"A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei.
Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor.
E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé.
A noite é passada, e o dia é chegado. Rejeitemos, pois, as obras das trevas, e vistamo-nos das armas da luz.
Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja.
Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências."
(Romanos 13, 8-14)
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sexta-feira, 1 de março de 2019
sábado, 26 de janeiro de 2013
A lei mosaica está morta e revogada
“Da mesma forma, nós professamos que as legalidades do Velho Testamento, as cerimônias da Lei Mosaica, os rituais, sacrifícios e sacramentos cessaram com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo; eles não podem ser observados sem pecado após a promulgação do Evangelho. A distinção entre alimentos limpos e imundos na velha Lei pertence às cerimônias que pereceram com o nascimento do Evangelho. A proibição dos Apóstolos com relação a alimentos oferecidos aos ídolos, sangue e carne de animais estrangulados, era apropriada na época para afastar uma causa de desentendimento entre Judeus e Gentios; mas como a razão de tal proibição deixou de existir, a própria proibição também chegou ao fim.”
(Bento XIV, Ex Quo)
(Bento XIV, Ex Quo)
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segunda-feira, 9 de maio de 2011
Pôncio Pilatos
“Sempre dizemos ao recitar o Credo, ou Símbolo da Fé, que Nosso Senhor Jesus Cristo padeceu “sob o poder de Pôncio Pilatos” (sub Pontio Pilato). Não deixa de ser surpreendente que se mencione em tão elevada ocasião a um mero governador romano de província que não procurou nem desejou a morte de Jesus – que tratou até mesmo de evitá-la - , e não a Herodes ou a Caifás ou aos Príncipes dos Sacerdotes que a promoveram e conseguiram, ou a Judas que o entregou, ou, em outro caso, ao Imperador de Roma de quem Pilatos era um simples delegado.
A atual tradução em castelhano, realizada pela Igreja pós-conciliar, substitui a expressão “sob o poder de” para “nos tempos de”. A inépcia é tamanha que não poderia ter sido um simples “aggiornamento” da língua. Em todo o mundo, ninguém conservaria a memória de Pôncio Pilatos se ele não tivesse intervindo no processo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um biógrafo de Pilatos poderia ter dito que viveu nos tempos de Cristo, mas que Cristo morreu nos tempos de Pilatos carece por completo de sentido e possui um certo caráter grotesco. Seria como dizer de Napoleão que morreu nos tempos de Fouché. Até mesmo dizer que morreu nos tempos do Imperador Tibério soaria estranho, porque a situação histórica de Cristo é incomparavelmente mais relevante que a cronologia dos imperadores romanos. Mas colocar a referência logo em Pôncio Pilatos?
É evidente que essa alusão a Pilatos jamais foi considerada como uma referência temporal e não seria hoje que se lhe outorgaria um tal caráter, passados dois mil anos daqueles fatos. Trata-se, ao invés, de substituir outra coisa por essa localização histórica. E de fazer essa substituição por algum motivo. Que coisa e que motivo? Eis aqui a questão.
Antes de mais nada, por que se menciona a Pôncio Pilatos no Credo e não àqueles outros personagens mais diretamente interessados na morte de Cristo? Por que foi condenado a ser mencionado na morte de Cristo durante séculos e séculos um homem que unicamente se mostrou débil e atemorizado, que procurou, até certo ponto, evitar o desenlace?
Há uma primeira resposta, que talvez pudesse ser suficiente: porque em Pilatos estava o poder - e o livre arbítrio - de decidir a morte e suplício de Cristo. Os judeus não teriam esse poder se Pilatos não lhes tivesse concedido. O César estava muito longe e não se inteirava sequer do que acontecia e do que em seu nome se decidia em Jerusalém.
Essa explicação significaria a responsabilidade pessoal que cabe a cada homem em suas grandes decisões e a responsabilidade muito especial do governante que não exerce uma simples função moderadora e dialogante, mas um ministério sagrado de justiça. Pilatos não queria a morte de Cristo, mas era o único que poderia evitá-la, e não a evitou; pelo contrário, sancionou-a com sua inibição e sua vênia. Essa estranha menção àquele obscuro governador de província seria como uma proclamação, no Símbolo de nossa fé, da realidade do livre arbítrio humano, da responsabilidade pessoal e do sagrado ministério do governante ou do juiz.
Contudo, caberia ainda uma outra interpretação (entre tantas mais, dado que a Palavra inspirada é insondável):
Que sabemos nós de Pôncio Pilatos? Segundo o Evangelho de São João, quando Cristo se declara testemunha da verdade diante dele e afirma que os que são da verdade escutam sua voz, Pilatos pergunta: “que é a verdade?” (quid est veritas?) Não pergunta “que verdade é essa?” ou “de qual verdade falas?”, mas “que é a verdade?” Ao que Cristo não respondeu.
Pilatos, como tantos romanos decadentes e céticos, não acreditava na verdade nem servia a nenhuma verdade. Cria na verdade de cada um, na verdade relativa do homem, de cada homem, verdade subjetiva, em evolução. Se tivesse falado a linguagem de hoje, teria contestado: “A verdade! Então és um radical? Talvez queiras dizer tua verdade, tua opinião, não mais valiosa que qualquer outra opinião.”
Pilatos não professava o liberalismo como doutrina pública porque tal teoria não existia em seu tempo: só havia então o ceticismo pessoal e o relativismo da verdade. Ele pertencia a um povo religioso - o romano - que sacralizava o poder até a própria figura do Imperador. Tampouco os judeus eram liberais; eram, ao invés, governados por uma teocracia. Ali só Pilatos era um precursor, em caráter individual, da teoria que nega a verdade e o bem objetivos, com relação aos quais se deve julgar e governar. Como liberal subjetivo, para resolver a questão socorreu-se da única fonte que resta a quem só crê em verdade e ordem subjetivos: a opinião da multidão. Governar, em tal caso, é responder aos desejos da maioria, “ouvir o povo”, facilitar a paz e a convivência, dado que a sociedade nada mais é que convivência e ninguém pode se arvorar como dono da verdade, porque “que é a verdade?” Em conseqüência, lavou as mãos no assunto para não sublevar o povo: uma solução “democrática”. Além disso, César, como qualquer homem, não gostava de complicações e tampouco analisaria detidamente a justiça daquele processo remoto que só tinha uma vítima...
Caberia então pensar que, quando se diz no Credo que “padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos” (ao outorgar tal relevância a esse nome), está-se querendo dizer – vendo em Pilatos um símbolo - algo como “Cristo morreu sob o poder do liberalismo e da democracia” (Não como regime jurídico ou político válido, mas como disposição subjetiva na mente e no coração de um homem). Se apenas soubéssemos de Pilatos que autorizou a morte de Cristo por debilidade ou por medo, essa alusão única permaneceria misteriosa, mas essa pergunta prévia, “que é a verdade?”, à distância em que nos encontramos, é bastante reveladora.
Aquilo que, em conseqüência, pretende esconder a Igreja pós-conciliar nas atuais traduções, com essa absurda localização cronológica em Pôncio Pilatos, é a referência a seu poder, à índole de seu poder e ao liberalismo de seu coração. E a razão está em que o espírito que anima essa Igreja atual (apesar de atual) está sumamente próximo do espírito de Pilatos: compreende-o e acompanha-o cordialmente. Ela também crucificaria ou permitiria a crucifixão de quem afirmasse uma verdade ou o dever de pertencer a essa verdade e somente a ela.
Na aurora de nosso século, São Pio X - o único pontífice santo da modernidade - teve de enfrentar (e julgar) uma doutrina - e uma atitude - a que chamou de “modernismo”. Tratava-se, a rigor, do liberalismo dentro da própria Igreja.
O modernismo afirmava que o conjunto de verdades ou dogmas dos quais a Igreja se supõe depositária é, na realidade, patrimônio da humanidade inteira, e que a religião - que deve ser dinâmica e não, estática - se identifica com a razão humana e seu desenvolvimento, quer dizer, com o progresso da ciência. Todas as religiões - segundo essa teoria - possuem uma parcela de verdade, e sua evolução as aproxima em convergência até uma religião do futuro, totalmente racional e humana. As verdades absolutas ou dogmáticas não existem: a religião, como as demais manifestações culturais, deve responder à mentalidade e às necessidades do homem em cada época. O evolucionismo (vitalista ou dialético), o liberalismo, a democracia e até mesmo o socialismo não se opõem em absoluto ao cristianismo nem a essa futura religião planetária, mas devem ser considerados como criações cripto-cristãs, quer dizer, cristãs mesmo sem sabê-lo. Sua oposição ao cristianismo é - segundo o modernismo - fruto somente do enquistamento ou da imobilização dogmática da fé. Essa teoria, exposta e condenada por São Pio X em sua encíclica “Pascendi”, é a doutrina que hoje aparece disseminada em toda a Igreja pós-conciliar com o nome de progressismo ou “humanismo” cristão.
Como julgou o santo pontífice a essa doutrina? Simplesmente: como “movimento de apostasia geral” e como “germe e compêndio de todas as heresias”. E não se limitou a condená-la, mas estabeleceu para todas as ordenações, consagrações episcopais e tomadas de posse de cátedras eclesiásticas o prévio “juramento antimodernista” (suprimido sob o pontificado de João Paulo II) pelo qual os clérigos e bispos se comprometiam a lutar até o fim contra tais doutrinas: tal era a extrema periculosidade para a fé que nela reconhecia.
Os fatos se me parecem, desta forma, emparelhados em sua significação e simétricos: nas origens da Igreja, na redação em Nicéia do Símbolo da fé, destaca-se com menção especial e única a Pôncio Pilatos, que professava um liberalismo e um democratismo pessoais ou subjetivos (ao desconhecer a verdade e recorrer à multidão), acima daqueles que por traição ou malevolência procuravam a morte de Cristo. Passam os séculos, quase dois milênios: o liberalismo se converteu em teoria, primeiro política, depois religiosa, e passou da teoria à vigência como forma de governo. Em nosso século um Papa santo se destaca sobre todas as heresias e cismas, vê nessa teoria a fonte de todos os males para a fé, e trata de proteger a Igreja mediante um juramento insólito e solene que deveriam prestar todos os eclesiásticos e todas as hierarquias da Igreja.
