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segunda-feira, 28 de maio de 2018

O novo evangelho do mundo está sendo escrito em um presídio


“Os governos não são competentes para impor uma pena ao homem senão na qualidade de delegados de Deus. Só em nome de Deus podem ser justos e fortes. E quando começam a secularizar-se ou apartar-se de Deus, afrouxam na penalidade, como se sentissem que diminui seu direito. As teorias laxas dos criminalistas modernos são contemporâneas da decadência religiosa, e seu predomínio nos códigos é contemporâneo da secularização das potestades políticas. Os racionalistas modernos chamam ao crime desventura: dia virá em que o governo passe aos desventurados; e, então, não haverá outro crime senão a inocência. O novo evangelho do mundo se está escrevendo em um presídio. O mundo não terá senão o que merece, quando for evangelizado pelos novos apóstolos”.
(Juan Donoso Cortés, Ensayo sobre el Catolicismo, el Liberalismo y el Socialismo)

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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Efeitos da negação do pecado original na política


“Donoso Cortés nos ensinava que não há nenhum erro contemporâneo que não implique um erro teológico. Comprovamo-lo nestes dias em que a mácula da corrupção se assenhoreia de nossa vida política; e em que se impõem leis de transparência, em um esforço espalhafatoso por combatê-la, ou aparecem messias populistas que se proclamam látegos da corrupção e se pretendem incorruptíveis. Em todo este alarde sobre a transparência, como no truque messiânico, só encontramos puritanismo (ou seja, o vício disfarçado com as plumas de pavão real da virtude). E por trás de todo puritanismo não há outra coisa que negação do pecado original, que curiosamente é a única verdade teológica que pode ser aceita sem necessidade de ter fé, pois salta aos olhos que a natureza humana está manchada.
No entanto, sendo o pecado original o único dogma teológico que admite comprovação empírica, é o que mais recusa e aversão provoca entre as pessoas. Essa recusa de uma verdade tão evidente só se explica pela soberba humana, que deu para crer contra toda evidência na estupidez rousseauniana de que o homem é bom por natureza e pode, sem auxílio divino, alcançar a perfeição. Tão perturbador absurdo leva, segundo Donoso Cortés, primeiramente à afirmação da soberania da inteligência e depois à afirmação da soberania da vontade, para terminar na afirmação da soberania das paixões, que arrasta os homens à perdição. Essas três afirmações comprovam sua demência no assunto da corrupção política.
Ao afirmar a soberania da inteligência, crê-se ridiculamente que nossa razão é luminosa e infalível; e a razão ensoberbada engendra delírios de grandeza que nos fazem pensar que publicando as rendas ou os patrimônios dos políticos acabar-se-á com a corrupção. Essa primeira etapa de soberba é em seguida superada pelos messias do populismo, que à soberania da inteligência acrescem a soberania da vontade; e, considerando que sua vontade é reta, prometem acabar com toda forma de corrupção. Mas quem crê que sua razão é luminosa e sua vontade reta acaba crendo também, mais cedo que tarde, que suas paixões são excelentíssimas, e que nada pode permanecer subtraído a sua jurisdição soberana (nem concessão de licenças nem requalificação de terrenos nem conselhos de administração de contas de poupança nem patronatos de fundações nem sequer os “tomates” do pequeno Nicolau); e então sua ambição de poder, sua mesma paixão insaciável (a grama sempre é mais verde do outro lado da cerca!) empurrá-lo-á, inevitavelmente, a corromper-se. E fá-lo-á, como é óbvio, ainda que publique suas rendas, pois já se sabe que quem faz a lei, faz também as brechas; e, logicamente, continuará perseguindo os corruptos, pois ninguém emprega tanto furor em castigar os pecados do próximo como o hipócrita que esconde os seus.
Uma política que reconhecesse a existência do pecado original, em lugar de adornar-se com as plumas de pavão real da virtude, começaria por limitar sua jurisdição aos puros trabalhos de representação política, em aceitação ao mandato que recebe de seus representados. E, uma vez limitada sua jurisdição à pura representação política, suplicaria o auxílio divino. Continuaria, desde logo, havendo corruptos, mas seriam muito menos dos que padecemos ali onde a inteligência que se crê luminosa impõe leis de transparência espalhafatosas e a vontade que se crê reta se pretende incorruptível; pois é ali onde inteligência e vontade se proclamam soberanas onde uma e outra acabam sucumbindo mais facilmente ao império das paixões.”
(Juan Manuel de Prada, Pecado Original)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O catolicismo é uma religião de combate

