segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A força insuportável

"As Sete Últimas Palavras de Cristo de Haydn apresentada por um homem nu diante de uma platéia ao vivo. Um outdoor representando o papa beijando um imã do Cairo na boca. Papel-moeda enchendo o lado trespassado de Jesus crucificado. Excrementos despejados na face de Cristo. Hambúrgueres nojentos espalhados no chão parodiando a multiplicação dos pães....
Mas em nome da expressão artística é proibido protestar e rezar publicamente. Pois, segundo os anti-cristãos, a fé é uma provocação e a oração, uma forma de violência.
Fabrizio Cannone, escrevendo em Correspondance Européenne, analisa essa recente rotina contra o Cristianismo: "Na verdade, o que está acontecendo hoje é que todos os católicos, e não só os mais intransigentes, são os que experimentam uma marginalização feroz por parte das autoridades seculares." E ele adverte: "O fenômeno tende a se intensificar, a menos que haja protestos em reação aos ataques contínuos e tirânicos lançados contra a Igreja, o papa e da fé cristã."
Os anti-cristãos exigem um "direito de blasfemar". Nós afirmamos que temos um dever de orar em reparação pelas blasfêmias. Oração, essa força insuportável."
(Pe. Alain Lorans, The Unsupportable Force)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Vladimir Bukowsky: O socialismo é uma utopia das elites destinada ao fracasso



“-Vladimir, estamos no ano de 2010, e em 2010 os europeus estão presentemente vivendo sob o jugo do que você descreveu como a nova URSS, ou seja, a URSE. A União Européia, com sua forma aparentemente democrática, inclusive com pão e circo fornecidos pelos meios de comunicação de massa, mas de qualquer maneira gerida por um tipo soviético de administração centralizada.
Você que viveu em nosso futuro, na sua opinião como é possível que as elites não entendam que seu modelo político é inevitavelmente destinado ao fracasso como aconteceu na URSS?
-Veja, basicamente eles todos acreditam no socialismo de uma maneira ou de outra, em uma forma de socialismo ou outra. E eles jamais perderam essa crença. Ele é mais ameno do que a ideologia comunista em termos de violência. O comunismo acredita em mudanças rápidas, radicais e revolucionárias, ao passo que a maior parte do socialismo europeu acredita em mudanças evolutivas, reformas e coisas do tipo. Mas seu objetivo final é o mesmo: eles querem criar igualdade, igualdade social, eles querem criar coisas que não existem na natureza e que jamais existirão. E eles jamais entenderam que essa é uma idéia falsa. Eles sempre criticam os soviéticos por seus métodos, mas não por seu objetivo final. E eles jamais são duros com os soviéticos porque, “veja bem, eles estão mais ou menos fazendo o que nós queremos fazer, mas estão fazendo do modo errado”; portanto, para eles era uma espécie de proporção, de proporção ideológica. Dessa forma, não surpreende que eles estejam tentando fazer agora o mesmo que a União Soviética tentou do seu próprio jeito, apenas numa versão um pouco mais suave, com métodos mais civilizados, eu diria. No entanto, é a mesma idéia, e o resultado será também o mesmo. Porque o que os visionários do tipo socialista jamais chegaram a entender é que a idéia do socialismo é contrária à natureza humana. Nós não queremos igualdade. Nós queremos igualdade quando somos muito pobres. A partir do momento que nos tornamos ricos, deixamos de querer igualdade. Essa foi a maior desilusão na Rússia para os comunistas que realmente acreditavam no comunismo, pois tão logo qualquer trabalhador ou proletário tornava-se mais próspero, ele não queria mais saber de igualdade, ele queria sua propriedade. O experimento soviético é bastante revelador. Infelizmente, o Ocidente, cego em sua ignorância e desejo de ver implementada a utopia, jamais estudou o experimento soviético. Eles deveriam estudá-lo ponto a ponto, porque foi tentado de tudo. Eles tentaram. Particularmente no começo, nas décadas de 20 e 30, eles ainda acreditavam nisso, depois eles mesmos passaram a não acreditar mais e trataram apenas de sobreviver. Manter-se no poder, só isso. Eles perderam suas crenças. Mas nas décadas de 20 e 30 eles acreditavam. E eles tentaram tudo de todas as maneiras e eu posso reconhecer hoje muitas coisas que estão acontecendo na Europa que já foram testadas e abandonadas na União Soviética. Porque não funcionam. Veja, por exemplo, o sistema educacional. Eles inventaram o chamado sistema de “educação progressiva”; não há provas, não há “stress”, não há trauma para as crianças, esse tipo de coisas. O resultado é que, pela primeira vez em cem anos, as crianças inglesas estão terminando a escola tecnicamente analfabetas. Porque elas não aprendem coisa alguma. Os soviéticos estavam testando isso nos anos 20. Eles experimentaram toda possibilidade do mesmo tipo de educação: educação coletiva, o método das brigadas, tudo. Mas depois eles tiveram que abandonar isso porque eles precisavam de cientistas, eles precisavam de especialistas e de bons técnicos, então eles tiveram de desistir desses experimentos e retornar a um sistema de educação mais tradicional. Hoje eu observo com horror como o Ocidente está repetindo esse experimento fracassado que nós sabemos irá fracassar, nós sabemos que nada na terra o fará funcionar e apesar disso eles continuam tentando, e eles têm gerações após gerações de estudantes que terminam a escola analfabetos. Que não aprenderam nada. E esse é só um exemplo. Se você atentar para o panorama geral, o que está acontecendo, eles todos estão fazendo isso. No fundo, essas pessoas jamais acreditaram na democracia. Elas acreditam que a democracia é um bom veículo para alcançar o que elas querem alcançar: a igualdade. A igualdade que as permitiria ser juízes dessa igualdade. Sim, porque isso é o que as pessoas ficam esquecendo. Não é totalmente altruísta, toda essa idéia de igualdade. Porque alguém deverá ser o juiz, alguém deverá estar em desigualdade, e essas pessoas deverão ser mais iguais do que as outras. Isso foi o que Orwell percebeu. Mas a maioria desses socialistas e visionários ocidentais jamais entendeu isso. Seus egos e interesses egoístas estão muito bem disfarçados por trás da ideologia, eles estão “fazendo o bem para a humanidade”, quando estão fazendo o bem para si mesmos. Só que isso está muito bem escondido. Alguns deles não entendem. Seja como for, a concepção inteira não funciona. Toda essa concepção, criada na Revolução Francesa há 200 anos, é simplesmente lixo. Ela não pode funcionar. “Egalité, fraternité, liberté”. Ok, você pode ter liberdade mas não pode ter igualdade, ou é uma ou a outra. Isso não funciona. Como Joseph Brodski disse certa vez com notável precisão, a igualdade exclui a irmandade. Ou vocês são iguais ou são irmãos, não se pode ser ambos. Essa é uma idéia falsa que por várias gerações e durante séculos foi entretida pelas pessoas educadas da Europa e do mundo inteiro, começando em Atenas, na Grécia e assim por diante, que se cristalizou na França há 200 anos, onde foi pela primeira vez posta em prática. Antes eles apenas a discutiam, entre eles mesmos, alguns filósofos e pensadores. Mas na França, há 200 anos, eles tentaram implementá-la na vida real. E isso terminou na guilhotina. Naturalmente. Porque se você tenta fazer todas as pessoas iguais, algumas terão que ter as cabeças cortadas, enquanto outras serão esticadas, porque elas não são iguais, elas são todas diferentes. Você tem que encontrar um padrão, um paradigma, pelo qual você os medirá a todos. Isso é o que vai acontecer sempre e em qualquer lugar que você tentar. Mesmo com as melhores intenções, o final será sempre a violência, o Gulag, as cabeças cortadas, sem que se alcance qualquer igualdade. O mais interessante é que, mesmo com toda essa violência e zelo revolucionário e mudanças radicais na Rússia feitas pelos comunistas, no final eles terminaram na mais desigual das sociedades, onde a nomenklatura tem enormes privilégios, seus próprios aviões, seus próprios iates, seus próprios palácios e a maioria não tem nada, nem sequer pão. E isso depois de 73 anos tentando fazer todo mundo igual. Há milionários subterrâneos, por outro lado, não pertencentes à nomenklatura, que seriam executados se fossem apanhados. E apesar disso, segundo estimativas dos economistas em 1999, nós tínhamos vários milhões de milionários subterrâneos. Milionários secretos. Logo, não adianta. Você não pode forçar as pessoas a serem iguais, porque elas não são iguais. Certo? Assim, respondendo à sua pergunta, qual é o conceito básico ou filosofia dos que criaram a União Européia. Eles são visionários, uma espécie branda de visionários, não tão radicais como os comunistas, mas mesmo assim visionários. Eles acreditam que os sentimentos nacionalistas podem ser completamente destruídos, que o estado nacional pode ser eliminado como os comunistas acreditavam, eles acreditavam que o estado nacional deveria desaparecer. O resultado ao final do experimento foi um incêndio de nacionalismos em todas as partes da Rússia. Aconteceu exatamente o contrário. E os armênios e os azeris ficavam se matando uns aos outros e nos estados bálticos os russos e os lituanos estavam se matando e assim por diante. É um experimento fracassado. Você sabe que está fadado ao fracasso. Por quê? Porque é contra a natureza humana.”
(Vladimir Bukowsky, em trecho de vídeo-entrevista de 18.2.2010)