A razão, no mais, é óbvia: se uma heresia nega uma ou várias verdades da fé, por exemplo, a Trindade ou a Virgindade de Maria, nem por isso deixa Deus de ser Uno e Trino, nem Maria, Virgem. Mas se uma heresia põe em dúvida - com a quebra de sua própria identidade - o Sacramento da Eucaristia e reduz a Missa a uma assembléia ou a um “memorial da Paixão”, pode conseguir que deixe de acontecer o fato da Transubstanciação sobre a terra. Ou seja, que se rompa definitivamente a ligação principal entre o Céu e os homens, o efeito vivo da Redenção.”
(Rafael Gambra, Bajo el Poder...)
A atual tradução em castelhano, realizada pela Igreja pós-conciliar, substitui a expressão “sob o poder de” para “nos tempos de”. A inépcia é tamanha que não poderia ter sido um simples “aggiornamento” da língua. Em todo o mundo, ninguém conservaria a memória de Pôncio Pilatos se ele não tivesse intervindo no processo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um biógrafo de Pilatos poderia ter dito que viveu nos tempos de Cristo, mas que Cristo morreu nos tempos de Pilatos carece por completo de sentido e possui um certo caráter grotesco. Seria como dizer de Napoleão que morreu nos tempos de Fouché. Até mesmo dizer que morreu nos tempos do Imperador Tibério soaria estranho, porque a situação histórica de Cristo é incomparavelmente mais relevante que a cronologia dos imperadores romanos. Mas colocar a referência logo em Pôncio Pilatos?
É evidente que essa alusão a Pilatos jamais foi considerada como uma referência temporal e não seria hoje que se lhe outorgaria um tal caráter, passados dois mil anos daqueles fatos. Trata-se, ao invés, de substituir outra coisa por essa localização histórica. E de fazer essa substituição por algum motivo. Que coisa e que motivo? Eis aqui a questão.
Antes de mais nada, por que se menciona a Pôncio Pilatos no Credo e não àqueles outros personagens mais diretamente interessados na morte de Cristo? Por que foi condenado a ser mencionado na morte de Cristo durante séculos e séculos um homem que unicamente se mostrou débil e atemorizado, que procurou, até certo ponto, evitar o desenlace?
Há uma primeira resposta, que talvez pudesse ser suficiente: porque em Pilatos estava o poder - e o livre arbítrio - de decidir a morte e suplício de Cristo. Os judeus não teriam esse poder se Pilatos não lhes tivesse concedido. O César estava muito longe e não se inteirava sequer do que acontecia e do que em seu nome se decidia em Jerusalém.
Essa explicação significaria a responsabilidade pessoal que cabe a cada homem em suas grandes decisões e a responsabilidade muito especial do governante que não exerce uma simples função moderadora e dialogante, mas um ministério sagrado de justiça. Pilatos não queria a morte de Cristo, mas era o único que poderia evitá-la, e não a evitou; pelo contrário, sancionou-a com sua inibição e sua vênia. Essa estranha menção àquele obscuro governador de província seria como uma proclamação, no Símbolo de nossa fé, da realidade do livre arbítrio humano, da responsabilidade pessoal e do sagrado ministério do governante ou do juiz.
Contudo, caberia ainda uma outra interpretação (entre tantas mais, dado que a Palavra inspirada é insondável):
Que sabemos nós de Pôncio Pilatos? Segundo o Evangelho de São João, quando Cristo se declara testemunha da verdade diante dele e afirma que os que são da verdade escutam sua voz, Pilatos pergunta: “que é a verdade?” (quid est veritas?) Não pergunta “que verdade é essa?” ou “de qual verdade falas?”, mas “que é a verdade?” Ao que Cristo não respondeu.
Pilatos, como tantos romanos decadentes e céticos, não acreditava na verdade nem servia a nenhuma verdade. Cria na verdade de cada um, na verdade relativa do homem, de cada homem, verdade subjetiva, em evolução. Se tivesse falado a linguagem de hoje, teria contestado: “A verdade! Então és um radical? Talvez queiras dizer tua verdade, tua opinião, não mais valiosa que qualquer outra opinião.”
Pilatos não professava o liberalismo como doutrina pública porque tal teoria não existia em seu tempo: só havia então o ceticismo pessoal e o relativismo da verdade. Ele pertencia a um povo religioso - o romano - que sacralizava o poder até a própria figura do Imperador. Tampouco os judeus eram liberais; eram, ao invés, governados por uma teocracia. Ali só Pilatos era um precursor, em caráter individual, da teoria que nega a verdade e o bem objetivos, com relação aos quais se deve julgar e governar. Como liberal subjetivo, para resolver a questão socorreu-se da única fonte que resta a quem só crê em verdade e ordem subjetivos: a opinião da multidão. Governar, em tal caso, é responder aos desejos da maioria, “ouvir o povo”, facilitar a paz e a convivência, dado que a sociedade nada mais é que convivência e ninguém pode se arvorar como dono da verdade, porque “que é a verdade?” Em conseqüência, lavou as mãos no assunto para não sublevar o povo: uma solução “democrática”. Além disso, César, como qualquer homem, não gostava de complicações e tampouco analisaria detidamente a justiça daquele processo remoto que só tinha uma vítima...
Caberia então pensar que, quando se diz no Credo que “padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos” (ao outorgar tal relevância a esse nome), está-se querendo dizer – vendo em Pilatos um símbolo - algo como “Cristo morreu sob o poder do liberalismo e da democracia” (Não como regime jurídico ou político válido, mas como disposição subjetiva na mente e no coração de um homem). Se apenas soubéssemos de Pilatos que autorizou a morte de Cristo por debilidade ou por medo, essa alusão única permaneceria misteriosa, mas essa pergunta prévia, “que é a verdade?”, à distância em que nos encontramos, é bastante reveladora.
Aquilo que, em conseqüência, pretende esconder a Igreja pós-conciliar nas atuais traduções, com essa absurda localização cronológica em Pôncio Pilatos, é a referência a seu poder, à índole de seu poder e ao liberalismo de seu coração. E a razão está em que o espírito que anima essa Igreja atual (apesar de atual) está sumamente próximo do espírito de Pilatos: compreende-o e acompanha-o cordialmente. Ela também crucificaria ou permitiria a crucifixão de quem afirmasse uma verdade ou o dever de pertencer a essa verdade e somente a ela.
Na aurora de nosso século, São Pio X - o único pontífice santo da modernidade - teve de enfrentar (e julgar) uma doutrina - e uma atitude - a que chamou de “modernismo”. Tratava-se, a rigor, do liberalismo dentro da própria Igreja.
O modernismo afirmava que o conjunto de verdades ou dogmas dos quais a Igreja se supõe depositária é, na realidade, patrimônio da humanidade inteira, e que a religião - que deve ser dinâmica e não, estática - se identifica com a razão humana e seu desenvolvimento, quer dizer, com o progresso da ciência. Todas as religiões - segundo essa teoria - possuem uma parcela de verdade, e sua evolução as aproxima em convergência até uma religião do futuro, totalmente racional e humana. As verdades absolutas ou dogmáticas não existem: a religião, como as demais manifestações culturais, deve responder à mentalidade e às necessidades do homem em cada época. O evolucionismo (vitalista ou dialético), o liberalismo, a democracia e até mesmo o socialismo não se opõem em absoluto ao cristianismo nem a essa futura religião planetária, mas devem ser considerados como criações cripto-cristãs, quer dizer, cristãs mesmo sem sabê-lo. Sua oposição ao cristianismo é - segundo o modernismo - fruto somente do enquistamento ou da imobilização dogmática da fé. Essa teoria, exposta e condenada por São Pio X em sua encíclica “Pascendi”, é a doutrina que hoje aparece disseminada em toda a Igreja pós-conciliar com o nome de progressismo ou “humanismo” cristão.
Como julgou o santo pontífice a essa doutrina? Simplesmente: como “movimento de apostasia geral” e como “germe e compêndio de todas as heresias”. E não se limitou a condená-la, mas estabeleceu para todas as ordenações, consagrações episcopais e tomadas de posse de cátedras eclesiásticas o prévio “juramento antimodernista” (suprimido sob o pontificado de João Paulo II) pelo qual os clérigos e bispos se comprometiam a lutar até o fim contra tais doutrinas: tal era a extrema periculosidade para a fé que nela reconhecia.
Os fatos se me parecem, desta forma, emparelhados em sua significação e simétricos: nas origens da Igreja, na redação em Nicéia do Símbolo da fé, destaca-se com menção especial e única a Pôncio Pilatos, que professava um liberalismo e um democratismo pessoais ou subjetivos (ao desconhecer a verdade e recorrer à multidão), acima daqueles que por traição ou malevolência procuravam a morte de Cristo. Passam os séculos, quase dois milênios: o liberalismo se converteu em teoria, primeiro política, depois religiosa, e passou da teoria à vigência como forma de governo. Em nosso século um Papa santo se destaca sobre todas as heresias e cismas, vê nessa teoria a fonte de todos os males para a fé, e trata de proteger a Igreja mediante um juramento insólito e solene que deveriam prestar todos os eclesiásticos e todas as hierarquias da Igreja.
A razão, no mais, é óbvia: se uma heresia nega uma ou várias verdades da fé, por exemplo, a Trindade ou a Virgindade de Maria, nem por isso deixa Deus de ser Uno e Trino, nem Maria, Virgem. Mas se uma heresia põe em dúvida - com a quebra de sua própria identidade - o Sacramento da Eucaristia e reduz a Missa a uma assembléia ou a um “memorial da Paixão”, pode conseguir que deixe de acontecer o fato da Transubstanciação sobre a terra. Ou seja, que se rompa definitivamente a ligação principal entre o Céu e os homens, o efeito vivo da Redenção.”
(Rafael Gambra, Bajo el Poder...)
segunda-feira, 21 de março de 2011
A datação dos Evangelhos (II)
“O Evangelho segundo São Marcos
Com relação ao segundo Evangelho, “deve-se afirmar com certeza que Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, é realmente o autor do Evangelho que se lhe atribui”. Os testemunhos da Tradição a favor do Evangelho de São Marcos são especialmente abundantes e claros.
