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domingo, 4 de dezembro de 2011

Eugenio Montale: Talvez Uma Manhã

Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, com um terror de bêbedo.

Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde - e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.

Tradução de Geraldo H. Cavalcanti

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Eugenio Montale: Ó Vida

Ó vida, não te peço lineamentos
fixos, vultos plausíveis ou possessos.
Sinto que no teu giro inquieto o mesmo
sabor que tem o mel tem o absinto.

O coração propenso todo ao vil
raro se afeta com pressentimentos.
Tal como soa às vezes no silêncio
do descampado um tiro de fuzil.


Tradução de Ivo Barroso

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Eugenio Montale: Não Raro Tive o Mal da Vida ao Lado

Não raro tive o mal da vida ao lado:
era o arroio arrochado que gorgolha,
ou era o esturricar-se de uma folha
ardida, ora o cavalo esquartejado.

Do bem não soube, exceto da magia
que emana da divina Indiferença:
como uma estátua assim na sonolência
do meio-dia, e a nuvem, e o falcão no ar alçado.


Tradução de Ivo Barroso

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Eugenio Montale: Cobri de Alpiste a Sacada

Cobri de alpiste a sacada
para o concerto da madrugada de amanhã.
Apaguei a luz e esperei pelo sono.
E já na passarela se inicia
o desfile dos mortos grandes e pequenos
que conheci em vida. É difícil distinguir
quem eu gostaria ou não que
regressasse entre nós. Lá onde estão
parecem inalteráveis por um algo mais
de decomposição sublimada. Nós fizemos
o melhor de nossos esforços para piorar o mundo.


Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti