sábado, 30 de abril de 2011

Mons. Richard Williamson e a beatificação de João Paulo II

“No 1º de maio, daqui a poucas semanas, João Paulo II será declarado “Beato” por Bento XVI em meio a uma grande celebração na Praça de São Pedro em Roma. Mas os Católicos fiéis à Tradição sabem que João Paulo II, enquanto grande promotor da Igreja Conciliar, foi também um eficaz destruidor da Igreja Católica. Então como pode ser proclamado “Beato”, último passo para ser canonizado, quando as canonizações da Igreja são infalíveis? A resposta rápida é que João Paulo II não será beatificado como Beato Católico através de uma beatificação Católica na Igreja Católica, mas como um “Neobeato” através de uma “Neobeatificação” da “Neo-Igreja”. E os “Neoprelados” são os primeiros em proclamar a novidade, e os últimos a reclamar infalibilidade, pelo que fazem.
Ilustremos a natureza da Neo-Igreja através de uma comparação obtida da vida moderna. A gasolina pura (benzina, nafta) cheira, tem sabor e se comporta como gasolina. Ela pode fazer funcionar um automóvel. A gasolina misturada com apenas um pouco de água ainda pode ter cheiro e sabor de gasolina, mas já não se comporta como gasolina – não se a pode usar para fazer funcionar um automóvel. A água lhe retirou a capacidade de combustão.
A gasolina pura se compara com o Catolicismo puro – altamente combustível! A água pura em nossa comparação é como o humanismo secular puro, que será a Religião Global, sem traço algum de Catolicismo nela. Ora, o Catolicismo e o humanismo se mesclaram no Concílio Vaticano II e em seus 16 documentos. Assim é que o Conciliarismo, o Novo Catolicismo, pode ainda ter cheiro e sabor de Catolicismo, a ponto de fazer com que os “bons Católicos” esperem que as beatificações Conciliares se ponham no caminho da infalibilidade, assim como faziam as beatificações da Igreja pré-Conciliar, mas na realidade uma pequena mistura de humanismo secular foi suficiente para que o Catolicismo deixasse de funcionar, assim como não se necessita de muita água para que a gasolina já não entre em combustão.
Desta forma, as novas beatificações para os olfatos Católicos desprevenidos podem ter o sabor e o cheiro das beatificações Católicas, mas quando examinadas mais detidamente, resta claro que as novas beatificações não são de modo algum a mesma realidade. Um exemplo famoso: uma beatificação Católica anteriormente exigia dois milagres distintos, enquanto que a Neobeatificação exige apenas um. E as regras da Neobeatificação estão significativamente relaxadas em algumas outras formas também. Portanto, nenhum Católico deve esperar outra coisa que um Neobeato surgindo de uma Neobeatificação. João Paulo II foi de fato um “Beato” do Concílio.
O que engana os Católicos são os elementos de Catolicismo que ainda permanecem na Igreja Conciliar. Mas assim como o Vaticano II foi planejado para substituir o Catolicismo (gasolina pura) com o Conciliarismo (gasolina-água), assim o Conciliarismo foi planejado para abrir caminho ao que podemos denominar de Religião Global (água pura). A procissão vai de Deus até o Neodeus e do Neodeus ao Não-deus. Hoje em dia temos a Nova Roma impulsionando o Neodeus do Vaticano II com Neobeatos que lhe correspondam, mas não passará muito tempo até que verdadeiros criminosos sejam os “Beatos” do Não-deus.
Contudo, o verdadeiro Deus não deixará que aquelas ovelhas que não queiram ser enganadas o sejam. Nem abandonará uma só alma que não O tenha abandonado antes, disse Santo Agostinho. Citação maravilhosa!”
(Dom Richard Williamson, F.S.S.P.X, Newchurch, Newblesseds)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Deus abençoe os húngaros



Minha humilde homenagem a esse pequeno mas corajoso país que ousou desafiar as ameaças da União Européia maçônica/socialista e inscreveu em sua nova constituição valores tradicionais e cristãos.
Deus abençoe os húngaros!

