Mostrando postagens com marcador Mentalidade Revolucionária. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mentalidade Revolucionária. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 30 de abril de 2020

O fascínio do absurdo nos movimentos revolucionários


“Um movimento político não se conhece só pelas finalidades que alardeia (sua “ideologia”), nem só pelas ações reais que empreende (os “meios” que emprega), mas pela tensão dialética entre esses dois elementos. O caso do comunismo é especialmente interessante sob esse aspecto, na medida em que os “meios” a que recorreu, embora alegadamente deduzidos da natureza mesma dos fins proclamados, foram sempre e sistematicamente antagônicos a esses fins, os quais, dessa forma, não se chocaram só com a resistência da realidade exterior, mas com a sua própria impossibilidade intrínseca. De fato, construir a “sociedade sem classes” por meio da fusão de todos os poderes (político-militar, econômico e cultural) nas mãos de uma elite revolucionária é uma coisa tão obviamente autocontraditória e impossível — não só logicamente e em abstrato, mas substantivamente — que o simples fato de milhões de pessoas terem apostado suas vidas (e principalmente as alheias) nesse empreendimento eminentemente abortivo só se explica pelo fascínio do absurdo. Um movimento dessa ordem não fica sem efeito, é claro, mas produz efeitos muito diferentes dos pretendidos. “Transforma o mundo”, mas não no mundo imaginário dos seus sonhos e sim num mundo caótico que escapa não só do seu controle, mas da sua compreensão. Não há um só comunista no mundo que consiga olhar de frente o horror que suas ações produziram e admitir que não advieram de coincidências fortuitas e sim da própria lógica interna do seu projeto revolucionário.
Fenômeno similar se observa hoje no movimento “gayzysta”, na ideologia da “diversidade”, no ecologismo e, de modo geral, em todos os projetos globalistas.”

