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segunda-feira, 5 de julho de 2021

Destruir a Missa Nova


“Qual é a crise que estamos atravessando atualmente? Manifesta-se, no meu entender, sob quatro aspectos fundamentais para a Santa Igreja. Manifesta-se, à primeira vista, acredito eu, e me parece que é um dos aspectos mais graves, porque, para mim, se se estuda a história da Igreja, dá-se conta de que a grande crise que atravessou o século XVI, crise espantosa, que arrebatou à Santa Igreja milhões e milhões de almas, regiões inteiras, Estados na sua totalidade, esta crise foi, antes de tudo, uma crise do culto litúrgico; e que, se atualmente existem divisões entre aqueles que se dizem cristãos, há que se atribuir mais que a outras causas à forma de celebrar o culto litúrgico; e se os protestantes se separaram da Igreja, a causa principal é que os instigadores do protestantismo, como Lutero, disseram, desde o primeiro momento: "Se queremos destruir a Igreja temos que destruir a Santa Missa". Esta foi a chave de Lutero.
Tinha-se dado conta de que, se chegasse a por as mãos na Santa Missa, se conseguisse reduzir o Sacrifício da Missa a uma pura refeição, a uma comemoração ou recordação, a uma significação da comunidade cristã, a uma rememoração ou memorial da Paixão de Nosso Senhor e, como consequência, que ficasse mais débil o mais sagrado que há na Igreja, o mais santo que nos legou Nosso Senhor, o mais sacrossanto, ele conseguiria destruir a Igreja. E certamente, conseguiu, por desgraça, arrebatar à Igreja nações inteiras, obrando dessa forma.
A Missa, um sacrifício
Pois bem. Hoje existe uma tendência, que ninguém pode negar, de pôr as mãos sobre a Santa Missa. Chega-se a alterar coisas que são essenciais na Santa Missa. E quais são estas coisas essenciais, na Santa Missa? Em primeiro lugar, a Santa Missa é um sacrifício. Um sacrifício não é uma refeição. Mas, na atualidade, se quis desterrar até a palavra sacrifício. Fala-se de Ceia Eucarística, fala-se de comunhão eucarística..., fala-se de tudo o que se quer, com tal de não mencionar sequer a palavra sacrifício.
E, apesar disso, a Missa é, essencialmente, um sacrifício, o Sacrifício da Cruz; não é outra coisa. Substancialmente, o Sacrifício da Cruz e o Sacrifício da Missa são a mesma coisa e o mesmo e único Sacrifício.
Não há outra mutação que na forma de oblação. Nosso Senhor se ofereceu de uma forma sangrenta, cruenta, no altar da Cruz, sendo Ele mesmo o Sacerdote e a Vítima. E sobre nossos altares, se oferece, sendo igualmente o Sacerdote e a Vítima, por ministério dos sacerdotes.
Somente o sacerdote é o Ministro consagrado pelo Sacramento da Ordem, configurado, pelo Caráter, ao Sacerdócio de Nosso Senhor Jesus Cristo, oferecendo o Sacrifício da Missa, na pessoa de Cristo: "in persona Christi".
A presença real
Se se tira a Transubstanciação da Missa... Já que vos falei de Sacrifício, falemos agora da segunda coisa necessária, essencial, que é a Presença Real de Nosso Senhor, na Sagrada Eucaristia. Se se elimina a Transubstanciação... Esta palavra é de uma importância capital, porque, ao suprimi-la, se omite a presença real, e deixa, portanto, de haver Vítima.
Deixa de haver Vítima para o Sacrifício. E, portanto, deixa de haver Missa. Dizendo de outra maneira: deixa de existir Sacrifício e nossa Missa é vã. Ficamos sem Missa. (Deixou de ser o Sacrifício que nos deu Nosso Senhor, na Santa Ceia e na Cruz, e que mandou os Apóstolos o perpetuarem sobre o altar). É o segundo elemento indispensável. Primeiro, o Sacrifício, logo, a Presença Real. Falemos agora do Caráter sacerdotal do Ministro.
É o sacerdote, não os fiéis
É o sacerdote o que recebeu o encargo, de Deus Nosso Senhor, para continuar o Sacrifício. E de nenhuma forma os fiéis. É certo que os fieis têm de se unir ao Sacrifício, unir-se de todo coração, com toda a sua alma, à Vítima, que está sobre o altar, como deve fazer também o sacerdote. Mas os fiéis não podem oferecer, de forma alguma, o Santo Sacrifício, "in persona Christi", como o sacerdote.
O sacerdote está configurado ao Sacerdócio de Cristo, está marcado para sempre, para a eternidade. "Tu es sacerdos in aeternum"... Somente ele pode oferecer verdadeiramente o Sacrifício da Missa, o Sacrifício da Cruz. E, por conseguinte, somente ele pode pronunciar as palavras da Consagração.
De joelhos!
Não é normal que os leigos se coloquem ao redor do altar e que pronunciem todas as palavras da Missa, junto com o sacerdote. Porque eles não são sacerdotes no sentido próprio em que o é o sacerdote consagrado. Tampouco podemos considerar como coisa normal o ter suprimido todo sinal de respeito à Presença Real. À força de não ver nenhum respeito à Sagrada Eucaristia, acaba por não se crer na Presença Real. E quem se atreverá a chegar, por tal caminho, a coisa parecida, depois de meditar a divina Palavra, segundo a qual "ao nome de Jesus, que se dobre todo joelho, no céu, na terra e nos infernos"? Se somente ao nome há que ajoelhar-se, vamos permanecer de pé, quando está presente em realidade, na Sagrada Eucaristia?
Ao lugar onde se oferece um sacrifício, se dá o nome de altar. Por isso, não se pode aceitar, como substituto do altar, uma mesa comum, destinada às refeições, que, segundo recordava São Paulo, se encontram nos refeitórios das casas, para comer e beber. O altar tem que ser peça que não se traslade e onde se oferece e se derrama o sangue. No momento em que se converte o altar em mesa de refeitório se deixa de ser altar.
Tomado do protestantismo
Suprimir todos os altares que são verdadeiramente tais, pôr, em seu lugar, uma mesa de madeira, diante do altar que foi solenemente consagrado, é, precisamente, fazer desaparecer a noção de Sacrifício, que vimos é de importância capital para a Igreja Católica. E é desta forma como chegou e se consolidou o protestantismo. Por esta desaparição da ideia de Sacrifício, passou a Inglaterra inteira ao cisma e logo à heresia.
... Deslizando, deslizando, pouco a pouco, vamos tornar-nos protestantes, sequer sem dar-nos conta.”
(Mons. Marcel Lefebvre, La Misa Nueva)

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domingo, 20 de setembro de 2020

Subjetivismo

“Subjetivismo é introduzir a liberdade na inteligência, quando pelo contrário, a nobreza desta consiste em submeter-se ao objeto, consiste na acomodação ou conformidade do pensamento com o objeto conhecido. A inteligência funciona como uma câmara fotográfica, deve reproduzir exatamente as características perceptíveis do real. A sua perfeição consiste na fidelidade ao real. Por este motivo a verdade define-se como a adequação da inteligência com a coisa. A verdade é esta qualidade do pensamento, de estar de acordo com a coisa, com o que é. Não é a inteligência que cria as coisas, mas as coisas que se impõem à inteligência tal como são. Consequentemente, a verdade de uma afirmação depende do que ela é, é algo de objetivo; e aquele que procura a verdade deve renunciar-se a si, renunciar a uma construção do seu espírito, renunciar a inventar a verdade.
Pelo contrário, no subjetivismo, é a razão que constrói a verdade: deparamo-nos com a submissão do objeto ao sujeito. Este passa a ser o centro de todas as coisas. As coisas não são mais o que são, mas o que se pensa delas. O homem passa a dispor da verdade conforme a sua vontade: a este erro chama-se idealismo no plano filosófico, e liberalismo no plano moral, político e religioso. Como consequência, a verdade será diferente conforme os indivíduos e os grupos sociais. A verdade torna-se necessariamente compartilhada. Ninguém pode pretender tê-la exclusivamente na sua integridade; ela faz-se e procura-se sem descanso. Pode ver-se o quanto isto é contrário a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua Igreja.”
(Mons. Marcel Lefebvre, Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar)

terça-feira, 17 de março de 2020

Que valor têm os cardeais ‘conservadores’?


