terça-feira, 31 de maio de 2011

As duas atitudes fundamentais

“Através da história humana não há senão duas atitudes fundamentais de pensamento e de vida: uma, a católica, que é a tradição recebida de Deus por Adão, Moisés e Jesus Cristo, e cujo insuperado expositor foi Santo Tomás de Aquino; a outra, a gnóstica e cabalística, que alimenta os erros de todos os povos na gentilidade e na apostasia do judaísmo primeiro e logo na do cristianismo mesmo, e que se verifica de modo particular no mundo moderno.”
(Pe. Julio Meinvielle, De la Cabala al Progresismo)

sábado, 28 de maio de 2011

Querelômanos ou Processomaníacos

“Uma variedade de paranóia, incômoda para a administração da justiça, é a constituída pelos querelômanos ou processomaníacos: neles, o delírio de interpretação funde-se com o de perseguição, que pode tomar um caráter reivindicatório, isto é, tanto pode constituir uma defesa contra a injustiça de que o doente se julga vítima, como uma atividade destinada a obter o que julga ser-lhe devido.
Escreve, com exatidão, Di Tullio: “É determinado por um conceito errôneo e às vezes exagerado das leis e do seu processo, pela sobrevalorização dos seus interesses e dos seus direitos, pelo fanatismo em sustentá-los e pela errada convicção da existência de obstáculos destinados a impedir a sua realização” (Principi di criminologia clinica, p. 211).
A mentalidade especial do delirante paranóico, pronta a sobrevalorizar pequenas coisas, a interpretá-las em conformidade com uma idéia dominante, dirige-se à conduta processual do juiz e das outras partes e, finalmente, à sentença. É fácil que o juiz dê evidência, ao recolher as provas, a uma circunstância contrária aos interesses do paranóico, dirija uma palavra cortês à parte adversa, demonstre, pela cordialidade do tom, ser amigo do seu defensor; é possível que, na necessidade de adaptação de uma norma abstrata a um caso concreto, a lei seja aplicada com equidade, mas não com rigor jurídico; ora o querelômano registra estas pequenas coisas, atribui-lhes um valor excessivo, interpreta-as como manifestações de injustiça, de corrupção. Ao mesmo tempo, ele não tem uma visão exata daquilo que lhe pertence, de maneira que a mais justa das decisões, ainda que lhe seja favorável, parece-lhe uma velhacaria de que foi vítima. E pelo desejo de reagir contra uma injustiça judiciária, inicia-se a sua fastidiosa atividade de querelômano; por conseguinte, o delírio deriva de um insucesso judiciário, real ou inexistente, porque muitas vezes até o êxito favorável de uma causa se transforma, em virtude das desmedidas pretensões, numa derrota.
Estes enfermos ostentam, muitas vezes, um certo saber jurídico, mas é uma simples aparência, porque eles conhecem artigos e parágrafos, sem lhes ter compreendido exatamente o conteúdo.
Os querelômanos surpreendem, muitas vezes, pela limpidez de sua consciência, pela memória intacta, por uma lógica aparentemente impecável, pelo conhecimento da lei, de maneira que podem enganar advogados e juízes, o que, fomentando o seu delírio, cria, ao mesmo tempo, graves perigos à justiça. Mas à medida que o mal se agrava, revelam-se também pelo seu comportamento.
Efetivamente, ao expor as razões em que esteiam as suas idéias, estes indivíduos não raro entram numa fase emotiva e de excitação mais ou menos viva, que tem sido chamada de atividade hipomaníaca logorréica e graforréica, mas que, no entanto, na maior parte dos casos, conseguem dominar, enquanto não explodem em manifestações clamorosas, apelando para a opinião pública, tornando-se freqüentadores das antecâmaras dos magistrados e dos diretores de jornais, chegando a exaltações perigosas.
Estamos, portanto, a examinar uma variedade de paranóicos no segundo estádio do seu delírio: perseguidos, tornam-se perseguidores ferozes, encarniçados, petulantes, que acusam, denunciam, injuriam, ameaçam e chegam a ferir e a matar, desdenhando dirigir-se aos tribunais, que consideram injustos e corruptos.”
(Enrico Altavilla, Psicologia Judiciária)

