculada de nossa Fé e que esta inspire todos os nossos atos, pois a Fé age pela caridade, a qual nos obtém a vida eterna.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)
http://spessantotomas.blogspot.com/2011/10/enciclica-pascendi-por-dom-tomas-de.html
domingo, 25 de março de 2012
Uma análise de alguns pontos da Encíclica Pascendi (II)
“1. O filósofo modernista
Os princípios do filósofo modernista são praticamente os mesmos que já vimos em Kant: o agnosticismo e o imanentismo. O agnosticismo é o princípio negativo e o imanentismo é o princípio positivo. O agnosticismo diz que nós só podemos conhecer os fenômenos, ou seja, as aparências sensíveis. Todo o resto é incognoscível. Daí se deduz que os milagres são incognoscíveis, que a Revelação externa, assim como toda manifestação de Deus na História, é impossível, pois nós não teríamos meios de conhecê-la.
Assim também, as provas da existência de Deus, da existência da alma e toda a filosofia são desprovidas de valor. Essas teorias, sobretudo a negação de que podemos provar a existência de Deus, já foram condenadas pela Igreja. O Concílio Vaticano I definiu solenemente que a razão pode provar a existência de Deus a partir das criaturas.
Após destruir as bases do conhecimento, vem o princípio positivo, que será o imanentismo.
Eis como São Pio X explica essa passagem do agnosticismo para o imanentismo.
“Eles passam de um a outro da seguinte maneira: natural ou sobrenatural, a religião, tal como qualquer outro fato, pede uma explicação. Ora, a teologia natural uma vez repudiada, todo acesso à revelação suprimido pela rejeição dos motivos de credibilidade, toda a revelação externa inteiramente abolida, é claro que a explicação da existência da religião não deve ser procurada fora do homem. É, então, dentro do homem mesmo que ela se encontra, e como a religião é uma forma de vida, a religião deve se encontrar na vida mesma do homem. Eis aí a ‘imanência religiosa’.”
E São Pio X prossegue:
“Todo fenômeno vital ― e a religião é um deles, como eles dizem ― tem por primeiro estimulante uma necessidade, e como fundamento este movimento do coração chamado sentimento.
Por conseguinte, como o objeto da religião é Deus, devemos concluir que a fé, princípio e base de toda a religião, se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade do divino.”
Desses dois princípios vão decorrer inúmeras conseqüências.
Pelo primeiro princípio, que é o do agnosticismo, os modernistas negam que a inteligência possa provar a existência de Deus. Daí se deduz que Deus não é objeto de ciência e que Deus não pode ser objeto da história. Deste princípio, somado ao princípio da imanência vital, isto é, de que a religião é objeto só de sentimento, se conclui que:
1. A ciência, assim como a história, não tem Deus por objeto e, portanto, deve ser atéia, na prática.
2. A Fé é um sentimento.
3. A Fé não vem “pelo ouvido”, como ensina São Paulo, mas vem do subconsciente do próprio homem.
4. A revelação tem sua origem também nesse sentimento e, por isso, a consciência religiosa de cada um não está submetida à autoridade da Igreja.
5. O sentimento religioso transformou os fatos reais dos Evangelhos, e, portanto, é preciso suprimir dos Evangelhos tudo o que não está de acordo com a ciência.
6. Todas as religiões provêm do mesmo sentimento religioso e, portanto, todas as religiões são verdadeiras.
7. A religião católica nasceu da consciência de Jesus Cristo segundo as leis da imanência.
8. O dogma é uma expressão imperfeita do sentimento religioso e, portanto, o dogma pode e deve evoluir na medida em que o sentimento religioso evolui.
9. As fórmulas religiosas (ou dogmas) devem ser vivas, assim como o sentimento religioso.
10. Para permanecerem vivas, as fórmulas religiosas devem estar sempre adaptadas ao fiel e à sua fé. No dia em que essa adaptação cessa, elas perdem a sua razão de ser. Daí o pouco caso que os modernistas fazem do dogma.
Como se pode ver, e segundo a expressão de São Pio X, os modernistas chegaram a esta loucura de perverter a eterna noção da verdade. Para eles, a verdade não é a adequação da inteligência com a realidade (natural ou sobrenatural), mas sim a adequação da inteligência com o sentimento, com a vida, isto é, com algo que não tem conteúdo inteligível.
E, ao mesmo tempo que os modernistas se perdem em suas loucuras, eles têm a audácia de repreender a Igreja por se apegar teimosamente e esterilmente a fórmulas vãs e vagas, segundo eles, enquanto que ela, a Igreja, deixa a religião correr à sua ruína, dizem eles.
Como exemplo dessa audácia dos modernistas, podemos citar os ataques feitos à palavra transubstanciação (a qual significa a transformação da substância do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Nosso Senhor, no momento da Consagração). Podemos dar ainda como exemplo a definição da missa, a doutrina do reinado social de Nosso Senhor e a própria encíclica Pascendi julgada antiquada pelos neomodernistas. Tudo isso para os modernistas deve mudar com a vida e com o “progresso” da humanidade (os comunistas têm uma doutrina semelhante, ao dizer que o modo de pensar muda cada vez que mudam as estruturas econômicas).
2. O fiel modernista
Para o filósofo modernista, Deus só é objeto de sentimento. Se Ele existe ou não, isso não o interessa. Mas, para o fiel modernista Deus existe em si mesmo, independentemente do homem. E como o fiel modernista chega a essa certeza? Pela experiência individual. Assim, se os modernistas se separam dos racionalistas, é para adotarem a doutrina dos protestantes e dos pseudomísticos.
Eis como os modernistas explicam essa certeza da existência de Deus. “Se nós penetramos o sentimento religioso, descobrimos aí facilmente certa intuição do coração, graças à qual e sem nenhum intermediário o homem atinge a realidade mesma de Deus”.
