“Por que havemos de nos perder em tantas considerações, procurando saber como devemos orar e temendo que as nossas orações não sejam como devem ser? Digamos antes com o salmo: Uma só coisa peço ao Senhor, por ela anseio: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar da suavidade do Senhor e contemplar o seu santuário. Nesta morada não se sucedem os dias um após outro, nem o início de um dia assinala o fim do outro dia; ali todos os dias estão simultaneamente presentes e não têm fim, porque também a vida ali não tem fim.
Para conseguir esta vida bem-aventurada, a própria Vida verdadeira nos ensinou a orar; mas não nos ensinou que devíamos pronunciar muitas palavras, como se fôssemos tanto mais facilmente atendidos quanto mais loquazes nos mostrássemos, porque na oração, como diz o próprio Senhor, dirigimo-nos Àquele que sabe perfeitamente o que nos é necessário, mesmo antes de Lho pedirmos.
Pode parecer estranho que nos exorte a orar Aquele que sabe perfeitamente o que nos é necessário ainda antes de Lho pedirmos. Devemos compreender, porém, que Deus Nosso Senhor não pretende que Lhe demos a conhecer os nossos desejos, que aliás não Lhe podem ser ocultos, mas que exercitemos a nossa vontade, para nos tornarmos capazes de receber o que Ele está disposto a dar-nos. Os seus dons são muito grandes e a nossa capacidade de receber é pequena e muito limitada. Por isso nos é dito: Dilatai o vosso coração; não vos sujeiteis ao mesmo jugo dos infiéis.
Quanto mais fielmente acreditarmos, mais firmemente esperarmos e mais ardentemente desejarmos este dom, mais capazes seremos de o receber... Assim, portanto, havemos de orar, na fé, esperança e caridade, exercitando continuamente a nossa vontade... Quanto mais ardente for o afeto, tanto maior será o efeito. Por isso, quando diz o Apóstolo: Orai sem cessar, que outra coisa quer ele dizer senão que devemos desejar incessantemente a vida bem-aventurada, que só pode ser a vida eterna, pedindo-a Àquele que é o único que a pode dar?”
(Santo Agostinho, Epístola 130)
Mostrando postagens com marcador Santo Agostinho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Santo Agostinho. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 3 de maio de 2017
sexta-feira, 10 de junho de 2016
A verdade gera o ódio
“Por que é que a verdade gera o ódio? Por que é que os homens têm como inimigo aquele que prega a verdade, se amam a vida feliz, que não é mais que a alegria vinda da verdade? Talvez por amarem de tal modo a verdade que todos os que amam outra coisa querem que o que amam seja a verdade. Como não querem ser enganados, não querem se convencer de que estão em erro. Assim, odeiam a verdade, por causa daquilo que amam em vez da verdade. Amam-na quando os ilumina, e odeiam-na quando os repreende. Não querendo ser enganados e desejando enganar, amam-na quando ela se manifesta e odeiam-na quando os descobre. Porém a verdade castigá-los-á, denunciando todos os que não quiseram ser manifestados por ela.”
(Santo Agostinho, Confissões)
(Santo Agostinho, Confissões)
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Os justos perseguidos na Igreja
“Por vezes, permite a própria divina Providência que homens justos sejam desterrados da Igreja católica por causa das sedições turbulentas de homens carnais.
Se as vítimas dessas injustiças ou injúrias suportarem-nas com paciência, pela paz da Igreja, sem introduzir movimentos cismáticos ou heréticos, ensinarão a todos com que verdadeiro afeto e sincera caridade se deve servir a Deus.
A intenção de tais homens é o regresso, uma vez passada a tempestade. Mas, se não lhos permitirem – por não ter cessado o temporal ou por haver ameaça de que se enfureça ainda mais com o seu retorno – mantêm-se na firme vontade de prover o bem dos próprios agitadores a cuja sedição e turbulência tiveram de ceder: e, sem suscitar divisões, defendem até a morte e confirmam com seu testemunho aquela fé que sabem ser pregada pela Igreja católica.
A esses, o Pai que vê no secreto interior coroará secretamente. Parece ser rara essa categoria de homens, mas exemplos não faltam e são ainda mais freqüentes do que se poderia crer.
Assim, a divina Providência vale-se de toda categoria de homens e de situações para a santificação das almas e para a edificação do povo de Deus.”
(Santo Agostinho, De Vera Religione)
Se as vítimas dessas injustiças ou injúrias suportarem-nas com paciência, pela paz da Igreja, sem introduzir movimentos cismáticos ou heréticos, ensinarão a todos com que verdadeiro afeto e sincera caridade se deve servir a Deus.
A intenção de tais homens é o regresso, uma vez passada a tempestade. Mas, se não lhos permitirem – por não ter cessado o temporal ou por haver ameaça de que se enfureça ainda mais com o seu retorno – mantêm-se na firme vontade de prover o bem dos próprios agitadores a cuja sedição e turbulência tiveram de ceder: e, sem suscitar divisões, defendem até a morte e confirmam com seu testemunho aquela fé que sabem ser pregada pela Igreja católica.
A esses, o Pai que vê no secreto interior coroará secretamente. Parece ser rara essa categoria de homens, mas exemplos não faltam e são ainda mais freqüentes do que se poderia crer.
Assim, a divina Providência vale-se de toda categoria de homens e de situações para a santificação das almas e para a edificação do povo de Deus.”
