“A completa ausência de personalidades viris na sociedade contemporânea é um fenômeno espantoso. A ojeriza contra virtudes como força e coragem impregnou-se tanto nos espíritos, que se tornou quase um pecado portar-se de maneira mais masculina. A própria opinião pública faz pressão sobre os jovens para que vivam mais o seu "lado feminino". E o resultado disso se reflete não somente no seu vestuário — cada vez mais fresco —, mas também — e mais gravemente — na sua maneira de lidar com conflitos e decisões sérias.
Vejam, por exemplo, o comportamento dos líderes políticos. Com raríssimas exceções, é praticamente impossível encontrar um que inspire segurança e paternidade. Ao contrário, a esmagadora maioria deles parece mais preocupada com a estética diante das câmeras, com o discurso ambíguo e a imagem de bom mocinho, do que com tomadas de decisões objetivas, ainda que estas venham a desagradar a algum grupo.
É claro que todo esse afrouxamento de caráter não se desenvolveu espontaneamente. Tratou-se de um grave equívoco filosófico e teológico, de cujos resultados muitos grupos sedentos por poder têm se aproveitado.
Em sua Análise sobre o homem, o psicólogo Erich Fromm explica que, no século XVIII, a filosofia de Immanuel Kant desenvolveu uma espécie de "consciência culpada". Esse filósofo alemão, piedoso e escrupuloso que era, retirou a moralidade da ordem do amor para colocá-la na ordem da justiça. E, nessa visão, toda ação humana deve ser absolutamente desinteressada; a moral torna-se um "imperativo categórico", ou seja, um dever social que está acima de qualquer direito: mesmo sob uma ditadura, nenhuma pessoa pode reivindicar algo para si. O que Kant conseguiu produzir, por conseguinte, foi "a mais glacial atmosfera ética jamais proposta ao homem".
Notem: o que rege a coragem de um homem para defender sua vida e a de sua família é o amor e a ordem com que ele ama essas mesmas coisas. Mas Kant condenou o amor, chamando-o de interesseiro. Para ele, os homens devem defender suas famílias não porque as amam, mas porque é seu dever. O homem que defende sua família por amor é entendido pela filosofia kantiana como alguém egoísta. Enfim, Kant separou as virtudes da caridade e da fortaleza. E, como dizia Chesterton, as virtudes separadas umas das outras ficam loucas. Sem o motor do amor, na verdade, todas as demais virtudes, como a fortaleza e a justiça, perdem o seu elã e a covardia toma conta do espaço.
Em sua análise, Fromm adverte que essa condenação do amor em nome do puro dever foi assumida pela cultura ocidental, de modo que as pessoas facilmente deixaram de lutar para se submeterem a uma falsa autoridade superior. A cultura contemporânea criou homens passivos e incapazes de qualquer reação viril, porque suas personalidades foram tomadas pelo "amolecimento", pela "docilidade sem virtude", pela "mansidão sem brio", pela "resignação sem mérito". Em poucas palavras: eles deixaram de ser homens.
"Sê enérgico. — Sê viril. — Sê homem. — E depois... sê anjo". Talvez nunca esse conselho de São Josemaria Escrivá tenha valido tanto como nos dias de hoje.”
(Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, Uma Lição de Masculinidade para o Nosso Tempo)
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segunda-feira, 7 de abril de 2025
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024
O futuro retorno da monarquia
“Os estados modernos, que são monstruosidades burocráticas e jurídicas divorciadas de qualquer sabedoria filosófica, cada vez mais demonstram que terão de ser suplantados nas próximas décadas como uma condição de sobrevivência das nações ocidentais. Tecnocracias mal administradas por elites ridiculamente estúpidas que com desfaçatez inédita na história humana se propõem a regular cada detalhe da vida social e individual. Estes estados desfalecem diante de nossos olhos.
Instituições de princípios vazios de sentido, que não resistem a simples análises lógicas oferecem-nos um espetáculo exemplar de malignidades. Igualdade e liberdade, por exemplo, as palavras de ordem da modernidade, são termos contraditórios e não aplicáveis à realidade, destoantes da ordem natural. Conceitos que simplesmente não podem ser tomados como princípios, mas sendo, produzem a catástrofe política que é a República Liberal. Enquanto o igualitarismo é uma triste e destrutiva ficção, a liberdade como princípio imperante é um paradoxo, pois destrói as legítimas liberdades humanas ao destruir a ordem que as sustenta.
Eis que conceitos abstratos aplicados indefinidamente levam a contradições intermináveis. A profusão anárquica de nossos dias, os saques, a destruição das metrópoles, a decadência dos centros urbanos, o ataque às bases e símbolos da civilização, manifestações de barbarismo e bestialidade dos Antifa e da esquerda em geral e acima de tudo, a impotência das forças de ordem frente à ignorância dos líderes políticos; tudo isto é apenas uma parcela da camada visível da permanente crise revolucionária. Não é sintomático que a normalização da corrupção moral é justificada como liberdade e a decadência da cultura e da política são justificados pela igualdade?
Estes falsos deuses modernos cairão; eventualmente alguma das gerações vindouras irá derrubá-los e entronizar os verdadeiros princípios. Aquilo que Leão XIII chamou de "funestos erros" sairão de cena pela marcha das consciências restauradoras. Igualdade, democracia de massas, soberania popular, tudo isso está fadado à destruição. Será pelo caos revolucionário que leva ao totalitarismo ou pelo triunfo contra-revolucionário que trará a restauração. Nós que ainda temos bom-senso optamos pela Contra-Revolução.
Não é a Sexta República Brasileira que precisa cair. É a República Moderna, pseudo-religião naturalista e gnóstica que precisa morrer. E como diria um certo Nietzsche, só vencemos aquilo que substituímos, apenas o Império pode garantir a superação da hipermodernidade. A monarquia como regime apaziguador, unificador do povo, com autoridade e agilidade para exercer o legítimo papel do estado e limitado naquilo que a subsidiariedade ordena a grei. Regime forte e estável, irradiador de virtudes e inibidor de corrupções. Pronto para fazer da Nação uma potência próspera e espiritualmente vigorosa. Regime liderado por um elo real e concreto entre o passado, o presente e o futuro. Uma família educada desde a infância, conhecedora e amante da Nação, comprometida com esta.
E que Império poderá ser forte, sábio e capaz para lidar com a imundice pós-moderna? Lembremos novamente Leão XIII em sua Diuturnum Ilud:
"Quando a sociedade civil, surgida de entre as ruínas do Império Romano, se abriu de novo à esperança da grandeza cristã, os Romanos Pontífices consagraram de um modo singular o poder civil com o Imperium Sacrum."
Pois bem, a Monarquia não voltará como uma República coroada. Voltará sim, como parte de uma restauração superior, um reflexo da atuação de forças transcendentes na história. Nestes anos 20 haver-se-á de preparar e nas décadas seguintes a marcha celestial da cruzada contra a besta revolucionária ressoará triunfante. A restauração do que Leão XIII lembrava na Immortale Dei:
"Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos príncipes e à proteção legítima dos magistrados. Então o sacerdócio e o império estavam ligados em si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.
Se a Europa cristã domou as nações bárbaras e as fez passar da ferocidade para a mansidão, da superstição para a verdade; se repeliu vitoriosamente as invasões muçulmanas, se guardou a supremacia da civilização, e se, em tudo que faz honra à humanidade, constantemente e em toda parte se mostrou guia e mestra; se brindou os povos com a verdadeira liberdade sob essas diversas formas, se sapientissimamente fundou uma multidão de obras para o alívio das misérias; é fora de toda dúvida que, assim, ela é grandemente devedora à religião, sob cuja inspiração e com cujo auxílio empreendeu e realizou tão grandes coisas."
E que não haja ilusões, o Imperium Sacrum voltará em meio a uma guerra. Terá de ser integralmente restaurador ou será abortado no princípio pelas elites luciferianas e seus asseclas idiotas úteis que hoje nos dominam e infestam a sociedade.
Joseph de Maistre em sua refutação a Rousseau já antevia: "Cabe aos homens sábios de todas as nações refletir profundamente sobre as antigas leis das monarquias, os bons costumes de cada nação e o caráter geral dos povos europeus. É nessas fontes sagradas que eles encontrarão remédios adequados aos nossos infortúnios, e os sábios meios de regeneração serão infinitamente separados das teorias absurdas e idéias exageradas que nos causaram tanto dano."”
(O Imperialista, em postagem no Facebook de 10.06.2020)
Instituições de princípios vazios de sentido, que não resistem a simples análises lógicas oferecem-nos um espetáculo exemplar de malignidades. Igualdade e liberdade, por exemplo, as palavras de ordem da modernidade, são termos contraditórios e não aplicáveis à realidade, destoantes da ordem natural. Conceitos que simplesmente não podem ser tomados como princípios, mas sendo, produzem a catástrofe política que é a República Liberal. Enquanto o igualitarismo é uma triste e destrutiva ficção, a liberdade como princípio imperante é um paradoxo, pois destrói as legítimas liberdades humanas ao destruir a ordem que as sustenta.
Eis que conceitos abstratos aplicados indefinidamente levam a contradições intermináveis. A profusão anárquica de nossos dias, os saques, a destruição das metrópoles, a decadência dos centros urbanos, o ataque às bases e símbolos da civilização, manifestações de barbarismo e bestialidade dos Antifa e da esquerda em geral e acima de tudo, a impotência das forças de ordem frente à ignorância dos líderes políticos; tudo isto é apenas uma parcela da camada visível da permanente crise revolucionária. Não é sintomático que a normalização da corrupção moral é justificada como liberdade e a decadência da cultura e da política são justificados pela igualdade?
Estes falsos deuses modernos cairão; eventualmente alguma das gerações vindouras irá derrubá-los e entronizar os verdadeiros princípios. Aquilo que Leão XIII chamou de "funestos erros" sairão de cena pela marcha das consciências restauradoras. Igualdade, democracia de massas, soberania popular, tudo isso está fadado à destruição. Será pelo caos revolucionário que leva ao totalitarismo ou pelo triunfo contra-revolucionário que trará a restauração. Nós que ainda temos bom-senso optamos pela Contra-Revolução.
Não é a Sexta República Brasileira que precisa cair. É a República Moderna, pseudo-religião naturalista e gnóstica que precisa morrer. E como diria um certo Nietzsche, só vencemos aquilo que substituímos, apenas o Império pode garantir a superação da hipermodernidade. A monarquia como regime apaziguador, unificador do povo, com autoridade e agilidade para exercer o legítimo papel do estado e limitado naquilo que a subsidiariedade ordena a grei. Regime forte e estável, irradiador de virtudes e inibidor de corrupções. Pronto para fazer da Nação uma potência próspera e espiritualmente vigorosa. Regime liderado por um elo real e concreto entre o passado, o presente e o futuro. Uma família educada desde a infância, conhecedora e amante da Nação, comprometida com esta.
E que Império poderá ser forte, sábio e capaz para lidar com a imundice pós-moderna? Lembremos novamente Leão XIII em sua Diuturnum Ilud:
"Quando a sociedade civil, surgida de entre as ruínas do Império Romano, se abriu de novo à esperança da grandeza cristã, os Romanos Pontífices consagraram de um modo singular o poder civil com o Imperium Sacrum."
Pois bem, a Monarquia não voltará como uma República coroada. Voltará sim, como parte de uma restauração superior, um reflexo da atuação de forças transcendentes na história. Nestes anos 20 haver-se-á de preparar e nas décadas seguintes a marcha celestial da cruzada contra a besta revolucionária ressoará triunfante. A restauração do que Leão XIII lembrava na Immortale Dei:
"Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos príncipes e à proteção legítima dos magistrados. Então o sacerdócio e o império estavam ligados em si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.
Se a Europa cristã domou as nações bárbaras e as fez passar da ferocidade para a mansidão, da superstição para a verdade; se repeliu vitoriosamente as invasões muçulmanas, se guardou a supremacia da civilização, e se, em tudo que faz honra à humanidade, constantemente e em toda parte se mostrou guia e mestra; se brindou os povos com a verdadeira liberdade sob essas diversas formas, se sapientissimamente fundou uma multidão de obras para o alívio das misérias; é fora de toda dúvida que, assim, ela é grandemente devedora à religião, sob cuja inspiração e com cujo auxílio empreendeu e realizou tão grandes coisas."
E que não haja ilusões, o Imperium Sacrum voltará em meio a uma guerra. Terá de ser integralmente restaurador ou será abortado no princípio pelas elites luciferianas e seus asseclas idiotas úteis que hoje nos dominam e infestam a sociedade.
Joseph de Maistre em sua refutação a Rousseau já antevia: "Cabe aos homens sábios de todas as nações refletir profundamente sobre as antigas leis das monarquias, os bons costumes de cada nação e o caráter geral dos povos europeus. É nessas fontes sagradas que eles encontrarão remédios adequados aos nossos infortúnios, e os sábios meios de regeneração serão infinitamente separados das teorias absurdas e idéias exageradas que nos causaram tanto dano."”
(O Imperialista, em postagem no Facebook de 10.06.2020)
sexta-feira, 30 de junho de 2023
A crise moderna se chama revolução

“Todas as crises se resumem em uma: a crise do homem. As muitas crises que abalam o mundo hodierno — do Estado, da família, da economia, da cultura, etc. — não constituem senão múltiplos aspectos de uma só crise fundamental, que tem como campo de ação o próprio homem.
Em outros termos, essas crises têm sua raiz nos problemas de alma mais profundos, de onde se estendem - para todos os aspectos da personalidade do homem contemporâneo e todas as suas atividades.
Essa crise é universal. Não há hoje povo que não esteja atingido por ela, em grau maior ou menor. Essa crise é una. Isto é, não se trata de um conjunto de crises que se desenvolvem paralela e autonomamente em cada país, ligadas entre si por algumas analogias mais ou menos irrelevantes.
Essa crise é total. Considerada em dado país, essa crise se desenvolve numa zona de problemas tão profunda, que ela se prolonga ou se desdobra, pela própria ordem das coisas, em todas as potências da alma, em todos os campos da cultura, em todos os domínios, enfim, da ação do homem.