http://diariofilosofico.midiasemmascara.org

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Os desajustados

“Que o advento do capitalismo colocou a economia no centro e no topo da existência é algo que ninguém pode negar, e é óbvio que a esse tipo de vida só se amoldam com algum conforto interior os entusiastas do dinheiro e os conformistas mais medíocres e sonsos.
Todos os outros, por mais gratos ao progresso técnico e ao conforto material, sentem que no mundo capitalista algo de muito essencial e precioso lhes foi roubado: não adianta você dispor de todos os meios se a vida não tem outra finalidade senão produzir mais meios.
Se o capitalismo obteve mais sucesso nos EUA do que em qualquer outro lugar foi apenas porque aí, desde o início, o esforço de produzir e lucrar veio associado à ética cristã da ajuda ao próximo e ao sonho heróico da conquista do território – dois objetivos de vida mais do que suficientes para animar o espírito de um povo.
O capitalismo puro, reduzido ao esquematismo de uma fórmula econômica, tal como se viu nos romances de Balzac e nas análises de Karl Marx que eles inspiraram, jamais existiu nos EUA até o fim da II Guerra.
O que existiu foi um capitalismo vivificado e embelezado pela religião cristã e pelo espírito de aventura. Tão logo o primeiro desses fatores começou a debilitar-se no cenário cultural, e o segundo perdeu todo sentido no território já integralmente dominado, o capitalismo americano deixou de ser um ideal para se tornar uma máquina de auto-reprodução que prescinde de qualquer outra justificativa além da própria capacidade de reproduzir-se e crescer ilimitadamente.
David Riesman, no clássico The Lonely Crowd (1950), assinala que, a partir desse momento, um novo tipo de personalidade-padrão passou a predominar na sociedade americana em substituição ao homem devoto da era colonial e ao self made man dos tempos heróicos: o homenzinho trêmulo e obediente, perfeitamente ajustado ao mecanismo do qual espera proteção e segurança – o Organization Man (1956), como o chamou William H. Whyte Jr. em outro livro clássico.
Não espanta que desde então a burocracia estatal interferisse cada vez mais na economia e até na vida pessoal dos cidadãos, descaracterizando o capitalismo americano e transformando-o cada vez mais num tipo incipiente de socialismo, onde os interesses do Estado convergem com o das grandes corporações no sentido de realizar, por via burocrática, o império da organização econômica como único padrão e critério de julgamento, a que todos os valores religiosos, morais e culturais devem se submeter.
Na mesma medida, uma ética coletivista passa a predominar sobre o ideal da responsabilidade individual, e a crítica cultural de esquerda ao capitalismo, forçando sob esse pretexto a redução de tudo às exigências da economia que ela mesma condena, se torna uma profecia autorrealizável.
Nos EUA, essa situação construiu-se sobre os escombros da tradição cristã e do espírito aventureiro. Nos países onde não encontrou semelhantes fatores de resistência, esse resultado se obteve de maneira muito mais rápida e direta, em muitos deles com o agravante do subdesenvolvimento, onde o misto de capitalismo incipiente, ineficiência e permanente exasperação socialista reduz a vida a uma “luta contra a pobreza”, que é a versão favelada da luta pela prosperidade.
Seja nesses países, seja no capitalismo americano esvaziado de seus valores culturais, onde quer que a economia subjugue dessa maneira as outras dimensões da vida social, o resultado é aquele tipo de existência sem sentido, no qual só se sentem à vontade, de um lado, os mais materialistas, que regem o espetáculo e, de outro lado, os mais burrinhos, incapazes de aspirar a qualquer coisa mais alta que uma sobrevivência protegida.
É aí que começam a brotar, em número cada vez maior, os desajustados, os revoltados, os outsiders.
Há basicamente três tipos de outsiders. Para abreviar, vou chamá-los de “o fracassado”, “o gênio” e “o militante”.
O primeiro é o desajustado em sentido estrito, incapaz de jogar o jogo e até de assimilar as regras. Por mais que tentem ajudá-lo, fracassa nos estudos, no trabalho e na vida social, caindo logo para a loucura, o vício, o crime. Em muitos países – o Brasil, por exemplo – esse tipo representa mais de dez por cento da população.
O segundo compreende muito bem as regras e sabe usá-las, mas prefere jogar o seu próprio jogo. Buscando no interior da sua alma a raiz do espírito que vivifica e fortalece, ele pode enfrentar no início o isolamento e a rejeição, mas acaba sempre obrigando a sociedade a aceitá-lo como ele é, e não raro a render-lhe homenagem, mesmo a contragosto.
Gênios, sobretudo literários, existiram antes do capitalismo, é claro, mas não eram outsiders. Passaram a sê-lo no tempo de Baudelaire e Flaubert, ou, nos EUA, uns poucos a partir da I Guerra e em massa a partir da II.
O terceiro é um misto, feito de versões diluídas e atenuadas dos outros dois. Tem a fraqueza do primeiro, sem o seu derrotismo, e a ambição do segundo, sem a sua força.
Não compreende a sociedade, mas não aceita que ela o esmague. Junta-se portanto a outros milhares iguais a ele, buscando no apoio do grupo as forças que o gênio encontra em si próprio. Incapaz de transformar-se, jura que vai transformar o mundo.
O número de correligionários é o fator decisivo na vida dos militantes. Quando em minoria, reúnem-se para compensar o isolamento grupal com a reiteração histérica do discurso crítico, que lhes infunde um sentimento forçado de superioridade.
Quando se tornam maioria dominante, esse sentimento se transmuta em critério de normalidade, impondo-se à sociedade inteira e marginalizando como doentes ou criminosos aqueles que ainda permanecem normais no sentido antigo.
A pletora de gênios literários que floresceu no mundo desde o século XIX conferiu ao outsider um prestígio quase sacral, que dos gênios se estendeu por osmose aos loucos e aos militantes, como se a doença de uns e a auto-hipnose grupal dos outros fossem formas de genialidade.
As modalidades de existência mais capengas que existem tornaram-se modelos de perfeição humana.
***
Talvez o sinal mais patente de que a militância revolucionária é uma forma inferior e mórbida de existência é a absoluta impossibilidade que um escritor revolucionário tem de enxergar como seres humanos normais, sem deformações sádicas ou grotescas, os que não compartilham das suas crenças.
A literatura mundial está repleta de personagens revolucionários tratados com simpatia e compreensão por escritores conservadores e reacionários, como Balzac, Dostoiévski, Bernanos, Joseph Conrad ou o nosso Octávio de Faria.
Um reacionário que não seja mau ou ridículo é algo que simplesmente inexiste na literatura comunista. Isso mostra, da maneira mais patente, que a visão do mundo revolucionária é uma fantasia histérica, em que a percepção direta do ser humano, tal como ele aparece na vida real, é sufocada sob o peso do estereótipo ideológico.”

