sábado, 31 de dezembro de 2011

São Silvestre I

“Papa. Morreu em Roma em 335. Comemoração: 31 de dezembro.
Silvestre, romano, foi eleito bispo de Roma em substituição a São Milcíades durante o ano em que a paz chegava à Igreja, em 313, por obra do imperador Constantino. Devido a isto, ainda que pouco se saiba sobre sua vida, o nome de Silvestre aparece freqüentemente na história eclesiástica e em lendas posteriores. A mais importante delas diz que Constantino conferiu a Silvestre e seus sucessores no bispado de Roma a primazia sobre todos os outros bispos e o controle temporal sobre a Itália. Porém está provado, há muito tempo, que essa “doação” é falsa. O primeiro Concílio Ecumênico da Igreja foi em Nicéia, em 325; Silvestre não pôde comparecer e foi representado por dois legados. Morreu dez anos depois e foi sepultado no cemitério Priscilla na Via Salária. São Silvestre foi um dos primeiros não-mártires a ser venerado como santo em Roma.”
(Donald Attwater, The Penguin Dictionary of Saints)

Tradução de Maristela R. A. Marcondes e Wanda de Oliveira Roselli

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Jorge Luis Borges: Everness

Só uma coisa não há: e esta é o olvido.
Deus, que salva o metal, e salva a escória,
cifra em Sua profética memória
as luas que serão e as que têm sido.
Já tudo fica. A seqüência infinita
de imagens que entre a aurora e o fim do dia
teu rosto nos espelhos deposita
e essas que irá deixando todavia.
E tudo é só uma parte do diverso
cristal desta memória: o universo.
Não têm fim os seus árduos corredores,
e se fecham as portas ao passares;
e só quando na noite penetrares,
do Arquétipo verás os esplendores.


Tradução de Renato Suttana

sábado, 24 de dezembro de 2011

Os pastores

“Depois dos animais, os pastores dos animais. Mesmo que o anjo não lhes tivesse anunciado o grande Natal, teriam eles corrido para o Estábulo, para ver o filho da estrangeira. Os pastores vivem na solidão, ignorando o mundo longínquo de prazeres; comove-os o menor acontecimento das vizinhanças. Guardavam os rebanhos na longa noite de solstício, quando foram deslumbrados pela luz, abalados pelas palavras angélicas. E apenas descobriram na penumbra do Estábulo uma mulher moça e bela contemplando o filho em silêncio, apenas viram a criança recém-nascida, aquelas carnes delicadas, aquela boca que ainda não tinha comido, enterneceu-se-lhes o coração. Um nascimento, o nascimento de um homem novo, uma alma há pouco encarnada que vem sofrer com as outras almas, é um mistério tão doloroso que excita a piedade dos simples. E para estes homens guiados pelo céu, a criança que viam não era um recém-nascido semelhante aos outros; era o desejado pelo povo na sua dor milenária. Os pastores ofereceram-lhe o pouco que possuíam e que é tudo quando dado com amor; eram as cândidas ofertas dos rebanhos: leite, queijo, lã e cordeiros. Hoje ainda nas nossas montanhas, onde se vão desfazendo os últimos vestígios da fraternidade antiga, apenas uma esposa dá à luz a uma criança, para ela acorrem as irmãs, as filhas e as mulheres dos pastores vizinhos. Cada uma lhe traz o seu presente: uns ovos frescos, uma bilha de leite tépido, um queijo, uma galinha para o caldo da parturiente. Um novo ser entrou no mundo, um novo pranto começou; estes presentes feitos à mãe parecem uma consolação. Os pastores antigos eram pobres mas não desprezaram os pobres; e porque eram simples como as crianças, gostavam de contemplá-las. Oriundos de um povo gerado pelo pastor de Ur, foram salvos pelo pastor de Madian. Seus primeiros reis, Saul e David, pastorearam rebanhos antes de guiarem povos. Os pastores de Belém não tinham disto nenhum orgulho. Um pobre nascera no meio deles: olhavam-no com amor e com amor ofereciam suas pobres riquezas. Sabiam que o menino era pobre e simples e que na pobreza e simplicidade do povo devia reunir os humildes – os homens de boa vontade sobre os quais o anjo dissera: Paz na terra.
O rei desconhecido, o vagabundo Ulisses nunca fora acolhido com tantas festas como na pocilga de Eumeu. Mas se Ulisses viajava para a casa de Ítaca para vingar-se e matar seus inimigos, Jesus nascia para condenar a vingança e aconselhar o perdão. Eis por que a adoração dos pastores de Belém faz esquecer a piedosa hospitalidade do porqueiro de Ítaca.”
(Giovanni Papini, Storia di Cristo)