É dominante. Essa crise é como uma rainha a que todas as forças do caos servem como instrumentos eficientes e dóceis. É sucessiva. Essa crise não é um fato espetacular e isolado. Ela constitui, pelo contrário, um processo crítico já cinco vezes secular, um longo sistema de causas e efeitos que, tendo nascido, em momento dado, com grande intensidade, nas zonas mais profundas da alma e da cultura do homem ocidental, vem produzindo, desde o século XV até nossos dias, sucessivas convulsões.
A causa principal de nossa presente situação é impalpável, sutil, penetrante como se fosse uma poderosa e temível radioatividade. Todos lhe sentem os efeitos, mas poucos saberiam dizer-lhe o nome e a essência.
Este inimigo terrível tem um nome: ele se chama Revolução.
Sua causa profunda é uma explosão de orgulho e sensualidade que inspirou, não diríamos um sistema, mas toda uma cadeia de sistemas ideológicos.
Entre as paixões desordenadas, o orgulho e a sensualidade ocupam um lugar proeminente. Eles marcam o utopista com duas notas principais: o desejo de ser supremo em sua esfera, não aceitando sequer um Deus transcendente, e a tendência a uma plena liberdade na satisfação de todos os instintos e apetências desregradas.
A Revolução é a desordem e a ilegitimidade por excelência. Os agentes do caos e da subversão fazem como o cientista, que em vez de agir por si só, estuda e põe em ação as forças, mil vezes mais poderosas, da natureza.
Da larga aceitação dada a estes no mundo inteiro, decorreram as três grandes revoluções da História do Ocidente: a Pseudo-Reforma, a Revolução Francesa e o Comunismo.
O orgulho leva ao ódio a toda superioridade, e, pois, à afirmação de que a desigualdade é em si mesma, em todos os planos, inclusive e principalmente nos planos metafísico e religioso, um mal. É o aspecto igualitário da Revolução.
A sensualidade, de si, tende a derrubar todas as barreiras. Ela não aceita freios e leva à revolta contra toda autoridade e toda lei, seja divina ou humana, eclesiástica ou civil. É o aspecto liberal da Revolução.
Ambos os aspectos, que têm em última análise um caráter metafísico, parecem contraditórios em muitas ocasiões, mas se conciliam na utopia marxista de um paraíso anárquico em que uma humanidade altamente evoluída e “emancipada” de qualquer religião vivesse em ordem profunda sem autoridade política, e em uma liberdade total da qual entretanto não decorresse qualquer desigualdade.
A Pseudo-Reforma foi uma primeira Revolução. Ela implantou o espírito de dúvida, o liberalismo religioso e o igualitarismo eclesiástico, em medida variável aliás nas várias seitas a que deu origem.
Seguiu-se-lhe a Revolução Francesa, que foi o triunfo do igualitarismo em dois campos. No campo religioso, sob a forma do ateísmo, especiosamente rotulado de laicismo. E na esfera política, pela falsa máxima de que toda a desigualdade é uma injustiça, toda autoridade um perigo, e a liberdade o bem supremo.
O Comunismo é a transposição destas máximas para o campo social e econômico.”
(Plínio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução)
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2022
A decadência das instituições modernas

“Nossas instituições nada mais valem: acerca disso há unanimidade. O problema não está ligado a elas, mas a nós. Depois que perdemos todos os instintos dos quais nascem as instituições, estamos perdendo as instituições mesmas, porque não mais prestamos para elas. O democratismo sempre foi a forma de declínio da força organizadora: já em Humano, Demasiado Humano, I, 318,125 caracterizei a moderna democracia, juntamente com suas meias realidades, como o “Reich alemão”, como forma declinante do Estado. Para que haja instituições, é preciso haver uma espécie de vontade, de instinto, de imperativo, antiliberal até a malvadeza: a vontade de tradição, de autoridade, de responsabilidade por séculos adiante, de solidariedade entre cadeias de gerações, para a frente e para trás in infinitum. Estando presente essa vontade, algo como o Imperium Romanum é fundado; ou como a Rússia, o único poder que hoje tem durabilidade, que pode esperar, que pode ainda prometer algo — Rússia, o conceito contrário à miserável divisão européia em pequenos Estados e ao nervosismo europeu, que a fundação do Reich alemão fez entrar numa fase crítica... O Ocidente inteiro não tem mais os instintos de que nascem as instituições, de que nasce futuro: talvez nada contrarie tanto o seu “espírito moderno”. Vive-se para hoje, vive-se rapidamente — vive-se irresponsavelmente: eis precisamente o que se chama “liberdade”. O que de instituições faz instituições é desprezado, odiado, rejeitado: acredita-se correr o perigo de uma nova escravidão, tão logo a palavra “autoridade” é ouvida. A esse ponto vai a décadence no instinto de valor de nossos políticos, de nossos partidos políticos: eles instintivamente preferem aquilo que dissolve, que apressa o fim... Testemunha disso é o casamento moderno. Ele claramente perdeu toda racionalidade: mas isso não constitui objeção ao casamento, e sim à modernidade. A racionalidade do casamento estava na responsabilidade legal única do homem: com isso o casamento tinha um centro de gravidade, enquanto agora manca das duas pernas. A racionalidade do casamento estava em sua indissolubilidade por princípio: com isso adquiriu um tom capaz de fazer-se ouvir, perante o acaso de sentimento, paixão e momento. Estava igualmente na responsabilidade das famílias pela escolha dos noivos. A crescente indulgência para com o casamento por amor praticamente eliminou o fundamento do matrimônio, aquilo que faz dele uma instituição. Jamais, em tempo algum, uma instituição é fundada numa idiossincrasia, não se funda o matrimônio, como disse, no “amor” — ele é fundado no instinto sexual, no instinto de posse (mulher e filho como posses), no instinto de dominação, que incessantemente organiza para si a menor formação de domínio, a família, que necessita de filhos e herdeiros, para segurar também fisiologicamente a medida que alcançou de poder, influência e riqueza, para preparar longas tarefas e a solidariedade de instinto entre os séculos. O casamento como instituição já compreende em si a afirmação da maior e mais duradoura forma de organização: quando a sociedade mesma não pode garantir-se como um todo, até as mais remotas gerações por vir, não há sentido no casamento. — O casamento moderno perdeu seu sentido — portanto, está sendo abolido.”
(Friedrich Nietzsche, Götzen-Dämmerung oder Wie man mit dem Hammer philosophiert)
quarta-feira, 15 de junho de 2022
Como o coronavírus conquistou o mundo
“O léxico de chavões mentirosos do governo ganhou outra entrada vergonhosa. “Apenas três semanas para achatar a curva!” eles imploraram, há um longo ano. No entanto, após doze meses de autoritarismo e solidão imposta pelo Estado, em Miami equipes da SWAT estão prendendo foliões em férias de primavera. Protestos contra o confinamento de Amsterdã a Kassel estão se intensificando por toda a Europa.
As tão alardeadas vacinas parecem não nos ter aproximado da liberdade. As justificativas iniciais para a suspensão da liberdade, sem dúvida, serão agora classificadas na história ao lado de slogans inglórios como "as tropas estarão em casa no Natal" e "diversidade é nossa força". Os debates continuam a se acirrar sobre a letalidade e a origem do Coronavírus, mas, na verdade, já se tornaram discussões amplamente acadêmicas.
O Coronavírus não é primariamente um fenômeno epidemiológico, mas sociológico e político. Nossa pergunta não deve ser por que essa pandemia aconteceu agora, mas por que os governos e as sociedades responderam a ela da maneira como o fizeram.
A verdade pode ser que o Coronavírus não surgiu em Wuhan há um ano, mas, ao contrário, esteve incubado na psique das sociedades modernas durante anos. A facilidade com que as populações não apenas consentiram com as restrições governamentais, mas voluntariamente ainda exigiram mais delas é a prova de que já havíamos aceitado em nossos corações a premissa dos confinamentos contra o Coronavírus há muito tempo.
É importante notar que quase todas as tendências e mudanças que o Coronavirus aparentemente desencadeou são, na verdade, simplesmente uma aceleração do que era preexistente. Atomização, uma retirada do mundo físico para o digital, uma histeria coletiva neurótica em face da morte sem uma estrutura espiritual, a expectativa de que o governo proverá, uma crença pseudo-religiosa em especialistas e redenção científica, e a hiperpolitização da atividade comunitária.
Ao examinarmos o Coronavírus como uma exibição social em vez de um surto viral mortal, é útil identificarmos quem tem consistentemente resistido ao bloqueio. Em primeiro lugar, as comunidades religiosas no Ocidente continuaram suas vidas sem obstáculos. Algumas semanas atrás, a fortaleza judaica ortodoxa de Stamford Hill em Londres tinha a maior taxa de infecção por Coronavírus no Reino Unido.
Da mesma forma, vários casos importantes de casamentos e festivais religiosos indianos e paquistaneses estão sendo encerrados; e não passou despercebido que cidades como Bradford e Leicester, com grandes populações de minorias étnicas, tinham taxas de infecção por Covid desproporcionalmente altas. É popular na direita apontar isso como um exemplo do fracasso do multiculturalismo, destacando que as comunidades de imigrantes não cumprem as leis da terra e que os governos são muito tímidos para aplicá-las em todo caso, temendo acusações de racismo. Esses pontos são, é claro, ambos verdadeiros. Mas isso também talvez diga mais sobre as sociedades anfitriãs ocidentais do que sobre aqueles que optaram por migrar para elas.
Liberais aflitos podem atribuir essa diferença de atitudes étnicas ao Coronavírus à falta de educação e recursos ou à nossa insensibilidade a valores culturais alternativos. Traduzindo, isso significa que as comunidades judaica, hindu e islâmica não foram moralmente intimidadas por uma doença com uma taxa média de mortalidade, na maioria dos casos, acima da expectativa de vida média; e também não ficaram impressionadas com o potencial de ostracização social se não obedecessem.
Naturalmente, pode ser que elas estejam além da reprovação pública no Ocidente, mas sua resposta tem sido perene, e não moderna. Protegidas pela fé, adotaram uma visão teologicamente fatalista e optaram por continuar a celebrar o ciclo da vida e da morte – casamentos, nascimentos, funerais e aniversários. Os gritos estridentes de indignação moral sobre o egoísmo que mata a avó têm muito menos peso se você já aceitou que seus avós vão morrer, e você também. Em um mundo movido pelo sofrimento e pelo caos temporal, elas optaram por ter vidas que fazem sentido em vez de, potencialmente, viver apenas um pouco mais na criostase autoimposta pelas sociedades ocidentais.
Enquanto esses grupos religiosos prosseguiam com suas reuniões clandestinas na mesquita ou na sinagoga, os britânicos eremitas ousaram deixar seus esconderijos parecidos com úteros para aplaudir estupidamente o NHS em um ato pseudorreligioso de adoração. Sem uma base metafísica, apenas a quantidade, e não a qualidade de vida, tem algum valor. Se enfermeiras e médicos são os sumos sacerdotes desta nova religião, eles têm todo direito a serem venerados e bajulados. A transição de um governo de gerentes intermediários oligárquicos para a dominação total por um grupelho científico não eleito não foi realmente tão drástica, pois a política já havia sido reduzida a nada mais do que um exercício racionalista e utilitário de solução de problemas.
A única coisa em que os partidos políticos parecem discordar é se as restrições são duras o suficiente e se a logística de policiamento e vacinação tem sido suficientemente draconiana. Nenhum exame filosófico dos objetivos do confinamento é permitido. Ainda assim, isso não é surpreendente em sociedades que também não permitem o questionamento das vacas sagradas da diversificação demográfica, das desventuras da política externa ou da toxicidade da Cultura do Cancelamento quando certos fenômenos sociais são abordados. A população já havia sido intimidada e pré-programada para aceitar inquestionavelmente novas doutrinas por anos de repressão à liberdade de expressão e ao pensamento independente.
Isso não significa, no entanto, que o confinamento seja impopular. Se houvesse uma votação democrática, é provável que em muitos países ocidentais poderia ser mantido no futuro, talvez até indefinidamente. No Japão, enormes segmentos da população se retiraram totalmente da sociedade, vivendo suas vidas em seus quartos, sustentados pelos pais ou pelo Estado, vivendo em condição de total vergonha social, desenvolvimento interrompido e consumo hedonista.
O termo para isso é Hikikomori. O que à primeira vista pode parecer uma anomalia da cultura japonesa é, na verdade, um vislumbre do futuro da sociedade moderna. Somos todos Hikikomori agora. Uma parte significativa das pessoas não tem pressa em retornar à normalidade porque a normalidade para elas era o isolamento social e a alienação com exigências adicionais que lhes eram impostas. O que o mundo exterior ainda oferece a essas pessoas? A resposta para um número crescente são empregos corporativos sem alma, desnecessários e insatisfatórios em um mundo atomizado onde ninguém ao seu redor se parece com você, situado em meio a vilas e cidades cada vez mais globalizadas e intercambiáveis.
A Suécia é talvez o caso mais avançado dessa decadência terminal da modernidade, embora tenha as restrições de confinamento mais leves da Europa. A princípio, isso parece paradoxal, mas, de muitas maneiras, apenas reforça a análise. Com sua enorme população migrante que, pelos motivos descritos anteriormente, não respeitaria quaisquer restrições, e com sua sociedade completamente atomizada e autocensuradora na qual quase 40% das pessoas vivem sozinhas, as restrições legais formais talvez tenham sido consideradas desnecessárias quando a vasta maioria da população se autopoliciaria seguindo o Jantelagen. As comunidades de migrantes nunca seriam obrigadas a obedecer de qualquer maneira.
Tudo isso ilustra uma percepção fundamental: as estruturas de incentivo das sociedades ocidentais foram alteradas drasticamente nas últimas décadas. A aquisição de riqueza, a transmissão dos próprios genes para a próxima geração e o ganho de posição social na comunidade local foram substituídos por sinalização de virtude e subida na escada de influência social da comunidade digital global.