http://www.livingscoop.com/watch.php?v=Mjcw

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Eugenio Montale: Ó Vida

Ó vida, não te peço lineamentos
fixos, vultos plausíveis ou possessos.
Sinto que no teu giro inquieto o mesmo
sabor que tem o mel tem o absinto.

O coração propenso todo ao vil
raro se afeta com pressentimentos.
Tal como soa às vezes no silêncio
do descampado um tiro de fuzil.


Tradução de Ivo Barroso

domingo, 20 de novembro de 2011

Wilhelm Stenhammar: Pleno Inverno


Neemi Järvi
Göteborgs Symfoniker

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O último imperador da Áustria e a Rainha da Paz (II)

As intenções da Rainha do Rosário
Carlos havia colocado seus planos de paz sob a proteção da Virgem Maria, cuja imagem decorava as bandeiras dos regimentos imperiais. Em 15 de abril de 1917, ele foi à Catedral de Santo Estêvão em Viena fazer voto de construir uma igreja dedicada à Rainha da Paz, e oferecer-se a ela como seu instrumento, se ela assim o desejasse.
Por sua vez, o Papa Bento XV, que acreditava “na força moral do que é correto”, adicionou às Litanias de Loretto, em 5 de maio de 1917, a invocação “Regina Pacis, ora pro nobis”. “Ele pediu”, escreve nosso Pai, “que houvesse orações pela paz para que Deus pudesse dá-la ao mundo apesar dos beligerantes que nem queriam rezar nem se desarmar.” (CCR n° 272, p. 4)
Como resposta, a 13 de maio Nossa Senhora apareceu às crianças de Fátima para mostrar as condições desta paz tão desejada:
“Recitem o Rosário todos os dias para obter a paz para o mundo e o fim da guerra.”
- “Pode me dizer”, perguntou Lúcia, “se esta guerra ainda vai continuar por muito tempo ou se vai acabar logo?”
- “Não posso ainda lhe dizer isso, até que lhe tenha dito também o que quero.”
“Assim, a humanidade pede primeiramente seu bem imediato e temporal. Nossa Senhora, adiando-o para mais tarde, faz lembrar à humanidade que ele não é o bem mais necessário, nem o melhor, e sim a conversão, tendo o Céu como seu objeto. O grande mal não é a guerra, mas o pecado, que leva as pobres almas ao Inferno e desencadeia guerras e revoluções.” (G. de Nantes, Carta a Meus Amigos n° 247) Em 13 de julho de 1917, a Virgem Maria revelou seus planos secretos de misericórdia, cuja realização homens ingratos e rebeldes iriam adiar indefinidamente: “A guerra vai acabar, mas se não pararem de ofender a Deus, uma outra pior começará no reinado de Pio XI...”
Já em 1917, uma falsa paz e um período pós-guerra calamitoso estavam sendo preparados, dos quais Carlos da Áustria seria uma das primeiras vítimas, enquanto das partes desarticuladas de seu Império, separadas da cabeça, brotaria a fagulha da outra guerra “pior”.
A conspiração demoníaca
Os primeiros a recusarem a mão estendida do Imperador Carlos foram os republicanos franceses. Sévillia, seguindo o historiador François Fejtö em seu “Requiem pour un Empire défunt” (Paris, 1988), detalha as fases dessa cegueira criminosa, desde a supressão das propostas austríacas pelo socialista radical Alexander Ribot e seu cúmplice italiano Sonnino em Abril-Maio de 1917, até a primavera de 1918 quando o “ignóbil Clemenceau”, como nosso Pai o chama, comunicou à imprensa a carta secreta de Carlos datada de 24 de março de 1917. Ele repudiou os compromissos assumidos e só por isso contribuiu para jogar a Áustria nos braços da Alemanha definitivamente.
Havia redes em Paris e Londres, como o “Conselho Nacional Tchecoslovaco”, criado pelos maçons Benes e Masaryk, cujo lema era “destrua a Áustria-Hungria”. Em junho de 1917, deu-se uma conferência internacional maçônica dos países aliados e neutros em Paris. Entre suas resoluções, as pretensões “tchecoslovacas” e “iugoslavas” à autonomia visavam a destruição da Monarquia Dual, o último obstáculo à revolução maçônica na Europa, bastião da detestada Contra-Reforma e do Catolicismo político.
“Foi em 1918 que o vento virou”, afirma Sévillia. O presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, concordou com tais resoluções ao publicar, em 8 de janeiro de 1918, seus “catorze pontos para o estabelecimento da paz universal”. As barreiras econômicas deveriam ser suprimidas, a Rússia bolchevique deveria ser apoiada e, em nome do direito dos povos à autodeterminação, a Áustria-Hungria deveria ser desmanchada (Artigo 10) e a Alemanha, poupada...
Ah! Eis o belo programa, elaborado pelo parceiro de Wilson no crime, o pseudo-coronel House, um dos mais influentes defensores da nova ordem mundial. O ano de 1918 não terminaria sem que o programa estivesse totalmente realizado.
Pobre Carlos, que pensou seria uma boa idéia escrever para o presidente americano e não recebeu resposta! Para qualquer lado que se voltasse, só encontrava desprezo e repulsa. Uma campanha de difamação contra o casal real no inverno de 1918 causou estragos no Império; na investigação, descobriu-se que partira do embaixador alemão em Viena e da Liga Evangélica do Norte!
Sob a égide do Ralliment
“Não basta que eu seja o único a desejar a paz”, confessou Carlos a Polzer-Hoditz, “mas devo também ter todo o povo e os ministros ao meu lado”.