“Um fato recente e revelador:
O cardeal Raymond Burke devia celebrar uma missa em latim antigo no dia 15 de fevereiro na catedral de Ostuni, na Itália.
Então a diocese de Brindisi começou a intrigar, conforme noticiou o site LaNuovaBq.it.
O reitor da catedral exigiu que a missa fosse celebrada em privado e a portas fechadas. Somente os organizadores, alguns empresários, foram autorizados a participar.
Foi aí que Burke decidiu cancelar a missa.
Este fato, trivial em si, revela o estado de espírito dos bispos ‘conservadores’. Não é assim que um combatente da Fé como Monsenhor Lefebvre teria agido. Relembremos brevemente este estado de espírito do mundo rallié:
1º Eles não querem seguir plenamente a Tradição.
2º Eles querem estar em obediência.
3º Eles querem estar na legalidade (situação canônica regular); estar livres de censura.
4º Eles querem estar na Igreja; a Igreja é visível.
5º Eles querem trabalhar na ‘Igreja’ para que a Tradição recupere seu direito de cidadania.
6º Eles querem se opor ao ‘espírito de partido’ e ao ‘cisma’.
Monsenhor Lefebvre respondeu na teoria e na prática a todas essas objeções:
1º Seguir plenamente a Tradição consiste em conservar a fé, denunciar os erros, preservar a missa antiga por motivos de fé, rejeitar o Concílio em razão de sua oposição ao reino de Jesus Cristo. Os ralliés querem apenas se concentrar na missa e no catecismo... e ao final eles abandonam até a Missa quando ela prejudica a unidade pastoral da diocese!
2º Mons. Lefebvre lembra os fundamentos da verdadeira obediência: ‘Não é isso que nos ensina a lei natural, nem o Magistério da Igreja. A obediência supõe uma autoridade que dá ordens ou promulga leis. Até as autoridades humanas, instituídas por Deus, têm autoridade apenas para atingir a meta designada por Deus e não se desviar dela. Quando uma autoridade usa seu poder contra a lei pela qual esse poder lhe é concedido, ela não tem direito à obediência e é preciso desobedecê-la.’ Mons. Lefebvre teria obedecido ao bispo de Brindisi nessas condições?
3º O argumento de legalidade é baseado em uma desordem. O que pertence à Igreja é antes de mais nada a fé, a adesão a todas as verdades ensinadas pela Igreja. A lei, o direito canônico (o de 1917, é claro!) está a serviço da fé e da santificação das almas, e não o inverso. O cardeal Burke abandona o combate da Fé para obedecer ao bispo local.
4º Argumento para permanecer na Igreja visível. Mons.Lefebvre: ‘Esta história de Igreja visível de Dom Gérard e de M. Madiran é infantil. É inacreditável que se possa falar de Igreja visível para a Igreja Conciliar, em oposição à Igreja Católica, que estamos tentando representar e continuar. Eu não disse que somos a Igreja Católica. Eu nunca disse isso. Ninguém pode me acusar de alguma vez ter querido me considerar um papa. Mas nós realmente representamos a Igreja Católica tal como ela era antes, porque continuamos a fazer o que ela sempre fez. Somos nós que temos as notas da Igreja visível: a unidade, a catolicidade, a apostolicidade, a santidade. É isso que torna a Igreja visível.’ (Mons. Lefebvre, Fideliter No. 70, p. 6)
5º Trabalhar na Igreja? Existem duas ilusões: a ilusão de estar na Igreja Católica permanecendo na Igreja Conciliar, sujeito aos bispos modernistas que se afastam da fé católica; e a concepção errônea de autoridade: não é o inferior que tem poder de mudar algo na Igreja, mas o superior.
6º Opor-se ao espírito de cisma? Quanto a esta objeção, ela só existe para os que não conhecem a diferença entre a desobediência necessária a uma autoridade e a recusa de reconhecer esta autoridade pelo que é (como fazem os sedevacantistas). Desobedecer ao Papa não é se separar da Igreja, é preciso juntar outra coisa: constituir-se sua própria autoridade independente. Mons. Lefebvre nunca quis constituir ou criar uma igreja paralela. Ele não se cansava de repetir que seus bispos e padres não tinham jurisdição ordinária...
Para concluir sobre essa Missa anulada pelo Cardeal Burke em Brindisi, Mons. Lefebvre, de sua parte, a teria mantido firmemente, mesmo que isso significasse celebrá-la em frente à catedral ou em um estádio! Esta é a diferença entre os combatentes da Fé e os liberais.”

Original em: https://cristiadatradicinalista.blogspot.com

domingo, 2 de junho de 2019

Por que a FSSPX está errada sobre a carta contra as heresias do Papa Francisco

“A FSSPX escreveu uma declaração sobre a carta, mencionada aqui várias vezes, que pede aos bispos que convidem Francisco a se retratar de suas muitas heresias ou o deponham. A declaração é bastante crítica. Penso que seja, também, um grande erro.
A Fraternidade obviamente ressalta as muitas heresias deste Pontificado. Eles destacam que Francisco é o resultado de um movimento, o Vaticano II, que vem acontecendo há décadas. Mas então eles condenam a carta baseados no argumento de que as chances de sucesso são inexistentes, e que os bispos destinatários não são suficientemente instruídos e afinal de contas não desejam agir.
Com este raciocínio, minha pergunta à FSSPX é por que eles mesmos pensam que deveriam existir, para início de conversa. A probabilidade de o Colégio dos Cardeais (para não falar dos bispos do mundo inteiro) se converter ao Catolicismo Tradicional é ainda menor que a probabilidade de eles acusarem o Papa de heresia.
Se é suficiente orar e não fazer nada, esperando que Deus modifique a situação, então a FSSPX poderia da mesma forma se dissolver e explicar a todos seus seguidores que “é bastante provável, até mesmo certo, que a maior parte dos bispos não irá reagir” a seu convite de abandonarem as inovações do Vaticano II.
Nem pode a FSSPX dizer, em sua defesa, que agem esperando que futuras gerações voltarão à sanidade; porque isto é exatamente o que os signatários da carta estão fazendo.
O princípio básico, que escapa completamente aos autores da declaração, é que as coisas são feitas porque são corretas. A probabilidade de sucesso não está aqui nem ali. Não consigo imaginar Atanásio, ou os guerrilheiros franceses lutando contra a ocupação nazista, ou tantos guerreiros em tantas guerras, físicas e espirituais, pensando na “probabilidade de sucesso” como elemento decisivo para lutar ou não.
Quando o Arcebispo Lefebvre se recusou a fechar seu seminário, ou quando nomeou seus bispos, ele assim o fez porque era a coisa correta a fazer. Esta foi a luz guia por trás das decisões que foram, de certo modo, inéditas na história da Igreja. Mas se olharmos para o mundo, não podemos certamente dizer que a FSSPX tem sido um “sucesso”, pois quase cinquenta anos depois a Igreja só ficou mais corrupta. Será que devemos, então, dizer, a respeito da FSSPX, que “o fracasso de uma tal iniciativa ridicularizou o autor (Lefebvre) e sua causa”?
Certamente que não.
Você faz o que tem que fazer. Se o resultado é zero nesta época em que vivemos, o céu ainda perceberá a ação. Além disso, todas estas iniciativas são como o fermento que, com a graça de Deus, trará resultados algum dia.
Um dia, a história vai registrar que vozes corajosas se levantaram exigindo ação em vista do espetáculo impressionante de um Papa herético. Eles saberão que nem todos ficaram silentes, e nem todos estavam prontos para aceitar a passividade dos bispos. Eles saberão que os assinantes da carta, com todos seus simpatizantes, quiseram desmascarar a vergonha da passividade de seus bispos para todas as futuras gerações. Eles saberão que tais iniciativas querem dar testemunho de que a Igreja é indefectível e, quaisquer que sejam os problemas, sempre haverá aqueles que permanecem leais à verdadeira fé.
Isto é, mais uma vez, o raciocínio por trás da existência mesma da FSSPX. Que eles a critiquem, e cheguem ao ponto de dizer que esta iniciativa “pode ridicularizar os autores e sua causa” é profundamente infeliz e deveria, se me perguntam, ser causa de um profundo constrangimento dentro da organização.
A FSSPX não deveria criticar esta carta. Eles deveriam ser os que a escreveram.
Não com alguma esperança de “sucesso”, é claro. Mas a fim de dar testemunho às futuras gerações da luta dos fiéis, e da vergonha dos mercenários.”

https://mundabor.wordpress.com

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Da seita neomodernista que ocupa a Igreja Católica


“Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II e da reação do movimento tradicionalista na subsequente crise da Igreja, podem-se distinguir três tendências divergentes sobre a relação a ter entre a Igreja Católica e a Igreja oficial. Quer dizer, entre o corpo místico de Nosso Senhor Jesus Cristo e os clérigos e fiéis unidos à hierarquia e às reformas pós-conciliares.
Para uns, são duas igrejas substancialmente distintas, absolutamente separadas, e não se pode pertencer às duas ao mesmo tempo. Estas duas igrejas têm uma fé diferente, ritos diferentes, uma legislação diferente. A lógica os leva também a já não rezar publicamente pelo papa atualmente reinante, porque ele é papa de outra Igreja, que não é – ou já não é – católica.
Para outros, ao contrário, a Igreja oficial, hierárquica, romana, conciliar não é uma Igreja à parte, mas sim a Igreja Católica real, una, a verdadeira, a visível, a Igreja de hoje, e é inadmissível fazer uma distinção real entre a Igreja conciliar, oficial, e a Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo. A lógica levará também a procurar a pertença oficial, visivelmente, canonicamente, a esta hierarquia, para bem assegurar a pertença à única Igreja, católica e apostólica.
Estas duas concepções, durante já cerca de meio século de debates entre tradicionalistas, dividiu-os e levou-os a formar duas pontas extremas, conhecidas comumente por “sedevacantistas” e “acordistas”. Nossa análise pode parecer sumária, mas a experiência o tem provado: quando um tradicionalista, clérigo ou leigo, já não faz a distinção entre a Igreja oficial e a Igreja católica, ele acaba um dia ou outro se colocando a serviço da primeira, e assim abandona o combate da fé exigido pela segunda nestes tempos de clara e geral apostasia.
Na verdade, o problema é mal colocado, e permanece um dilema entre dois termos de uma alternativa. Pois há uma distinção a fazer entre a Igreja oficial e a Igreja Católica, e ela foi feita por todos os nossos antigos combatentes da fé depois do concílio. Basta que refresquemos a memória e nos lembremos de fórmulas bem conhecidas: “A Igreja ocupada”, “Roma ocupada”.
A Igreja conciliar e neomodernista não é portanto nem uma Igreja substancialmente diferente da Igreja Católica nem absolutamente idêntica; ela tem misteriosamente algo de um e de outra: é um corpo estranho que ocupa a Igreja Católica. É preciso distingui-las sem separá-las.
Precisemos bem: um “corpo”, e não uma “doença”, uma “tendência”, um “espírito”, uma “concepção falsa” como se procura demonstrar no DICI n° 273, recusando em princípio considerar a Igreja conciliar como uma “sociedade distinta de outra” (p. 8). Esta negação poderia, rigorosamente, ser admitida no sentido definido acima, de uma sociedade absolutamente, substancialmente diferente da Igreja Católica. Mas ela nos parece perigosa, em seu sentido óbvio, e, em todo caso, contrária à doutrina de São Pio X, que qualifica os modernistas de associação secreta (cladestinum foedus; Motu próprio de 1 de setembro de 1910) que se oculta no seio mesmo e no coração da Igreja (sinu gremioque Ecclesiae; Pascendi, 1907).
O que o magistério ensina originalmente como modernismo, nossos antigos o chamaram em termos enérgicos de sujeito do neomodernismo, qualificando suas hierarquias de “seita”; e não se vê em que o princípio tenha mudado hoje em dia... Que se nos permita, mesmo se este debate desagrade hoje em dia a alguns na Tradição, trazer à memória algumas citações lapidares:
Dom Lefebvre: Isso é uma seita que se apossou de Roma, se apossou da alavanca de comando da Igreja” (Conferência em Flavigny, dezembro 1988, Fideliter n° 68, p. 10).
Padre Tissier de Mallerais: “[...] nas circunstâncias de uma Igreja ocupada pela seita progressista [...]” (Fideliter n° 53, p. 38, set-out 1986).
Padre Calmel: “[…] organizações ocultas de uma falsa Igreja, de uma Igreja aparente” (Itinéraires n° 123, p. 174, maio 1968); “Igreja aparente no seio mesmo da Igreja verdadeira” [...]” (Itinéraires n° 106, p. 178, set. 1966).
Padre Marcille: “[...] a seita no poder na Igreja [...] a seita conciliar a favor do poder que ela ocupa [...]” (Fideliter n° 96, pp. 67 e 71, nov-dez 1993).
Marcel de Corte: “É a parte que se erige para tudo, a seita que se erige na Igreja una, santa, católica, apostólica e romana. Por um instante, a parte permanece no todo que ela corrompe pouco a pouco” (Itinéraires n° 131, p. 266, março de 1969).
Jean Madiran: “[...] a seita campeada na Igreja [...]” (Itinéraires n° 137, p. 28, nov. 1969).
Henri Rambaud: “[...] a seita, pequena pelo nome em relação ao resto do rebanho, mas instalada nos postos de comando [...]” (Itinéraires n° 143, p. 111, maio 1970).
Resumindo com o Padre Berto: Jacques Maritain, em 1966, falou de “febre” neomodernista. Mas ele esquece que [se trata de] neomodernistas que jamais se admitirão tais, que permanecerão a todo custo no interior da Igreja, para “fazer crescer de dentro uma mutação substancial que não deixará da Igreja senão o nome [...]; eles constituem na Igreja uma associação secreta de assassinos da Igreja” (Itinéraires n° 112, p. 69, abril 1967).
Em 1964, em pleno concílio, Jean Madiran escreveu um artigo especial intitulado “A sociedade secreta do modernismo”, em Itinéraires. Cinqüenta anos depois, seu diagnóstico permanece ainda válido:
"Uma sociedade secreta, que consegue sobreviver quando é combatida, não vai conseguir prosperar quando já não for combatida? Depois da morte de São Pio X, ocupam-se de outra coisa, incluindo o modernismo doutrinal, jurídico, social, mas já não se ocupam da sociedade secreta instalada no seio da Igreja. A consequência de tal abstenção é que a sociedade secreta reforçou sua instalação, multiplicou seus progressos, desenvolveu seu poder; que é poder oculto e se torna muito maior; que ela foi muito mais forte para colocar à frente seus adeptos, para liquidar seus adversários, e para prevenir que se fale dela: impor um silêncio público a respeito dela mesma é o objetivo de todas as sociedades secretas." (Itinéraires n° 82, abril 1964, p. 100.)
Reduzir a Igreja conciliar e neomodernista a um conceito, uma tendência, um espírito, recusando-lhe o status de seita, de sociedade, de associação (Ecclesia=assembléia em grego), em que ela deve necessariamente se encarnar, e para qual de fato ela se move concreta e eficazmente, é ignorar os ensinamentos de São Pio X e de nossos antepassados na Tradição. Isso não é somente um erro teórico, mas também, em suas consequências práticas, uma predisposição de espírito a identificar pura e simplesmente a Igreja Católica, a que todos querem pertencer, e a hierarquia oficial e visível que a ocupa e a dirige depois de décadas, de que nós não fazemos (ainda) parte. Situação portanto “anormal”, que convém regularizar de uma maneira ou de outra.
Citemos algumas frases significativas de Dom Fellay: “O fato de ir a Roma não quer dizer que se esteja de acordo com eles. Mas é a Igreja. E é a verdadeira Igreja” (Sermão em Flavigny, em 2-9-2012, Nouvelles de Chrétiente, n° 137, p. 20.)
“A Igreja do Cristo está presente e move-se como tal, quer dizer, como única arca de salvação, somente lá onde está o vigário de Cristo” (Carta aos amigos e benfeitores de 13-04-2014).
“A Igreja oficial é a Igreja visível; é a Igreja Católica, e ponto final” (Sermão no Seminário de la Reja, 20-12-2014).
Compare-se com o que Dom Lefebvre disse a nossos padres reunidos em Écône, em 9 de setembro de 1988: “Nestes últimos tempos, disseram-nos que era necessário que a Tradição entrasse na Igreja visível. Eu penso que se comete nisso um erro gravíssimo, […] isso é enganar-se assimilando Igreja oficial e Igreja visível. Nós pertencemos à Igreja visível, à sociedade de fiéis submissos ao Papa, pois não recusamos a autoridade do papa, mas o que ele faz... Saímos, então, da Igreja oficial? De certa maneira sim, evidentemente. Todo o livro de M. Madiran A Heresia do Século XX é a história da heresia dos bispos, deve-se então sair do meio destes bispos, se não se quer perder sua alma” (Fideliter n° 66, nov.-dez.1988, pp. 27-28).
Concluímos: com são Pio X, guardemos sempre no espírito que os neomodernistas formam uma seita que não quer jamais deixar a Igreja Católica, que a subverte do interior, e que são seus piores inimigos, verdadeiros lobos revestidos de pele de ovelha.
Com Monsenhor Lefebvre, não nos juntemos aos “católicos que confundem a Igreja Católica e romana eterna com a Roma humana e suscetível de ser invadida pelos inimigos cobertos de púrpura” (Carta ao Figaro, de 02-08-1976).”
(Dominicanos de Avrillé, Revista “Le Sel de la Terre”, edição de inverno de 2015)

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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Entrevista de Dom Faure no primeiro aniversário da SAJM (22 de agosto de 2017)


“Sua Excelência, o que é a SAJM e qual é seu espírito?
A SAJM que ser a continuação da obra e o combate de Dom Lefebvre em sua fidelidade à fé de sempre. Nesta profunda crise da Igreja, a SAJM está particularmente destinada a proteger a vida sacerdotal e manter o fervor dos futuros sacerdotes.
Por que escolheu este nome?
Em 17 de junho de 1970, Dom Lefebvre firmou o projeto dos estatutos da “Fraternidade dos Apóstolos de Jesus e Maria”. Daí vem o nome. Essa é a denominação interna da congregação fundada por ele. Conservando esse nome, quisemos honrar a memória de Dom Lefebvre.
Dom Faure, quando e em que circunstâncias se fundou a nova congregação?
Faz um ano exatamente, na festa do Coração Imaculado de Maria, depois de vários sacerdotes e seminaristas terem manifestado a necessidade de ter um superior, uma regra etc.; que é o que tivemos sempre na fraternidade fundada por Dom Lefebvre.
Que semelhanças e diferenças há entre a SAJM e a FSSPX?
O espírito dos estatutos são praticamente iguais, mas no que diz respeito às diferenças, devemos ter em consideração a evolução catastrófica da FSSPX e esta observação de Dom Lefebvre, depois de ter lido a obra de Emmanuel Barbier Histoire du catholicisme liberál et du catholicisme social na França: “Se eu tivesse lido esta obra antes, teria dado a meus seminários outra orientação”. Com isto se referia à necessidade de uma orientação mais antiliberal.
Os estatutos da SAJM são os mesmos que Dom Lefebvre redigiu para a FSSPX?
Os estatutos da SAJM são essencialmente iguais aos que Dom Lefebvre redigiu para a Fraternidade, com algumas adequações que consideramos necessárias, observando o desvio da FSSPX. Um exemplo está no seguinte ponto que acrescentamos: “Desde o Concílio Vaticano II, o santo Sacrifício da Missa, a doutrina católica e toda a vida da Igreja são atacados pela hierarquia liberal e modernista. Porque o sacerdócio católico tem o dever essencial de combater o liberalismo e o modernismo em defesa dos direitos divinos violados, a Sociedade descarta toda possibilidade de regularização canônica por via de acordo bilateral, de reconhecimento unilateral, ou do modo que seja, enquanto a hierarquia católica não volte à Tradição da Igreja” (Cap. II,nº 5).
Excelência, como foi o desenvolvimento do seminário da SAJM?
Decidi a criação do Seminário São Luís Maria Grignion de Montfort tão logo fui consagrado, recordando aquelas palavras de Dom Lefebvre em seu “Itinerário espiritual”: “Uma coisa somente é necessária para a continuação da Igreja católica: bispos plenamente católicos, sem nenhum compromisso com o erro, que estabeleçam seminários católicos, onde os jovens aspirantes se alimentem do leite da verdadeira doutrina, de seus corações; uma fé viva, uma caridade profunda, uma devoção sem limites os unirão a Nosso Senhor”.
Todas as obras de Deus conhecem algumas dificuldades nos princípios, contudo, contamos com uns seis novos seminaristas a cada não, o que, nas circunstâncias atuais, parece ser uma benção de Deus.
Constituem o corpo professoral os padres dominicanos de Avrillé (França), e isto é garantia de uma perfeita ortodoxia e de uma formação claramente antiliberal.
Os seminaristas, ao passar a maior parte do dia no convento dos dominicanos, são formados no clima de santa austeridade que é própria dos religiosos. Lá assistem aos distintos cursos e pela tarde retornam ao seminário, que é muito próximo ao convento.
A partir deste ano, contaremos, ademais, com dois sacerdotes da congregação que nos ajudarão no seminário.
Quem integra atualmente a congregação?
Por ora, contamos com dois bispos, três sacerdotes e cinco seminaristas.
A cada ano, no segundo ano de seminário, quando recebem a tonsura, os seminaristas se incardinam na congregação.
Dom Faure, como um sacerdote pode se tornar membro da SAJM?
Basta que manifeste seu desejo, entrando em contato comigo e elevando a correspondente solicitude.
Como um jovem pode ingressar no seminário da SAJM?
Do mesmo modo. Normalmente os candidatos devem entrar em contato prévio com os sacerdotes da Resistência que desenvolvem seu apostolado nos países onde os postulantes vivem.
Haverá uma Ordem Terceira na SAJM?
Haverá, tal como foi criada para a Fraternidade por Dom Lefebvre.
O que espera Sua Excelência da SAJM no futuro?
Que assegure a continuação da obra de Dom Lefebvre com a maior fidelidade aos lineamentos que nos legou o Arcebispo, sem desviar-se à direita ou à esquerda (Pr. 4,27).
Há algo mais que Sua Excelência queira nos dizer sobre a SAJM?
Gostaria de destacar que nossa congregação não por acaso foi fundada no dia da festa do Coração Imaculado de Maria, e que foi consagrada também ao Sagrado Coração de Jesus. Levamos em nosso nome os Nomes de Jesus e Maria, e isto funda e marca nossa espiritualidade.
A FSSPX teve a mesma vocação, representada, em seu logotipo, pelos corações entrelaçados da Vendeia, mas a Fraternidade está traindo essa vocação ao buscar uma reconciliação com os inimigos de Jesus e Maria.
Nossa esperança está somente n’Eles. Deus queira que nossa pequena congregação se mantenha sempre fiel e sempre humilde, sem presunções de grandeza, a fim de que todo o que ela faça seja para a glória de Jesus e Maria.”