Vivemos online. Nossa comunidade é nosso feed do Twitter, nosso grupo de jogos, nossas fotos com curadoria do Instagram. É claro que esta não é uma avaliação particularmente original ou convincente por si mesma, mas também devemos entender que a natureza da vida digital mudou. Embora a mídia social tenha sido lançada como um meio para se conectar e manter contato com amigos do mundo real, agora é um veículo para conformidade, pensamento de grupo e passividade. Isso é sublinhado por uma mudança sutil, mas significativa, na linguagem das relações sociais. Os outros não são mais amigos como eram no início das mídias sociais, mas agora são apenas seguidores.
A interação social online deixou de ser bidirecional e recíproca; é a do devoto e do líder de culto. É uma mentalidade de escravo e senhor. Portanto, é improvável que uma revolta repentina contra o consenso popular surja daqueles que, mesmo em seu domínio online privado, são líderes de torcida passivos. O fato é que o mundo físico perdeu o controle sobre a imaginação moderna.
Sair para ganhar a vida é uma atividade quase arcaica quando avançamos em direção a estados tão abrangentes que fornecerão uma renda básica universal impulsionada pela impressão de moeda sem lastro. A ascensão do Bitcoin é uma reação ao sentimento de que nossas economias são uma ficção gigante, acumulando dívidas que nunca se destinam a ser pagas, presididas por um punhado de oligarcas com mais riqueza do que poderíamos imaginar. Nessas condições, sair e entrar no escritório parece terrivelmente antiquado.
Da mesma forma, o sexo foi relegado a uma atividade solo na era digital, à medida que a pornografia suplanta a procriação para a geração Onlyfans. No Ocidente, há cada vez menos âncoras comunitárias, à medida que os pubs e as igrejas fecham. Tudo isso contribui para a sensação de que não há nada no mundo que tenha qualquer valor e, portanto, a perda da liberdade de sair e se associar com muitos tem sido mais um inconveniente do que uma questão de vida ou morte.
A prominência de vida, morte e mortalidade, no entanto, desempenha um papel importante na crise atual. Caçar temores sobre a saúde para incutir a conformidade com a política governamental tem-se mostrado um grande sucesso, precisamente porque a população já está pronta para acreditar que está em risco. Isso ocorre porque, de muitas maneiras, ela está. Uma população obesa, envelhecida, mental e cronicamente doente já está bem versada no medo internalizado de sua própria incapacitação e morte. Jogar com base nisso é a estratégia de Relações Públicas perfeita, que seria inconcebível em uma sociedade forte e viril.
Todos esses fatores contribuíram para a conquista do mundo pelo Coronavírus e, coletivamente, significam um longo inverno para a liberdade humana. As liberdades que perdemos podem ser restauradas gradativamente nos próximos meses e anos, mas nos mostramos amplamente dispostos a abandonar nossos direitos e penosamente lentos em pedi-los de volta.
Não há razão para acreditar que um evento como o Coronavírus não possa acontecer novamente. Vivemos em uma era de política crônica, não aguda, em que as narrativas perduram por meses e anos. O mal-estar cultural e social subjacente, a neurose coletiva e a morte espiritual de vastas áreas do Ocidente não serão revertidos rapidamente. Nosso único recurso é começar a nos enraizar novamente em uma vida heideggeriana autêntica, buscar indivíduos com ideias semelhantes e construir comunidades robustas e resilientes que possam prosperar nesta paisagem existencial sombria. Enquanto outros vivem suas vidas em êxtase, devemos abraçar a realidade com vigor e trabalhar para recuperar nossa realidade.”
(Veiko Hessler, How Coronavirus Took Over The World)
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As tão alardeadas vacinas parecem não nos ter aproximado da liberdade. As justificativas iniciais para a suspensão da liberdade, sem dúvida, serão agora classificadas na história ao lado de slogans inglórios como "as tropas estarão em casa no Natal" e "diversidade é nossa força". Os debates continuam a se acirrar sobre a letalidade e a origem do Coronavírus, mas, na verdade, já se tornaram discussões amplamente acadêmicas.
O Coronavírus não é primariamente um fenômeno epidemiológico, mas sociológico e político. Nossa pergunta não deve ser por que essa pandemia aconteceu agora, mas por que os governos e as sociedades responderam a ela da maneira como o fizeram.
A verdade pode ser que o Coronavírus não surgiu em Wuhan há um ano, mas, ao contrário, esteve incubado na psique das sociedades modernas durante anos. A facilidade com que as populações não apenas consentiram com as restrições governamentais, mas voluntariamente ainda exigiram mais delas é a prova de que já havíamos aceitado em nossos corações a premissa dos confinamentos contra o Coronavírus há muito tempo.
É importante notar que quase todas as tendências e mudanças que o Coronavirus aparentemente desencadeou são, na verdade, simplesmente uma aceleração do que era preexistente. Atomização, uma retirada do mundo físico para o digital, uma histeria coletiva neurótica em face da morte sem uma estrutura espiritual, a expectativa de que o governo proverá, uma crença pseudo-religiosa em especialistas e redenção científica, e a hiperpolitização da atividade comunitária.
Ao examinarmos o Coronavírus como uma exibição social em vez de um surto viral mortal, é útil identificarmos quem tem consistentemente resistido ao bloqueio. Em primeiro lugar, as comunidades religiosas no Ocidente continuaram suas vidas sem obstáculos. Algumas semanas atrás, a fortaleza judaica ortodoxa de Stamford Hill em Londres tinha a maior taxa de infecção por Coronavírus no Reino Unido.
Da mesma forma, vários casos importantes de casamentos e festivais religiosos indianos e paquistaneses estão sendo encerrados; e não passou despercebido que cidades como Bradford e Leicester, com grandes populações de minorias étnicas, tinham taxas de infecção por Covid desproporcionalmente altas. É popular na direita apontar isso como um exemplo do fracasso do multiculturalismo, destacando que as comunidades de imigrantes não cumprem as leis da terra e que os governos são muito tímidos para aplicá-las em todo caso, temendo acusações de racismo. Esses pontos são, é claro, ambos verdadeiros. Mas isso também talvez diga mais sobre as sociedades anfitriãs ocidentais do que sobre aqueles que optaram por migrar para elas.
Liberais aflitos podem atribuir essa diferença de atitudes étnicas ao Coronavírus à falta de educação e recursos ou à nossa insensibilidade a valores culturais alternativos. Traduzindo, isso significa que as comunidades judaica, hindu e islâmica não foram moralmente intimidadas por uma doença com uma taxa média de mortalidade, na maioria dos casos, acima da expectativa de vida média; e também não ficaram impressionadas com o potencial de ostracização social se não obedecessem.
Naturalmente, pode ser que elas estejam além da reprovação pública no Ocidente, mas sua resposta tem sido perene, e não moderna. Protegidas pela fé, adotaram uma visão teologicamente fatalista e optaram por continuar a celebrar o ciclo da vida e da morte – casamentos, nascimentos, funerais e aniversários. Os gritos estridentes de indignação moral sobre o egoísmo que mata a avó têm muito menos peso se você já aceitou que seus avós vão morrer, e você também. Em um mundo movido pelo sofrimento e pelo caos temporal, elas optaram por ter vidas que fazem sentido em vez de, potencialmente, viver apenas um pouco mais na criostase autoimposta pelas sociedades ocidentais.
Enquanto esses grupos religiosos prosseguiam com suas reuniões clandestinas na mesquita ou na sinagoga, os britânicos eremitas ousaram deixar seus esconderijos parecidos com úteros para aplaudir estupidamente o NHS em um ato pseudorreligioso de adoração. Sem uma base metafísica, apenas a quantidade, e não a qualidade de vida, tem algum valor. Se enfermeiras e médicos são os sumos sacerdotes desta nova religião, eles têm todo direito a serem venerados e bajulados. A transição de um governo de gerentes intermediários oligárquicos para a dominação total por um grupelho científico não eleito não foi realmente tão drástica, pois a política já havia sido reduzida a nada mais do que um exercício racionalista e utilitário de solução de problemas.
A única coisa em que os partidos políticos parecem discordar é se as restrições são duras o suficiente e se a logística de policiamento e vacinação tem sido suficientemente draconiana. Nenhum exame filosófico dos objetivos do confinamento é permitido. Ainda assim, isso não é surpreendente em sociedades que também não permitem o questionamento das vacas sagradas da diversificação demográfica, das desventuras da política externa ou da toxicidade da Cultura do Cancelamento quando certos fenômenos sociais são abordados. A população já havia sido intimidada e pré-programada para aceitar inquestionavelmente novas doutrinas por anos de repressão à liberdade de expressão e ao pensamento independente.
Isso não significa, no entanto, que o confinamento seja impopular. Se houvesse uma votação democrática, é provável que em muitos países ocidentais poderia ser mantido no futuro, talvez até indefinidamente. No Japão, enormes segmentos da população se retiraram totalmente da sociedade, vivendo suas vidas em seus quartos, sustentados pelos pais ou pelo Estado, vivendo em condição de total vergonha social, desenvolvimento interrompido e consumo hedonista.
O termo para isso é Hikikomori. O que à primeira vista pode parecer uma anomalia da cultura japonesa é, na verdade, um vislumbre do futuro da sociedade moderna. Somos todos Hikikomori agora. Uma parte significativa das pessoas não tem pressa em retornar à normalidade porque a normalidade para elas era o isolamento social e a alienação com exigências adicionais que lhes eram impostas. O que o mundo exterior ainda oferece a essas pessoas? A resposta para um número crescente são empregos corporativos sem alma, desnecessários e insatisfatórios em um mundo atomizado onde ninguém ao seu redor se parece com você, situado em meio a vilas e cidades cada vez mais globalizadas e intercambiáveis.
A Suécia é talvez o caso mais avançado dessa decadência terminal da modernidade, embora tenha as restrições de confinamento mais leves da Europa. A princípio, isso parece paradoxal, mas, de muitas maneiras, apenas reforça a análise. Com sua enorme população migrante que, pelos motivos descritos anteriormente, não respeitaria quaisquer restrições, e com sua sociedade completamente atomizada e autocensuradora na qual quase 40% das pessoas vivem sozinhas, as restrições legais formais talvez tenham sido consideradas desnecessárias quando a vasta maioria da população se autopoliciaria seguindo o Jantelagen. As comunidades de migrantes nunca seriam obrigadas a obedecer de qualquer maneira.
Tudo isso ilustra uma percepção fundamental: as estruturas de incentivo das sociedades ocidentais foram alteradas drasticamente nas últimas décadas. A aquisição de riqueza, a transmissão dos próprios genes para a próxima geração e o ganho de posição social na comunidade local foram substituídos por sinalização de virtude e subida na escada de influência social da comunidade digital global.
Vivemos online. Nossa comunidade é nosso feed do Twitter, nosso grupo de jogos, nossas fotos com curadoria do Instagram. É claro que esta não é uma avaliação particularmente original ou convincente por si mesma, mas também devemos entender que a natureza da vida digital mudou. Embora a mídia social tenha sido lançada como um meio para se conectar e manter contato com amigos do mundo real, agora é um veículo para conformidade, pensamento de grupo e passividade. Isso é sublinhado por uma mudança sutil, mas significativa, na linguagem das relações sociais. Os outros não são mais amigos como eram no início das mídias sociais, mas agora são apenas seguidores.
A interação social online deixou de ser bidirecional e recíproca; é a do devoto e do líder de culto. É uma mentalidade de escravo e senhor. Portanto, é improvável que uma revolta repentina contra o consenso popular surja daqueles que, mesmo em seu domínio online privado, são líderes de torcida passivos. O fato é que o mundo físico perdeu o controle sobre a imaginação moderna.
Sair para ganhar a vida é uma atividade quase arcaica quando avançamos em direção a estados tão abrangentes que fornecerão uma renda básica universal impulsionada pela impressão de moeda sem lastro. A ascensão do Bitcoin é uma reação ao sentimento de que nossas economias são uma ficção gigante, acumulando dívidas que nunca se destinam a ser pagas, presididas por um punhado de oligarcas com mais riqueza do que poderíamos imaginar. Nessas condições, sair e entrar no escritório parece terrivelmente antiquado.
Da mesma forma, o sexo foi relegado a uma atividade solo na era digital, à medida que a pornografia suplanta a procriação para a geração Onlyfans. No Ocidente, há cada vez menos âncoras comunitárias, à medida que os pubs e as igrejas fecham. Tudo isso contribui para a sensação de que não há nada no mundo que tenha qualquer valor e, portanto, a perda da liberdade de sair e se associar com muitos tem sido mais um inconveniente do que uma questão de vida ou morte.
A prominência de vida, morte e mortalidade, no entanto, desempenha um papel importante na crise atual. Caçar temores sobre a saúde para incutir a conformidade com a política governamental tem-se mostrado um grande sucesso, precisamente porque a população já está pronta para acreditar que está em risco. Isso ocorre porque, de muitas maneiras, ela está. Uma população obesa, envelhecida, mental e cronicamente doente já está bem versada no medo internalizado de sua própria incapacitação e morte. Jogar com base nisso é a estratégia de Relações Públicas perfeita, que seria inconcebível em uma sociedade forte e viril.
Todos esses fatores contribuíram para a conquista do mundo pelo Coronavírus e, coletivamente, significam um longo inverno para a liberdade humana. As liberdades que perdemos podem ser restauradas gradativamente nos próximos meses e anos, mas nos mostramos amplamente dispostos a abandonar nossos direitos e penosamente lentos em pedi-los de volta.
Não há razão para acreditar que um evento como o Coronavírus não possa acontecer novamente. Vivemos em uma era de política crônica, não aguda, em que as narrativas perduram por meses e anos. O mal-estar cultural e social subjacente, a neurose coletiva e a morte espiritual de vastas áreas do Ocidente não serão revertidos rapidamente. Nosso único recurso é começar a nos enraizar novamente em uma vida heideggeriana autêntica, buscar indivíduos com ideias semelhantes e construir comunidades robustas e resilientes que possam prosperar nesta paisagem existencial sombria. Enquanto outros vivem suas vidas em êxtase, devemos abraçar a realidade com vigor e trabalhar para recuperar nossa realidade.”
