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quarta-feira, 11 de março de 2020

Julius Evola: Para uma historiografia de Direita


“A propósito de considerações sobre o significado europeu que pode ser atribuído a Donoso Cortés, interessante figura de homem político e de pensador espanhol, cujas atividades se situam no período dos primeiros movimentos revolucionários e socialistas da Europa, Carl Schmitt, conhecido historiador alemão, salientou o seguinte: embora, desde então, as esquerdas tenham elaborado sistematicamente e aperfeiçoado uma historiografia própria como fundamento geral da sua ação destrutiva, nada de semelhante se verificou no campo oposto, isto é, no campo da Direita, no seio da qual tudo se reduziu a alguns ensaios esporádicos, que em nada são comparáveis, pela coerência, pelo radicalismo e pela largueza de horizontes, àquilo que, desde há muito, propõem o Marxismo e a Esquerda em semelhante domínio.
Esta observação é em grande parte justa. Com efeito, a única história, conhecida universalmente e com autoridade, à exceção da história de inspiração marxista, tem essencialmente natureza e origens liberais, iluministas e maçônicas. Refere-se às ideologias do Terceiro Estado, que apenas serviram para preparar o terreno aos movimentos radicalizantes de esquerda, já que os seus fundamentos são essencialmente antitradicionais. Uma historiografia de Direita espera ainda a vez de ser escrita: o que constitui um sinal de inferioridade em relação às ideologias e à ação agitadora das esquerdas. De modo mais particular, nem mesmo a história corrente, de orientação patriótica, pode suprir esta lacuna, pois, fora dos seus possíveis cambiantes nacionais e das evocações comovidas de acontecimentos e de figuras heróicas, ela própria se ressente, e em larga conta, das sugestões de um pensamento que não é de modo algum o pensamento de uma Direita, e, sobretudo, porque não pode suportar a comparação, quanto à largueza de horizontes, com a historiografia de esquerda.
Eis o ponto fundamental.
De fato, somos obrigados a reconhecer que a historiografia de esquerda soube abranger as dimensões essenciais da História: para lá dos conflitos e das perturbações políticas episódicas, para lá da história das nações, soube descobrir o processo geral e essencial que se realizou durante os últimos séculos, no sentido da passagem de um tipo de civilização e de sociedade a outro. Que a base da interpretação tenha sido, a esse respeito, constituída pela economia e pelas classes, isso nada tira à amplitude do programa que foi traçado por esta historiografia, a qual, como realidade essencial para lá do contingente e do particular, nos indica, no curso da História, o fim da civilização feudal e aristocrática, o aparecimento da civilização burguesa, liberal, capitalista e industrial, e, depois desta, o anúncio e o começo da realização de uma civilização socialista, marxista e, finalmente, comunista. Aqui, a revolução do Terceiro Estado e a do Quarto Estado são reconhecidas no seu encadeamento natural, causal e tático. A idéia de processos preestabelecidos, para os quais, sem querer nem saber, contribuíram os egoísmos mais ou menos “sagrados” dos povos, as rivalidades e as ambições daqueles que pensaram “fazer a história” sem sair do domínio do particular, tal é a idéia que devemos tomar em consideração. Por isto estudamos as transformações de conjunto e a estrutura social e da civilização, que são o efeito direto do jogo das forças históricas, relegando com exatidão a história das nações para a simples fase “burguesa” do desenvolvimento geral: com efeito as nações só apareceram na história, como sujeito desta, a partir da revolução do Terceiro Estado, e como sua consequência.