http://beneditinos.org.br

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A inteligência corrompida pela tecnologia

“Comprova-se entre os homens de nosso século um nervosismo doentio, provocado por uma atividade dos sentidos desproporcional às forças físicas que Deus nos deu. O rádio, o cinema e, em geral, as invenções modernas são em grande medida a causa disso.
Mas elas seriam um mal menor se se soubesse usá-las com moderação. Ora, não vemos, pelo contrário, a precipitação e a avidez com a qual se perseguem estas sensações e estas impressões violentas? As conseqüências se fazem sentir muito claramente na inteligência, que depende em sua atividade de nosso sistema nervoso.
É assim que as crianças e os jovens mostram uma grande dificuldade para manter uma atenção contínua em classe, que as pessoas maduras mostram repugnância a um trabalho intelectual contínuo, a um esforço de atenção prolongado.
Que será então quando se trate de questões religiosas, nas quais os sentidos têm mais que uma parte reduzida, onde será necessário, desde as coisas sensíveis, elevar-se até as realidades espirituais?”
(Arcebispo Marcel Lefebvre, Carta Pastoral nº 1, A Ignorância Religiosa)

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Monsenhor Lefebvre: A hierarquia romana é uma máfia ligada à maçonaria

“Penso que quanto mais se avança, é mais abominável. Sempre rezei muito para que Nosso Senhor nos mostrasse o retorno de Roma à Tradição ou, pelo contrário, que se agravasse o distanciamento de Roma da Tradição a fim de que isso se tornasse claro.
Assim, atualmente é cada vez mais evidente – e isso há muito mais que um ano ou dois – que a Hierarquia se afasta de maneira ostensiva da Igreja.
Penso que podemos falar de descristianização e que estas pessoas que ocupam Roma hoje são anticristos. Disse anticristos, como descreve São João em sua primeira Carta: “O Anticristo já faz estragos em nosso tempo”. O Anticristo, os anticristos, eles o são, é absolutamente certo.
Eu disse ao Cardeal Ratzinger: “Nós estamos em tudo por Cristo e eles estão contra Cristo. Como querem que possamos nos entender?”
Quando recordava este tema com um Cardeal de Roma – buscando um pouco qual seria o leitmotiv que tem toda essa gente – ele me disse: “Monsenhor, é isto...”, fazendo o gesto tão conhecido para designar o dinheiro. Podemos então imaginar tudo que pode acontecer. Tive a ocasião de dizê-lo a alguns que ainda têm dúvidas sobre Roma. Estou intimamente persuadido de que nós não sabemos a metade do que acontece em Roma: e se já estamos escandalizados pela metade que conhecemos, é necessário pensar na outra metade. Se conhecêssemos tudo, ficaríamos espantados. Verdadeiramente tratamos com uma incrível máfia, ligada certamente à maçonaria.
Neste momento eles estão em ruptura com seus predecessores. Não aceitam mais as Encíclicas desde Mirari Vos até Humani Generis do Papa Pio XII. Não querem levar em consideração estas Encíclicas. Não as querem ter em conta. Eles já não estão dentro da Igreja.”
(Trechos da conferência no retiro sacerdotal em Êcone, em 14 de setembro de 1987)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A crise atual

