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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Novamente, sedevacantismo


"Talvez um certo número de leitores destes “Comentários” possa irritar-se por mais uma vez voltar ao tema dos papas conciliares não serem totalmente papas, mas a tradução recente para o francês de um artigo em inglês de 1991 mostra por que é preciso demonstrar reiteradas vezes que os argumentos em prol do sedevacantismo não são tão conclusivos como parecem ser. Os liberais não precisam de tal demonstração, porque para eles o sedevacantismo não é uma tentação. No entanto, há certo número de almas católicas atraídas pela graça de Deus para longe do liberalismo em sentido à tradição católica para a qual o sedevacantismo torna-se positivamente perigoso. O diabo não se importa se nós perdemos o equilíbrio para a direita ou para a esquerda, desde que percamos nosso equilíbrio.
Pois, na verdade, o erro do sedevacantismo pode, em teoria, não ser um erro tão profundo e grave como a mentalidade universal apodrecida do liberalismo, mas, na prática, quantas vezes se observa que com o sedevacantismo as mentes se fecham, e que o que começou como uma opinião aceitável (que católico pode dizer que as palavras e ações do papa Francisco são católicas?) tende a tornar-se uma certeza dogmática inaceitável (que católico pode julgar com certeza uma questão tal?), para impôr-se como o dogma dos dogmas, como se a catolicidade de uma pessoa precisasse ser julgada pelo fato de ela crer ou não que não temos nenhum papa verdadeiro desde, digamos, Pio XII.
Uma razão oferecida pelos “Comentários” anteriores para essa dinâmica interna frequentemente observada no sedevacantismo pode ser a simplicidade do nó górdio com a qual se remove um problema angustiante e ameaçador para a fé: “Como podem esses destruidores da Igreja ser verdadeiros papas católicos?” Reposta: Na realidade, eles não são papas, absolutamente. “Oh, que alívio! Já não preciso ficar angustiado.” A mente fecha-se, o sedevacantismo deve ser pregado como se fosse o Evangelho para quem quiser ouvir (ou não ouvir), e na pior das hipóteses, ele pode ser estendido desde os papas até todos os cardeais, bispos e sacerdotes, de modo que um católico outrora crente se transforma num “home-aloner”, que desiste totalmente de ir à missa. Será que ele terá sucesso em manter a fé? E seus filhos? Aqui reside o perigo.
Portanto, para manter nossa fé católica em equilíbrio e evitar as armadilhas atuais tanto à esquerda quanto à direita, olhemos para os argumentos de BpS no artigo de 15 páginas mencionado acima. (“BpS” é uma abreviatura que muitos leitores não identificarão à primeira vista, mas não é necessário que seja explicitada aqui, porque estamos mais preocupados com seus argumentos do que com a sua pessoa). Em seu artigo, ao menos ele pensa e tem uma fé católica no Papado, caso contrário os papas conciliares não seriam um problema para ele. Esta lógica e esta fé são o que há de melhor nos sedevacantistas, mas nem BpS nem eles estão trabalhando a partir do quadro inteiro: Deus não pode deixar de velar por sua Igreja, mas ele pode deixar de velar por seus clérigos.
Aqui está, pois, seu argumento em poucas palavras: premissa maior: a Igreja é indefectível. Premissa menor: no Vaticano II a Igreja foi liberal, uma grande defecção. Conclusão: a Igreja Conciliar não é a verdadeira Igreja, o que significa que os papas conciliares que guiaram ou seguiram o Vaticano II não podem ter sido papas reais.
O argumento parece bom. Entretanto, a partir das mesmas premissas pode-se tirar uma conclusão liberal: a Igreja é indefectível, a Igreja tornou-se liberal, então eu também, como um católico, devo ser liberal. Assim, o fato de o sedevacantismo partilhar suas raízes com o liberalismo deveria fazer qualquer sedevacantista pensar duas vezes. BpS percebe as raízes comuns, e chama-as de “irônicas”, mas são muito mais do que isso. Elas mostram os liberais e sedevacantistas cometendo o mesmo erro, que deve estar na premissa maior. Na realidade, tanto aqueles como estes entendem mal a indefectibilidade da Igreja, assim como confundem a infalibilidade dos Papas. Confira estes “Comentários” da semana que vem para uma análise mais detalhada do argumento de BpS.
*
Para qualquer alma católica que hoje compreende a gravidade da crise na Igreja e se aflige em relação a isto, a simplicidade do sedevacantismo, que rejeita como inválidos a Igreja e os papas do Vaticano II, pode tornar-se uma séria tentação. Pior, a aparente lógica dos argumentos dos eclesiavacantistas e dos sedevacantistas podem tornar esta tentação uma armadilha mental que pode, na pior das hipóteses, levar um católico a perder a sua fé completamente. É por isso que estes “Comentários” retornarão mais detalhadamente ao argumento principal dos muitos argumentos expostos por BpS no artigo de 1991, mencionado aqui semana passada. Eis, novamente, o tal argumento:
Premissa maior: a Igreja Católica é absolutamente infalível (tem a garantia do próprio Deus de que durará até o fim do mundo – cf. Mt. XXVIII,20). Premissa menor: Mas a Igreja Conciliar ou Igreja Novus Ordo, solapada pelo neomodernismo e pelo liberalismo, representa uma absoluta falibilidade. Conclusão: a Igreja Novus Ordo é absolutamente não católica e seus papas são absolutamente não papas. Em outras palavras, a Igreja é absolutamente branca enquanto a Neoigreja é absolutamente preta, de modo que a Igreja e a Neoigreja são absolutamente diferentes. Para mentes que gostam de pensar no preto e no branco sem algo entre eles, este argumento tem muito apelo. Mas para mentes que reconhecem que na vida real as coisas são frequentemente cinzas, ou uma mistura de preto e de branco (sem que o preto deixe de ser preto ou o branco deixe de ser branco), o argumento é muito absoluto para ser verdadeiro. Assim, na premissa maior há um exagero sobre a infalibilidade da Igreja, e na premissa menor há um exagero em relação à falibilidade da Neoigreja. A teoria pode ser absoluta, mas a realidade raramente o é. Vejamos a infalibilidade e a falibilidade conciliar como são na realidade.
Quanto à premissa maior, os sedevacantistas frequentemente exageram a infalibilidade da Igreja, assim como frequentemente exageram a infalibilidade do papa, porque é isto que precisam para suportar seu horror emocional em relação ao que se tornou a Igreja Católica a partir do Concílio. Mas, na realidade, assim como aquela infalibilidade não exclui grandes erros de alguns papas na história da Igreja e somente se aplica quando o papa está seja ordinariamente dizendo o que a Igreja sempre disse, seja extraordinariamente empregando todas as quatro condições da definição de 1870, também a infalibilidade da Igreja não exclui absolutamente algumas grandes falibilidades em certos momentos da história eclesiástica, tais como os triunfos do Islã, do Protestantismo ou do Anticristo (Lc. XVIII,8), senão que exclui absolutamente uma falibilidade total ou uma falha total (Mt. XXVIII, 20). Assim, a infalibilidade não é tão absoluta quanto BpS pretende que seja.
Quanto à premissa menor, é verdade que a falibilidade do conciliarismo é consideravelmente mais grave do que aquela do Islã ou do Protestantismo, porque ataca a cabeça e o coração da Igreja em Roma, algo que estas últimas não fazem. Não obstante, mesmo meio século de conciliarismo (1965 a 2016) não fez a Igreja falhar totalmente. Por exemplo, Dom Lefebvre – e ele não estava sozinho – manteve a fé de 1970 a 1991, seus sucessores fizeram o mesmo, mais ou menos, de 1991 a 2012, e a combatida “Resistência” mantém-se na linha dele; e antes que a Igreja humanamente entre em colapso, num futuro não tão distante, sua infalibilidade inquestionavelmente será divinamente salva, antes do fim do mundo – Mt. XXIV, 21-22. Assim, o conciliarismo como uma falibilidade da Igreja também não é tão absoluto quanto BpS pretende que seja.
Desse modo, seus silogismos precisam ser reformulados – Premissa maior: a infalibilidade da Igreja não exclui grandes falhas, mas tão somente uma falibilidade total. Premissa menor: o Vaticano II foi uma grande, mas não total, falibilidade da Igreja (mesmo se os católicos conscientes de seu perigo tenham de evitá-la por completo, sob o risco de contaminação). Conclusão: a infalibilidade da Igreja não exclui o Vaticano II. Brevemente, a Igreja do próprio Deus é maior que toda a iniquidade do Demônio ou do homem, mesmo o Vaticano II. A falibilidade conciliar pode bem ser de uma gravidade sem precedente em toda a história da Igreja, mas a infalibilidade da Igreja e a infalibilidade dos papas vêm de Deus e não dos homens. Como liberais, os sedevacantistas estão pensando humanamente, todos humanamente demais.”
(Mons. Richard Williamson, Again, Sedevacantism)

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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A carta de Viganò


“Um leitor escreveu-nos algumas perguntas sobre a carta de onze páginas do ex-Núncio Apostólico dos Estados Unidos, o arcebispo Viganò, que declarou, com muitos detalhes e citação de nomes, que há imensa corrupção moral apodrecendo o clero católico naquele país, e que a responsabilidade pelos crimes implicados chega até mesmo ao topo da Igreja. No momento em que escrevo estes “Comentários”, o escândalo causado pela carta é imenso, e tem repercussão generalizada. Ninguém pode dizer neste momento quais serão as consequências finais. Aqui estão as quatro perguntas do leitor com respostas breves.
1. Que se deve pensar da carta de Viganò? É tão séria quanto parece?
Sim, pois Dom Viganò dá todos os sinais de ser um homem honesto. Em 2011 ele foi exilado de Roma e enviado aos Estados Unidos porque estava tentando, com sucesso, limpar as finanças do Vaticano. No momento em que escrevo, está escondido porque teme por sua vida. Ele tem inimigos sérios.
2. A carta será uma bomba na Igreja ou mero fogo de palha, sem mais consequências?
O tempo dirá. Certamente a corrupção no alto escalão da Igreja acompanha a corrupção no alto escalão dos poderes que estão no mundo, políticos, banqueiros, meios de comunicação e assim sucessivamente. Satã governa, porque os satanistas estão vinculados entre si em todos os domínios, e não permitirão, se puderem, que um simples Arcebispo perturbe seu cartel. Mas na verdade é Deus quem segura o chicote. As pessoas estão se voltando para Ele ou não? Se não, Ele permitirá que os servos de Satanás continuem açoitando a Igreja e o mundo na Nova Ordem Mundial. Se elas se voltam para Ele, em breve poderemos ter a Consagração da Rússia.
3. O escândalo fará Menzingen repensar a busca por reconhecimento da parte do Papa e de Roma?
Certamente deveria, mas temo que não. Desde muitos anos o quartel-general da Fraternidade em Menzingen está nas nuvens, e os liberais não mudam sua doutrina. Para os liberais, é a realidade que está errada. A todo custo o reconhecimento oficial para a Fraternidade deve ser obtido junto a Roma, por isso o Papa Francisco ainda deve ser tratado como um amigo por seus líderes. Talvez Menzingen possa admitir que eles estiveram errados por vinte anos, mas não será fácil para eles mudarem de curso. Dom Lefebvre, ao contrário, decidiu há trinta anos deixar que os Papas conciliares seguissem seu caminho. A carta de Viganò com certeza não o teria surpreendido.
4. O que fez o Arcebispo tão clarividente?
Doutrina. Se se raspa muitos ocidentais materialistas de hoje, se encontrará herdeiros do protestantismo, que tendem a filtrar mosquitos e a engolir camelos (Mt. 23, 24), o que significa que são mais severos com os pecados da carne do que com os do espírito, como o erro doutrinal ou a heresia. Atualmente os pecados da carne são suficientemente graves para contribuir para a danação eterna de grande número de almas que caem no Inferno – assim disse Nossa Senhora às crianças de Fátima. Mas é a heresia que abre passagem para este tipo de pecado. Veja Romanos 1, 21 a 31. Infringir o primeiro mandamento leva à impureza em geral (21-24), ao homossexualismo em particular (26-27), e a todo tipo de pecados em geral (28-32). Em outras palavras, é o primeiro mandamento que é primeiro, não o sexto.
Assim, o verdadeiro escândalo denunciado por Dom Viganò é mais implícito do que explícito. São menos os pecados perversos da carne que se amotinam nos homens da Igreja do alto escalão do que a idolatria oficial cometida pelo Vaticano II em seus documentos que fizeram mais do que qualquer outra coisa para tirar os freios católicos contra a imoralidade. Se nenhum Estado deve coagir em público religiões doutrinariamente falsas (Dignitatis Humanae), por que eu deveria observar a moral católica que especialmente põe limites à minha liberdade? Se o Inferno é mera “doutrina” da Igreja, por que isto deveria impedir-me de pecar como eu queira? O Vaticano II (“Nostra Aetate, Unitatis Redintegratio”) declarou que várias religiões além do catolicismo têm seus pontos bons. Acaso não é a própria Igreja Católica que me ensina que eu realmente não preciso ser católico?”
(Mons. Richard Williamson, Viganò Letter)