Szerény hódolatom ennek a kicsi, de bátor országnak, mely szembe mert szállni a szabadkőműves/szocialista Európai Unióval és hagyományos és keresztény értékeket vett bele új alkotmányába.
Isten áldja a magyarokat!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Liberdade religiosa

“Para condenar os atos de hostilidade à fé católica, costuma-se alegar ingenuamente que constituem “atentados à liberdade religiosa”; quando na verdade são a conseqüência natural da “liberdade religiosa”, tal como se configura nas declarações de direitos humanos. A própria Igreja adotou a linguagem característica de tais declarações quando consagrou que a liberdade religiosa é “inerente à dignidade da pessoa”; expressão barulhenta que nasce da confusão entre livre arbítrio e liberdade de ação. A “dignidade inerente à pessoa” baseia-se em seu livre arbítrio; mas de modo algum em sua liberdade de ação, a menos que tal liberdade a leve a aceitar a verdade e o bem. A “liberdade religiosa” é liberdade de ação que pode levar a pessoa a seguir qualquer seita destrutiva ou idoleto grotesco; ou seja, empurrá-la à indignidade mais sórdida e subumana. Como afirmava Leão XIII em sua encíclica Immortale Dei: “A liberdade, como elemento que aperfeiçoa o homem, deve aplicar-se exclusivamente à verdade e ao bem. Ora, a essência da verdade e do bem não pode mudar ao capricho do homem, mas é sempre a mesma e não menos imutável que a natureza mesma das coisas. Se a inteligência adere a opiniões falsas, se a vontade escolhe o mal e a ele se apega, nem a inteligência nem a vontade alcançam sua perfeição; pelo contrário, decaem de sua dignidade natural e se corrompem. Não é, pois, permitido dar a lume e expor aos olhos dos homens o que é contrário à virtude e à verdade, e muito menos ainda colocar essa licença sob a tutela e a proteção das leis”.
A “liberdade religiosa” consagra exatamente o contrário: quer dizer, concede a tutela das leis a todo tipo de crenças, sejam boas, más ou neutras, de tal modo que todas valham o mesmo; ou seja, nada. E lá onde todas as religiões toleradas nada valem, é natural que a ordem temporal queira erigir-se a si mesma como religião única, usurpando os atributos divinos e exigindo adoração. Isso é o que se oculta por trás da afirmação de “liberdade religiosa” contida nas declarações de direitos humanos: visto que todas as religiões não valem um centavo, a única religião valiosa é a que se postula em tais declarações; e toda religião que ouse contrariar seu desígnio se converterá ipso facto em uma religião contrária à “dignidade humana”. Isso é o que está acontecendo hoje com a religião católica.
As declarações de direitos humanos nasceram escondidas atrás de uma vaga ética cristã que as fazia aparentemente compatíveis com a doutrina da Igreja. Mas aquela “compatibilidade” era um chamariz; desde que tais declarações foram formuladas até hoje, os direitos humanos foram mil vezes redefinidos e reinterpretados, como inevitavelmente acontece quando se afirma que a verdade e o bem podem mudar à vontade. Diante dessa visão dos direitos humanos como religião inatacável de conveniência em constante metamorfose, eleva-se a velha religião católica, ou seus escombros; e a “liberdade religiosa” se revolta contra ela, por considerá-la – com razão! – um obstáculo a sua hegemonia. Os atos de difamação e hostilidade contra a fé católica só farão crescer no futuro, apoiados na “liberdade religiosa”, como ocorre sempre que a inteligência adere a opiniões falsas, como ocorre sempre que a vontade escolhe o mal e a ele se apega.”
(Juan Manuel de Prada, Libertad Religiosa)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Crucifixus etiam pro nobis

“Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3; 16)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A democracia não visa o interesse da comunidade