http://www.olavodecarvalho.org

terça-feira, 16 de abril de 2019

Naturalismo e revolução


“O Naturalismo consiste na negação da possibilidade da elevação de nossa natureza à Vida Sobrenatural e ordem ou, ainda mais radicalmente, na negação da própria existência daquela Vida e ordem. Se o Naturalismo nega a existência da Vida Sobrenatural, tem seu fundamento no Panteísmo. A razão da última afirmação é clara. Se não há verdade e vida além do âmbito de nossa natureza, então nossa natureza é idêntica à Natureza Divina. O Racionalismo é a aplicação do Naturalismo à razão humana. Envolve a negação ou da existência da Vida Sobrenatural que vem de Nosso Senhor Jesus Cristo ou pelo menos da possibilidade de se poder conhecer essa Vida, mesmo por revelação. Destarte a mente humana é a única fonte de verdade e ordem, com exclusão de Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo.
A palavra Revolução pode ser considerada em dois sentidos. A significação primária é a de uma radical transformação da sociedade empreendida com o propósito de destruir a ordem antiga que se baseava no reconhecimento dos Direitos de Deus através do Corpo Místico de Cristo e da realidade da Vida Sobrenatural da Graça como nossa vida mais nobre e elevada. O segundo significado deriva do anterior. Diz que a palavra é aplicada às doutrinas ou princípios em nome dos quais a transformação social é realizada e às novas instituições estabelecidas em lugar das derrubadas. O objetivo da revolução, portanto, baseia-se na negação dos Direitos de Deus e de nossa Vida Sobrenatural e é a entronização da razão humana como soberana. Em outras palavras, é a inauguração do reino do Naturalismo ou Racionalismo.”
(Rev. Denis Fahey, The Mystical Body of Christ and The Reorganization of Society)