“E não me digas que não queres combater; porque no instante mesmo em que mo dizes, estás combatendo; nem que ignoras para que lado te inclinares, porque no momento mesmo em que isso dizes, já te inclinaste para um lado; nem me afirmes que queres ser neutro, porque quando pensas sê-lo, já não o és; nem me assegures que permanecerás indiferente, porque te desprezarei, dado que, ao pronunciares essa palavra, já tomaste teu partido. Não te canses em buscar asilo seguro contra os açoites da guerra, porque te cansas em vão; essa guerra se expande tanto como o espaço, e se prolonga tanto como o tempo. Só na eternidade, pátria dos justos, podes encontrar descanso; porque só ali não há combate; não presumas, contudo, que se abram para ti as portas da eternidade se não mostras antes as cicatrizes que levas; aquelas portas não se abrem senão para os que combateram aqui os combates do Senhor gloriosamente, e para os que vão, como o Senhor, crucificados.”
(Juan Donoso Cortés, Ensayo sobre el Catolicismo, Liberalismo y Socialismo)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

A palavra divina

“Quando ouço pronunciar uma palavra divina, ou seja, católica, no mesmo instante volvo os olhos ao redor para ver o que acontece, certo como estou de que há de acontecer algo e de que isso que há de acontecer há de ser forçosamente um milagre da justiça divina ou um prodígio da divina misericórdia.
Se é a Igreja que a pronuncia, aguardo a salvação; se quem a pronuncia é outro, aguardo a morte. Perguntai ao mundo por que está pleno de terror e de espanto; por que os ares estão plenos de lúgubres e sinistros rumores; por que as sociedades estão todas perturbadas e em suspense, como quem sonha que lhe vai faltar o pé ou que ali onde vai faltar está um abismo. Perguntar ao mundo isso é o mesmo que perguntar por que treme quem vê entrar um malfeitor ou um demente com uma vela acesa em um armazém de pólvora sem conhecer um e conhecendo demasiado o outro a virtude da pólvora e a virtude da chama. O que salvou o mundo até agora é que a Igreja foi em tempos antigos bastante poderosa para extirpar as heresias, as quais, consistindo principalmente em ensinar uma doutrina diferente da Igreja com as palavras de que a Igreja se serve, teriam levado o mundo há muito tempo a sua última catástrofe se não tivessem sido extirpadas.
O verdadeiro perigo para as sociedades humanas começou no dia em que a grande heresia do século XVI obteve o direito de cidadania na Europa. Desde então não há revolução alguma que não leve consigo para a sociedade um perigo de morte. Consiste isso em que, fundadas todas elas na heresia protestante, são fundamentalmente heréticas; veja-se, se não, como todas vêm dando razão de si e legitimando-se a si próprias com palavras e máximas tomadas do Evangelho: o sanculotismo da primeira revolução de França buscava na nudez humilde do manso Cordeiro seu antecedente histórico e seus títulos de nobreza; nem faltou quem reconhecesse o Messias em Marat, nem quem chamasse Robespierre seu apóstolo. Da revolução de 1830 brotou a doutrina sansimoniana, cujas extravagâncias místicas compunha não sei que evangelho corrigido e depurado. Da revolução de 1848 brotaram com ímpeto em copioso caudal, expressas em palavras evangélicas, todas as doutrinas socialistas. Nada disso haviam visto os homens antes do século XVI. Não quero dizer com isso que o mundo católico não havia padecido já de grandes doenças, nem que as sociedades antigas não haviam padecido de grandes vaivéns e mudanças; só quero dizer que nem esses vaivéns bastavam para derrubar a sociedade por si mesmos nem aquelas doenças para tirar-lhe a vida. Hoje tudo acontece ao contrário: uma batalha perdida pela sociedade nas ruas de Paris basta por si mesma para derrubar ao solo a sociedade européia como ferida subitamente por um raio: e calde come corpo morto calde.
Quem não vê nas revoluções modernas, comparadas com as antigas, uma força de destruição invencível, que, não sendo divina, é forçosamente satânica? Antes de deixar este assunto, parece-me coisa oportuna fazer aqui uma observação importante, que abandonarei à meditação de meus leitores. De duas conversas do anjo das trevas temos notícia exata: a primeira a teve com Eva no paraíso; a segunda, com o Senhor no deserto. Na primeira falou palavras de Deus, desfiguradas a seu modo; na segunda citou a Escritura, interpretada à sua maneira. Seria temerário crer que assim como a palavra de Deus, tomada em seu sentido verdadeiro, é a única que tem o poder de dar a vida, é a única também que, sendo desfigurada, tem o poder de dar a morte? Se isso fosse assim, restaria suficientemente explicado por que as revoluções modernas, nas que se desfigura mais ou menos a palavra de Deus, têm essa virtude destruidora.”
(Juan Donoso Cortés, Ensayo sobre el Catolicismo, el Liberalismo y el Socialismo)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O homem prevaricador e decaído não é feito para a verdade