"Dado que regime e governo significam a mesma coisa, sendo o governo o elemento supremo em toda a cidade, necessariamente será supremo um indivíduo, ou sê-lo-ão poucos, ou muitos. Quando o único, ou os poucos, ou os muitos, governam em vista do interesse comum, esses regimes serão necessariamente retos. Os regimes em que se governa em vista do único, dos poucos, ou dos muitos são transviados. Ou bem que o nome de cidadão não pode ser atribuído a quem participa no regime, ou, se o nome é atribuído, todos devem participar nas vantagens.
De entre as formas de governo por um só, chamamos realeza à que visa o interesse comum. Chamamos aristocracia à forma de governo por poucos (mas sempre mais do que um), seja porque governam os melhores ou porque se propõe o melhor para a cidade e os seus membros. Finalmente, quando os muitos governam em vista ao interesse comum, o regime recebe o nome comum a todos os regimes: “regime constitucional”. Existe uma boa razão. É possível para um, ou poucos, distinguir-se pela excelência; mas dificilmente um maior número de cidadãos poderá atingir a perfeição em todos os tipos de virtude. Esta perfeição, contudo, é atingida no valor militar que se evidencia nas massas. Esta é a razão pela qual as forças de defesa são o elemento supremo do regime, e nele participam os possuidores de armas.
Os três desvios correspondentes são: a tirania em relação à realeza; a oligarquia em relação à aristocracia; a democracia em relação ao regime constitucional.
A tirania é o governo de um só com vista ao interesse pessoal; a oligarquia é a busca do interesse dos ricos; a democracia visa o interesse dos pobres. Nenhum destes regimes visa o interesse da comunidade."
(Aristóteles, Política)

http://nacional-cristianismo.blogspot.com/2010/11/aristoteles-democracia-nao-visa-o.html

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O judaísmo não é a religião do Velho Testamento

“O Judaísmo não é a religião do Velho Testamento. O Catolicismo é a religião do Velho Testamento. Toda religião que pretende ser a do Velho Testamento deve ter Templo, sacerdócio e sacrifício. Após a destruição do Templo em 70 d.C, o Judaísmo não teve mais nada disso, mas a Igreja os tem todos. O Templo é Cristo, que afirmou explicitamente ser seu sucedâneo. A Igreja também tem o sacerdócio, que celebra o novo sacrifício, que é o sacrifício incruento da Missa.
O Judaísmo como o conhecemos é uma religião criada por Jochanan ben Zacchai após a destruição do Templo. Não era, como os próprios judeus admitem, a religião do Velho Testamento, porque os judeus àquela altura já não tinham o Templo para realizar os sacrifícios necessários para satisfazer sua aliança. Como resultado, a religião judaica se transformou em uma escola ou sociedade de debates, que se reunia nas sinagogas. A codificação desses debates veio a ser conhecida como o Talmude, que foi escrito entre o terceiro e o sétimo século depois de Cristo. O Talmude é uma sistemática distorção da Torá – “O que a Torá proíbe, o Talmude permite” – cujo propósito é manter o povo judeu longe do Logos e dependente dos líderes judeus.”
(E. Michael Jones, em entrevista a Martin Vianney para a revista Culture Wars)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Modificação do passado e duplipensamento