sábado, 24 de outubro de 2015

Como a Esquerda nos roubou a idéia de beleza


“Ser homem significa buscar uma verdade que satisfaça a mente, uma virtude que sacie a consciência, e uma beleza que toque o coração. Se o homem for privado de uma destas coisas, ele não encontrará a felicidade, nem terá paz.
A mais preciosa, a mais profunda e a mais importante das grandes idéias que a Esquerda nos roubou é a beleza. Não preciso gastar muito tempo na proposição de que a vida sem beleza é um pesadelo: aqueles que já contemplaram a beleza verdadeira - a beleza sublime, mesmo que tenha sido só por alguns momentos - não podem comparar isso com mais nada a não ser os êxtases dos místicos e os arrebatamentos dos santos. A beleza consola os tristes; a beleza traz felicidade e aprofunda o conhecimento; a beleza é como a comida e o vinho, e os homens que vivem rodeados de feiúra ficam atrofiados e famintos em suas almas.
Se a beleza é assim tão importante, por que é que não há qualquer discussão em torno dela? A vitória da Esquerda neste campo foi tão súbita, tão extraordinária e tão completa, que a discussão da beleza tornou-se um silêncio total e desolador. Será que você, caro leitor, chegou alguma vez a ler alguma discussão em torno da beleza, propondo uma teoria da beleza, ou mesmo exaltando a importância central da beleza na alma humana, durante o último ano? E nos últimos 10 anos? Será que alguma vez leu? Esta pode muito bem ser a única dissertação em torno deste tópico que você vai ler nesta década; e no entanto o tópico é de suprema importância. É um assunto de vida ou morte não para o corpo, mas para o espírito.
Não há qualquer discussão em torno da beleza porque, ao convencer o público de que a beleza está nos olhos de quem a contempla, a Esquerda colocou a beleza para além da esfera de discussão. Segundo a Esquerda, a beleza é uma questão de gosto, e um gosto arbitrário, note-se. Não há qualquer discussão em torno do gosto porque dar razões para se preferir coisas de bom gosto a coisas de mau gosto é elitista, desagradável, rude e inapropriado. Ter gosto implica que algumas culturas produzem mais e melhores obras de arte que as outras, e isto levanta a desconfortável possibilidade de que o amor à beleza seja eurocêntrico, ou até racista. Admirar a beleza tornou-se um crime de ódio.
Se a beleza está nos olhos de quem a vê, então não há qualquer diferença entre as belas artes e a mera decoração, não há qualquer diferença entre a Mona Lisa de Leonardo da Vinci e um papel de parede. Obviamente que há uma diferença: nós decoramos uma ferramenta útil para torná-la mais agradável à vista ou ao manuseio - tal como pintar detalhes em um carro e bordar imagens em tecido. A arte popular tem como propósito o entretenimento; ela deve satisfazer o olhar e fazer passar o tempo, mas um episódio de I Love Lucy não é feito com o mesmo propósito que o Lago dos Cisnes de Tchaikovsky. A arte não deve ser útil; quando você tem nos braços um bebê e olha para ele, e fica olhando para a maravilha e o milagre da nova vida, você não faz isto porque o bebê é útil.
Se a beleza está nos olhos de quem a vê, então não existe esta coisa de educar o gosto. Pode-se sentar e assistir a um programa de entretenimento bem feito - por exemplo, um desenho animado do Rato Mickey - com prazer e satisfação, e nenhum estudo será necessário para preparar uma pessoa para o apreciar e entender. Mas para se sentar e ler o Paraíso Perdido de Milton com prazer, é preciso que a pessoa já tenha familiaridade suficiente com as figuras clássicas e bíblicas às quais alude, e a satisfação de quem lê aumenta quando se conhecem os modelos épicos, Virgílio e Homero, sobre cujos temas Milton constrói variações tão criativas e impressionantes.
Se a beleza está nos olhos de quem a vê, então qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, pode ser declarada bonita unicamente pelo artista. Tal como Deus a criar luz a partir do nada pelo Poder da Sua Palavra, o artista cria beleza não através de gênio ou perícia, mas do seu fiat explícito. É beleza não porque ele criou algo, mas porque ele assim o declarou.