O povo certamente era seu desde o começo; nunca uma monarquia angariou tão rapidamente o apoio de seus súditos. Suas maneiras simples, suas reformas sociais – ele foi o primeiro na Europa a instituir um ministério da saúde e da assistência social – e a presença a seu lado da Imperatriz Zita, que multiplicava as obras de caridade, contribuíram bastante para isso.
Os “representantes” do povo, por outro lado, só lhe causaram dificuldades, e é surpreendente que uma das primeiras medidas de Carlos tenha sido a convocação do parlamento austríaco, fechado desde 1914. “O jogo democrático na Áustria-Hungria”, pensava o soberano, “é mais necessário ainda, porque as potências ocidentais vangloriam-se de empreender uma guerra entre estados legalmente constitucionais e estados reacionários. Fazer da Áustria-Hungria um estado moderno é neutralizar a propaganda aliada.” (p. 108) Foi um passo em falso. Como se Carlos não tivesse dito a Polzer-Hoditz: “O finado Imperador Francisco José sempre repetia para mim, para que eu não esquecesse, que esta história de responsabilidade ministerial é só uma piada. Na realidade, somos nós que temos a responsabilidade.”
Havia poucos homens de talento que o ajudassem a governar, enquanto as rivalidades de partido e nacionais obstruíam suas reformas justas, em particular seu projeto federalista. Se há uma lição a se aprender desse fato, é que a vida parlamentar é incompatível com a condução da guerra. O mais desconcertante nessas páginas é ver que a benevolência natural de Carlos, por falta de uma doutrina política sólida, freqüentemente se tornava uma confiança excessiva em seus inimigos políticos. Ao mesmo tempo, ele professava uma tocante fé nas aspirações dos povos, que “eliminam os exageros por si mesmos” [sic!]. Nisso ele se mostrava mais um discípulo de Leão XIII e Bento XV do que de Pio X.
No momento crítico, os bispos austríacos furtaram-se a seu tradicional papel de apoiar o trono. Em 12 de novembro de 1918, os deputados socialistas-cristãos, que compunham a maioria da assembléia e haviam jurado fidelidade ao monarca poucos dias antes, uniram-se pela república. “Uma república sem republicanos” era a manchete do Arbeiterzeitung, o jornal social-democrata, tão evidente era que a mudança de regime não fora desejada pelo povo, mas pela classe política.
Foram marcadas eleições para o dia 16 de fevereiro de 1919. Sévillia relembra: “Mons. Seydl, em Eckartsau, onde a família real se refugiara, tinha em mãos o texto de uma carta pastoral do Arcebispo de Viena, Cardeal Piffl, a ser publicada em nome do episcopado austríaco, pedindo que os Católicos votassem. Era o reconhecimento do novo regime pela Igreja.
“Em 15 de janeiro de 1919, Carlos escreveu a Mons. Piffl que conseguisse dos padres a recomendação, a seus rebanhos, do voto em deputados não somente Cristãos, mas também fiéis ao trono. Nessa carta o monarca insiste que o ensinamento de Leão XIII, chamando à ação dentro dos limites das instituições estabelecidas, não podia ser invocado no caso austríaco, onde a república havia sido obra de uma revolução... Esforço em vão: em 23 de janeiro, a carta do episcopado foi lida em todos os púlpitos. Era um apelo para trabalhar pelo futuro da sociedade e da pátria e reconhecer a forma de estado no espírito da Epístola de São Paulo aos Romanos – ‘todo poder vem de Deus’ – e da encíclica Immortale Dei de Leão XIII.” (p. 228) Uma nauseante e mortal conjuração!
Quanto ao Papa Bento XV, em resposta à magnífica carta que Carlos lhe endereçou a 28 de fevereiro de 1919, na véspera de partir para o exílio, instou ao Imperador que achasse “na Fé e no abandono a Deus a força de consentir no sacrifício que dele se exigia”. Roma havia virado a página. No mesmo momento, contudo, o comunista Béla Kun estava infligindo fogo e banho de sangue na Hungria.
A morte de um santo
O imperador, que não havia abdicado, tentou por duas vezes, em março e outubro de 1921, restaurar seu trono na Hungria, onde fora ungido e coroado “Rei Apóstolo”, e onde o próprio regente, Horthy, tinha-lhe dado uma certa esperança. Foram duas tentativas infortunadas, que bem lembram Luís XVI em Varennes ou o Conde de Chambord em Versalhes e nos fazem lamentar, junto com nosso Pai, à leitura dessas lastimáveis páginas, que nos momentos decisivos, quando se precisava mostrar audácia e forçar o destino, a legitimidade não estava armada com a virtude da fortaleza.
Relegado com sua família à ilha da Madeira, abandonado e destituído de qualquer ajuda, Carlos da Áustria, que jamais reclamava e que perdoava seus inimigos – sinal de um verdadeiro cristão! - morreu como um santo no Sábado de Aleluia, em 1º de abril de 1922, oferecendo a própria vida em sacrifício por seu povo. Tinha então trinta e quatro anos. "Estamos sofrendo agora, mas depois virá a ressurreição", murmurou sua heróica esposa junto a seu leito de morte. A aurora de sua ressurreição começou a irromper no dia 3 de outubro de 2004, quando Carlos da Áustria assumiu seu lugar entre os Abençoados. Uma "grande bênção" se derramou então sobre seu país.”
(Irmão Thomas de Notre-Dame du Perpétuel Sécours, The Last Emperor of Austria and The Queen of Peace)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O último imperador da Áustria e a Rainha da Paz (I)