“I) TRAIÇÃO DOUTRINÁRIA
CONSIDERANDO
1) a) Que Dom Lefebvre disse que o maior perigo para os tradicionalistas era o de colocar-se nas mãos da Roma modernista e b) que Dom Fellay, ainda recentenmente, disse que os que querem o bem da Igreja querem que a Fraternidade São Pio X seja reconhecida oficialmente pela Roma modernista (o que é o mesmo que colocar-se nas suas mãos);
2) a) Que Dom Lefebvre disse que o que Roma está nos preparando é uma armadilha ao ofertar-nos todas as vantagens que poderíamos desejar para a regularização de nossa situação e b) que Dom Fellay disse que pensar assim atualmente é falta de realismo e de espírito sobrenatural;
3) a) Que Dom Lefebvre disse que Bento XVI (na época ainda Cardeal) procurava descristianizar o mundo e b) que Dom Fellay disse que Bento XVI leva muito a sério a situação e a vida da Igreja;
4) a) Que Dom Lefebvre disse que não podia entender-se com Bento XVI (na época ainda Cardeal) e b) que Dom Fellay está entendendo-se bastante bem com Bento XVI;
5) a) Que Dom Lefebvre disse que não devíamos colocar-nos sob a autoridade daqueles que não professam a integridade da Fé e b) que Dom Fellay disse que não querer colocarmo-nos sob a autoridade de Bento XVI (que não professa a integridade da Fé) é ter espírito cismático e sedevacantista;
6) a) Que Dom Lefebvre disse que há uma conjuração da maçonaria contra a Santa Igreja, a qual foi infiltrada por essa seita até nos mais altos graus da hierarquia e em Roma mesmo e b) que Dom Fellay não acredita ou não leva bastante a sério essas conjurações, dizendo que isso é ter uma visão da Igreja humana demais e, também, fatalista; enxergando apenas os perigos, os complôs e as dificuldades;
7) a) Que Dom Lefebvre fez um manifesto público de repúdio à reunião ecumênica de Assis, como um grave pecado do Papa contra o primeiro Mandamento de Deus e b) que Dom Fellay não fez o mesmo quando o atual Papa repetiu esse pecado em “Assis III”;
8) a) Que Dom Lefebvre disse que a liberdade religiosa patrocinada pelo Vaticano II é o auge da impiedade, o equivalente ao princípio do laicismo do Estado, significando o ateísmo do Estado e não levando em conta a diferença entre a verdade e o erro e b) que Dom Fellay disse que o Vaticano II apresenta uma liberdade religiosa que é muito limitada;
9) a) Que Dom Lefebvre disse que os documentos do Vaticano II constituem uma perversão total do espírito e que esse Concílio foi o maior desastre de todos os séculos, desde a fundação da Igreja e b) que Dom Fellay disse que na Fraternidade se estavam exagerando as heresias do Vaticano II;
10) a) Que Dom Lefebvre, em vista de sua experiência com os contatos com os membros do Vaticano, tomou a partir de 1988 uma posição mais intransigente no que se refere a um possível reconhecimento canônico da Fraternidade e b) que Dom Fellay ao citar Dom Lefebvre vem calando essa sua última posição, dando a entender que o pensamento de Dom Lefebvre sempre foi o de seus pronunciamentos anteriores a 1988.
JULGAMOS
Que o modo de falar e de agir de Dom Fellay constitui uma traição para com o legado doutrinal de Dom Lefebvre no que se refere à atitude a tomar diante da crise atual na Santa Igreja, e uma recusa de reconhecer, aceitar e assimilar a experiência de Dom Lefebvre em seus contatos com Roma.
NO ENTANTO
Alguns dirão que Dom Fellay se retratou dizendo que se havia enganado.
NÓS RESPONDEMOS
Dom Fellay não deixou muito claro em que ele se enganou e sua atitude para com os que não se enganaram nem o enganaram deixa-nos pensar que ele mantém, essencialmente, as mesmas posições que antes.
II) UM ESPÍRITO QUE NÃO É DEUS
CONSIDERANDO
1) Que se tem constatado que em mais de uma ocasião (como dissemos na resposta à objeção, no tópico acima) Dom Fellay tem falado e agido de maneira contraditória para alcançar seus intentos;
2) Que essa maneira de se portar com duplicidade faz perder o direito ao crédito que se deve a quem assim se porta.
JULGAMOS
1) Que o espírito que está animando a Dom Fellay não é o espírito de Deus, tanto quanto podemos e devemos julgar antes de pôr nossa confiança e nossa salvação (de certo modo) nas mãos de alguém;
2) Que ele está desmerecendo esta confiança que normalmente deveríamos ter para com ele, como sendo a maior autoridade dentro da Tradição.
III) O GOLPE DE MESTRE DE SATANÁS
CONSIDERANDO
a) Que Dom Lefebvre disse que o golpe de mestre de Satanás foi lançar todos os católicos na desobediência (à Igreja, à Tradição e, em definitivo, a Nosso Senhor) pela obediência (aos Papas conciliares) e b) que Dom Fellay está conduzindo todos os ligados à Fraternidade São Pio X à desobediência a Dom Lefebvre (e, em definitivo, à Santa Igreja, à Tradição e a Nosso Senhor) por obediência a si.
JULGAMOS
Que se lhe deve resistir e, ademais, denunciar publicamente seus desvios doutrinais, a fim de que as pessoas não continuem, enganadas, a seguirem o falso caminho pelo qual ele está conduzindo a Fraternidade: um espírito de simpatia para com o atual Papa; de diminuição da aversão ao Vaticano II; de desejo de unir-se à “Igreja Conciliar”, identificando-a com a Santa Igreja Católica; de diminuição do combate aos progressistas.
IV) REBELDIA NÃO, JUSTA RESISTÊNCIA SIM
CONSIDERANDO
1) Que os membros da Fraternidade que se opõem publicamente à nova orientação e às novas doutrinas de Dom Fellay estão sendo, por isso mesmo, expulsos da Fraternidade;
2) Que sendo essa a causa, a dita expulsão é injusta, pelo fato de ser justa a atitude desses membros;
3) Que sendo injusta, essa expulsão é inválida;
4) Que sendo inválida essa expulsão, eles continuam a ser, de direito, diante de Deus, verdadeiros membros da Fraternidade São Pio X.
JULGAMOS
Que esses membros da Fraternidade não devem ser considerados como rebeldes, mas antes, pelo contrário, como fiéis filhos de Dom Lefebvre, que diante dos Papas conciliares teve a mesma atitude que eles agora estão tendo para com Dom Fellay.
V) GRAVÍSSIMA SITUAÇÃO ATUAL DA SANTA IGREJA
CONSIDERANDO
1) Que ultimamente, nos colóquios doutrinais, viu-se a incompatibilidade da doutrina da Igreja com a doutrina dos atuais detentores da autoridade em Roma;
2) Que Bento XVI renovou em 2011 a reunião ecumênica de Assis;
3) Que Bento XVI beatificou João Paulo II;
4) Que Bento XVI em 2012 disse que toda renovação na Igreja deve ser baseada no aprofundamento dos documentos do Vaticano II;
5) Que Bento XVI assinou em 2012 o decreto das “virtudes heróicas” (?!) de Paulo VI;
6) Que o Principado de Liechtenstein no final de 2012 estava em vias de deixar de ser um Estado oficialmente católico sob pressão da doutrina do Concílio sobre a Liberdade Religiosa;
7) Que os dois sinais nos quais Dom Lefebvre reconheceu que deveria sagrar bispos mesmo sem a autorização do Papa foram a reunião ecumênica de Assis e a reafirmação, por parte de Roma, dos erros do Vaticano II acerca da liberdade religiosa.
JULGAMOS
Que a atual situação da Igreja é gravíssima, semelhante (ou pior) à em que se encontrava em 1988, diversamente do que afirma Dom Fellay.
VI) UM REMÉDIO DRÁSTICO PARA UM MAL DRÁSTICO
CONSIDERANDO
1) Que os que permanecem na Fraternidade estão na tremenda necessidade de escolher entre calarem-se ou serem dela expulsos por se oporem à atual direção nela impressa por Dom Fellay;
2) Que a obra de Dom Lefebvre não deve se extinguir por causa dessa nova direção;
3) Que Dom Williamson, sozinho, não tem condições de atender a todos os apelos dos padres e fiéis em todo o mundo, para lhes administrar os Sacramentos e transmitir-lhes a sã doutrina, conforme recebeu de Dom Lefebvre;
4) Que os mesmos motivos que levaram Dom Lefebvre a fazer as sagrações de 1988 existem hoje e, portanto, justificam atualmente novas sagrações episcopais na Tradição sem autorização do Papa.
JULGAMOS
Que é da máxima conveniência que Dom Williamson proceda no momento oportuno a essas sagrações, para o bem da Santa Igreja, esperando dias melhores, em que as coisas se normalizem.
Caberá a ele definir o momento mais conveniente de o fazer.”
(Arsenius, A Crise Atual)

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A rejeição do reinado social de Nosso Senhor pelo Concílio

“Por fim, um terceiro erro, eles [sacerdotes católicos modernos] rejeitam o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo sob o pretexto de que não é mais viável. Já ouvi isso da boca do Núncio de Berna; ouvi-o da boca do embaixador do Vaticano, Pe. Dhanis, ex-Reitor da Universidade Gregoriana, que veio em nome da Santa Sé me pedir que não realizasse as ordenações de 29 de junho. Era 27 de junho em Flavigny, e eu estava pregando para os seminaristas. Ele me disse, “Por que você é contra o Concílio?” Eu respondi, “É possível aceitar o Concílio, enquanto em nome do Concílio você diz que todos os estados católicos devem ser destruídos, que não deve restar nenhum estado católico, e assim não haver mais nenhum estado onde Nosso Senhor Jesus Cristo reine?” Um tal estado não é mais possível. Mas uma coisa é algo não ser mais possível e outra, aceitar isso como princípio, e conseqüentemente não mais buscar o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas o que dizemos todos os dias no Pai Nosso? “Venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu.” Que reino é esse? Há pouco você cantou no Glória, “Só Vós, Senhor, sois o Altíssimo, Jesus Cristo.” Então vamos cantar essas palavras e logo depois dizer, “Não, Jesus Cristo não deve mais reinar sobre nós.” Não estamos vivendo em contradição? Afinal, somos católicos ou não?
Não haverá paz na terra exceto no reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo. As nações estão em conflito – todos os dias páginas e mais páginas dos jornais tratam disso, como também o rádio e a televisão; e temos agora a mudança do primeiro ministro. Que vamos fazer para melhorar a economia? Que vamos fazer para salvar a moeda? Que vamos fazer para que a indústria prospere, etc. Todos os jornais do mundo estão cheios dessas questões. Mesmo de um ponto de vista econômico, Nosso Senhor Jesus Cristo deve reinar, porque o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo é o reinado dos princípios do amor e dos mandamentos de Deus, que estabelecem o equilíbrio na sociedade, e que fazem reinar a justiça e a paz. É somente com ordem, justiça e paz na sociedade que a economia pode prosperar...
É o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo que nós queremos; e professamos nossa fé, dizendo que Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus.
E é por isso que nós queremos também a Missa de São Pio V, porque a Missa é a proclamação da realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Nova Missa é uma espécie de Missa híbrida, que não é mais hierárquica; é democrática, onde a assembléia toma o lugar do sacerdote, e assim não é mais uma Missa verdadeira que afirma a realeza de Nosso Senhor. Pois como Nosso Senhor se tornou Rei? Ele afirmou sua realeza na cruz. Regnavit a ligno Deus. Jesus Cristo reinou do alto da cruz. Porque Ele subjugou o pecado, Ele subjugou o demônio, e Ele subjugou a morte pela cruz: três vitórias magníficas de Nosso Senhor. Dirão que isso é triunfalismo. Se é então que seja, nós de fato queremos o triunfalismo de Nosso Senhor Jesus Cristo...
Na hora da minha morte, quando Nosso Senhor me perguntar, Que fizeste das graças de teu sacerdócio, não quero ouvir da boca do Senhor, Tu contribuíste na destruição da Igreja com os demais.”
(Arcebispo Marcel Lefebvre, Sermão em Lille, 29.8.1976, reproduzido em A Bishop Speaks: Writings and Addresses 1973-1976)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Nova Missa e a Missa de Lutero (II)