(Veiko Hessler, How Coronavirus Took Over The World)
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segunda-feira, 26 de julho de 2021
Me ne frego
“É uma velha expressão italiana fascista (ouvem as sirenes?) que Mussolini apontou como definindo em grande medida o tipo de atitude que tinha de ser abraçada. Veio-lhe à ideia ao ver a fotografia de um soldado italiano da 1ª guerra mundial que escrevera “me ne frego” (“pouco me importa”…) nas ligaduras das suas feridas com o seu próprio sangue. Canções foram feitas… insígnias, crachás e pins foram desde então arrojadamente marcados com as palavras “me ne frego” sob uma caveira com uma faca (ou uma rosa) entre os dentes.
Independentemente do que se pense sobre as suas origens, é uma expressão inspiradora – estas três palavras resumem o espírito de vitória, a tenacidade do guerreiro. É uma atitude com a qual mais pessoas deveriam crescer. Não permanecer caído. Simplesmente levantar-se, avançar, enfrentando a desesperante noite consciente do fim que se aproxima e, mesmo assim, seguir em frente intrepidamente.
Lembro-me que todas as circunstâncias difíceis que o meu pai conheceu na sua luta por um emprego decente foram enfrentadas com essa atitude – algumas coisas estão fora do nosso controlo, às vezes caímos com a cara no chão… me ne frego!
A hipersensibilidade e a vitimização que as pessoas cultivam põem-me doente.
Em tempos difíceis por que nos voltamos para o Estado? Por que é que procuramos uma esmola? Por que desejamos histórias de compaixão? Não há dignidade em atitudes inativas e de auto-comiseração. Não há dignidade na passividade.
Se nós, humanos, somos também animais, germinados a partir do caos e brutalidade do “Reino da Besta”, como é que chegamos a um ponto tal em que ficamos desprovidos do nosso espírito de luta?
A vida deve ser doce por vezes, mas há também a hora do sangue, a luta pela sobrevivência, a força de seguir em frente na cara da oposição e de sentir a coragem do nosso próprio desespero.
É como Henrik Ibsen escreveu na sua peça “Inimigo do Povo”: o homem mais forte é aquele que permanece mais sozinho e não se importa com o apoio dos outros mas sim com a certeza da sua própria razão e legitimidade para enfrentar as massas indolentes.
Nenhum respeito pelo conformista silencioso que segue a linha dominante de pensamento, aconchegado em segurança no meio de um grupo de que não faz realmente parte. Nenhum respeito pelas massas silenciosas que se deslocam lentamente, como gado, para as tumbas a que todas as nossas vidas conduzem.
Então nasceste gay, então tens uma deficiência, então estás pobre, ou cansado ou vencido. O que importa? Por que vitimizares-te e acusares outros pela tua situação? – Por que não lutar pelo que queres, ignorando as tuas feridas? Por que não lembrá-lo tatuando-o nos teus pulsos, usá-lo numa insígnia da tua manga – por que não seres “Tu” frente aos “Normais”, o coração cheio de orgulho, os olhos cheios de raiva?
Estou farto de histórias de compaixão e farto de pessoas que fingem que a humanidade foi feita para caminhar em bicos de pés sobre cascas de ovo, mimando todas as partes da nossa sociedade.
Estou farto de paz. Estou farto de pessoas que capitulam perante as forças do mal – um bom homem sem coluna vertebral é tão útil como um cavalo coxo. Como é que alguém pode aceitar resignadamente limitações e fraquezas na sua vida pessoal – serão tão patéticos e desprovidos de orgulho ao ponto de viverem de favores, de pão e circo?
As nações morrem quando aceitam a servidão silenciosa e prendas.
Devemos ser prestáveis e solidários para com os outros…mas a noção de sentir pena de si mesmo é desprezível. A pessoa que ajuda e é solidária torna-se o vencedor, o poderoso…aqueles que recebem, parados, sendo ajudados, esses são as criaturas patéticas que precisam de reajustar os seus objetivos e reacender a sua chama.
Deveria existir no ser humano um desejo inato de enfrentar a oposição impossível apenas para provar-se a si mesmo, para se auto-superar, para alcançar o sentimento de triunfo. Acharia difícil acordar sem ver esta vida como uma guerra contra forças desconhecidas e uma longa campanha contra a natureza do próprio mundo…
É triste pensar que estamos numa sociedade que vive de condolências piedosas, oferecendo esmolas de simpatia e subsídios estatais.
Não estou feliz a não ser quando sofro o meu triunfo ou enfrento a minha batalha.
Ganha a tua parte, não peças por nada mais; permanece desafiador na face da derrota. Não peças por nada mais.
Desdenho os pedintes cegos, percorrendo o metro de alto a baixo, à procura de esmolas… há outros, que são cegos, que forjam os seus futuros desafiando as suas deficiências. Entrego-te os meus trocos mas espero que entendas que isso não é forma de viveres a tua vida. Quando recebes a minha simpatia e a minha esmola, deverias sentir vergonha e não satisfação.
Fico enojado por legislação destinada a acriançar e proteger, destinada a criar um terno sentimento de “tolerância” porque tu te sentes isolado ou alienado.
Alguns de nós procuram a alienação social e a fraternidade tribalista porque sentimos que é isso que constrói as nossas identidades e a nossa força, que alimenta o animal dentro de nós e nos garante, na nossa juventude, o nosso espírito fogoso e determinação.
Esta é a tua vida e ao perseguires objetivos tão patéticos provas a tua própria natureza patética.
Me ne frego!
Não consigo respeitar nenhuma pessoa que não me consiga olhar nos olhos e falar com honestidade sobre si mesma, que esconde factos e evita situações desagradáveis preferindo desistir.
Todos deveriam ambicionar ser tão duros quanto possível.
Queixas é o que tu ouves de crianças pré-adolescentes. Olhares duros e obstinada recusa em ser ajudado, determinação estóica e olhares gélidos é o que recebes de pessoas que valorizam as suas vidas e os seus esforços ao ponto de não procurarem a tua ajuda.
Respeito criminosos e gangsters mais do que respeito beneficiários da assistência social.
Quando a vida te dá limões… compra tequilla, esfrega algum sal nas tuas feridas e aperta o teu capacete.
Chega de gerações agarradas às saias das mães, a chorar por leite derramado e a queixarem-se de alienação social.
Não te pedirei que lutes as minhas lutas – mas posso pedir que me emprestes a tua faca.
Desde a mais tenra idade que não receio trocar murros e procurar o conflito com os que me rodeiam. Não preciso de nenhuma lei para me proteger, não preciso de qualquer consideração de burocratas de gravata, não preciso de ser salvo de nada que tenha origem humana.
Me ne frego!”
https://ofogodavontade.wordpress.com
Independentemente do que se pense sobre as suas origens, é uma expressão inspiradora – estas três palavras resumem o espírito de vitória, a tenacidade do guerreiro. É uma atitude com a qual mais pessoas deveriam crescer. Não permanecer caído. Simplesmente levantar-se, avançar, enfrentando a desesperante noite consciente do fim que se aproxima e, mesmo assim, seguir em frente intrepidamente.
Lembro-me que todas as circunstâncias difíceis que o meu pai conheceu na sua luta por um emprego decente foram enfrentadas com essa atitude – algumas coisas estão fora do nosso controlo, às vezes caímos com a cara no chão… me ne frego!
A hipersensibilidade e a vitimização que as pessoas cultivam põem-me doente.
Em tempos difíceis por que nos voltamos para o Estado? Por que é que procuramos uma esmola? Por que desejamos histórias de compaixão? Não há dignidade em atitudes inativas e de auto-comiseração. Não há dignidade na passividade.
Se nós, humanos, somos também animais, germinados a partir do caos e brutalidade do “Reino da Besta”, como é que chegamos a um ponto tal em que ficamos desprovidos do nosso espírito de luta?
A vida deve ser doce por vezes, mas há também a hora do sangue, a luta pela sobrevivência, a força de seguir em frente na cara da oposição e de sentir a coragem do nosso próprio desespero.
É como Henrik Ibsen escreveu na sua peça “Inimigo do Povo”: o homem mais forte é aquele que permanece mais sozinho e não se importa com o apoio dos outros mas sim com a certeza da sua própria razão e legitimidade para enfrentar as massas indolentes.
Nenhum respeito pelo conformista silencioso que segue a linha dominante de pensamento, aconchegado em segurança no meio de um grupo de que não faz realmente parte. Nenhum respeito pelas massas silenciosas que se deslocam lentamente, como gado, para as tumbas a que todas as nossas vidas conduzem.
Então nasceste gay, então tens uma deficiência, então estás pobre, ou cansado ou vencido. O que importa? Por que vitimizares-te e acusares outros pela tua situação? – Por que não lutar pelo que queres, ignorando as tuas feridas? Por que não lembrá-lo tatuando-o nos teus pulsos, usá-lo numa insígnia da tua manga – por que não seres “Tu” frente aos “Normais”, o coração cheio de orgulho, os olhos cheios de raiva?
Estou farto de histórias de compaixão e farto de pessoas que fingem que a humanidade foi feita para caminhar em bicos de pés sobre cascas de ovo, mimando todas as partes da nossa sociedade.
Estou farto de paz. Estou farto de pessoas que capitulam perante as forças do mal – um bom homem sem coluna vertebral é tão útil como um cavalo coxo. Como é que alguém pode aceitar resignadamente limitações e fraquezas na sua vida pessoal – serão tão patéticos e desprovidos de orgulho ao ponto de viverem de favores, de pão e circo?
As nações morrem quando aceitam a servidão silenciosa e prendas.
Devemos ser prestáveis e solidários para com os outros…mas a noção de sentir pena de si mesmo é desprezível. A pessoa que ajuda e é solidária torna-se o vencedor, o poderoso…aqueles que recebem, parados, sendo ajudados, esses são as criaturas patéticas que precisam de reajustar os seus objetivos e reacender a sua chama.
Deveria existir no ser humano um desejo inato de enfrentar a oposição impossível apenas para provar-se a si mesmo, para se auto-superar, para alcançar o sentimento de triunfo. Acharia difícil acordar sem ver esta vida como uma guerra contra forças desconhecidas e uma longa campanha contra a natureza do próprio mundo…
É triste pensar que estamos numa sociedade que vive de condolências piedosas, oferecendo esmolas de simpatia e subsídios estatais.
Não estou feliz a não ser quando sofro o meu triunfo ou enfrento a minha batalha.
Ganha a tua parte, não peças por nada mais; permanece desafiador na face da derrota. Não peças por nada mais.
Desdenho os pedintes cegos, percorrendo o metro de alto a baixo, à procura de esmolas… há outros, que são cegos, que forjam os seus futuros desafiando as suas deficiências. Entrego-te os meus trocos mas espero que entendas que isso não é forma de viveres a tua vida. Quando recebes a minha simpatia e a minha esmola, deverias sentir vergonha e não satisfação.
Fico enojado por legislação destinada a acriançar e proteger, destinada a criar um terno sentimento de “tolerância” porque tu te sentes isolado ou alienado.
Alguns de nós procuram a alienação social e a fraternidade tribalista porque sentimos que é isso que constrói as nossas identidades e a nossa força, que alimenta o animal dentro de nós e nos garante, na nossa juventude, o nosso espírito fogoso e determinação.
Esta é a tua vida e ao perseguires objetivos tão patéticos provas a tua própria natureza patética.
Me ne frego!
Não consigo respeitar nenhuma pessoa que não me consiga olhar nos olhos e falar com honestidade sobre si mesma, que esconde factos e evita situações desagradáveis preferindo desistir.
Todos deveriam ambicionar ser tão duros quanto possível.
Queixas é o que tu ouves de crianças pré-adolescentes. Olhares duros e obstinada recusa em ser ajudado, determinação estóica e olhares gélidos é o que recebes de pessoas que valorizam as suas vidas e os seus esforços ao ponto de não procurarem a tua ajuda.
Respeito criminosos e gangsters mais do que respeito beneficiários da assistência social.
Quando a vida te dá limões… compra tequilla, esfrega algum sal nas tuas feridas e aperta o teu capacete.
Chega de gerações agarradas às saias das mães, a chorar por leite derramado e a queixarem-se de alienação social.
Não te pedirei que lutes as minhas lutas – mas posso pedir que me emprestes a tua faca.
Desde a mais tenra idade que não receio trocar murros e procurar o conflito com os que me rodeiam. Não preciso de nenhuma lei para me proteger, não preciso de qualquer consideração de burocratas de gravata, não preciso de ser salvo de nada que tenha origem humana.
Me ne frego!”
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segunda-feira, 15 de março de 2021
Os anormalmente normais

“As verdadeiras vítimas incuráveis de doenças mentais podem ser encontradas entre aqueles que parecem ser os mais normais. Muitos deles são normais porque estão muito bem ajustados ao nosso modo de existência, porque sua voz humana foi silenciada tão cedo em suas vidas que nem sequer lutam ou sofrem ou desenvolvem sintomas como o neurótico. Eles são normais, não no que pode ser chamado de sentido absoluto da palavra; eles são normais apenas em relação a uma sociedade profundamente anormal. Seu perfeito ajuste a essa sociedade anormal é uma medida de sua doença mental. São milhões de pessoas anormalmente normais, vivendo sem problemas em uma sociedade à qual, se fossem seres totalmente humanos, não deveriam estar ajustados.”
(Aldous Huxley, Brave New World Revisited)
quinta-feira, 28 de maio de 2020
O remédio que está matando o paciente

“O comentarista político Dennis Prager, um dos mais ativos militantes do pensamento conservador nos Estados Unidos, fez recentemente uma observação perturbadora. “Para aqueles que estão abertos à leitura de pensamentos com os quais podem divergir”, escreveu Prager, talvez seja o caso de anotar a seguinte ideia: “O lockdown mundial é não apenas um erro, mas também, possivelmente, o pior erro que o mundo já tenha cometido”.
Essa noção, diz ele, é tida como algo tão absurdo quanto imoral por todos os que põem fé na posição da maioria dos líderes mundiais, dos cientistas e médicos, dos pensadores e da mídia diante da catástrofe que estamos vivendo hoje. Mas absurdo e imoral, ao contrário, talvez seja justamente aquilo que passa hoje por sabedoria indiscutível. A maneira com que essa gente toda está administrando a covid-19 é, na verdade, o resultado da soma de “trapaça, covardia e imaturidade que dominam hoje o planeta Terra, porque as elites são trapaceiras, covardes e imaturas”, conclui Prager.