Seguindo esta lógica, um urinol é bonito, uma lâmpada que acende e apaga, uma cabeça de vaca decapitada e coberta de sangue, moscas e larvas, um copo d'água em uma prateleira, um crucifixo mergulhado em urina, uma lata de excremento, ou uma cama por fazer. O argumento dado pela Esquerda é que você não consegue ver a beleza destas coisas devido às suas limitações, à sua alma destreinada, ao seu embotamento. O argumento meramente ignora o fato de que educar os gostos para serem embotados, filisteus e grosseiros é o oposto de educá-los para que sejam sensíveis à beleza.
A esta altura, o leitor pode estar se questionando quem ou o quê na Esquerda alguma vez fez tais declarações absurdas. Sem dúvida que nem todo esquerdista está preocupado com arte, e nem todos que se inclinam para a Esquerda em outros tópicos adotam a visão de arte dominante entre os esquerdistas. Aqueles que a adotam, contudo, dizem exatamente o que eu digo que eles dizem. Se por acaso você nunca ouviu tais disparates sobre pernas de pau, só posso lhe dizer que você não tem prestado muita atenção ao mundo da arte - o que, diga-se de passagem, é algo positivo da sua parte.
Embora se possa achar que estou brincando, não estou. Cada um dos exemplos que mencionei é real.
Fountain (1917) de Marcel Duchamp é um urinol; Work No. 227, The Lights Going On and Off (2000, Vencedor do Prêmio Turner) de Martin Creed é uma lâmpada piscando; A Thousand Years (1990) de Damien Hirst é a cabeça de uma vaca coberta de larvas; An Oak Tree (1973) de Michael Craig-Martinis é um copo d'água numa prateleira; Piss Christ (1987) de Andres Serrano é um crucifixo mergulhado em urina; Artist’s Shit (1961) de Piero Manzoni é uma lata de excremento; My Bed (1998) de Tracey Emin é uma cama por fazer.
Nossa geração é a primeira da história da Cristandade a não possuir, de todo, belas artes. O público deu as costas ao chafurdar neurótico na auto-repugnância que domina as belas artes, e busca saciar seus desejos nas artes populares: se os retratos geram repugnância, pode-se ainda olhar para cartazes de filmes, calendários e capas de revistas. O tema musical de John Williams no filme Star Wars servirá em lugar de Elgar, Wagner ou Holst. Mas todos estes entretenimentos populares servem para entreter, não para arrebatar.
A arte popular satisfaz os apetites e as paixões. Mesmo que algumas satisfaçam apetites e paixões nobres, não é função das obras populares fazerem o que uma verdadeira obra de arte faz, que envolve esquecer os apetites e as paixões. É por esta razão que uma estátua clássica nua não é como a página central da Playboy. Uma é egoísta, visto que a luxúria é egoísta, e usa a outra como instrumento; a outra é altruísta, visto que o amor é altruísta.
Se, a qualquer altura antes da Primeira Guerra Mundial, fosse perguntado a qualquer filósofo ou intelectual qual era o propósito da arte, da poesia, da música, das pinturas, das esculturas, das obras de arquitetura, todos eles, de todas as gerações para trás até Sócrates, diriam que o propósito da arte é buscar a beleza. O próprio Sócrates teria dito que através da beleza, através do amor forte e pelo desejo que é criado no peito humano em presença de algo sublime, somos atraídos para fora de nós, e somos levados, passo a passo, para longe do mundano em direção do divino.
O argumento mais forte contra o ateísmo tão amado pela Esquerda não é aquele que pode ser expresso em palavras, visto que é o argumento da beleza. Se olharmos para um pôr-do-sol revestido em escarlate, qual rei descendo a sua pira empurpurada, ou nos maravilharmos perante o reluzente trovão de uma cascata, se dermos por nós fascinados pela suave complexidade de uma rosa vermelha ou contemplarmos a fria e virgem majestade da estrela da manhã, ou observamos uma catedral ou um jardim murado, ou ouvirmos a "Ode à Alegria" de Schiller, musicada por Beethoven, ou olharmos para o David de Miguel Ângelo, ou ficarmos imersos na canção e esplendor e tristeza nórdica do “Anel dos Nibelungos” de Wagner, ou do “Senhor dos Anéis” de Tolkien, se, de fato, observarmos beleza genuína e por alguns momentos nos esquecermos de nós mesmos, então seremos atraídos para fora de nós rumo a algo maior.
Nesse momento intemporal de arrebatamento sublime, o coração sabe, mesmo que a cabeça não consiga expressar em palavras, que o enfadonho e quotidiano mundo de traição, dor, desapontamento e mágoa não é o único mundo que existe. A beleza aponta para um mundo para além deste mundo, um domínio mais elevado, um país de alegria onde a morte não existe. A beleza aponta para o divino.