Tradução do Pe. Lindolfo Esteves

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O boi e o burro

“Os primeiros adoradores de Jesus foram animais e não homens. Entre os homens ele procurava os simples; entre os simples, a crianças; acolheram-no porém os animais domésticos mais simples e mais doces ainda que as crianças. O burro e o boi, humildes e submissos, já tinham visto as multidões se prosternarem diante deles.
O povo de Javé, o povo santo libertado por Javé da escravidão do Egito, quando Moisés o deixara no deserto para falar com Deus, obrigou a Aarão a fundir-lhe o bezerro de ouro. O burro na Grécia era consagrado a Ares, a Dionísio, a Apolo Hiperbóreo. A burra de Balaão, mais sábia que o sábio, por suas palavras salvara o profeta. Ocos, rei da Pérsia, fizera adorar um burro no templo de Phtah. Poucos anos antes do nascimento de Cristo, Otávio, indo embarcar na véspera de Actio, encontrou um burriqueiro com seu animal.
O burro chamava-se Nikon: o Vitorioso; e depois da vitória, no templo votivo, o imperador erigiu um burro de bronze para comemorá-la. Reis e povos haviam até então adorado o boi e o burro. Mas eram apenas reis e povos da terra e Jesus não nascera para lhes disputar o império. Com ele se acabam a adoração do Animal, a fraqueza de Aarão e a superstição de Augusto. Matá-lo-ão os brutos de Jerusalém, mas hoje os de Belém o aquecem com o seu hálito. Quando Jesus entrar para a última Páscoa na cidade da morte, virá montado sobre um burro; mas sendo ainda maior que Balaão, vindo para salvar não só os Judeus mas todos os homens, ele não retrocederá do caminho aos apupos de todos os asnos de Jerusalém.”
(Giovanni Papini, Storia di Cristo)

Tradução do Pe. Lindolfo Esteves

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Explicação das Missas do dia de Natal

