sábado, 15 de janeiro de 2022

O aborto e a contracepção na Grécia antiga


“Na Grécia antiga não existia nenhuma lei contra o aborto, porém Hipócrates, o “pai da medicina”, era contra essa prática, a não ser que a saúde da mulher estivesse em risco. Hipócrates tinha ainda algumas recomendações de métodos contraceptivos, como afirma Nikolaos Vrissimtzis:
“… recomendava que, se fosse necessário evitar a gravidez, as relações sexuais deveriam ocorrer nos dias inférteis do ciclo menstrual. Outro recurso era a relação sexual no período da menstruação.”
Utilizavam ainda para impedir a fecundação o coito interrompido, e como técnicas abortivas aplicavam até encantamentos mágicos, veneno e drogas como espermicidas, ferro sulfúreo e carbonato de chumbo. Nikolaos Vrissimtzis também aborda descrições de escritores sobre esse assunto:
“Segundo Dioscórides (Matéria Médica), se uma mulher grávida pisasse sobre uma raiz de ciclâmen, abortaria. Ainda de acordo com o mesmo escritor, a raiz de aspárago, levada como amuleto, tornaria a pessoa estéril (ibid,151). Plínio diz que, se uma mulher grávida comesse ovo de corvo, provocaria o aborto (História Naturalis, X, 32).”
Lydie Bodiou relata também algumas receitas abortivas realizadas na Grécia, como: “Pegue uma pitada de grão leucoium, cinco ou seis bostas de cabras, misture em vinho de muito bom aroma. Então administre uma boa fumigação preparada com água e óleo e feita sobre um assento. Depois da fumigação dê a mistura para beber. Em seguida, lave a mulher e faça deitar; ela comerá couve e beberá o líquido liberado por seu cozimento.”
Os motivos que levavam as mulheres gregas a praticarem o aborto eram inúmeros, desde a estética, para preservar o corpo, a fatores econômicos, como não se ter muitos descendentes para não precisar dividir o patrimônio, além de ser bastante realizado pelas prostitutas a fim de não prejudicar o seu trabalho.
É interessante frisar que para Platão (República, 461) o feto não era um ser humano, e somente depois do nascimento que se tornava então um ser vivente; isso legitimava o aborto, e o tornava aceitável; já o infanticídio era condenado por lei e era considerado um ato criminoso.
Assim, as práticas abortivas e os contraceptivos na Grécia antiga eram utilizados sem restrições apesar de não serem totalmente apoiados pelos médicos, que normalmente incentivavam tais práticas quando eram necessárias para manter a vida da mulher.”

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domingo, 19 de dezembro de 2021

Verdadeira e falsa piedade

“Algumas pessoas que querem ser piedosas se dedicam à piedade sentimental e estão convencidas de que não serão ouvidas por Deus, a não ser que recitem determinada fórmula, e isto diante de tal imagem e não de outra, e em tal dia e não em outro, e acreditam nisso com tanta firmeza como se o tivessem lido no Evangelho, enquanto ignoram quase completamente as palavras de vida que nosso divino Salvador nos deixou ali.
A tais pessoas não falta o que se chama devoção - talvez sejam as mais piedosas da paróquia - mas sim, a correta espiritualidade. Não sabem distinguir o essencial do secundário, e assim a ordem dos valores é nelas alterada, de modo que os de pouco valor lhes parecem mais importantes que os de primeira categoria. É que essas almas se deixam levar, sem se darem conta, por um espírito pseudo-religioso, que é justamente a melhor arma do demônio para corromper as almas piedosas”.
(Mons. Straubinger, Espiritualidade Bíblica)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Suma Teológica: Se Deus está em todas as coisas