A Esquerda odeia este argumento visto que, como não pode ser expresso em palavras, não pode ser refutado com palavras. Este argumento só pode ser refutado com imagens: um urinol, uma cabeça de vaca cortada, uma lata de excremento, uma cama desarrumada. Estas imagens são feias, agressivamente feias, feitas com o propósito de serem humilhantes, feitas para serem absurdas, chocantes, ofensivas, repugnantes e nojentas. Se a visão da estrela da manhã aponta para um mundo para além deste mundo, justo e pleno de música das esferas, então as visões de excremento e lâmpadas piscando, de cabeças cortadas e camas por fazer apontam-nos para um mundo de desespero vociferador, um cemitério profanado, um monte de estrume.
A Esquerda odeia este argumento porque, se a beleza não está só nos olhos de quem a vê, então a beleza nos diz o que é a verdade, uma verdade real, uma verdade que nos chega de um mundo para além do mundo da propaganda mesquinha, um mundo para além da pornografia. A Esquerda odeia este argumento porque, se a beleza não está só nos olhos de quem a vê, então a beleza é para ser servida, e não usada para prazeres egoístas. A beleza humilha o orgulhoso, pois revela que existe um mundo para além dele mesmo e para além dos seus apetites. E a Esquerda odeia isso.
Acham que estou exagerando? Acham que aquilo com que estamos a lidar nada mais é que uma falta de gosto ou uma educada diferença de opinião, e não ódio? Entrem em um museu de arte moderna: olhem para o urinol, para a cabeça de vaca cortada, para a lata de excremento, para a cama suja. Não são expressões de um ou dois indivíduos aberrantes com problemas psicológicos: é o status quo da nossa cultura há quase um século, uma indústria que envolve quantidades infindáveis de dinheiro público e privado. É a liderança da visão artística controlando nossa civilização, e o que os arqueólogos do futuro irão apontar como as imagens espirituais da nossa era.
Por que é que eles gostam de tais imagens? A resposta não é difícil: a desolação da feiúra ajuda a causa esquerdista de uma forma real e bastante sutil.
Imaginem dois homens: um está em uma casa iluminada, alta e com colunas de mármore, adornada com arte luxuosa, esplêndida e com brilhantes imagens em vidro de heróis e santos, lembranças de grandes mágoas e grandes vitórias, tanto do passado quanto prometidas. Um coro polifônico eleva sua voz em uma canção dourada, cantando uma ode à alegria. O outro homem encontra-se em uma pocilga com papel de parede caindo, ou em uma ruína sem teto infestada de ratos, cercada com lúgubres paredes de cimento borrifadas de excremento e com graffiti irregulares, manchada de palavrões e trêmulas luzes neon publicitando locais de strip. Por perto ouve-se uma ensurdecedora música rap, gritando obscenidades. Um burocrata aproxima-se de cada um dos homens e ordena-os que façam rotinas e tarefas rotineiramente humilhantes, tais como urinar em um copo para serem testados quanto à presença de drogas, ou deixar que suas impressões digitais sejam recolhidas, ou sofrer uma busca na cavidade anal, ou entregar suas armas, ou seu dinheiro, ou seu nome. Qual dos dois homens, em princípio, é mais suscetível a não se submeter?
Qual dos dois homens irá automaticamente assumir que a vida humana é sagrada, que os direitos humanos são sacrossantos, e que o Homem foi feito à imagem e semelhança de Deus? O homem rodeado por imagens divinas? Ou o homem rodeado por escarnecedora sujeira?
Dito de outra forma, qual dos dois homens é mais suscetível de cair vítima de uma visão do mundo sombria, sem significado, sem verdade, sem virtude?
O propósito de quase um século de feiúra agressiva nas belas artes é o de gerar repugnância. Não interessa se você se tornará um fã da pavorosa abominação e horror da arte moderna ou se dará as costas em cínico desgosto e buscará a beleza apenas no entretenimento popular. Tanto os fãs da feiúra como os cínicos repelidos por ela perderam sua inocência. Nenhum dos dois ouvirá o argumento da beleza; nenhum dos dois ouvirá a música das esferas."
(John C. Wright, How We've Been Robbed of Beauty by the Left)