Faz pensar um pouco, não é mesmo? É óbvio que não estamos aqui diante de calamidades como a guerra imposta ao mundo pelo nazismo, o Holocausto do povo judeu ou as guerras de religião. A origem disso tudo está na ação de pessoas perversas que tomaram o poder. Na decisão de parar as sociedades para combater a covid-19, a origem do desastre está no erro em escala monumental — e erros desse tamanho não são cometidos necessariamente por gente má, mas por tolos, arrogantes e ineptos. Estes, infelizmente, vivem em grande número entre nós, e ocupam posições de autoridade em toda parte. É insano que 7 bilhões de pessoas nos quatro cantos do mundo, neste exato momento, estejam fazendo apenas aquilo que os políticos decidem que é “essencial” — quem confia a esse ponto extremo em políticos e governos? Quase ninguém, mas é exatamente isso que está acontecendo.
A questão real que se coloca para todos, e que os executores e adeptos do confinamento radical se recusam a debater, é tão antiga quanto o mundo: o remédio para enfrentar a epidemia dá sinais cada vez mais claros de que pode estar matando o paciente. Para salvar vidas, temos de destruir o mundo em que vivemos — é o que estão dizendo e fazendo na prática, com suas decisões diárias, as autoridades públicas e as forças que as apoiam. “Nós podemos estar olhando hoje para a possibilidade de fome em cerca de três dúzias de países”, disse já em meados de abril o americano David Beasley, diretor-executivo da FAO — a insuspeitíssima FAO das Nações Unidas e dos globalistas, irmã gêmea da OMS.
“Há o perigo real de que mais gente possa morrer do impacto econômico da covid-19 do que do vírus em si.”
Nas contas que a FAO tem hoje sobre a mesa, 260 milhões de pessoas vão ser submetidas à fome neste ano ao redor do mundo — o dobro da cifra de 2019.
Não há comparação possível com as 300 mil mortes causadas até agora pela covid-19, nem com os 4,3 milhões de atingidos pelo vírus desde dezembro do ano passado, quando ele apareceu na China. Outros 150 milhões podem ser jogados na pobreza extrema se a economia mundial cair 5% em 2020 — o número mais frequente nas contas que os economistas internacionais estão fazendo, caso seja mantida a paralisia da produção, do comércio e do trabalho.
Desses totais horrendos, quantos vão morrer não de covid, mas de miséria, causada diretamente pela ruína econômica do mundo? Não se trata de salvar “dinheiro”, ou o “capitalismo”, ou os “deuses do comércio”, que devem ceder lugar “às vidas”, segundo dizem os defensores dos confinamentos radicais. Trata-se, justamente, da destruição de vidas. As vítimas, aí, vão morrer como os infectados pelo vírus — só que em câmara lenta, fora dos hospitais, nos lugares desgraçados onde passam a vida.
Só uma guerra nuclear poderia ter um potencial de devastação tão grande como o que vai sendo desenhado pela ideologia do “distanciamento social”. Ela não impõe, como as pessoas ouvem todos os dias, um “mero incômodo” para as classes médias e altas, que deve ser suportado em nome da saúde comum. Impõe, isso sim, a desgraça imediata ou breve para as centenas de milhões de pessoas que vão ficar sem um tostão no bolso, sem trabalho e sem comida suficiente. “Não há dúvida na minha cabeça que, quando olharmos de volta para o que está acontecendo hoje, veremos que os danos causados pelo lockdown vão exceder em muito qualquer economia de vidas”, diz Michael Levitt, professor de biologia estrutural na Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford e Prêmio Nobel de Química de 2013.
Países com anteparos sociais fortes e com população que dispõe de recursos financeiros, como ocorre no mundo desenvolvido, têm musculatura para aguentar o tranco.
Mas a maioria dos países é pobre, ou paupérrima, e não tem onde se apoiar. O Brasil está entre eles, como todos sabem. Aqui, os que vivem da classe média para baixo estão sempre a um passo da miséria total; a qualquer incidente, desabam da pobreza para a fome. Essa gente — que precisa do trabalho diário para ter alguma esperança de melhorar de vida, ou simplesmente de permanecer vivo — teria menos direitos que as vítimas do vírus? A maioria dos governantes brasileiros acha que sim. Quem está recebendo o sustento sem a necessidade de trabalhar também — uma grande parte dos 12 milhões de funcionários públicos de todos os níveis, os que vivem de renda, os ricos em geral. Por que iriam se preocupar com os pobres? Eles não existem, não têm rosto, nem nome, nem alma — são vultos que passam na rua e não deixam registro; já estão todos mortos.
“No mundo todo estão fazendo como aqui no Brasil”, dizem dez entre dez adeptos do “fique em casa”. Pois é justamente esse o problema: e se o resto do mundo estiver errado? Não seria a primeira vez, como a História está cansada de mostrar.”
(J. R. Guzzo, Em Direção à Ruína)
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
Pensamento para uma época de mudanças violentas

"Que faz um homem quando se encontra vivendo depois que uma era terminou e ele não pode mais entender a si mesmo porque as teorias sobre o homem da era anterior não funcionam mais e as teorias da nova era ainda não são conhecidas, pois até mesmo o nome da nova era ainda não é conhecido, e desta forma tudo está de cabeça para baixo, as pessoas se sentindo mal quando deveriam se sentir bem, e bem quando deveriam se sentir mal?
O que um homem faz é começar tudo do zero como se ele tivesse acabado de chegar a um novo mundo, como de fato aconteceu; começar com o que ele tem certeza de saber, olhar para os pássaros e os animais, e como um visitante de Marte que acabou de aterrissar na terra perceber o que mudou no homem."
(Walter Percy, The Delta Factor)
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
A mente do coletivista

“A FSP informa que Jair Bolsonaro já nomeou metade de seus ministros, mas nenhum deles é do Norte-Nordeste. E o faz em tom de "denúncia". O autor da matéria é Gustavo Maia, o mesmo que em 5 de novembro "denunciou" que todos os membros da equipe de transição eram homens.
A mente do coletivista é interessantíssima. Extrapolando o conceito de consciência de classe, o coletivista do século XXI só consegue raciocinar em termos de grupos, categorias ou classes. A sociedade, assim, seria o ajuntamento não de indivíduos e famílias, mas de milhares de pequenos sindicatos de gente que nunca se viu nem se conheceu, mas que rema unida pelo fato de partilharem não só uma declaração de renda similar, mas também um local de nascimento, uma determinada cor de pele, um gênero ou uma orientação sexual.
Logo, o coletivista espera genuinamente que eu, sendo homem, branco, heterossexual e paulistano, direcione todos os meus atos a defender essa específica classe de seres humanos parecidos comigo, e a atacar gratuitamente qualquer um que não seja meu próprio reflexo no espelho. Assim é que o Neymar é mais rico e mais famoso que a Marta não porque em boa parte do mundo as pessoas estão mais dispostas a pagar pra assistir homens, e não mulheres, jogando futebol, e sim porque em algum momento o sindicato dos homens se reuniu e decretou em ata que, a partir daquele momento, todos iriam sabotar o esporte feminino em detrimento do masculino. E se porventura a maioria das mulheres também prefere ver o Neymar à Marta jogando, e se a maioria das mulheres vota em candidatos homens, mesmo tendo à disposição candidaturas de outras mulheres para escolher, é porque foram coagidas pelo sindicato dos homens, também conhecido por "patriarcado". Aliás, o pouco interesse que grande parte das mulheres naturalmente nutre pelos dois assuntos (futebol e política) só pode ser uma construção social, um veneno inoculado pelos homens na cabecinha de cada menina desde a mais tenra idade, cabendo aos bondosos engenheiros sociais a tarefa de "desconstruir" paradigmas forçando uma igualdade que as próprias partes supostamente beneficiadas nunca pediram.
Evidentemente o coletivista é muito seletivo quanto aos setores em que quer impor suas "cotas" de representatividade. 99% dos pedreiros são homens, mas o coletivista não tem interesse em equalizar as chances das mulheres nessa área. Interessam posições de poder apenas.
Obviamente ninguém nunca explicou a vantagem concreta de se impor representatividade em cargos de chefia. Ninguém nunca se deu ao trabalho de elaborar porque uma mulher, um negro, ou um gay, ou qualquer membro de qualquer minoria imaginável, é objetivamente um líder melhor que, digamos, um homem branco. Trata-se de um daqueles truísmos politicamente corretos que você deve aceitar bovinamente como auto-demonstrável, e evitar questionar a menos que queira ser taxado como misógino, supremacista branco ou homofóbico.
Se tivesse que escolher, o coletivista preferiria afundar o país com um governo que representasse as minorias de acordo com o censo do IBGE, que prosperar com um governo em que as minorias que ele cafetina não estivessem representadas, ainda que, na prática, essas minorias fossem beneficiadas por essa prosperidade. O gabinete de Trump, por exemplo, é composto por 16 pessoas, sendo 15 secretários (equivalentes aos nossos ministros) e mais o vice-presidente. 4 são da Florida, 2 são de Indiana, só um é da California (o estado mais rico) e não há ninguém de Nova Iorque ou do Texas, também estados ricos e populosos. Apenas 3 são mulheres, a despeito de elas serem 51% da população. Apenas um é negro, apesar de 12% da população daquele país ser negra. Mas gente comum está pouco se lixando se os secretários de Trump são homens, mulheres ou cosplays do Pablo Vittar, porque a taxa de desemprego do país é a menor em 49 anos, as Forças Armadas estão sendo reequipadas com um orçamento extra de US$ 700 bilhões e o crime está em franca queda.
TODOS estão vivendo melhor, e pra gente normal é isso que interessa. Menos para os engenheiros sociais. Esses não vão descansar enquanto não formos todos iguais. Mesmo que pra isso precisemos nos tornar igualmente miseráveis.”
(Rafael Rosset, em postagem no Facebook de 21.11.2018)
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
A cultura pós-moderna é uma cultura sem amor
“A forma humana é sagrada para nós porque tem a marca da nossa corporalidade. A profanação intencional da forma humana tornou-se, para muitas pessoas, uma espécie de compulsão. E essa profanação é também uma negação do amor. É uma tentativa de refazer o mundo como se o amor não fizesse mais parte dele. E isso, certamente, é a característica mais importante da cultura pós-moderna: é uma cultura sem amor, que tem medo da beleza porque se perturba com o amor.”
(Roger Scruton, Beauty)
(Roger Scruton, Beauty)
domingo, 22 de julho de 2018
De cabeça para baixo

“É engraçado, mas de um modo trágico, pensar nos paradoxos do nosso tempo.
Vivemos uma época na qual toda a sociedade civil na Europa Ocidental está, confusa mas já notavelmente, começando a prestar atenção a sua herança cristã enquanto o Papa e o Vaticano tentam islamizar o Continente Europeu.
Estamos testemunhando um esforço agressivo para conter o aborto nos EUA, e talvez livrar-se dele completamente, enquanto o Papa reinante nos diz para não nos obcecarmos com o aborto.
Estamos testemunhando um Papa chamando não-cristão o que os cristãos de todas as épocas têm feito – erguer muralhas para defender suas fronteiras e controlar entradas – enquanto ele vive cercado por muros que levam o nome de um Papa.
Vivemos uma época de absurdos, na qual a Santa Igreja se encontra desfigurada, ainda que obviamente não destruída por sessenta anos de sodomia e apaziguamento, e reduzida à maior força planetária a favor do Socialismo, enquanto países como a Venezuela são devastados pela mesma estupidez propagada pelo Papa, à vista de todos.
A ironia está no seguinte: que a forte Igreja do passado podia mudar o curso da história, iniciar cruzadas, deter os otomanos, moldar o Ocidente; ao passo que a igreja homossexual de hoje mal consegue manter seus cardeais sodo-predadores fora das grades, e na verdade só consegue fazer com que as pessoas fiquem contra sua recém-fundada ideologia socialista e ambientalista.
Os sodomitas dentro da Igreja deslocam-na em direção a um entendimento laico e terreno da vida. Mas o mundo a rejeita. De fato, ele lentamente se move na direção oposta, para aqueles mesmos valores que ela não protege ou sequer condena: defesa da vida nos EUA, defesa da herança cristã na Europa.
Que trágico e completo fracasso. Mas que glorioso e pequeno raio de esperança estamos vendo chegar dos EUA e de partes da Europa, firmemente decididos a marchar na direção oposta de um Papa que só podem, e com razão, desprezar.
Em um mundo de cabeça para baixo, muitos estão aprendendo a lutar por decência sozinhos; devagar e confusamente, é verdade, mas sem sequer o apoio daqueles que mais os deveriam ajudar.
Orem pela recuperação da sanidade dentro da Igreja. Quando tivermos isso, seremos imparáveis.”
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sexta-feira, 13 de outubro de 2017
A peste separatista

"Assim como o demônio faz as panelas mas esquece as tampas, os organizadores da nauseabunda intentona secessionista na Catalunha devem ter omitido o caráter da data escolhida para iniciar a marcha até a ruptura: o 1º de outubro, desde os tempos do papa Leão XII e por petição do infausto rei dom Fernando VII já livre do cativeiro napoleônico, tem sido o da comemoração do Anjo Custódio da Espanha.