“O primeiro discute-se assim. — Parece que Deus não está em todas as coisas.
1. — Pois, o que é superior a tudo, não está em tudo. Ora, Deus é superior a tudo, conforme a Escritura (Sl 112, 4): Excelso é o Senhor sobre todas as gentes, etc. Logo, Deus não está em todas as coisas.
2. Demais. — O que está em outra coisa, por esta é contido. Ora, Deus não está contido nas coisas, mas antes, as contém. Logo, não está nelas, mas elas é que estão nele. Por isso diz Agostinho: Todas as coisas estão, antes, nele, que ele, em qualquer delas.
3. Demais. — Quanto mais intensa é a virtude de um agente, a tanto mais longe se estende. Ora, Deus é agente de máxima virtude. Logo, a sua ação pode estender-se a tudo o que dele dista, sem ser necessário estar em todas as coisas.
4. Demais. — Os demônios também são seres e, contudo, Deus não está neles, pois como diz a Escritura (2 Cor 6, 14), não há comércio entre a luz e as trevas. Logo, Deus não está em todas as coisas.
Mas, em contrário. — Um ser está onde age. Ora, Deus age em todas as coisas, segundo a Escritura (Is 26, 12): Senhor, tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras. Logo, Deus está em todas as coisas.
SOLUÇÃO. — Deus está em todas as coisas, não, por certo, como parte da essência ou como acidente de cada uma delas, mas como o agente está presente ao que aciona. Pois, é necessário que todo agente esteja em conjunção com o ser sobre o qual age imediatamente, e o atinja pela sua virtude; e assim Aristóteles prova que móvel e motor devem existir simultaneamente. Ora, tendo Deus a existência idêntica à essência, o ser criado há de necessariamente ser efeito próprio seu, assim como queimar é efeito próprio do fogo. Ora, tal efeito Deus causa nas coisas, não somente quando começam a existir, mas enquanto subsistem; assim como a luz é causada no ar pelo sol, durante todo o tempo em que permanece iluminado. Logo, enquanto subsistir uma coisa, é necessário que Deus lhe esteja presente, conforme o modo de existência próprio dela. Ora, o ser é o que de mais íntimo tem uma coisa e o que de mais profundo existe em todas as coisas; pois, comporta-se como forma em relação a tudo o que na coisa existe, conforme no sobredito se colhe. Logo, é necessário que Deus esteja, e intimamente, em todas as coisas.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Deus é superior a todos os seres pela excelência da sua natureza; e contudo está em todas as coisas e lhes é causa do ser, como antes se disse.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Embora se diga que uma coisa corpórea esteja em outra, quando nesta está contida, contudo, os seres espirituais contêm aquilo em que estão; assim, a alma contém o corpo. Por isso Deus está nas coisas por as conter. Todavia, por semelhança com as coisas corpóreas, dizemos que todas estão em Deus, porque as contém.
RESPOSTA À TERCEIRA. — A ação de nenhum agente, por maior virtude que tenha este, atinge o distante, senão por intermédio de um meio. Ora, é pela sua virtude máxima que Deus age imediatamente sobre todas as coisas. Por isso nada há tão distante que Deus, por assim dizer, não contenha em si. Dizemos porém, que as coisas distam de Deus, por dissemelhança de natureza ou de graça, assim como dizemos que ele é superior a todas pela excelência da sua natureza.
RESPOSTA À QUARTA. — Os demônios têm, de Deus, a natureza, não, porém, a deformidade da culpa. Por onde, não se pode conceder, de modo absoluto, que Deus esteja neles, senão acrescentando-se: enquanto seres. Devemos porém dizer, absolutamente, que Deus está nas coisas cujos nomes designam uma natureza não deformada.”
(I Sent., dist. XXXVII, q. 1, a. 1; III Cont. Gent., cap. LXVII)

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segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Umberto Eco: de católico a ateu


Vittorio Messori, jornalista famoso em matérias relacionadas com a Santa Sé, entrevistou em tempos Umberto Eco. A entrevista focou-se sobretudo no fato de Umberto Eco ter deixado de ser Católico.
Agora, depois de Eco morrer, Messori escreveu um texto sobre essa entrevista.
Fica marcada a forma como Umberto Eco encarava a morte. Ao contrário de muitos católicos, que não aceitam a doutrina da Igreja, Umberto sabia que não iria mudar a sua opinião diante de Deus após a morte - antes pelo contrário, iria mantê-la para sempre. E isto é precisamente o que acontece: quem não acreditou em Deus até morrer, não passará a acreditar depois de morrer.