Missa da meia-noite
Mas é tal a grandeza deste mistério que a Igreja não se limitará a oferecer um só Sacrifício. A Chegada de um dom tão precioso e longamente esperado merece ser reconhecida com novas homenagens. Deus Pai dá seu Filho à Terra; o Espírito de Amor opera esta maravilha: convém que a Terra corresponda à gloriosa Trindade com a homenagem de um triplo Sacrifício.
Além disso, Aquele que nasce hoje não se manifestou em três nascimentos? Ele nasce, nessa noite, da Virgem bendita; ele vai nascer, pela sua graça, nos corações dos pastores que são as primícias de toda a cristandade; ele nasce eternamente do seio de seu Pai, nos esplendores dos santos; este triplo nascimento deve ser honrado por uma tripla homenagem.
A primeira missa honra o nascimento segundo a carne. Os três nascimentos são como efusões da luz divina; ora, eis a hora onde o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e onde o dia nasceu sobre aqueles que habitavam a região das sombras da morte. Fora do templo santo onde nos reunimos, a noite é profunda: noite material, por causa da ausência do sol; noite espiritual, por causa dos pecados dos homens, que dormem no esquecimento de Deus, ou que estão acordados para cometer crimes. Em Belém, em torno do estábulo, na cidade, o ambiente é de sombras; e os homens que não encontraram lugar para o Hóspede divino repousam numa paz grosseira; eles não serão despertados pelo concerto dos anjos.
Entretanto, à meia-noite, a Virgem sentiu que chegava o momento supremo. Seu coração maternal é, de repente, inundado de delícias desconhecidas; ele se liquefaz num êxtase de amor. Súbito, ultrapassando com sua onipotência as barreiras do seio maternal, do mesmo modo que ele penetrará um dia a pedra do sepulcro, o Filho de Deus, Filho de Maria, aparece estendido sobre o solo, sob os olhares de sua mãe, para a qual ele estende os braços. O raio de sol não ultrapassa com mais rapidez o puro cristal, que não o pode impedir. A Virgem Maria adora esse menino divino que sorri para Ela; Ela ousa abraçá-lo; Ela o envolve de panos que Ela tinha preparado. Ela o deita no presépio. O fiel José adora com Ela; os santos anjos, segundo a profecia de Davi, rendem profundas homenagens a seu criador, no momento de sua entrada nesta Terra. O céu se abre por cima do estábulo, e os primeiros votos do recém-nascido sobem ao Pai dos séculos; seus primeiros gritos, seus doces vagidos chegam aos ouvidos do Deus ofendido, e já preparam a salvação do mundo.
No mesmo momento, a pompa do Sacrifício atrai todos os olhares dos fiéis para o altar; os ministros sagrados partem, o padre santificador chega aos degraus do santuário. Enquanto isso, o coro canta o cântico de entrada, o Intróito. É Deus mesmo quem fala; Ele diz a seu Filho que Ele o engendrou hoje. Em vão, as nações tremerão na sua impaciência por causa de seu jugo; este Menino as dominará, e Ele reinará. Pois Ele é o Filho de Deus.
Missa da Aurora
Eis que, nesse mesmo momento, os pastores, convidados pelos santos anjos, chegam apressados a Belém; eles se comprimem no estábulo, que era muito pequeno para conter o seu número. Dóceis à advertência do Céu, eles vieram para reconhecer o Salvador que, disseram-lhes, tinha nascido para eles. Eles encontram todas as coisas conforme ao que os anjos lhes tinham anunciado. Quem poderia narrar a alegria de seus corações, a simplicidade de sua fé? Eles não se espantam de encontrar, sob as aparências de uma pobreza semelhante à sua, Aquele cujo nascimento comove mesmo aos anjos. Seus corações compreenderam tudo; eles adoram e querem muito bem a esse menino. Eles já são cristãos: a Igreja cristã começa com eles; o mistério de um Deus rebaixado é recebido por corações humildes. Herodes tentará matar o menino; a Sinagoga tremerá; seus doutores se elevarão contra Deus e contra o seu Ungido; eles levarão à morte o libertador de Israel; mas a Fé permanecerá firme e inabalável na alma dos pastores, esperando que os sábios e os poderosos por sua vez se abaixassem diante do Presépio e da Cruz.