Assim, por exemplo, disse São Papias: “E isto dizia o Presbítero [João Apóstolo]: Marcos, intérprete de Pedro, escreveu diligentemente, embora não por ordem, aquilo de que se recordava sobre os ditos ou feitos de Cristo. Pois nem havia ouvido o Senhor, nem o havia seguido, mas havia acompanhado e ouvido Pedro, que pregava o Evangelho segundo a necessidade dos ouvintes e sem seguir uma ordem contínua dos oráculos do Senhor. Por isso Marcos não cometeu erro ao escrever seguindo suas recordações, pois não teve mais que um cuidado, o de não suprimir nem falsificar nada do que ouvira [de Pedro]”.
Também é muito explícito o testemunho de Clemente Alexandrino: “Como Pedro pregasse publicamente em Roma a palavra de Deus e promulgasse o Evangelho com a assistência do Espírito Santo, os ali presentes pediram a Marcos, que fazia já tempo que seguia a Pedro e tinha na memória sua pregação, que escrevesse o que o Apóstolo havia pregado”.
E assim Marcos compôs um Evangelho e o entregou aos que o haviam pedido. Sabendo disso Pedro, nem proibiu que assim se fizesse, nem o incentivou a tal”.
Desse modo, São Marcos escreveu seu Evangelho em Roma, a pedido dos fiéis dessa cidade, e ao escrevê-lo não fez mais que transcrever o Evangelho que Pedro pregava. Esse vínculo entre São Pedro e São Marcos é importantíssimo. De fato, a Tradição nos ensina que São Pedro estabeleceu sua sede em Roma no ano 42, isto é, no mesmo ano da dispersão dos Apóstolos. São Marcos deveu acompanhá-lo a Roma como seu intérprete. Depois de alguns anos seguindo o Príncipe dos Apóstolos, ou seja, até os anos 45-48, os fiéis de Roma lhe pediram que pusesse por escrito a pregação de São Pedro. Essa data se deduz igualmente de outras duas razões:
- A primeira, mais geral, é que, “segundo o antiquíssimo e constante testemunho da Tradição, Marcos escreveu o segundo Evangelho, depois de Mateus e antes de Lucas, que foi o terceiro”; razão pela qual São Marcos não pôde escrever seu Evangelho antes do ano 40, data da redação do Evangelho de São Mateus (e tampouco antes de 42, ano da chegada de Marcos a Roma), nem tampouco depois do ano 62, ano em que Lucas escreve o seu.
- A segunda, mais exata, é que o descobrimento na gruta 7 de Qumran do manuscrito 5 (7Q5) nos obriga a situar a redação do Evangelho de São Marcos alguns anos antes do ano 50. De fato, esse manuscrito reproduz uma passagem de São Marcos (6, 52-53: “[Já que não] haviam compreendido o milagre dos pães e seu coração se achava endurecido. Depois de atravessar o lago [até a terra] chegaram a Genesaré e atracaram ali. E quando...”). Os especialistas, enquanto esperavam sua identificação, dataram-no imparcialmente como anterior ao ano 50. Entretanto, se no ano 50 já existia esse texto, o original do qual é cópia deve ser-lhe anterior, mas não tanto que não se combine com a afirmação da Tradição segundo a qual São Marcos redigiu seu Evangelho alguns anos após seguir o Príncipe dos Apóstolos. E assim, os anos 45-48 são a data quase obrigatória de sua redação.
O Evangelho segundo São Lucas
No que se refere ao terceiro Evangelho, toda a Tradição da Igreja, unanimemente, afirma não apenas que São Lucas é seu autor, mas também que escreveu seu Evangelho segundo a pregação de São Paulo, embora informando-se igualmente com os demais Apóstolos, como ele mesmo declara no prólogo a seu Evangelho.
Santo Irineu ensina que “Lucas, seguidor de Paulo, escreveu em um livro o Evangelho que este pregava”.
Eusébio disse: “Lucas, oriundo de Antioquia por sua linhagem e médico de profissão, havendo vivido bastante tempo como companheiro íntimo de Paulo, e tratado com os demais Apóstolos..., nos deixou dois livros inspirados. O primeiro deles é o Evangelho, que compôs, como ele mesmo declara, segundo o que lhe haviam transmitido os que desde o princípio foram testemunhas oculares de Cristo e ministros da palavra divina, a todos os quais já seguia, disse ele, desde o início. O segundo é o dos Atos dos Apóstolos, que compôs, já não com o que havia ouvido, mas com o visto por seus próprios olhos”.
Sobre sua data de redação, a Pontifícia Comissão Bíblica ensina que “não é lícito diferir o tempo da composição do Evangelho de Lucas até a destruição da cidade de Jerusalém, nem tampouco se pode afirmar, pelo fato de a profecia do Senhor acerca da destruição de Jerusalém parecer mais determinada em Lucas, que seu Evangelho foi escrito quando já se havia iniciado o cerco da cidade”. Os que assim diferiam a redação do terceiro Evangelho (como a dos anteriores) são os racionalistas (e modernistas), para quem o dito vaticínio só pode explicar-se depois de haver sucedido o acontecimento, ou quando já é possível prevê-lo. Pelo contrário, continua a Pontifícia Comissão Bíblica, “deve-se afirmar que o Evangelho de Lucas precedeu o livro dos Atos dos Apóstolos e que, como esse livro, que tem o mesmo Lucas por autor [At 1, 15], já estava escrito ao fim do cativeiro romano do Apóstolo, seu Evangelho não foi composto depois dessa época”.
Podemos situar com segurança a composição do Evangelho de São Lucas até o ano 60-61. De fato:
- São Lucas terminou seu segundo livro, os Atos, no final do primeiro cativeiro de São Paulo (ano 62), antes que o Apóstolo fosse solto; portanto o Evangelho já estava escrito nessa data;
- O Evangelho não foi redigido muito antes dos Atos, como se deduz, por um lado, de que São Lucas considera esse segundo livro como a segunda parte de seu Evangelho (At 1, 1) e por outro, de que a fisionomia paulina do terceiro Evangelho supõe que seu autor havia vivido durante certo tempo junto ao Apóstolo dos Gentios; no entanto, São Lucas não freqüentou assiduamente São Paulo senão a partir de sua terceira viagem apostólica (53-58).
O Evangelho segundo São João
No que se refere ao quarto Evangelho, não apresentam os críticos as mesmas objeções que para os três Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), pelo fato de que foi redigido certamente muito depois da destruição de Jerusalém, e a Tradição mesma indica com exatidão uma data de redação posterior a esse acontecimento. De fato, por um lado não pode ser posterior ao ano 98, ano da morte de São João; mas por outro, os Prólogos Monarquianos (texto do século III ou IV) atribuem prioridade de data e composição ao Apocalipse, que foi redigido em Patmos até o final do reinado de Domiciano (81-96), e, mais exatamente, segundo Eusébio, no ano 14 de Domiciano, ou seja, no ano 95.
Assim, o Evangelho segundo São João terá sido escrito após o retorno de São João de Patmos, algum tempo depois do ano 96.
Apesar de ser um Evangelho de datação tardia, os racionalistas e os modernistas não ficaram satisfeitos e procuraram impugnar sua historicidade e autenticidade (ou atribuição ao Apóstolo São João). Apresentam como argumentos a fisionomia distinta desse Evangelho em relação aos demais, apresentando-o como uma série de elevações ou meditações de um certo personagem chamado “João, o presbítero” (o qual não se deveria identificar com o Apóstolo São João), o qual as teria posto nos lábios de Jesus (como fez o monge que escreveu a Imitação de Cristo) e que assim lhe faltaria qualquer historicidade.
Com tal impugnação vemos claramente que o que se pretende ao postergar a datação dos demais Evangelhos é pôr em dúvida sua historicidade; e para que essa historicidade tenha menos respaldo, negar também que tais Evangelhos tenham por autores testemunhas oculares. No entanto, também para o Evangelho de São João o Magistério da Igreja interceptou essas teses. E assim, por meio da Pontifícia Comissão Bíblica, manda-nos sustentar, com argumentos à mão:
1º) Que o quarto Evangelho é “a obra pessoal do Apóstolo São João, e de ninguém mais”, como se prova “pela constante, universal e solene tradição da Igreja, que vem já do século II, como principalmente se deduz: dos testemunhos e alusões dos Santos Padres e escritores eclesiásticos; de sempre e em todo lugar ter-se aceitado o nome do autor do quarto Evangelho no cânone dos Livros Sagrados; dos mais antigos manuscritos, códices e versões em outros idiomas dos mesmos Livros; do público uso litúrgico que desde os começos da Igreja se estendeu a todo o orbe...; de modo que as razões dos críticos aduzidas em contrário não debilitam de modo algum essa tradição”.
2º) Que São João redigiu seu Evangelho como uma obra propriamente histórica, e não como uma “contemplação mística do Evangelho”; pois “pela prática que esteve constantemente em vigor desde os primeiros tempos da Igreja universal de defender o quarto Evangelho como documento propriamente histórico, deve-se afirmar, ao se observar a índole peculiar do mesmo Evangelho e a intenção manifesta do autor de ilustrar e defender a divindade de Cristo pelos próprios feitos e discursos do Senhor, que os fatos narrados no quarto Evangelho são própria e verdadeiramente históricos, e não alegorias ou símbolos doutrinais parcialmente inventados; e que os discursos do Senhor são própria e verdadeiramente discursos do Senhor mesmo, e não composições teológicas do escritor postas na boca do Senhor”.
Conclusão
Pelo já dito, resta bastante claro que a Igreja mantém com toda sua força a verdade da Tradição sobre as origens dos Evangelhos, e que com unhas e dentes, e contra todos os obstáculos, defende sua autenticidade apostólica, sua plena historicidade em fatos e discursos, sua datação antiga, sem a qual não poderiam ser a obra de testemunhas oculares (duas das quais testemunhas diretas, por serem apóstolos, e as outras duas testemunhas indiretas, por serem secretários dos apóstolos).
Por isso mesmo, todo intento de negar qualquer desses três pontos se encontrará sempre contra um ensinamento claro do Magistério e contra uma Tradição deveras constante e perfeitamente consignada da antiguidade, contra os quais de nada valem os argumentos de uma exegese racionalista e descrente, nascida fora da Igreja, e que por isso não merece dos católicos mais do que um firme repúdio e desprezo.”