“O homem prevaricador e decaído não é feito para a verdade; nem é a verdade feita para o homem neste estado de prevaricação e de queda. Entre a verdade e a razão humana, desde a prevaricação do homem, Deus colocou uma imperecível repugnância e uma invencível repulsa. A verdade tem em si mesma os títulos de sua soberania, e impõe seu jogo sem pedir permissão; ora, o homem, desde que se revoltou contra Deus, não reconhece senão sua própria soberania, e não quer admitir qualquer outra a não ser que ela solicite previamente seu sufrágio e seu consentimento. Eis porque, quando a verdade se lhe apresenta, seu primeiro movimento é negá-la; negando-a, ele afirma sua soberana independência. Se negá-la lhe é impossível, ele entra em luta com ela; combatendo-a, ele combate por sua soberania. Vencedor, ele a crucifica; vencido, ele foge; fugindo, ele imagina escapar de sua servidão; crucificando-a, ele acredita crucificar seu tirano.
Ao contrário, entre a razão humana e o absurdo existe uma afinidade secreta e um estreito parentesco. O pecado os uniu pelo vínculo de um indissolúvel desponsório. O absurdo triunfa no homem precisamente porque é destituído de qualquer direito anterior e superior à razão humana. Não tendo direitos a alegar, não pode ter pretensões, e eis por que o homem, em seu orgulho, não encontra nenhum motivo para o repudiar. Longe disso, o orgulho o leva a acolhê-lo; o absurdo, sua vontade o aceita, porque é engendrado por sua própria inteligência, a qual, por sua vez, se compraz nele, isto é, no seu próprio filho, no seu próprio verbo, testemunho vivo de seu poder criador. Criar é próprio da Divindade; criando o absurdo, o homem como que se torna Deus, e confere a si mesmo honras divinas. Contanto que ele seja Deus, que ele aja como Deus, que lhe importa o resto? Que importa a existência de um Deus da Verdade, se ele é, ele próprio, o Deus do absurdo? Não será ele, desde então, independente como Deus? Soberano como Deus? Adorando a obra de sua criação, glorificando-a, é a si mesmo que ele glorifica e adora.”
(Juan Donoso Cortés, Ensaio sobre o Catolicismo, o Liberalismo e o Socialismo)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A antítese entre o liberalismo e a palavra de Deus


“Prega-se a democracia como um valor que transcende a pessoa e a sociedade em todas as suas dimensões, como uma marca que imprime caráter não só à política, mas a todas as manifestações do espírito humano: à educação, à cultura, à ciência, à economia, à arte, à moda. Trata-se, em uma palavra, de criar algo sagrado, intocável, dogmático, em escala universal, de tal maneira que chegue a substituir a Deus como explicação última do sentido da vida. Por isso dizia acertadamente Donoso Cortés que a democracia é o eco humano da rebelião do anjo caído. Esse eco se reflete na antítese que formula a doutrina liberal contra a palavra de Deus no Evangelho de São João, capítulo 8, versículo 32: "a verdade vos fará livres." Quer dizer, a verdade gera a liberdade, palavras que o liberalismo vira pelo avesso com estas outras: a liberdade gera a verdade. E como os efeitos participam da natureza de suas causas, e a liberdade é pessoal, subjetiva, variável, a verdade que ela fabrica e elabora terá seus mesmos caracteres. Não será portanto objetiva, mas subjetiva, não será absoluta, mas relativa, não será imutável, mas variável, não será "a verdade", mas "minha verdade", "tua verdade", "sua verdade". Dessa maneira, a faculdade intelectiva fica subordinada à volitiva, o entendimento à vontade, a luz às trevas, a ordem objetiva à ordem subjetiva. Alcançamos o relativismo, e com o relativismo o ceticismo. Essa é a origem corrosiva e devastadora do liberalismo, cuja expressão polifacética é a democracia.
Seus efeitos são denunciados pelo mesmo Donoso Cortés nestes termos: “Assim como a palavra de Deus retamente interpretada é a única capaz de dar a vida, assim também essa mesma palavra desfigurada, mal interpretada, é capaz de produzir a morte.” Recordar, por exemplo, a transformação de conceitos sagrados que opera o progressismo eclesiástico: o Salvador se transforma em libertador do proletariado, a salvação da alma em salvação de servidões econômicas, a caridade, virtude teologal, em amor humano e filantropia, o reino espiritual de Cristo em reino temporal e terreno, a dimensão vertical até Deus em dimensão horizontal até a humanidade, o teocentrismo em antropocentrismo. Pois bem, o liberalismo, igualmente, ao desfigurar, ao inverter o sentido das palavras de Jesus Cristo, ao fundar a verdade na liberdade e não a liberdade na verdade, produz a morte da ordem real objetiva e, como conseqüência, a morte da ordem política, social e econômica.”
(Julián Gil de Sagredo, La Democracia como Fuente de Subversión)

http://www.istoecatolico.com.br/index.php/Artigos/Diversos/Por-Julian-Gil-Sagredo.html