A cultura muçulmana do estupro

“Quando Lara Logan viajou ao Egito para cobrir os protestos da Praça Tahrir, ela não sabia que estava indo trabalhar em um país onde os percentuais de mulheres agredidas sexualmente, principalmente estrangeiras, são tão altos que se tornaram universais. Em uma profissão politicamente correta, tais verdades são politicamente incorretas. E mesmo hoje em dia toda a cobertura da imprensa evita cuidadosamente mencionar uma palavra perigosa: Islã.
A cultura muçulmana do estupro não começou na Praça Tahrir, nem vai terminar lá. Começou, na verdade, quando no ano 624 Maomé descobriu um modo engenhoso de recompensar seus seguidores. Em acréscimo aos troféus de guerra, ele lhes deu permissão para capturar e estuprar mulheres casadas. Antes isso seria considerado adultério. Agora se tornara um incentivo para ser um dos Santos Guerreiros do Islã. Não é difícil imaginar como era feio e terrível o acampamento dos seguidores de Maomé para uma mulher. É por isso que a burca foi inventada.
Os apologetas islâmicos insistem em que a burca tem algo a ver com a modéstia feminina. Mas o Corão explica abertamente por que ela foi criada. “Digam a suas esposas e filhas e às mulheres dos crentes que vistam seus mantos (véus) por cima do corpo todo, para que se distingam e não sejam molestadas.” O hijab foi inventado por motivo semelhante no Líbano, nos anos 70, para distinguir as mulheres xiitas, a fim de não serem molestadas por terroristas islâmicos. O propósito da burca era parecido com uma marcação de gado, separando as mulheres casadas com maridos muçulmanos das mulheres escravas que eram capturadas na guerra. As primeiras eram propriedade de seus maridos e intocáveis, as últimas eram presa legítima para qualquer um. Para um muçulmano, a burca é um sinal que significa “apenas meu marido pode me estuprar”, enquanto a ausência da burca significa “todos podem me estuprar”.
Quando o Grande Mufti da Austrália, Sheik Hilaly, justificou uma infame série de estupros cometidos por gangues ao comparar as mulheres a carne abandonada diante de um gato, ele explicou o fundamento da cultura muçulmana do estupro. As mulheres são sempre a parte culpada, porque são mulheres. Se elas recusam-se a se desfeminizar usando a burca e tornando-se apenas mais um fantasma assombrando as ruas de Cairo ou Sidney com sua ausência de individualidade, então elas são automaticamente culpadas de seu próprio estupro.
No Ocidente, o estupro é crime porque é um ataque a um ser humano. No Islã, só é crime por ser um ato sexual que acontece fora do casamento. Em muitos países islâmicos, 'zina', adultério ou conduta sexual imoral em geral, é uma acusação que pode ser feita tanto contra o estuprador quanto sua vítima. Mesmo no caso em que Maomé ordenou a execução de um estuprador, ele primeiro 'perdoou' sua vítima por tomar parte no ato. Na medida em que o Islã criminaliza o estupro, ele o faz enquanto crime de propriedade ou perturbação da ordem pública. E impõe exigências elevadas de prova cuja satisfação torna-se quase impossível.
No Islã as mulheres são objetos, não sujeitos. Fisicamente seus corpos inteiros são considerados 'awrah', uma palavra árabe que significa 'nudez', 'falha' ou 'defeito', termos que resumem amplamente a visão muçulmana sobre as mulheres. Até mesmo suas vozes são consideradas 'awrah', ou seja, até uma mulher totalmente coberta é uma coisa imoral ao falar. A mulher existe dentro do Islã como um objeto imoral. E isso dá aos homens muçulmanos a permissão implícita de atacá-la, enquanto se culpa a própria natureza dela por tentá-los a cometer o ato.
O Islã não considera o estupro como um crime contra a mulher. É um crime contra os pais e os maridos. Não há crime se um marido estuprar sua própria esposa. Essa é uma regra que os eruditos muçulmanos continuam a pregar nos dias de hoje. E um canal de TV islâmico do Reino Unido foi censurado por transmitir essa visão. Sob a lei islâmica, um marido tem todo o direito de agredir sua esposa se ela se recusa a servi-lo, até que ela consinta em fazê-lo. A mulher não tem controle sobre seu corpo. Somente o homem a quem ela pertence tem esse poder.
Em uma sociedade tribal, o estupro é um crime contra a propriedade e a honra. Para o pai, a virgindade da filha é um item valioso que aumenta seu valor de mercado. Casá-la é uma maneira de estabelecer um relacionamento entre duas famílias. Para o marido, a castidade de sua esposa mantém o valor de sua propriedade e garante que a prole é realmente sua. Atacar uma mulher é cometer um crime contra a propriedade comunal de uma família. Mas uma mulher sozinha não tem direitos sobre seu corpo que todo homem é obrigado a respeitar, como Lara Logan descobriu na Praça Tahrir.
Uma mulher desacompanhada não tem dono. Uma mulher estrangeira está fora da proteção do sistema tribal que utiliza vendetas familiares para resolver disputas. Não é à toa que os percentuais já estratosféricos de assédio sexual no Cairo sobem a um valor universal quando se incluem as mulheres estrangeiras.
A burca coloca a responsabilidade de se desfeminizar e marcar-se como propriedade nas próprias mulheres. Séculos de jurisprudência islâmica põem na mulher o peso da responsabilidade por qualquer ataque, como objeto que tenta os homens a pecar. O raciocínio circular do Islã diz que se um homem ataca uma mulher, é porque ela o tentou. A feminilidade é inerentemente um objeto de tentação. A burca e o hijab começaram como um modo de desfeminizar as mulheres para sua proteção, mas terminaram como uma acusação às mulheres. As mulheres passaram a não mais ser desfeminizadas para sua proteção, mas para a proteção dos homens.
Por que teriam que ser desfeminizadas as mulheres, suas faces cobertas e sua voz silenciada, se não houvesse uma força terrível e misteriosa na feminilidade que provoca os homens? Foi exatamente isso o que afirmou o ex-presidente do Irã, quando disse que “as pesquisas científicas mostram que os cabelos das mulheres emitem raios que enlouquecem os homens”. Mais recentemente, um clérigo iraniano explicou que as mulheres que não se vestem com modéstia corrompem os homens e causam terremotos. As rotas de vôo de aviões iranianos tiveram de ser desviadas de um estádio onde mulheres jogavam futebol com medo de que seus raios capilares pudessem afetar os passageiros.
Por trás dessa loucura dos raios capilares esconde-se uma idéia mais feia, a de que as mulheres são criaturas não-naturais e que os homens não são responsáveis por sua conduta diante delas. Se um homem estupra uma mulher, talvez os raios capilares dela o levaram a fazê-lo. Se elas podem causar terremotos, por que não? A cultura jurídica ocidental diz que os homens têm mais autocontrole quando tratam com as mulheres. A jurisprudência islâmica cria razões contra as mulheres para inocentar seus estupradores.
Como é que você vende a idéia de direitos iguais para pessoas que vêem as mulheres como objetos perigosos que têm de ser trancados a sete chaves?
Sob o Islã uma mulher não pode dizer 'não' exceto passivamente ao se desfeminizar, ao permanecer de purdah em casa ou levar um purdah ao sair, cobrindo todo seu corpo e rosto com uma burca, jamais encontrando o olhar de um homem ou a ele se dirigindo. E mesmo que ela siga todas as regras e seja atacada, então talvez tenham sido seus raios capilares que ultrapassaram o tecido negro da burca, no fim das contas. Não há jeito de uma mulher ser inocente, exceto não nascer. Enquanto objeto, ela é sempre culpada de seduzir os homens. Os níveis de culpa podem variar. Se os níveis são bastante baixos, ela pode ser 'perdoada' por causar imoralidade e seu estuprador pode receber uma pena. E sua família ainda pode matá-la a fim de enterrar, junto com seu corpo, a vergonha que ela representa para eles.
Como todas as regras sociais, essas não se aplicam igualmente para todas as mulheres. A filha de uma família rica, urbana e ocidentalizada gozará da imunidade que a filha de uma família pobre de aldeia não terá. A filha rica vai freqüentar a Escola Londrina de Economia, usar Twitter e servir como exemplo de que seu país e o Islã são realmente muito liberais. A filha pobre será a segunda esposa de um gordo e aborrecido mercador e terá sorte se ele não bater nela até a morte quando ela perder seus encantos.
Enquanto isso, os rapazes percorrerão as ruas frustrados e chateados. Eles roubarão tudo que não esteja amarrado, juntar-se-ão aos protestos e assediarão sexualmente as mulheres. Quando repórteres ocidentais afluíram ao Cairo para cobrir o movimento pró-democracia, eles foram cercados do que pensaram ser manifestantes pró-democracia. O que estavam fazendo era adentrar numa das cidades mais superpovoadas do mundo, onde gangues de manifestantes haviam esmagado a polícia e criado um estado aberto de anarquia. A cultura muçulmana do estupro fez o resto.
No que se refere aos atacantes, Lara Logan não tinha direitos que eles eram obrigados a respeitar. Ela não era a esposa ou filha de ninguém que eles conheciam. Ela não era nem mesmo muçulmana. Eles não tinham nenhuma relação de parentesco com ela. Isso quer dizer que, da mesma forma que no acampamento de Maomé, ela não pertencia a ninguém. Em outras palavras, ela era de quem chegasse primeiro.
Na cultura muçulmana do estupro, uma mulher não pode ativamente recusar um homem. Pode apenas passivamente demonstrar que ela lhe é proibida ao desfeminizar-se a si mesma. Lara Logan não tinha feito isso. Mas mesmo que tivesse feito, não lhe teria valido muito. Alguns anos atrás, até mulheres cobertas dos pés à cabeça haviam sido atacadas por gangues no Cairo. Pondo mais lenha na fogueira, vieram os cantos de “Yahood, Yahood”, “Judia, Judia”. Maomé decidiu tornar legal a captura e o estupro de mulheres judias. A associação não foi feita diretamente, mas indiretamente estava lá. Lara Logan foi marcada como membro de uma tribo inimiga.
O raciocínio é bizarro, mas a jurisprudência islâmica é produto de tal bizarrice. Ela se origina na vontade de Maomé, cujo único princípio consistente era fazer o que ele quisesse. Como profeta, ele freqüentemente fazia e descumpria suas próprias leis, e então fazia outras. Quatro testemunhas são necessárias para um ato de imoralidade sexual, porque em um determinado momento três testemunhas acusaram a própria esposa de Maomé de tal ato. Antes disso, Maomé havia agido baseado no testemunho de apenas uma pessoa.
Maomé modificou a lei para poder se casar com a esposa de seu filho e ficar trocando de esposas. Depois que Maomé recebeu outra urgente 'revelação' permitindo-lhe agir sexualmente como bem quisesse, sua esposa Aisha disse, “Ó Apóstolo de Alá, eu só vejo que teu Senhor sempre se apressa em te satisfazer.” Eis toda a jurisprudência islâmica. Era um código que existia apenas para satisfazer os impulsos sexuais de Maomé.
Se Alá existia somente para permitir que mulheres servissem sexualmente a Maomé, que poder podem ter as mulheres no Islã?
A cultura muçulmana do estupro origina-se daquele mesmo código. Um código que existe para satisfazer e favorecer os homens muçulmanos e aviltar as mulheres como uma espécie inferior, cujo corpo é imundície, cuja forma é corrupção e que só pode ser boa na medida em que ela se torna uma não-pessoa, ficando quieta e longe da vista. Ele começa com a inferioridade das mulheres e termina no paraíso cheio de eternas virgens que jamais dizem não. Alguém poderá perguntar o que ganham as mulheres. Mas o que elas ganham não importa. O Islã não foi mesmo feito para elas.”
(Daniel Greenfield, Muslim Rape Culture and Lara Logan)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Uma observação sobre a música de Albéric Magnard