Que se passou no coração desses homens simples? Cristo nasceu nesses corações, Ele aí habita doravante pela Fé e pelo Amor. Eles são nossos pais na Igreja. E nós devemos nos tornar semelhantes a eles. Chamemos, pois, o divino Menino, para que Ele venha às nossas almas; deixemos um lugar para Ele, e que nada lhe feche a entrada nos nossos corações. Os anjos falam também para nós, eles nos anunciam a boa-nova; este benefício não deve se restringir somente aos habitantes dos campos de Belém. Ora, a fim de honrar o mistério da vinda silenciosa do Salvador nas nossas almas, o padre vai daqui a pouco subir ao santo altar e apresentar, pela segunda vez, o Cordeiro sem mácula aos olhares do Pai Celeste que o envia.
Que nossos olhos estejam pois fixos sobre o altar, como os olhos dos pastores sobre o Presépio; procuremos aí, como eles, o Menino recém-nascido, envolvido em panos. Entrando no estábulo, eles ainda ignoravam Aquele que eles iriam ver; mas os seus corações estavam preparados. De repente eles o perceberam, e seus olhos se fixaram sobre o Sol divino. Jesus, do fundo do Presépio, olha para eles com amor; eles são iluminados, o dia nasce em seus corações. Mereçamos que se cumpra em nós esta palavra do Príncipe dos Apóstolos: a lucerna que alumia num lugar obscuro, até que venha o dia e a estrela da manhã nasça em seus corações (II Pe. 1, 19).
Nós chegamos aí, a essa aurora bendita; o divino Oriente apareceu, Aquele que nós esperávamos, e ele não desaparecerá mais em nossa vida: pois nós queremos temer acima de tudo a noite do pecado, noite da qual Ele nos livrou. Nós somos os filhos da luz e os filhos do dia (I Tess. 5, 5); nós não conhecemos mais o sono da morte; mas nós sempre velaremos, lembrando-nos que os pastores velavam quando o anjo lhes falou e o céu se abriu sobre as suas cabeças. Todos os cantos dessa Missa da Aurora nos mostrarão de novo o esplendor do Sol de Justiça; desfrutemos deles como se fôssemos cativos presos há muito tempo numa prisão tenebrosa, aos quais uma doce luz vem lhes devolver a vista. O Deus da luz resplandece no fundo do Presépio; seus raios divinos embelezam os traços nobres da Virgem Maria, que o contempla com tanto amor; a face venerável de São José também recebe dele um brilho novo; mas estes raios não são contidos nos estreitos limites da gruta. Eles deixam nas suas trevas merecidas a ingrata Belém, mas eles se espalham pelo mundo inteiro e acendem em milhões de corações um amor inefável por esta Luz do alto, que arranca o homem dos seus erros e paixões e o eleva em direção ao sublime fim, para o qual ele foi criado.
Missa do dia
O mistério que a Igreja honra nessa terceira missa é o do nascimento eterno do Filho de Deus no seio do seu Pai. Ela celebrou, na meia-noite, o Deus-Homem nascendo do seio da Virgem no estábulo; na aurora, o divino Menino nascendo no coração dos pastores; nesse momento, resta-lhe contemplar um nascimento muito mais maravilhoso que os dois outros, um nascimento cuja luz ofusca o olhar dos anjos e que é o eterno testemunho da fecundidade de nosso Deus. O Filho de Maria é também o Filho de Deus: nosso dever é o de proclamar hoje a glória desta inefável geração, que o produz consubstancial ao Pai, Deus de Deus, Luz da Luz. Elevemos nossos olhares até o Verbo Eterno que era no princípio com Deus e sem o qual Deus não foi jamais. Pois Ele é a forma de sua substância e o esplendor de sua eterna verdade.
A santa Igreja abre os cantos do terceiro sacrifício pela aclamação ao Rei recém-nascido. Ela celebra o poderoso principado que Ele possui, enquanto Deus, antes de todos os tempos, e que Ele receberá, como homem, por meio da Cruz que um dia Ele deverá carregar sobre seus ombros. Ele é o Anjo do Grande Conselho, quer dizer, o enviado do Céu para cumprir o sublime desígnio concebido pela gloriosa Trindade, de salvar o homem pela Encarnação e pela Redenção. Nesse augusto conselho, o Verbo teve sua parte divina. E seu devotamento à glória de seu Pai, junto a seu amor pelos homens, lhe faz tomar sobre si o cumprimento.”
(D. Prosper Guéranger, O.S.B, L’Année Liturgique)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O verdadeiro espírito do Natal