“Nos domingos se celebra a Missa. Mas Lutero conserva a palavra Missa com certa repugnância. As vestes sagradas, as velas são ainda mantidas provisoriamente. Começa-se com o Intróito em alemão, depois o Kyrie, depois uma Oração cantada pelo celebrante, ainda voltado para o altar, não para o povo. Mas para a Epístola e para o Evangelho, cantados em alemão, se voltará para o povo, quando então todos cantam o Credo em língua vulgar (pág. 316).
O celebrante dirá uma paráfrase do Pater, uma exortação à Comunhão, depois vem a Consagração, que será cantada, em alemão, assim: “Na noite em que foi traído, Nosso Senhor Jesus Cristo tomou o pão, rendeu graças e o partiu e apresentou a seus discípulos e disse: Tomai e comei, isto é o meu Corpo que é dado por vós”. – HOC EST CORPUS MEUM QUOD PRO VOBIS TRADETUR; estas são as palavras exatas –. “Fazei isto todas as vezes que o fizerdes, em memória de mim. Do mesmo modo, Ele tomou também o cálice, após a Ceia e disse: Tomai e bebei dele todos, este é o cálice, um novo Testamento em meu Sangue, que é derramado por vós, para a remissão dos pecados”. Não disse PRO VOBIS ET PRO MULTIS, fez desaparecer as palavras PRO MULTIS e também MYSTERIUM FIDEI (pág. 317).
Mysterium fidei e pro multis desapareceram… “Que é derramado por vós, para a remissão dos pecados, fazei isso todas as vezes que beberdes esse cálice em memória de mim”. Essas palavras que Lutero dizia ser a consagração, portanto as palavras essenciais, correspondem exatamente às palavras do documento da Congregação do Culto. A única expressão a mais é pro multis, que restou no documento do Vaticano. Mas todas as palavras, assim como as que são ditas antes: “Na noite em que foi traído, Nosso Senhor tomou o pão”, essas palavras não são da forma; nunca a Igreja disse que as palavras que precedem a Consagração fazem parte da forma do Sacramento.
Depois da elevação, que Lutero conservou até 1542, vinha a Comunhão na mão. Uma última oração – a coleta – terminava a Missa como a Postcomunio dos católicos (págs. 317-318).
Evidentemente Lutero não aceitou o celibato e lutou contra os votos dos religiosos. Ele queria o fim desses costumes da Igreja. Mas, coisa bastante curiosa, ele sempre teve certo medo das reformas que ele tinha feito. Seus discípulos iam à vanguarda, mais depressa do que ele; ele sempre estava um pouco ansioso. Dizia a seus discípulos: “Eu condeno a nova prática de dar a Eucaristia de mão em mão, bem como o uso irrefletido da Comunhão sob as duas espécies”. Isso nos primeiros tempos, depois ele aceitou; mas logo de começo lhe parecia que essa Comunhão na mão não era boa coisa.
Depois de ter dito que a Confissão não era necessária, mesmo para aqueles que tinham pecados graves, hesitou e disse: “A Confissão é boa, mas se o Papa me pedir para me confessar, eu me recusarei a fazê-lo, eu não me quero confessar. Nem por isso eu aceito que alguém me proíba essa confissão secreta. Eu não a cederei nem por todos os tesouros da terra, porque eu sei o que ela já me proporcionou de força e de consolação…”
Lutero estava roído de remorsos, no entanto vivia devorado pela necessidade de fazer novidades, de mudar tudo, de ir contra o Papa, contra a Igreja Romana, contra o dogma. Por isso ele continuou sua reforma.
A reforma litúrgica atual se inspira na reforma de Lutero
É evidente que a reforma litúrgica atual se inspira na reforma de Lutero. Eu disse isso, em Roma, a muitos Cardeais: “Vossa nova Missa é a Missa de Lutero!” A isso me foi respondido: “Mas então ela é herética!” E eu respondi: “Não, ela não é herética, mas é ambígua, equívoca, pois um pode celebrá-la com a fé católica integral do Sacrifício, da Presença Real, da Transubstanciação e outro pode celebrá-la sem ter essa intenção e, nesse caso, a Missa não será mais válida. As palavras que ele pronuncia e os gestos que ele faz não o contradizem. Ela é equívoca, sim, equívoca. E certamente Lutero, durante muitos anos, a celebrou validamente, quando ele ainda não estava contra o Sacrifício, quando ele era ainda mais ou menos católico. Porém, mais tarde, quando ele recusou o Sacrifício, o Sacerdócio, a Presença Real, então sua Missa passou a não ter mais validade”.
Mas como uma Missa pode ser assim equívoca? É impossível fazer isso com o antigo rito, porque ele é claro, ele é claro. O Ofertório todo diz com clareza o que nós realizamos. O Ofertório é uma verdadeira definição do Sacrifício da Missa. Por isso é que Lutero era contra o Ofertório, porque ele era por demais claro, e foi por isso que ele fez aquelas mudanças no Cânon para não deixar perceber se é uma narração ou uma ação; mas nós, nós sabemos que a Consagração é uma ação sacrifical.
Eles sabem que em nossos antigos Missais, antes do Communicantes, está escrito infra actionem, pois não se trata de uma narração, nem de um memorial, uma simples recordação. É uma ação. Uma ação sacrifical.
Todas essas mudanças no novo rito são realmente perigosas
Todas essas mudanças no novo rito são realmente perigosas, porque, pouco a pouco, sobretudo para os padres novos, que não têm mais a idéia do Sacrifício, da Presença Real, da Transubstanciação, para os quais tudo isso não significa mais nada, esses padres novos perdem a intenção de fazer o que a Igreja faz, e não celebram mais missas válidas; não há mais a Presença Real.
Certamente os padres idosos, quando celebram conforme o novo rito, conservam ainda a fé de sempre. Celebraram a Missa no antigo rito, durante tantos anos, que conservam as mesmas intenções; então se pode crer que a Missa deles é válida. Mas na medida em que essas intenções se vão, desaparecem, nessa mesma medida as Missas deixarão de ser válidas.
Eles quiseram se aproximar dos protestantes, mas foram os católicos que se tornaram protestantes e não os protestantes que se tornaram católicos. Isso é evidente, ninguém pode dizer o contrário.
Quando cinco Cardeais e quinze Bispos compareceram ao “Concílio dos Jovens”, em Taizé, como esses jovens poderiam saber o que é catolicismo e o que é protestantismo? Alguns receberam a Comunhão das mãos dos protestantes, outros dos católicos.
Quando o Cardeal Willebrands esteve em Genebra, no Conselho Ecumênico das Igrejas, declarou: “Temos que reabilitar Lutero”. Ele o disse, como enviado da Santa Sé.
Vede a Confissão. Em que se transformou a Confissão, o Sacramento da Penitência, com essa absolvição coletiva? É acaso pastoral esse modo de dizer aos fiéis: “Nós demos a absolvição coletiva, os senhores podem comungar; quando tiverem oportunidade, se tiverem pecados graves, confessem-se no prazo de seis meses a um ano…” Quem pode dizer que esse modo de proceder é pastoral? Que idéia se poderá fazer do pecado grave?
E a Confirmação
O Sacramento da Confirmação também está numa situação idêntica. Realmente eu penso que as palavras do livro dos Sacramentos da Comissão do Arcebispo de Paris, que constituem a forma, tornam o Sacramento inválido. Por quê? Porque não há mais a significação do Sacramento na forma. O Bispo, quando confere o Sacramento da Confirmação, diz: “Signo te, signo Crucis et confirmo te Chrismate salutis, in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti” e “Confirmo te Chrismate salutis”. A Confirmação: “confirmo te.”
Agora estão dizendo: “Eu te assinalo com a Cruz e recebe o Espírito Santo”. É obrigatório esclarecer qual a graça especial do Sacramento, no qual se confere o Espírito Santo. Se não se diz esta palavra: “Ego te confirmo in nomine Patris…” Não há o Sacramento! Eu o disse também aos Cardeais, porque eles me declararam: “O senhor confere a Confirmação sem ter o direito de o fazer”. – “Eu o faço, porque os fiéis têm medo que seus filhos fiquem sem a graça da Confirmação, porque eles têm dúvida a respeito da validade do Sacramento, que é conferido atualmente nas igrejas. Não se sabe mais se é verdadeiramente um Sacramento ou não. Então, ao menos para ter essa certeza de ter realmente a graça, me pedem para crismar, e eu o faço porque me parece que eu não posso recusar aos que me pedem a Confirmação válida, pois ao menos eles recebem a graça, mesmo que não seja lícito, porque nós estamos num tempo em que o direito divino natural e sobrenatural passa à frente do direito positivo eclesiástico, já que este se lhe opõe, em vez de lhe servir de canal”.
Estamos em uma crise extraordinária
Nós não podemos seguir essas reformas. Onde estão os frutos dessas reformas? Eu, de fato, me pergunto! Reforma litúrgica, reforma dos seminários, reforma das congregações religiosas, todos esses capítulos gerais! Onde eles estão colocando essas pobres congregações atualmente? Tudo se acabando…! Não há mais noviços, não há mais vocações…!
Eles próprios reconhecem que não há mais vocações. O Cardeal Arcebispo de Cincinatti o reconheceu também no Sínodo dos Bispos, em Roma: “Em nossos países (ele representava todos os países de língua inglesa), não há mais vocações, porque não sabem mais o que é o padre”.
Nós devemos nos conservar na Tradição. Só a Tradição nos concede realmente a graça, nos proporciona realmente a continuidade na Igreja. Se abandonarmos a Tradição, passaremos a contribuir para a demolição da Igreja.
O liberalismo penetrou na Igreja através do concílio
Também isso eu disse àqueles Cardeais! “Não vedes que o Esquema da Liberdade Religiosa do Concílio é um esquema contraditório? Na primeira parte do Esquema está dito: ‘Nada muda na Tradição’, e, dentro do Esquema, está tudo ao contrário da Tradição. O contrário do que disseram Gregório XVI, Pio IX e Leão XIII”.
Portanto é preciso escolher! Ou estamos de acordo com a liberdade religiosa do Concílio e então somos contrários ao que esses Papas disseram, ou então nos conservamos de acordo com esses Papas e nos recusamos a concordar com o que está contido no Esquema sobre a Liberdade Religiosa. É impossível estar de acordo com os dois. E acrescentei: eu me atenho à tradição, eu sou pela tradição, e não por essas novidades que constituem o liberalismo. Não é absolutamente outra coisa senão o liberalismo, que foi condenado por todos os pontífices, durante século e meio.
Esse liberalismo penetrou na igreja através do concílio: a liberdade, a igualdade, a fraternidade.
A liberdade: a liberdade religiosa.
A fraternidade: o ecumenismo.
A igualdade: a colegialidade.
E estes são os três princípios do liberalismo, originado dos filósofos do século XVIII, e que levou a efeito a revolução francesa.
Foram essas idéias que entraram no concílio, por meio de palavras equívocas.
E agora vamos à ruína, a ruína da Igreja, porque essas idéias são absolutamente contra a natureza e contra a fé. Não existe igualdade entre nós. Não existe verdadeira igualdade. O papa Leão XIII disse isso bastante claro, em sua encíclica sobre a liberdade.
A fraternidade também! Se não houver um pai, como acharemos fraternidade? Se não há pai, se não há deus, como podemos ser irmãos? Como se pode ser irmão, se não houver um pai comum? Impossível! Devemos então abraçar todos os inimigos da igreja, os comunistas, os budistas e todos os outros que são contra a igreja, os Maçons?
Esse decreto de uma semana atrás, que diz que agora não há mais excomunhão para um católico que entre na maçonaria. Mas onde está a igreja? Isso é impossível! Os Mações são os inimigos tradicionais da igreja, são aqueles que querem destruir os países católicos! Quem destruiu Portugal? Quem estava no Chile? E agora no Vietnam do sul! Porque esses países são católicos! E que será da Espanha dentro de um ano, da Itália etc…? Por que a Igreja abre os braços a toda essa gente que são seus inimigos?
Temos que rezar
Na verdade temos que rezar, rezar; é um assalto do demônio contra a Igreja, como jamais se viu igual. Devemos rezar a Nossa Senhora, a Bem-Aventurada Virgem Maria, para que Ela venha em nosso socorro, porque realmente nós não sabemos o que será de amanhã. E realmente parece que toda essa ruína trará conseqüências terríveis ao mundo. É impossível que Deus aceite todas essas blasfêmias, sacrilégios que são praticados contra Sua Glória, Sua Majestade!
Ele tem muita paciência, mas virá o dia (quando virá, eu não sei), virá o dia do castigo, porque todas essa legalizações, leis sobre o aborto, que vemos em tantos países, o divórcio na Itália, toda essa ruína da lei moral, ruína da verdade, realmente é difícil acreditar que tudo isso se possa fazer, sem que Deus fale um dia!
Então temos que pedir a Deus misericórdia por nós e por nossos irmãos. Mas também temos que lutar, combater. Combater para conservar a Tradição e não ter medo. Conservar, acima de tudo, o rito de nossa Santa Missa, porque Ela é o fundamento da Igreja e da civilização cristã. Quando não houver mais uma verdadeira Missa na Igreja, a Igreja acabará.
Temos que conservar esse rito, esse Sacrifício
Portanto temos que conservar esse rito, esse Sacrifício. Todas as nossas igrejas foram construídas para esta Missa, não para uma outra Missa; para o Sacrifício da Missa, não para uma Ceia, para uma Refeição, para um Memorial, para uma Comunhão, não! Para o Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, que continua sobre nossos altares! Foi por isso que nossos pais construíram essas belas igrejas, não para uma Ceia, não para um Memorial, não!
Conto com vossas orações por meus seminaristas, para fazer de meus seminaristas verdadeiros padres, que tenham fé e que possam, assim, ministrar sacramentos verdadeiros e o verdadeiro Sacrifício da Missa. Obrigado.”
(Arcebispo Marcel Lefebvre, La Messe de Luther)