Magnard não sabe para onde ir com o brucknerismo que adotou. É o caso em que um atavismo coletivo se choca com o gosto individual. Parece colocar os tutti nos lugares mais errados, seus pianíssimos não convencem e não tem o senso dramático que o mestre austríaco expressa em suas obras com tanta solidez. Seu espírito francês prefere ficar rodopiando ao redor de idéias desinteressantes até que passado tempo suficiente ele cria uma coda fácil e fecha o que já devia há muito ter terminado. Não sente que deva haver uma teleologia na obra musical, como há em todo discurso humano. Deve haver uma orientação em direção a um fim, um encadeamento lógico rumo a uma peroração. Magnard gira em torvelinhos falsamente agônicos: sua escrita clama aos céus por uma resolução que nem a coda é capaz de dar. O resultado é muita atividade sem propósito, muito cromatismo gasto em vão. Os contrastes não contrastam, as passagens supostamente líricas não encantam e os trechos rítmicos não chamam a atenção porque há um problema fundamental escondido por trás de toda essa movimentação inútil. O maestro e compositor austríaco Karl Rankl dizia que, quando compunha, ele procurava ter sempre uma idéia definida de para onde se dirigia sua obra, e só colocava as notas no papel quando essa imagem de totalidade já estivesse bastante clara diante de seus olhos; um exemplo que infelizmente parece ter escapado totalmente ao espírito de Magnard e que explica em parte porque os franceses preferiram, em seu modernismo, adotar as meditações extáticas e descritivas do impressionismo.

domingo, 22 de maio de 2011

As maçãs podres

“Existem duas maneiras pelas quais uma maçã podre pode trazer um pouco de luz à obscuridade da Igreja hoje eclipsada. Primeiramente, não esperamos que todas as partes de uma maçã apodreçam para considerá-la podre em sua totalidade, embora partes dela ainda não tenham apodrecido. Portanto, em resposta à pergunta de se a maçã está podre, devemos fazer uma dupla distinção: como um todo, sim; em certas partes, sim; mas em outras partes, não. E em segundo lugar, embora a maçã não seja a putrefação e a putrefação não seja a maçã, a podridão não pode se separar da maçã e não pode existir sem ela. Apliquemos a primeira parte desta comparação – que é senso comum – à Missa do Novus Ordo e a “igreja conciliar”, e a segunda parte à “igreja conciliar” e o Papado.
No que diz respeito à Missa Nova, ela está podre em sua totalidade por causa do antropocentrismo conciliar, mas enquanto algumas de suas partes são claramente não-católicas (por exemplo, o Ofertório), outras partes são católicas (por exemplo, o Kyrie Eleison). Porque está podre como um todo e lentamente transforma católicos em protestantes, não convém que dela participemos, mas a parte da Consagração pode ser católica e válida. Desta forma, nem se pode dizer da Missa do Novus Ordo que é válida e portanto pode-se assistir, nem que não se pode assistir por ser inválida. Na verdade ela pode ser válida em sua parte essencial, mas essa não é uma razão suficiente para expor nossa fé ao perigo de assistir à Missa Nova como um todo.
Da mesma forma, a Igreja de hoje em dia está podre em sua totalidade, na medida em que o Conciliarismo está disseminado através dela, mas isso não significa que cada uma das partes da Igreja esteja apodrecida pelo Conciliarismo. Assim, é tão errado condenar qualquer parte que ainda seja católica por causa do todo conciliar, como é errado desculpar o todo conciliar por causa daquelas partes que ainda são católicas. Para pôr nossa mente em sintonia com a realidade, devemos reconhecer tanto a distinção entre as diversas partes como entre o todo e suas partes.
E se aplicarmos também à Igreja de hoje em dia a segunda parte da comparação com uma maçã podre, podemos dizer que é genuinamente proveitoso falar de duas igrejas, a “igreja conciliar” e a Igreja Católica, porque o Conciliarismo se encontra na vida real por quase toda a Igreja, enquanto em seu estado puro o Conciliarismo e o Catolicismo se excluem entre si como uma maçã e sua parte apodrecida. Porém, na vida real não se podem separar, como não se separam a podridão e a maçã ou qualquer parasita e o portador. Na vida real só existe uma Igreja, a Igreja Católica, sofrendo hoje em dia, em quase toda sua extensão, da podridão do Conciliarismo.
Portanto, no que se refere a um Papa Conciliar, uma maneira realmente útil de falar é dizer que ele é cabeça de duas igrejas, porque através de suas palavras e ações, algumas vezes católicas, outras vezes conciliares, ele se coloca todo o tempo à cabeça tanto da Igreja Católica como da podridão conciliar. Com isso não estamos dizendo que ele é cabeça de duas igrejas separadas na realidade. Estamos dizendo que ele é cabeça tanto do Catolicismo quanto do Conciliarismo na única verdadeira Igreja Católica, atualmente desfigurada em quase todas as suas partes pela podridão conciliar.
E por que, em nome de Deus, estão os líderes de nossa Igreja tão enamorados da podridão conciliar? Devido ao veemente desejo moderno por liberdade. Mas essa é uma outra história. Enquanto isso devemos orar com todas as nossas forças por Bento XVI para que veja a diferença entre a maçã e a podridão!”
(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, Apples Rotting)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O dever de resistir (II)

