sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O verdadeiro espírito do Natal

“Para encontrar, em meio à decadência impressionante de nossa civilização, o verdadeiro significado e a espiritualidade autêntica da festa de Natal, devemos nos desvencilhar de toda a multidão de apelos de consumo, que paganizou completamente esta festa, e recorrer às fontes puras da liturgia católica, onde essa alegria pelo nascimento do Deus-Menino encontra uma tão sólida justificação.
As leituras do Ofício de Matinas do Natal, tiradas do Primeiro Sermão da Natividade, de São Leão Magno, são bem conhecidas. A alegria pela comemoração desponta desde o início deste texto: “Nosso Salvador, amados filhos, nasceu hoje; alegremo-nos”. E a causa desta alegria é logo indicada: “Não pode haver tristeza quando nasce a vida: dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. (...) A causa da alegria é comum a todos, porque Nosso Senhor, aquele que destrói o pecado e a morte, não tendo encontrado nenhum homem isento de culpa, veio libertar a todos.”
O santo Papa se alegra, e nos convida a compartilhar desta alegria, porque o nascimento de Jesus Cristo marca a entrada numa nova e definitiva fase da História da Salvação, a “Plenitude dos Tempos”, preparada por Deus durante séculos, e destinada a toda a humanidade, “Propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis” (Credo da missa). Antes havia as promessas, os suspiros dos Patriarcas, do Povo Eleito, e os anúncios dos Profetas. Agora se tem a realidade de um Deus Vivo em carne e osso, por enquanto feito menino e indefeso, necessitando dos cuidados da Santíssima Virgem e de São José, mas que depois sairá pelos caminhos da Palestina pregando uma nova religião, até estabelecer uma Nova Aliança pelo seu próprio sangue derramado na Cruz. Somos todos nós os beneficiários desta Nova Aliança, que nos abre realmente a possibilidade de alcançar a Bem-Aventurança do Céu. E é por isso que diz o papa São Leão Magno: “Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque é convidado ao perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida”.
A resistência do gênero humano ao apelos da Graça também se fez sentir em tão belo capítulo da História da Salvação: enquanto os Reis Magos vieram de longínquas regiões para adorar o recém-nascido, aquele que então detinha o poder em Israel levou a efeito um odioso massacre para impedir a sobrevivência daquele “que tira o pecado do mundo” (Jo. 1, 29). O Bom Deus interveio sobrenaturalmente por meio de sonhos de advertência, e o Menino salvo cresceu e consumou seu sacrifício, para o qual tinha sido destinado, e que, com suma caridade por nós, aceitou.
Seguiu-se então a perseguição contra os seguidores do Salvador, contra aqueles que faziam parte do seu Corpo Místico, a Igreja, depositária da Revelação e verdadeira intérprete desta. Os cristãos conheciam, ensinados pela hierarquia, o verdadeiro significado do nascimento do Senhor, embora não o celebrassem ainda, ao menos abertamente, por causa da ira e brutalidade dos perseguidores.
A vitória do Crucificado fez eclodir por toda parte as belas celebrações da Liturgia católica. O Natal tornou-se, ao lado da Páscoa, uma das principais celebrações da cristandade. O Demônio e seus asseclas, no entanto, não descansavam. À predominância da perseguição cruenta seguiram-se as insidiosas heresias, que buscavam destruir por dentro a preciosa herança do Divino Mestre. No que diz respeito à Encarnação, falou-se que o Filho de Deus tinha tomado uma simples aparência de homem (heresia do Docetismo), ou que Ele era o maior dos santos, ou quase Deus, mas não o próprio Deus (Arianismo e suas diversas variantes); sem falar nos que negavam a Maternidade Divina da Santíssima Virgem (Nestorianos), chamando Aquela que recebeu tão excelso favor de Mãe de Cristo, e não de Mãe de Deus, como a Tradição nos ensinou.
Citamos somente alguns exemplos. Na verdade foi toda uma Conjuração Anticristã, que se escondeu nos antros das seitas secretas, sobretudo no período da cristandade medieval, para recobrar força pouco a pouco na Idade Moderna. Os mesmos erros então voltavam, novos surgiam, e tudo se fazia numa atmosfera muito mais carregada de sofismas...
E chegamos à nossa época, que parece ser a de um paroxismo revolucionário, onde a sofisticação dos erros lhes confere uma eficácia de engano inédita.
Tempos difíceis, em que se ouviu das mais altas tribunas: “(...) pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem.” Acreditar na Redenção Universal é pecar contra a esperança por presunção (um dos 6 pecados contra o Espírito Santo!). Aquele que se deixar enganar por tais erros acabará necessariamente decepcionado, pois perderá pouco a pouco todo o ânimo de lutar pelo que já não espera (não se luta pelo que já se alcançou, no caso, a Redenção definitiva e a Salvação), vendo-se depois afundado nos seus próprios pecados. A história da Igreja destes últimos decênios o demonstra.
Nós, ao invés, recorramos novamente a São Leão Magno, que tira as verdadeiras conclusões deste Augusto Advento: “Despojemo-nos, portanto, do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne”. Para nós, o Natal é um grande sinal de esperança, esperança que deve nos animar para o combate espiritual. Sua graça não nos falta, e é ela que constitui o que há de mais genuíno na dignidade do cristão: “Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade, e já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro. Recorda-te de que foste arrancado do poder das trevas e levado para a luz e o Reino de Deus”.”
(Veritati, dezembro de 2009)