“A modificação do passado é necessária por duas razões, uma das quais secundária e, por assim dizer, preventiva. A razão secundária é que o membro do Partido, tal como o proletário, tolera as condições vigentes em parte porque não dispõe de termos de comparação. Deve ser afastado do passado, assim como deve ser afastado de países estrangeiros, porque é necessário que acredite que está em melhor situação do que seus antepassados e que o padrão médio de conforto material aumenta ininterruptamente. Mas, de longe, a razão mais importante para que se reajuste o passado é a necessidade de salvaguardar a infalibilidade do Partido. Não se trata apenas de atualizar constantemente discursos, estatísticas e registros de todo tipo para provar que as previsões do Partido se confirmam em todos os casos. Trata-se também de não admitir em hipótese nenhuma a ocorrência de alterações na doutrina ou no alinhamento político. Porque mudar de opinião, ou mesmo de atitude política, é uma confissão de fraqueza. Se, por exemplo, a Eurásia ou a Lestásia (conforme o caso) for o inimigo de hoje, então é necessário que esse país sempre tenha sido o inimigo. E se os fatos atestarem algo diferente, então é preciso alterar os fatos. Dessa forma, a história é constantemente reescrita. Essa falsificação diária do passado, levada a efeito pelo Ministério da Verdade, é tão necessária para a estabilidade do regime quanto o trabalho de repressão e espionagem realizado pelo Ministério do Amor.
A mutabilidade do passado é o ponto central da doutrina do Socing. Afirma-se que os fatos passados não têm existência objetiva e que sobrevivem apenas em registros escritos e nas memórias humanas. O passado é tudo aquilo a respeito do que há coincidência entre registros e memórias. Considerando que o Partido mantém absoluto controle sobre todos os registros e sobre todas as mentes de seus membros, decorre que o passado é tudo aquilo que o Partido decide que ele seja. Decorre ainda que, embora seja possível alterar o passado, o passado jamais foi alterado em nenhuma instância específica. Isso porque nas ocasiões em que é recriado na forma exigida pelas circunstâncias, a nova versão passa a ser o passado, e nenhum outro passado pode ter existido algum dia. Esse sistema funciona inclusive quando – como acontece muitas vezes – o mesmo fato precisa ser profundamente alterado diversas vezes no mesmo ano. Em todas as ocasiões, o Partido detém a verdade absoluta, e fica evidente que o absoluto jamais poderia ter sido diferente do que aquilo que passou a ser. Veremos que o controle do passado depende acima de tudo do treinamento da memória. Garantir que todos os registros escritos estão de acordo com a ortodoxia do momento é um mero ato mecânico. Mas é necessário lembrar-se que todos os fatos se passaram da maneira desejada. E caso seja necessário reorganizar nossas memórias ou alterar os registros escritos, também será necessário esquecer que o fizemos. O modo como se produz isso pode ser aprendido, como qualquer outra técnica mental. E ele é aprendido pela maioria dos membros do Partido: certamente por todos os que são ao mesmo tempo inteligentes e ortodoxos. Em Velhafala isso recebe o nome muito direto de “controle da realidade”. Em Novafala é o duplipensamento, embora o termo duplipensamento também abranja muitas outras coisas.
Duplipensamento significa a capacidade de abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e acreditar em ambas. O intelectual do Partido sabe em que direção suas memórias precisam ser alteradas; em conseqüência, sabe que está manipulando a realidade; mas, graças ao exercício do duplipensamento, ele também se convence de que a realidade não está sendo violada. O processo precisa ser consciente, do contrário não seria conduzido com a adequada precisão, mas também precisa ser inconsciente, do contrário traria consigo um sentimento de falsidade e, portanto, de culpa. O duplipensamento situa-se no âmago do Socing, visto que o ato essencial do Partido consiste em usar o engodo consciente sem perder a firmeza de propósito que corresponde à total honestidade. Dizer mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas; esquecer qualquer fato que tiver se tornado inconveniente e depois, quando ele se tornar de novo necessário, retirá-lo do esquecimento somente pelo período exigido pelas circunstâncias; negar a existência da realidade objetiva e ao mesmo tempo tomar conhecimento da realidade que negamos – tudo isso é indispensavelmente necessário. Mesmo ao usar a palavra duplipensamento é necessário praticar o duplipensamento. Porque ao utilizar a palavra admitimos que estamos manipulando a realidade; com um novo ato de duplipensamento, apagamos esse conhecimento; e assim por diante indefinidamente, com a mentira sempre um passo adiante da verdade. Em última instância, foi graças ao duplipensamento que o Partido foi capaz – e, até onde sabemos, continuará sendo por milhares de anos – de deter o curso da história.
Todas as oligarquias do passado caíram do poder ou porque se calcificaram ou porque amoleceram. Ou porque se tornaram estúpidas e arrogantes, deixaram de ajustar-se às circunstâncias e foram derrubadas; ou porque se tornaram liberais e covardes, fizeram concessões quando deviam ter usado a força e, também aqui, foram derrubadas. Ou seja, caíram por causa da consciência ou por causa da inconsciência. O Partido foi capaz de produzir um sistema de pensamento no qual os dois estados podem coexistir sem problemas. Essa foi a única base intelectual capaz de oferecer permanência à autoridade do Partido. Se quiser governar e continuar governando, a pessoa deve ser capaz de deslocar o sentido de realidade. Porque o segredo da governança é combinar a crença na própria infalibilidade com a aptidão de aprender com os erros passados.”
(George Orwell, 1984)