O intelectual formado no culto cristão que aterrou numa posição relativista:
Encontrando-o, entrevistando-o, lendo-o, não posso fugir a uma espécie de lamento. Justamente porque lhe admirava muito a inteligência, a cultura, o estilo, a ironia, o savoir vivre, senti (e disse-lhe também uma vez, recebendo um sorriso enigmático), senti a tristeza do crente diante de um homem que falava da sua "definitiva apostasia" de qualquer fé religiosa, a começar obviamente pela Católica. Um jovem que foi dirigente da Giac, a juventude de ação católica, um homem que aprendeu na universidade pelos crentes antigos e modernos, um homem de comunhão diária e confissão semanal e que escolheu São Tomás para a sua tese, pensando na fé a defender e não num título a conquistar.
E eis que, em vez do extraordinário apologeta do catolicismo, do polêmico cintilante que os crentes teriam recebido como um dom, eis que do ateneu de Turim, sai o Umberto liberal. Um Eco que se tornou apologeta sim, mas primeiro do agnosticismo e depois - como admitiu - de um relativismo ateu (nomina nuda tenemus [nada temos além dos nomes]), decidido com a habitual ligeireza de uma aparência distraída, mas na realidade impenetrável. A desilusão não me impediu, no que me toca, de sentir afeto sincero e agora tristeza porque não teremos mais piadas como aquela que lhe ouvi dizer no nosso primeiro encontro: «Se Pascal habitasse no meu condomínio, falar-nos-íamos com educação, mas não nos daríamos muito. Se, pelo contrário, no meu andar estivesse Tomás de Aquino, ao jantar jogaríamos à bisca mas acabaríamos por discutir, à procura de argumentos um contra o outro [andare per avvocati]. E talvez ele me denunciasse à Digos (forças secretas italianas) por suspeita de terrorismo».
Por umas minhas Perguntas sobre o cristianismo (o título do livro que lancei com muitas entrevistas, sobretudo com ex-crentes, para perceber as suas razões), passamos juntos uma tarde milanesa que aproveitei não para falar genericamente de cultura, mas de fé, de vida e de morte. Pedi-lhe a ele, que conduzia o discurso em direção à filosofia, que deixasse os esquemas verbais e que fosse ao concreto. A decisão por Deus ou contra Deus vem mais de uma questão existencial do que de argumentações teóricas. Por que motivos (assumindo que seja capaz de decifrá-los) uma pessoa que abraçava o Evangelho - e com tanto fervor - como o jovem Eco, decide retirar a sua esperança de Cristo? Parecia-me, com todo o respeito, que os argumentos da sua resposta não fugiam à suspeita de terem sido elaborados a posteriori para racionalizar uma repulsa que vinha do coração e da vida, mais do que da razão. Disse-lhe eu. E ele respondeu com sinceridade: «Concedo-lhe de bom grado que qualquer 'prova' ou raciocínio serve apenas para nos convencer daquilo de que já estamos convencidos. É verdade: o aspecto racional não chega para explicar a minha história. Mas também não é suficiente o aspecto biográfico.»
«Outros que tiveram uma vivência parecida com a minha permaneceram crentes. A mim parece-me que a perda da fé foi como uma interrupção de um circuito elétrico. As causas verdadeiras, profundas? Quem sabe?» Falamos da morte: um drama que, disse-me, vivera na carne, desde quando o seu pai morreu de um modo inesperado. «Passaram tantos anos desde então, mas penso nisso todos os dias. Não procuro, à Freud, vingar-me do meu pai, mas vingá-lo. Também vem daqui o que me tornei profissionalmente. Eu, um colecionador de honras, como disse alguém? Não, uma pessoa que quer dar aos seus filhos a satisfação que eu esperava ter tido como seu filho e que não tive.» Então perguntei-lhe, onde está o seu pai? Onde estão todos os mortos? Onde iremos nós também? Resposta: «Para além daquelas portas de bronze é o caos, a confusão.»
«Mas talvez também esteja o Nada ou um deserto plano e desolado, sem fim.» A morte, lembrei-o, é a decisão por excelência, aberta a muitas saídas possíveis. E se tivessem razão aqueles que dizem que será Jesus o Cristo a vir ao nosso encontro? Não pareceu hesitar, como quem já pensou nisso muitas vezes: «Oiça, se por acaso esse Nazareno existir mesmo e quiser pôr-me um processo, digo-lhe mais ou menos as coisas que lhe estou a dizer a si: pensei assim e assim e cheguei à conclusão que não serás tu a esperar-me. Penso que poderemos chegar a caminhos razoáveis. Se pelo contrário for o Deus cruel e vingativo de certas seitas protestantes, então é melhor não ter nada a ver com ele. Ele que me mande então para o inferno onde ao menos há boa gente». Uma pausa e depois: «Mas veja que estou convencido que se Deus existisse mesmo, seria o de São Tomás, com quem discutiria na vida, mas que era um homem com quem, apesar de tudo, se podia argumentar sobre as coisas que importam.» Ora, parece que Umberto Eco «sabe». E ao respeito que merece da parte de todos por uma vida tão ativa, os crentes, com discrição em relação às convicções, acrescentaram uma oração diante do túmulo diante do qual - com coerência, sem hipocrisia - não se quis uma presença religiosa.”
(Vittorio Messori, Umberto Eco da Cattolico ad Ateo, L’Enigma del Distacco dalla Fede)

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sábado, 13 de novembro de 2021