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quarta-feira, 13 de junho de 2018

A trapaça do "antissemitismo"


“Há palavras traiçoeiras que parecem significar uma coisa, mas que são empregadas para significar outra completamente diferente. Uma das mais traiçoeiras de todas é a palavra “antissemitismo”. Esta parece significar oposição a todos os judeus pura e simplesmente porque são judeus; nesse sentido, ela condena corretamente algo mau, porque alguns judeus são perversos, mas é certo que nem todos o são. Por outro lado, é frequentemente utilizada para condenar qualquer oposição a tudo que os judeus fazem, e então a palavra está erradamente condenando algo bom, porque sempre que os judeus fizerem algo ruim, então a oposição a eles é boa. Mas os judeus fazem coisas ruins? Obviamente. Eles criaram o islã para os árabes, a maçonaria para os gentios e o comunismo para o mundo moderno, todos os três, primeiramente, para lutar contra Jesus Cristo e o Cristianismo e, então, enviar almas para o inferno.
Um livro que todos os católicos deveriam ler, os que querem defender a Igreja contra o islã, a maçonaria e o comunismo, agora globalismo, é Complô Contra a Igreja, de Maurice Pinay. O livro foi escrito pouco antes do Vaticano II para ser posto nas mãos de todos os padres conciliares e alertá-los sobre o grande perigo no qual a Igreja se encontraria no Concílio. Efetivamente. Os padres do Concílio acabaram por louvar o islã (Unitatis Redintegratio), adotar princípios maçônicos (Dignitatis Humanae) e nunca mencionar, e menos ainda condenar, o maléfico sistema comunista. Eis como em seu capítulo “Antissemitismo e Cristianismo”, Maurice Pinay analisa a traição da palavra “antissemitismo”:
Ao longo dos tempos, os judeus sempre utilizaram palavras vagas com uma gama de significados, escreve o autor, para emboscar as mentes gentias e impedi-las de se defenderem contra as manobras judaicas em direção à dominação do mundo nessa guerra de dois mil anos contra o Cristianismo, guerra que ele cuidadosamente documenta ao longo de todo o livro. Assim, num primeiro estágio, por meio de três argumentos, eles procuram persuadir os líderes gentios a condenarem o “antissemitismo” no primeiro sentido mencionado acima, de oposição a todos e a tudo o que é judeu: em primeiro lugar, Cristo, estabelecendo a igualdade de todos os homens diante de Deus, condenou qualquer degradação de toda uma raça; em segundo lugar, Cristo disse a todos os homens para “amarem-se uns aos outros”; em terceiro lugar, Cristo e sua Mãe eram ambos judeus.
Mas, num segundo estágio, os judeus, tendo já obtido dos gentios a condenação de um vago “antissemitismo”, prosseguem dando à palavra um significado bem diferente, o segundo sentido mencionado acima, de toda e qualquer oposição a tudo o que os judeus façam. Assim, são “antissemitas”: todos os patriotas que exercem seus direitos de autodefesa contra a subversão judaica em seus países; todos os defensores da família contra os erros e os vícios de toda sorte fomentados por judeus para dissolvê-la (como o aborto e a pornografia); todos os católicos que defendem sua santa religião contra toda forma de corrupção que é aberta ou secretamente promovida por judeus para destruí-la; todos os que dizem a verdade ao desmascarar os judeus como os criadores da maçonaria e do comunismo (agora do globalismo, do feminismo, etc.); e todas as pessoas em geral que se opõem à subversão judaica da Igreja e da civilização cristã. E pelo controle que possuem da política, das finanças, dos filmes e de tudo mais por meio de sua mídia, os judeus seguem dando tal carga elétrica nesta única palavra: “antissemita”, que já é suficiente para eletrocutar qualquer um que ela toque.
Mas quem foi tolo o suficiente para tê-los permitido controlar a política e as finanças? Quem os permitiu virtualmente monopolizar a indústria cinematográfica e os meios de comunicação? Quem pensa que é inteligente rejeitar toda censura e agora está cooperando com eles, permitindo que censurem a internet? Liberais gentios, em todos os casos, que estão sendo escravizados, a cada minuto, na Nova Ordem Mundial dos judeus. Doutor, cura-te a ti mesmo! Para aquele que lê seus jornais e assiste aos seus programas de televisão, tem outro a quem culpar mais que a si mesmo, por deixar que eles controlem sua mente e sua civilização?
Católicos, leiam Complô Contra a Igreja. Se alguém lhes está acusando de serem “antissemitas”, é bem provável que vocês tenham razão para se orgulhar. ”
(Mons. Richard Williamson, “Anti-Semitism” Trickery)

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domingo, 22 de abril de 2018

Uma acorde que desestabilizou toda a música


“A uma estrutura objetiva da alma humana corresponde uma estrutura objetiva da música. Ambas podem ser perturbadas pelas opções discordantes dos homens; mas o livre arbítrio subjetivo não pode mudar estas estruturas, nem sua correspondência recíproca. Não é senso comum que assim como é corrente a música suave nos supermercados para estimular as mulheres a comprar, se executa música vigorosa no exército para incitar os homens a marchar? A mercadotecnia e a milícia são atividades demasiado reais para permitir que nelas interfiram as fantasias do liberalismo.
Ainda assim, os liberais fantasiam. Daí, sem dúvida, a atual produção de “Tristão e Isolda” no Covent Garden, que se esforça em “desconstruir” a obra-prima de Wagner, como se descreveu nos Comentários Eleison da semana anterior. No entanto, um artigo de duas páginas incluído nas notas do programa para a mesma produção ilustra a correspondência objetiva entre classes de música e classes de reações humanas. Quisera poder citá-lo todo, mas não se assustem com os detalhes técnicos, leitores, porque estes são precisamente os que provam o ponto.
O artigo foi tomado do livro “Vorhang Auf!” (“Levante-se o Pano!”), de um maestro alemão que ainda vive: Ingo Metzmacher. Centra-se no famoso “Acorde de Tristão”, que aparece pela primeira vez no terceiro compasso do prelúdio. O acorde consiste de um trítono (ou quarta aumentada) fá e si abaixo do dó central (dó4) e acima dele, uma quarta: ré sustenido e sol sustenido. Neste acorde, diz o autor, há uma tremenda tensão interna em busca de uma resolução, mas nas quatro vezes que este acorde aparece nos primeiros 14 compassos do prelúdio, só se resolve na 7ª dominante; um acorde irresoluto de per si e que clama por uma resolução. E quando ao final alcança um acorde estável em fá maior no compasso 18, imediatamente é desestabilizado por uma nota baixa elevando-se um semitom meio compasso adiante, e assim sucessivamente.
Os semitons são de fato a chave, diz Metzmacher, do novo sistema harmônico inventado por Wagner em “Tristão” para expressar o anelo ilimitado do amor romântico. Os semitons “agem como um vírus; não há som que esteja a salvo deles e não há nota que possa estar certa de que não variará para cima ou para baixo.” Os acordes assim fracionados continuamente, reparados e imediatamente fracionados outra vez, constituem uma procissão implacável de estados de tensão irresoluta, que corresponde perfeitamente em música ao desejo mútuo dos amantes, “crescendo imensuravelmente como um resultado da impossibilidade de encontrar-se plenamente.
Mas Metzmacher assinala o preço que se há de pagar: a música baseada no sistema de claves, uma mescla estruturada de semitons com tons plenos, “toma sua força vital de uma habilidade de dar-nos com uma clave particular a sensação de estar em casa.” Pelo contrário, com o sistema de Tristão, “nunca podemos estar certos de que um sentimento seguro não é na realidade uma decepção.” Assim, o acorde de Tristão “marca um ponto de inflexão na história não só da música, mas de toda a humanidade.” Metzmacher entenderia bem o velho provérbio chinês: “quando a modalidade da música muda, os muros da cidade tremem.
Tal como a música tonal subvertida de “Tristão”, assim talvez também esse produtor do Covent Garden tenha tentado subverter “Tristão”. Onde então se detém a desconstrução da vida e da música? Resposta não wagneriana: Nas verdadeiras celebrações da Missa! Com a Nova Missa Maçônica, os verdadeiros católicos nunca se sentirão em casa.”
(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, “Tristan” - Chord)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Mons. Williamson sobre o valor da cultura não-católica