Tradução de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

sábado, 9 de abril de 2011

Comunismo na revolução francesa

“O comunismo de propriedade é a derradeira aplicação do contrato social. Como cada direito se origina do Povo Soberano, tanto as propriedades quanto os indivíduos estão nas mãos do povo.
O decreto de 23 de agosto de 1793 marca o advento do novo reino: o socialismo de propriedade será simplesmente a contrapartida da socialização das vontades. Não mais haverá intermediários entre o governante e o governado.
Servos sob o rei em 1789, homens livres pela lei de 1791, o povo se torna senhor em 1793. Ao se tornar o próprio governante, o povo abole as liberdades públicas que haviam sido suas únicas garantias contra os que o governavam. O direito ao voto é suspenso, pois o povo reina; o direito à autodefesa, pois eles julgam; a liberdade de imprensa, pois eles escrevem; a liberdade de expressão, pois eles falam – uma doutrina límpida da qual as proclamações e leis terroristas são apenas um longo comentário.
Na ordem econômica, a coletividade a partir daí cuida de seus próprios assuntos e dispensa os indivíduos. Com a abolição do comércio de cereais (3-11 de setembro de 1793), ela socializa as reservas agrícolas. Com a criação do tabelamento de preços (leis de 29 de setembro de 1793 e 24 de fevereiro de 1794), ela acaba com a atividade comercial. Com a requisição universal de trabalho e habilidades (16 de abril de 1794), o próprio esforço de produção é abolido. Esse é o fim do regime pessoal para o povo e o príncipe, nos campos e nas oficinas e no Louvre.
Toda indústria: de metais, minas, armas, salitre, passa às mãos do Estado.
Quando o povo está no trono, é o Estado que assume o controle.
Esse sistema artificial exigiu uma implantação tão prodigiosa de violência que recebeu o nome de Terror. O reino do impessoal é um inferno: a democracia, o príncipe impessoal, governa para trás, e o Estado, o povo impessoal, trabalha desnorteado. Essas são as duas grandes verdades que a doutrina da revolução nega e que sua história comprova. Como pode esse paradoxo afirmar-se a si mesmo contra o senso comum, primeiro, e depois contra direitos e interesses, durar dez meses e continuar por dois anos?
É que o trabalho das Sociedades Filosóficas, através de seu aconselhamento intelectual e seleção social, havia criado um estado de espírito moral. Em todos os grandes problemas de interesse público existia uma opinião das Sociedades que era oposta à verdadeira opinião [pública]. A legislação terrorista não é o trabalho conjunto de políticos, mas apenas o eco das opiniões das Sociedades – a tal ponto que os decretos da Convenção eram preparados e algumas vezes votados e aplicados de antemão pelas Sociedades.
E as Sociedades – tendo em vista serem o povo – apropriam-se de e exercem sem controle os direitos dos quais o novo regime priva os eleitores. O povo perdeu o direito de eleger seus magistrados de acordo com os procedimentos legais, e as Sociedades assumem o direito de removê-los contínua e arbitrariamente. O povo foi desarmado sistematicamente, até a última arma, e as Sociedades pegam em armas. Elas treinam, removem e dirigem grupos especiais à vontade – os “exércitos revolucionários” que elas supervisionam na guerra contra o “inimigo doméstico”. Dessa maneira, as Sociedades só se tornam bastante numerosas (quase 1900 em janeiro de 1794) e “unidas” após a derrota do cisma girondino, e predominantes a partir do “medo” de setembro e da prisão dos suspeitos.
Contudo, a substituição da vida real pela vida da Sociedade não ocorreu de modo suave. Ao primeiro contato com coisas [reais], a razão dos “legisladores” era contradita, muitas vezes em menos de uma semana.
Os mercados têm pouco estoque e assim a Convenção decreta, em 11 de setembro de 1793, que os grãos não mais serão vendidos em qualquer lugar, mas somente lá. Imediatamente os mercados se esvaziam, e provisões tornam-se raras e caras. A Convenção, com o decreto de 29 de setembro, baixa os preços de varejo, imaginando que o atacado preferiria fazer o mesmo a nada vender. [Mas] os preços de atacado se mantiveram, em menos de uma semana as lojas se esvaziaram e os lojistas ficaram de pires na mão. A mesma lei que decretou o tabelamento do preço da carne fez o mesmo quanto ao preço do gado, o que levou ao fim da pecuária e ao abate do gado. A Convenção apressadamente revoga seu decreto para salvar a pecuária (23 de outubro). Mas então os açougueiros, que ainda tinham tabelamentos, param de comprar e de abater, o que desencadeia o desabastecimento em uma indústria após a outra: curtumes, sapatarias, fábricas de uniformes militares, terminando com a falta de carne e pão (fevereiro de 1794). Em 11 de abril de 1794, o Comitê de Salvação Pública, animado com os resultados de seu censo, requer para Paris e os exércitos todo porco de oito anos, o qual deixa com seu dono até a data da entrega. Este, ao invés de alimentá-lo, deixa-o definhar e morrer.
Todas as tentativas de socialização levam a impasses desse tipo. Se essas tentativas se dirigissem a homens, essas lições brutais os teriam feito parar e pensar, mas um fenômeno social não pensa. Esse fenômeno avança de desastre em desastre, produzindo uma floresta de leis não-naturais cujo sucesso nas Sociedades e aprovação pela Convenção foram tão fatais como sua imposição no país foi absurda ou impossível.”
(Extraído da seleção de textos de Augustin Cochin, Organizing the Revolution)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Duplipensamento