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Uma lição de Hegel

“Na introdução à Filosofia do Direito, G. W. F. Hegel explica que uma das capacidades essenciais do ego humano é a de suprimir mentalmente todo dado exterior ou interior, quer este se imponha como presença física ou por quaisquer outros meios – a capacidade, em suma, de negar o universo inteiro e fazer da consciência de si a única realidade. Se não fosse esta faculdade, estaríamos presos no círculo dos estímulos imediatos, como os animais, e não teríamos o acesso aos graus mais elevados de abstração. A negação do dado – “a irrestrita infinitude da abstração absoluta ou universalidade, o puro pensamento de si mesmo”, segundo Hegel – é uma das glórias peculiares da inteligência humana.
No entanto, é uma força perigosa, quando exercida independentemente de outras capacidades que a compensam e equilibram, entre as quais, evidentemente, a de dizer “sim” à totalidade do real, capacidade da qual o próprio Hegel deu uma ilustração pitoresca no célebre episódio em que, após contemplar por longo tempo uma soberba montanha, baixou a cabeça e sentenciou: “É, de fato é assim.”
Quando o ego vivencia a negação abstrativa como uma experiência de liberdade, e a autodeterminação da vontade se apega a essa experiência, prossegue Hegel, “então temos a liberdade negativa, a liberdade no vazio, que se ergue como paixão e toma forma no mundo.” Vale a pena citar o parágrafo por extenso, tal a sua força analítica e profética:
Quando [essa liberdade] se volta para a ação prática, ela toma forma na religião e na política como fanatismo da destruição – a destruição de toda a ordem social subsistente –, como eliminação dos indivíduos que são objetos de suspeita e a aniquilação de toda organização que tente se erguer de novo de entre as ruínas. É só destruindo alguma coisa que essa vontade negativa tem o sentimento de si própria como existente. É claro que ela imagina querer alcançar algum estado de coisas positivo, como a igualdade universal ou a vida religiosa universal, mas de fato ela não quer que esse estado se realize efetivamente, porque essa realização levaria a alguma espécie de ordem, a uma formação particularizada de organizações e indivíduos, ao passo que a autoconsciência daquela liberdade negativa provém precisamente da negação da particularidade, da negação de toda caracterização objetiva. Conseqüentemente, o que essa liberdade negativa pretende querer nunca pode ser algo em particular, mas apenas uma idéia abstrata, e dar efeito a essa idéia só pode consistir na fúria da destruição.
Esse parágrafo deveria ser meditado diariamente por todos os estudiosos e homens práticos interessados em compreender o mundo da política. Ele elucida algumas constantes do movimento revolucionário que de outra maneira seriam inexplicáveis – tão inexplicáveis e paradoxais que a mente do observador comum se recusa a enxergá-las juntas, preferindo apegar-se a aspectos isolados, ocasionais e temporários, imaginando erroneamente ver aí a totalidade ou a essência do fenômeno.
Uma dessas constantes é a permanente negação de si mesmo, que permite ao movimento revolucionário tomar as mais variadas formas, mudando de rosto do dia para a noite e desnorteando não só o adversário como também uma boa parte dos seus próprios adeptos. Como a unidade de propósitos do movimento é uma pura abstração e seus objetivos proclamados de um momento são apenas encarnações imperfeitas e temporárias dessa abstração, ele pode se despir das suas manifestações particulares como quem troca de meias, sem nada perder e até elevando-se a novos patamares de poder mediante a mudança repentina de uma política para a política oposta, pronto a voltar à anterior sem aviso prévio se as circunstâncias o exigirem. Guerrilhas e terrorismo, por exemplo, jamais alcançam a vitória no terreno militar, mas produzem um anseio geral de paz, e este pode ser atendido negando a legitimidade da violência que ainda ontem se defendia como um direito inalienável, extraindo da casca violenta um núcleo de “reivindicações” supostamente “legítimas” e oferecendo a “paz” em troca do poder “legalmente conquistado”. A derrota transfigura-se em vitória, a negação em afirmação triunfante. O partido governante do Brasil chegou ao poder exatamente por esse artifício, cujo know how ele agora oferece às Farc. Quando uma parcela do movimento revolucionário renega sua própria violência, é que a violência está em vias de alcançar seus objetivos. Essas mutações não seriam viáveis se os fins e valores concretos proclamados pelo movimento revolucionário – sua “caracterização particular objetiva”, diria Hegel – tivessem alguma realidade em si mesmos e não fossem apenas figuras ilusórias projetadas temporariamente pela abstração de fundo.