“Uma leitora dos “Comentários” questiona novamente o valor da cultura não católica, atacando-os por causa dos elogios a Wagner (EC 9) e a T.S. Eliot (EC 406, 411). Para ela, T.S. Eliot deve ser rejeitado como um protestante, ao passo que Wagner é um diabo jacobino apaixonado pelo budismo, cuja música está carregada de impureza gnóstica. Veja, ambos, Eliot e Wagner, têm suas faltas, graves faltas quando mensuradas em relação à plenitude da verdade católica, como os “Comentários” mencionados acima apontam. Entretanto, em nossa época doentia eles têm sua utilidade, a qual pode ser resumida pelas palavras atribuídas a Santo Agostinho: “Toda verdade pertence a nós, cristãos”.
Eliot e Wagner pertencem à “cultura” de outrora. Para nossa finalidade, definiremos cultura como as histórias, a música e as imagens que homens de todas as épocas necessitam para nutrir suas mentes e seus corações. Assim definida, a cultura reflete e revela, ensina e molda. Reflete porque é o produto de algum escritor, músico ou artista que tem o talento de dar expressão ao que se passa em sua alma e na de seus contemporâneos. Se foi popular em seu tempo, a cultura revelou parte do que acontecia em suas almas. Se se tornou um clássico a partir daí, como Eliot e Wagner, é porque reflete e revela parte do que acontece nas almas de homens de todos os tempos. Assim, da extrema pobreza de sua formação unitarista, Eliot foi capaz de desenhar seu assustador retrato do homem moderno, enquanto Wagner, para além de qualquer budismo ou gnosticismo, à custa de um imenso talento preencheu suas óperas com uma riqueza de verdadeira psicologia humana que milhares de comentadores não pararam de interpretar desde então.
A cultura também molda e ensina porque o escritor, ou o músico, ou o artista, dá expressão e forma a movimentos até então informes, nas mentes e nos corações de seus contemporâneos. Shelley chamou os poetas “os legisladores não reconhecidos do mundo”. Elvis Presley e os Beatles tiveram enorme influência sobre a juventude moderna, e sobre as gerações seguintes. Picasso quase criou a arte moderna e, em grande parte, projetou o modo como os modernos visualizam o mundo a seu redor. Esses exemplos modernos da grande influência da literatura, da música e da arte sobre os seres humanos raramente podem ser apreciados porque o homem moderno é deveras ímpio, e há nele pouco que valha a pena refletir ou expressar. Contudo, a imensa influência não pode ser negada.
Em resumo, a cultura é baseada e advinda das almas dos homens. E a Igreja Católica trabalha para a salvação dessas almas. Então, como poderia negligenciar a cultura? Seus próprios escritores direcionaram os pensamentos dos homens, e seus artistas e seus músicos preencheram suas igrejas com beleza, a fim de elevar suas almas a Deus, desde o início da Igreja. “É claro”, alguém poderá objetar, “que isto é verdade em relação à cultura católica, mas nem Eliot nem Wagner foram católicos. Então, que serventia têm para a Igreja?”
No homem, há três coisas: a graça, o pecado e a natureza. Proveniente de Deus, nossa natureza básica somente pode ser boa, mas, como foi maculada pelo pecado original, também é fraca e inclinada ao mal. A natureza é como o campo de batalha da eterna guerra entre a graça e o pecado, que lutam para possuí-la. A graça eleva e cura a natureza. O pecado a derruba. Eis a luta sem fim. A Eliot e a Wagner pode ter faltado a graça, mas Deus lhes permitiu serem mestres da natureza. A Igreja é a comandante-chefe no que diz respeito à salvação das almas. Como ela poderia falhar em estudar o campo de batalha e em extrair todos os possíveis benefícios dos mestres da natureza, para conhecer as almas do tempo e ensiná-las?”
(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, Again, Culture)

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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Naturalismo condenável


“‘Sou um homem. Sustento-me. Tenho uma mente e uma vontade, e um senso de dever. Posso levar uma vida decente, mesmo nobre, no nível natural, muito acima do simples materialismo. Agora vem você, como católico, e me fala de uma vida sobrenatural, sobre-humana, superior à vida natural, que requer virtudes sobrenaturais para ser vivida. Você diz-me que ela é uma vida muito superior à vida natural, tornada possível por um Deus Encarnado, e que promete uma bem-aventurança inimaginável. Pois bem, tudo isso está muito bem, mas, honestamente, eu acho que a natureza humana é suficiente: nem a vida de um anjo nem a vida de uma besta. Não quero nem que o Céu venha nem as exigências que ele impõe aqui na terra. Eu dispenso esse benefício e sua carga. Contentar-me-ei com uma vida natural decente, que Deus me recompensará com um pós-morte natural decente.’
Foi assim que o Cardeal Pie (1815-1880) pôs na boca de muitos cidadãos retos e respeitáveis de meados do século XIX o grave erro do naturalismo, que estava então enviando, e tem enviado desde então, um grande número de almas para o Inferno. O naturalismo é a negação ou, como aqui, a recusa, de toda a ordem sobrenatural. A natureza é tudo, ou é tudo o que eu quero. Nada acima da natureza existe, ou se existe, eu polidamente dispenso. Leão XIII, em sua Encíclica, denunciou o naturalismo como sendo o erro essencial da Maçonaria (ver a Humanum Genus). O naturalismo é o grande erro de Hollywood, que dificilmente é percebido, porque todos nós crescemos acostumados ao mundo moderno tal como moldado pelos maçons, e um dos princípios destes é estar em toda parte, mas sem nunca ser visto. O Cardeal Pie contestou este respeitável cidadão com três argumentos:
Em primeiro lugar, Deus é o Criador e o Soberano Senhor do homem, criatura Sua. Havendo criado o homem natural que sem dúvida pertence à ordem natural (o mundo é presente de Deus ao homem). De fato, Deus permitiu que o homem entrasse na ordem sobrenatural por um ato de amor que o homem não tem direito de recusar, porque o presente e o amor são imensos. Assim, Deus faz do benefício uma obrigação, sob severa penalidade em caso de recusa do benefício e de revolta contra o amor. A nobreza de participar da própria natureza de Deus por Seu presente da graça sobrenatural constitui uma obrigação tal, que aquele que se recusa a se comportar como um filho será tratado como um escravo.
Em segundo lugar, a própria razão prova que Deus Se revelou através de Seu Filho, Jesus Cristo. Se Deus revela, eu devo ver. Pois bem, Seu Filho Encarnado revelou que recusar crer é ser condenado (Mc 16, 16). O Pai deu todo juízo ao Filho (Jo 5, 22-23). Todo joelho será dobrado ante Jesus (Fl 2, 9-11). Cada pensamento deve submeter-se a Jesus (II Cor 10, 4-6). Todas as coisas estão resumidas em Jesus (Ef 1, 10-12; Hb 2, 8). Não há outro nome sob o Céu pelo qual nós podemos ser salvos que não o de Jesus (At 4, 11-12). Santo Agostinho, sobre João 15, diz que cada um ou está ligado a Cristo como o sarmento à videira, e então sustenta o fruto, ou está separado dela, e então é lançado ao fogo. Videira ou fogo! Tu não queres o fogo? Agarra-te à videira!
Em terceiro lugar, levar uma vida natural verdadeiramente decente sem a graça sobrenatural é impossível. O homem decaído é fraco de mente e de vontade. Na prática, o Cardeal pergunta: quantos ‘cidadãos decentes e respeitáveis’ sem a graça de Deus são capazes de resistir a toda tentação? Durante o dia eles comportam-se decentemente no trabalho, mas e durante a noite...? Eles seguem o nobre Platão em público, mas em privado seguem o buscador de prazer Epicuro. ‘Admita, senhor’, adverte o Cardeal: ‘Aos olhos dos homens tu podes ter sido sempre muito correto, mas não aos teus próprios olhos, e se não há uma gota do Sangue de Cristo em tua alma, tu estás-te dirigindo para o castigo’.”
(Mons. Richard Williamson, Damnable Naturalism)

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terça-feira, 21 de março de 2017

Bom senso sobre a vacância da Sé

I
“Os sacerdotes Dominicanos de Avrileé, França, fizeram a todos nós um grande favor ao republicar as considerações sobre a Sé vacante de Roma escritas há uns quatrocentos anos por um famoso teólogo tomista da Espanha, João de Santo Tomás (1589-1644). Por ser um fiel sucessor de Santo Tomás de Aquino, ele se beneficia daquela sabedoria superior da Idade Média, época em que os teólogos podiam medir os homens por Deus ao invés de medir Deus pelos homens, uma tendência que começou como uma necessidade (se as almas não podiam mais tomar a penicilina medieval, teriam de tomar um remédio menos eficaz), mas que culminou no Vaticano II. Eis aqui, de forma bem resumida, as principais ideias de João de Santo Tomás sobre a deposição de um Papa:
I - Pode um Papa ser deposto?
Reposta: sim, pois os católicos são obrigados a se separar dos hereges depois destes terem sido advertidos (Tt 3, 10). Além disso, um Papa herético põe toda a Igreja em um estado de legítima defesa. Mas o Papa deve ser primeiro advertido tão oficialmente quanto seja possível, para que possa se retratar. Também sua heresia deve ser pública, e declarada tão oficialmente quanto seja possível, para evitar confusão generalizada entre os católicos, vinculados entre si pela obediência.
II - Por quem ele deve ser oficialmente declarado herege?
Resposta: não pelos Cardeais, porque embora eles possam eleger um Papa, não podem depor nenhum, porque é a Igreja Universal que é ameaçada por um Papa herético, e então a maior autoridade universal possível da Igreja é a única que pode depô-lo, a saber, um Concílio da Igreja composto de um quorum de todos os Cardeais e Bispos da Igreja. Estes poderiam ser convocados não autorizadamente (o que só o Papa pode fazer), mas entre eles.
III - Por qual autoridade poderia um Concílio da Igreja depor o Papa?
(Aqui está a principal dificuldade, porque Cristo dá ao Papa poder supremo sobre toda a Igreja, sem exceção, tal como o Vaticano I definiu em 1870. Já João de Santo Tomás deu argumentos de autoridade, razão e Direito Canônico para provar esse supremo poder do Papa. Então, como pode um Concílio, sendo inferior ao Papa, ainda assim depô-lo? João de Santo Tomás adota a solução fornecida por outro famoso teólogo dominicano, Tomás Caetano (1469-1534). A deposição do Papa por parte da Igreja cairia não sobre o Papa enquanto Papa, mas sobre a ligação entre o homem e seu Papado. Isso pode parecer um tanto sutil, mas é lógico.)
Por um lado, nem mesmo o Concílio da Igreja tem autoridade sobre o Papa; mas por outro lado, a Igreja é obrigada a evitar os hereges e a proteger o rebanho. Portanto, como em um Conclave os Cardeais são os ministros de Cristo para vincular esse homem ao Papado, mas somente Cristo dá a ele sua autoridade papal, assim o Concílio da Igreja seria por sua declaração solene os ministros de Cristo para desvincular esse herege do Papado, mas somente Cristo, por sua autoridade divina acima do Papa, poderia autorizadamente depô-lo. Em outras palavras, o Concílio da Igreja deporia o Papa não autorizadamente, mas apenas ministerialmente. João de Santo Tomás confirma esta conclusão com base no Direito Canônico da Igreja, que afirma em muitos lugares que somente Deus pode depor o Papa, mas que a Igreja pode julgar sua heresia.
Infelizmente, como assinalam os Dominicanos de Avrilée, quase todos os Cardeais e Bispos da Igreja hoje estão tão infectados pelo modernismo que não há esperança humana de um Concílio da Igreja que veja de modo claro o bastante para condenar o modernismo dos Papas conciliares. Nós podemos apenas orar e esperar pela solução divina, que virá na boa hora de Deus. A seguir: não estaria um Papa automaticamente deposto por uma simples heresia sua?”
II
“Com respeito à deposição de um Papa herege, os Dominicanos Tradicionais de Avrillé, na França, nos prestaram um grande favor ao publicar não apenas as considerações clássicas de João de Santo Tomás (cf. CE 405), mas também as de outros teólogos proeminentes. Em resumo, as melhores mentes da Igreja ensinam que um argumento simples e hoje em dia popular, a saber, o de que um Papa herege não pode ser membro da Igreja e, portanto, muito menos seu chefe, é exageradamente simples. Ainda resumindo, há mais no Papa do que apenas o indivíduo católico, quem, ao cair em heresia, perde a fé e com ela sua condição de membro da Igreja. Para a Igreja, o Papa é muito mais do que um indivíduo católico. Para clarear, apresentaremos os argumentos destes teólogos na forma de perguntas e respostas:
Antes de tudo, é possível que um Papa caia em heresia?
Se ele emprega todas as quatro condições de seu Magistério Extraordinário, não pode ensinar heresia; mas que ele pode pessoalmente cair em heresia, é a opinião mais provável, ao menos de teólogos antigos.
Então, se ele cai em heresia, isto não o impede de continuar a ser membro da Igreja?
Como uma pessoa católica individual, sim; mas como Papa, não necessariamente, porque o Papa é muito mais do que apenas um indivíduo católico. Como disse Santo Agostinho, o sacerdote é católico para ele mesmo, mas é sacerdote para os outros. O Papa é Papa para toda a Igreja.
Mas suponha que a grande maioria dos católicos possa ver que ele é um herege, por estar óbvio. Sua heresia, nesse caso, não o impossibilitaria de continuar a ser Papa?
Não, porque ainda que sua heresia seja óbvia, muitos católicos ainda podem negá-la – por exemplo, por “piedade” para com o Papa –, e assim, para evitar que surja confusão em toda a Igreja, uma declaração oficial da heresia do Papa seria necessária para manter os católicos unidos. Tal declaração teria de vir de um Concílio da Igreja, convocado para este propósito.
Mas se a heresia fosse pública e óbvia, não é certo que seria suficiente para depô-lo?
Não, porque, em primeiro lugar, todo herege deve ser oficialmente advertido antes de ser deposto, para que possa se retratar de sua heresia. E em segundo lugar, seja na Igreja ou no Estado, todo oficial superior está servindo ao bem comum, e para o bem comum ele deve permanecer no ofício até que seja oficialmente deposto. Então, tal como um bispo permanece no ofício até que seja deposto pelo Papa, assim o Papa permanece no ofício até que a declaração oficial de sua heresia por um Concílio da Igreja faça com que Cristo o deponha (CE 405).
Mas, se um herege não é um membro da Igreja, como pode ele ser seu chefe, o membro mais importante?
Porque sua condição particular de membro é uma coisa diferente de sua chefatura oficial. Por sua condição particular de membro ele recebe santificação da Igreja. Por sua chefatura oficial, ele dá governo oficial à Igreja. Ao cair em heresia, ele deixa de ser um membro vivo da Igreja, é verdade, mas nem por isso ele deixa de ser capaz, mesmo como um membro morto, de governar a Igreja. Sua condição de membro da Igreja pela fé e caridade é incompatível com a heresia, mas seu governo da Igreja por sua jurisdição oficial, que não exige fé nem caridade, é compatível com heresia.
Mas, por sua heresia, um antigo Papa jogou fora seu Papado!
Pessoalmente e em privado, isso é verdade, mas não é certo oficialmente e em público, até que um Concílio da Igreja tenha tornado a sua heresia não apenas pública, mas também oficial. Até então o Papa deve ser tratado como Papa, porque para a tranqüilidade e o bem comum da Igreja, Cristo mantém Sua jurisdição.”
(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, Vacancy Sense)