“Para encontrar, em meio à decadência impressionante de nossa civilização, o verdadeiro significado e a espiritualidade autêntica da festa de Natal, devemos nos desvencilhar de toda a multidão de apelos de consumo, que paganizou completamente esta festa, e recorrer às fontes puras da liturgia católica, onde essa alegria pelo nascimento do Deus-Menino encontra uma tão sólida justificação.
As leituras do Ofício de Matinas do Natal, tiradas do Primeiro Sermão da Natividade, de São Leão Magno, são bem conhecidas. A alegria pela comemoração desponta desde o início deste texto: “Nosso Salvador, amados filhos, nasceu hoje; alegremo-nos”. E a causa desta alegria é logo indicada: “Não pode haver tristeza quando nasce a vida: dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. (...) A causa da alegria é comum a todos, porque Nosso Senhor, aquele que destrói o pecado e a morte, não tendo encontrado nenhum homem isento de culpa, veio libertar a todos.”
O santo Papa se alegra, e nos convida a compartilhar desta alegria, porque o nascimento de Jesus Cristo marca a entrada numa nova e definitiva fase da História da Salvação, a “Plenitude dos Tempos”, preparada por Deus durante séculos, e destinada a toda a humanidade, “Propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis” (Credo da missa). Antes havia as promessas, os suspiros dos Patriarcas, do Povo Eleito, e os anúncios dos Profetas. Agora se tem a realidade de um Deus Vivo em carne e osso, por enquanto feito menino e indefeso, necessitando dos cuidados da Santíssima Virgem e de São José, mas que depois sairá pelos caminhos da Palestina pregando uma nova religião, até estabelecer uma Nova Aliança pelo seu próprio sangue derramado na Cruz. Somos todos nós os beneficiários desta Nova Aliança, que nos abre realmente a possibilidade de alcançar a Bem-Aventurança do Céu. E é por isso que diz o papa São Leão Magno: “Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque é convidado ao perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida”.
A resistência do gênero humano ao apelos da Graça também se fez sentir em tão belo capítulo da História da Salvação: enquanto os Reis Magos vieram de longínquas regiões para adorar o recém-nascido, aquele que então detinha o poder em Israel levou a efeito um odioso massacre para impedir a sobrevivência daquele “que tira o pecado do mundo” (Jo. 1, 29). O Bom Deus interveio sobrenaturalmente por meio de sonhos de advertência, e o Menino salvo cresceu e consumou seu sacrifício, para o qual tinha sido destinado, e que, com suma caridade por nós, aceitou.
Seguiu-se então a perseguição contra os seguidores do Salvador, contra aqueles que faziam parte do seu Corpo Místico, a Igreja, depositária da Revelação e verdadeira intérprete desta. Os cristãos conheciam, ensinados pela hierarquia, o verdadeiro significado do nascimento do Senhor, embora não o celebrassem ainda, ao menos abertamente, por causa da ira e brutalidade dos perseguidores.
A vitória do Crucificado fez eclodir por toda parte as belas celebrações da Liturgia católica. O Natal tornou-se, ao lado da Páscoa, uma das principais celebrações da cristandade. O Demônio e seus asseclas, no entanto, não descansavam. À predominância da perseguição cruenta seguiram-se as insidiosas heresias, que buscavam destruir por dentro a preciosa herança do Divino Mestre. No que diz respeito à Encarnação, falou-se que o Filho de Deus tinha tomado uma simples aparência de homem (heresia do Docetismo), ou que Ele era o maior dos santos, ou quase Deus, mas não o próprio Deus (Arianismo e suas diversas variantes); sem falar nos que negavam a Maternidade Divina da Santíssima Virgem (Nestorianos), chamando Aquela que recebeu tão excelso favor de Mãe de Cristo, e não de Mãe de Deus, como a Tradição nos ensinou.
Citamos somente alguns exemplos. Na verdade foi toda uma Conjuração Anticristã, que se escondeu nos antros das seitas secretas, sobretudo no período da cristandade medieval, para recobrar força pouco a pouco na Idade Moderna. Os mesmos erros então voltavam, novos surgiam, e tudo se fazia numa atmosfera muito mais carregada de sofismas...
E chegamos à nossa época, que parece ser a de um paroxismo revolucionário, onde a sofisticação dos erros lhes confere uma eficácia de engano inédita.
Tempos difíceis, em que se ouviu das mais altas tribunas: “(...) pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem.” Acreditar na Redenção Universal é pecar contra a esperança por presunção (um dos 6 pecados contra o Espírito Santo!). Aquele que se deixar enganar por tais erros acabará necessariamente decepcionado, pois perderá pouco a pouco todo o ânimo de lutar pelo que já não espera (não se luta pelo que já se alcançou, no caso, a Redenção definitiva e a Salvação), vendo-se depois afundado nos seus próprios pecados. A história da Igreja destes últimos decênios o demonstra.
Nós, ao invés, recorramos novamente a São Leão Magno, que tira as verdadeiras conclusões deste Augusto Advento: “Despojemo-nos, portanto, do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne”. Para nós, o Natal é um grande sinal de esperança, esperança que deve nos animar para o combate espiritual. Sua graça não nos falta, e é ela que constitui o que há de mais genuíno na dignidade do cristão: “Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade, e já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro. Recorda-te de que foste arrancado do poder das trevas e levado para a luz e o Reino de Deus”.”
(Veritati, dezembro de 2009)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O antigo mundo