Mas a autonegação não afeta só os discursos, os pretextos ideológicos da revolução. Ela atinge o corpo mesmo do movimento, periodicamente sacrificado no altar das suas próprias ambições.
A base última da sociedade humana, ensinavam S. Paulo Apóstolo e Sto. Agostinho, é o amor ao próximo. Tingida ou não de ódio ao estranho (que é por assim dizer a sua contrapartida demoníaca, reflexo da imperfeição inerente do amor humano e não um fator substantivo independente como pretendia Emmanuel Levinas), a comunidade do espírito, devoção comum a um sentido de vida aberto para a transcendência, reflui sobre cada um dos seus membros, aureolando-o de uma espécie de sacralidade aos olhos dos demais, seja nomeando-o um membro do corpo de Cristo ou da umma islâmica, um civis romanus, um descendente de Moisés, um herdeiro da tradição nhambiquara ou um simples “cidadão” da democracia moderna, partícipe na comunidade dos direitos invioláveis adquiridos, em última análise, de instituições religiosas milenares. Não é concebível nenhuma “fraternidade” sem uma “paternidade” comum. Mesmo na esfera mais imediata da vida econômica, nenhum comércio frutífero é possível sem a “sociedade de confiança” da qual falava Alain Peyrefitte, fundada na crença de que os valores sagrados de um não serão violados pelo outro.
Em contraste com essa regra universal, o movimento revolucionário diferencia-se pela constância com que, nas organizações e governos que cria, seus próprios membros se perseguem e se aniquilam uns aos outros com uma obstinação sistemática e em quantidades jamais vistas em qualquer outro tipo de comunidade humana ao longo de toda a história. A Revolução Francesa cortou mais cabeças de revolucionários que de padres e aristocratas. A Revolução Russa de 1917 não se fez contra o tzarismo, mas contra os revolucionários de 1905. O nazismo elevou-se ao poder sobre os cadáveres de seus próprios militantes, imolados ao oportunismo de uma aliança política na “Noite das Longas Facas” em 29 de junho de 1934. Mas seria uma ilusão imaginar que esses rituais sangrentos reflitam apenas o furor passageiro das hecatombes revolucionárias. Uma vez consolidados no poder, os partidos revolucionários redobram de violência, movidos pela suspeita paranóica contra seus próprios membros, matando-os aos milhões e dezenas de milhões com uma sanha que ultrapassa tudo o que os mais violentos próceres da reação jamais pensaram em fazer contra eles. Nenhum ditador de direita jamais prendeu, torturou e matou tantos comunistas quanto os governos da URSS, da China, do Vietnã, do Camboja, da Coréia do Norte e de Cuba. As lágrimas de ódio que sobem à face dos militantes de esquerda quando falam de Francisco Franco, de Augusto Pinochet ou mesmo da brandíssima ditadura brasileira, não expressam senão um mecanismo histérico de autodefesa moral – a “repressão da consciência”, como a chamava Igor Caruso –, a projeção inversa das culpas incalculavelmente maiores que o movimento revolucionário tem para com milhões de seus próprios fiéis.
A contrapelo da inclinação universal da natureza humana para fundar a vida social no amor ao próximo, o movimento revolucionário cria sociedades inteiramente baseadas no ódio, fazendo da unidade provisória inspirada no ódio a este ou àquele inimigo externo ou interno um arremedo satânico do amor.
Nada disso seria possível se os ideais e bandeiras erguidos pelo movimento revolucionário a cada passo da sua história tivessem alguma substancialidade em si mesmos. Neste caso a fidelidade comum aos valores sagrados protegeria os membros da comunidade revolucionária uns contra os outros. Mas esses ideais são como as figuras formadas pelas nuvens no céu, condenadas a dissipar-se ao primeiro vento, deixando atrás de si apenas o céu vazio. A única, central e permanente fidelidade do movimento revolucionário é à liberdade abstrata, que, com suas irmãs siamesas, a igualdade abstrata e a fraternidade abstrata, não pode encarnar-se perfeitamente em nenhuma forma particular histórica e, não consistindo senão de vazio absoluto, só pode encontrar a satisfação de um sentimento fugaz de existência no exercício da aniquilação, na insaciável “fúria da destruição”.”
(Olavo de Carvalho, Uma Lição de Hegel)

http://www.olavodecarvalho.org