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sábado, 17 de dezembro de 2016

A eleição de Trump


“A coisa essencial a dizer sobre a eleição no mês passado de Donald Trump como o próximo presidente dos Estados Unidos é que é uma suspensão temporária dada por Deus depois de anos e anos de governo liberal, mas a menos que o próprio povo americano se volte seriamente para o Deus Todo-Poderoso, então essa suspensão será varrida por um retorno dos liberais que se dará com toda a força para destruir os Estados Unidos de uma vez por todas, tal como Hilary Clinton faria se tivesse sido eleita.
Ora, é verdade que muitas pessoas hoje não pensam na política a relacionando a Deus Todo-Poderoso, mas esse é exatamente o problema. Excluí-Lo da vida, especialmente da política, tem sido uma cruzada para maçons e liberais desde o final do século XVIII, que foi deles. O libertar-se de Deus tem sido a cruzada de sua religião substituta, o humanismo secular. Do mesmo modo, no século XX, o comunismo com ou sem este nome triunfou contra a natureza em todo o mundo porque age como uma religião, sendo, como diz Pio XI, o messianismo do materialismo. E o liberalismo e o comunismo são a razão pela qual todo o mundo ocidental se tem inclinado para a esquerda por centenas de anos.
E isso explica sem dúvida por que um grande número de eleitores na eleição americana votou na candidata que perdeu. Ela era conhecida em toda a nação por suas mentiras, imoralidades e traições. Seu registro criminal era notório, incluindo a suspeita de ter sido responsável com seu marido pelo assassinato de mais de cinquenta homens e mulheres que se puseram no caminho de sua ambição e de suas carreiras. Como alguém medianamente decente poderia ter até mesmo pensado em votar nela, e que dizer da metade dos americanos ter votado (ela não venceu no Colégio Eleitoral)? O próprio Paul Craig Roberts, excelente comentarista da cena poltica americana, ficou perplexo com essa questão. A resposta que falta é certamente que aquela mulher encarnou a guerra contra Deus. Para os liberais, a liberdade é a sua religião. Que ela quebrou orgulhosamente todos os mandamentos de Deus foi um argumento não contra ela, mas a favor. Ela é uma santa do liberalismo.
Pois bem, seu conquistador, Donald Trump, não é, aparentemente, um homem especialmente piedoso, e ele ainda é liberal de várias maneiras – quem não é? – mas ele tem dentro de si uma boa dose daquela decência e generosidade antiquadas que costumavam ser típicas dos melhores na América e nos americanos. Portanto, ele está instintivamente contra pessoas ímpias, e depois de anos e anos de liberais presunçosos sob uma série de presidentes liberais a pisotear todos os americanos decentes, ele teve o suficiente, e entrou na política “para devolver a este país um pouco do que ele me deu”. E depois dos mesmos anos e anos do que de fato vinha sendo um sistema unipartidário, porque não havia desde o tempo do governador Wallace “um centavo de diferença entre os republicanos e os democratas”, Trump sacudiu o sistema, deu voz à frustração do povo, e uma multidão de almas decentes elegeu-o para o cargo. Mas o Sistema está furioso.
Portanto, ele deve agora pensar muito bem. Tornou-se presidente eleito com a força de instintos decentes contra a ideologia liberal. Mas isso é um êxito passageiro, porque lutar contra a ideologia com instintos é como combater tanques com uma zarabatana de atirar ervilhas. Para lutar contra uma ideologia falsa é preciso uma ideologia verdadeira e, para lutar contra a guerra a Deus é preciso paz com Deus, que dependerá dos termos de Deus e não dos homens. Ora, Deus é todo-poderoso e infinitamente bom, e pode desfazer o pior que seus inimigos podem tentar fazer contra Ele com o simples toque de Seu dedo mindinho, por assim dizer. Mas Ele não vai conceder a vitória sobre a Sinagoga de Satanás se sabe que as pessoas que está salvando vão voltar direto para Satanás. As pessoas devem afastar-se de Satanás e retornar sinceramente a Deus, que não pode ser enganado.
No mínimo o próprio Donald Trump deve orar – ACTS – com Adoração, Contrição, Ação de Graças (Thanksgiving) e Súplica. Deus tem estado com ele, para conceder essa suspensão. Incluamos todos a ele e ao Presidente Putin em nossas próprias orações, para prolongar a suspensão. De outro modo, logo ela poderá acabar.”
(Mons. Richard Williamson, Trump’s Election)

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sábado, 3 de dezembro de 2016

Cinco "dubia"


“Em um escândalo de gravidade sem precedentes mesmo no reinado escandaloso do Papa Francisco como Papa Católico desde 2013, quando foi desafiado por quatro honrados Cardeais em sua aparente negação da própria base do ensino da Igreja sobre a moral, ele acaba de dar respostas em público que praticamente afirmam a liberdade do homem em relação à lei moral do Deus Todo-Poderoso. Com essa afirmação papal da religião Conciliar do homem em oposição à religião católica de Deus, um cisma na Igreja Universal é iminente. Durante meio século desde o Vaticano II, os papas conciliares conseguiram manter-se, de certa forma, como chefes de duas religiões opostas, mas essa contradição não poderia durar indefinidamente e logo deveria resultar em uma divisão.
Em 2014 e 2015 Francisco realizou Sínodos em Roma para consultar os bispos do mundo sobre questões relativas à família humana. Em 19 de março deste ano ele publicou sua Exortação Apostólica pós-sinodal sobre “Amor na Família”, cujo oitavo de nove capítulos suscitou controvérsias desde o começo. Em 15 de setembro quatro Cardeais em particular enviaram ao Papa uma carta privada e perfeitamente respeitosa na qual pediram a ele, como Sumo Pontífice, que esclarecesse cinco “dubia” ou pontos duvidosos de doutrina deixados pouco claros na Exortação. Aqui está a essência dos cinco pontos:
1. Da Exortação nº 305, uma pessoa casada vivendo como marido e mulher com uma pessoa que não seja seu cônjuge legítimo a partir de agora pode receber a Absolvição e a Comunhão sacramentais enquanto eles continuam a viver em seu estado semimatrimonial?
2. Da nº 304, alguém precisa acreditar que existam ainda normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus, e que são sem exceção obrigatórias?
3. Da nº 301, alguém pode, ainda, dizer que uma pessoa vivendo em violação aos mandamentos de Deus, por exemplo, em adultério, está em uma situação objetiva de pecado habitual grave?
4. Da nº 302, alguém pode, ainda, dizer que as circunstâncias ou intenções em torno de um ato intrinsecamente mau em si mesmo nunca podem mudá-lo para que seja subjetivamente bom, ou aceitável como uma escolha?
5. Da nº 303, ainda, devemos excluir qualquer papel criador da consciência, e então esta consciência nunca poderá autorizar exceções às normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus por seu objeto?
Para estas cinco questões de sim-ou-não a resposta da Igreja Católica de Seu Divino Senhor em diante sempre foi clara e nunca mudou: a Comunhão não pode ser dada aos adúlteros; há normas morais absolutas; tal “pecado habitual grave” existe; as boas intenções não podem tornar atos maus em bons; a consciência não pode fazer com que atos maus sejam legítimos. Em outras palavras, para as cinco perguntas de sim ou não, preto ou branco, a resposta da Igreja sempre foi: 1. Não, 2. Sim, 3. Sim, 4. Sim, 5. Sim.
Em 16 de novembro, há apenas dez dias, os quatro Cardeais escreveram sua carta pública (cf. Mt. XVIII, 15-17). Em 18 de novembro, em uma entrevista concedida ao periódico italiano Avvenire, o Papa Francisco respondeu o exato oposto das questões sim-ou-não: 1. Sim, 2. Não, 3. Não, 4. Não, 5. Não. (Ele afirmou que cada vez que “tais coisas não sejam pretas ou brancas, somos chamados a discernir”, mas estava meramente tentando confundir as questões imutáveis de princípio com questões instáveis de aplicação de princípios que vêm após as questões de princípio).
Todo crédito aos quatro Cardeais por obterem luz e verdade para muitas ovelhas confusas que desejam entrar no Paraíso: Brandmüller, Burke, Caffara e Meisner. Eles podem estar imersos no Novus Ordo, mas obviamente não perderam toda a coragem ou senso de seu dever. Não se pode questionar que eles tenham agido de outra forma que não com o melhor dos motivos para pressionar o Papa a fazer-se a si mesmo mais claro. E onde essa clareza deixa a Igreja? Deve ser à beira do cisma.”
(Mons. Richard Williamson, Five “Dubia”)

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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O retorno do caos