Gustavo Corção: O valor do Concílio Vaticano II


“Parece-nos claro que o valor principal de um Concílio Ecumênico só pode ser medido com um critério essencialmente católico, o da aplicação do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo para a salvação das almas, e não com qualquer critério tirado do mundo e da história.
No caso presente, se quisermos aquilatar esse valor, devemos começar por ouvir as vozes mais autorizadas a falar em nome do Concílio. Ouçamos pois mais uma vez a parte do Discurso de Encerramento do Concílio, onde se encontra uma definição da espiritualidade que inspirou aquele sínodo. Eis o texto já mais de uma vez transcrito em nossas colunas:
“A Religião do Deus que se fez homem encontrou-se com a religião — porque é uma religião — do homem que se faz Deus. Que aconteceu? Um choque, uma luta, uma condenação? Poderia ter acontecido, mas não aconteceu. A antiga história do samaritano foi a pauta da espiritualidade do Concílio. Uma simpatia imensa o penetrou todo”.
Quanto mais vezes ouvimos estas interrogações: “Que aconteceu? Um choque, uma luta, uma condenação?”, mais pueril nos parece a exigência do contexto inteiro do discurso, e até dos vários pronunciamentos do Papa Paulo VI, para a reta interpretação deste final de discurso do encerramento do Concílio.
Essas interrogações são feitas, evidentissimamente, para lembrar que outros papas e concílios se chocaram, com tais impiedades erigidas em sistema, lutaram contra as várias formas desta religião do homem que se faz Deus, condenaram severamente a revolução anarquista, o comunismo, os diversos socialismos e as maçonarias.
E quanto mais vezes ouvimos estas palavras de resposta: “Poderia ter acontecido, mas não aconteceu”, mais clara nos parece a intenção de bem marcar a reviravolta antropocêntrica que separa o Concílio Vaticano II de toda a anterior tradição católica, e que assim pretende defini-lo em termos de contradição, de inovação e até de censura de tudo o que se fez na Igreja durante vinte séculos.
O contexto dos fatos ocorridos durante o Concílio, e multiplicados depois do Concílio, está aí na memória de todos para confirmar que o Concílio trouxe efetivamente uma “simpatia imensa” por todas as impiedades da soberba humana erigidos em sistema, e correlatamente ostentou uma estranha indiferença pelas vítimas de tais perversidades.
Desde as primeiras sessões do Concílio observou-se a escandalosa recusa de reafirmação das condenações do comunismo, tornadas mais necessárias do que nunca em vista da torrencial infiltração da ideologia “intrinsecamente perversa, ímpia, monstruosa e desumana” (Divini Redemptoris, Pio XI, 1937) nos recintos da Igreja.
Mais tarde, nos cansamos de ver os pronunciamentos das conferências episcopais em favor das idéias comunistas e hostis aos governos que ousavam praticar a política de repressão dessa perversidade. E mais doloroso do que nenhum outro nos acode à memória o caso dos cruéis terroristas espanhóis condenados por Franco: as autoridades eclesiásticas publicaram ostensivamente sua imensa simpatia pelos condenados, depois da glacial indiferença em relação às numerosas vítimas inocentes das bombas.
A alusão feita à “antiga história do samaritano”, que teria sido a pauta da “espiritualidade do Concílio” não nos parece feliz. Como todos nós sabemos, a parábola do bom samaritano (Lc 10, 30) põe sua tônica na compaixão pela vítima da perversidade dos salteadores: “Um homem descia de Jerusalém à Jericó quando caiu em mãos de salteadores que o despojaram de tudo e, cobrindo-o de ferimentos, desapareceram, deixando-o quase morto. Aconteceu que passavam pela mesma estrada um sacerdote e um levita que, ao vê-lo, continuaram seu caminho. Porém, um samaritano em viagem passou perto dele e teve compaixão: aproximando-se, enfaixou suas feridas e nelas verteu óleo e vinho…” Evidentemente seria preciso fazer uma reforma profunda nesta parábolas para adaptá-la, com palavras atribuídas a Jesus, a uma assembléia de sacerdotes e levitas que, esquecidos das vítimas, sentem imensa simpatia pelos salteadores.
* * *
Quando se ouvem mais uma vez aquelas palavras com que se encerrou o Concílio, é impossível evitar o estupor e o sofrimento que nos causa a reviravolta moral que, numa leitura superficial ou desatenta, poderá ter escapado. Insisto no termo “reviravolta moral” e não preciso buscar a elevada sabedoria da la Ilæ ou da lla llæ para respaldo de minha demonstração: colocando-a no nível do senso comum, creio poder cabalmente demonstrar a existência de uma reviravolta moral nesse texto que enaltece o Concílio pelo fato de não se haver condenado o comunismo, a maçonaria, o liberalismo e demais facetas da reviravolta antropocêntrica, ou da religião do homem que se faz Deus. Sim, o Concílio dito “pastoral” é elogiado precisamente por não ter cumprido o mais grave dos deveres pastorais: o dever de defender o depósito sagrado e o dever de zelar pela salvação das almas, os quais exigem dos pastores uma amorosa intolerância e uma disposição de dar a vida por seu rebanho (Jo 10). Nesse sentido pode-se dizer que todos os concílios da Igreja foram pastorais, exceto o Vaticano II, que começou por um passe de mágica, com o qual fez o mundo inteiro engolir o termo pastoral, para encobrir seu caráter evolucionista e experimental.
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Simpatia imensa pelas maldades erigidas em sistema, pretendendo ser uma forma superior de bondade, é na verdade uma forma requintada de perversidade, porque contém duas graves injustiças e dois graves pecados contra a caridade: o 1° reside no esquecimento do mal imenso que aquelas perversidades difundem e na injustiça e descaridade cometidas contra as vítimas; o 2°, um pouco mais escondido, está na injustiça e descaridade que cometemos contra os perversos, os transviados, os criminosos, aos quais devemos a caridade, não a caridade afetiva, mas a efetiva que consiste na repressão e na punição que, para eles, serão o meio de acordar a consciência e de salvar a alma. Ao contrário, se os acariciamos com declarações de “imensa simpatia” cometemos a horrível impiedade de os tranqüilizar e os confirmar no pecado.
A “igreja pós-conciliar” apregoa em todos os tons essa reviravolta moral que é a síntese de todas as reviravoltas antropocêntricas. Rememore, leitor, os louvores que já ouviu dessa “igreja” que deixou os anátemas e as condenações e pense deles o que quiser: ponha a tolerância no vértice de todas as virtudes, diga dessa filosofia e dessa religião o que quiser, esteja à vontade no comunismo e na maçonaria – a única e última exigência verbal e moral a que me apego é a que me obriga a dizer que tal amolecimento está nos antípodas do cristianismo.
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Na verdade, a chamada “igreja pós-conciliar” traz desde o berço todas as rugas e manchas de velhice de um mundo em decomposição. Na verdade, sua tolerância, sua imensa simpatia por todas as aberrações armadas em sistemas disfarçam uma única intolerância que capitaliza contra aqueles que, em tempo e contratempo, querem guardar o depósito sagrado e salvar as almas que Jesus teve tanta sede no alto da cruz.”