“Pedindo aos Céus graças e bênçãos para mim e minha casa, assim como para meus amados povos... juro diante do Todo-Poderoso administrar fielmente os bens que meus antecessores me legaram. Farei tudo em meu poder para banir, com o menor atraso possível, os horrores e sacrifícios que a guerra nos traz e levar a meu povo os benefícios da paz.”
É com essa oração e promessa solene que o Imperador Carlos da Áustria, o primeiro com esse nome, inaugura seu reinado em 21 de novembro de 1916, que mal irá durar dois anos, associado às agonias da Grande Guerra e brutalmente interrompido pela revolução. Jean Sévillia acaba de dedicar um trabalho fascinante a seu respeito: Le dernier empereur, Charles d’Autriche, 1887-1922 (Perrin 2009), que completa o que já escreveu sobre a admirável esposa de Carlos: Zita, Impératrice courage (Perrin, 1997).
Nós o lemos em comunidade com mais interesse ainda, pois o relato satisfaz uma expectativa que nosso Pai (N. do t – o Abbé de Nantes) criara no número especial dedicado aos heróis da Grande Guerra. Nem os políticos, nem os historiadores, nem mesmo os teólogos jamais entenderam realmente o significado de seu sacrifício: “Permanecem como os únicos confiáveis, os únicos audíveis, mas nem ouvidos nem acreditados, os santos da Igreja que tiveram revelações e visões indubitavelmente proféticas, e as acompanharam de lições religiosas e morais a fim de que o holocausto não fosse sem mérito, sem valor aos olhos de Deus, mas, pelo contrário, que pudesse obter dEle misericórdia e graça sobre graça, até a plenitude da vitória e uma santa paz Católica que ainda não vieram para nossas multidões de heróis sacrificados...” (Georges de Nantes, Memorial dos Heróis da Grande Guerra. “Tenho compaixão pela multidão”, CCR n° 272, Dezembro de 1994, p. 1)
Carlos da Áustria não foi “do nosso lado”, dos povos latinos e católicos defrontados com a barbárie germânica e luterana; não foi favorecido com nenhuma revelação, mas hoje é abençoado e sua vida se inscreve na ortodromia “que leva todas as coisas na Cristandade até o maior bem de todos os homens, sua verdadeira conversão, e – uma vez paga a dívida – sua paz na terra e a vida eterna em Cristo.” (CRC n° 302, p. 36)
“Uma bênção para a Áustria”
Nascido a 17 de agosto de 1887, Carlos demonstrou ter desde seus mais tenros anos um caráter benevolente e sensível, um coração verdadeiro como ouro e uma profunda piedade. Destinado, como todos os príncipes de sua família, à profissão militar, tornou-se oficial aos dezoito anos e distinguiu-se pelo senso de dever, austeridade e alegria. Nada, contudo, fazia supor que o sobrinho-neto do velho imperador Francisco José seria um dia seu sucessor.
Em 21 de outubro de 1911, Carlos casou-se com Zita de Bourbon-Parma, uma bela princesa de educação e tradição francesas, de fé católica íntegra e monárquica – sua avó, a Duquesa Louise de Parma, era a irmã do Conde de Chambord. Em cada fibra de seu ser Zita era austríaca: “Jamais teria pensado na Áustria como algo estrangeiro”, escreveu. “Mesmo antes de me casar, já conhecia grande parte do país como a palma da minha mão. Era simplesmente minha pátria.” No dia de seu casamento, Carlos confidenciou à esposa: “Agora, nossa tarefa é nos ajudarmos um ao outro a ir para o Céu.”
Poucos meses antes do casamento, a princesa foi recebida com sua mãe em audiência pelo Papa Pio X, que lhe disse: “Irás casar-te com o herdeiro do trono.” Surpresa e intimidada, não ousou objetar que o herdeiro ao trono dos Habsburgos era então o Arquiduque Francisco Ferdinando e não Carlos, seu futuro marido. Pio X, no entanto, continuou: “Alegro-me bastante nisso, pois uma grande bênção será derramada em seu país por sua causa. Ele será a recompensa da Áustria pela fidelidade da nação.”
O assassinato em Sarajevo no dia 28 de junho de 1914 confirmou, embora com lágrimas e sangue, a profecia do santo. No momento que Carlos tornou-se o herdeiro presumido da coroa imperial e real, começou a espiral mortal que levaria os povos a um terrível conflito.
Ao embaixador de Francisco José, que viera pedir, em nome de seu senhor, a bênção para os exércitos austríacos, São Pio X, que tivera uma espécie de visão profética da horrorosa “guerrone” - a grande guerra – na qual o mundo se precipitara como castigo por sua impiedade, respondeu:
“Diga ao Imperador que não posso abençoar nem a guerra, nem os que a desejam: eu abençôo a paz.”
Um líder humano e cristão
Declarada a guerra, devia-se cumprir com o próprio dever e ir à linha de fogo. O Arquiduque e herdeiro podia ser visto visitando às pressas todos os frontes; ele estava em todo lugar: no fronte oriental, enfrentando os exércitos russos de Brusilov, e no sudoeste, no Tirol, onde comandou durante algum tempo as tropas de elite do Edelweiss Korps, com uma óbvia preocupação em poupar o derramamento de sangue de seus homens, que nos leva a pensar irresistivelmente no General Pétain do mesmo período.
Se a Monarquia Dual estava a ponto de se desintegrar, como era repetido ad nauseam depois da guerra para justificar os tratados de 1919 que a desmembraram, isso teria acontecido em 1914. Contra todas as expectativas, contudo, a mobilização aconteceu sem dificuldades. E mais: os regimentos lutaram valorosamente. Em outubro de 1917, os exércitos da Áustria-Hungria ainda foram capazes de infligir um desastre às tropas italianas em Caporetto.
Uma tal fidelidade e um tal valor podem ser explicados por um motivo bastante simples e positivo. O exército imperial era um cadinho onde se misturavam os sentimentos profundos, compartilhados pelos povos da bacia do Danúbio, de pertencerem a uma comunidade de destino, encarnada em uma família, a casa dos Habsburgos, e cimentada pela Fé Católica – o apoio ancestral ao trono.