“Saber e não saber, estar consciente de mostrar-se cem por cento confiável ao contar mentiras construídas laboriosamente, defender ao mesmo tempo duas opiniões que se anulam uma à outra, sabendo que são contraditórias e acreditando nas duas; recorrer à lógica para questionar a lógica, repudiar a moralidade dizendo-se um moralista, acreditar que a democracia era impossível e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo o que fosse preciso esquecer, depois reinstalar o esquecido na memória no momento em que ele se mostrasse necessário, depois esquecer tudo de novo sem o menor problema: e, acima, de tudo, aplicar o mesmo processo ao processo em si. Esta a última sutileza: induzir conscientemente a inconsciência e depois, mais uma vez, tornar-se inconsciente do ato de hipnose realizado pouco antes. Inclusive entender que o mundo em “duplipensamento” envolvia o uso do duplipensamento.”
(George Orwell, 1984)

Tradução de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

domingo, 3 de abril de 2011

O câncer espiritual da Igreja (II)

“Penso poder dizer que esta argumentação baseada em duas igrejas mortalmente opostas é a única a proteger todos os dados da teologia da Igreja diante da avalanche que tudo carregou. Tive, por duas vezes, a oportunidade de usar esta argumentação, em situações parecidas: no Barroux, em 1988, diante de Dom Basile, quando este foi indicado por Dom Gérard para responder às minhas questões sobre os acordos com Roma. Era a época do sofisma do “perímetro visível”. Dom Basile achou que a existência real da Outra conduziria ao sedevacantismo, isso porque ele não quis raciocinar na possibilidade de haver um só papa para duas igrejas, pois não encontrava nada sobre isso nos manuais de teologia ou nos exemplos da história da Igreja (lógico). A segunda vez foi em 2001, diante de um dos padres de Campos que afirmou que esta doutrina significaria que as portas do inferno teriam prevalecido sobre a Igreja, como se a presença da Outra destruísse a verdadeira Igreja. Ora, nem um nem outro quiseram examinar a questão até o fim.
Não me parece possível que alguém negue o caráter excepcional, surpreendente e inesperado da crise atual. Uma crise que dura já quarenta anos, tendo à sua frente já três papas com praticamente todo o episcopado. Como não considerar o grande mistério de vermos o corpo da Igreja trabalhando ativamente para a destruição da Esposa de Cristo? Pode-se afirmar sem temeridade que esta crise nada tem a ver com o mistério de iniqüidade anunciado por S. Paulo aos Tessalonicenses, quando percebemos claramente que a grande apostasia que o acompanha já está generalizada? Não estaria aí, justamente, a causa do enorme espanto que sentiu São João quando viu a prostituta do Apocalipse que carregava em si seu nome: Mistério?
A natureza da crise começa a ser melhor estabelecida pela denominação de uma Outra substância, de uma Outra sociedade de bispos tendo o próprio papa como chefe, de uma Outra religião que nos faz pensar nesta abominação da desolação posta no lugar santo, vista pelo profeta Daniel e lembrada por Nosso Senhor em circunstâncias que nos fazem tremer. Já podemos considerar com certo recuo nossas relações com Roma, antes mesmo de aprofundarmos nossas considerações sobre a Outra.
Antes de tudo, desaparece a questão mais delicada:
- Vocês são sedevacantistas? – Não, é justamente o que não somos.
- Então, para vocês, o papa é verdadeiramente o Vigário de Cristo? – Sim, ele é, ele tem todos os sinais. Ele ocupa a sede de Roma, é reconhecido por todo o mundo como papa, e exerce atos de governo próprios ao Pontífice Romano. Esta questão já não se coloca por diversas razões: não há resposta possível porque só um papa futuro poderá julgar o papa atual. Enquanto a Igreja não declarar este juízo solene nossa consideração deve se limitar aos sinais visíveis do pontificado, e nesse caso devemos afirmar que João Paulo II é o Vigário de Cristo.