(Pe. Jesus Mestre, La Datación de los Evangelios)
Com relação ao segundo Evangelho, “deve-se afirmar com certeza que Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, é realmente o autor do Evangelho que se lhe atribui”. Os testemunhos da Tradição a favor do Evangelho de São Marcos são especialmente abundantes e claros.
Assim, por exemplo, disse São Papias: “E isto dizia o Presbítero [João Apóstolo]: Marcos, intérprete de Pedro, escreveu diligentemente, embora não por ordem, aquilo de que se recordava sobre os ditos ou feitos de Cristo. Pois nem havia ouvido o Senhor, nem o havia seguido, mas havia acompanhado e ouvido Pedro, que pregava o Evangelho segundo a necessidade dos ouvintes e sem seguir uma ordem contínua dos oráculos do Senhor. Por isso Marcos não cometeu erro ao escrever seguindo suas recordações, pois não teve mais que um cuidado, o de não suprimir nem falsificar nada do que ouvira [de Pedro]”.
Também é muito explícito o testemunho de Clemente Alexandrino: “Como Pedro pregasse publicamente em Roma a palavra de Deus e promulgasse o Evangelho com a assistência do Espírito Santo, os ali presentes pediram a Marcos, que fazia já tempo que seguia a Pedro e tinha na memória sua pregação, que escrevesse o que o Apóstolo havia pregado”.
E assim Marcos compôs um Evangelho e o entregou aos que o haviam pedido. Sabendo disso Pedro, nem proibiu que assim se fizesse, nem o incentivou a tal”.
Desse modo, São Marcos escreveu seu Evangelho em Roma, a pedido dos fiéis dessa cidade, e ao escrevê-lo não fez mais que transcrever o Evangelho que Pedro pregava. Esse vínculo entre São Pedro e São Marcos é importantíssimo. De fato, a Tradição nos ensina que São Pedro estabeleceu sua sede em Roma no ano 42, isto é, no mesmo ano da dispersão dos Apóstolos. São Marcos deveu acompanhá-lo a Roma como seu intérprete. Depois de alguns anos seguindo o Príncipe dos Apóstolos, ou seja, até os anos 45-48, os fiéis de Roma lhe pediram que pusesse por escrito a pregação de São Pedro. Essa data se deduz igualmente de outras duas razões:
- A primeira, mais geral, é que, “segundo o antiquíssimo e constante testemunho da Tradição, Marcos escreveu o segundo Evangelho, depois de Mateus e antes de Lucas, que foi o terceiro”; razão pela qual São Marcos não pôde escrever seu Evangelho antes do ano 40, data da redação do Evangelho de São Mateus (e tampouco antes de 42, ano da chegada de Marcos a Roma), nem tampouco depois do ano 62, ano em que Lucas escreve o seu.
- A segunda, mais exata, é que o descobrimento na gruta 7 de Qumran do manuscrito 5 (7Q5) nos obriga a situar a redação do Evangelho de São Marcos alguns anos antes do ano 50. De fato, esse manuscrito reproduz uma passagem de São Marcos (6, 52-53: “[Já que não] haviam compreendido o milagre dos pães e seu coração se achava endurecido. Depois de atravessar o lago [até a terra] chegaram a Genesaré e atracaram ali. E quando...”). Os especialistas, enquanto esperavam sua identificação, dataram-no imparcialmente como anterior ao ano 50. Entretanto, se no ano 50 já existia esse texto, o original do qual é cópia deve ser-lhe anterior, mas não tanto que não se combine com a afirmação da Tradição segundo a qual São Marcos redigiu seu Evangelho alguns anos após seguir o Príncipe dos Apóstolos. E assim, os anos 45-48 são a data quase obrigatória de sua redação.
O Evangelho segundo São Lucas
No que se refere ao terceiro Evangelho, toda a Tradição da Igreja, unanimemente, afirma não apenas que São Lucas é seu autor, mas também que escreveu seu Evangelho segundo a pregação de São Paulo, embora informando-se igualmente com os demais Apóstolos, como ele mesmo declara no prólogo a seu Evangelho.
Santo Irineu ensina que “Lucas, seguidor de Paulo, escreveu em um livro o Evangelho que este pregava”.
Eusébio disse: “Lucas, oriundo de Antioquia por sua linhagem e médico de profissão, havendo vivido bastante tempo como companheiro íntimo de Paulo, e tratado com os demais Apóstolos..., nos deixou dois livros inspirados. O primeiro deles é o Evangelho, que compôs, como ele mesmo declara, segundo o que lhe haviam transmitido os que desde o princípio foram testemunhas oculares de Cristo e ministros da palavra divina, a todos os quais já seguia, disse ele, desde o início. O segundo é o dos Atos dos Apóstolos, que compôs, já não com o que havia ouvido, mas com o visto por seus próprios olhos”.
Sobre sua data de redação, a Pontifícia Comissão Bíblica ensina que “não é lícito diferir o tempo da composição do Evangelho de Lucas até a destruição da cidade de Jerusalém, nem tampouco se pode afirmar, pelo fato de a profecia do Senhor acerca da destruição de Jerusalém parecer mais determinada em Lucas, que seu Evangelho foi escrito quando já se havia iniciado o cerco da cidade”. Os que assim diferiam a redação do terceiro Evangelho (como a dos anteriores) são os racionalistas (e modernistas), para quem o dito vaticínio só pode explicar-se depois de haver sucedido o acontecimento, ou quando já é possível prevê-lo. Pelo contrário, continua a Pontifícia Comissão Bíblica, “deve-se afirmar que o Evangelho de Lucas precedeu o livro dos Atos dos Apóstolos e que, como esse livro, que tem o mesmo Lucas por autor [At 1, 15], já estava escrito ao fim do cativeiro romano do Apóstolo, seu Evangelho não foi composto depois dessa época”.
Podemos situar com segurança a composição do Evangelho de São Lucas até o ano 60-61. De fato:
- São Lucas terminou seu segundo livro, os Atos, no final do primeiro cativeiro de São Paulo (ano 62), antes que o Apóstolo fosse solto; portanto o Evangelho já estava escrito nessa data;
- O Evangelho não foi redigido muito antes dos Atos, como se deduz, por um lado, de que São Lucas considera esse segundo livro como a segunda parte de seu Evangelho (At 1, 1) e por outro, de que a fisionomia paulina do terceiro Evangelho supõe que seu autor havia vivido durante certo tempo junto ao Apóstolo dos Gentios; no entanto, São Lucas não freqüentou assiduamente São Paulo senão a partir de sua terceira viagem apostólica (53-58).
O Evangelho segundo São João
No que se refere ao quarto Evangelho, não apresentam os críticos as mesmas objeções que para os três Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), pelo fato de que foi redigido certamente muito depois da destruição de Jerusalém, e a Tradição mesma indica com exatidão uma data de redação posterior a esse acontecimento. De fato, por um lado não pode ser posterior ao ano 98, ano da morte de São João; mas por outro, os Prólogos Monarquianos (texto do século III ou IV) atribuem prioridade de data e composição ao Apocalipse, que foi redigido em Patmos até o final do reinado de Domiciano (81-96), e, mais exatamente, segundo Eusébio, no ano 14 de Domiciano, ou seja, no ano 95.
Assim, o Evangelho segundo São João terá sido escrito após o retorno de São João de Patmos, algum tempo depois do ano 96.
Apesar de ser um Evangelho de datação tardia, os racionalistas e os modernistas não ficaram satisfeitos e procuraram impugnar sua historicidade e autenticidade (ou atribuição ao Apóstolo São João). Apresentam como argumentos a fisionomia distinta desse Evangelho em relação aos demais, apresentando-o como uma série de elevações ou meditações de um certo personagem chamado “João, o presbítero” (o qual não se deveria identificar com o Apóstolo São João), o qual as teria posto nos lábios de Jesus (como fez o monge que escreveu a Imitação de Cristo) e que assim lhe faltaria qualquer historicidade.
Com tal impugnação vemos claramente que o que se pretende ao postergar a datação dos demais Evangelhos é pôr em dúvida sua historicidade; e para que essa historicidade tenha menos respaldo, negar também que tais Evangelhos tenham por autores testemunhas oculares. No entanto, também para o Evangelho de São João o Magistério da Igreja interceptou essas teses. E assim, por meio da Pontifícia Comissão Bíblica, manda-nos sustentar, com argumentos à mão:
1º) Que o quarto Evangelho é “a obra pessoal do Apóstolo São João, e de ninguém mais”, como se prova “pela constante, universal e solene tradição da Igreja, que vem já do século II, como principalmente se deduz: dos testemunhos e alusões dos Santos Padres e escritores eclesiásticos; de sempre e em todo lugar ter-se aceitado o nome do autor do quarto Evangelho no cânone dos Livros Sagrados; dos mais antigos manuscritos, códices e versões em outros idiomas dos mesmos Livros; do público uso litúrgico que desde os começos da Igreja se estendeu a todo o orbe...; de modo que as razões dos críticos aduzidas em contrário não debilitam de modo algum essa tradição”.
2º) Que São João redigiu seu Evangelho como uma obra propriamente histórica, e não como uma “contemplação mística do Evangelho”; pois “pela prática que esteve constantemente em vigor desde os primeiros tempos da Igreja universal de defender o quarto Evangelho como documento propriamente histórico, deve-se afirmar, ao se observar a índole peculiar do mesmo Evangelho e a intenção manifesta do autor de ilustrar e defender a divindade de Cristo pelos próprios feitos e discursos do Senhor, que os fatos narrados no quarto Evangelho são própria e verdadeiramente históricos, e não alegorias ou símbolos doutrinais parcialmente inventados; e que os discursos do Senhor são própria e verdadeiramente discursos do Senhor mesmo, e não composições teológicas do escritor postas na boca do Senhor”.
Conclusão
Pelo já dito, resta bastante claro que a Igreja mantém com toda sua força a verdade da Tradição sobre as origens dos Evangelhos, e que com unhas e dentes, e contra todos os obstáculos, defende sua autenticidade apostólica, sua plena historicidade em fatos e discursos, sua datação antiga, sem a qual não poderiam ser a obra de testemunhas oculares (duas das quais testemunhas diretas, por serem apóstolos, e as outras duas testemunhas indiretas, por serem secretários dos apóstolos).