http://santamariadasvitorias.org

domingo, 10 de outubro de 2021

Fazer a vontade de Deus

"Entendamos bem o que significa fazer Sua vontade. Se buscamos, por exemplo, que um homem não roube outro, para que a sociedade ande bem, e não para que se cumpra a vontade de Deus, não podemos dizer que nossa atitude é cristã. Esse descuido da fé sobrenatural nos mostra que há uma maneira atéia de cumprir os mandamentos sem prestar a Deus a homenagem de reconhecimento e obediência, que é o que Ele exige. Quantas vezes os homens que o mundo chama honrados costumam cumprir um ou outro preceito moral por puras razões humanas sem dar-se conta que o primeiro e maior dos mandamentos é amar a Deus com todo nosso ser!"
(Mons. Johannes Straubinger, Comentários a Mateus 7,21)

sábado, 28 de agosto de 2021

Somente a verdade é tolerante

"Somente a verdade é tolerante e jamais persegue ninguém, ela se limita a impedir que se faça o mal. O erro é essencialmente intolerante, e desde o momento em que se sente forte, uma escola, um partido ou uma seita tende a manifestar seu poder suprimindo seus adversários, injuriando-os, sobretudo impedindo-os de falar. O direito de falar, elogiadíssimo pelos liberais – a ponto de o consignarem na constituição e dele fazerem o elemento privilegiado do parlamentarismo – não lhes parece aceitável enquanto não lhes assegure as imunidades do monólogo e impeça toda crítica. Sua maior aspiração, aquilo de que mais gostam, é o incensário para eles e, para os adversários, as cadeias e as mordaças."
(Justin Louis Pierre Fèvre, Histoire Critique du Catholicisme Libéral en France Jusqu’au Pontificat de Léon XIII: Complément de Toutes les Histoires de l'Église)

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Como será o Papado depois de Francisco?