Obediência a quem?
A pergunta não é de todo estranha, se pensarmos que a autoridade de instituição divina na Igreja está hoje paralisada por uma falsa colegialidade que reduziu a autoridade do Papa a um papel de representação e submeteu a autoridade de direito divino dos bispos às Conferências episcopais, de instituição humana. Ela fez assim destas duas autoridades o disfarce dos neomodernistas que, através dos diferentes órgãos colegiais, exercem hoje o poder efetivo na Igreja.
A tática própria dos modernistas de se infiltrarem por toda a parte e de se manterem ocultos o mais possível encontrou uma aplicação no governo pós-conciliar da Igreja, ainda mais do que nos documentos do Concílio. Nestes documentos o modernismo está presente por toda a parte, mas está também cuidadosamente escondido pela presença de fórmulas irrepreensíveis, que contrabalançam as fórmulas inquietantes (do mesmo modo que, inversamente, textos irrepreensíveis estão às vezes neutralizados por uma simples nota). De igual maneira, no pós-concílio, os neomodernistas legislam em todos os domínios, mas sob a cobertura da autoridade legítima.
Segue-se que, em realidade, o católico que, como é de seu dever de consciência, resiste à nova orientação eclesial, resiste não à autoridade legítima, mas ao poder oculto que a suplantou e a manipula. E pouco importa que esta transferência ilegítima da autoridade para os órgãos colegiais seja alcançada com o acordo, mais ou menos consciente, dos detentores da autoridade legítima divinamente instituída: "não está no poder do homem renunciar a um direito divino" (Pio IX, "Quartus supra vigesimum").
O dever
Entre aqueles que não estão de acordo, no seu íntimo, com a nova orientação eclesial e que não se sentem obrigados a obedecer-lhe, muitos justificam inércia e passividade repetindo para si e para outros que "portae inferi non praevalebunt" (as portas do inferno não prevalecerão absolutamente contra ela. Mt. 16,18): a indefectibilidade foi prometida à Igreja e isto hoje dispensaria de resistir ou de combater aos que trabalham por destruí-la de dentro (pois se trata realmente disto, dado que não se pode compreender a autodestruição da Igreja no sentido próprio, uma vez que a Igreja, mesmo quando seus ministros a maltratam, é sempre a esposa fiel do Verbo Encarnado). Entretanto eles não pensam que a indefectibilidade foi prometida justamente à Igreja e não aos homens (da Igreja), nem mesmo a presença da Igreja em tal ou tal parte do mundo. A história da Igreja está aí para atestá-lo: o "não prevalecerão" não impediu que a África católica fosse apagada pela invasão muçulmana; não salvou do cisma as já gloriosas igrejas orientais, não impediu que a Inglaterra, a Suécia, a Suíça, os Países Baixos, Alemanha e outras nações européias já católicas tombassem com a pseudo-reforma protestante no cisma e na heresia. Porque se é verdade que "as portas do inferno não prevalecerão" e que a promessa de Deus não pode deixar de realizar-se, "isto não significa que a promessa se deva entender no sentido fatalista e que os membros da Igreja, em particular os sacerdotes, devam deixar a Deus apenas o cuidado de manter e de guardar a Igreja, sua Fé e seus costumes. Mesmo aqui Deus se serve das causas segundas. A Igreja universal é seguramente sustentada e guardada por Deus, mas a vida e a duração das igrejas particulares dependem, em grande parte, da cooperação dos fiéis. Partes importantes da Igreja se perderam por culpa dos fiéis e mais ainda por culpa dos sacerdotes" (Bartmann, "Dogmática", V. II, pg. 449).
Daí o dever que, hoje, incumbe a todos, sobretudo ao clero e aos religiosos, mas igualmente aos simples fiéis, de resistir à nova corrente eclesial.
Que resistência?
A resistência que exigem as circunstâncias atuais é uma resistência externa e interna. Recusar o compromisso com a nova orientação eclesial, conservar a fé e as práticas recebidas pela Igreja antes da crise atual, manifestar abertamente seu próprio desacordo, testemunhar, em suma, sua fidelidade à fé Católica e não deixar que os demolidores, no interior da Igreja, tenham a consciência tranqüila: tudo isso é o que chamamos resistência externa. A que denominamos resistência interna necessita de um raciocínio mais longo.
Dia 21 de dezembro de 1992 foi o oitavo aniversário do falecimento do Padre Francisco Maria Putti, que fundou o periódico Si Si No No para reconfortar os hesitantes e os isolados, para despertar os adormecidos, para ser uma repreensão pública aos demolidores da Igreja e para relembrar à autoridade a gravidade da crise da Igreja. Em sua fé viva ele não cessou jamais de se espantar com a indiferença de tantos "bons", sobretudo ministros de Deus e membros da hierarquia, e repetia que se todos aqueles que estavam em condições de avaliar a desastrosa realidade tivessem encontrado coragem de manifestar sem temor sua própria desaprovação, o neomodernismo jamais teria triunfado na Santa Igreja de Deus. Infelizmente, a desforra modernista surpreendeu o mundo católico — clero, religiosos e leigos — num momento de grandíssima fraqueza espiritual. O pós-concílio fez realmente desabar numerosas fachadas, há muito mantidas em pé somente graças aos esforços tenazes e generosos dos Pontífices Romanos, desgraçadamente não secundados pelos próprios membros do episcopado que desobedecem assaz freqüentemente. Basta-nos relembrar aqui "esta resistência, muitas vezes passiva mas real" oposta às disposições antimodernistas de São Pio X, não apenas pelos modernistas e seus simpatizantes, mas também por eminentes cardeais; resistência posta às claras e documentada na causa da canonização deste grande Pontífice (cf. Beatificationis et canonizationis servi Dei Pii Papae disquisitio circa quadam objectiones modi agendi servi Dei respicientes in modernismi debellatione, Typis polyglottis Vaticanis, 1950, p. 59).
"Existe uma escola [na Igreja], escrevia então o cardeal de Lai, que encoraja e defende o princípio das idéias largas, do mínimo a crer e a fazer, escola que de degrau em degrau desce ao puro racionalismo, ao ceticismo e ao panteísmo" (ibi., pg. 65). Era a escola dos católicos poluídos pelo liberalismo, "escola" que triunfou no Concílio Vaticano II. Com esta luz compreende-se a significação e toda a gravidade dos apelos insistentes à oração e à penitência que desde cerca de dois séculos a Santíssima Virgem dirigiu a um mundo católico disposto a usufruir das vantagens materiais da religião cristã, mas sempre mais hostil às exigências da Fé que manda amar a Deus sobre todas as coisas e até pelo sacrifício de si mesmo.
Se inimigos exteriores e traidores internos da Igreja foram os principais responsáveis pelo desastre pós-conciliar, este desastre foi contudo longamente preparado e em seguida possibilitado por um grande número de sacerdotes e de religiosos espiritualmente negligentes e ociosos. Estes acreditavam ter feito bastante ao salvar o santuário de sua própria alma da profanação total. Esta responsabilidade foi igualmente partilhada por uma grande massa de leigos descuidados de sua espantosa e culpável ignorância e alheios ao esforço ascético que impõe a vida cristã mesmo não consagrada. Um semelhante mundo católico, satisfeito com pertencer de um modo puramente exterior à Igreja, não poderia encontrar estas graças extraordinárias de luz e de força requeridas pela urgência extraordinária de um ataque desencadeado contra a Fé em nome da autoridade e da obediência a um Concílio ecumênico.
Entretanto, tudo concorre para o bem daqueles que tendem para Deus com um coração sincero, mesmo aquilo que, como a atual crise eclesial, parecia menos favorável à vida espiritual. De fato, a atual crise da Igreja, para quem quer compreendê-la, é um apelo a abandonar toda a presunção pela qual se diria que o fato de pertencer à Igreja pudesse salvar sem uma Fé vivida e conhecida. "Endireitai vossos caminhos e vossas obras e eu estarei convosco neste lugar. Não vos fieis absolutamente em palavras mentirosas." "Aí está o santuário de Yahvé. Eu vou tratar este templo que traz o meu nome e no qual vós colocais vossa confiança, e este lugar que eu dei a vós e a vossos pais, como eu tratei a Siló [o qual não foi salvo da destruição apesar de ter obrigado durante muito tempo a Arca do Senhor]" (Jr. 7,3-4 e 14).
O remédio, portanto, deve atingir a raiz do mal: a ausência de fé viva animada por uma fervorosa caridade, e portanto a ausência de espírito sobrenatural, foram as causas profundas da crise atual e por conseguinte, na medida em que cada um se esforça por readquirir ou aumentar em si esta fé viva e este espírito sobrenatural, nesta mesma medida terá dado sua mais valiosa contribuição à superação da crise. É a este compromisso pessoal e interior que chamamos resistência interna. O deserto da fé em que vive hoje o católico torna mais árduo, mas não impossível, este compromisso. É sempre possível, de fato, retornar ao luminoso Magistério oposto aos erros modernos pelos Pontífices Romanos, de Pio IX a Pio XII, é sempre possível procurar ou freqüentar, ou ao menos manter-se em contato com estes oásis de fé viva e de espírito sobrenatural que são os priorados de Sua Excelência Dom Marcel Lefebvre. Enfim, é sempre possível para todos, por toda a parte e sempre, rezar. Este esforço, que nas circunstâncias atuais não pode deixar de se impor, será também uma forma de reparação que atrairá sobre nós, sobre a Igreja, sobre as almas, a misericórdia de Deus. "Ipse castigavit nos propter iniquitates nostras et Ipse salvabit nos propter misericordiam suam". Ele nos castigou por causa de nossas iniqüidades e nos salvará por causa de sua misericórdia (Tb. 13, 5).”
(Artigo do jornal Sim Sim Não Não, janeiro de 1993)

http://www.capela.org.br/Crise/Sisinono/resistir.htm

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O dever de resistir (I)