E se perguntamos que tipo de conhecimento pode produzir essa intuição do coração, eles respondem: “Uma certeza da existência de Deus que ultrapassa toda certeza científica. Trata-se de uma verdadeira experiência, superior a todas as experiências racionais”. E se perguntamos por que há então homens que negam a existência de Deus, o fiel modernista dirá que é porque eles não se põem nas condições morais necessárias para fazer essa experiência. Desta forma, os modernistas suprimem toda atividade propriamente racional da Fé. A Fé modernista é irracional; ela é puro sentimento.
Tudo isso é evidentemente contrário à Fé católica e abre o caminho para o mais completo relativismo, pois se isso fosse verdade, todas as religiões seriam verdadeiras. E é isto que observa São Pio X ao escrever: “Uns de maneira velada e outros abertamente, todos eles afirmam que todas as religiões são verdadeiras”. E como poderiam eles negar essa conclusão? “Isto não poderia ser feito senão mostrando a falsidade do sentimento ou da fórmula (dogma) que o exprime. Mas, segundo eles, o sentimento é sempre e em toda parte o mesmo, substancialmente o mesmo, e quanto à fórmula religiosa, expressão do sentimento religioso, tudo o que eles pedem é que ela esteja adaptada ao fiel e ao mesmo tempo à sua fé”.
Mas os modernistas não reivindicam uma superioridade da religião católica sobre as outras? Sim, mas uma superioridade de grau e não de natureza, pois, dizem eles, “ela é mais verdadeira porque ela é mais viva”.
De todos esses erros eles tiram conseqüências importantes a respeito da Tradição, assunto que nos interessa de maneira toda especial, porque no documento que excomungou Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer estava dito que eles não tinham uma noção acertada de Tradição. Escutemos São Pio X:
“Outro ponto a respeito do qual os modernistas se põem em oposição flagrante com a fé Católica é que eles transferem para a Tradição o princípio da experiência religiosa. A Tradição, tal como a entende a Igreja, se encontra totalmente arruinada”.
Antes de demonstrar o conceito que os modernistas têm da Tradição, vejamos o que ensina a Santa Igreja: A fonte da Fé é uma só: é a Revelação. Mas a Revelação foi transmitida aos homens de duas formas. Escrita e oral. A escrita é a Sagrada Escritura, a oral é a Tradição. Nesse sentido, diz o Concílio Vaticano I, seção III, cap. III Denz. 1792: “Fide divina et catholica ea omnia credenda sunt, quae in verbo Dei scripto vel tradito continentur...” (Deve ser crido com fé divina e católica tudo o que está contido na palavra de Deus escrita ou transmitida). Aqui, a palavra “transmitida” significa a Revelação sob forma oral, na medida em que ela não faz parte da Sagrada Escritura.
A palavra Tradição se entende também como sendo todo o Magistério infalível da Igreja, isto é, todos os dogmas ensinados pela Igreja. A Tradição possui uma anterioridade sobre a Escritura, porque a Santa Igreja foi constituída por Nosso Senhor antes que qualquer livro, Evangelho ou epístola, fosse escrito.
Vejamos agora o que dizem os modernistas. Para eles a Tradição é a “comunicação feita a outros de alguma experiência original, através da pregação e por meio de uma fórmula intelectual”. Que valor, que virtude atribuem eles a essa fórmula intelectual? “A essa fórmula intelectual, além da sua virtude representativa, como eles dizem, eles atribuem ainda uma virtude sugestiva”. Qual o papel dessa virtude sugestiva? Seu papel “se exerce sobre o fiel, para despertar nele o sentimento religioso, adormecido talvez, ou ainda para ajudá-lo a renovar as experiências já feitas ou para gerar nos descrentes o sentimento religioso e conduzi-los às experiências que se deseja para eles”.
“É assim, dizem eles, que a experiência religiosa vai se propagando através dos povos e não somente entre os contemporâneos, pela pregação propriamente dita, mas também de geração em geração, por escrito ou pela transmissão oral”. “A verdade de uma tradição seria, então, medida pela sua sobrevivência, de tal modo que se ela for viva ela é verdadeira, se ela se perder ou diminuir, ela é falsa ou menos verdadeira ou era verdadeira e não é mais”, podemos concluir:
Um neomodernista antes do Concílio dizia: “Toda teologia que não é atual é falsa”. Eis aí uma doutrina puramente modernista. Daí a importância dada pelos modernistas à expressão “Tradição viva”. Aliás, os modernistas têm sempre a palavra vida e seus derivados nos lábios. Tradição viva, magistério vivo, Rede Vida, imanência vital. Algumas dessas expressões podem ter um significado correto, pois não se pode excluir a palavra vida do vocabulário, mas é de se notar que são expressões caras aos modernistas e que, para eles, têm um significado especial. Para o modernista, tudo o que tem vida é verdadeiro. Por isso, todas as religiões existentes, ou seja, vivas, são verdadeiras.
Vejamos agora as relações entre a Fé e a ciência. Antes de mais nada, lembremos que ao condenar o agnosticismo, São Pio X lembra que é de Fé definida que a razão humana pode provar a existência de Deus a partir das criaturas. Este dogma foi definido pelo Concílio Vaticano I. Ora, para os modernistas não há nada em comum entre a Fé e a ciência. Deus não pode ser conhecido pela razão de modo algum. “O objeto da Fé é justamente o que a ciência declara ser ‘incognoscível’. Daí dois campos inteiramente distintos: a ciência se ocupa dos fenômenos e a Fé não tem nada a dizer em relação a eles. Por sua vez, a Fé se ocupa do que é divino e a ciência não tem nada o que dizer a respeito”. Logo, não pode haver conflito entre a ciência e a Fé, já que cada uma tem objetos inteiramente distintos. Como elas nunca se encontram, elas podem discordar entre si.