“Nos próximos dias fará cinco anos a abdicação do Papa Bento XVI, um dos fatos mais graves e lamentáveis na história contemporânea da Igreja. Mal foi anunciada a renúncia, as usinas de progressismo começaram a propalar por todo lugar que o gesto de Bento era um ‘gesto revolucionário’ (entre os que utilizaram esta expressão estava o então Arcebispo de Buenos Aires que, contra toda previsão, seria o encarregado de substituir o papa demitente).
Em que consistia o ‘revolucionário’ do gesto? Em que Bento, finalmente, havia compreendido que representava o último resíduo do papado absolutista e ‘monárquico’ e com sua renúncia abria a porta aos novos ventos da história: já não mais um papa soberano absoluto cujas decisões eram lei suprema e inamovível, mas um Papado aberto à colegialidade que outorgaria ao Colégio Apostólico seu até agora negado papel no goveno da Igreja. De fato, os gestos iniciais do novo papa mostravam claramente esta mudança de rumo: Francisco, no dia de sua eleição, em sua primeira apresentação ao mundo, chamou-se a si mesmo ‘bispo de Roma’ e recordou, com a ajuda de Santo Inácio de Antioquia, que o bispo de Roma ‘preside na caridade’ às outras igrejas, obviando, chamativamente, que o Primado do Romano Pontífice não é só de caridade mas também de jurisdição e de governo como foi definido dogmaticamente no Concílio Vaticano I.
As já mencionadas usinas do progressismo se fartaram de trombetear sobre o ‘bispo de Roma’, a ‘colegialidade’ (nebulosa idéia jamais definida com precisão), o final irreversível do ‘Papado monárquico’ (o jesuíta argentino Ignacio Pérez del Viso publicou em um dos jornais de maior circulação da Argentina um artigo com esse ou parecido título), aclamou-se o fim do ‘autoritarismo romano’ fonte de tantos males e anunciou-se com grande júbilo a venturosa ‘primavera da Igreja’ sob a suave condução colegiada do Papa Francisco. Em definitivo, o que vinham a dizer os fautores do progressismo era que o único bem resgatável de Bento XVI – cujo Pontificado foi alvo impiedoso de toda sorte de ataques – havia sido sua renúncia. Muitos afirmaram isto recorrendo aos eufemismos mais variados e hipócritas; outros o manifestaram com todas as letras.
Por certo, as coisas não ocorreram exatamente da maneira como previa e anunciava a narrativa progressista. Em primeiro lugar, poucos papas como Francisco exerceram um poder tão absoluto, tão sem fissuras e até, segundo alguns observadores, despótico. De fato, desde sua ascensão ao Papado ocupou, de modo exclusivo, o cenário eclesial relegando por completo a um distante segundo plano seus mais fiéis colaboradores e homens de confiança. A anunciada colegialidade, se temos de ser sinceros, não se vê em canto nenhum; pelo contrário, a mais mínima dissidência é imediatamente eliminada; os poucos bispos que se animaram a formular algum protesto crítico foram, no melhor dos casos, desprezados, quando não afastados de suas funções ou dioceses. Sacerdotes e leigos que expressaram alguma desconformidade a respeito de questões doutrinárias pouco claras conheceram a demissão e a perda de suas cátedras ou postos de trabalho.
Porém, em contraste com este férreo modo de exercer a autoridade, Francisco tem se dedicado a colocar as bases do que no futuro, quando ele já não estiver, pode chegar a ser, nada mais e nada menos, que a demolição do Papado. Com efeito, já desde Evangelii gaudium se fala de dar às Conferências Episcopais o poder de definir questões doutrinárias; o Motu Proprio Magnum Principium outorga a essas mesmas Conferências uma inusitada faculdade na tradução dos textos litúrgicos com evidente míngua do papel da Santa Sé; em numerosos discursos, Francisco propôs o modelo de uma ‘igreja sinodal’ concebida como uma pirâmide invertida na qual o Magistério está embaixo e o sensuum fidelium, reinterpretado à luz da chamada ‘teologia do povo’, a coroa por cima. Todas estas coisas são, de fato, letra morta porque o feroz centralismo que impôs o Papa Bergoglio as torna impossíveis. Mas são as bombas-relógios que, a seu tempo, estarão fazendo voar pelos ares a verdadeira e autêntica soberania universal do Romano Pontífice sobre toda a Igreja.
A que ponto temos chegado. Por isso torna-se inevitável experimentar uma séria preocupação pelo futuro do Papado. Como será o papa que suceda a Francisco? Voltará sobre os passos deste e restabelecerá pelo menos o decoro da figura papal tão banalizada nestes dias? Que fará a respeito de Amoris laetitia e de suas gravíssimas consequências doutrinárias e pastorais? Que acontecerá com a legião de bispos nomeados por Francisco e que são todos de sua feitura? Haverá propriamente um magistério papal claro e inequívoco nos assuntos essenciais ou se continuará ou ainda se aprofundará este estilo ‘magisterial’ difuso e confuso imposto pelo atual Pontífice? Estas e muitas outras perguntas similares se impõem pela força dos mesmos fatos que transcorrem ante nossos olhos.
Por certo a resposta a todas estas interrogações nos dá o Senhor: Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam; et portae inferi non praevalebunt adversum eam (Mateus, 16, 18). O firme non praevalebunt de Cristo é a fonte de nossa esperança e de nossa certeza de que ao final o triunfo será do Senhor. Mas também sabemos que não nos faltarão tribulações e embora nos tenha sido revelado que essas tribulações se encurtarão não podemos escapar às angústias e inquietudes de nosso coração. Somos homens viajores e o próprio deste estado é a angústia de expectativa sustentada pela esperança.