“Já foi citado nestes “Comentários” um fascinante parágrafo do livro Iota Unum, escrito pelo leigo italiano Romano Amerio e muito admirado por Dom Lefebvre. Amerio desmonta magistralmente em sua obra todos os erros doutrinários do Vaticano II. Na terceira parte do capítulo 42 ele escreve: (1) Se a crise atual tende a desnaturar a Igreja, e se (2) essa tendência é interna à Igreja e não provém de um ataque externo, como o foi em outras ocasiões, então (3) nós estamos caminhando para uma escuridão disforme que impossibilitará o diagnóstico e o prognóstico, e (4) mediante a qual não haverá outro refúgio para o homem senão o silêncio (edição espanhola em e-book, pg. 560; edição inglesa, pg. 713; edição francesa, pg. 579; edição italiana, pg. 594).
Ao se refletir sobre ele, vê-se que contém palavras fortes. Amerio está a dizer que nos encontramos à beira do caos, porque fica claro que (1) a atual crise tanto tende a desnaturar a Igreja, bem como (2) é interna à Igreja, quando o próprio Papa faz declarações tais como: “Não há um Deus católico” e “É preciso que os homossexuais sejam reavaliados”; afirmações cuja deliberada ambigüidade abre as portas para a inversão de todos os dogmas e da moral católica. Mas por que (3) o diagnóstico e o prognóstico católicos se tornarão impossíveis, e (4) como pode não haver mais nada por ser dito? Como pode Amerio chegar a uma conclusão tão sombria?
(3) Porque Nosso Senhor disse: “Eu sou a luz do mundo. Aquele que me segue, não andará nas trevas” (Jo 8, 12), o que sugere fortemente que a massa da população mundial que não O segue já está nas trevas. Ele também diz àqueles que o seguem: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 14), o que sugere fortemente que se o número de católicos convictos reduz a cada dia, então as trevas na Igreja e no mundo estão a se intensificar dia após dia. Tudo bem, alguém pode dizer, mas “trevas” é apenas uma metáfora. Por que o diagnóstico e o prognóstico católicos serão impossíveis de ser feitos?
(3) Porque mais e mais pessoas hoje estão incapacitadas de pensar. Porque desde que Nosso Senhor por meio de Sua Encarnação trouxe a graça sobrenatural para resgatar a natureza ferida e em combate, essa natureza não mais é capaz de se manter em pé sem essa graça. Então, quando os homens viram as costas para Jesus Cristo e para Deus, eles estão a minar a sua própria natureza e a repudiar o senso comum com o qual são dotados pela natureza para pensar, tanto no que diz respeito à relação do conteúdo de seu pensamento com a realidade, quanto no tocante à forma de proceder em conformidade com a lógica. Eles querem se libertar da realidade e da lógica para desafiar Deus, a fim de refazerem o mundo de acordo com suas fantasias.
Segue-se a isso que se Jesus Cristo veio para o resgate da humanidade e da natureza humana através do estabelecimento de Sua Igreja Católica, e se pelo Vaticano II os gentios também acabaram por repudiar esta Igreja, então o processo de laceração do homem por si mesmo, de sua natureza e de seu pensamento deu um passo tão grande com o Concílio, que se tornou virtualmente irreversível. Aqui está, tal como Amerio vê, implícito no Vaticano II, uma “escuridão disforme”, da qual o caos beligerante de opiniões que hoje orgulhosamente cambalhotam na Internet serve como um exemplo e uma antecipação.
Mas, (4) por que não gritar nessa escuridão? Por que “não há outro refúgio para o homem senão o silêncio”? Porque em um estrondo caótico a Verdade simplesmente não pode ser ouvida, exceto, pode-se acrescentar, por umas poucas almas que Deus predestinou para ouvi-la (At 13, 48). Essas almas são eleitas por Deus, não pelos homens, e podem vir dos ambientes mais surpreendentes. Elas não gostam da “escuridão disforme”, e Nosso Senhor as leva para o Pai (Jo 14, 6). Serão um importante auxílio para a Igreja e uma esperança para o mundo.”
(Mons. Richard Williamson, Chaos Returned)

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

As bênçãos e as maldições dos judeus


“Se há algum católico que procure por uma explicação mais profunda sobre a loucura que se segue em Gaza, deveria ler Moisés no Antigo Testamento. Ele diz, por exemplo, que se os israelitas não mantiverem os mandamentos de Deus, serão feridos com “loucura, cegueira e embotamento do espírito” (Dt 28, 28), dentre muitas outras maldições. Como disse o Pe. Meinvielle, os judeus são uma raça teológica, e não podem escapar de seu destino teológico – eles estão ligados a Deus como nenhum outro povo na terra.
No Deuteronômio, Moisés dá aos israelitas suas últimas instruções solenes antes de sua morte e da entrada deles na Terra Prometida. No capítulo 28 (que tem paralelo com Levíticos XXVI), Moisés deixa bem claro o espírito de Jeová (ou Yahweh), o Deus do Antigo Testamento, o mesmo Deus do Novo Testamento: os judeus serão especialmente abençoados (v. 1-14) se obedecerem ao único Deus verdadeiro, e serão especialmente amaldiçoados (v. 15-68) se desobedecerem a Ele. De qualquer modo, eles são uma raça especial, à qual é dado um conhecimento especial do verdadeiro Deus para uma missão especial que devem cumprir para Ele, com uma recompensa especial ou castigo especial recebidos Dele, dependendo de como cumpram essa missão.
Não é de se estranhar que os judeus pensem que sejam especiais! Entre as bênçãos listadas por Moisés, Deus os elevará “acima de todas as nações” (v.1); “os confirmará como um povo consagrado a Ele” (v.9); para ser “posto à frente, e não na cauda” (v. 13). Mas é de se notar que em cada um destes três versículos Moisés faz a superioridade dos israelitas dependente de sua obediência a Deus: se eles “ouvirem a voz de Deus e mantiverem todos os Seus mandamentos” (v.1); se eles “ouvirem Seus mandamentos e andarem pelos Seus caminhos” (v.9); se eles “obedecerem os mandamentos de Deus, os observarem e os porem em prática” (v.13).
Por outro lado, se os israelitas tentarem ser a nação superior segundo seus próprios termos, desobedecendo a Deus (v. 15), então uma infinidade de maldições cairá sobre eles (v. 16-68), e serão desprezados, odiados e espezinhados por todas as nações: serão “dispersados por todos os reinos da terra” (v. 28); serão feridos com “loucura, cegueira e embotamento do espírito” (v. 28 – pensem em Gaza!); o estrangeiro que habita no meio deles “se elevará cada vez mais”, e estará na frente, e eles estarão na cauda (v. 43-44); o inimigo porá um “jugo de ferro” sobre seu pescoço (v. 48); o Senhor Deus os afligirá com todos os tipos de sofrimento (v. 59-61), e eles serão “tirados da terra que entraram para possuir” (v. 63). E sofrerão tudo isso por não haverem mantido e cumprido as palavras da lei de Deus (v. 58).
Quem dera se todas essas bênçãos e maldições anunciadas pelo grande Moisés pudessem fazer com que os israelitas reconhecessem e servissem ao seu Messias e Deus Encarnado quando Ele veio, como fora profetizado por Moisés (Dt 18, 15-18)! Não! Em vez disso, eles o crucificaram, e já por cerca de dois mil anos vêm trazendo em suas cabeças todas as maldições de Moisés. Eles fizeram deles mesmos a mais desprezada e oprimida nação da terra, e perderam seu direito à Terra Prometida, sendo expulsos e dispersos por toda parte desde a destruição de Jerusalém em 70 d.C.
Nem a recuperação de sua posse da Terra Santa significa que a maldição está sendo levantada, pois eles estão fazendo isso nos seus próprios termos, e não nos de Deus, e então essa retomada se torna parte da maldição. Como disse Platão (Górgias), é melhor sofrer do que cometer uma injustiça, e, portanto, segundo a realidade espiritual, deve-se ter ainda mais compaixão pelos israelenses do que pelos palestinos. Paciência. Nós “todos temos pecados e precisamos da glória de Deus” (Rm 3, 22-23).”
(Mons. Richard Williamson, Moses Explains)

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A Igreja apodrecida pelo liberalismo


“A expressão “igreja Conciliar” reflete claramente uma realidade, algo real, a saber, a massa de pessoas e instituições que afirmam ser católicas, mas que na realidade estão a deslizar para a prática da nova religião humanista do Concílio Vaticano II. “Estão a deslizar” porque o conciliarismo, ou neomodernismo, é projetado precisamente para permitir que os católicos mantenham as aparências da Fé enquanto esvaziam a substância desta. Os católicos, no concreto, podem realizar esse processo de modo tão rápido ou tão lento quanto desejem, embora não precisem levá-lo até a sua conclusão; mas o conciliarismo, no abstrato, é totalmente oposto ao catolicismo e, se concluído, destrói tanto a Fé como a Igreja, conforme o fim para o qual foi planejado.
O processo não é difícil de se observar e de se entender, mas os liberais que hoje lideram a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, enquanto buscam a reconciliação com os conciliaristas em Roma, têm feito o melhor que podem para confundir a questão que envolve a igreja Conciliar e a Igreja Católica. Por exemplo: dirão eles que a Igreja Católica é visível, e a igreja Conciliar é a igreja visível; logo, a igreja Conciliar é a Igreja Católica – um argumento descartado anos atrás por Monsenhor Lefebvre, que o classificou como “infantil” (há muitas igrejas visíveis, e isso não faz com que sejam católicas). E igualmente infantil é o argumento pelo qual se defende que há apenas uma Igreja, e então a igreja Conciliar e a Igreja Católica devem ser uma só e a mesma (há, porém, milhares de igrejas falsas).
A verdade não é tão complicada. A Igreja Católica é um organismo vivo, é divina e humana, tal como seu Fundador, Jesus Cristo. Enquanto divina, como Sua Esposa Imaculada, ela não pode ser corrupta e nem corrompida; mas enquanto composta por seres humanos pecadores, ela pode estar, como qualquer outro organismo vivo, em estado parcial de putrefação. Assim, uma maneira simples de entender como a igreja Conciliar se relaciona com a Igreja Católica, é pensar em uma maçã em estado de putrefação.
Por um lado, a parte apodrecida pertence à maçã. Toda ela já foi a maçã. É uma corrupção da maçã, um parasita sobre a maçã, não poderia existir sem a maçã e permanece firmemente aderida à maçã, a menos que e até que caia. Do mesmo modo, o conciliarismo pertence à Igreja Católica na medida em que tudo na conciliar já foi católico. É uma corrupção da Igreja Católica, um parasita sobre a Igreja Católica, não poderia existir sem a Igreja Católica, e permanece firmemente aderido a alguma parte da Igreja Católica, a menos que e até que ela destrua essa parte, tal como foi projetada para fazer.
Por outro lado, a parte apodrecida não pertence à maçã. Nenhuma maçã foi criada para ser uma maçã apodrecida. Toda essa parte é uma transformação de alguma maçã, uma corrupção e um parasita da maçã, transformando-a em algo pior, resultando em algo muito diferente da maçã, algo que ninguém eu seu estado mental normal sonharia em comer ou em dizer que não é diferente da maçã. Do mesmo modo, o conciliarismo não pertence à Igreja Católica. É uma corrupção de algo católico, e é um parasita sobre tudo o que seja católico. Ele transforma a Igreja Católica (uma parte humana sua) em algo pior, resultando em algo essencialmente não católico, que nenhum católico em seu estado mental normal poderia chamar de católico, ou com que do mesmo modo iria querer se associar.
Em síntese, o conciliarismo é a parte apodrecida, e a “igreja Conciliar” é a única Igreja divina e humana que está sendo apodrecida em um ou outro de seus aspectos humanos. É claro que a Igreja Católica durará até o fim do mundo (Mt 28, 20), enquanto que a “igreja Conciliar” é meramente uma em uma longa lista de igrejas parasitas que surgiram ao longo dos séculos, que vivem do que elas apodrecem e apodrecem aquilo em que elas vivem. Uma praga sobre todos os liberais, confusos e que confundem!”
(Mons. Richard Williamson, “Igreja Conciliar”?)