Mas se nós objetarmos que há realidades visíveis, que são objetos tanto da ciência como da Fé? Por exemplo, a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que respondem os modernistas? Eles dizem que foi a Fé que transfigurou a vida de Nosso Senhor e, assim, a Fé subtraiu a vida de Nosso Senhor do alcance da ciência, transportando-a ao nível do divino, que está acima da realidade sensível. Mas se nós perguntarmos: E os milagres e as profecias? Nosso Senhor não fez milagres e não profetizou vários acontecimentos? Não, responde a ciência agnóstica. Sim, responde a Fé modernista. Eis aí a doutrina deles.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)
Os princípios do filósofo modernista são praticamente os mesmos que já vimos em Kant: o agnosticismo e o imanentismo. O agnosticismo é o princípio negativo e o imanentismo é o princípio positivo. O agnosticismo diz que nós só podemos conhecer os fenômenos, ou seja, as aparências sensíveis. Todo o resto é incognoscível. Daí se deduz que os milagres são incognoscíveis, que a Revelação externa, assim como toda manifestação de Deus na História, é impossível, pois nós não teríamos meios de conhecê-la.
Assim também, as provas da existência de Deus, da existência da alma e toda a filosofia são desprovidas de valor. Essas teorias, sobretudo a negação de que podemos provar a existência de Deus, já foram condenadas pela Igreja. O Concílio Vaticano I definiu solenemente que a razão pode provar a existência de Deus a partir das criaturas.
Após destruir as bases do conhecimento, vem o princípio positivo, que será o imanentismo.
Eis como São Pio X explica essa passagem do agnosticismo para o imanentismo.
“Eles passam de um a outro da seguinte maneira: natural ou sobrenatural, a religião, tal como qualquer outro fato, pede uma explicação. Ora, a teologia natural uma vez repudiada, todo acesso à revelação suprimido pela rejeição dos motivos de credibilidade, toda a revelação externa inteiramente abolida, é claro que a explicação da existência da religião não deve ser procurada fora do homem. É, então, dentro do homem mesmo que ela se encontra, e como a religião é uma forma de vida, a religião deve se encontrar na vida mesma do homem. Eis aí a ‘imanência religiosa’.”
E São Pio X prossegue:
“Todo fenômeno vital ― e a religião é um deles, como eles dizem ― tem por primeiro estimulante uma necessidade, e como fundamento este movimento do coração chamado sentimento.
Por conseguinte, como o objeto da religião é Deus, devemos concluir que a fé, princípio e base de toda a religião, se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade do divino.”
Desses dois princípios vão decorrer inúmeras conseqüências.
Pelo primeiro princípio, que é o do agnosticismo, os modernistas negam que a inteligência possa provar a existência de Deus. Daí se deduz que Deus não é objeto de ciência e que Deus não pode ser objeto da história. Deste princípio, somado ao princípio da imanência vital, isto é, de que a religião é objeto só de sentimento, se conclui que:
1. A ciência, assim como a história, não tem Deus por objeto e, portanto, deve ser atéia, na prática.
2. A Fé é um sentimento.
3. A Fé não vem “pelo ouvido”, como ensina São Paulo, mas vem do subconsciente do próprio homem.
4. A revelação tem sua origem também nesse sentimento e, por isso, a consciência religiosa de cada um não está submetida à autoridade da Igreja.
5. O sentimento religioso transformou os fatos reais dos Evangelhos, e, portanto, é preciso suprimir dos Evangelhos tudo o que não está de acordo com a ciência.
6. Todas as religiões provêm do mesmo sentimento religioso e, portanto, todas as religiões são verdadeiras.
7. A religião católica nasceu da consciência de Jesus Cristo segundo as leis da imanência.
8. O dogma é uma expressão imperfeita do sentimento religioso e, portanto, o dogma pode e deve evoluir na medida em que o sentimento religioso evolui.
9. As fórmulas religiosas (ou dogmas) devem ser vivas, assim como o sentimento religioso.
10. Para permanecerem vivas, as fórmulas religiosas devem estar sempre adaptadas ao fiel e à sua fé. No dia em que essa adaptação cessa, elas perdem a sua razão de ser. Daí o pouco caso que os modernistas fazem do dogma.
Como se pode ver, e segundo a expressão de São Pio X, os modernistas chegaram a esta loucura de perverter a eterna noção da verdade. Para eles, a verdade não é a adequação da inteligência com a realidade (natural ou sobrenatural), mas sim a adequação da inteligência com o sentimento, com a vida, isto é, com algo que não tem conteúdo inteligível.
E, ao mesmo tempo que os modernistas se perdem em suas loucuras, eles têm a audácia de repreender a Igreja por se apegar teimosamente e esterilmente a fórmulas vãs e vagas, segundo eles, enquanto que ela, a Igreja, deixa a religião correr à sua ruína, dizem eles.
Como exemplo dessa audácia dos modernistas, podemos citar os ataques feitos à palavra transubstanciação (a qual significa a transformação da substância do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Nosso Senhor, no momento da Consagração). Podemos dar ainda como exemplo a definição da missa, a doutrina do reinado social de Nosso Senhor e a própria encíclica Pascendi julgada antiquada pelos neomodernistas. Tudo isso para os modernistas deve mudar com a vida e com o “progresso” da humanidade (os comunistas têm uma doutrina semelhante, ao dizer que o modo de pensar muda cada vez que mudam as estruturas econômicas).