- Como pode o papa ensinar tantos erros gravíssimos, fazer gestos tão escandalosos, sem perder o carisma papal? – Porque ele é, ao mesmo tempo, o chefe de uma falsa religião fundada no Vaticano II, quando os bispos do mundo todo estabeleceram a Outra. Daí a necessidade de refletir sem medos sobre os fundamentos dessa Anti-Igreja para estabelecer que, efetivamente, ela se constitui como uma falsa religião, com um clero, ritos próprios, um corpo de doutrina e leis específicas.
- Como explicar que a existência dessa Outra não seja a derrota total da verdadeira Igreja Católica? – Aqui o mistério aumenta, sem dúvida. A Santa Igreja Católica está sempre viva, mas sitiada e invadida, como nos dizia Corção acima. Eu não usaria a imagem de uma invasão militar, com um governo ilegítimo esmagando o rei, ou a imagem da Aids espiritual usada por Mons. Lefebvre, mas a invasão de um câncer espiritual, como uma pele, uma fina película transparente e, sobretudo, viva, que engole a Igreja Católica tornando-a prisioneira, sem movimentos próprios, sem palavra, sem rito nem lei. Como todo câncer, ela nasce de dentro e se desenvolve sem controle do organismo, levando-o por um caminho de morte. A transparência desse câncer vem do fato que o governo da Outra é feito pelos mesmos homens, a mesma hierarquia que deveria governar a Igreja Católica. Assim, quando um Mons. Lefebvre, por exemplo, ousava se levantar contra o papa, este ou os bispos lhe apontavam o dedo: atenção, é o papa, são os bispos, obedeça! É claro que nosso bispo, sendo perfeitamente católico, queria obedecer e demonstrar seu apego à Santa Sé, como tantas vezes ele exprimiu, mas desde que ele se aproximava, a voz que ouvia não era a da Mãe, mas uma voz estranha, desconhecida e mesmo monstruosa. Foi diferente em 1988? E em 2001, com Mons. Fellay? As exigências impostas a Mons. Lefebvre de pedir desculpas, em 6 de maio de 1988, ou a recusa de liberar a missa tradicional a todos os padres porque seria um ultraje ao Vaticano II, em 2001, são sinais impressionantes de que as autoridades falavam antes como representantes da Outra e não como chefes católicos.
Será que um papa, enquanto papa, representando a verdadeira Igreja, podia recusar-se a um gesto como este em favor de uma missa santa, perfeitamente legítima e ortodoxa?
- Alguém poderia ainda objetar que a missa de uma tal igreja diabólica não poderia ser válida, enquanto que o próprio Mons. Lefebvre e tantos outros sempre afirmaram que a nova missa é válida. – Ainda aqui, a única resposta que mantém intactos todos os dados da teologia vem dessa usurpação. O câncer que cobre a Igreja não é apenas uma metáfora. É uma realidade analógica, um verdadeiro câncer espiritual. Como tal, ele lança seus tentáculos mórbidos no interior do Corpo Místico de Cristo para sugar sua vida e a eficácia de seus ritos. Ele domina de tal modo a Esposa de Cristo, ele a mantém em tal controle que esta vê as conseqüências terríveis dessa usurpação de sua vida sem poder nada fazer, impotente para vir em auxílio de seus filhos cegos e conduzidos à morte da heresia, do sacrilégio, do pecado.
Todos os sacramentos e sacramentais, tudo o que dependerá de um rito, será assim sugado do coração mesmo da Igreja. E os fiéis serão enganados quando, assistindo a um rito novo, pensarão ver nele algo de ainda católico.
Que esperteza do demônio! Quanta audácia! E que diabólica satisfação não deve ele sentir quando nos vê batendo cabeça uns contra os outros, sem saber muito bem como nos posicionar diante dessa nova versão do William Wilson do conto de Edgar Allan Poe.