Por isso mesmo, todo intento de negar qualquer desses três pontos se encontrará sempre contra um ensinamento claro do Magistério e contra uma Tradição deveras constante e perfeitamente consignada da antiguidade, contra os quais de nada valem os argumentos de uma exegese racionalista e descrente, nascida fora da Igreja, e que por isso não merece dos católicos mais do que um firme repúdio e desprezo.”
(Pe. Jesus Mestre, La Datación de los Evangelios)
sábado, 19 de março de 2011
A datação dos Evangelhos (I)
“Correm hoje tempos em que o católico deve defender com firmeza verdades elementares da doutrina católica, sem o menor respeito pelas opiniões contrárias dos “entendidos”. Uma dessas verdades é a referente à origem de nossos quatro Evangelhos canônicos, ou seja, dos que foram redigidos realmente por aquelas pessoas a quem são atribuídos; a segunda, a perfeita historicidade dos mesmos; e a terceira, intimamente ligada às anteriores, sua datação cronológica.
Mas os “entendidos” católicos hoje negam mesmo essas três coisas? Mais ou menos. Na exegese pós-conciliar prevaleceu a doutrina modernista, já condenada por São Pio X, segundo a qual:
1º) Cada um dos Evangelhos (como os demais escritos bíblicos) nasceu na Igreja e da tradição (até aqui pareceria católico, mas o sentido que se lhe dá é bem distinto); é a Igreja que os elaborou, meditando longamente sobre a pessoa de Jesus e sua obra, e essa reflexão, realizada no âmbito de uma “tradição” oral, fez com que as diferentes comunidades cristãs amadurecessem a idéia que tinham de Jesus, que foi aparecendo diante de seus olhos como o Filho de Deus. Uma vez estabelecida, essa reflexão da comunidade foi posta por escrito no seio mesmo da comunidade por algumas pessoas; desse modo, Mateus, Marcos, Lucas e João podem ser pessoas reais, mas também podem ser atribuições fictícias que designariam as comunidades de onde tais Evangelhos saíram.
2º) Essa reflexão de fé da comunidade, que “transfigura” o Jesus histórico para vê-lo e relê-lo à luz do acontecimento da Páscoa, leva tempo, um tempo considerável: 40 anos aproximadamente. Assim, os Evangelhos não podem ser anteriores ao ano 70. A prova de que foram escritos depois dessa data está, por outro lado, dentro dos mesmos Evangelhos: todos eles têm a previsão da destruição de Jerusalém, que, em boa exegese modernista, teve de ser escrita depois do fato ocorrido (já que a profecia não é verossímil).
3º) Uma distância tão grande entre os fatos e sua redação por escrito faz com que a historicidade dos fatos seja posta em dúvida. Se os Evangelhos tivessem sido redigidos pouco tempo depois dos fatos que narram, e por testemunhas oculares, não há dúvida de que se lhes deveria dar plena fé histórica; mas se seus autores são comunidades anônimas de fiéis que levam tanto tempo para trazer à luz os relatos do Jesus da fé, então houve tempo de sobra para que a tendência simbólica e mítica do homem, em seu esforço para expressar o religioso, pusesse mãos à obra, levando a tamanha idealização dos fatos que torna-se difícil adivinhar o que há de histórico em tudo isso.
Assim, como se pode ver, negar a estrita autenticidade dos Evangelhos leva a postergar para as calendas gregas sua redação por parte de pessoas anônimas, o que, por sua vez, nos faz duvidar da plena historicidade do que nos contam.
Vamos recordar, então, as principais verdades que se opõem a tais erros, nas quais ressaltaremos a antiga datação dos Evangelhos, como obra que são de testemunhas dos acontecimentos narrados, e, com isso, sua total historicidade. Para tanto desenterraremos os decretos que a Pontifícia Comissão Bíblica, nos tempos de São Pio X, emitiu sobre os quatro Evangelhos.
Testemunhos gerais da Tradição
Vejamos alguns testemunhos gerais da Tradição, a que aludem os decretos da Pontifícia Comissão Bíblica. São de três autores antiquíssimos: Tertuliano, Orígenes e Santo Irineu. O valor do testemunho se baseia em que, por viverem em época imediatamente posterior aos fatos, já se encontram perante uma tradição inalterável sobre a origem dos Evangelhos que remonta aos primeiros anos do cristianismo.
Tertuliano (160-220), representante da Igreja da África, afirma categoricamente que “o instrumento evangélico”, ou seja, a coleção dos Evangelhos, tem por autores os Apóstolos São João e São Mateus e os homens apostólicos São Marcos e São Lucas e acrescenta que esse fato é confirmado pela autoridade das Igrejas fundadas pelos Apóstolos.
Orígenes (185-254), representante da Igreja de Alexandria, dizia o seguinte sobre os Evangelhos: “Aprendi também da Tradição o que concerne aos quatro Evangelhos, os únicos que são admitidos sem controvérsia por toda a Igreja de Deus que está debaixo do céu. Isto é o que aprendi: que o primeiro Evangelho foi escrito em hebreu por Mateus, que antes foi publicano e depois, Apóstolo de Cristo, que o publicou para os judeus convertidos à fé. Aprendi que o segundo é o Evangelho de Marcos, que o escreveu como Pedro lho havia narrado... O terceiro é o de Lucas, elogiado por Paulo e escrito para os Gentios convertidos. O último, finalmente, é de João.” E continua: “Muitos se esforçaram por escrever evangelhos, mas nem todos foram recebidos... Entre eles, os que nós possuímos foram escolhidos e dados à Igreja pela Tradição... A Igreja só tem quatro Evangelhos, enquanto a heresia possui muitos deles...”
Santo Irineu (140-202), representante da Igreja do Ocidente, e cujo testemunho tem uma importância particular (pois por seu mestre, São Policarpo, por sua vez discípulo de São João Evangelista, se conectava diretamente com a época dos Apóstolos), disse assim: “Mateus escreveu entre os Hebreus o Evangelho em sua própria língua... Marcos, discípulo e intérprete de São Pedro, também escreveu o que fora pregado por Pedro. Lucas, por sua vez, consignou por escrito o Evangelho pregado por Paulo, a quem seguia. Finalmente João, discípulo do Senhor, que repousou a cabeça no peito do Senhor, publicou também um Evangelho quando estava em Éfeso na Ásia... Os Evangelhos, por conseguinte, não são em número mais que quatro, nem mais nem menos... Sendo assim, devem ser chamados de loucos e ignorantes e também atrevidos todos os que destroem a forma do Evangelho, e indicam ou mais formas, ou menos que as assinaladas”.
O Evangelho segundo São Mateus
Condensemos agora as certezas que a Tradição e o Magistério da Igreja nos dão sobre o Evangelho segundo São Mateus. Eles nos dizem: “o primeiro Evangelho foi escrito por Mateus, que antes foi publicano e depois, Apóstolo de Cristo” e que como tal foi testemunha direta dos fatos que narra, por haver estado com Nosso Senhor durante os três anos de sua pregação pública. A prova disso se encontra no “universal e constante consentimento da Igreja já desde os primeiros séculos, luminosamente manifestado nos testemunhos expressos dos Padres, os títulos dos códices dos Evangelhos, as versões dos Livros Sagrados e os catálogos transmitidos pelos Santos Padres, escritores eclesiásticos, Sumos Pontífices e Concílios, e finalmente o uso litúrgico da Igreja oriental e ocidental”.
Em seguida nos ensinam que “São Mateus precedeu os demais Evangelistas ao escrever seu Evangelho”, e a Pontifícia Comissão Bíblica nos obriga a manter a ordem cronológica de redação dos quatro Evangelhos tal como a recebemos da Tradição, a saber: Mateus, Marcos, Lucas e João.
A partir desses dados podemos investigar a data de redação desse Evangelho. Segundo a Pontifícia Comissão Bíblica, “não se pode adiar a redação do Evangelho de São Mateus para depois da ruína de Jerusalém” (os racionalistas afirmavam que o Evangelho de São Mateus não podia ter sido escrito antes do ano 70 pela razão óbvia – para eles – de que nele se profetizava a destruição de Jerusalém, que aconteceu no ano 70; e, como se sabe, não há racionalista que acredite em profecia), “mas, pelo contrário, de acordo com a tradição, a redação já estava terminada antes da vinda de Paulo a Roma”, no ano 60. Além disso, segundo toda a tradição eclesiástica, São Mateus escreveu seu Evangelho antes de deixar a Palestina para pregar entre os Gentios: “Depois da ressurreição de Cristo, [Mateus] foi o primeiro a escrever seu Evangelho, na Judéia, antes de partir para as províncias que lhe couberam por sorte para nelas pregar, e escreveu-o em língua hebraica, para uso dos judeus convertidos à fé” (Breviário Romano).
No entanto, como, segundo outra antiquíssima tradição, a dispersão dos Apóstolos aconteceu no ano 42, deduz-se que o Evangelho de São Mateus já estava escrito por essa época; e assim temos que situar sua redação até o ano 40 ou 41. Tal é a conclusão a que podemos chegar legitimamente a partir dos testemunhos da Tradição.”
(Pe. Jesus Mestre, La Datación de los Evangelios)
Mas os “entendidos” católicos hoje negam mesmo essas três coisas? Mais ou menos. Na exegese pós-conciliar prevaleceu a doutrina modernista, já condenada por São Pio X, segundo a qual:
1º) Cada um dos Evangelhos (como os demais escritos bíblicos) nasceu na Igreja e da tradição (até aqui pareceria católico, mas o sentido que se lhe dá é bem distinto); é a Igreja que os elaborou, meditando longamente sobre a pessoa de Jesus e sua obra, e essa reflexão, realizada no âmbito de uma “tradição” oral, fez com que as diferentes comunidades cristãs amadurecessem a idéia que tinham de Jesus, que foi aparecendo diante de seus olhos como o Filho de Deus. Uma vez estabelecida, essa reflexão da comunidade foi posta por escrito no seio mesmo da comunidade por algumas pessoas; desse modo, Mateus, Marcos, Lucas e João podem ser pessoas reais, mas também podem ser atribuições fictícias que designariam as comunidades de onde tais Evangelhos saíram.