2. O fiel modernista
Para o filósofo modernista, Deus só é objeto de sentimento. Se Ele existe ou não, isso não o interessa. Mas, para o fiel modernista Deus existe em si mesmo, independentemente do homem. E como o fiel modernista chega a essa certeza? Pela experiência individual. Assim, se os modernistas se separam dos racionalistas, é para adotarem a doutrina dos protestantes e dos pseudomísticos.
Eis como os modernistas explicam essa certeza da existência de Deus. “Se nós penetramos o sentimento religioso, descobrimos aí facilmente certa intuição do coração, graças à qual e sem nenhum intermediário o homem atinge a realidade mesma de Deus”.
E se perguntamos que tipo de conhecimento pode produzir essa intuição do coração, eles respondem: “Uma certeza da existência de Deus que ultrapassa toda certeza científica. Trata-se de uma verdadeira experiência, superior a todas as experiências racionais”. E se perguntamos por que há então homens que negam a existência de Deus, o fiel modernista dirá que é porque eles não se põem nas condições morais necessárias para fazer essa experiência. Desta forma, os modernistas suprimem toda atividade propriamente racional da Fé. A Fé modernista é irracional; ela é puro sentimento.
Tudo isso é evidentemente contrário à Fé católica e abre o caminho para o mais completo relativismo, pois se isso fosse verdade, todas as religiões seriam verdadeiras. E é isto que observa São Pio X ao escrever: “Uns de maneira velada e outros abertamente, todos eles afirmam que todas as religiões são verdadeiras”. E como poderiam eles negar essa conclusão? “Isto não poderia ser feito senão mostrando a falsidade do sentimento ou da fórmula (dogma) que o exprime. Mas, segundo eles, o sentimento é sempre e em toda parte o mesmo, substancialmente o mesmo, e quanto à fórmula religiosa, expressão do sentimento religioso, tudo o que eles pedem é que ela esteja adaptada ao fiel e ao mesmo tempo à sua fé”.
Mas os modernistas não reivindicam uma superioridade da religião católica sobre as outras? Sim, mas uma superioridade de grau e não de natureza, pois, dizem eles, “ela é mais verdadeira porque ela é mais viva”.
De todos esses erros eles tiram conseqüências importantes a respeito da Tradição, assunto que nos interessa de maneira toda especial, porque no documento que excomungou Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer estava dito que eles não tinham uma noção acertada de Tradição. Escutemos São Pio X:
“Outro ponto a respeito do qual os modernistas se põem em oposição flagrante com a fé Católica é que eles transferem para a Tradição o princípio da experiência religiosa. A Tradição, tal como a entende a Igreja, se encontra totalmente arruinada”.
Antes de demonstrar o conceito que os modernistas têm da Tradição, vejamos o que ensina a Santa Igreja: A fonte da Fé é uma só: é a Revelação. Mas a Revelação foi transmitida aos homens de duas formas. Escrita e oral. A escrita é a Sagrada Escritura, a oral é a Tradição. Nesse sentido, diz o Concílio Vaticano I, seção III, cap. III Denz. 1792: “Fide divina et catholica ea omnia credenda sunt, quae in verbo Dei scripto vel tradito continentur...” (Deve ser crido com fé divina e católica tudo o que está contido na palavra de Deus escrita ou transmitida). Aqui, a palavra “transmitida” significa a Revelação sob forma oral, na medida em que ela não faz parte da Sagrada Escritura.
A palavra Tradição se entende também como sendo todo o Magistério infalível da Igreja, isto é, todos os dogmas ensinados pela Igreja. A Tradição possui uma anterioridade sobre a Escritura, porque a Santa Igreja foi constituída por Nosso Senhor antes que qualquer livro, Evangelho ou epístola, fosse escrito.
Vejamos agora o que dizem os modernistas. Para eles a Tradição é a “comunicação feita a outros de alguma experiência original, através da pregação e por meio de uma fórmula intelectual”. Que valor, que virtude atribuem eles a essa fórmula intelectual? “A essa fórmula intelectual, além da sua virtude representativa, como eles dizem, eles atribuem ainda uma virtude sugestiva”. Qual o papel dessa virtude sugestiva? Seu papel “se exerce sobre o fiel, para despertar nele o sentimento religioso, adormecido talvez, ou ainda para ajudá-lo a renovar as experiências já feitas ou para gerar nos descrentes o sentimento religioso e conduzi-los às experiências que se deseja para eles”.
“É assim, dizem eles, que a experiência religiosa vai se propagando através dos povos e não somente entre os contemporâneos, pela pregação propriamente dita, mas também de geração em geração, por escrito ou pela transmissão oral”. “A verdade de uma tradição seria, então, medida pela sua sobrevivência, de tal modo que se ela for viva ela é verdadeira, se ela se perder ou diminuir, ela é falsa ou menos verdadeira ou era verdadeira e não é mais”, podemos concluir:
Um neomodernista antes do Concílio dizia: “Toda teologia que não é atual é falsa”. Eis aí uma doutrina puramente modernista. Daí a importância dada pelos modernistas à expressão “Tradição viva”. Aliás, os modernistas têm sempre a palavra vida e seus derivados nos lábios. Tradição viva, magistério vivo, Rede Vida, imanência vital. Algumas dessas expressões podem ter um significado correto, pois não se pode excluir a palavra vida do vocabulário, mas é de se notar que são expressões caras aos modernistas e que, para eles, têm um significado especial. Para o modernista, tudo o que tem vida é verdadeiro. Por isso, todas as religiões existentes, ou seja, vivas, são verdadeiras.