Se Mons. Lefebvre compreendeu que era necessário resistir até o fim, até ser “excomungado” – e ele disse bem que era excomungado pela Roma modernista, logo pela Outra – foi em razão da essência não-católica de todo esse mundo do Vaticano II. A famosa Carta que ele escreveu aos quatro bispos sagrados em 30 de junho de 1988 não deixa dúvidas: estes novos bispos deverão depositar aos pés do Santo Padre seu episcopado quando Roma será convertida à Tradição. Não antes, porque eles teriam que tratar com uma outra coisa, uma outra igreja, tendo as mesmas autoridades humanas. Se nós recusamos admitir que trata-se de Outra coisa, cairemos facilmente na armadilha onde caíram os padres de Campos: eles pretenderam que não era possível Deus permitir que toda a hierarquia se enganasse de caminho durante um tempo tão longo. Com a presença do câncer espiritual a questão do tempo não se coloca mais. Pode durar enquanto Deus quiser, como uma purificação necessária, ou como a Paixão da Igreja, seguindo a Paixão do seu Mestre.
Eis, então, a paz que começa a se fazer presente na alma católica libertada de seus escrúpulos, compreensíveis mas tão perigosos. Não será mais preciso ficar como que mal acomodado na cadeira, sem poder aceitar os erros e sem querer lançar para longe a hierarquia constituída. Firmemos nossos pés nesta terra da salvação que é a verdadeira Igreja de sempre. Se ela está prisioneira da Outra, sejamos nós também prisioneiros, excomungados, marginalizados, crucificados, como ela, nossa Mãe, está crucificada e se aproxima desta morte mística própria ao Corpo Místico de Cristo, o que, bem longe de ser uma derrota, é o início da vitória.
As duas tentações presentes em nossos meios já existiam no tempo de Nosso Senhor. Os sedevacantistas se parecem com os apóstolos escandalizados com a Cruz, que fugiram, um após outro, até que só ficou um, São João, o único que tinha atingido, antes mesmo de Pentecostes, um grau particular da Sabedoria. Já os que se inclinam para os acordos com Roma se parecem com os discípulos que abandonaram Jesus em troca da “legalidade” farisaica, porque as apóstrofes do Mestre contra as autoridades eram para eles insuportáveis. – E vós, quereis também partir?... Para onde iríamos, Senhor, só Vós tendes palavras de vida eterna.
Esta paz da alma só pode existir com a graça. Esta graça nada mais é do que um ato de fé sobrenatural continuamente em ação na alma. É um pecado contra a fé que fez cair todos os que partiram, por medo, por escrúpulos ou por excesso de rigorismo. Atraídos irresistivelmente por uma armadilha armada pela Outra, caíram os que fizeram acordos com Roma, nesta falta contra a Fé que responde a nossa questão do início: por que todos, unanimemente, acabam aceitando todo o Vaticano II? Faltando a fé, eles não conseguem mais enxergar nada além do câncer que esgana a verdadeira Igreja.
No outro pólo, os sedevacantistas não são atraídos, mas antes empurrados por uma estranha força que os afasta da Igreja por não suportarem a idéia de que ela possa estar crucificada sobre o Gólgota da religião pluralista de um mundo maçonicamente globalizado.
O ato de fé de que se trata aqui não é uma coisa fácil e evidente. A graça deve ser renovada todos os dias numa constante oração, numa profunda humildade, numa confiança total. Não na confiança nesses homens da hierarquia, visto serem verdadeiros traidores que preferem governar a Outra em vez de governar a Católica. Confiança em Deus, uma fé sem reservas no governo que a Cabeça, o Chefe, Jesus Cristo, exerce sobre sua Esposa mesmo no momento mais doloroso da crucifixão e da morte. Do Gólgota místico onde certamente ela se encontra, desta crucifixão que a torna mais unida e mais semelhante a seu Esposo divino, ou do túmulo onde ela há de passar seus três dias, ela ressurgirá na glória, como Nosso Senhor, para nos deixar a marca do seu Corpo visível, mais belo que nunca, mais santo, desta Esposa sem manchas nem rugas que será para nós a vida do Reino do Céu. “Ressurrexit sicut dixit, Alleluia!””
(Dom Lourenço Fleichman, O.S.B, A Igreja Católica e a Outra)

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