2º) Essa reflexão de fé da comunidade, que “transfigura” o Jesus histórico para vê-lo e relê-lo à luz do acontecimento da Páscoa, leva tempo, um tempo considerável: 40 anos aproximadamente. Assim, os Evangelhos não podem ser anteriores ao ano 70. A prova de que foram escritos depois dessa data está, por outro lado, dentro dos mesmos Evangelhos: todos eles têm a previsão da destruição de Jerusalém, que, em boa exegese modernista, teve de ser escrita depois do fato ocorrido (já que a profecia não é verossímil).
3º) Uma distância tão grande entre os fatos e sua redação por escrito faz com que a historicidade dos fatos seja posta em dúvida. Se os Evangelhos tivessem sido redigidos pouco tempo depois dos fatos que narram, e por testemunhas oculares, não há dúvida de que se lhes deveria dar plena fé histórica; mas se seus autores são comunidades anônimas de fiéis que levam tanto tempo para trazer à luz os relatos do Jesus da fé, então houve tempo de sobra para que a tendência simbólica e mítica do homem, em seu esforço para expressar o religioso, pusesse mãos à obra, levando a tamanha idealização dos fatos que torna-se difícil adivinhar o que há de histórico em tudo isso.
Assim, como se pode ver, negar a estrita autenticidade dos Evangelhos leva a postergar para as calendas gregas sua redação por parte de pessoas anônimas, o que, por sua vez, nos faz duvidar da plena historicidade do que nos contam.
Vamos recordar, então, as principais verdades que se opõem a tais erros, nas quais ressaltaremos a antiga datação dos Evangelhos, como obra que são de testemunhas dos acontecimentos narrados, e, com isso, sua total historicidade. Para tanto desenterraremos os decretos que a Pontifícia Comissão Bíblica, nos tempos de São Pio X, emitiu sobre os quatro Evangelhos.
Testemunhos gerais da Tradição
Vejamos alguns testemunhos gerais da Tradição, a que aludem os decretos da Pontifícia Comissão Bíblica. São de três autores antiquíssimos: Tertuliano, Orígenes e Santo Irineu. O valor do testemunho se baseia em que, por viverem em época imediatamente posterior aos fatos, já se encontram perante uma tradição inalterável sobre a origem dos Evangelhos que remonta aos primeiros anos do cristianismo.
Tertuliano (160-220), representante da Igreja da África, afirma categoricamente que “o instrumento evangélico”, ou seja, a coleção dos Evangelhos, tem por autores os Apóstolos São João e São Mateus e os homens apostólicos São Marcos e São Lucas e acrescenta que esse fato é confirmado pela autoridade das Igrejas fundadas pelos Apóstolos.
Orígenes (185-254), representante da Igreja de Alexandria, dizia o seguinte sobre os Evangelhos: “Aprendi também da Tradição o que concerne aos quatro Evangelhos, os únicos que são admitidos sem controvérsia por toda a Igreja de Deus que está debaixo do céu. Isto é o que aprendi: que o primeiro Evangelho foi escrito em hebreu por Mateus, que antes foi publicano e depois, Apóstolo de Cristo, que o publicou para os judeus convertidos à fé. Aprendi que o segundo é o Evangelho de Marcos, que o escreveu como Pedro lho havia narrado... O terceiro é o de Lucas, elogiado por Paulo e escrito para os Gentios convertidos. O último, finalmente, é de João.” E continua: “Muitos se esforçaram por escrever evangelhos, mas nem todos foram recebidos... Entre eles, os que nós possuímos foram escolhidos e dados à Igreja pela Tradição... A Igreja só tem quatro Evangelhos, enquanto a heresia possui muitos deles...”
Santo Irineu (140-202), representante da Igreja do Ocidente, e cujo testemunho tem uma importância particular (pois por seu mestre, São Policarpo, por sua vez discípulo de São João Evangelista, se conectava diretamente com a época dos Apóstolos), disse assim: “Mateus escreveu entre os Hebreus o Evangelho em sua própria língua... Marcos, discípulo e intérprete de São Pedro, também escreveu o que fora pregado por Pedro. Lucas, por sua vez, consignou por escrito o Evangelho pregado por Paulo, a quem seguia. Finalmente João, discípulo do Senhor, que repousou a cabeça no peito do Senhor, publicou também um Evangelho quando estava em Éfeso na Ásia... Os Evangelhos, por conseguinte, não são em número mais que quatro, nem mais nem menos... Sendo assim, devem ser chamados de loucos e ignorantes e também atrevidos todos os que destroem a forma do Evangelho, e indicam ou mais formas, ou menos que as assinaladas”.
O Evangelho segundo São Mateus
Condensemos agora as certezas que a Tradição e o Magistério da Igreja nos dão sobre o Evangelho segundo São Mateus. Eles nos dizem: “o primeiro Evangelho foi escrito por Mateus, que antes foi publicano e depois, Apóstolo de Cristo” e que como tal foi testemunha direta dos fatos que narra, por haver estado com Nosso Senhor durante os três anos de sua pregação pública. A prova disso se encontra no “universal e constante consentimento da Igreja já desde os primeiros séculos, luminosamente manifestado nos testemunhos expressos dos Padres, os títulos dos códices dos Evangelhos, as versões dos Livros Sagrados e os catálogos transmitidos pelos Santos Padres, escritores eclesiásticos, Sumos Pontífices e Concílios, e finalmente o uso litúrgico da Igreja oriental e ocidental”.
Em seguida nos ensinam que “São Mateus precedeu os demais Evangelistas ao escrever seu Evangelho”, e a Pontifícia Comissão Bíblica nos obriga a manter a ordem cronológica de redação dos quatro Evangelhos tal como a recebemos da Tradição, a saber: Mateus, Marcos, Lucas e João.
A partir desses dados podemos investigar a data de redação desse Evangelho. Segundo a Pontifícia Comissão Bíblica, “não se pode adiar a redação do Evangelho de São Mateus para depois da ruína de Jerusalém” (os racionalistas afirmavam que o Evangelho de São Mateus não podia ter sido escrito antes do ano 70 pela razão óbvia – para eles – de que nele se profetizava a destruição de Jerusalém, que aconteceu no ano 70; e, como se sabe, não há racionalista que acredite em profecia), “mas, pelo contrário, de acordo com a tradição, a redação já estava terminada antes da vinda de Paulo a Roma”, no ano 60. Além disso, segundo toda a tradição eclesiástica, São Mateus escreveu seu Evangelho antes de deixar a Palestina para pregar entre os Gentios: “Depois da ressurreição de Cristo, [Mateus] foi o primeiro a escrever seu Evangelho, na Judéia, antes de partir para as províncias que lhe couberam por sorte para nelas pregar, e escreveu-o em língua hebraica, para uso dos judeus convertidos à fé” (Breviário Romano).
No entanto, como, segundo outra antiquíssima tradição, a dispersão dos Apóstolos aconteceu no ano 42, deduz-se que o Evangelho de São Mateus já estava escrito por essa época; e assim temos que situar sua redação até o ano 40 ou 41. Tal é a conclusão a que podemos chegar legitimamente a partir dos testemunhos da Tradição.”
(Pe. Jesus Mestre, La Datación de los Evangelios)
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
O erro dos reformadores protestantes

“A doutrina bíblica e católica da justificação apresentada acima foi geralmente aceita por todos os cristãos durante 1.500 anos. Nos últimos séculos, contudo, um grave equívoco sobre essa doutrina foi a principal causa de trágicas divisões e da formação de centenas de pequenas comunidades eclesiais e denominações fora da Igreja de Jesus Cristo – a Igreja Católica. Alguns desses grupos militantemente atacam a Igreja Católica por sua supostamente “não-bíblica” doutrina da justificação.
Em vez de confiar em 1.500 anos de tradição cristã a fim de interpretar corretamente as epístolas de São Paulo (as quais, segundo a advertência de seu colega apóstolo Pedro, são às vezes “difíceis de entender” e podem ser perigosamente mal interpretadas – II Ped 3, 16), Lutero, Calvino e outros reformadores protestantes confiaram em suas próprias capacidades pessoais de interpretação bíblica e cometeram graves erros.
A Igreja Católica considera ser ensinamento da Bíblia que, tendo em vista a salvação eterna do cristão depender de sua perseverança tanto na fé como nas boas obras até o fim de sua vida, nenhum de nós pode estar completamente seguro de que irá eventualmente alcançar a felicidade eterna no Céu. Existe a possibilidade de que cairemos em pecado mortal e perderemos nossa alma para sempre. Assim, devemos permanecer “sóbrios mas vigilantes, porque vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pe 5, 8). São Paulo aconselha contra a presunção: “Quem pensa estar de pé veja que não caia” (I Cor 10, 12) e deixa claro que ele mesmo tem que fazer esforços espirituais constantes: “para não ser excluído depois de eu ter pregado aos outros” (I Cor 9, 27). São Paulo também alerta explicitamente cada fiel contra o “juízo prematuro” a respeito de seu próprio status espiritual diante de Deus. E continua: “Por isso, não julgueis antes do tempo; esperai que venha o Senhor. Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações. Então cada um receberá de Deus o louvor que merece” (I Cor 4, 5). Os protestantes tendem a minimizar ou distorcer tais passagens, colocando uma ênfase seletiva sobre outras onde São Paulo mostra uma grande confiança em ganhar sua coroa de glória eterna (e.g., II Tim 4,8; Rom 8, 38-39). Uma avaliação equilibrada de todas as passagens relevantes traz à luz a doutrina católica: devemos ter esperança e confiança na graça e na misericórdia de Deus, que nos deseja salvar; mas ao mesmo tempo devemos evitar a presunção de antecipadamente afirmar a certeza absoluta de nossa própria salvação pessoal.
Lutero e Calvino achavam difícil de suportar esse elemento de incerteza quanto à sua própria salvação e imaginavam ter descoberto, no ensinamento de São Paulo sobre a “justificação pela fé sem as obras”, a promessa da certeza que tanto buscavam. Como já vimos, São Paulo queria apenas dizer que quando estamos em estado de pecado, nossas próprias obras jamais causarão nem merecerão que nos tornemos justificados. Mas os reformadores pensavam que ele também queria dizer que as boas obras jamais contribuem para que permaneçamos justificados e assim alcancemos a salvação eterna.