Carlos, que rezava o rosário todos os dias, seja sozinho no fronte ou com seus filhos quando de regresso a Viena, viu tudo. Ele descia às trincheiras e falava à vontade com seus soldados. Armas, oficiais, campos de batalha, tudo lhe era familiar, e ele fazia um relato fiel de tudo ao Imperador, deplorando, por exemplo, que os alemães estivessem cada vez mais nas posições de comando e na condução das operações.
Contudo, como se livrar de um aliado que estava animado com fúria tão belicosa?
Um soberano amante da paz
Quando o imperador Francisco José morreu em 21 de novembro de 1916, após um reinado de sessenta e oito anos, alguém se perguntaria se a Áustria imperial teria também chegado ao fim. Durante seu funeral, todos suspeitavam disso.
“O imperador, contudo, estava lá. Ele tinha agora o rosto de um homem que mal tinha trinta anos de idade, ao lado do qual andava uma mulher jovem, já mãe de quatro filhos, coberta de luto da cabeça aos pés.”
Carlos e Zita foram coroados em 30 de dezembro de 1916, em Budapeste, de acordo com tradicional pompa e ritual. “Do ponto de vista religioso”, escreve Sévillia, “os soberanos, devotos Católicos, foram tocados pela dimensão espiritual da coroação. Do ponto de vista político, o ato apenas os obrigou, estritamente falando, na Hungria. Apesar disso, educados no fervor monárquico, julgaram que a unção por eles recebida lhes conferia o significado definitivo da missão na qual foram investidos: enquanto rei e rainha, eram os responsáveis diante de Deus por seus povos e sua coroa.” (p. 70)
A bem da verdade, sua responsabilidade em tais circunstâncias era esmagadora. Carlos a cumpriu no exercício diário das virtudes de seu estado em grau heróico. Tomando ele mesmo o supremo comando do exército, teve sucesso em impor sua própria visão das coisas: nenhum combate de infantaria sem longa e intensa preparação da artilharia. Uma nova vida começou a animar todo o exército. De sua parte, as populações civis começaram a sofrer penosamente as conseqüências do bloqueio: o reabastecimento de suprimentos começou a ficar cada vez mais difícil e a escassez de alimentos, a ocorrer... A piedade que inundou o coração do imperador, junto com seu ardente sentido de dever como soberano, obrigaram-no a procurar por todo e qualquer meio pôr um fim às hostilidades que já estavam durando demais.
Tentou, em vão, opôr-se ao plano alemão de combates submarinos em excesso, que causaram a entrada dos Estados Unidos, defensores da liberdade nos mares, no conflito. “É terrível! A Alemanha subestima a América e superestima suas forças. Berlim foi tomada pela cegueira e nos empurrará a todos nós no abismo”, confidenciou Carlos a Polzer-Hoditz, chefe do gabinete civil.
Da mesma forma, considerou loucura o apoio dado pelo quartel-general do Kaiser a Lênin em 1917, permitindo-o atravessar a Suíça até a Rússia com o único propósito de deflagrar sua revolução.
Se, em seu coração e em suas conversas, ele era oposto a seus “aliados”, na prática estava privado dos meios de pressioná-los. “Esse é todo o drama do soberano”, nota Sévillia.
Foi assim até o dia que decidiu entrar em negociações secretas com a Entente, ou seja, com a França e a Inglaterra, com vistas a concluir a paz entre soldados, com honra.
Negociações de paz
Após contato com a mãe, a Duquesa de Parma, os dois irmãos da Imperatriz Zita, Sixtus e Xavier de Bourbon-Parma, que tinham-se alistado desde o início do conflito no exército belga, entraram incógnitos na Suíça e de lá foram até Viena, onde se encontraram com o Imperador. No relato dessa tentativa de diplomacia dinástica, poder-se-ia começar a sonhar: era então possível a paz na primavera de 1917?
Em 24 de março, o Imperador Carlos confiou a seu cunhado uma carta manuscrita a ser entregue às autoridades francesas, na qual podia-se ler:
“A França tem mostrado uma força magnífica de resistência e de ímpeto. Nós todos admiramos, sem reservas, a esplêndida bravura tradicional de seu exército e o espírito de sacrifício de todo o povo francês [a batalha de Verdun acabara de ser vencida!]. É-me também particularmente agradável perceber que, embora no momento sejamos adversários, nenhuma real divergência de visões ou aspirações separa meu império da França, e que tenho o direito de esperar que minhas intensas simpatias pela França, associadas às que reinam por toda a Monarquia, evitarão para sempre o retorno do estado de guerra pelo qual nenhuma responsabilidade pode ser-me imputada... ”
Carlos ofereceu à Entente termos consideráveis: reconhecimento da neutralidade belga, reestabelecimento da Sérvia com acesso ao Adriático, apoio às “justas reivindicações francesas” na Alsácia-Lorena; em troca, pediu apenas que a integridade do estado austríaco se mantivesse. Reiterou sua oferta em uma segunda carta de 9 de maio. Seu objetivo, conforme confessou ao Conde Czernin, seu ministro de assuntos estrangeiros, era, “depois da paz, estar aliado à França como um contrapeso à Alemanha.”
Ele foi na verdade o único chefe de estado de seu tempo que desejou e propôs a paz honestamente. Outro motivo também o apressava: a revolução que acabara de eclodir em São Petersburgo podia por sua vez espalhar-se pelos impérios centrais. Carlos revelou seus pensamentos a esse respeito ao núncio em Viena, que não os levou a sério. O Imperador se entristeceu com isso: “O núncio acredita que falo pela minha própria casa, mas nada é menos correto. Na verdade, trata-se de coisas que são muito mais importantes do que manter o trono; trata-se da segurança e da paz da Igreja, assim como da salvação eterna de muitas almas que estão em perigo.”
(Irmão Thomas de Notre-Dame du Perpétuel Sécours, The Last Emperor of Austria and The Queen of Peace)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Anti-semitismo