“Somos conservadores, que seja. Mas conservamos para salvar; eis o que o mundo não pode compreender, porque o mundo só quer durar, subsistir. Ora, o mundo não pode mais contentar-se em durar.
O antigo mundo, sim, poderia talvez durar. Durar muito tempo. Era feito para isso. Era terrivelmente pesado, estava seguro à terra com uma carga enorme. Acostumara-se com a injustiça. Em vez de usar de astúcia com ela, aceitou-a em bloco, toda de uma vez; fez da injustiça uma constituição como as outras, instituiu a escravidão. Oh! Sem dúvida, qualquer que fosse o grau de perfeição a que pudesse um dia atingir, não permaneceria menos sujeito à maldição lançada sobre Adão. O diabo não ignorava isso, sabia-o até melhor que qualquer um. Também, para que lançar a maldição sobre os ombros de todo o “gado humano”, quando se poderia reduzir tanto o pesado fardo? Bastaria que se reservasse a maior soma possível de ignorância, de revolta, de desespero a uma espécie de povo sacrificado, um povo sem nome, sem história, sem bens, sem aliados – pelo menos confessáveis – sem família – pelo menos legal – sem deuses! Que simplificação do problema social, dos métodos de governo!
Mas essa instituição que parecia inabalável era, na realidade, fragílima. Para destruí-la de uma vez, bastaria aboli-la por um século. Por um dia talvez! Uma vez confundidas as classes, uma vez dispersado o povo expiatório, que força seria capaz de o fazer retomar o jugo?
Morreu a instituição. O antigo mundo desmoronou-se com ela. Cria-se, fingia-se crer em sua necessidade; era aceita como um fato. Não se restabelecerá mais. A humanidade não ousará renovar essa triste experiência; arriscar-se-ia demais. A lei pode tolerar a injustiça ou até favorecê-la sub-repticiamente: não mais a sancionará. A injustiça nunca mais há de ter um estatuto legal; acabou-se. Nem por isso, entretanto, está menos espalhada pelo mundo. A sociedade que não ousasse mais utilizar a injustiça para o bem de poucos estaria condenada a prosseguir na destruição de um mal que traz dentro de si, o qual, reprimido sempre pelas leis, reapareceria quase no mesmo instante entre os costumes sociais, para renovar, em sentido inverso, incansavelmente, o mesmo círculo infernal. Por bem ou por mal, deve, de agora em diante, partilhar a condição do homem, correr a mesma aventura sobrenatural. Outrora indiferente ao bem e ao mal, o mundo apenas conhecia a lei de seu próprio poder: o cristianismo deu-lhe uma alma, uma alma para salvar ou perder.”
(Georges Bernanos, Journal d’un Curé de Campagne)