Mas também é uma exigência deste estado viajor o combate espiritual: militia est vita hominis super terram (Jó, 7, 1). Significa que devemos travar batalha diante do avanço do mal; e a respeito do tema que nos ocupa estimo que é necessário prover-se de duas armas. A primeira, defender sem receios a verdade que a Fé ensina sobre a Igreja e o Papado. O primado de Pedro se funda na Sagrada Escritura, na Tradição da Igreja e no Magistério infalível. É uma verdade fundamental sustentada pelos Padres, pelos teólogos escolásticos e pacificamente aceita por todos os doutores e mestres que, para além das legítimas diferenças de escolas e de estilos, permaneceram fiéis aos ensinamentos de Cristo e da Igreja.
Contudo, os piores cismas e as máximas heresias têm negado esta verdade sublime. Por isso o Magistério a tem defendido sem concessões. A Constituição Dogmática Pastor aeternus do Concílio Vaticano I, assinada em 18 de julho de 1870, resume e sintetiza a doutrina do Primado de Pedro e de seus sucessores; não foi, em absoluto, como tem pretendido certa crítica malintencionada ou infundada, a imposição de um poderoso grupo de pais conciliares ferrenhamente ‘centralistas’ movido, inclusive, por interesses políticos. De nenhuma maneira: a Constitução não faz mais que recolher em seus fundamentos bíblicos, históricos, teológicos e magisteriais, uma doutrina aceita desde sempre mas formulada com singular firmeza precisamente em um tempo em que essa doutrina estava sob o ataque dos inimigos internos e externos. Assim o reconhece expressamente o texto da Constituição:
E como as portas do inferno se insurgem de todas as partes de dia para dia com crescente ódio contra a Igreja divinamente estabelecida, a fim de fazê-la ruir, se pudessem, Nós julgamos necessário para a guarda, para a incolumidade e para o aumento da grei católica, após a aprovação do Concílio, propor a crença dos fiéis a doutrina sobre a instituição, a perpetuidade e a natureza do santo primado Apostólico, no qual reside a força e a solidez de toda a Igreja, segundo a fé antiga e constante da Igreja universal, proscrevendo e condenando os erros contrários, tão perniciosos à grei do Senhor.
Não será ocioso recordar a firme e categórica definição dogmática a respeito do Primado contida no cânon da Constituição:
Se, pois, alguém disser que o Apóstolo S. Pedro não foi constituído por Jesus Cristo príncipe de todos os Apóstolos e chefe visível de toda a Igreja militante; ou disser que ele não recebeu direta e imediatamente do mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo o primado de verdadeira e própria jurisdição, mas apenas o primado de honra, seja excomungado.
Recordemos que se trata de um dogma de nossa fé. No entanto, a partir do Concílio Vaticano II esta doutrina tem sido, direta ou indiretamente, questionada ou, pelo menos, reinterpretada. De fato, nenhum texto conciliar põe em dúvida o Primado; pelo contrário, a Constituição Dogmática Lumen Gentium ratifica plena e expressamente a doutrina do Vaticano I. O problema tem consistido na introdução, da parte do Vaticano II, da questão da chamada ‘colegialidade’, termo nunca definido com propriedade com o qual se fazia referência à doutrina acerca dos bispos que junto com o Papa governam a Igreja. É certo que o Vaticano I havia deixado sem tratar este vital ponto; mas não é menos certo que o Vaticano II não foi além de cunhar o termo colegialidade sem defini-lo e abrindo a porta a multidão de incertezas e equívocos. Esta colegialidade tem sido, de fato, uma fonte de constantes equívocos que nos levou a esta ‘Igreja sinodal’ mais próxima do protestantismo que da Fé Católica. Renovar e afiançar esta doutrina é, portanto, nossa primeira arma.
A segunda arma é renovar o amor ao Papa como sinal distintivo da identidade católica. Como dizia Dom Bosco, três amores definem essa identidade: o amor a Jesus Sacramentado, o amor à Santíssima Virgem e o amor ao Romano Pontífice. Mas é possível amar sempre ao Papa e, em todo caso, que sentido tem esse amor? É próprio de si que o amor ao Papa não se identifica exatamente com o maior ou menor afeto que possamos professar pela figura da pessoa que ocupa, acidentalmente, a cadeira de Pedro. Se fosse assim nem sempre seria possível amar ao Papa. Com efeito, ao longo da história sentaram-se na cadeira petrina homens de toda classe e condição: grandes doutores e sábios e homens de limitado intelecto, membros de nobres famílias e filhos de camponeses humildes, grandes santos e pecadores abomináveis, mártires que derramaram seu sague e pusilânimes que negaram Cristo. Toda esta multicolorida sucessão de personagens díspares responde, sem dúvida, à admirável pedagogia de Deus que podemos definir nestes termos: Deus quer que sua Onipotência brilhe na impotência dos homens; assim fica claramente manifesto que é Deus quem rege a Sua Igreja e a conserva apesar, muitas vezes, dos homens. No entanto, é também sua manifesta vontade que não quis prescindir destes homens.
Então se exige que amemos esses homens? Não exatamente: o que se nos exige é amar o mistério insondável de Cristo que habita neles além e por cima de suas qualidades pessoais. Neste homem concreto, neste Papa, se realiza o mistério da união de Cristo com sua Igreja e esplende visivelmente a invisível Cabeça que a rege e governa. O que amamos no Papa é a grandeza do Papado que se realiza em cada um daqueles que ao longo dos séculos Deus convocou para ser seus vigários na terra.
Não se trata, portanto, de afeto mas de amor. Que este amor seja a força que nos leve a resistir e a esperar nesta hora de tribulação da Esposa de Cristo.”
(Mario Caponnetto, ¿Cómo será el Papado después de Francisco?)