Vejamos agora as relações entre a Fé e a ciência. Antes de mais nada, lembremos que ao condenar o agnosticismo, São Pio X lembra que é de Fé definida que a razão humana pode provar a existência de Deus a partir das criaturas. Este dogma foi definido pelo Concílio Vaticano I. Ora, para os modernistas não há nada em comum entre a Fé e a ciência. Deus não pode ser conhecido pela razão de modo algum. “O objeto da Fé é justamente o que a ciência declara ser ‘incognoscível’. Daí dois campos inteiramente distintos: a ciência se ocupa dos fenômenos e a Fé não tem nada a dizer em relação a eles. Por sua vez, a Fé se ocupa do que é divino e a ciência não tem nada o que dizer a respeito”. Logo, não pode haver conflito entre a ciência e a Fé, já que cada uma tem objetos inteiramente distintos. Como elas nunca se encontram, elas podem discordar entre si.
Mas se nós objetarmos que há realidades visíveis, que são objetos tanto da ciência como da Fé? Por exemplo, a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que respondem os modernistas? Eles dizem que foi a Fé que transfigurou a vida de Nosso Senhor e, assim, a Fé subtraiu a vida de Nosso Senhor do alcance da ciência, transportando-a ao nível do divino, que está acima da realidade sensível. Mas se nós perguntarmos: E os milagres e as profecias? Nosso Senhor não fez milagres e não profetizou vários acontecimentos? Não, responde a ciência agnóstica. Sim, responde a Fé modernista. Eis aí a doutrina deles.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)
quinta-feira, 22 de março de 2012
Uma análise de alguns pontos da Encíclica Pascendi (I)
“São Pio X, ao terminar a primeira parte de sua magistral encíclica Pascendi, escreve que no caminho que conduz ao aniquilamento de toda religião os protestantes deram o primeiro passo, os modernistas o segundo e o próximo será o do completo ateísmo.
Vamos pois começar estudando este primeiro passo que foi dado pelos protestantes, isto é, por Lutero e todos aqueles que sofreram sua influência. Em seguida, examinaremos o segundo passo que é o modernismo, suas causas e seu conteúdo doutrinal. Para terminar examinaremos brevemente o modernismo nas reformas do Concílio Vaticano II.
I. Lutero e seus discípulos
Revoltando-se contra a autoridade doutrinal da Igreja, Lutero vai fazer da liberdade individual o árbitro supremo em matéria religiosa. Com o seu “livre exame”, Lutero abriu o caminho, como diz Leão XIII, às variações infinitas, às dúvidas e às negações a respeito das mais graves questões.
Ele não só ataca a Igreja, mas também a própria razão.
“A razão, dizia ele, é diretamente oposta à Fé [...] Entre os fiéis ela devia ser exterminada e enterrada (...) ela é a prostituta do demônio. Ela só pode blasfemar e desonrar tudo o que Deus fez ou disse.”
Lutero, antecipando-se aos modernistas e aos neomodernistas, vai atacar o método escolástico, que faz toda a solidez da teologia católica.
“É impossível reformar a Igreja”, diz ele, “se a teologia escolástica e a filosofia não são inteiramente desenraizadas, assim como o Direito Canônico”. E ainda: “A lógica não tem nenhuma utilidade em teologia, pois o Cristo não tem necessidade das invenções humanas”.
Este tesouro da Igreja que é a teologia e a filosofia escolásticas será sempre combatido pelos inimigos da Igreja. Descartes (1596-1650), filósofo francês, embora sendo católico, vai igualmente desprezar a escolástica e dar início à filosofia moderna, também chamada de filosofia separada. Após Descartes virá Kant, protestante, que marcará a filosofia com o seu sistema. Kant (1724-1804) é um dos pais do idealismo. Vamos tentar resumir o seu sistema.
Para Kant, nós só podemos conhecer as aparências das coisas, ou seja, a realidade acessível aos sentidos, os fenômenos, como ele diz. Para Kant, a única ciência verdadeira é a Física. A Física não atinge a essência das coisas, mas só o que está ao alcance dos sentidos.
A essência das coisas, para Kant, é incognoscível. Eis porque, para Kant, a filosofia não é uma ciência e nós não podemos conhecer nem a Deus, nem a alma, nem mesmo a Revelação ou qualquer intervenção de Deus na vida dos homens.
No entanto, Kant vai, através da moral, afirmar a existência de Deus, da alma, do Céu, etc. “Eu destruí a razão para dar lugar à Fé”, diz ele. Mas fazendo isso Kant tira todo fundamento à Fé. Para Kant a existência de Deus é uma verdade prática. Deve-se dizer que Deus existe porque é útil afirmar a sua existência, embora não se possa prová-la. Sua existência é útil e mesmo necessária à moral. Eis o único fundamento para afirmar a sua existência.
Assim, Kant vai separar as verdades em dois grupos: as verdades científicas, que são as da Física, e as verdades morais, que não são científicas. Deus, os milagres, a revelação, nada disso pode ser conhecido com certeza, nada disso é objeto de ciência. É, na verdade, o que pensam a maioria de nossos contemporâneos, sob a influência dessas doutrinas.
O sistema de Kant é bastante complexo. Vamos reter sobretudo o seu agnosticismo, isto é, a doutrina que nega que nós possamos conhecer a essência das coisas, ou seja, que só podemos conhecer as aparências sensíveis. Nós veremos esse agnosticismo presente no sistema dos modernistas.
Ao mesmo tempo que Kant professa o agnosticismo, ele ensina o imanentismo, isto é, nós encontramos a verdade dentro de nós mesmos, como se ela fosse fabricação nossa e não adequação de nossa inteligência com a realidade.
Agnosticismo e imanentismo serão os dois fundamentos do modernismo.
Após essa brevíssima incursão na filosofia de Kant, vejamos dois autores protestantes que podemos chamar de precursores do modernismo: Ernest Daniel Schleiermacher (1768- 1834) e David Friedrich Strauss (1808-1874).