Desenvolvimento ou contradições?
Ao Católico convenientemente informado, e com mais forte razão ao sacerdote, ao religioso, impõe-se hoje a escolha seguinte: ou resistir à nova corrente eclesial e então ser taxado de rebelião à autoridade ou, adaptando-se a esta orientação, negar ipso facto a infalibilidade da Igreja, que até o Vaticano II em lugar de "guardar, transmitir e explicar fielmente o depósito da Fé" (Primeiro Concílio do Vaticano) teria durante um tão grande número de séculos ignorado, errado e jurado, sem saber o que ela devia crer" (São Vicente de Lérins, "Commonitorium").
A adaptação à nova orientação eclesial é sem dúvida nenhuma mais cômoda à natureza humana que odeia o esforço e a luta, mas é o caminho mais direto para a apostasia e está igualmente em oposição ao mais elementar bom senso. Admitindo que as contradições atuais com o que sempre foi crido, ensinado e portanto posto em prática na Igreja venha desta mesma Igreja, por que se deveria prestar fé hoje a uma instituição que se enganou ontem e poderia então enganar-se ainda hoje?
Estes mesmos inovadores que impõem suas inovações em nome da Igreja parecem ressentir-se do peso decisivo desta objeção e por isso afirmam que as novidades atuais "se inscrevem na única Tradição da Igreja" (Cardeal Ratzinger), como sendo desenvolvimentos da única e imutável verdade. Mas não basta afirmar que uma novidade se inscreve na Tradição da Igreja; é necessário que ela se inscreva realmente e isto é evidentemente impossível quando estas novidades devem abertamente chocar-se com a Tradição. A menos que se queira renunciar à lógica, com seu princípio de não contradição e às declarações solenes do primeiro Concílio dogmático do Vaticano sobre a imutabilidade substancial da Tradição (Dz 1800), incorrendo na excomunhão do cânon correspondente (Dz 1818). Na realidade, a única e imutável Verdade não pode se desenvolver, e portanto progredir, como jamais progrediu durante dois mil anos, por meio de contradições. As contradições doutrinárias na Igreja sempre foram denominadas erros ou heresias, elas não podem ser propagadas como sendo progresso e desenvolvimentos doutrinais a não ser no triunfo atual da heresia modernista, cuja essência reside justamente na consideração de que "na tradição, tudo é relativo e sujeito às mudanças" (São Pio X, "Alocução consistorial", A.A.S., t. 40, 1907, p. 268).
Portanto, às almas retas, às quais a "perversão modernista da inteligência" (Marcel de Corte) ainda não tirou o "medo da contradição" (R. Amerio), impõe-se o dever de resistir à nova orientação eclesial porque ela está, em todos os domínios, em contradição com o passado da Igreja.
A arma dos inovadores
Para evitar ou ao menos conter esta resistência, os autores e partidários desta reviravolta modernista na Igreja recorreram a numerosos meios, mas sobretudo à arma da obediência.
Mas então levantam-se três perguntas:
1. Obediência a quê?
2. Que obediência?
3. Obediência a quem?
Obediência a quê?
Desde o Concílio, a Igreja não deu mais uma ordem que tenha características próprias duma ordem de modo que se saiba com exatidão: qual é o objeto desta ordem e se o legislador tem vontade de obrigar.
A própria reforma litúrgica, que foi durante longo tempo o ponto nevrálgico do conflito, não teve uma real e correta promulgação jurídica, se é certo que a promulgação duma nova lei deva ser feita "de tal modo que revele a vontade do legislador de estabelecer a lei, e que ele coloque a comunidade em condições de conhecê-la" (Roberti Palazzini, "Dicionário de Teologia Moral", verbete: promulgação da Lei). Ora, o próprio Cardeal Bugnini, factotum da reforma, tratando da "obrigação do [novo] missal" nos demonstra que não é jamais oportuno responder aos pedidos instantes dos Bispos para uma declaração oficial. Quando, à instância de D. Sustar, Secretário do Conselho das Conferências Episcopais Européias, a Congregação para o Culto elaborou uma resposta e a submeteu ao Secretário de Estado, este respondeu a 15 de Outubro de 1973 (prot. no. 243874): "Dada a delicadeza do assunto, objeto de polêmica, parece oportuno que Vossa Excelência responda àquela que vos escreveu de maneira pessoal por uma carta não oficial sem número de protocolo": "Queira-se esclarecer o problema sem ofender ninguém", escreve D. Bugnini.
Em seguida, em face das dificuldades criadas por certos grupos aos Bispos locais, a Sagrada Congregação para o Culto propôs o recurso à Comissão para a interpretação exata dos Documentos do Concílio, mas a 10 de junho de 1974 (no. 258911) a Secretaria de Estado repelia a proposição pela razão textual de que uma resposta favorável à reforma teria sido encarada como "um ato odioso nas relações com a tradição litúrgica". "Ainda uma vez se queria evitar ofender alguém", comenta D. Bugnini (A. Bugnini, "A Reforma Litúrgica", 1948-1975). Maneira incrível de promulgar uma reforma (e que reforma): nem a vontade do legislador de obrigar foi jamais notificada, nem a comunidade foi posta em condições de conhecer esta vontade sem equívoco possível.
E não apenas no domínio litúrgico, mas em todos os domínios o reformismo progrediu "mais por silêncio calculado e por omissões" do que por ordens explícitas (Pe. Calmel, O.P.) segundo a tática própria dos modernistas (cf. S. Pio X, "Pascendi"). Obediência a quê então? Obediência a uma nova orientação eclesial imposta de fato, através de indicações sempre insuficientes para justificar qualquer reação, mas sempre suficientes para promover o aniquilamento da tradição em todos os domínios. Na prática, jamais se impôs explicitamente ao católico, em nome da obediência, uma negação de sua própria fé (caso em que ele estaria em condições de avaliar o alcance da obediência que lhe era exigida e teria sido colocado em circunstâncias que motivariam a sua necessária recusa). Mas foi-lhe imposta e é imposta uma nova orientação eclesial que, implicando a negação de tudo o que a Igreja ensinou e fez sobre a base destes princípios doutrinários até o Vaticano II, conduz diretamente à apostasia.
Que obediência?
Na ausência de ordem que tenha as características que deve ter toda ordem, não se pode falar de obediência no sentido próprio. Mas quando se quer falar também de obediência, como de fato se fala, a contradição entre a nova corrente eclesial e a antiga é tão evidente (impõe-se hoje o que se deplorava ontem e vice-versa) que se pede aos católicos uma obediência ilimitada quanto ao objeto e cega quanto ao grau. Ora, a obediência ilimitada — a moral católica no-lo ensina — só a Deus se deve, senhor supremo de todos e de tudo, ao passo que a obediência que se deve aos homens, inclusive ao Papa — é limitada:
1. Pelo direito divino, natural e positivo;
2. Por toda autoridade superior;
3. Pela matéria subtraída ao seu poder.
(Cf. "Enciclopédia Católica", verbete: obediência e Roberti Palazzini, "Dicionário de Teologia Moral", verbete: obediência).
Assim, o Papa, só ou em Concílio, não pode contradizer o que está contido explicita ou implicitamente na Divina Revelação, porque a autoridade do Papa neste caso é limitada pelo direito divino. Ele não pode sozinho, mesmo em Concílio com os Bispos, contradizer o que já foi definido ou dado como certo por seus predecessores ou o que foi sempre e universalmente crido e ensinado na Igreja. Com efeito, isto é uma matéria subtraída a seu poder e ao poder do Concílio, o qual, neste domínio, pode exercer um julgamento confirmativo, jamais dubitativo, exatamente como um juiz que no tribunal tem o poder de aplicar a lei, mas não de discuti-la (cf. "Dicionário de Teologia Católica", verbete: Concílio T III, col. 665). E finalmente, do mesmo modo que não se deve obediência aos bispos contra o Papa, porque a autoridade do Papa é superior à dos Bispos, deve-se ainda menos obedecer ao Papa contra Nosso Senhor Jesus Cristo, porque a autoridade de Cristo supera e fundamenta a autoridade do Papa.
Conclusão: o próprio Papa não tem o poder de exigir dos católicos esta obediência sem limites que se exige deles hoje em nome do Concílio Vaticano II: ninguém, e ainda menos a autoridade instituída por Deus, pode impor a apostasia, seja ela prática ou teórica.
A moral católica, ademais, ensina que a obediência cega que "crê firmemente sem examinar o objeto [da ordem]" (L. Billot, S.J., "De Ecclesia", T. XVII), é devida somente a Deus e ao Magistério infalível da Igreja, o qual não está de nenhum modo implicado nem na nova orientação eclesial, nem mesmo no Concílio.
Por conseguinte, ninguém, nem mesmo o Papa, tem o poder de exigir dos católicos a obediência cega (sem exame do objeto) que se exige hoje deles em nome do Concílio pastoral Vaticano II, como se se tratasse de um super-Concílio, para falar como o Cardeal Ratzinger, ou então de um Concílio que não apenas seria infalível (o que ele não é), mas teria até mesmo o direito de contradizer (o que é ilícito mesmo para os concílios dogmáticos) a Sagrada Escritura, o Magistério constante da Igreja, todos os Papas e todos os Concílios dogmáticos em conjunto.”
(Artigo do jornal Sim Sim Não Não, janeiro de 1993)