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A Nova Missa e a Missa de Lutero (I)


“Esta noite, falarei da Missa de Lutero e da Missa do novo rito. Por que essa comparação entre a Nova Missa e a Missa de Lutero? Porque a história o diz; a história objetiva não é criação minha. (Sua Excia. mostra então um livro sobre Lutero, publicado em 1911, “Do Luteranismo ao Protestantismo” de Léon Cristiani). Ele fala sobre a reforma litúrgica de Lutero. Trata-se de um livro escrito em um tempo, em que o autor nem conhecia nossa crise, nem o novo rito; portanto não foi escrito com segundas intenções.
Síntese dos princípios fundamentais da Missa
Primeiramente desejo fazer uma síntese dos princípios fundamentais da Missa, para trazer à nossa memória a beleza, a profunda grandeza espiritual de nossa Missa, o lugar que nossa Missa ocupa na Santa Igreja. Que coisa mais bela Nosso Senhor legou à humanidade, que coisa mais preciosa, mais santa concedeu à Sua Santa Igreja, à Igreja sua Esposa, no Calvário, quando morria na Cruz? Foi o Sacrifício de si mesmo.
O Sacrifício de si mesmo. Sua própria Pessoa, que continua seu Sacrifício. Ele o deu à Igreja, quando morreu na Cruz. A partir desse momento, esse Sacrifício estava destinado a continuar, a perseverar através dos séculos, como Ele o havia instituído, juntamente com o Sacerdócio.
Quando na Santa Ceia, Jesus instituiu o Sacerdócio, Ele o instituiu para o Sacrifício, o Sacrifício da Cruz, porque esse Sacrifício é a fonte de todos os méritos, de todas as graças, de todos os Sacramentos; a fonte de toda a riqueza da Igreja. Isso devemos recordar, ter sempre presente essa realidade, divina realidade.
Portanto, é o Sacrifício da Cruz que se renova sobre nossos altares, e o Sacerdócio está em relação com ele, em relação essencial com esse Sacrifício. Não se compreende o Sacerdócio sem o Sacrifício, porque o Sacerdócio foi feito para o Sacrifício. Poder-se-ia dizer também: é a Encarnação de Jesus Cristo, séculos afora: “usque ad finem temporum”, o Sacrifício da Missa será oferecido.
Se Jesus Cristo quis esse Sacrifício, quis também ser nele a vítima, uma vez que é o Sacrifício da Cruz que continua, Ele quis que a vítima fosse sempre a mesma, quis ser Ele próprio a vítima. Para ser a vítima, Ele tem que estar presente, verdadeiramente presente nos nossos altares. Se Ele não estiver presente, se não houver a Presença Real nos nossos altares, não haverá vítima, não haverá Sacerdócio. Tudo está ligado: Sacerdócio, Sacrifício, Vítima, Presença Real, portanto transubstanciação.
Aí está “o coração” do tesouro – o maior, o mais rico – que Nosso Senhor concedeu à Sua Esposa, a Igreja e a toda a humanidade. Assim podemos compreender que, quando Lutero quis transformar, mudar esses princípios, começou por combater o Sacerdócio; como o fazem os modernistas. Pois Lutero bem sabia que se o Sacerdócio desaparecesse, não mais haveria Sacrifício, não mais haveria Vítima, não haveria mais nada na Igreja, não mais haveria a fonte das graças.
Como procedeu Lutero para dizer que não haveria mais Sacerdócio?
Como procedeu Lutero para dizer que não haveria mais Sacerdócio? Dizendo: “Não existe diferença entre padres e leigos. O Sacerdócio é universal”. Tais eram as idéias que ele propagava. Ele dizia que há três muros de defesa cercando a Igreja. O primeiro muro é essa diferença entre padres e leigos. (Sua Excia. então lê): “A descoberta de que o Papa, os bispos, os padres, os religiosos compõem o Estado Eclesiástico, ao passo que os príncipes, os senhores, os artesãos, os camponeses formam o estado secular, é pura invenção, uma mentira”. Essa diferença entre padres e leigos é então uma invenção, uma mentira. Eis o que diz Lutero: “Na realidade, todos os cristãos pertencem ao estado eclesiástico”. Não há diferença, a não ser a diferença de funções, de serviço. Todos têm o Sacerdócio a partir do Batismo; têm-no em razão do caráter batismal, todos os cristãos são padres e os padres não têm um caráter especial, não há um sacramento especial para os padres, mas seu caráter sacerdotal lhes vem do caráter do Batismo. Assim também se explica esta laicização dos padres; eles não querem mais ter uma veste particular, não querem mais se distinguir dos fiéis, porque todos são padres; e são os fiéis que devem escolher os padres, eleger os seus padres.
Tais foram os princípios de Lutero, que prossegue: “Se um Papa ou um Bispo confere a unção, faz tonsuras, ordena, consagra ou dá uma veste diferente aos leigos ou aos padres, está criando enganadores”. Todos são consagrados padres, a partir do Batismo. Os progressistas do nosso tempo não descobriram novidades.
Há um novo livro sobre os Sacramentos, aparecido em janeiro deste ano em Paris, sob a autoridade do Arcebispo, o Cardeal Marty. Saiu há pouco. Seus autores descobriram oito sacramentos, não mais sete, porque o oitavo sacramento é a profissão religiosa. Eles dizem claramente, nesse livro, que todos os fiéis são padres e que o caráter sacerdotal vem do caráter do Batismo. Os autores, por certo, devem ter lido Lutero, transformado para eles em Padre da Igreja.
Lutero não acreditou mais na Transubstanciação, nem no Sacrifício
Lutero deu também outro passo à frente, após a supressão do Sacerdócio. Ele não acreditou mais na Transubstanciação, nem no Sacrifício. E disse claramente que a Missa não é um Sacrifício. A Missa é uma Comunhão. Podemos então chamar a Missa de Comunhão, Ceia, Eucaristia, tudo, menos Sacrifício. Não há, portanto, Vítima, nem Presença Real, mas apenas uma presença espiritual, uma recordação ou comunhão. Foi por isso que Lutero sempre combateu as Missas privadas; foi uma das primeiras coisas feitas por ele, porque uma Missa privada não é uma Comunhão. É preciso que os fiéis comunguem. A Missa privada, então, não está conforme a verdade, é preciso suprimir todas as Missas privadas.
Ele chamava a Eucaristia de “Sacramento do Pão”. A Eucaristia (dizia ele) tornou-se uma lamentável maldade. Essa “maldade” da Missa provém de terem feito dela um Sacrifício. Somos forçados a constatar que não se fala mais de Sacrifício da Missa nos boletins diocesanos ou paroquiais, mas de Eucaristia, de Comunhão, de Ceia. Que singular semelhança com as teses de Lutero!
Lutero faz ainda uma distinção entre os fins do Sacrifício da Missa
Além disso, Lutero faz ainda uma distinção entre os fins do Sacrifício da Missa. Ele diz que um dos fins do Sacrifício da Missa é render graças a Deus. A Eucaristia é um sacrificium laudis, mas não um sacrificium expiationis, não um Sacrifício de expiação, mas de louvor, de eucaristia. Por isso é que se certos protestantes ainda falam de Sacrifício, nunca o é no sentido de sacrifício expiatório, que remite os pecados. No entanto se trata de um dos principais fins do Sacrifício da Missa, a remissão dos pecados.
Por isso é que os protestantes modernos aceitam o novo rito da Missa, porque, dizem eles (isso saiu publicado em uma revista da Diocese de Estrasburgo, noticiando uma reunião de protestantes da Confissão de Augsburgo), agora, com o novo rito, é possível rezar com os católicos. (L’Eglise en Alsace de 8-12-1973 e 1-1-1974). “De fato, com as atuais formas de celebração eucarística da Igreja Católica, e com as presentes convergências teológicas, muitos obstáculos que podiam impedir que um protestante participasse da celebração eucarística estão desaparecendo e agora vai se tornando possível reconhecer, na celebração eucarística católica, a Ceia instituída pelo Senhor. Temos à disposição novas orações eucarísticas, que têm a vantagem de apresentar variações à Teologia do Sacrifício”. Isso é evidente! Há duas semanas atrás, estando eu na Inglaterra, soube que um bispo anglicano adotou, ultimamente, o novo rito católico para toda a sua diocese. E declarou: “Este novo rito é muito conforme com as nossas idéias protestantes.” É pois evidente que para os protestantes, não há mais dificuldades para admitir o novo rito. Por que eles não tomam o antigo rito? Foi o que o Senhor Salleron perguntou aos padres de Taizé: “Por que dizeis que hoje podeis admitir este novo rito e não o antigo?”