Como Kant, Schleiermacher dirá que a religião não tem nenhum fundamento racional. Os milagres, o pecado original, a divindade de Nosso Senhor, nada disso tem fundamento. Avançando por este caminho, ele dirá que pouco importa saber se Nosso Senhor é Deus ou não, pois a religião é um sentimento, um puro sentimento.
“Você crê que outrora, há dezenove séculos, algo aconteceu fora de você e para você. Nós, ao contrário, cremos que algo se passa em nós; temos nossa fé em Cristo. Por que você quer saber o que é o Cristo em si mesmo, o que é a Revelação em si mesma, e o que é o milagre em si mesmo? Esses juízos não têm nenhum interesse para a alma religiosa.”
Para Schleiermacher, o valor de um dogma, o valor da religião está na sua utilidade prática. O resto não tem nenhuma importância. Desta forma, sonhava ele reunir todas as confissões protestantes, reunindo-as na religião do sentimento, numa religião sem dogma, sem doutrina, sem nenhum conteúdo intelectual.
Schleiermacher fala de sentimento, de experiência emotiva e piedosa, a Bíblia mesma é só uma coleção de experiências religiosas que devem provocar em nós outras experiências.
Para ele, o dogma tem um papel puramente simbólico para exprimir muito imperfeitamente as diferentes experiências religiosas. O dogma não deve separar os homens, pois o importante é a experiência, o sentimento religioso. Sobre esta base pode-se fundar um ecumenismo tal como desejam os progressistas mais exaltados.
Após Schleiermacher, vejamos Strauss.
Strauss, assim como o seu mestre Ferdinand Christian Baur (1792-1860), vai se interessar pelo estudo das Sagradas Escrituras e, seguindo a teoria de Kant sobre a verdade prática e a verdade científica, ele vai opor o Jesus da história ao Jesus dos Evangelhos. Ele escreverá uma vida de Jesus na qual ele tenta explicar todos os milagres como sendo o fruto da imaginação das primeiras comunidades cristãs. Haverá, então, duas histórias de Jesus. Uma verdadeira, sem milagres, e outra, mística, com milagres.
II. O modernismo nos meios católicos
Praticamente todas as teses modernistas já haviam sido professadas pelos protestantes. Nos meios católicos, alguns sacerdotes foram tomados pelo desejo de não ficar atrás daquilo que lhes parecia ser um avanço científico dos protestantes alemães. Alguns desses sacerdotes mal formados e desdenhosos da escolástica se lançaram na leitura dos protestantes e dos filósofos modernos e adotaram em grande parte as suas teses.
É de todo esse conjunto de falsa ciência, de curiosidade malsã e de orgulho que vai nascer o modernismo.
Na França, o principal expoente do modernismo será o sacerdote Alfredo Loisy (1857-1940). E vários outros autores na França como na Inglaterra e na Itália vão se embrenhar pelo mesmo caminho. Em fevereiro de 1903, é condenado por Leão XIII um primeiro livro de Loisy. Em seguida, o Santo Ofício põe no Índex (lista dos livros proibidos) diversos livros do mesmo autor. Em 1907 São Pio X condena 65 proposições modernistas no documento Lamentabili. No mesmo ano, no dia 8 de setembro, é publicada a grande encíclica Pascendi.
III. Pascendi
A encíclica está dividida em três partes principais:
1. A doutrina modernista
2. A causa do modernismo
3. Os remédios contra o modernismo
Veremos breve e incompletamente as duas primeiras partes da encíclica, mas pensamos que será o suficiente para expor o essencial desta magnífica encíclica, que merece ser lida integralmente e estudada com maior profundidade do que podemos fazer neste breve artigo. Para indicar melhor o nexo do que acabamos de ver com a própria encíclica Pascendi, vamos começar pelas causas do modernismo, isto é, pela segunda parte.
A respeito da origem do modernismo, São Pio X indica três causas: duas morais e uma intelectual. As causas morais são: a curiosidade e o orgulho; e a intelectual é a ignorância.
a) A curiosidade, como diz São Pio X, se ela não é sabiamente regrada, basta para explicar todos os erros. A curiosidade é a mesma coisa que o espírito de novidade. Foi esse espírito de novidade que levou e continua a levar tantos católicos a ler os autores protestantes assim como os autores modernistas e os filósofos modernos (Kant, Hegel, Nietzsche, Bergson, Heidegger, Sartre, Teilhard de Chardin, Rahner, De Lubac, Congar, etc) e, desta forma, acabaram virando modernistas e perdendo a Fé. É o que se passa nos seminários progressistas.
b) A segunda causa, que é a mais importante, é o orgulho: “Em verdade, diz São Pio X, nenhum caminho leva mais diretamente e mais depressa ao modernismo do que o orgulho”.
“Que nos dêem um leigo católico, que nos dêem um padre, diz São Pio X, que tendo perdido de vista o princípio fundamental da vida cristã, a saber, que nós devemos renunciar a nós mesmos se quisermos seguir Jesus Cristo, e que não tenha arrancado o orgulho de seu coração: este leigo, este padre está maduro para todos os erros do modernismo.”
Quanto à ignorância, São Pio X diz:
“Sim, estes modernistas que se apresentam como doutores da Igreja, que elevam até as nuvens a filosofia moderna e que olham com tanto desprezo a escolástica, eles abraçaram esta filosofia moderna enredados pelas suas aparências enganadoras porque, ignorando a escolástica, lhes faltou o instrumento necessário para discernir os erros e dissipar os sofismas.”
E São Pio X conclui:
“Sim, é da aliança entre a falsa filosofia e a Fé que nasceu, repleto de erros, o sistema dos modernistas.”