domingo, 15 de maio de 2011

As catedrais sonoras de Anton Bruckner

“Assim como Brahms e César Franck, Bruckner pode ser considerado um “evolucionário” da sinfonia, gênero que consolidou com seu traço pessoal, com a vontade de dominar e estruturar a matéria sonora. Erige amplas construções onde os planos se respondem – uns originando-se dos outros -, onde ainda transparece a arte barroca que ele contemplou desde jovem em Sankt Florian e cujo desenho em volutas chama e conduz o olhar para infinitas linhas de fuga submissas a um centro brilhante. Dessa forma, as sinfonias de Bruckner apegam-se, sobretudo, à idéia de Deus, articulando-se em torno de um ponto culminante, como, por exemplo, no coral do Finale da Quinta Sinfonia, nas perorações da Quarta e da Oitava, e no retorno do tema no Adagio da Sétima.
No plano formal, Bruckner se mostra menos reservado que Brahms, embora menos audacioso que Franck. O que não o impede de abrir caminhos aos músicos expressionistas e particularmente a Gustav Mahler.
Essa atitude, adotada e desenvolvida por Bruckner ao longo de sua existência, condiciona, em certa medida, a sua linguagem musical. E aqui, ainda, a Sétima Sinfonia é o perfeito exemplo, tanto no plano da temática como da rítmica ou da harmonia.
A escritura de Bruckner é, antes de tudo, polifônica e seu contraponto resulta da forma sinfônica pré-escolhida – que implica uma linguagem determinada e sutis relações harmônicas -, bem como da vocação de organista, habituado a superpor grandes planos sonoros nos diferentes teclados de seu instrumento.
Nessas imensas catedrais que são suas sinfonias, os temas funcionam como pilares de sustentação de edifícios iluminados pela harmonia, como o raio de luz que se filtra através dos vitrais. Esses temas geradores, cujo desenho é preciso e vigoroso, freqüentemente estão reunidos no que se pode chamar de “grupos” – o inicial, chamado “grupo de cabeça” ou “rítmico”; o segundo, “grupo de canto” ou ”melódico”; o terceiro, “conclusivo” ou “harmônico”.
Bruckner foi também um geômetra, com imperiosa necessidade de se mover em espaço sonoro amplo, mas de contornos delimitados: daí a preocupação que o anima e o leva a polir seus temas com o mesmo cuidado que ao conjunto do edifício, ao ponto em que eles podem ser naturalmente construídos em movimento direto ou inverso.
Aliás, os motivos das sinfonias são geralmente compostos de oito compassos, em longos períodos que atingem 24 ou 32 compassos. Essas longas confissões funcionam como a expressão de um fôlego profundo que é preciso seguir passo a passo, sem perder o fio do discurso, sob pena de sucumbir. Para evitar a monotonia que poderia resultar de semelhantes melopéias, Bruckner multiplicou as pesquisas tonais e, assim, sua escritura ganhou mobilidade.
Raramente monotonal, muito modulante, a escritura de Bruckner é igualmente submissa ao ritmo de vários séculos de danças camponesas. Fórmulas obstinadas, alternâncias de notas marcadas e fluidas, superposição de ritmos binários e ternários, redução dos temas até sua essência rítmica dada pelo tímpano ou trompetes em uma mesma nota, breve anacruse, marcando vigorosamente o ataque da nota longa seguinte (na Quarta Sinfonia, por exemplo) são ainda procedimentos característicos de Bruckner.
Esses motivos poderosos trabalhados por uma dinâmica interna, Bruckner os engasta em uma harmonia sempre quente, elástica e mesmo sensual, freqüentemente fundada sobre o acorde perfeito ou o acorde de sétima.
Nesse sentido, Bruckner é bem o filho de seu século. Herdeiro de Schubert, admirador de Wagner, recolheu em seu cadinho todos os princípios que lhe foram legados pelo Romantismo musical alemão. Mas acrescentou-lhes audaciosos encontros contrapontísticos.
Transformando em princípio a alternância maior/menor, Bruckner infundiu em suas partituras uma espécie de claro-escuro pictórico, que concentra em direção ao principal grupo de temas a essência do que diz, graças a súbitas modulações enarmônicas ou cromáticas.
Sua orquestração, muito pessoal, também o distingue de seus contemporâneos. Mais densa, embora, talvez, mais colorida que a de Brahms, a orquestra de Bruckner desenvolve-se como uma floresta virgem, cheia de vida, capaz dos mais formidáveis crescendos, como dos mais tênues pianíssimos. Ávido de contrastes, procedendo, como com seu órgão, pela superposição de vastos planos, Bruckner sabe solicitar aos metais – e mais particularmente aos trombones – essa cor, essa intensidade no recolhimento (Adagio pianissimo da Sétima Sinfonia), que só pertence a ele e que sua fé glorifica por meio de vibrantes corais.
Bruckner jamais viu o mundo sob outro ângulo além daquele ditado por dezenove séculos de cristianismo. E assumiu como poucos a tarefa de honrar o Criador por meio de sua arte. Assim, jamais teve para com ela um comportamento utilitarista e tampouco fez concessões à moda. Apesar disso, a luta em que se viu envolvido – à sua revelia – entre admiradores de Wagner (e Bruckner foi um deles) e os de Brahms custou-lhe parte da segurança material e da possibilidade – que só conheceu nos últimos anos de vida – de se consagrar integralmente à composição. E de ser aceito. Foi então em duplo isolamento – afetivo e social – que se desenvolveu sua trajetória.
Apesar de sua vida ter sido um aglomerado de dificuldades, e seu refúgio, a música, raros são os momentos pessimistas na obra de Bruckner. O mais significativo deles é o primeiro movimento da Oitava Sinfonia. E, no entanto, o compositor é genuinamente romântico, na medida em que sua obra guarda um caráter confessional e quase autobiográfico, respondendo à profunda necessidade de expressão.
Nela, a música profana e a sacra se interpenetram, a ponto de um mesmo tema fornecer matéria para um movimento sinfônico e para um verseto de missa. A partir disso, a opinião de Langevin de que “a mais bela missa escrita por Bruckner foi, na realidade, a Quinta Sinfonia, ou então a Nona”, significa muito mais que um dito espirituoso.
No entanto, por mais rica que tenha sido a obra sacra de Bruckner, sua glória repousa essencialmente em nove sinfonias, cujo caráter distintivo é o de exprimir por meio da orquestra um dado que até então só fora traduzido nos serviços divinos.
Bruckner compôs, ao todo, onze sinfonias, das quais as nove últimas contam como o que há de mais importante em sua produção profana – se é que se pode chamá-las profanas, sem contradizer Langevin. A maioria delas é conhecida hoje em diferentes versões, uma vez que o compositor revisou-as profundamente durante várias fases de sua vida. E, jamais inteiramente confiante no resultado final de uma sinfonia, Bruckner permitia que regentes e editores cortassem trechos das partituras, acertassem certos detalhes da orquestração e até mesmo da harmonia. Ele mesmo, com freqüência, chegou a recompor movimentos inteiros de algumas de suas sinfonias, depois de sua primeira execução e/ou publicação.
No que diz respeito às sinfonias, merecem especial destaque a Quarta, a Quinta, a Sétima e a Nona.
A Quarta Sinfonia, uma de suas composições mais luminosas, é também uma das mais populares. Isso se deve à perfeição plástica de seus temas, à amplitude arquitetural, assim como a sua aparência descritiva, próxima do poema sinfônico (Bruckner batizou-a de “Romântica”). No plano da técnica, confirma a segurança e a riqueza de expressão das obras anteriores. Primeira sinfonia em tonalidade maior, é também a primeira em que Bruckner mistura tonalidades de maneira intensiva.
Composta entre 1875/76 e revisada mais tarde, a Quinta Sinfonia, em Si Bemol Maior, é suntuosa. Sua lógica não tem falhas, seus desenvolvimentos são amplos e sua unidade é perfeita. Obra-prima de arquitetura e de luz, seu caráter majestoso mede-se efetivamente pelos temas grandiosos, pelo coral de plástica severa, por suas inflexões ora religiosas ora elegíacas, pela escritura soberana, enfim.
Assim como Bruckner procurou depurar sua linguagem ao passar da Primeira para a Segunda Sinfonia, da mesma forma essa linguagem evolui da Quarta para a Quinta. Esta última, apesar dos intensos arroubos, do colorido fortemente contrastado, das múltiplas pesquisas técnicas, surge, paradoxalmente, mais sóbria, mais severa, mais secreta – enfim, mais clássica que a anterior.
A Quinta Sinfonia encaminha a criação de Bruckner para novos horizontes. Ainda partindo da própria solidão e fé, Bruckner inicia com ela a escalada que, com a Nona Sinfonia, chegará ao último dom de si.
A Sétima – juntamente com a Quarta – é uma das mais populares e alcançou enorme sucesso quando Bruckner ainda era vivo. Obra-prima de uma arte que chegava ao apogeu no final de um longo caminho, a Sétima é, ao mesmo tempo, a síntese e o resultado de uma forma musical, assim como o resumo de toda a criação sinfônica de Bruckner. Sua arquitetura é sabiamente elaborada: pelo número de temas e planos tonais, o primeiro movimento se constrói segundo a estética bruckneriana. Apesar disso, a ausência deliberada de qualquer grupo rítmico lhe confere uma maneira de ser peculiar. O Adagio – uma das mais belas páginas da sinfonia, inspirada no sentimento da morte iminente de Wagner – está escrito em forma de rondó, com a alternância de dois temas. O Scherzo vivace é o primeiro segmento essencialmente rítmico e difere dos anteriores pelo desenho nítido dos elementos do tema; o Trio central inicia-se por uma figura rítmica, uma frase aparentemente clara e lenta, perturbada pelo trompete, pela flauta e pelo tímpano. Apesar da força e das grandes proporções, o Finale – Allegro ma non troppo – apresenta uma arquitetura simples, como um movimento de sonata com dois temas. Se o desenvolvimento obedece às leis tradicionais, a reexposição diminui para simular entradas – como em um stretto de fuga – e imprimir ao final uma pulsação interior que atinge seu paroxismo na coda, com a retomada do tema inicial do primeiro movimento.
No plano da construção, a Sétima Sinfonia testemunha a preferência de Bruckner pelos vastos moldes, intensamente elaborados: separações iniciais em três temas que se refletem na estrutura mais ou menos semelhante à do último movimento, onde ressurgem as tonalidades, o coral e pelo menos um dos motivos principais do início da obra; adagios em forma de lied; e, enfim, scherzi com violentos saltos, embora de execução simples e cujos paroxismos rítmicos são compensados pela serenidade do trio, onde dominam as inflexões populares do laendler.
Na Nona Sinfonia, finalmente, Bruckner quis concretizar sua concepção arquitetônica e sua linguagem sinfônica. Em seu último esforço para encontrar o absoluto das coisas antes de oferecê-lo ao Absoluto dos Seres, Bruckner partiu em busca do eu mais profundo para, uma vez tendo-se reconhecido totalmente, ultrapassar os limites da própria alma e, assim, transcender a si mesmo. Mais do que qualquer outra, essa sinfonia é obra essencialmente religiosa: longo canto à glória do Senhor, que ultrapassa o limite das palavras, expressando-se pelo quase imaterial da música. Bruckner pretendia encerrar sua última sinfonia com uma enorme fuga a duas vozes. Mas suas forças não o permitiram e a Nona ficou inacabada. Mesmo assim, ela é o coroamento de sua criação e configura a serenidade conquistada em meio ao assustador pandemônio acima e além do qual sua alma de músico se elevou.”
(J. Jota de Moraes, Bruckner)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Pôncio Pilatos