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sexta-feira, 27 de março de 2015

Entrevista com Mons. Williamson imediatamente após a cerimônia de consagração de Mons. Faure

O senhor recebeu o apoio dos sacerdotes nesta consagração?
Sim, houve um grupo de sacerdotes da América Latina e dos Estados Unidos e outros lugares. Há sacerdotes que compreendem, não são numerosos, mas têm valor, têm a fé, e estão decididos a seguir adiante.
O que fez o senhor decidir realizar a consagração agora?
Cada dia era mais razoável diante da ameaça da guerra, que está muito próxima de nós, e por duas vezes foi evitada com a Síria e a Ucrânia, e o Ocidente delinqüente está provocando os russos e chegará o momento em que Putin dirá que já chega e atacará.
Excelência, já começaram a elevar-se as vozes que dizem que o senhor e Monsenhor Faure estão excomungados; que nos pode dizer a esse respeito?
A Verdade é mais importante que a autoridade. A autoridade existe para servir à Verdade, e as autoridades romanas abandonaram a Verdade, graças ao Concílio, e cada dia mais, desgraçadamente. Então seus castigos e suas censuras não têm peso, não têm valor.
Que qualidades considerou de Monsenhor Faure para consagrá-lo bispo?
É calmo, tem experiência, é velho, um pouco menos velho que eu, tem 73 anos, além disso é inteligente e tem a fé. Tem ademais a experiência da Revolução, porque teve que fugir da Argélia em sua juventude, perdeu tudo com esta Revolução e conheceu a traição do General De Gaulle, então compreende o mundo moderno.
Muitos dos sacerdotes jovens quase não têm experiência do mundo moderno nem da Revolução, então não compreendem perfeitamente o mal. Por exemplo, Mons. Fellay não compreende nada do que são as tentações e os perigos do Vaticano II e seu esforço por aproximar-se do mundo moderno. Não compreende, e igualmente muitos dos outros sacerdotes da Fraternidade. São demasiado jovens, e Monsenhor Faure, sendo velho e com experiência, evita esta armadilha da ignorância do que é verdadeiramente a Igreja moderna, o mundo moderno e tudo mais.
A base de Monsenhor Faure será a França. O senhor continuará visitando a América como antes?
Assim está previsto, embora os acontecimentos possam decidir outra coisa. Monsenhor Faure pode voltar à América Latina com bastante freqüência porque ali está seu coração. Provavelmente assim será.
Excelência, haverá mais consagrações?
É bem possível. Esta se fez discretamente, mas na próxima vez serão mais de um os consagrados e se publicará com antecipação.
Será de novo no Brasil?
Não, seria provavelmente na Europa. Graças a Deus tivemos o Brasil para realizar esta primeira consagração, porque está longe da Europa e longe de muitos problemas. Agora já não sou o único bispo e assim o perigo não é tão grande.
Espera da Fraternidade uma condenação a esta consagração?
Espero que não haja pois seria um mal e não desejo à Fraternidade o mal.
Um sacerdote da Fraternidade disse recentemente que a Resistência é um grupo de desequilibrados sem futuro.
Naturalmente, isso é o que disseram de Monsenhor Lefebvre. Mas não se julgam as coisas segundo as posições dos homens, pois são falíveis e podem se deixar enganar.
E se acusa também de orgulho.
Acusaram também Monsenhor Lefebvre de orgulho. Mas defender a Verdade e afirmar que a Verdade está acima de todos os homens, isso não é orgulho, é humildade. Há uma Verdade objetiva acima de nós, acima de Nosso Senhor enquanto homem, no Evangelho de São João ele disse muitas vezes, Eu não vim para fazer minha Vontade, mas a Vontade de meu Pai. Então Nosso Senhor como homem está abaixo de algo que está acima d’Ele. É humilde. E disse aos fariseus: Se Eu dissesse como vós que não conheço a Verdade, seria mentiroso. Se Eu baixasse minhas afirmações, seria mentiroso, baixar as pretensões, minhas exigências, seria levantar-me contra o Pai. As exigências, o absoluto vêm do Pai. Para todos nós, inclusive para Jesus homem.”

Original em http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br

sábado, 27 de dezembro de 2014

Mons. Richard Williamson sobre o deicídio cometido pelos judeus

“Em seu segundo volume sobre a vida de Jesus, publicado muitos meses atrás, o Papa Bento XVI fez comentários que levaram jornalistas a concluírem apressadamente que não se devia mais apontar os judeus como responsáveis por deicídio, i. e., pelo assassinato de Deus. Pior ainda, a 17 de maio, o Diretor Executivo do Secretariado da Comissão Episcopal de Relações Ecumênicas e Inter-religiosas dos Estados Unidos disse que quem quer que acuse os judeus de deicídio, em qualquer momento da história, deixa de estar em comunhão com a Igreja Católica. Ao contrário do que muitas pessoas hoje querem acreditar, é hora de lembrar, ainda que brevemente, o que a Igreja sempre costumava ensinar sobre o assassinato judicial de Jesus.
Primeiro, o assassinato de Jesus foi verdadeiramente “deicídio”, i. e., assassinato de Deus, porque Jesus foi das três Pessoas Divinas a que, para além de Sua natureza divina, assumiu uma natureza humana. Que é que foi morto na Cruz? Somente a natureza humana. Mas quem é que foi morto na Cruz em Sua natureza humana? Ninguém senão a segunda Pessoa Divina, i. e., Deus. Portanto, matou-se a Deus, e deicídio se cometeu.
Segundo, Jesus morreu na Cruz para salvar-nos a todos nós, seres humanos pecadores, de nossos pecados, e nesse sentido todos os homens foram e são motivo da Sua morte. Mas somente os judeus (líderes e povo) foram os agentes primeiros do deicídio, porque é óbvio pelos Evangelhos que o gentio que mais se envolveu nos fatos, Pôncio Pilatos, jamais teria condenado Jesus à morte se os líderes judeus não tivessem incitado o povo judeu a clamar por Sua crucifixão (Mt. XXVII, 20). Certamente os líderes instruídos foram mais culpados que o povo ignorante, diz Santo Tomás de Aquino (Summa III, 47, 5), mas todos eles bradaram juntos para que o sangue de Jesus lhes caísse sobre si e sobre seus filhos (Mt. XXVII, 25).
Terceiro, pelos menos o Papa Leão XIII considerou existir uma real solidariedade entre os judeus que clamavam pela morte de Jesus e o conjunto dos judeus dos tempos modernos. No seu Ato de Consagração do Gênero Humano ao Sagrado Coração de Jesus, não fez ele com que toda a Igreja, do fim do século XIX em diante, rezasse a Deus para que tornasse os Seus “olhos de misericórdia para os filhos daquela raça, que certa vez foram o povo escolhido de Deus: de há muito que eles clamaram sobre si o Sangue do Salvador; possa agora descer sobre eles um batismo de redenção e vida”?
Mas Leão XIII não está sozinho em observar uma tal continuidade dos judeus ao longo dos séculos. Eles mesmos não exigem hoje a terra da Palestina com o fundamento de lhes pertencer por direito concedido pelo Deus do Velho Testamento? Já existiu sobre a face da terra uma raça-povo-nação que mais orgulhosamente se reputasse idêntica através dos séculos?
Originalmente criada por Deus para ser berço do Messias, recusou-se coletivamente – que infelicidade! – a reconhecê-lo quando ele veio. Também coletivamente, embora sempre existam nobres exceções, eles se mantiveram fiéis àquela rejeição, alterando sua religião da de Abraão e Moisés e do Velho Testamento para a de Anás, Caifás e do Talmude. De maneira trágica, sua própria preparação messiânica dada por Deus levou-os a rejeitarem aquele que consideram como um falso messias. Até sua conversão no fim do mundo, como a Igreja sempre ensinou que lhes acontecerá (cf. Rom. XI, 26-27), parecem estar obrigados a escolherem continuar agindo, coletivamente, como inimigos do verdadeiro Messias.
Como é possível que Bento XVI tenha perdido verdades tão antigas?”
(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, Ancestral Pride)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ansiedade sedevacantista