Passando depois às causas, não mais da origem, mas da propagação do modernismo, São Pio X indica os ataques feitos contra a escolástica, contra a Tradição, contra a autoridade dos Padres da Igreja e contra o Magistério.
Mas é tempo de vermos a doutrina modernista, exposta e condenada pela Pascendi. Trata-se, como já vimos, da 1ª parte da encíclica. Esta parte está dividida em sete itens, que são como sete capítulos, nos quais vem exposta toda a doutrina modernista. Estes capítulos são os seguintes:
1. O filósofo modernista
2. O fiel modernista
3. O teólogo modernista
4. O historiador modernista
5. O crítico (exegeta) modernista
6. O apologeta modernista
7. O reformador modernista
Nós veremos apenas o 1º, o 2º e o 7º capítulo, ou seja: o filósofo modernista, o fiel modernista e o reformador modernista.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)
Vamos pois começar estudando este primeiro passo que foi dado pelos protestantes, isto é, por Lutero e todos aqueles que sofreram sua influência. Em seguida, examinaremos o segundo passo que é o modernismo, suas causas e seu conteúdo doutrinal. Para terminar examinaremos brevemente o modernismo nas reformas do Concílio Vaticano II.
I. Lutero e seus discípulos
Revoltando-se contra a autoridade doutrinal da Igreja, Lutero vai fazer da liberdade individual o árbitro supremo em matéria religiosa. Com o seu “livre exame”, Lutero abriu o caminho, como diz Leão XIII, às variações infinitas, às dúvidas e às negações a respeito das mais graves questões.
Ele não só ataca a Igreja, mas também a própria razão.
“A razão, dizia ele, é diretamente oposta à Fé [...] Entre os fiéis ela devia ser exterminada e enterrada (...) ela é a prostituta do demônio. Ela só pode blasfemar e desonrar tudo o que Deus fez ou disse.”
Lutero, antecipando-se aos modernistas e aos neomodernistas, vai atacar o método escolástico, que faz toda a solidez da teologia católica.
“É impossível reformar a Igreja”, diz ele, “se a teologia escolástica e a filosofia não são inteiramente desenraizadas, assim como o Direito Canônico”. E ainda: “A lógica não tem nenhuma utilidade em teologia, pois o Cristo não tem necessidade das invenções humanas”.
Este tesouro da Igreja que é a teologia e a filosofia escolásticas será sempre combatido pelos inimigos da Igreja. Descartes (1596-1650), filósofo francês, embora sendo católico, vai igualmente desprezar a escolástica e dar início à filosofia moderna, também chamada de filosofia separada. Após Descartes virá Kant, protestante, que marcará a filosofia com o seu sistema. Kant (1724-1804) é um dos pais do idealismo. Vamos tentar resumir o seu sistema.
Para Kant, nós só podemos conhecer as aparências das coisas, ou seja, a realidade acessível aos sentidos, os fenômenos, como ele diz. Para Kant, a única ciência verdadeira é a Física. A Física não atinge a essência das coisas, mas só o que está ao alcance dos sentidos.
A essência das coisas, para Kant, é incognoscível. Eis porque, para Kant, a filosofia não é uma ciência e nós não podemos conhecer nem a Deus, nem a alma, nem mesmo a Revelação ou qualquer intervenção de Deus na vida dos homens.
No entanto, Kant vai, através da moral, afirmar a existência de Deus, da alma, do Céu, etc. “Eu destruí a razão para dar lugar à Fé”, diz ele. Mas fazendo isso Kant tira todo fundamento à Fé. Para Kant a existência de Deus é uma verdade prática. Deve-se dizer que Deus existe porque é útil afirmar a sua existência, embora não se possa prová-la. Sua existência é útil e mesmo necessária à moral. Eis o único fundamento para afirmar a sua existência.
Assim, Kant vai separar as verdades em dois grupos: as verdades científicas, que são as da Física, e as verdades morais, que não são científicas. Deus, os milagres, a revelação, nada disso pode ser conhecido com certeza, nada disso é objeto de ciência. É, na verdade, o que pensam a maioria de nossos contemporâneos, sob a influência dessas doutrinas.
O sistema de Kant é bastante complexo. Vamos reter sobretudo o seu agnosticismo, isto é, a doutrina que nega que nós possamos conhecer a essência das coisas, ou seja, que só podemos conhecer as aparências sensíveis. Nós veremos esse agnosticismo presente no sistema dos modernistas.
Ao mesmo tempo que Kant professa o agnosticismo, ele ensina o imanentismo, isto é, nós encontramos a verdade dentro de nós mesmos, como se ela fosse fabricação nossa e não adequação de nossa inteligência com a realidade.
Agnosticismo e imanentismo serão os dois fundamentos do modernismo.
Após essa brevíssima incursão na filosofia de Kant, vejamos dois autores protestantes que podemos chamar de precursores do modernismo: Ernest Daniel Schleiermacher (1768- 1834) e David Friedrich Strauss (1808-1874).
Como Kant, Schleiermacher dirá que a religião não tem nenhum fundamento racional. Os milagres, o pecado original, a divindade de Nosso Senhor, nada disso tem fundamento. Avançando por este caminho, ele dirá que pouco importa saber se Nosso Senhor é Deus ou não, pois a religião é um sentimento, um puro sentimento.
“Você crê que outrora, há dezenove séculos, algo aconteceu fora de você e para você. Nós, ao contrário, cremos que algo se passa em nós; temos nossa fé em Cristo. Por que você quer saber o que é o Cristo em si mesmo, o que é a Revelação em si mesma, e o que é o milagre em si mesmo? Esses juízos não têm nenhum interesse para a alma religiosa.”