“Devido à confusão de pensamentos prevalente entre os católicos sobre a questão do anti-semitismo, algumas palavras devem ser ditas sobre o assunto.
Na excelente resenha a meu livro A Realeza de Cristo ou Naturalismo Organizado, que apareceu na revista jesuíta La Civiltà Cattolica (Roma, março de 1947), o crítico deu um destaque especial à distinção que tenho feito em todos meus livros. Ele escreveu o seguinte:
“O autor quer estabelecer uma clara distinção entre ódio à nação judaica, que é anti-semitismo, e oposição ao naturalismo judeu e maçônico. Essa oposição por parte dos católicos deve realmente ser total, por meio de um reconhecimento não só individual, mas social, dos direitos da Realeza sobrenatural de Cristo e Sua Igreja, e na luta política para conseguir que esses direitos sejam reconhecidos pelos Estados e na vida pública. Para esse empreendimento indispensável ... a união ativa e efetiva dos católicos ... é absolutamente necessária.”
O espaço não permite longas citações de documentos papais para mostrar que, por um lado, os soberanos pontífices insistem em suas encíclicas que os católicos devem defender com determinação os direitos integrais de Cristo Rei, enquanto, por outro lado, devem manter suas mentes e seus corações livres do ódio à própria nação de Nosso Senhor segundo a carne. Por um lado, eles devem lutar pelos direitos de Cristo Rei e pela organização sobrenatural da sociedade nos termos da encíclica Quas Primas, inequivocamente proclamando que a rejeição de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Messias verdadeiro, por Sua própria nação, e a oposição inflexível que esta Lhe devota, são uma fonte fundamental de desordem e conflito no mundo. Por outro lado, como membros de Nosso Senhor Jesus Cristo, os católicos não devem odiar os membros dessa nação na qual, através de nossa Mãe Santíssima, o Lírio de Israel, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a natureza humana, nem negar-lhes os legítimos direitos como pessoas.
A elevação sobrenatural de mente e coração e a coragem inflexível que são exigidas dos membros de Cristo em nossos dias só podem ser mantidas com a ajuda dAquele que chorou porque Jerusalém rejeitou a ordem. Isso implicará, inevitavelmente, em sofrimento para os membros fiéis de Cristo, à medida que aumenta o poder das forças anti-sobrenaturalistas no mundo. Mesmo em meio a seus sofrimentos, no entanto, os membros de Cristo devem ter em mente que haverá um triunfo glorioso para Cristo Rei.
Duas razões podem ser atribuídas para o fato de que os membros fiéis de Nosso Senhor serão muitas vezes traídos por aqueles que deveriam estar do lado de Cristo Rei. Em primeiro lugar, muitos escritores católicos falam de condenações papais ao anti-semitismo sem explicar o significado do termo e sequer aludem aos documentos que insistem nos direitos de Nosso Divino Senhor, Cabeça do Corpo Místico, Sacerdote e Rei. Assim, muitos são completamente ignorantes do dever que têm todos os católicos de defender com determinação o reinado de Nosso Senhor na sociedade em oposição ao naturalismo judaico.
O resultado é que inúmeros católicos são tão ignorantes da doutrina católica, que lançam a acusação de anti-semitismo contra aqueles que estão lutando pelos direitos de Cristo Rei, e assim efetivamente ajudam os inimigos de Nosso Divino Senhor. Em segundo lugar, muitos escritores católicos copiam sem questionar o que lêem na imprensa naturalista ou anti-sobrenaturalista e não fazem distinção entre anti-semitismo no correto sentido católico, como explicado acima, e “anti-semitismo” como os judeus entendem. Para os judeus, “anti-semitismo” é qualquer coisa que está em oposição à dominação naturalista messiânica de sua nação sobre todas as outras. Logicamente, os líderes da nação judaica afirmam que defender os direitos de Cristo Rei é ser “anti-semita.”
O termo “anti-semitismo”, com toda sua conotação de guerra nas mentes dos que não pensam, está sendo ampliado para incluir qualquer forma de oposição aos objetivos naturalistas da nação judaica e qualquer revelação dos métodos que adotam para atingir esses objetivos.
Na beatificação de Joana d'Arc (13 de dezembro de 1908), o santo Papa Pio X afirmou:
“Em nosso tempo, mais do que nunca, o maior trunfo dos dispostos ao mal é a covardia e a fraqueza dos homens de bem, e todo o vigor do reino de Satanás é devido à despreocupada fraqueza dos católicos. Oh! Se eu pudesse perguntar ao Divino Redentor, como o profeta Zacarias fez em espírito (Zc. 13:06a): “Que ferimentos são esses em Tuas mãos?” A resposta não poderia ser outra: “... São ferimentos que recebi na casa dos que me amavam” (Zc. 13:06b). Fui ferido por meus amigos, que não fizeram nada para me defender e que, em cada ocasião, fizeram-se cúmplices dos meus adversários. E essa censura pode ser direcionada aos católicos fracos e tímidos de todos os países.””
(Rev. Denis Fahey, C.S.Sp, Grand Orient Freemasonry Unmasked)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Eugenio Montale: Não Raro Tive o Mal da Vida ao Lado