“As palavras e atos do Papa Francisco desde sua eleição no início do ano passado são tão pouco católicas e tão ultrajantes, que a idéia de que os papas recentes não são verdadeiramente Papas (“sedevacantismo”) vem sendo reavivada. Notem que o Papa Francisco simplesmente expressa a loucura do Vaticano II mais ostensivamente do que seus cinco predecessores. Permanece a questão de se os seis Papas conciliares (com a possível exceção de João Paulo I) são realmente Vigários de Cristo ou não. A questão, porém, não é de primordial importância. Se eles não são Papas, a moral e a Fé católicas pelas quais eu devo “trabalhar por minha salvação com temor e tremor” (Fl 2, 12) seguem sem mudar um jota. E se eles são Papas, disto se segue que eu não posso obedecê-los enquanto estiverem afastados dessa fé e dessa moral, pois “nós devemos obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5, 29). No entanto, eu acho por bem responder a alguns argumentos dos sedevacantistas, pois há entre eles quem queira fazer da vacância na Sé de Roma um dogma no qual os católicos devem acreditar. Em minha opinião, não existe tal coisa. “Nas coisas duvidosas, a liberdade” (Agostinho).
Eu acho que a chave do problema de o sedevacantismo ser simplesmente uma expressão é que o Vaticano II foi um desastre sem precedentes em toda a história da Igreja de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, a conclusão lógica de um longo processo de decadência do clero católico que remonta ao final da Idade Média. Por um lado, a natureza divina da Igreja Católica e os princípios que governam quaisquer de suas crises, incluindo a conciliar, não podem mudar. Por outro lado, a aplicação desses princípios deve levar em consideração as circunstâncias humanas em constante mudança nas quais esses princípios operam. O atual grau de corrupção humana não tem precedente.
Pois bem, dois dos princípios imutáveis são aqueles em que, por um lado, a Igreja é indefectível, pois Nosso Senhor prometeu que os portões do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16, 18); e por outro lado, Nosso Senhor também perguntou se Ele encontrará fé na Terra em Sua Segunda Vinda (Lc 18, 8) – uma importante citação, porque claramente sugere que a Igreja estará quase que completamente deserta no fim do mundo, exatamente como ela parece estar quase completamente deserta em 2014. Pois, de fato, se nós não estamos hoje vivendo o fim do mundo, estamos certamente vivendo o ensaio geral para o fim do mundo, como Nossa Senhora de La Salete, o venerável Holzhauser e o Cardeal Billot sugeriram.
Assim, hoje, como no fim do mundo, a deserção pode ir muito longe. Porém ela não pode ir para além do poder de Deus Todo Poderoso, que garante que a Igreja nunca desaparecerá ou falhará completamente, mas pode ir tão longe quanto Deus permitir. Em outras palavras, nada precisa impedir que Sua Igreja seja destruída quase por completo. E até onde vai esse “quase por completo”? Só Deus sabe, e só o tempo poderá dizer, porque nenhum de nós homens está na mente de Deus, e apenas os fatos podem nos revelar, depois do evento, o conteúdo da mente divina. Mas Deus revela parcialmente Sua mente nas Escrituras.
Agora, quanto ao fim do mundo, muitos intérpretes do Capítulo 13, 11-17 do Apocalipse pensam que a segunda besta, que é como um cordeiro e serve ao Anticristo, representa as autoridades da Igreja, porque se essas autoridades resistissem ao Anticristo, ele nunca poderia prevalecer como as Escrituras dizem que irá. Seria então algo muito extraordinário se no ensaio geral para o fim do mundo os Vigários de Cristo falassem e se comportassem como inimigos de Cristo? Com base nesse quadro necessário, os Comentários da semana que vem proporão respostas a alguns dos principais argumentos dos sedevacantistas.
***
1. Ou se aceita todos os Papas Conciliares (como os liberais – Deus nos livre!), ou se recusa todos eles (como os sedevacantistas). Aceitá-los parte sim e parte não, é selecionar e escolher o que se deve ou não aceitar, como fez Lutero e como fazem todos os hereges (em grego, “escolhedores”).
Isso é certo se alguém seleciona e escolhe segundo a sua própria escolha pessoal, mas não é verdade se, como Monsenhor Lefebvre, se julga segundo a Tradição Católica, que pode ser encontrada no tesouro de 2000 anos de documentos magisteriais da Igreja. Nesse caso se está julgando com 260 Papas contra apenas seis, mas isto não prova a invalidade desses seis.
2. Mas os Papas conciliares têm envenenado a Fé e posto em perigo a salvação eterna de milhões e milhões de católicos. Isso é contrário à indefectibilidade da Igreja.
Na crise Ariana do século IV, o Papa Libério pôs a Fé em perigo ao condenar Santo Atanásio e apoiar os bispos arianos no Oriente. Durante algum tempo, a indefectibilidade da Igreja esteve assegurada não pelo Papa, mas por seu aparente adversário. Mas isso não quer dizer que Libério não foi Papa, nem que Atanásio o foi. De modo similar, a indefectibilidade da Igreja encontra-se atualmente nos fiéis seguidores da linha assumida por Monsenhor Lefebvre, mas isso não significa dizer que Paulo VI não foi Papa.
3. O que os bispos do mundo ensinam, em união com o Papa, é o Magistério Ordinário Universal da Igreja, que é infalível. Mas nos últimos 50 anos os bispos do mundo em união com os Papas conciliares vêm ensinando os absurdos conciliares. Portanto, esses Papas não são verdadeiros Papas.
Se o Magistério Ordinário da Igreja estivesse afastado da Tradição, ele não seria mais considerado “Ordinário”, mas do tipo mais extraordinário, pois a doutrina da Igreja não admite novidades, já que o “Universal” é tanto no tempo como no espaço. Ora, a doutrina conciliar se distancia da Tradição (por exemplo: liberdade religiosa e ecumenismo). Por isso a doutrina própria do Concílio não está sob o Magistério Ordinário Universal, e não pode servir para provar que os Papas conciliares não são Papas.
4. O Modernismo é “a síntese de todas as heresias” (São Pio X), e os Papas conciliares são todos modernistas “públicos e manifestos”, ou seja, hereges do tipo tal como os que São Roberto Belarmino declarou que não podem ser membros da Igreja, e muito menos seu chefe.
Vejam os “Comentários” da semana passada. As coisas eram muito mais claras – eram “públicas e manifestas” – na época de São Belarmino, do que elas são nos dias de hoje em meio à tamanha confusão de mentes e corações. A heresia objetiva dos Papas conciliares (ou seja, o que eles dizem) é pública e manifesta, mas não o é a sua heresia subjetiva ou formal (ou seja, sua intenção consciente e resoluta de negar o que reconhecem como dogma católico imutável). E provar sua heresia formal é algo que pode ser feito apenas por meio de uma confrontação com a autoridade doutrinal da Igreja, como, por exemplo, a Inquisição ou o Santo Ofício – chamem do que quiserem (“não importa que nome se dê a uma rosa, seu odor é sempre doce”, diz Shakespeare). Mas o Papa é a maior autoridade doutrinal, que está acima e por trás da atual Congregação para a Doutrina da Fé; como então pode ser provado que ele mesmo seja esse tipo de herege que é incapaz de ser chefe da Igreja?
5. Mas nesse caso, a Igreja está em um beco sem saída!
Novamente, vejam os “Comentários” da semana passada. As mentes dos homens estão hoje tão universalmente confusas que de tal situação só Deus pode livrá-las. De qualquer modo, essa objeção parece estar muito mais próxima de provar que Ele deve intervir (e logo!) do que provar que os confusos Papas não são Papas. Deus está nos pondo à prova, como Ele tem todo direito de fazer.”
(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, Sedevacantist Anxiety)

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sexta-feira, 26 de abril de 2013

A crise atual

I) TRAIÇÃO DOUTRINÁRIA
CONSIDERANDO
1) a) Que Dom Lefebvre disse que o maior perigo para os tradicionalistas era o de colocar-se nas mãos da Roma modernista e b) que Dom Fellay, ainda recentenmente, disse que os que querem o bem da Igreja querem que a Fraternidade São Pio X seja reconhecida oficialmente pela Roma modernista (o que é o mesmo que colocar-se nas suas mãos);
2) a) Que Dom Lefebvre disse que o que Roma está nos preparando é uma armadilha ao ofertar-nos todas as vantagens que poderíamos desejar para a regularização de nossa situação e b) que Dom Fellay disse que pensar assim atualmente é falta de realismo e de espírito sobrenatural;
3) a) Que Dom Lefebvre disse que Bento XVI (na época ainda Cardeal) procurava descristianizar o mundo e b) que Dom Fellay disse que Bento XVI leva muito a sério a situação e a vida da Igreja;
4) a) Que Dom Lefebvre disse que não podia entender-se com Bento XVI (na época ainda Cardeal) e b) que Dom Fellay está entendendo-se bastante bem com Bento XVI;
5) a) Que Dom Lefebvre disse que não devíamos colocar-nos sob a autoridade daqueles que não professam a integridade da Fé e b) que Dom Fellay disse que não querer colocarmo-nos sob a autoridade de Bento XVI (que não professa a integridade da Fé) é ter espírito cismático e sedevacantista;
6) a) Que Dom Lefebvre disse que há uma conjuração da maçonaria contra a Santa Igreja, a qual foi infiltrada por essa seita até nos mais altos graus da hierarquia e em Roma mesmo e b) que Dom Fellay não acredita ou não leva bastante a sério essas conjurações, dizendo que isso é ter uma visão da Igreja humana demais e, também, fatalista; enxergando apenas os perigos, os complôs e as dificuldades;
7) a) Que Dom Lefebvre fez um manifesto público de repúdio à reunião ecumênica de Assis, como um grave pecado do Papa contra o primeiro Mandamento de Deus e b) que Dom Fellay não fez o mesmo quando o atual Papa repetiu esse pecado em “Assis III”;
8) a) Que Dom Lefebvre disse que a liberdade religiosa patrocinada pelo Vaticano II é o auge da impiedade, o equivalente ao princípio do laicismo do Estado, significando o ateísmo do Estado e não levando em conta a diferença entre a verdade e o erro e b) que Dom Fellay disse que o Vaticano II apresenta uma liberdade religiosa que é muito limitada;
9) a) Que Dom Lefebvre disse que os documentos do Vaticano II constituem uma perversão total do espírito e que esse Concílio foi o maior desastre de todos os séculos, desde a fundação da Igreja e b) que Dom Fellay disse que na Fraternidade se estavam exagerando as heresias do Vaticano II;
10) a) Que Dom Lefebvre, em vista de sua experiência com os contatos com os membros do Vaticano, tomou a partir de 1988 uma posição mais intransigente no que se refere a um possível reconhecimento canônico da Fraternidade e b) que Dom Fellay ao citar Dom Lefebvre vem calando essa sua última posição, dando a entender que o pensamento de Dom Lefebvre sempre foi o de seus pronunciamentos anteriores a 1988.
JULGAMOS
Que o modo de falar e de agir de Dom Fellay constitui uma traição para com o legado doutrinal de Dom Lefebvre no que se refere à atitude a tomar diante da crise atual na Santa Igreja, e uma recusa de reconhecer, aceitar e assimilar a experiência de Dom Lefebvre em seus contatos com Roma.
NO ENTANTO
Alguns dirão que Dom Fellay se retratou dizendo que se havia enganado.
NÓS RESPONDEMOS
Dom Fellay não deixou muito claro em que ele se enganou e sua atitude para com os que não se enganaram nem o enganaram deixa-nos pensar que ele mantém, essencialmente, as mesmas posições que antes.
II) UM ESPÍRITO QUE NÃO É DEUS
CONSIDERANDO
1) Que se tem constatado que em mais de uma ocasião (como dissemos na resposta à objeção, no tópico acima) Dom Fellay tem falado e agido de maneira contraditória para alcançar seus intentos;
2) Que essa maneira de se portar com duplicidade faz perder o direito ao crédito que se deve a quem assim se porta.
JULGAMOS
1) Que o espírito que está animando a Dom Fellay não é o espírito de Deus, tanto quanto podemos e devemos julgar antes de pôr nossa confiança e nossa salvação (de certo modo) nas mãos de alguém;
2) Que ele está desmerecendo esta confiança que normalmente deveríamos ter para com ele, como sendo a maior autoridade dentro da Tradição.
III) O GOLPE DE MESTRE DE SATANÁS
CONSIDERANDO
a) Que Dom Lefebvre disse que o golpe de mestre de Satanás foi lançar todos os católicos na desobediência (à Igreja, à Tradição e, em definitivo, a Nosso Senhor) pela obediência (aos Papas conciliares) e b) que Dom Fellay está conduzindo todos os ligados à Fraternidade São Pio X à desobediência a Dom Lefebvre (e, em definitivo, à Santa Igreja, à Tradição e a Nosso Senhor) por obediência a si.
JULGAMOS
Que se lhe deve resistir e, ademais, denunciar publicamente seus desvios doutrinais, a fim de que as pessoas não continuem, enganadas, a seguirem o falso caminho pelo qual ele está conduzindo a Fraternidade: um espírito de simpatia para com o atual Papa; de diminuição da aversão ao Vaticano II; de desejo de unir-se à “Igreja Conciliar”, identificando-a com a Santa Igreja Católica; de diminuição do combate aos progressistas.
IV) REBELDIA NÃO, JUSTA RESISTÊNCIA SIM
CONSIDERANDO
1) Que os membros da Fraternidade que se opõem publicamente à nova orientação e às novas doutrinas de Dom Fellay estão sendo, por isso mesmo, expulsos da Fraternidade;
2) Que sendo essa a causa, a dita expulsão é injusta, pelo fato de ser justa a atitude desses membros;
3) Que sendo injusta, essa expulsão é inválida;
4) Que sendo inválida essa expulsão, eles continuam a ser, de direito, diante de Deus, verdadeiros membros da Fraternidade São Pio X.
JULGAMOS
Que esses membros da Fraternidade não devem ser considerados como rebeldes, mas antes, pelo contrário, como fiéis filhos de Dom Lefebvre, que diante dos Papas conciliares teve a mesma atitude que eles agora estão tendo para com Dom Fellay.
V) GRAVÍSSIMA SITUAÇÃO ATUAL DA SANTA IGREJA
CONSIDERANDO
1) Que ultimamente, nos colóquios doutrinais, viu-se a incompatibilidade da doutrina da Igreja com a doutrina dos atuais detentores da autoridade em Roma;
2) Que Bento XVI renovou em 2011 a reunião ecumênica de Assis;
3) Que Bento XVI beatificou João Paulo II;
4) Que Bento XVI em 2012 disse que toda renovação na Igreja deve ser baseada no aprofundamento dos documentos do Vaticano II;
5) Que Bento XVI assinou em 2012 o decreto das “virtudes heróicas” (?!) de Paulo VI;
6) Que o Principado de Liechtenstein no final de 2012 estava em vias de deixar de ser um Estado oficialmente católico sob pressão da doutrina do Concílio sobre a Liberdade Religiosa;
7) Que os dois sinais nos quais Dom Lefebvre reconheceu que deveria sagrar bispos mesmo sem a autorização do Papa foram a reunião ecumênica de Assis e a reafirmação, por parte de Roma, dos erros do Vaticano II acerca da liberdade religiosa.
JULGAMOS
Que a atual situação da Igreja é gravíssima, semelhante (ou pior) à em que se encontrava em 1988, diversamente do que afirma Dom Fellay.
VI) UM REMÉDIO DRÁSTICO PARA UM MAL DRÁSTICO
CONSIDERANDO
1) Que os que permanecem na Fraternidade estão na tremenda necessidade de escolher entre calarem-se ou serem dela expulsos por se oporem à atual direção nela impressa por Dom Fellay;
2) Que a obra de Dom Lefebvre não deve se extinguir por causa dessa nova direção;
3) Que Dom Williamson, sozinho, não tem condições de atender a todos os apelos dos padres e fiéis em todo o mundo, para lhes administrar os Sacramentos e transmitir-lhes a sã doutrina, conforme recebeu de Dom Lefebvre;
4) Que os mesmos motivos que levaram Dom Lefebvre a fazer as sagrações de 1988 existem hoje e, portanto, justificam atualmente novas sagrações episcopais na Tradição sem autorização do Papa.
JULGAMOS
Que é da máxima conveniência que Dom Williamson proceda no momento oportuno a essas sagrações, para o bem da Santa Igreja, esperando dias melhores, em que as coisas se normalizem.
Caberá a ele definir o momento mais conveniente de o fazer.”
(Arsenius, A Crise Atual)