Comparada à historiografia de esquerda, a historiografia que é própria a outras tendências aparece pois superficial, episódica, a duas dimensões, até mesmo frívola. Uma historiografia de Direita deveria abranger os mesmos horizontes que a historiografia marxista, com a vontade de apreender o real e o essencial do processo histórico, que se desenrolou no curso dos últimos séculos, fora dos mitos, das superestruturas e também da crônica vulgar. Isto, naturalmente, invertendo os sinais e as perspectivas: isto é, vendo, nos processos essenciais e convergentes da história mais recente, não as fases de um progresso político e social, mas as de uma subversão geral. É evidente que as premissas econômico-materialistas deveriam ser igualmente eliminadas, reconhecendo como simples ficções o homo oeconomicus e o presumível determinismo inexorável dos diversos sistemas da produção.
Forças bem mais vastas, profundas e complexas, agiram e agem na história. Quanto aos detalhes, o mito do “comunismo primordial” é também ele rejeitado por aí opor, para as civilizações que precederam as de tipo feudal e aristocrático, a idéia de organizações, de preferência baseadas num princípio de pura autoridade espiritual, sacral e tradicional. Mas, à parte isto – repitamo-lo –, uma historiografia de Direita reconhecerá, não menos do que a de esquerda, a sucessão ou o encadeamento de fases distintas gerais e supranacionais, as quais conduziram regressivamente até à desordem e às perturbações atuais: tal será, para ela, a base de interpretação dos fatos particulares e das mudanças, sem nunca deixar de estar atenta aos efeitos produzidos por estes últimos no quadro social.
É impossível indicar aqui, nem mesmo à força de exemplos, toda a fecundidade de um tal método e a luz insuspeitada que projetaria sobre muitos acontecimentos. Os conflitos político-religiosos da Idade Média imperial, a constante ação cismática da França, as relações entre a Inglaterra e a Europa, o verdadeiro sentido das “conquistas” da Revolução Francesa, e assim por diante, até episódios de interesse particular, a Itália como o rosto efetivo da revolta das comunas, o duplo aspecto do “Risorgimento” italiano, enquanto movimento nacional, acionado no entanto por ideologias do Terceiro Estado, o significado da Santa Aliança e os esforços de Metternich – o último grande europeu –, o significado da primeira guerra mundial com a ação de contragolpe das suas ideologias, a discriminação entre o positivo e o negativo nas revoluções nacionais, que se afirmaram ontem na Itália e na Alemanha, e assim por diante, até chegar, finalmente, a uma visão conforme a realidade nua das verdadeiras forças, hoje em luta pelo domínio do mundo: eis uma escolha de argumentos sugestivos, entre tantos outros, aos quais se poderá consagrar a historiografia de Direita, para assim revolucionar os pontos de vista que o maior número está habituado a ter em tudo isto pelo efeito de uma historiografia de orientações opostas, e para agir de modo esclarecedor.
Uma historiografia assim concebida, e visando portanto o universal, encontrar-se-ia de modo muito particular à altura dos tempos, se é verdade que, por efeito de processos objetivos irreversíveis, cada vez se perfilam mais, hoje em dia, agrupamentos que não são apenas constituídos por unidades étnicas e políticas, particulares e fechadas. Infelizmente, esta historiografia desejada corresponderia unicamente a um aumento de conhecimentos. No estado atual das coisas, só dificilmente poderíamos esperar dela uma eficácia também prática, na perspectiva de uma ação decidida, de uma luta global e inexorável contra as forças que estão quase a derrubar o pouco que resta da verdadeira tradição européia.
Seria preciso, com efeito, que existisse, como contrapartida, uma Internacional de Direita, organizada e munida de um poder comparável ao da Internacional comunista. Ora sabe-se infelizmente que, devido à carência de homens dotados de uma grande elevação espiritual e de uma autoridade suficiente, devido ainda à prevalência de interesses partidários e de pequenas ambições, devido também a uma falta de verdadeiros princípios, e sobretudo de uma falta de coragem intelectual, não foi possível, até agora, constituir um governo unitário de Direita, nem mesmo só na Itália, e só nos tempos recentes foi possível ver anunciarem-se iniciativas neste sentido.”