“Sempre dizemos ao recitar o Credo, ou Símbolo da Fé, que Nosso Senhor Jesus Cristo padeceu “sob o poder de Pôncio Pilatos” (sub Pontio Pilato). Não deixa de ser surpreendente que se mencione em tão elevada ocasião a um mero governador romano de província que não procurou nem desejou a morte de Jesus – que tratou até mesmo de evitá-la - , e não a Herodes ou a Caifás ou aos Príncipes dos Sacerdotes que a promoveram e conseguiram, ou a Judas que o entregou, ou, em outro caso, ao Imperador de Roma de quem Pilatos era um simples delegado.
A atual tradução em castelhano, realizada pela Igreja pós-conciliar, substitui a expressão “sob o poder de” para “nos tempos de”. A inépcia é tamanha que não poderia ter sido um simples “aggiornamento” da língua. Em todo o mundo, ninguém conservaria a memória de Pôncio Pilatos se ele não tivesse intervindo no processo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um biógrafo de Pilatos poderia ter dito que viveu nos tempos de Cristo, mas que Cristo morreu nos tempos de Pilatos carece por completo de sentido e possui um certo caráter grotesco. Seria como dizer de Napoleão que morreu nos tempos de Fouché. Até mesmo dizer que morreu nos tempos do Imperador Tibério soaria estranho, porque a situação histórica de Cristo é incomparavelmente mais relevante que a cronologia dos imperadores romanos. Mas colocar a referência logo em Pôncio Pilatos?
É evidente que essa alusão a Pilatos jamais foi considerada como uma referência temporal e não seria hoje que se lhe outorgaria um tal caráter, passados dois mil anos daqueles fatos. Trata-se, ao invés, de substituir outra coisa por essa localização histórica. E de fazer essa substituição por algum motivo. Que coisa e que motivo? Eis aqui a questão.
Antes de mais nada, por que se menciona a Pôncio Pilatos no Credo e não àqueles outros personagens mais diretamente interessados na morte de Cristo? Por que foi condenado a ser mencionado na morte de Cristo durante séculos e séculos um homem que unicamente se mostrou débil e atemorizado, que procurou, até certo ponto, evitar o desenlace?
Há uma primeira resposta, que talvez pudesse ser suficiente: porque em Pilatos estava o poder - e o livre arbítrio - de decidir a morte e suplício de Cristo. Os judeus não teriam esse poder se Pilatos não lhes tivesse concedido. O César estava muito longe e não se inteirava sequer do que acontecia e do que em seu nome se decidia em Jerusalém.
Essa explicação significaria a responsabilidade pessoal que cabe a cada homem em suas grandes decisões e a responsabilidade muito especial do governante que não exerce uma simples função moderadora e dialogante, mas um ministério sagrado de justiça. Pilatos não queria a morte de Cristo, mas era o único que poderia evitá-la, e não a evitou; pelo contrário, sancionou-a com sua inibição e sua vênia. Essa estranha menção àquele obscuro governador de província seria como uma proclamação, no Símbolo de nossa fé, da realidade do livre arbítrio humano, da responsabilidade pessoal e do sagrado ministério do governante ou do juiz.
Contudo, caberia ainda uma outra interpretação (entre tantas mais, dado que a Palavra inspirada é insondável):
Que sabemos nós de Pôncio Pilatos? Segundo o Evangelho de São João, quando Cristo se declara testemunha da verdade diante dele e afirma que os que são da verdade escutam sua voz, Pilatos pergunta: “que é a verdade?” (quid est veritas?) Não pergunta “que verdade é essa?” ou “de qual verdade falas?”, mas “que é a verdade?” Ao que Cristo não respondeu.
Pilatos, como tantos romanos decadentes e céticos, não acreditava na verdade nem servia a nenhuma verdade. Cria na verdade de cada um, na verdade relativa do homem, de cada homem, verdade subjetiva, em evolução. Se tivesse falado a linguagem de hoje, teria contestado: “A verdade! Então és um radical? Talvez queiras dizer tua verdade, tua opinião, não mais valiosa que qualquer outra opinião.”
Pilatos não professava o liberalismo como doutrina pública porque tal teoria não existia em seu tempo: só havia então o ceticismo pessoal e o relativismo da verdade. Ele pertencia a um povo religioso - o romano - que sacralizava o poder até a própria figura do Imperador. Tampouco os judeus eram liberais; eram, ao invés, governados por uma teocracia. Ali só Pilatos era um precursor, em caráter individual, da teoria que nega a verdade e o bem objetivos, com relação aos quais se deve julgar e governar. Como liberal subjetivo, para resolver a questão socorreu-se da única fonte que resta a quem só crê em verdade e ordem subjetivos: a opinião da multidão. Governar, em tal caso, é responder aos desejos da maioria, “ouvir o povo”, facilitar a paz e a convivência, dado que a sociedade nada mais é que convivência e ninguém pode se arvorar como dono da verdade, porque “que é a verdade?” Em conseqüência, lavou as mãos no assunto para não sublevar o povo: uma solução “democrática”. Além disso, César, como qualquer homem, não gostava de complicações e tampouco analisaria detidamente a justiça daquele processo remoto que só tinha uma vítima...
Caberia então pensar que, quando se diz no Credo que “padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos” (ao outorgar tal relevância a esse nome), está-se querendo dizer – vendo em Pilatos um símbolo - algo como “Cristo morreu sob o poder do liberalismo e da democracia” (Não como regime jurídico ou político válido, mas como disposição subjetiva na mente e no coração de um homem). Se apenas soubéssemos de Pilatos que autorizou a morte de Cristo por debilidade ou por medo, essa alusão única permaneceria misteriosa, mas essa pergunta prévia, “que é a verdade?”, à distância em que nos encontramos, é bastante reveladora.
Aquilo que, em conseqüência, pretende esconder a Igreja pós-conciliar nas atuais traduções, com essa absurda localização cronológica em Pôncio Pilatos, é a referência a seu poder, à índole de seu poder e ao liberalismo de seu coração. E a razão está em que o espírito que anima essa Igreja atual (apesar de atual) está sumamente próximo do espírito de Pilatos: compreende-o e acompanha-o cordialmente. Ela também crucificaria ou permitiria a crucifixão de quem afirmasse uma verdade ou o dever de pertencer a essa verdade e somente a ela.
Na aurora de nosso século, São Pio X - o único pontífice santo da modernidade - teve de enfrentar (e julgar) uma doutrina - e uma atitude - a que chamou de “modernismo”. Tratava-se, a rigor, do liberalismo dentro da própria Igreja.
O modernismo afirmava que o conjunto de verdades ou dogmas dos quais a Igreja se supõe depositária é, na realidade, patrimônio da humanidade inteira, e que a religião - que deve ser dinâmica e não, estática - se identifica com a razão humana e seu desenvolvimento, quer dizer, com o progresso da ciência. Todas as religiões - segundo essa teoria - possuem uma parcela de verdade, e sua evolução as aproxima em convergência até uma religião do futuro, totalmente racional e humana. As verdades absolutas ou dogmáticas não existem: a religião, como as demais manifestações culturais, deve responder à mentalidade e às necessidades do homem em cada época. O evolucionismo (vitalista ou dialético), o liberalismo, a democracia e até mesmo o socialismo não se opõem em absoluto ao cristianismo nem a essa futura religião planetária, mas devem ser considerados como criações cripto-cristãs, quer dizer, cristãs mesmo sem sabê-lo. Sua oposição ao cristianismo é - segundo o modernismo - fruto somente do enquistamento ou da imobilização dogmática da fé. Essa teoria, exposta e condenada por São Pio X em sua encíclica “Pascendi”, é a doutrina que hoje aparece disseminada em toda a Igreja pós-conciliar com o nome de progressismo ou “humanismo” cristão.
Como julgou o santo pontífice a essa doutrina? Simplesmente: como “movimento de apostasia geral” e como “germe e compêndio de todas as heresias”. E não se limitou a condená-la, mas estabeleceu para todas as ordenações, consagrações episcopais e tomadas de posse de cátedras eclesiásticas o prévio “juramento antimodernista” (suprimido sob o pontificado de João Paulo II) pelo qual os clérigos e bispos se comprometiam a lutar até o fim contra tais doutrinas: tal era a extrema periculosidade para a fé que nela reconhecia.
Os fatos se me parecem, desta forma, emparelhados em sua significação e simétricos: nas origens da Igreja, na redação em Nicéia do Símbolo da fé, destaca-se com menção especial e única a Pôncio Pilatos, que professava um liberalismo e um democratismo pessoais ou subjetivos (ao desconhecer a verdade e recorrer à multidão), acima daqueles que por traição ou malevolência procuravam a morte de Cristo. Passam os séculos, quase dois milênios: o liberalismo se converteu em teoria, primeiro política, depois religiosa, e passou da teoria à vigência como forma de governo. Em nosso século um Papa santo se destaca sobre todas as heresias e cismas, vê nessa teoria a fonte de todos os males para a fé, e trata de proteger a Igreja mediante um juramento insólito e solene que deveriam prestar todos os eclesiásticos e todas as hierarquias da Igreja.
A razão, no mais, é óbvia: se uma heresia nega uma ou várias verdades da fé, por exemplo, a Trindade ou a Virgindade de Maria, nem por isso deixa Deus de ser Uno e Trino, nem Maria, Virgem. Mas se uma heresia põe em dúvida - com a quebra de sua própria identidade - o Sacramento da Eucaristia e reduz a Missa a uma assembléia ou a um “memorial da Paixão”, pode conseguir que deixe de acontecer o fato da Transubstanciação sobre a terra. Ou seja, que se rompa definitivamente a ligação principal entre o Céu e os homens, o efeito vivo da Redenção.”
(Rafael Gambra, Bajo el Poder...)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Primeiro o conhecimento, depois o amor