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sábado, 20 de outubro de 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Quando o liberalismo e o sedevacantismo se encontram

“Depois de muito tempo, sabemos que os liberais e os sedevacantistas chegaram a exagerações, respectivamente à esquerda e à direita, partindo das mesmas premissas. Eis o raciocínio que eles fazem (mais ou menos conscientemente):
Maior: o papa é infalível.
Menor: ora, os últimos papas são liberais.
Conclusões:
- (liberal) então é preciso fazer-se liberal.
- (sedevacantista) então estes últimos “papas” não são verdadeiros papas.
Aqui, a lógica é boa e a “menor” também é; então, se as conclusões deixam a desejar, devemos buscar o problema na premissa maior, raiz comum das duas conclusões opostas, e que explica como um fiel liberal do Novus Ordo ao chegar à Tradição pode ser tentado a se tornar sedevacantista, e como um sedevacantista feroz, depois de anos defendendo a sua posição, pode de um dia para o outro tornar-se liberal. Isso é porque os liberais compartem com os sedevacantistas uma noção da infalibilidade muito difundida a partir de 1870 (concílio Vaticano I), noção, no entanto, falsa.
Não é que a definição do magistério solene ou extraordinário infalível do Papa fosse uma coisa má per se, ao contrário; mas per accidens, pela malícia dos homens, ela contribuiu muito a uma desvalorização da Tradição no sentido usado por São Paulo dizendo aos Gálatas: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos temos anunciado, seja anátema!” (Gal 1, 8). Quem compreende, ainda hoje, todo o alcance desta impressionante exclamação!
A definição de 1870 foi boa per se, porque ela permitiu ancorar os espíritos católicos naquilo onde os liberais faziam tudo o possível para deixá-los à deriva. Mas, depois que a definição foi realizada, os maliciosos liberais mudaram imediatamente a sua tática: “Sim, de acordo, sem dúvida, nós sempre acreditamos (hipócritas!) que existe um magistério a priori infalível no cume do ensino da Igreja, mas, abaixo desse cume quem não vê agora que nada é absolutamente seguro?” E assim os liberais deliberadamente começaram a pôr em dúvida toda verdade abaixo deste cume constituído pelo corpo de verdades definidas infalivelmente segundo as quatro condições da nova definição de 1870.
E os católicos a partir desse tempo, mesmo dizendo que não, que a definição não cria a verdade, que o cume não faz a montanha, que existe no magistério da Igreja todo um conjunto – uma montanha – de verdades certas abaixo daquele cume, mesmo assim nada mudou. A partir de 1870, no espírito das pessoas, pouco a pouco era o cume que criava cada vez mais a montanha e não era mais a montanha que criava o cume.
Mas reflitamos um momento. Não é a definição que faz a verdade. Ela não causa senão a nossa certeza da verdade. A ordem real é a seguinte: 1º) O objeto real, a realidade. 2º) A verdade da proposição que enuncia essa realidade. 3º) A definição que vem reforçar o nosso conhecimento dessa verdade. 4º) A certeza no espírito do católico piedoso a partir de quando ele sabe que tal verdade é objeto de uma definição.
Repito: 1º) Objeto. 2º) Verdade. 3º) Definição. 4º) Certeza.
Mas o efeito acidental da definição de 1870 foi de inverter esta ordem no espírito dos católicos e de colocar a definição antes da verdade, como se fosse a definição que criasse a verdade. É evidentemente falso, por pouco que pensemos, mas a prova que os católicos chegaram a pensar assim são os livros de teologia escritos entre 1870 em 1950, que para estabelecer uma verdade não solenemente definida, se sentem – visivelmente – na necessidade de construir como um magistério ordinário infalível a priori, copiado do magistério extraordinário infalível a priori, somente com três condições, ou três condições e meia, no lugar de quatro. Mas precisamente não é assim! São necessárias quatro condições e não somente três e meia para que haja a priori uma infalibilidade. Mas este magistério com três condições e meia era como necessário para assentar uma verdade católica nos espíritos falsamente deslumbrados pelo magistério solene com quatro condições.
Expliquemos a nossa comparação: (1) a montanha cria (2) o cume, ao qual (3) a neve acrescenta só (4) a visibilidade. Quem pensaria em dizer que é a neve que cria o cume, ou que é o cume que cria a montanha? Do mesmo modo, é a Tradição que no momento da morte do último dos apóstolos, constituía já todo o corpo da doutrina revelada da Igreja; as diversas definições de várias verdades neste corpo de doutrina não acrescentaram nada mais a essas verdades que a sua certeza para os católicos. No entanto, à medida que a caridade se resfria, a camada de neve no cume avança cada vez mais.
Mas daí a dizer que, posto que não há neve, não há montanha, ou que, onde não existe definição com as quatro condições, não há verdades certas, seria perder todo o sentido da montanha, todo o sentido da verdade, é a doença do subjetivismo que não pode conceber nenhuma verdade objetiva sem certeza subjetiva.
Então os “bons” autores dos livros começaram a entrar em certo modo no jogo dos liberais, sem dúvida inconscientemente, eclipsando a verdade objetiva atrás da certeza subjetiva, e dessa forma eles contribuíram a preparar a catástrofe do Vaticano II, e deste “magistério ordinário supremo” de Paulo VI graças ao qual, de fato, ele agrediu gravemente a Igreja! Eis aqui o problema de Michael Davies, por exemplo, que nega toda nocividade intrínseca ao missal da missa nova, pelo fato que teria sido promulgado “solenemente” pelo supremo Legislador.
Bem ao contrário, eis aqui a grandeza de Dom Lefebvre, que soube guardar o sentido católico da montanha, como São Paulo na sua epístola aos Gálatas, quando quase todo o universo católico se deixou cegar pelo brilho da neve.”
(Dom Richard Williamson, F.S.S.P.X, Considerações Libertadoras sobre a Infalibilidade)

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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Non confundar in aeternum

“Deus é Ser infinito, Verdade infinita, Bondade infinita, infinitamente justo e infinitamente misericordioso. Assim ensina a Igreja, e a idéia é grandiosa e bela, portanto não tenho nenhuma objeção. Mas aí eu descubro que a Igreja também ensina que por causa de somente um único pecado mortal a alma pode ser condenada por toda a eternidade a sofrimentos severos e cruéis além da imaginação, e isso não é muito atraente. Eu começo a objetar.
Por exemplo, eu nunca fui consultado antes que meus pais decidissem me trazer à existência, nem fui consultado a respeito dos termos do contrato, por assim dizer, de minha existência. Se tivesse sido consultado, eu bem poderia objetar a uma alternativa tão extrema entre a felicidade inimaginável e o tormento inimaginável como ensina a Igreja, ambos sem fim. Eu poderia aceitar um “contrato” mais moderado, pelo qual em troca de um Céu de curta duração eu enfrentaria somente o risco de um Inferno abreviado, mas não fui consultado. Uma infinidade de qualquer deles me parece fora de proporção com esta breve vida minha sobre a terra: 10, 20, 50 ou até mesmo 90 anos estão aqui hoje e acabam-se amanhã. Toda a carne é como a relva – “que viceja e floresce de manhã, mas que à tarde é cortada e seca” (Sal LXXXIX, 6). Por essa linha de pensamento Deus parece ser tão injusto que eu seriamente chego a duvidar que ele realmente exista.
O problema nos obriga a refletir. Suponhamos que Deus exista; que ele seja tão justo quanto a Igreja diz que é; que seja injusto impor sobre alguém um fardo pesado sem o consentimento dessa pessoa; que esta vida seja breve, um simples sopro de fumaça comparado com o que a eternidade deve ser; que ninguém possa ser justamente condenado a um castigo terrível se não tiver consciência de haver cometido um crime terrível. Então como pode o suposto Deus ser justo? Se ele for justo, então logicamente toda alma que atinja a idade da razão deve viver bastante para pelo menos ter idéia da escolha eterna que está fazendo, e da conseqüência de tal escolha. No entanto, como isso pode acontecer, por exemplo, no mundo de hoje, onde Deus é tão universalmente abandonado e desconhecido na vida dos indivíduos, famílias e Estados?
A resposta só pode ser que Deus vem antes de indivíduos, famílias e Estados, e que ele “fala” dentro de toda alma, antes de todos os seres humanos e independentemente de todos eles, de modo que mesmo uma alma cuja educação religiosa tenha sido nula ainda tem idéia de estar fazendo uma escolha a cada dia de sua vida, que só ela está fazendo aquela escolha, e que a escolha tem conseqüências tremendas. Mas outra vez, como é que isso pode acontecer, dada a impiedade de um mundo como o nosso atual?
Porque a “fala” de Deus às almas é muito mais profunda, mais constante, mais presente e mais atraente do que jamais poderá ser a fala de qualquer homem ou outro ser. Só ele criou nossa alma. Ele continuará a criá-la em cada momento de sua existência sem fim. Ele é portanto mais íntimo dela em cada momento seu do que até mesmo seus pais que simplesmente montaram seu corpo – dos elementos materiais cuja existência é mantida somente por Deus. E a bondade de Deus está da mesma forma atrás e dentro e embaixo de toda coisa boa que acontecer à alma nesta vida, e no fundo a alma está consciente de que todas essas coisas boas são meras derivações da infinita bondade de Deus. “Fique quieta”, diz Santo Inácio de Loiola a uma pequena flor, “eu sei de quem você está falando”. O sorriso de uma criancinha, o esplendor diário da Natureza a cada instante do dia, música, todo céu uma obra-prima da arte e assim por diante – mesmo se amadas com um amor profundo, essas coisas dizem à alma que existe algo muito maior, ou – Alguém.
“Junto de vós, Senhor, me refugio, não seja eu confundido para sempre” (Sal XXX, 2).”
(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, Flowers Speak)