Tradução de Edgar de Godoi da Mata-Machado

sábado, 10 de dezembro de 2011

Missa Nova versus Missa Tridentina

Para os católicos do século IV seria correto assistir às missas celebradas por um padre ariano que ensinasse o arianismo? Se não, então por que é correto assistir, hoje, a missas que pregam o protestantismo e o humanismo? Não importa que sejam válidas, o que importa é a própria missa e o que ela ensina. Nós não temos que suportar abusos e sacrilégios para cumprir nossa obrigação dominical. Esse tipo de pensamento nada tem de católico, como a história o demonstra (por exemplo, na crise ariana do século IV ou na Inglaterra do século XVI).
A Missa Nova não pode ser lei verdadeira por causa do estrago que produziu. Sto. Tomás de Aquino diz que a lei que causa dano à Fé não é lei verdadeira.
Além disso, o papa não tem a proteção da infalibilidade para promover uma liturgia defeituosa.
A Missa Nova, quando dita adequadamente, é realmente válida. Mas isso não tem importância. O que importa é o sacrilégio e o simples fato de que ela não ensina a verdadeira religião. A Missa Ortodoxa é uma missa válida, mas não ensina a verdadeira religião. Da mesma maneira é a Missa Nova. Quando a Missa Tridentina era corretamente considerada a “Forma Ordinária” do rito romano, jamais tivemos uma crise tão grave de Fé como a por que passamos. Por quê? Porque uma missa ensina a verdadeira religião e a outra, não.
No fim das contas, não temos a liberdade de escolher um caminho pecaminoso para realizar algo de bom. Creio que para nós, que temos conhecimento desse assunto, assistir à Missa Nova é pecaminoso e nos torna cúmplices das destruições que ela tem causado.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Formas "Ordinária" e "Extraordinária"