A maior parte dos grupelhos que mesmo nestes tempos ecumênicos continuam hostis à Igreja Católica tende a seguir o ensinamento de Calvino em vários aspectos: eles defendem que, uma vez “renascidos” ou convertidos ao estado de graça (justificação), é impossível decairmos dessa graça por nossos pecados e perdermos ao fim nossa salvação. Eles insistem no princípio “uma vez salvo, sempre salvo”. Os pregadores e membros dessas igrejas descrevem-se a si mesmos como “salvos” por sua “fé em Jesus como Salvador pessoal” e dizem-nos que estão absolutamente seguros de ir para o Céu quando morrerem.
Às vezes eles pensam assim porque acreditam que quaisquer pecados que cometam no futuro, não importa quão graves, serão simplesmente desprezados por Deus por causa de sua fé nos méritos salvíficos de Jesus. Em outras palavras, eles afirmam que, se mantivermos nossa confiança em Jesus como Salvador, não perderemos o favor e a graça de Deus ainda que cometamos um pecado mortal! Outros cristãos evangélicos, percebendo que esse ensinamento é manifestamente não-bíblico, consideram-se a si mesmos não mais capazes de cometer quaisquer pecados mortais. Tais pessoas gostam de citar Mateus 7, 18, onde Nosso Senhor ensina que “uma árvore boa não pode dar maus frutos, nem uma árvore má bons frutos.” Eles deduzem daí que os fiéis cristãos autênticos – tais como eles mesmos – são simplesmente incapazes de produzir os “maus frutos” do mau comportamento. Eles se esquecem de que Jesus nunca deu qualquer garantia de que toda “árvore boa” iria sempre permanecer boa. Assim como as boas árvores podem eventualmente apodrecer e produzir maus frutos, os bons cristãos podem sucumbir à tentação e cometer pecados mortais. E ao fazê-lo, perdem a graça e põem suas almas em perigo. Os protestantes também gostam de citar as palavras de Jesus em João 5, 24: “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não incorre na condenação, mas passou da morte para a vida.” A expressão “vida eterna” é usada aqui, como em algumas outras passagens, com o significado de “vida de Deus dentro de nós”, ou em outras palavras, o dom da graça santificante. A vida de Deus, da qual participamos pela graça, é obviamente eterna em si mesma; mas aqui Nosso Senhor não está dizendo que jamais poderemos nos separar dessa vida divina por nossos próprios pecados. Aqui está subentendido que nossa “não-incorrência na condenação” depende de permanecermos na graça que recebemos.
Uma suposta garantia de salvação instantânea e permanentemente segura pode parecer bastante atraente, e muitos católicos – principalmente os que põem a procura por uma “experiência” espiritual à frente da procura pela verdade doutrinal – deixaram-se seduzir e se afastaram da Igreja com essa promessa presunçosa e ilusória, especialmente porque os protestantes que ensinam essa falsa doutrina são em geral pessoas sinceras, devotas e zelosas. Mas na própria epístola aos Gálatas, um dos livros bíblicos favoritos dos protestantes, São Paulo contradiz a idéia deles de que uma vez justificados ou convertidos nós jamais poderemos decair da graça e terminar em danação eterna. O Apóstolo diz que os cristãos que insistem em reviver as práticas da circuncisão e de outras antigas leis rituais judaicas do Antigo Testamento, como se fossem necessárias para a salvação, “separaram-se de Cristo e decaíram da graça” (Gál 5, 2-4). Ele também insiste junto aos cristãos já convertidos para que “vivam de acordo com o Espírito” e evitem cair na imoralidade sexual, violência, inveja, bebedeira e outros pecados mortais. Paulo avisa-os de que “os que assim se comportam não herdarão o Reino de Deus” (Gál 5, 19-21). O sentido claro e natural de tal ensinamento paulino é a doutrina católica perene de que os fiéis cristãos podem realmente decair da graça e perder suas almas se não se mantiverem em alerta contra as artimanhas do Inimigo. Não admira que quinze séculos passassem sem que ninguém interpretasse os escritos de São Paulo segundo o entendimento protestante.”
(Rev. Brian Harrison, O. S, Faith, Works and Justification)
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sábado, 20 de novembro de 2010
A justificação pelas obras segundo São Tiago

“À primeira vista, o que vimos até agora parece estar em contradição com o ensinamento de São Tiago, que diz:
“Queres saber, ó homem vão, como a fé sem obras é estéril? Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? Vês como a fé cooperava com as suas obras e era completada por elas. Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus (Gên 15, 6). Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé?” (Tg 2, 20-24)
Assim, diz São Paulo que a justificação é pela fé, não pelas obras; São Tiago diz que somos justificados pelas obras e também pela fé. Não há aqui uma contradição? Não, se reconhecermos que São Tiago está usando a palavra “justificação” em um sentido ligeiramente diferente do utilizado por São Paulo. Simplesmente, Paulo usa “justificação” para expressar a mudança de “mau” (estado de pecado) para “bom” (estado de graça) diante de Deus. Tiago, no entanto, usa a mesma palavra para exprimir o manter-se bom – e tornar-se cada vez melhor – diante de Deus. Essa ambigüidade na idéia de justificação é semelhante à que ocorre na linguagem cotidiana em relação à idéia de saúde. Se dizemos que “uma boa alimentação nos faz saudáveis”, isso tanto significa que a boa alimentação muda nossa condição de doentes para saudáveis, como que nos mantém saudáveis e pode nos fazer cada vez mais saudáveis. Assim, o que Tiago nos ensina é que tendo sido inicialmente justificados pela fé, devemos perseverar tanto nas boas obras como na fé, para crescermos em “justiça” – isto é, em santidade. O exemplo de Abraão, por ele usado, ajuda a entender aonde quer chegar. Abraão foi justificado primeiro pela fé, quando creu no chamado de Deus e em Sua promessa (Gên 15, 6). Depois disso, foi justificado ainda mais pela “obra” – o ato de obediência – de estar preparado para sacrificar seu filho Isaac ao comando de Deus (Gên 22).
Os protestantes geralmente citam São Tiago de forma seletiva, ressaltando que, de fato, a “fé sem obras é morta”, e sustentando que, se uma pessoa não produz boas obras, isso mostra que ela não tem o tipo de fé que justifica, mas somente a “fé morta” que até os maus espíritos têm. Mas eles ainda insistem, em flagrante contradição com o versículo 24, que “só a fé” é que realmente justifica – que as boas obras são somente um efeito, e de modo nenhum uma causa, de nossa justificação. Outros protestantes adotam o estratagema exegeticamente desesperado de afirmar que Tiago 2, 24 fala de uma justificação “diante dos homens” e não “diante de Deus”, como se o Apóstolo estivesse meramente afirmando que boas obras nos fazem parecer justos na avaliação das pessoas que nos conhecem. Contudo, o contexto claramente descarta essa hipótese totalmente injustificada, motivada somente pela necessidade de reconciliar Tiago com uma interpretação errada de Paulo. Não admira que Lutero – de modo mais radical, mas talvez com mais coerência – repudiasse desdenhosamente Tiago como uma “epístola de palha” e costumasse ignorar a contradição desta com sua própria doutrina.
Há muitas outras passagens bíblicas que esclarecem que, depois de sermos livremente perdoados e justificados pela fé e pela graça, devemos perseverar nas boas obras se quisermos conservar essa graça e alcançar a salvação final. “Só a fé” não é mais suficiente neste derradeiro estado de nossa jornada espiritual, pois “a fé sem obras é morta” (Tg 2, 26). O próprio São Paulo, pouco antes de escrever aos romanos sobre a “justificação pela fé, sem as observâncias da lei”, diz: “Porque diante de Deus não são justos os que ouvem a lei, mas serão tidos por justos os que praticam a lei.” (Rom 2, 13). E também:
Flp 2, 12-13: “Assim, meus caríssimos, vós que sempre fostes obedientes, trabalhai na vossa salvação com temor e tremor (...). Porque é Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar.” (Eis aqui a doutrina católica em poucas palavras: boas obras realizadas em estado de graça são necessárias para nossa salvação e meritórias diante de Deus, porque são simultaneamente Suas obras e nossas.)
Apoc 20, 11-12: “Vi, então, um grande trono branco e aquele que nele se assentava. (...) Vi os mortos, grandes e pequenos, de pé, diante do trono. Abriram-se livros, e ainda outro livro, que é o livro da vida. E os mortos foram julgados conforme o que estava escrito nesse livro, segundo as suas obras. (Ver também a parábola do Juízo Final, as “ovelhas” e os “cabritos” que são julgados “segundo suas obras” – Mt 25.)
Jo 14, 15: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.”
I Jo 2, 3-4: “Eis como sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele.””
(Rev. Brian Harrison, O. S, Faith, Works and Justification)
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terça-feira, 16 de novembro de 2010
A justificação pela fé segundo São Paulo

“São Paulo exprime com bastante freqüência sua doutrina a respeito da graça e da salvação em termos de “justificação pela fé” e não pelas “obras” ou “obras da lei”. Os protestantes geralmente dão grande ênfase a tais palavras, mas sem entendê-las corretamente, à luz da tradição católica. Consideremos algumas passagens-chave das obras de São Paulo:
Rom 3: 27-28: “Onde está, portanto, o motivo de se gloriar? Foi eliminado. Por que lei? Pela das obras? Não, mas pela lei da fé. Porque julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei.”
Rom 5, 1: “Justificados, pois, pela fé temos a paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.”
Rom 5, 9: “Portanto, muito mais agora, que estamos justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.”
Gál 2, 16: “Sabemos, contudo, que ninguém se justifica pela prática da lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo. Também nós cremos em Jesus Cristo, e tiramos assim a nossa justificação da fé em Cristo, e não pela prática da lei. Pois, pela prática da lei, nenhum homem será justificado.”
Gál 3, 11: “Que ninguém é justificado pela lei perante Deus é evidente, porque o justo viverá pela fé.”