Para Schleiermacher, o valor de um dogma, o valor da religião está na sua utilidade prática. O resto não tem nenhuma importância. Desta forma, sonhava ele reunir todas as confissões protestantes, reunindo-as na religião do sentimento, numa religião sem dogma, sem doutrina, sem nenhum conteúdo intelectual.
Schleiermacher fala de sentimento, de experiência emotiva e piedosa, a Bíblia mesma é só uma coleção de experiências religiosas que devem provocar em nós outras experiências.
Para ele, o dogma tem um papel puramente simbólico para exprimir muito imperfeitamente as diferentes experiências religiosas. O dogma não deve separar os homens, pois o importante é a experiência, o sentimento religioso. Sobre esta base pode-se fundar um ecumenismo tal como desejam os progressistas mais exaltados.
Após Schleiermacher, vejamos Strauss.
Strauss, assim como o seu mestre Ferdinand Christian Baur (1792-1860), vai se interessar pelo estudo das Sagradas Escrituras e, seguindo a teoria de Kant sobre a verdade prática e a verdade científica, ele vai opor o Jesus da história ao Jesus dos Evangelhos. Ele escreverá uma vida de Jesus na qual ele tenta explicar todos os milagres como sendo o fruto da imaginação das primeiras comunidades cristãs. Haverá, então, duas histórias de Jesus. Uma verdadeira, sem milagres, e outra, mística, com milagres.
II. O modernismo nos meios católicos
Praticamente todas as teses modernistas já haviam sido professadas pelos protestantes. Nos meios católicos, alguns sacerdotes foram tomados pelo desejo de não ficar atrás daquilo que lhes parecia ser um avanço científico dos protestantes alemães. Alguns desses sacerdotes mal formados e desdenhosos da escolástica se lançaram na leitura dos protestantes e dos filósofos modernos e adotaram em grande parte as suas teses.
É de todo esse conjunto de falsa ciência, de curiosidade malsã e de orgulho que vai nascer o modernismo.
Na França, o principal expoente do modernismo será o sacerdote Alfredo Loisy (1857-1940). E vários outros autores na França como na Inglaterra e na Itália vão se embrenhar pelo mesmo caminho. Em fevereiro de 1903, é condenado por Leão XIII um primeiro livro de Loisy. Em seguida, o Santo Ofício põe no Índex (lista dos livros proibidos) diversos livros do mesmo autor. Em 1907 São Pio X condena 65 proposições modernistas no documento Lamentabili. No mesmo ano, no dia 8 de setembro, é publicada a grande encíclica Pascendi.
III. Pascendi
A encíclica está dividida em três partes principais:
1. A doutrina modernista
2. A causa do modernismo
3. Os remédios contra o modernismo
Veremos breve e incompletamente as duas primeiras partes da encíclica, mas pensamos que será o suficiente para expor o essencial desta magnífica encíclica, que merece ser lida integralmente e estudada com maior profundidade do que podemos fazer neste breve artigo. Para indicar melhor o nexo do que acabamos de ver com a própria encíclica Pascendi, vamos começar pelas causas do modernismo, isto é, pela segunda parte.
A respeito da origem do modernismo, São Pio X indica três causas: duas morais e uma intelectual. As causas morais são: a curiosidade e o orgulho; e a intelectual é a ignorância.
a) A curiosidade, como diz São Pio X, se ela não é sabiamente regrada, basta para explicar todos os erros. A curiosidade é a mesma coisa que o espírito de novidade. Foi esse espírito de novidade que levou e continua a levar tantos católicos a ler os autores protestantes assim como os autores modernistas e os filósofos modernos (Kant, Hegel, Nietzsche, Bergson, Heidegger, Sartre, Teilhard de Chardin, Rahner, De Lubac, Congar, etc) e, desta forma, acabaram virando modernistas e perdendo a Fé. É o que se passa nos seminários progressistas.
b) A segunda causa, que é a mais importante, é o orgulho: “Em verdade, diz São Pio X, nenhum caminho leva mais diretamente e mais depressa ao modernismo do que o orgulho”.
“Que nos dêem um leigo católico, que nos dêem um padre, diz São Pio X, que tendo perdido de vista o princípio fundamental da vida cristã, a saber, que nós devemos renunciar a nós mesmos se quisermos seguir Jesus Cristo, e que não tenha arrancado o orgulho de seu coração: este leigo, este padre está maduro para todos os erros do modernismo.”
Quanto à ignorância, São Pio X diz:
“Sim, estes modernistas que se apresentam como doutores da Igreja, que elevam até as nuvens a filosofia moderna e que olham com tanto desprezo a escolástica, eles abraçaram esta filosofia moderna enredados pelas suas aparências enganadoras porque, ignorando a escolástica, lhes faltou o instrumento necessário para discernir os erros e dissipar os sofismas.”
E São Pio X conclui:
“Sim, é da aliança entre a falsa filosofia e a Fé que nasceu, repleto de erros, o sistema dos modernistas.”
Passando depois às causas, não mais da origem, mas da propagação do modernismo, São Pio X indica os ataques feitos contra a escolástica, contra a Tradição, contra a autoridade dos Padres da Igreja e contra o Magistério.
Mas é tempo de vermos a doutrina modernista, exposta e condenada pela Pascendi. Trata-se, como já vimos, da 1ª parte da encíclica. Esta parte está dividida em sete itens, que são como sete capítulos, nos quais vem exposta toda a doutrina modernista. Estes capítulos são os seguintes:
1. O filósofo modernista
2. O fiel modernista
3. O teólogo modernista
4. O historiador modernista
5. O crítico (exegeta) modernista
6. O apologeta modernista
7. O reformador modernista
Nós veremos apenas o 1º, o 2º e o 7º capítulo, ou seja: o filósofo modernista, o fiel modernista e o reformador modernista.”
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, A Encíclica Pascendi)
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