Não raro tive o mal da vida ao lado:
era o arroio arrochado que gorgolha,
ou era o esturricar-se de uma folha
ardida, ora o cavalo esquartejado.

Do bem não soube, exceto da magia
que emana da divina Indiferença:
como uma estátua assim na sonolência
do meio-dia, e a nuvem, e o falcão no ar alçado.


Tradução de Ivo Barroso

sábado, 5 de novembro de 2011

Revolução sexual e bem comum

“Por que não permitir que dois homens que sentem atração sexual um pelo outro finjam que estão casados? O próprio fato de estarmos fazendo essa pergunta já mostra que aceitamos a premissa da revolução sexual, ou seja, essencialmente, que é assunto somente delas o que duas pessoas fazem com seus corpos, contanto que não prejudiquem ninguém. Por “ninguém” entendemos as pessoas envolvidas no ato sexual e, algumas vezes, embora com menos segurança e sem maiores preocupações, um cônjuge distraído que por acaso não esteja na cama naquele momento, mas talvez fazendo compras para o jantar ou instalando canos em um canteiro de obras. Por “prejudicar” entendemos óbvia violência física ou psíquica. Franzimos o cenho ao estupro e, depois de duas gerações de sorrisos e piscadelas, à pedofilia. Tudo o mais é permitido.
O estranho dessa premissa é que, apesar de tão amplamente aceita, ela é surpreendentemente fraca. A pessoa que a proclama se separa, de fato, de todas as considerações das virtudes cardeais da prudência, justiça, fortaleza e temperança. Pois ela diz, “quanto ao comportamento sexual, contanto que ninguém seja forçado ao ato, e, talvez, que nenhum cônjuge seja traído, as exigências de virtude não são aplicáveis.” A justificativa do ato sexual está localizada no desejo mesmo, e o desejo é considerado um fato bruto, um pressuposto. Mas essa é uma premissa que rejeitaríamos imediatamente em qualquer outra esfera da ação humana. De fato, sabemos que a verdadeira razão de infundirmos virtudes em nós mesmos e em nossos filhos é fazermos a coisa certa apesar do que viermos a desejar, e mais, aprendermos a desejar o que é certo por ser certo, assim como devemos desejar conhecer a verdade por ser verdadeira. Jamais diríamos, mesmo para um homem de saúde perfeita, “seu desejo de passar doze horas por dia jogando videogame deve ser respeitado, porque é seu desejo.” Ao invés, diríamos, “você não deveria estar fazendo isso; é um truncamento da sua humanidade; é fazer a coisa errada, e você deveria aprender a desejar outra coisa.” Não diríamos a uma pessoa que gastou mil dólares por mês em sapatos, “se isso é o que você quer, eu devo respeitá-lo.” Ao invés, diríamos, “você está dilapidando seu dinheiro, que poderia ser usado de uma forma melhor. Isso também é um truncamento de sua humanidade. É claro que eu sei que você quer fazer isso; e aí é que está o problema. Você deveria aprender a desejar algo melhor.”
A diversão com jogos sem sentido e a compra de toneladas de sapatos são coisas triviais em comparação com nosso comportamento sexual. Em relação a trivialidades, a lei deveria ter pouco a dizer. Mas nosso comportamento sexual está longe de ser uma trivialidade. Na verdade, as mesmas pessoas que, por um lado, pretendem que ele seja tão trivial que deva passar despercebido pela lei, por outro exaltam-no enquanto magneto da vida humana, e tanto, que qualquer impedimento de autonomia sexual atingiria o próprio cerne do nosso ser. Mas não podemos ter as duas coisas ao mesmo tempo. Na verdade, posso imaginar poucas coisas mais profundamente determinantes do modo como será uma sociedade, ou mesmo se será de algum modo uma sociedade genuína, do que nossos costumes a respeito de homens e mulheres, seu namoro, seu casamento, seus deveres um para com o outro e a criação de seus filhos. O sexo – tanto a distinção entre homem e mulher, como o ato que une homem e mulher no abraço que é essencialmente orientado para o futuro – é uma consideração fundacional de toda pessoa. Quando perguntamos, “será permitido a um homem ter mais de uma esposa?” ou “será permitido que homens e mulheres se divorciem à vontade?”, estamos perguntando, quer entendamos completamente ou não, “que tipo de cultura, se for o caso, queremos compartilhar?”
E esse compartilhamento de uma cultura traz-me ao ponto essencial. É fato evidente que aquilo que duas pessoas fazem no quarto não está confinado ao quarto. A prova mais óbvia desse fato pode ser vista ao nosso redor em todo lugar, andando com duas pernas. São as criaturas conhecidas como crianças. Depois de várias investigações científicas conduzidas por pessoas de impecável honestidade, diligência e inteligência, hoje em dia já se pode afirmar, com certeza absoluta, que a relação sexual entre um homem e uma mulher saudáveis tem a conseqüência previsível e natural, inserida na própria estrutura do ato, de produzir crianças – é o significado biológico evidente do fato. É bem possível que, em épocas menos esclarecidas, as pessoas acreditassem que fosse o prelúdio para a chuva ou para a guerra entre as nações, mas hoje em dia já temos certeza que quando João e Maria se encontram, um bebê está esperando para formar um trio.