Portanto há uma diferença entre o novo e o antigo e esta diferença é essencial; não é uma diferença acidental, porque eles não aceitam usar o antigo rito, com todas as orações dotadas de precisão e que esclarecem realmente a finalidade do Sacrifício: propiciatório, expiatório, eucarístico e latrêutico. Esta é a finalidade do Sacrifício da Missa católica que, claro no antigo rito, não o é mais no novo rito, porque não há mais Ofertório. E é também por isso que Lutero não quis Ofertório no rito dele.
Como Lutero inaugurou sua nova Missa
Vejamos como Lutero inaugurou sua nova Missa, sua reforma. A primeira missa evangélica foi levada a efeito na noite de 24 para 25 de dezembro de 1521. Nessa primeira missa evangélica, depois da pregação sobre a Eucaristia, eles falaram sobre a Comunhão sob as duas espécies como obrigatória e sobre a Confissão como inútil, bastando a fé. A seguir, Karlstadt, seu discípulo, apresentou-se no altar, com vestes seculares, recitou o Confiteor, começou a Missa como era antes, mas somente até o Evangelho; o Ofertório e a Elevação foram supressos (pág. 282), o que quer dizer que tudo o que significava idéia de Sacrifício foi retirado. Após a Consagração veio a Comunhão e muitos assistentes haviam bebido e comido, e até, tomado aguardente, antes de comungar; comungaram sob as duas espécies e o pão consagrado, (dado) nas mãos. Uma das hóstias escapole e cai em cima da roupa de um assistente. Um padre a recolhe. Uma outra cai no chão e Karlstadt diz aos leigos para apanhá-la; e como eles se recusam, por respeito ou temor, ele declara: “Que ela permaneça onde está, pouco importa, contanto que não se pise em cima”. Pouco depois ele próprio a apanhou (pág. 282). Muitos leigos, inúmeras pessoas estavam contentes com a novidade e eram muitos os que vinham assistir a essa nova Missa evangélica, porque uma parte era dita em língua alemã, e eles diziam que compreendiam melhor. Então os mosteiros começaram a se esvaziar. Lutero tinha declarado: “Eu conservarei o meu hábito, meu modo de me apresentar como monge”, mas muitos monges saíram; alguns ficaram nos mosteiros, mas a maioria se casou. Reinava grande anarquia entre os padres. Cada um celebrava sua missa como queria. O Conselho não sabia mais o que fazer (pág. 285), tomando então a resolução de fixar uma nova liturgia, de não mais deixar a liberdade e de pôr um pouco de ordem. A maneira de celebrar a Missa deveria ser então a seguinte: Intróito, Glória, Epístola, Evangelho, Sanctus. Depois havia uma pregação; Ofertório e Cânon ficavam supressos; o padre então pronunciava a instituição da Ceia, que ele proferia, em voz alta, em alemão e distribuía a Comunhão sob as duas espécies. Depois vinha o Agnus Dei e o Benedicamus Domino, para terminar.
As modificações da Consagração introduzidas no Novus Ordo são semelhantes às que foram introduzidas por Lutero; as palavras essenciais da Consagração não são mais unicamente as palavras da forma, tais como sempre tinham sido conhecidas: “HOC EST CORPUS MEUM. HIC EST CALIX SANGUINIS MEI,” e as palavras que lhe seguem. Não! A partir de então, as palavras essenciais começam nos seguintes termos: “Ele tomou o pão”, até as palavras após a consagração do vinho: “HOC FACITE IN MEAM COMMEMORATIONEM”. Lutero disse a mesma coisa. Por quê? Porque se lê a narrativa da Ceia. “É uma narrativa, não uma ação, não um Sacrifício, não uma ação sacrifical, mas um simples memorial”. Por qual razão nossos inovadores o copiaram de Lutero?
Lutero diz também: “As Missas e as Vigílias estão encerradas. O Ofício será conservado, assim como as Matinas, as Horas menores, as Vésperas, Completas, mas somente o Ofício ferial. Não se comemorará mais santo algum que não esteja expressamente nomeado na Escritura”. Desse modo, ele mudou completamente o Calendário, exatamente como foi feito atualmente (pág. 309).
Donde podemos concluir: A atual transformação é idêntica à de Lutero. Um último exemplo, o das palavras da Consagração do pão: “HOC EST CORPUS MEUM, QUOD PRO VOBIS TRADETUR”. Também Lutero acrescentou essas últimas palavras, porque justamente são palavras da Ceia, pois ele pretendia que a Ceia não fosse um Sacrifício, mas uma refeição.
Ora, o Concílio de Trento diz explicitamente: Quem disser que a Ceia não é um Sacrifício seja anátema. A Ceia foi um Sacrifício. E nossa Missa é a continuação da Ceia, porque a Ceia foi um Sacrifício. Isso já se constata na separação prévia do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo. O Sacrifício já estava significado por essa separação, no entanto Lutero afirma: “Não. A Ceia não é um Sacrifício”, é por isso que nós devemos repetir todas as palavras que Nosso Senhor disse na Ceia, ou seja: “HOC EST CORPUS MEUM QUOD PRO VOBIS TRADETUR”, que será entregue por vós sobre a Cruz.
Por que imitar tão servilmente Lutero na Nova Missa?
A única razão que se pode aduzir é a do Ecumenismo. Pois sem esse motivo, nada se pode compreender dessa reforma. Ela não tem absolutamente vantagem alguma, nem teológica, nem pastoral. Nenhuma vantagem a não ser a de nos aproximar dos protestantes. Podemos legitimamente pensar que foi por isso que os protestantes foram convidados para a Comissão da Reforma Litúrgica; para ficarmos sabendo se estavam satisfeitos ou não, ou se havia alguma coisa que lhes não agradava, se eles podiam ou não rezar conosco. Eu penso que não pode existir outro motivo para esta presença dos protestantes na Comissão de reforma da Missa. Mas como podemos pensar que protestantes, que não têm nossa fé, possam ser convidados para uma Comissão destinada a fazer uma reforma de nossa Missa, de nosso Sacrifício, daquilo que temos de mais belo, de mais rico em toda a Igreja, o objeto mais perfeito de nossa fé?!
Lutero, em janeiro de 1526, promoveu a impressão de um novo ritual para as cerimônias da Missa. No seu pensamento, ele queria a liberdade total. E dizia (pág. 314): “Se possível, eu gostaria de dar total liberdade aos padres, para fazerem o rito que quiserem; mas há o perigo de abusos, então é preciso estabelecer regras”. Seu pensamento, porém, era de liberdade total. E também de igualdade entre os padres e os fiéis. E assim, todos os fiéis sendo padres, poderiam, também eles, ter idéias de como criar o culto. Então, todos juntos, aqueles que são padres, aqueles que têm uma função especial, aqueles que são escolhidos dentre os fiéis, todos juntos podem demonstrar sua criatividade no culto.
Mas como era um pouco difícil, acabaria havendo bastante desordem, então ele escreveu um ritual. Nessa ocasião ele dizia também: “O uso do latim é facultativo”. Ele não era absolutamente contra o latim. Queria até que as crianças aprendessem latim. Mas também dizia: “O desejo dos leigos comuns de ter uma Missa em alemão é perfeitamente legítimo. Contudo há pessoas que vão à Igreja para ver novidade, para ver coisas novas. Esses, no entanto, não são verdadeiros cristãos, são curiosos, como se fossem aos turcos ou aos pagãos”.”
(Arcebispo Marcel Lefebvre, La Messe de Luther)