Que haja anjos protetores das nações como os há dos indivíduos é coisa que está em nosso acervo religioso, com suficiente fundamento escriturístico no capítulo X de Daniel, onde se fala de Miguel como protetor da nação israelense, e onde se faz também alusão ao anjo da Pérsia. A partir deste dado revelado e das posteriores e fecundas indicações paulinas, a angeologia tributária do Aeropagita situará no sétimo coro angélico os principados como guardiães das nações. Que esta lição tenha sido esquecida, soterrada sob múltiplos estratos de indiferença, ignorância, estupidez e vacuidade, é consequência mais que apropriada a tempos como os que correm, de consumada idolatria das paixões e de um transbordamento da superbia vitae que ignora o governo providencial do universo, do qual os anjos são agentes os mais eficazes. Não menos providencial (fazemos votos) pode tornar-se a amnésia que a este respeito têm demonstrado os demolidores da unidade da Espanha, com o anjo instigado a lidar, envolto em pele de touro, contra o antigo inimigo e seus atuais representantes. E embora nos pareça bem pouca coisa apelar à constituição e à democracia para opor-se adequadamente à Revolução, e embora dissone não pouco a presença de um Vargas Llosa como orador da salutífera reação, a convocação a 'recobrar a sensatez' torna-se pouco menos que balsâmica nestes dias que são os da colheita dos frutos do solipsismo cultivado ao longo de toda uma época histórica, dias do nec plus ultra da atomização das sociedades, nos quais a autoafirmação conflui com a autodestruição em paradoxo mais aparente que real.
Pressagia-se um 'efeito de contágio' em muitas outras regiões do globo afetadas por semelhante morbo secessionista, justamente no tempo em que os mísseis intercontinentais se tornaram objeto de exibição. As 'guerras e rumores de guerras' em todas as esferas, desde a doméstica até a supranacional, tornaram-se o sinal invariável da demência antropolátrica. Aquém de toda remissão fácil do caso à natureza humana, resta claríssimo, a quem escrute a história com um mínimo de acuidade, que as guerras se têm multiplicado extraordinariamente desde que as elites no poder decidiram o mesmo que os judeus há dois mil anos: 'não queremos que Este reine sobre nós'. Não é utópico afirmá-lo, porque terá lugar com a Parusia: deste horror se sai instaurando tudo em Cristo."
https://in-exspectatione.blogspot.com.br
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
Animalismo

“Para os que consideramos que o respeito aos animais é uma obrigação humana irrenunciável, as reivindicações dos chamados ‘animalistas’ ou defensores dos direitos dos animais constituem uma constante interpelação. Segundo o movimento animalista, os animais não só merecem um trato ético e uma proteção legal, mas devem ser sujeitos de direitos. Talvez o primeiro animalista tenha sido o filósofo Jeremy Bentham, que escreveu em sua ‘Introdução aos princípios da moral e da legislação’ (1789): “Um cavalo ou um cachorro adulto é, para além de toda comparação, um animal mais racional e mais comunicativo que uma criança de um dia, ou de uma semana, ou até de um mês. Mas ainda que se supusesse que fosse de outra forma, que importaria? A questão não é se os animais podem raciocinar nem tampouco se podem falar, mas se podem sofrer”. E, em época muito mais recente, o australiano Peter Singer, em sua obra ‘Libertação animal’ (1975), postulou que a resistência a reconhecer direitos aos animais é comparável a fenômenos históricos tão reprováveis como a escravidão racial ou a discriminação sexual. Singer se opõe ao que denomina ‘especismo’; isto é, a que um ser vivo seja titular de direitos pelo mero fato de pertencer à espécie humana. Para Singer, deve-se tratar com igual consideração todos os seres capazes de sofrer; daí que, a seu juízo, a vida de um feto ou a de uma criança com problemas cerebrais não seja mais valiosa que a vida de um chimpanzé. Esta é a razão pela qual quase todos os animalistas são defensores mais ou menos entusiastas do aborto.
O animalismo se assentaria, pois, em uma ética radicalmente empirista, que transforma em sujeito de direitos qualquer ser com capacidade para sofrer, independentemente de que seja ou não racional. Não entraremos aqui a discutir se o sofrimento tal como humanamente o entendemos pode ser experimentado no mesmo grau sem consciência racional; pois a ninguém escapa que uma reação instintiva à dor (que é a que pode experimentar um animal) em nada se parece com o sofrimento do homem, que faz da dor uma experiência moral. A falha filosófica do animalismo é muito mais evidente: só pode ser titular de direitos quem possua uma correlativa capacidade para obrigar-se. Quando proclamamos que ao homem assiste um inalienável direito à vida, estamos proclamando também que o obriga o dever de respeitar a vida dos demais homens; quando defendemos o direito à propriedade, estamos condenando o furto, e assim sucessivamente. Todo direito exige uma obrigação correlativa; e os animais, como seres carentes de razão e de liberdade, não podem ser sujeitos de direitos e obrigações. Isto não significa, por suposto, que os animais devam ficar fora da esfera de proteção jurídica. O homem tem direito a ‘domínio justo’ sobre a natureza, posto ser o único ser que pode aproveitar racionalmente seus recursos; e, ao mesmo tempo, tem o dever de proteger essa natureza e os seres vivos que a povoam.
Aqui se pode opor que tampouco as crianças no ventre, ou as pessoas com deficiências psíquicas, podem assumir obrigações. Mas os reconhecemos como membros de nossa espécie, a quem cobrimos com o mesmo manto da proteção que outorgamos aos humanos plenamente conscientes. Para Singer isto é ‘especismo’; e, desde uma lógica puramente materialista, seu raciocínio é congruente. Pois o que o animalismo pretende, em última instância (utilizando mui astutamente álibis compassivos diante do sofrimento dos animais) é negar a unicidade do ser humano, que é considerado o resultado aleatório de uma evolução natural, e apagar os traços distintivos que o tornam uma criatura única, misteriosamente singular, entre todas as criaturas que povoam a Terra. Essa singularidade é a que permite ao homem justo olhar para os animais que povoam a terra e descobrir que são ‘bons’, esforçando-se em consequência por protegê-los; essa singularidade se denomina alma.
Quando essa singularidade que existe entre o homem e o restante das criaturas se elude ou se escamoteia (quase sempre por complexos e respeitos humanos) é impossível defender cabalmente certas causas; pois a lógica materialista acaba se impondo, implacável. Por medo de defender a existência da alma se perdeu a batalha contra o aborto, por exemplo; e pela mesma razão se imporão, inevitavelmente, as teses animalistas.”
(Juan Manuel de Prada, Animalismo)
segunda-feira, 7 de agosto de 2017
Os que trabalham para Satanás

“É verdade que, hoje, tantas coisas más e perversas que os homens cometem ganham gentilmente outros nomes. Hoje sequer se ouvem mais as palavras “pecado" ou “erro". Todas as ações humanas transitam entre o “conveniente" e o “socialmente inapropriado", entre o “agradável" e o “politicamente correto". Só que nem mil jogos de palavras podem mudar ou desfazer a realidade das coisas. Conscientemente ou não, quem quer que trabalhe para implantar no mundo um “sistema de pecado" – como é o caso de organizações que financiam o aborto, de grupos que querem a destruição da família e de religiosos que pedem a implantação de uma religião única e mundial, sem Cristo e sem a Igreja – está trabalhando para Satanás.”
(Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, A Destruição Arquitetada por Um Anjo)
https://padrepauloricardo.org
quinta-feira, 8 de junho de 2017
Racismo antibranco nas universidades americanas

“O professor de biologia do Evergreen State College, Bret Weinstein, aprendeu as graves conseqüências da oposição aos esquerdistas do campus nesta semana.
Weinstein causou inicialmente um alvoroço em sua extremamente esquerdista universidade do estado de Washington quando se opôs sensatamente a um evento que exigiu que todos os brancos deixassem o campus por um dia. Ele chamou a idéia de "demonstração de força e ato de opressão".
Por expressar essa opinião e ser branco, Weinstein foi marcado como racista e perseguido por agitadores do campus que exigiram sua demissão. Na quinta-feira, o professor de biologia teve que dar sua aula fora do campus porque a polícia lhe disse que não era seguro para o pacífico acadêmico aparecer em seu local de trabalho.
Um estudante disse que esse tipo de comportamento ameaçador era "necessário" porque "é uma questão de vida ou morte para nós".
Este incidente não é, naturalmente, um caso isolado e campi em todo o país sofreram ataques semelhantes de agitação racial. Várias universidades têm testemunhado exigências de estudantes por habitação segregada para que os estudantes minoritários possam viver sem o terror das microagressões brancas. Algumas universidades, como a California State University em Los Angeles, cederam a essas exigências de exclusão.
Outros alunos foram mais ousados e exigiram matrícula gratuita para todos os alunos de cor – por causa da "supremacia branca".
E tem havido a bem conhecida exibição de violência e intimidação contra qualquer palestrante que conteste o dogma predominante da educação superior. Os ativistas freqüentemente citam o perigo de permitir que suposto "discurso de ódio" (um conceito nebuloso usado apenas para calar qualquer discurso do qual o acusador discorde) permaneça incontestado no campus e como ele vai de alguma forma prejudicar fisicamente as minorias. Esse argumento permite que violência e ameaças sejam usadas contra a oposição, como estamos vendo atualmente no Evergreen State.
Não admira que alguém tenha escrito um livro inteiro sobre esses desenvolvimentos intitulado "No Campus for White Men"...
O calvário do professor Weinstein exemplifica as perturbadoras tendências raciais na educação. Os estudantes queriam afastar todos os caucasianos durante um dia de ressentimento simbólico e o acadêmico corretamente pensou que era uma idéia estúpida para reforçar a opressão. Isso só o fez aparecer como um branco malvado e racista que merecia ser esmagado por expressar dissidência.
As bem estabelecidas credenciais progressistas de Weinstein foram descartadas em favor de vê-lo apenas pela cor de sua pele. Para os ativistas, sua brancura é seu principal atributo; tudo o mais sobre ele é secundário em importância.
O desprezo por todos os brancos mostrado por esses estudantes é simplesmente racismo, e essa visão parece ser a motivação predominante para as manifestações, em vez de um compromisso com os princípios tradicionais de esquerda.
Eventos como este só continuarão a acontecer enquanto a política de identidade minoritária continuar a dominar a vida no campus e a culpa branca for pregada por professores e administradores. Evergreen State é universidade pública e depende de contribuintes para sobreviver. Washington é um estado bastante liberal, mas tenho certeza que o eleitor médio – seja ele democrata ou republicano – não ficaria satisfeito pelo fato de que seu dinheiro está sendo usado para apoiar o cerceamento de expressão e para forçar estudantes e professores brancos para fora do campus.
Os estados que fornecem o dinheiro para este absurdo ocorrer também têm o poder de freá-lo. Com a palavra, o legislativo de Washington.”
(Scott Greer, No Campus for Professors Opposed to Anti-White Racism)
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quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Gustave Thibon: Revolta, a dominante de nossa época

“Existem, nas idéias e nos costumes, dominantes que são peculiares a cada época — como, por exemplo, a libertinagem durante a Regência, o culto da Razão no tempo do humanismo, a apologia da sensibilidade e do irracional no século do romantismo etc. Ora, uma das dominantes de nossa época é a revolta, em todos os domínios, contra os valores tradicionais; revolta que se traduz pela exaltação e prática da violência.
Esse fenômeno se observa em todas as ordens do humano e do social.
Na ordem da amizade, por exemplo. Em muitos meios, a amizade degenerou em camaradagem vulgar e brutal. A integração na turma (e tal palavra não significa necessariamente uma associação de malfeitores) substitui a intimidade entre as pessoas e o intercâmbio de idéias e sentimentos. Ora, a turma busca muito freqüentemente distrações e aventuras mais ou menos sofisticadas de agressividade, e essa violência se multiplica em virtude do gregarismo. O aumento da delinqüência juvenil (blusões pretos ou amarelos) prende-se a essa corrupção do vínculo social. Um fenômeno tipicamente moderno é o dos delitos coletivos cuja multiplicação causa apreensão aos criminologistas. Até no vício e no crime, observa-se essa absorção do indivíduo pela turma…
No plano da sexualidade, muitos jovens se presumem insensíveis, “libertos”, e desprezam indistintamente não apenas a exaltação romântica ou o sentimentalismo sem graça das épocas precedentes, como também tudo o que se relaciona com a ternura ou com o ideal. O coração e a alma afiguram-se-lhes anacronismos e as relações sexuais reduzem-se, para eles, a “conjunções carnais” sem amor e sem mistério ou a manifestações elementares do desejo de potência. Seu ideal é o do macho, não o do amoroso. Observa-se evolução análoga entre certo número de moças cínicas e desavergonhadas, para as quais a rejeição incondicionada dos preconceitos substitui e suprime toda reflexão.
O entusiasmo pelos esportes brutais e perigosos (praticados freqüentemente sem preparação e sem prudência) provém do mesmo estado de espírito. Penso aqui nos riscos gratuitos que assumem — com inconcebível leviandade — tantos jovens “mordidos” pelo alpinismo, pela espeleologia, pela natação, pela navegação a vela, e também nos perigos mortais a que eles expõem seus eventuais salvadores. E nesse delírio de velocidade (a porcentagem dos acidentes causados por jovens é de uma cruel eloqüência) que viola (entre pessoas aliás inofensivas) o mandamento eterno: “não matarás”.
A moda artística e literária não escapa a essa falsa norma. Seu imperativo essencial é surpreender, chocar, desnudar, ultrapassar todo limite e infringir toda regra. Assistimos, em todos os domínios, ao desencadeamento da violência e da disformidade: danças selvagens, música epiléptica, cenas de histeria coletiva nas manifestações duma “vedette” da canção, sacrifício da palavra na poesia e da imagem e da cor na pintura, etc. Nem esqueçamos esse fenômeno sociológico sem precedente que constitui o sucesso sempre crescente da literatura policial e dos filmes de terror, nos quais os instintos sádicos que habitam o coração do homem encontram cada dia que passa novo alimento.”
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quinta-feira, 18 de agosto de 2016
É a cultura que influencia o comportamento sexual e não o nível de renda
“No post sobre o texto "Me deixem ser pai da minha filha" (http://on.fb.me/1BplI2n), mostrei os problemas diretamente relacionados à ausência paterna na criação de filhos e, das poucas objeções nos comentários, destaco duas: exemplos de mães que criaram bem seus filhos sem pai e a idéia de que os números apresentados são resultado da pobreza e não da ausência paterna. Vamos esclarecer as duas.
Em primeiro lugar, um erro comum nesse tipo de discussão é achar que ciências sociais são exatas. Quando se diz que um fator contribui para um determinado resultado não quer dizer que toda vez acontecerá dessa forma, apenas que há uma tendência e é essa tendência que está sendo medida.