Não se deveria usar a terminologia “Forma Ordinária” e “Forma Extraordinária” porque é ridículo dizer que existem duas formas do mesmo rito. A distinção não tem qualquer fundamento na tradição ou na história. Não é teológica. É política. São palavras inventadas, usadas tendo em vista um compromisso político, a fim de encobrir o gravíssimo problema de haver dois ritos romanos.
Essa é a verdadeira questão. Elas não são duas formas do mesmo rito, mas duas missas distintas e dois ritos diferentes. Hoje nós temos dois ritos romanos na Igreja. Trata-se de um problema que tem de ser resolvido por algum papa no futuro. A distinção entre “Forma Ordinária” e “Forma Extraordinária” criada por Bento XVI apenas adia a solução. Outro papa e outra hierarquia deverão enfrentar esse problema e solucioná-lo. Não é algo normal e sim uma contradição que precisa ser resolvida. O rito latino não pode ter duas missas diferentes.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Eugenio Montale: Talvez Uma Manhã

Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, com um terror de bêbedo.

Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde - e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.

Tradução de Geraldo H. Cavalcanti

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A FSSPX e as comunidades Ecclesia Dei

Quais são as chamadas "comunidades Ecclesia Dei"?
Após a consagração de quatro bispos pelo Arcebispo Lefebvre em Écône, em 30 de junho de 1988, as autoridades do Vaticano permitiram que algumas comunidades celebrassem a liturgia antiga. São elas, particularmente, a Fraternidade São Pedro (fundada por ex-padres da Fraternidade São Pio X em 1988), o Instituto de Cristo Rei (criado pelo Padre Wach em Griciliano, perto de Florença, na Itália), a abadia beneditina de Le Barroux (sob Dom Gérard), a Fraternidade São Vicente Ferrer, em Chéméré, na França (que de repente passou do sedevacantismo para o realinhamento conciliar, no momento em que o Arcebispo Lefebvre fazia negociações com Roma em 1987), o instituto de Opus Mariae (Padre Wladimir), as irmãs educadoras dominicanas de Pontcallec (fundada pelo Padre Berto) e, mais recentemente, a Fraternidade São João Maria Vianney, de Campos, no Brasil (sob o Bispo Rifan) e o Instituto do Bom Pastor, fundado em 2006 por ex-padres da Fraternidade São Pio X.
De onde vem esse nome?
Essas comunidades têm o nome genérico de "comunidades Ecclesia Dei" porque a maioria delas depende da comissão (um pequeno grupo de bispos e padres designados pelo Papa para assumir o comando de um assunto específico) de mesmo nome fundada em Roma depois das consagrações episcopais de 1988 a fim de receber os sacerdotes e seminaristas que deixaram a Fraternidade São Pio X.
As palavras "Ecclesia Dei" são o título de um documento de João Paulo II que excomungou o Arcebispo Lefebvre em 2 de julho de 1988: assim, podemos dizer que todas essas comunidades são estabelecidas nessa excomunhão e, portanto, beneficiam-se do ato heróico realizado pelo Arcebispo Lefebvre em 30 de junho de 1988. Se o fundador de Écône não tivesse anunciado (29 de maio de 1987) e, em seguida, realizado (30 de junho de 1988) a consagração de bispos, as autoridades romanas jamais teriam concedido a liturgia tradicional a todas essas comunidades.
O Vaticano exige dessas comunidades garantias para conceder-lhes o direito de celebrar a liturgia antiga?
Elas devem de fato reconhecer a Missa Nova como um rito plenamente legítimo; porque a liturgia dita tradicional é considerada pelas autoridades romanas apenas como um "rito extraordinário" da Missa, em comparação com a Missa Nova, que é o rito "ordinário", ou seja, a forma habitual de celebrar a Missa. Aliás, em 2000, isso foi lembrado pelo Cardeal Castrillón Hoyos aos superiores da Fraternidade de São Pedro que se opunham a um grupo de sacerdotes seus que também desejavam celebrar a Missa Nova.
Os membros dessas comunidades devem, portanto, abster-se de qualquer crítica ao Vaticano II; devem principalmente aceitar - ou, pelo menos, não criticar - a liberdade religiosa e o ecumenismo. É por isso que eles ficam tão perturbados pelas cerimônias inter-religiosas como as praticadas em Assis: elas os deixam desolados, sem dúvida, mas eles não podem protestar publicamente.
Por que a Fraternidade São Pio X não faz parte dessas comunidades?
As consagrações de 1988 ajudaram a salvar a Tradição Católica, não só garantindo a transmissão do sacramento da Ordem - e, portanto, da Missa Tradicional e dos sacramentos -, mas também protegendo uma pequena parte do rebanho da Igreja dos erros do Concílio Vaticano II. Infelizmente, esses erros conciliares ainda devastam a Igreja e imperam até mesmo em Roma. A fim de proteger-se eficazmente, é necessário manter distância das autoridades romanas.
Pode fazer uma analogia?
Em tempos de epidemia, a prudência mais básica exige separar os doentes das pessoas saudáveis. Algum contato continua sendo indispensável a fim de se cuidar dos doentes, mas é limitado ao mínimo possível e cercado de grandes cuidados. O mesmo vale para a situação atual: não se pode visitar de forma habitual as autoridades conciliares sem se expor à contaminação de seus erros. O exemplo das comunidades Ecclesia Dei manifestamente o comprova.
Os membros das comunidades Ecclesia Dei verdadeiramente aceitaram os erros conciliares ou eles estão satisfeitos com manter silêncio sobre eles?
Sem a intenção de julgar as disposições internas ou possíveis exceções, parece que a maioria de seus membros acabou, infelizmente, por aderir aos erros conciliares. Eles começaram com um silêncio que consideraram prudente. Eles tiveram que cada vez mais mostrar sinais de boa vontade em relação às autoridades romanas. Eles foram submetidos, sem sequer se darem conta, à pressão do liberalismo - que é mais eficaz quando menos parece se impor. Eles acabaram se proibindo a si mesmos de pensar diferentemente do que diziam e faziam. Em suma, eles foram completamente engolidos pela máquina na qual imprudentemente colocaram o dedo.
Essa aceitação dos erros conciliares é comum a todas as comunidades Ecclesia Dei?
Há nuances, certamente, mas de um modo geral todas essas comunidades atualmente aceitam os erros conciliares. No momento do ralliement de julho de 1988, Le Barroux tinha publicamente colocado como condição “que nada litúrgico ou doutrinário seja exigido de nós em troca e que nenhum silêncio seja imposto à nossa pregação antimodernista". No entanto, no mês seguinte de outubro um monge notou "uma certa relativização da crítica da liberdade religiosa e da reunião de Assis" dentro da abadia. De fato, Le Barroux tentará até mesmo justificar publicamente os erros do Concílio Vaticano II. A Fraternidade São Pedro, que pretendia, de início, continuar exatamente no interior da Igreja o que fazia a Fraternidade São Pio X, sofreu a mesma queda.
Essas comunidades não se mantiveram firmes sequer em relação à liturgia?
Longe de resistir com firmeza, elas todas aceitaram mais ou menos a nova liturgia, que em todo caso evitam atacar abertamente: Dom Gérard, o ex-abade de Le Barroux, teve que concelebrar a Missa Nova com o Papa em 27 de abril de 1995. O Padre Wach, superior do Instituto de Cristo Rei, já teve que fazer o mesmo em 21 de dezembro de 1991. O Bispo Rifan concelebrou também a Missa Nova em 8 de setembro de 2004. A Fraternidade São Pedro teve que aceitar o princípio da concelebração da Missa Crismal de Quinta-Feira Santa com o bispo diocesano.
Em troca dessas concessões, tais comunidades pelo menos recebem grandes possibilidades de apostolado?
A situação varia muito consoante os países e as dioceses, mas a maioria dos bispos continua a ser muito restritiva em relação a essas comunidades. Mesmo aqueles que não lhes são hostis hesitam em recebê-las, com medo das reações de seu clero ou dos leigos engajados. Roma, por sua vez, teme as reações dos bispos. A situação dessas comunidades seria de uma extrema fragilidade sem o contrapeso da Fraternidade São Pio X.”
(La Foi de Toujours, novembro de 2011)