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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Me ne frego

“É uma velha expressão italiana fascista (ouvem as sirenes?) que Mussolini apontou como definindo em grande medida o tipo de atitude que tinha de ser abraçada. Veio-lhe à ideia ao ver a fotografia de um soldado italiano da 1ª guerra mundial que escrevera “me ne frego” (“pouco me importa”…) nas ligaduras das suas feridas com o seu próprio sangue. Canções foram feitas… insígnias, crachás e pins foram desde então arrojadamente marcados com as palavras “me ne frego” sob uma caveira com uma faca (ou uma rosa) entre os dentes.
Independentemente do que se pense sobre as suas origens, é uma expressão inspiradora – estas três palavras resumem o espírito de vitória, a tenacidade do guerreiro. É uma atitude com a qual mais pessoas deveriam crescer. Não permanecer caído. Simplesmente levantar-se, avançar, enfrentando a desesperante noite consciente do fim que se aproxima e, mesmo assim, seguir em frente intrepidamente.
Lembro-me que todas as circunstâncias difíceis que o meu pai conheceu na sua luta por um emprego decente foram enfrentadas com essa atitude – algumas coisas estão fora do nosso controlo, às vezes caímos com a cara no chão… me ne frego!
A hipersensibilidade e a vitimização que as pessoas cultivam põem-me doente.
Em tempos difíceis por que nos voltamos para o Estado? Por que é que procuramos uma esmola? Por que desejamos histórias de compaixão? Não há dignidade em atitudes inativas e de auto-comiseração. Não há dignidade na passividade.
Se nós, humanos, somos também animais, germinados a partir do caos e brutalidade do “Reino da Besta”, como é que chegamos a um ponto tal em que ficamos desprovidos do nosso espírito de luta?
A vida deve ser doce por vezes, mas há também a hora do sangue, a luta pela sobrevivência, a força de seguir em frente na cara da oposição e de sentir a coragem do nosso próprio desespero.
É como Henrik Ibsen escreveu na sua peça “Inimigo do Povo”: o homem mais forte é aquele que permanece mais sozinho e não se importa com o apoio dos outros mas sim com a certeza da sua própria razão e legitimidade para enfrentar as massas indolentes.
Nenhum respeito pelo conformista silencioso que segue a linha dominante de pensamento, aconchegado em segurança no meio de um grupo de que não faz realmente parte. Nenhum respeito pelas massas silenciosas que se deslocam lentamente, como gado, para as tumbas a que todas as nossas vidas conduzem.
Então nasceste gay, então tens uma deficiência, então estás pobre, ou cansado ou vencido. O que importa? Por que vitimizares-te e acusares outros pela tua situação? – Por que não lutar pelo que queres, ignorando as tuas feridas? Por que não lembrá-lo tatuando-o nos teus pulsos, usá-lo numa insígnia da tua manga – por que não seres “Tu” frente aos “Normais”, o coração cheio de orgulho, os olhos cheios de raiva?
Estou farto de histórias de compaixão e farto de pessoas que fingem que a humanidade foi feita para caminhar em bicos de pés sobre cascas de ovo, mimando todas as partes da nossa sociedade.
Estou farto de paz. Estou farto de pessoas que capitulam perante as forças do mal – um bom homem sem coluna vertebral é tão útil como um cavalo coxo. Como é que alguém pode aceitar resignadamente limitações e fraquezas na sua vida pessoal – serão tão patéticos e desprovidos de orgulho ao ponto de viverem de favores, de pão e circo?
As nações morrem quando aceitam a servidão silenciosa e prendas.
Devemos ser prestáveis e solidários para com os outros…mas a noção de sentir pena de si mesmo é desprezível. A pessoa que ajuda e é solidária torna-se o vencedor, o poderoso…aqueles que recebem, parados, sendo ajudados, esses são as criaturas patéticas que precisam de reajustar os seus objetivos e reacender a sua chama.
Deveria existir no ser humano um desejo inato de enfrentar a oposição impossível apenas para provar-se a si mesmo, para se auto-superar, para alcançar o sentimento de triunfo. Acharia difícil acordar sem ver esta vida como uma guerra contra forças desconhecidas e uma longa campanha contra a natureza do próprio mundo…
É triste pensar que estamos numa sociedade que vive de condolências piedosas, oferecendo esmolas de simpatia e subsídios estatais.
Não estou feliz a não ser quando sofro o meu triunfo ou enfrento a minha batalha.
Ganha a tua parte, não peças por nada mais; permanece desafiador na face da derrota. Não peças por nada mais.
Desdenho os pedintes cegos, percorrendo o metro de alto a baixo, à procura de esmolas… há outros, que são cegos, que forjam os seus futuros desafiando as suas deficiências. Entrego-te os meus trocos mas espero que entendas que isso não é forma de viveres a tua vida. Quando recebes a minha simpatia e a minha esmola, deverias sentir vergonha e não satisfação.
Fico enojado por legislação destinada a acriançar e proteger, destinada a criar um terno sentimento de “tolerância” porque tu te sentes isolado ou alienado.
Alguns de nós procuram a alienação social e a fraternidade tribalista porque sentimos que é isso que constrói as nossas identidades e a nossa força, que alimenta o animal dentro de nós e nos garante, na nossa juventude, o nosso espírito fogoso e determinação.
Esta é a tua vida e ao perseguires objetivos tão patéticos provas a tua própria natureza patética.
Me ne frego!
Não consigo respeitar nenhuma pessoa que não me consiga olhar nos olhos e falar com honestidade sobre si mesma, que esconde factos e evita situações desagradáveis preferindo desistir.
Todos deveriam ambicionar ser tão duros quanto possível.
Queixas é o que tu ouves de crianças pré-adolescentes. Olhares duros e obstinada recusa em ser ajudado, determinação estóica e olhares gélidos é o que recebes de pessoas que valorizam as suas vidas e os seus esforços ao ponto de não procurarem a tua ajuda.
Respeito criminosos e gangsters mais do que respeito beneficiários da assistência social.
Quando a vida te dá limões… compra tequilla, esfrega algum sal nas tuas feridas e aperta o teu capacete.
Chega de gerações agarradas às saias das mães, a chorar por leite derramado e a queixarem-se de alienação social.
Não te pedirei que lutes as minhas lutas – mas posso pedir que me emprestes a tua faca.
Desde a mais tenra idade que não receio trocar murros e procurar o conflito com os que me rodeiam. Não preciso de nenhuma lei para me proteger, não preciso de qualquer consideração de burocratas de gravata, não preciso de ser salvo de nada que tenha origem humana.
Me ne frego!”

https://ofogodavontade.wordpress.com

domingo, 11 de julho de 2021

O pacifismo não é cristão

“Pacifismo é sentimentalismo internacional – e definitivamente não é cristão. Certas seitas religiosas tais como os Menonitas e os Quakers são casos especiais que se sujeitam à regra do privilégio clerical: certos homens podem afastar-se dos deveres comuns da sociedade a fim de buscarem algum objetivo mais elevado que não vai contra a natureza da sociedade. Tolerância sujeita à regra da objeção de consciência é um luxo ao qual uma sociedade rica pode-se dar. Mas o Cristianismo não é uma idéia, uma teoria ou um privilégio especial. É um fato. E permanece o fato de que a história das nações cristãs tem sido continuamente militar. Os pacifistas cristãos têm que negar a prática real e universal de dois mil anos de Cristianismo, e para além da história até a eternidade com as guerras dos Tronos e Dominações, Principados e Potestades. ‘A guerra é o inferno’, disse Sherman; e o inferno por exata analogia teológica é um lugar de punição justa e eterna.”
(John Senior, The Death of Christian Culture)