Sempre haverá um "ah, eu conheço o fulano que foi diferente", o que não invalida em nada as conclusões gerais ou os números apresentados. Uma pesquisa que mostre que crianças que usam drogas têm problemas escolares, por exemplo, não é invalidada porque alguém diz "ah, mas eu conheço um menino que cheirou cocaína e passou de ano". O importante em sociologia e nesse tipo de levantamento é entender a tendência geral do comportamento em uma determinada situação e não a busca de regras gerais que sejam aplicáveis a 100% dos casos.
Sobre os números e a pobreza, há uma mistura de ignorância e preconceito em relação aos pobres, como se pobreza e sexo livre fossem sinônimos. No gráfico do post você vai ver que em 1963, um ano antes de Lyndon Johnson lançar seu pacote de medidas assistencialistas batizado de "Great Society", 93% das crianças americanas nasciam em lares de pais casados contra apenas 40% hoje. Houve uma radical mudança cultural no país e não econômica. Repare também que na década de 30, período da Grande Depressão, praticamente não houve alteração do índice.
A queda vertiginosa do número de crianças nascidas em lares de pais casados em 50 anos nos EUA não tem nada a ver com a variação dos níveis de pobreza mas com as idéias disseminadas pela elite cultural ocidental a partir dos anos 60, que foram particularmente impactantes nas faixas de renda mais baixas da população. O aumento do índice de crianças geradas por mães solteiras não foi causado pela pobreza, pelo contrário, foi a pobreza, a falta de informação e uma tendência a mimetizar o comportamento das celebridades e elites que se mostraram um terreno fértil para a assimilação dessas idéias. É como o nome de crianças de celebridades e de pais ricos que, em cinco a dez anos, viram moda para o resto da população, como mostrado por Levitt e Dubner em "Freakonomics".
Existe uma relação entre casamento e padrão de vida, claro, o que já foi medido em diversas pesquisas. Crianças nascidas de mães solteiras nos EUA são pobres em 36,5% dos casos, enquanto apenas 6,4% das crianças criadas por pais casados são pobres, e é por isso que muitos defendem que o casamento é a maior arma contra a pobreza no país.
A educação é outro fator importante nessa tendência. Das mães que não completaram o ensino médio, 67,4% tiveram filhos sem estar casadas, enquanto apenas 8,1% das mães com curso superior completo tiveram o filho solteiras.
Outro dado que deve ser mencionado é que 71,2% das famílias pobres com crianças nos EUA são comandados por solteiros, um número que despenca para 26% entre os lares fora da linha da pobreza.
Quando se juntam os dados de educação e estado civil, os números ficam ainda mais gritantes. Lares com crianças em que o responsável pela casa é casado e tem curso superior estão na pobreza em apenas 1,5% dos casos, ou seja, se você tem curso superior completo e é casado com filhos nos EUA, sua chance de ser pobre é próxima de zero. Já se o responsável pelo lar é solteiro, não completou o ensino médio e tem filhos, sua chance de ser pobre é de 47%.
É claro que números como esses levam a uma leitura apressada de alguns que saem gritando "tá vendo? é a pobreza!" por não se darem ao trabalho de olhar as séries históricas e também checar dados de outros países do mundo não tão influenciados pelas idéias e valores da geração porralouca dos anos 60, que foi a Woodstock fazer filhos se drogando na lama e que hoje está no poder nos EUA.
Há também a questão racial. Enquanto a média nacional de crianças nascidas de pais não casados hoje é de 40% nos EUA, o número de crianças brancas nascidas assim é de 28,6% contra 52,5% dos hispânicos e 72,3% dos negros do país. Mas nem sempre foi assim.
Voltando à época de Lyndon Johnson, em 1964 o número de crianças negras nascidas de pais solteiros era de apenas 24,5%, pulando para 50,3% em 1976, chegando a 70,7% em 1994. Em apenas 30 anos, de 1 em cada 4 crianças negras que nasciam em lares com pais não-casados o número dispara para quase 3 em cada 4. Não há qualquer relação entre esses números e o nível sócio-econômico da população, mas tudo a ver com a mudança cultural do país com reflexos diretos nessa população.
Negros conservadores americanos, como Thomas Sowell, Larry Elder, Jason Riley, entre outros, estão cada vez mais batendo na tecla da cultura pop consumida pelos negros do país que, segundo eles, incentiva e aplaude todo tipo de comportamento socialmente repreensível com consequências sociais desastrosas, como o gangsta rap. Thomas Sowell culpa a “destruição da família negra americana” à criação do que chama de uma “subcultura” com todo tipo de comportamento sexualmente irresponsável sendo glorificado, inclusive pelas elites culturais do país, além da queda do padrão educacional. Veja Sowell comentando esse tema aqui: http://youtu.be/hs5qvovJkwI.
Outro argumento em favor da idéia de que é a cultura que influencia o comportamento sexual e não o nível de renda é olhar estes números em outros países do mundo. No Japão, apenas 2% das crianças que nascem são filhas de mães solteiras. Dados dos anos 90 falam em 3% para Israel e 5% para China. Na América Latina, diretamente influenciada pela cultura americana, os números são ainda maiores do que nos EUA: México 55%, Argentina 58%, Brasil 66%, Paraguai 70% e Colômbia 74%. A média na Europa é de 39%, variando de apenas 7,6% na Grécia, 15,4% na Croácia e 28% na Itália até 47,6% na Grã-Bretanha e Portugal, 54,5% na Suécia, 57,1% na França e 66% na Islândia.
A grande variedade desses números mostra que é a cultura específica de cada país que mais influencia o índice de crianças nascidas e criadas em lares de pais solteiros e não a pobreza como alguns ainda acham. Se a pobreza levasse a mais nascimentos de crianças sem pais casados, por que a Grécia (renda per capita de US$ 21 mil) tem menos de 8% da crianças nessa situação enquanto a Islândia (US$ 45 mil de renda per capita) tem 66%? Por que a Croácia (US$ 13,5 mil de renda per capita) tem 15,4% de crianças nascidas de mães solteiras contra os 57,1% da França (US$ 46 mil de renda per capita)? O Japão tem a terceira maior economia do mundo e quase todas as crianças nascem em lares de pais casados. O Brasil tem a sétima economia do planeta e 2 em cada 3 crianças nascem de mães solteiras.
O assunto é explosivo, politicamente incorreto e envolto em muito preconceito. Mesmo que muita gente não goste, é perfeitamente possível mostrar que o estado civil dos pais e a presença do pai na educação dos filhos tem uma influência no futuro da criança tão ou mais importante do que apenas seu nível de renda.”
(Alexandre Borges, em postagem no Facebook de 25.01.2015)
Em primeiro lugar, um erro comum nesse tipo de discussão é achar que ciências sociais são exatas. Quando se diz que um fator contribui para um determinado resultado não quer dizer que toda vez acontecerá dessa forma, apenas que há uma tendência e é essa tendência que está sendo medida.
Sempre haverá um "ah, eu conheço o fulano que foi diferente", o que não invalida em nada as conclusões gerais ou os números apresentados. Uma pesquisa que mostre que crianças que usam drogas têm problemas escolares, por exemplo, não é invalidada porque alguém diz "ah, mas eu conheço um menino que cheirou cocaína e passou de ano". O importante em sociologia e nesse tipo de levantamento é entender a tendência geral do comportamento em uma determinada situação e não a busca de regras gerais que sejam aplicáveis a 100% dos casos.
Sobre os números e a pobreza, há uma mistura de ignorância e preconceito em relação aos pobres, como se pobreza e sexo livre fossem sinônimos. No gráfico do post você vai ver que em 1963, um ano antes de Lyndon Johnson lançar seu pacote de medidas assistencialistas batizado de "Great Society", 93% das crianças americanas nasciam em lares de pais casados contra apenas 40% hoje. Houve uma radical mudança cultural no país e não econômica. Repare também que na década de 30, período da Grande Depressão, praticamente não houve alteração do índice.
A queda vertiginosa do número de crianças nascidas em lares de pais casados em 50 anos nos EUA não tem nada a ver com a variação dos níveis de pobreza mas com as idéias disseminadas pela elite cultural ocidental a partir dos anos 60, que foram particularmente impactantes nas faixas de renda mais baixas da população. O aumento do índice de crianças geradas por mães solteiras não foi causado pela pobreza, pelo contrário, foi a pobreza, a falta de informação e uma tendência a mimetizar o comportamento das celebridades e elites que se mostraram um terreno fértil para a assimilação dessas idéias. É como o nome de crianças de celebridades e de pais ricos que, em cinco a dez anos, viram moda para o resto da população, como mostrado por Levitt e Dubner em "Freakonomics".
Existe uma relação entre casamento e padrão de vida, claro, o que já foi medido em diversas pesquisas. Crianças nascidas de mães solteiras nos EUA são pobres em 36,5% dos casos, enquanto apenas 6,4% das crianças criadas por pais casados são pobres, e é por isso que muitos defendem que o casamento é a maior arma contra a pobreza no país.
A educação é outro fator importante nessa tendência. Das mães que não completaram o ensino médio, 67,4% tiveram filhos sem estar casadas, enquanto apenas 8,1% das mães com curso superior completo tiveram o filho solteiras.
Outro dado que deve ser mencionado é que 71,2% das famílias pobres com crianças nos EUA são comandados por solteiros, um número que despenca para 26% entre os lares fora da linha da pobreza.
Quando se juntam os dados de educação e estado civil, os números ficam ainda mais gritantes. Lares com crianças em que o responsável pela casa é casado e tem curso superior estão na pobreza em apenas 1,5% dos casos, ou seja, se você tem curso superior completo e é casado com filhos nos EUA, sua chance de ser pobre é próxima de zero. Já se o responsável pelo lar é solteiro, não completou o ensino médio e tem filhos, sua chance de ser pobre é de 47%.
É claro que números como esses levam a uma leitura apressada de alguns que saem gritando "tá vendo? é a pobreza!" por não se darem ao trabalho de olhar as séries históricas e também checar dados de outros países do mundo não tão influenciados pelas idéias e valores da geração porralouca dos anos 60, que foi a Woodstock fazer filhos se drogando na lama e que hoje está no poder nos EUA.
Há também a questão racial. Enquanto a média nacional de crianças nascidas de pais não casados hoje é de 40% nos EUA, o número de crianças brancas nascidas assim é de 28,6% contra 52,5% dos hispânicos e 72,3% dos negros do país. Mas nem sempre foi assim.
Voltando à época de Lyndon Johnson, em 1964 o número de crianças negras nascidas de pais solteiros era de apenas 24,5%, pulando para 50,3% em 1976, chegando a 70,7% em 1994. Em apenas 30 anos, de 1 em cada 4 crianças negras que nasciam em lares com pais não-casados o número dispara para quase 3 em cada 4. Não há qualquer relação entre esses números e o nível sócio-econômico da população, mas tudo a ver com a mudança cultural do país com reflexos diretos nessa população.
Negros conservadores americanos, como Thomas Sowell, Larry Elder, Jason Riley, entre outros, estão cada vez mais batendo na tecla da cultura pop consumida pelos negros do país que, segundo eles, incentiva e aplaude todo tipo de comportamento socialmente repreensível com consequências sociais desastrosas, como o gangsta rap. Thomas Sowell culpa a “destruição da família negra americana” à criação do que chama de uma “subcultura” com todo tipo de comportamento sexualmente irresponsável sendo glorificado, inclusive pelas elites culturais do país, além da queda do padrão educacional. Veja Sowell comentando esse tema aqui: http://youtu.be/hs5qvovJkwI.
Outro argumento em favor da idéia de que é a cultura que influencia o comportamento sexual e não o nível de renda é olhar estes números em outros países do mundo. No Japão, apenas 2% das crianças que nascem são filhas de mães solteiras. Dados dos anos 90 falam em 3% para Israel e 5% para China. Na América Latina, diretamente influenciada pela cultura americana, os números são ainda maiores do que nos EUA: México 55%, Argentina 58%, Brasil 66%, Paraguai 70% e Colômbia 74%. A média na Europa é de 39%, variando de apenas 7,6% na Grécia, 15,4% na Croácia e 28% na Itália até 47,6% na Grã-Bretanha e Portugal, 54,5% na Suécia, 57,1% na França e 66% na Islândia.
A grande variedade desses números mostra que é a cultura específica de cada país que mais influencia o índice de crianças nascidas e criadas em lares de pais solteiros e não a pobreza como alguns ainda acham. Se a pobreza levasse a mais nascimentos de crianças sem pais casados, por que a Grécia (renda per capita de US$ 21 mil) tem menos de 8% da crianças nessa situação enquanto a Islândia (US$ 45 mil de renda per capita) tem 66%? Por que a Croácia (US$ 13,5 mil de renda per capita) tem 15,4% de crianças nascidas de mães solteiras contra os 57,1% da França (US$ 46 mil de renda per capita)? O Japão tem a terceira maior economia do mundo e quase todas as crianças nascem em lares de pais casados. O Brasil tem a sétima economia do planeta e 2 em cada 3 crianças nascem de mães solteiras.
O assunto é explosivo, politicamente incorreto e envolto em muito preconceito. Mesmo que muita gente não goste, é perfeitamente possível mostrar que o estado civil dos pais e a presença do pai na educação dos filhos tem uma influência no futuro da criança tão ou mais importante do que apenas seu nível de renda.”
(Alexandre Borges, em postagem no Facebook de 25.01.2015)
terça-feira, 7 de junho de 2016
Thomas Sowell: Pensar está se tornando obsoleto
“Embora seja humanamente impossível responder a todos os e-mails e cartas que os leitores me enviam, muitos deles são bastante interessantes e intelectualmente instigantes, tanto no sentido positivo quanto no sentido negativo.
Por exemplo, um jovem me enviou um e-mail pedindo as fontes em que eu havia me baseado para citar alguns fatos negativos sobre o desarmamento em um artigo recente. É sempre bom checar os fatos — especialmente se você checar os fatos de ambos os lados da questão.