Também é fato óbvio que as crianças merecem ser criadas conjuntamente por uma mãe e por um pai. Isso não deveria ser mais controverso que afirmar que elas merecem ser alimentadas bem, agasalhadas e amadas. O menino precisa de um pai para ensiná-lo como ser um homem; a menina precisa de um pai que a proteja e que afirme sua dignidade de ser amada por um homem; e, quanto à necessidade da criança por uma mãe, ela é tão óbvia que somente os loucos e os modernos educadores ousariam negá-la. Se negarmos que as crianças devam ser criadas em famílias estáveis, com mãe e pai, basta que olhemos para nossas prisões superlotadas e perguntemos quantos dos homens aprisionados cresceram em lares desfeitos. Em outras palavras, quando estamos falando de sexo, nós devemos falar sobre o bem comum. A maneira como tratamos nossos corpos quando adoecemos – essa é certamente uma questão de bem comum, o bem que é tal em virtude de ser compartilhado, gozado por todos não somente como indivíduos, mas também como pessoas unidas, uma sociedade genuína. Somos um povo fundamentalmente diferente – não somente como indivíduos, mas como povo – se preferimos jogar nossos doentes nas valas para morrer a cuidarmos deles com a dignidade que merecem, não porque eles poderiam viver para nos trazer lucro ou a si mesmos, mas simplesmente porque são seres humanos e, portanto, sagrados. Assim, também o modo como tratamos nossos desejos corporais – isso é também uma questão de bem comum.
E é aqui que os revolucionários fracassam. Eles começaram, nos velhos e grisalhos dias de Herbert Marcuse, justificando as novas “virtudes” da expressão sexual sob o argumento de que seríamos uma sociedade mais solta, amigável, suave, menos violenta e mais bonita. Bem, isso certamente não aconteceu. Aquarius tinha um pote quebrado. Dê uma olhada em Baltimore, em Detroit, nas famílias sem pai, na praga do divórcio, no desprezo feroz de um sexo pelo outro, nas prisões, no esgoto dos entretenimentos de massa, nas crianças “instruídas” e esgotadas, nas doenças venéreas, no completo tédio das revistas para mulheres, ostentando a última dica para o sexo mais ardente ou as cinco maneiras novas e aprimoradas de conseguir o que você quiser de seu parceiro de cama. Os revolucionários do sexo já estão há muito tempo pedindo a pergunta. Eles dizem, “nós deveríamos poder fazer isto, porque todos os desejos sexuais, a não ser o estupro e (algumas vezes) o adultério, deveriam ser tolerados – não só tolerados, mas encorajados, até mesmo homenageados nas leis.” Mas isso é justificar a revolução sexual dizendo que a revolução sexual é justificada. Que eles façam mais. Que aleguem que a revolução sexual – em sua inteireza – conduziu ao bem comum. Que aleguem que uma sociedade, se é que se pode chamar assim, onde um menino de dez anos sabe tudo sobre sodomia, é um lugar melhor do que uma sociedade em que ele não tem a menor idéia daquilo, mas está muito ocupado colecionando figurinhas de baseball. Que aleguem que uma sociedade na qual uma menina de dez anos deve esperar uma vez todo mês para ver seu pai, se a nova parceira de cama deste não se interpuser, é um lugar melhor do que uma sociedade na qual jamais lhe passará pela cabeça que sua mãe e seu pai venham algum dia a se separar.
Em outras palavras, que a revolução sexual se justifique em razão do bem comum. Acredito que ela falha no teste miseravelmente, com evidências de peso, óbvias, múltiplas, lógica e antropologicamente deduzíveis e claramente previsíveis pela sabedoria tanto de pagãos quanto de cristãos. Que eles defendam sua posição ao invés de afirmarem um princípio que, na verdade, destruiria a própria noção de bem comum. Pois se não pudermos apelar para o bem comum em matéria tão fundamental, não vejo como poderíamos apelar para ele em qualquer outra situação.”
(Anthony Esolen, Sexual Revolution: Defend It, If You Can)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Eugenio Montale: Cobri de Alpiste a Sacada

Cobri de alpiste a sacada
para o concerto da madrugada de amanhã.
Apaguei a luz e esperei pelo sono.
E já na passarela se inicia
o desfile dos mortos grandes e pequenos
que conheci em vida. É difícil distinguir
quem eu gostaria ou não que
regressasse entre nós. Lá onde estão
parecem inalteráveis por um algo mais
de decomposição sublimada. Nós fizemos
o melhor de nossos esforços para piorar o mundo.


Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti

terça-feira, 1 de novembro de 2011