(Santo Agostinho, De Vera Religione)
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
A heresia donatista

“Se falamos em cisma a propósito do donatismo africano, não significa que, no fundo, não houvesse verdadeira heresia. O cisma nasceu por ocasião da eleição de Ceciliano para arcebispo de Cartago. Formou-se um partido contra ele. Pretenderam que sua consagração, pelo bispo Félix de Aptonge, era inválida. Dizia-se que Félix, nos tempos de perseguição, entregara os Livros Sagrados à polícia. O fato de ter sido traidor, como se dizia, lhe tiraria para sempre o poder de consagrar validamente. Essa teoria se aproxima um pouco da de São Cipriano, bispo de Cartago. Também ele afirmava, contra o sentir de Roma, que o batismo conferido por hereges era inválido. De fato, os adversários de Ceciliano invocaram a autoridade de Cipriano. Seu chefe era um tal Donato, bispo de Casa Negra, na África. Seu principal teólogo, outro Donato, a quem deram a alcunha de o Grande. Daí o nome de donatistas. Num país de paixões vivas, como a África, e em que eram muitos os descontentes com a dominação romana, foi fácil encontrar partidários. Os donatistas chegaram mesmo a ter tropas de choque, como diríamos hoje, em forma de grupos fantasiados, constituídos por homens que se chamavam a si mesmos de soldados de Cristo, mas que os católicos chamavam de circumcelliones ou vagabundos de palhoças.
Doutrinariamente, os donatistas, incluindo as variantes, professavam dois princípios igualmente heréticos: 1º) Os pecadores públicos e manifestos, notadamente os bispos e padres prevaricadores, não pertenciam mais à Igreja. 2º) Fora da verdadeira Igreja, todos os sacramentos eram inválidos.
Fato ainda mais grave, os donatistas queriam expulsar da Igreja não só os bispos e padres acusados de prevaricações, mas ainda todos os fiéis que continuavam em comunhão com eles. Acabavam considerando-se a única verdadeira Igreja! Todo o resto da Igreja, segundo eles, estava fora da verdade. Estavam bem longe do verdadeiro espírito de misericórdia que reina no Evangelho!
Heresia tão radical e perigosa seria vigorosamente combatida pelos católicos. De fato, o donatismo foi condenado nos concílios de Latrão, em Roma, em 313, depois no de Arles, em 314, presidido pelo imperador Constantino. Desde então, todos os imperadores – exceto Juliano, o Apóstata – foram adversários intransigentes do donatismo, mas não puderam erradicá-lo. Em favor da seita agiam razões políticas e um nacionalismo africano semelhante ao que vemos em nossos dias.
O grande adversário doutrinal do donatismo, no século V, foi Santo Agostinho, bispo de Hipona. Em 411, em Cartago, houve um grande concílio contraditório. Havia 286 bispos católicos africanos contra 279 donatistas. Em quase todas as localidades africanas, havia, portanto, dois bispos: um católico e um donatista. Graças à eloqüência e ciência bíblica de Agostinho, o concílio confundiu os cismáticos. O Estado tomou sérias medidas contra eles. As conversões se multiplicaram e, pouco a pouco, a heresia desapareceu.
Estas discussões, às vezes acaloradas, tiveram um bom resultado. Estabeleceu-se: 1º) que não se sai da Igreja pelo pecado, mesmo que seja mortal e público, mas somente pela apostasia da fé; 2º) que para a validade do sacramento, não se exige o estado de graça no ministro do sacramento.”
(Mons. Léon Cristiani, Brève Histoire des Hérésies)
Tradução de José Aleixo Dellagnelo
Marcadores:
Mons. Léon Cristiani,
Santo Agostinho,
São Cipriano
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Cardeal John Newman e as diferenças entre Santo Agostinho e Lutero quanto à justificação

“A questão principal é se a Lei Moral pode em sua substância ser obedecida e cumprida pelos regenerados. Agostinho diz que embora sejamos por natureza condenados pela Lei, somos também capazes, pela graça de Deus, de cumpri-la para nossa justificação; Lutero [e igualmente Calvino], que, embora condenados pela lei, Cristo mesmo a cumpriu para nossa justificação; Agostinho, que nossa retidão é ativa; Lutero, que é passiva; Agostinho, que é dada, Lutero, que é só imputada; Agostinho, que ela consiste em uma modificação do coração; Lutero, em uma modificação de estado. Lutero afirma que os mandamentos de Deus são impossíveis ao homem; Agostinho acrescenta, impossíveis sem Sua graça; Lutero, que o Evangelho se compõe só de promessas; Agostinho, que ele é também uma lei; Lutero, que nossa sabedoria mais alta é não conhecer a Lei; Agostinho diz, ao contrário, que é conhecê-la e cumpri-la – Lutero diz que a Lei e Cristo não podem viver juntos no coração. Agostinho diz que a Lei é Cristo; Lutero nega e Agostinho afirma que obediência é uma questão de consciência. Lutero diz que um homem se faz cristão não trabalhando, mas ouvindo; Agostinho exclui só aquelas obras feitas antes que a graça seja dada; Lutero diz que nossas melhores ações são pecados; Agostinho, que elas são realmente agradáveis a Deus.”
(Cardeal John Newman, Lectures on Justification)
Marcadores:
Cardeal John Newman,
Justificação,
Martinho Lutero,
Santo Agostinho
Assinar:
Postagens (Atom)