“O conhecimento deve sempre preceder o exercício das afeições. Sentimos gratidão e amor, sentimos indignação e desgosto, quando temos informações verdadeiramente colocadas diante de nós, as quais nos despertam aquelas muitas emoções. Amamos nossos pais, quando sabemos que são nossos pais; devemos conhecer a Deus, antes que possamos sentir amor, temor, esperança ou confiança em relação a Ele... A fórmula que expressa um dogma para um teólogo prontamente sugere um objeto para o crente. Parece um truísmo dizê-lo, embora eu sempre o tenha dito, mas na religião a imaginação e as afeições devem sempre estar sob o controle da razão. A teologia pode se manter como uma ciência substantiva, embora sem a vida da religião; mas a religião não se mantém de jeito nenhum sem a teologia.”
(Cardeal John Newman, An Essay in Aid of A Grammar of Assent)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Efeitos da democracia sobre as famílias

“Não é preciso dizer que a família sofreu cruelmente nas mãos da democracia. Depois que todos os homens foram declarados iguais, a família deixou de existir juridicamente como a unidade política básica de governo e foi substituída pelo indivíduo, o que pulverizou a sociedade como um todo ao privá-la de seu princípio natural de coesão. Hoje uma família extensa de parentes e serviçais é uma raridade. A democracia desferiu um golpe particularmente certeiro na família ao igualar os sexos como indivíduos, sem levar em conta sua complementaridade natural como “uma só carne” diante da lei, onde um sexo funcionava como a cabeça da família e o outro como seu coração. O casamento se tornou uma parceria entre iguais, e os homens passaram a usar alianças de casamento, como suas esposas.
Em virtude do sufrágio universal, das classes mistas, do feminismo e do unissexismo, os sexos que Deus projetou para cooperação íntima foram não apenas configurados para operar independentemente um do outro, mas transformados em rivais amargos tanto no mundo em geral quanto no lar, onde sob a lei civil as esposas não estão mais sujeitas à autoridade de seus maridos. Em nome da liberdade individual, o divórcio e a contracepção rapidamente foram aceitos como componentes normais da vida conjugal, e sob o pretexto da defesa dos “direitos das crianças”, os pais já podem até perder o que restava da autoridade dada por Deus que tinham sobre sua descendência. Hoje em dia um pai não tem poder para evitar o aborto de seu filho ainda não nascido caso sua esposa decida matá-lo.
Os católicos há muito tempo deixaram de considerar a família uma unidade política, mas até sua estrutura sacramental foi afetada depois que o Concílio e a encíclica de Paulo VI Humanae vitae igualaram as duas finalidades do casamento – a unitiva e a procriativa – colocando o amor conjugal mútuo no mesmo nível da geração de filhos, que até então havia sido seu principal propósito. Isso não apenas abriu caminho ao “divórcio Católico” sob o disfarce de anulações facilmente concedidas por motivos psicológicos, mas levou a uma verdadeira promoção do controle de natalidade disfarçado daquele velho método de prevenção de nascimentos maniqueu-malthusiano hoje vendido como “planejamento familiar natural”. Até então considerado lícito apenas em casos excepcionais, esse método pecaminoso e psicologicamente nocivo, já denunciado por Santo Agostinho, hoje é obrigatório nas instruções pré-nupciais da maioria das dioceses, a fim de que, nas palavras da Humanae vitae, os casais que não desejem filhos por quaisquer motivos sérios possam ser capazes de “manifestar sua afeição e garantir sua fidelidade mútua” durante os períodos inférteis da mulher.
Isso estava inteiramente de acordo com a restrição do Concílio de que “segundo o inalienável direito ao casamento e à procriação da prole, a decisão acerca do número de filhos depende do reto juízo dos pais,” que “devem ser judiciosamente informados acerca dos progressos científicos alcançados na investigação dos métodos que ajudam os esposos na determinação do número de filhos.” Assim, a ciência moderna e a democracia trabalham em conjunto, e permanecendo proibido apenas o controle de natalidade “artificial”, o prazer sem descendência foi introduzido no próprio seio da família Católica, uma abominação a favor da qual não pode ser citado nenhum santo, nenhum doutor da Igreja ou qualquer outra autoridade canonizada anteriormente a Pio XII.
No mundo secular até mesmo a básica estrutura trinitária da família está dando lugar à democracia, pois a família está sendo redefinida como qualquer grupo de indivíduos, de qualquer orientação sexual, que escolham viver juntos sob o mesmo teto. Já se permite que homossexuais ativos adotem crianças ou as produzam sozinhos, com o auxílio do laboratório, fora da relação heterossexual normal. Não é preciso dizer que o casamento há muito deixou de constituir uma união sacramental dentro do Corpo Místico que se contrai primeiramente entre famílias. De acordo com os princípios democráticos, o casamento tornou-se simplesmente um negócio privado entre dois indivíduos agindo inteiramente sozinhos e servindo a seus próprios fins e preferências pessoais. Com bastante freqüência as famílias assim unidas são completamente estranhas umas às outras, encontrando-se pela primeira vez, se é que se encontram, somente depois do casamento.”
(Solange Strong Hertz, The Sixth Trumpet)