Em contraste, um outro sujeito simplesmente me criticou por tudo o que eu havia dito nesse artigo. Ele não pediu as minhas fontes e nem quis saber se elas existiam; ele simplesmente saiu fazendo afirmações em contrário, como se essas suas assertivas fossem automaticamente corretas pelo simples fato de estarem sendo pronunciadas por ele, algo que, em sua mente, invalidaria automaticamente tudo o que eu havia escrito.
Ele se identificou como médico, e as alegações que ele fez sobre armas eram as mesmas que haviam sido feitas anos atrás em uma revista médica — alegações que já foram inteiramente desacreditadas desde sua publicação. Ele poderia ter aprendido isso caso houvesse me dado a oportunidade de responder às suas provocações, de um modo que nos engajássemos em um debate. Porém, ele próprio deixou claro desde o início que sua carta não tinha o objetivo de gerar um debate, mas sim apenas de me acusar e me denunciar.
Esse tipo de comportamento se tornou um procedimento padrão no mundo atual.
É sempre surpreendente — e apavorante — constatar quantos assuntos extremamente sérios não são discutidos seriamente hoje em dia; as pessoas simplesmente saem emitindo afirmativas e contra-afirmativas, tudo de maneira generalizada. Seja em debates de internet ou até mesmo em programas de televisão, as pessoas simplesmente tentam calar seu opositor falando mais alto do que ele ou simplesmente recorrendo a frases de efeito de cunho emotivo.
Há inúmeras maneiras de fazer parecer que se está argumentando sem que na realidade se esteja produzindo absolutamente nenhum argumento coerente.
Décadas de educação escolar e universitária simplificada — para não dizer idiotizante — certamente têm algo a ver com a atual situação, mas isso não explica tudo. A educação não somente foi negligenciada no sistema educacional atual, como também já foi quase que completamente substituída pela doutrinação ideológica. A doutrinação que hoje é feita por professores e instituições supostamente educacionais é amplamente baseada na simples vocalização das mesmas pressuposições básicas e não-comprovadas de sempre.
Se as instituições educacionais de hoje — desde escolas a universidades — estivessem tão interessadas em diversidade de ideias quanto estão obcecadas com diversidade racial e sexual, os estudantes ao menos adquiririam experiência ao ver as pressuposições que existem por trás de diferentes visões, e entenderiam a função da lógica e da evidência ao debaterem tais diferenças. No entanto, a realidade é que um estudante pode passar por todo o seu ciclo educacional, desde o jardim de infância até seu doutoramento, sem entrar em contato com absolutamente nenhuma visão de mundo que seja fundamentalmente diferente daquela que prevalece dentro do espectro de opiniões autorizadas e politicamente corretas que domina o nosso sistema educacional.
No que mais, a perspectiva moral da visão ideológica predominante é completamente maniqueísta: as pessoas imbuídas dessas ideias realmente se veem como anjos combatendo todas as forças do mal — seja o assunto em questão o desarmamento, o ambientalismo, o racismo, o homossexualismo, o feminismo ou qualquer outro ismo.
Um monopólio moral é a antítese de um livre mercado de ideias. Um indicativo desta noção de monopólio moral dentre a intelligentsia esquerdista é o fato de que as instituições que estão majoritariamente sob seu controle — escolas, faculdades e universidades — são justamente aqueles que usufruem muito menos liberdade de expressão do que o resto da sociedade.
Por exemplo, ao passo que a defesa e até mesmo a promoção da homossexualidade é comum nos campi universitários — e comparecer a palestras e aulas que fazem tal promoção é frequentemente algo obrigatório nos cursos introdutórios —, qualquer crítica ao comportamento homossexual é imediatamente rotulada de "reacionarismo", "preconceito" e "incitação ao ódio", sujeita a imediata punição.
Enquanto porta-vozes de vários grupos raciais e étnicos são livres para denunciar com veemência "os brancos" por seus pecados passados e presentes, verdadeiros ou imaginários, qualquer estudante branco que similarmente venha a denunciar as transgressões ou os desvarios de grupos não-brancos garantidamente será punido, se não expulso.
Até mesmo estudantes que não defendem ou não promovem absolutamente nada podem ter de pagar um preço caso não concordem com a lavagem cerebral que ocorre nas salas de aula. Recentemente, nos EUA, um aluno da Florida Atlantic University que se recusou a pisotear um papel em que estava escrito a palavra "Jesus", a mando de seu professor, foi suspenso pela universidade. Felizmente, a história veio a público e gerou uma onda de protestos fora do mundo acadêmico.
A atitude deste professor pode ser descartada e ignorada como sendo um caso isolado de extremismo, mas o fato é que o establishment universitário saiu solidamente em sua defesa e atacou implacavelmente o estudante. Tal atitude mostra que a podridão moral que impera na academia vai muito mais além do que um simples professor adepto da doutrinação e da lavagem cerebral.
Estamos hoje vivenciando todo o esplendor do anti-intelectualismo que se espalhou por metástase ao longo de todo o mundo acadêmico. As universidades se tornaram tão dominadas por uma insistência na inviolabilidade de um determinado pensamento grupal, que qualquer professor "forasteiro", que não compactue com a predominância deste pensamento gregário, não mais pode falar a respeito de um determinado assunto sem antes ter sido devidamente credenciado por seus pares. Uma simples pesquisa sobre o tratamento dispensado a acadêmicos que ousam questionar a santidade do aquecimento global mostra bem esse ponto.
Já houve uma época em que um curso universitário era considerado um meio de introduzir as pessoas a uma ampla gama de assuntos que lhes permitiria pensar e falar inteligentemente sobre várias questões que estivessem afetando suas vidas. O pensamento coletivista — que hoje é predominante no meio universitário — rejeita tal ideia, conferindo o monopólio de determinadas questões apenas àquelas pessoas que são reconhecidas como "especialistas" por seus pares.
Este método educacional que recorre à intimidação e à simples repetição de frases de efeito de cunho emocional evidencia a completa falência do sistema educacional. Se professores universitários — teoricamente a nata intelectual da sociedade, pessoas que por vocação e profissão deveriam ser as mais rígidas seguidoras do rigor intelectual — agem assim, como podemos esperar que o restante da população apresente discernimentos mais profundos?
Para sobreviver e progredir, seres humanos precisam saber pensar. Porém, estamos cada vez mais terceirizando esta função para acadêmicos, que por sua vez pautam o conteúdo da mídia. Tal terceirização de pensamento ajuda a explicar por que há hoje uma escassez de pensamentos originais e significativos.
O fracasso do sistema educacional vai muito além da ausência de um aprendizado útil. O real fracasso está naquilo que de fato é ensinado — ou melhor, doutrinado — nas salas de aula, algo evidenciado pelos formandos que as universidades cospem para o mundo, seres incapazes de apresentar qualquer resquício de pensamento original.
Jamais se preocupe em se aprofundar em qualquer assunto: os "especialistas" cujos empregos se resumem a promover a agenda do establishment político e cultural já têm tudo explicado para você.”
http://www.mises.org.br
Por exemplo, um jovem me enviou um e-mail pedindo as fontes em que eu havia me baseado para citar alguns fatos negativos sobre o desarmamento em um artigo recente. É sempre bom checar os fatos — especialmente se você checar os fatos de ambos os lados da questão.
Em contraste, um outro sujeito simplesmente me criticou por tudo o que eu havia dito nesse artigo. Ele não pediu as minhas fontes e nem quis saber se elas existiam; ele simplesmente saiu fazendo afirmações em contrário, como se essas suas assertivas fossem automaticamente corretas pelo simples fato de estarem sendo pronunciadas por ele, algo que, em sua mente, invalidaria automaticamente tudo o que eu havia escrito.
Ele se identificou como médico, e as alegações que ele fez sobre armas eram as mesmas que haviam sido feitas anos atrás em uma revista médica — alegações que já foram inteiramente desacreditadas desde sua publicação. Ele poderia ter aprendido isso caso houvesse me dado a oportunidade de responder às suas provocações, de um modo que nos engajássemos em um debate. Porém, ele próprio deixou claro desde o início que sua carta não tinha o objetivo de gerar um debate, mas sim apenas de me acusar e me denunciar.
Esse tipo de comportamento se tornou um procedimento padrão no mundo atual.
É sempre surpreendente — e apavorante — constatar quantos assuntos extremamente sérios não são discutidos seriamente hoje em dia; as pessoas simplesmente saem emitindo afirmativas e contra-afirmativas, tudo de maneira generalizada. Seja em debates de internet ou até mesmo em programas de televisão, as pessoas simplesmente tentam calar seu opositor falando mais alto do que ele ou simplesmente recorrendo a frases de efeito de cunho emotivo.
Há inúmeras maneiras de fazer parecer que se está argumentando sem que na realidade se esteja produzindo absolutamente nenhum argumento coerente.
Décadas de educação escolar e universitária simplificada — para não dizer idiotizante — certamente têm algo a ver com a atual situação, mas isso não explica tudo. A educação não somente foi negligenciada no sistema educacional atual, como também já foi quase que completamente substituída pela doutrinação ideológica. A doutrinação que hoje é feita por professores e instituições supostamente educacionais é amplamente baseada na simples vocalização das mesmas pressuposições básicas e não-comprovadas de sempre.
Se as instituições educacionais de hoje — desde escolas a universidades — estivessem tão interessadas em diversidade de ideias quanto estão obcecadas com diversidade racial e sexual, os estudantes ao menos adquiririam experiência ao ver as pressuposições que existem por trás de diferentes visões, e entenderiam a função da lógica e da evidência ao debaterem tais diferenças. No entanto, a realidade é que um estudante pode passar por todo o seu ciclo educacional, desde o jardim de infância até seu doutoramento, sem entrar em contato com absolutamente nenhuma visão de mundo que seja fundamentalmente diferente daquela que prevalece dentro do espectro de opiniões autorizadas e politicamente corretas que domina o nosso sistema educacional.
No que mais, a perspectiva moral da visão ideológica predominante é completamente maniqueísta: as pessoas imbuídas dessas ideias realmente se veem como anjos combatendo todas as forças do mal — seja o assunto em questão o desarmamento, o ambientalismo, o racismo, o homossexualismo, o feminismo ou qualquer outro ismo.
Um monopólio moral é a antítese de um livre mercado de ideias. Um indicativo desta noção de monopólio moral dentre a intelligentsia esquerdista é o fato de que as instituições que estão majoritariamente sob seu controle — escolas, faculdades e universidades — são justamente aqueles que usufruem muito menos liberdade de expressão do que o resto da sociedade.
Por exemplo, ao passo que a defesa e até mesmo a promoção da homossexualidade é comum nos campi universitários — e comparecer a palestras e aulas que fazem tal promoção é frequentemente algo obrigatório nos cursos introdutórios —, qualquer crítica ao comportamento homossexual é imediatamente rotulada de "reacionarismo", "preconceito" e "incitação ao ódio", sujeita a imediata punição.
Enquanto porta-vozes de vários grupos raciais e étnicos são livres para denunciar com veemência "os brancos" por seus pecados passados e presentes, verdadeiros ou imaginários, qualquer estudante branco que similarmente venha a denunciar as transgressões ou os desvarios de grupos não-brancos garantidamente será punido, se não expulso.
Até mesmo estudantes que não defendem ou não promovem absolutamente nada podem ter de pagar um preço caso não concordem com a lavagem cerebral que ocorre nas salas de aula. Recentemente, nos EUA, um aluno da Florida Atlantic University que se recusou a pisotear um papel em que estava escrito a palavra "Jesus", a mando de seu professor, foi suspenso pela universidade. Felizmente, a história veio a público e gerou uma onda de protestos fora do mundo acadêmico.
A atitude deste professor pode ser descartada e ignorada como sendo um caso isolado de extremismo, mas o fato é que o establishment universitário saiu solidamente em sua defesa e atacou implacavelmente o estudante. Tal atitude mostra que a podridão moral que impera na academia vai muito mais além do que um simples professor adepto da doutrinação e da lavagem cerebral.
Estamos hoje vivenciando todo o esplendor do anti-intelectualismo que se espalhou por metástase ao longo de todo o mundo acadêmico. As universidades se tornaram tão dominadas por uma insistência na inviolabilidade de um determinado pensamento grupal, que qualquer professor "forasteiro", que não compactue com a predominância deste pensamento gregário, não mais pode falar a respeito de um determinado assunto sem antes ter sido devidamente credenciado por seus pares. Uma simples pesquisa sobre o tratamento dispensado a acadêmicos que ousam questionar a santidade do aquecimento global mostra bem esse ponto.
Já houve uma época em que um curso universitário era considerado um meio de introduzir as pessoas a uma ampla gama de assuntos que lhes permitiria pensar e falar inteligentemente sobre várias questões que estivessem afetando suas vidas. O pensamento coletivista — que hoje é predominante no meio universitário — rejeita tal ideia, conferindo o monopólio de determinadas questões apenas àquelas pessoas que são reconhecidas como "especialistas" por seus pares.
Este método educacional que recorre à intimidação e à simples repetição de frases de efeito de cunho emocional evidencia a completa falência do sistema educacional. Se professores universitários — teoricamente a nata intelectual da sociedade, pessoas que por vocação e profissão deveriam ser as mais rígidas seguidoras do rigor intelectual — agem assim, como podemos esperar que o restante da população apresente discernimentos mais profundos?
Para sobreviver e progredir, seres humanos precisam saber pensar. Porém, estamos cada vez mais terceirizando esta função para acadêmicos, que por sua vez pautam o conteúdo da mídia. Tal terceirização de pensamento ajuda a explicar por que há hoje uma escassez de pensamentos originais e significativos.
O fracasso do sistema educacional vai muito além da ausência de um aprendizado útil. O real fracasso está naquilo que de fato é ensinado — ou melhor, doutrinado — nas salas de aula, algo evidenciado pelos formandos que as universidades cospem para o mundo, seres incapazes de apresentar qualquer resquício de pensamento original.
Jamais se preocupe em se aprofundar em qualquer assunto: os "especialistas" cujos empregos se resumem a promover a agenda do establishment político e cultural já têm tudo explicado para você.”
http://www.mises.org.br
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