Essa é a mesma doutrina de Cristo, que repreendeu o fariseu que se vangloriava de suas boas obras diante de Deus. O Senhor ensinou que o humilde publicano que simplesmente orava pela misericórdia de Deus estava “justificado” e não o fariseu (Lc 18, 9-14).
Que é essa “justificação”? Estar “justificado” significa “tornar-se justo, santo e aceitável diante de Deus”. Em outras palavras, o termo “justificação”, nessas e em outras passagens semelhantes do Novo Testamento, significa o que os católicos comumente descrevemos como a mudança do “estado de pecado” para o “estado de graça”. E a doutrina ensinada por Jesus e São Paulo nas passagens acima é que quando estamos em estado de pecado, e separados de Deus, nada podemos fazer por nós mesmos e nenhuma de nossas boas obras pode nos conseguir ou merecer a justificação. Receber a graça de Deus e o perdão de nossos pecados nunca é um “prêmio” ou “recompensa” que merecemos em razão de quaisquer atos supostamente virtuosos que previamente realizamos. O recebimento da graça e da justificação é sempre um dom gratuito e completamente imerecido. A própria palavra “graça” vem do grego e significa “favor” ou “dádiva”.
Que quer dizer São Paulo quando afirma que essa “justificação” se alcança por meio da fé? É evidente que por “fé” o Apóstolo não quer dizer qualquer tipo de crença: São Tiago ensina que até mesmo os demônios têm uma espécie de “fé” ou crença, que certamente não lhes traz a graça de Deus. Ele diz, “Crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios crêem e tremem.” (Tg 2, 19) Muitas passagens da Escritura esclarecem à exaustão que o tipo de fé necessária para a justificação é uma fé arrependida (Lc 24, 47; At 2, 38; 3, 19; 17, 30; Rom 2, 4; I Cor 7, 9-10 etc). A contrição dos pecados e o desejo sincero de mudança é o que falta à “fé” que até mesmo os demônios e as pessoas más podem ter. Essa fé arrependida que leva à justificação inclui a esperança na misericórdia de Deus e é possível somente quando o pecador recebe a graça atual que lhe permite voltar-se em contrição para a misericórdia divina.
Por fim, o ensinamento de São Paulo a respeito da “justificação pela fé” ao invés de pelas “obras” não deve ser separado de outras passagens bíblicas que falam claramente do aspecto sacramental da justificação. São Paulo certamente não considera o batismo uma das “obras da lei” humanas que não podem nos justificar, mas sim como uma “obra” do próprio Deus que completa o processo de justificação de quem jamais foi batizado antes. São Paulo ensina que no batismo nós participamos da morte de Cristo, ou seja, nós recebemos por meio desse sacramento a graça que Jesus nos conseguiu com sua morte na cruz; e isso nos permite viver a nova vida de sua ressurreição (Rom 6, 3-4). Paulo, em uma ocasião, lembrou o papel que o batismo teve em sua própria conversão: Ananias, ele recorda, exortou-o logo após ele ter crido em Jesus, dizendo, “E agora por que tardas? Levanta-te. Recebe o batismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o seu nome.” (At 22, 16) São Pedro fala do “batismo de agora, que vos salva também a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma consciência boa, pela ressurreição de Jesus Cristo.” (I Pe 3, 21. Ver também Jo 3, 5; Mc 16, 16). Para os que perdem a graça ao cometerem pecado grave após o batismo, o sacramento da penitência é necessário (Jo 20, 22-23). Ainda que aquele que crê e está perfeitamente contrito de seus pecados receba a graça da justificação antes de receber o sacramento devido, essa graça é apenas provisória, e somente é concedida tendo em vista o sacramento antecipado: um pecador que não tivesse a intenção de receber o sacramento, mesmo sabendo que Cristo o exigiu, estaria em falta ou de fé, ou de arrependimento, e dessa forma não seria justificado. Além disso, os que crêem e se arrependem, mas estão menos que perfeitamente contritos de seus pecados, não se justificam até o momento que recebem o sacramento, que transmite a graça extra de que precisam. (Estamos falando aqui da justificação de adultos, pois o batismo de crianças traz outras considerações.)
Essa é a doutrina autêntica e bíblica da justificação, defendida pela Igreja Católica desde os tempos mais remotos e sumariada no Concílio de Trento, que nos deu a autêntica interpretação da doutrina de São Paulo sobre a “justificação pela fé”:
“Mas quando o Apóstolo diz que o homem se justifica “pela fé” e “gratuitamente” (Rom 3, 22-24), essas palavras devem ser entendidas naquele sentido que manteve e expressou o sentir unânime e perpétuo da Igreja Católica, ou seja, que diz sermos justificados pela fé, porque “a fé é o princípio da salvação humana”, o fundamento e raiz de toda justificação; “sem ela é impossível agradar a Deus” (Heb 11, 6) e chegar ao consórcio de seus filhos; e que somos justificados gratuitamente, porque nada daquilo que precede a justificação, seja a fé, sejam as obras, merece a graça mesma da justificação; porque “se é graça, já não é pelas obras; de outro modo (como disse o mesmo Apóstolo) a graça já não é graça”. (Rom 11, 6)” (Denzinger-Schönmetzer 1532)”
(Rev. Brian Harrison, O. S, Faith, Works and Justification)
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terça-feira, 27 de julho de 2010
Evidência manuscrita e a autoria paulina de Hebreus

“Ao abrirmos nossas modernas edições do Novo Testamento, vemos que Hebreus ocupa as páginas entre Filemon e Tiago, ou seja, entre a décima-terceira Paulina e a primeira Epístola Católica. Essa colocação a separa do Corpus Paulinum? Evidência manuscrita mostra que não. Nos unciais mais antigos (S, A, B e C) ela segue a segunda Epístola aos Tessalonicenses e precede as Pastorais. Essa é a mesma posição que ela ocupa na maioria dos manuscritos da Versão Boárica e no comentário de Sto. Efrém... No arquétipo ou predecessores do Códice B, ela estava entre Gálatas e Efésios, conforme mostra a série de números de seção na margem daquele Códice. Na Versão Saídica, ela até precedia Gálatas. As Versões Siríacas, os manuscritos gregos tardios e os manuscritos latinos colocam Hebreus na ordem a que nos acostumamos, ou seja, no décimo-quarto lugar, no final das Paulinas. O fato de antigamente haver estado em décimo lugar depois das nove Epístolas às Sete Igrejas, ou depois das quatro grandes Epístolas, ou entre estas no quarto lugar, é um forte testemunho de sua atribuição a São Paulo. Ainda mais eloqüente é a ordem do Códice de papiros Chester-Beatty do começo do terceiro século. Aqui Hebreus vem imediatamente depois de Romanos.”
(William Leonard, Authorship of the Epistle to the Hebrews)
sexta-feira, 16 de julho de 2010
O papel escatológico de Israel

“Todas as páginas do Novo Testamento mostram uma intensa reflexão sobre a segunda vinda de Cristo. É um afresco descrevendo a peregrinação da Igreja por esta última fase da história e os sofrimentos com que ela se defronta no momento conclusivo destes tempos derradeiros que lançam seu último e mais intenso ataque. Graças a Paulo e sua meditação teológica de profundo significado, podemos, de certo modo, captar da história os sinais que indicarão quando a segunda vinda estiver prestes a acontecer. Segundo o Apóstolo, a vinda do Messias em glória detém-se a cada momento da história até Seu reconhecimento por todo Israel.
O capítulo onze da Epístola aos Romanos é uma profunda reflexão sobre o papel de Israel na história da salvação. Segundo São Paulo, o povo eleito de Israel tem um papel a cumprir precisamente com relação ao fim dos tempos: “Porque, se de sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, qual será o efeito de sua reintegração, senão uma ressurreição dentre os mortos?” (Rom 11:15) Paulo lamenta que parte do povo eleito tenha se endurecido em sua descrença quanto a Jesus. No plano misericordioso de Deus, contudo, a rejeição deles obteve a graça da redenção. Se sua rejeição resulta na salvação do mundo, que significado terá sua aceitação, senão a admissão do mundo na glória do Cristo ressuscitado? Em outras palavras, o reconhecimento de Jesus como Messias e Senhor pelo povo judeu significará que a história humana terá chegado ao fim.
Essa certeza de fé já estava bem estabelecida na primeira comunidade cristã. Pedro, já antes de Paulo, alude à mesma em sua pregação aos judeus de Jerusalém depois de Pentecostes: “Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para serem apagados os vossos pecados. Virão assim da parte do Senhor os tempos de refrigério, e ele enviará aquele que vos é destinado: Cristo Jesus. É necessário, porém, que o céu o receba até os tempos da restauração universal, da qual falou Deus, outrora, pela boca de seus santos profetas” (At 3:19-21).
Qual é a origem da certeza de fé da Igreja Apostólica que liga intimamente a segunda vinda de Cristo à conversão de todo Israel? Os Evangelhos bem refletem essa idéia quando Jesus, meditando sobre a rejeição de Jerusalém, prevê a destruição do Templo, que é, por sua vez, um sinal profético dos sofrimentos no fim dos tempos: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas...e tu não quiseste! Pois bem, a vossa casa vos é deixada deserta. Porque eu vos digo: já não me vereis de hoje em diante, até que digais: Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor” (Mt 23:37-39).
Podemos concluir que, na perspectiva católica do fim dos tempos, a vinda de Cristo em glória está intimamente ligada à sua aceitação pelo povo eleito de Israel. Isso implica que só haverá o fim do mundo após a conversão dos judeus? Sobre esse ponto afirma o Catecismo da Igreja Católica: “A entrada da "plenitude dos judeus" na salvação messiânica, depois da "plenitude dos pagãos”, dará ao Povo de Deus a possibilidade de "realizar a plenitude de Cristo" (Ef 4, 13), na qual "Deus será tudo em todos" (1Cor 15,28).” Isso significa que não é possível supor que o fim dos tempos e a vinda de Cristo como juiz podem acontecer sem Sua aceitação por todo Israel. O “fiat” de Maria tornou possível Sua primeira vinda na humildade da carne. A aceitação de Israel tornará possível Sua segunda vinda em poder e glória.”
(Pe. Livio Fanzaga, Wrath of God)
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