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quarta-feira, 3 de abril de 2019

São Ricardo Bachedine

"Ricardo Bachedine nasceu na Inglaterra em 1197, já em meio a uma tragédia familiar: os pais, que eram nobres e ricos, de repente caíram na miséria. Logo depois, morreram e deixaram-lhe como herança muitas dívidas e um casal de irmãos. Por isso Ricardo teve de deixar os estudos com os beneditinos em Worcester e voltou para casa para ajudar a restaurar as finanças. A situação melhorou e ele voltou para os estudos, deixando as propriedades aos cuidados de um bom administrador, resguardando, assim, os irmãos de qualquer imprevisto.
Ricardo completou sua formação na Universidade de Oxford, onde foi eleito reitor. Desde então, começou sua atuação em prol da Igreja, pois eram anos de grande corrupção moral.
O povo, ignorante e supersticioso, aceitava passivamente a vida devassa dos nobres e do clero, que há muito estava afastado da disciplina monástica. Ricardo, ao contrário, vivia com austeridade e passou a lutar por uma reforma geral nos meios católicos, para com isso elevar o nível de vida do povo, tanto material quanto espiritual. Na universidade, favoreceu a aceitação dos frades franciscanos e dominicanos, que aos poucos instituíram a volta da disciplina e da humildade entre os religiosos e seus agregados.
Essa postura acabou gerando retaliações do rei Henrique III ao bispo da Cantuária, sob a orientação de quem Ricardo agia. Perseguido pelo rei, o bispo buscou exílio na França e Ricardo o acompanhou fielmente até que morresse. Foi neste período que, por insistência do bispo, ordenou-se sacerdote, apesar dos seus quarenta e cinco anos. Os seus talentos e sua dedicação foram recompensados um ano depois, quando o arcebispo da Cantuária consagrou-o bispo de Chichester. Henrique III ficou furioso, apossando-se dos bens da diocese e proibindo Ricardo de assumir seu cargo.
Mas Ricardo não se intimidou, voltou disfarçado de mendigo e, na clandestinidade, atuou durante dois anos, organizando o trabalho pastoral da diocese junto ao povo explorado. Entretanto o papa Inocêncio IV perdeu a calma e ameaçou excomungar o rei, que teve de aceitar Ricardo como bispo de Chichester. Assim, ele pôde atuar com liberdade até morrer, em Dover, no dia 3 de abril de 1253, a caminho de uma cruzada.
Ricardo foi sepultado no cemitério da catedral de Chichester e sua santidade era tanta que, nove anos depois, o papa Ubaldo IV o canonizou. Em 1276, com a presença do casal real dos ingleses e outras cabeças coroadas da Europa, o corpo de são Ricardo foi transferido para um relicário dentro do altar maior da catedral, o qual depois foi destruído pelo cismático rei Henrique VIII, em 1528. Mas suas relíquias foram secretamente levadas para várias igrejas da diocese. Somente em 1990 elas foram reunidas e voltaram para a catedral de Chichester, onde foram depositadas na urna sob o mesmo altar.
São Ricardo é festejado, tanto pelos católicos como pelos anglicanos, no dia 3 de abril, sendo venerado como padroeiro dos cavaleiros e dos cocheiros."

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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O General Patton revelou a verdade sobre a Segunda Guerra Mundial, e foi assassinado por isso

“Descendente de pioneiros americanos, o general George Patton considerava o nazismo como um mal satânico. Pelo menos isso era o que havia ouvido dizerem propagandistas, periodistas e homens de estado.
Chegou à Alemanha odiando-a. Acreditava que os nazistas deviam ser castigados. Foi então que uma agricultora alemã que vivia na vizinhança de seu quartel general deu de cruzar seu caminho e durante uma conversa casual lhe contou as coisas que aconteciam por trás da “vila do comandante”, ou seja a casa do general.
A agricultora descreveu como o leite destinado às cidades era esvaziado nas ruas pela polícia militar por ordem dos rapazes de Henri Morgenthau; como, já não os nazistas mas os soldados alemães comuns eram detidos em campos de internação lotados simplesmente porque cumpriam seu dever; como os trabalhadores haviam sido expulsos de suas casas por causa dos sentimentos negativos dos antigos hóspedes dos campos de concentração, e como os médicos judeus nos hospitais recomendavam que cada quarto bebê recém-nascido fosse morto com uma injeção porque não havia suficiente leite.
O general Patton se dirigiu então como cavaleiro andante medieval, para comprovar com seus próprios olhos se a história da camponesa alemã era verdadeira ou não. Sem manifestar sua patente, com uniforme de soldado raso, percorreu grande parte desse inferno: as prisões, os campos de internação e o das prisões, onde comprovou por si mesmo que aqueles que torturavam os alemães e que ensinavam a teoria da culpa coletiva e pregavam o castigo coletivo não eram exatamente rapazes americanos.
A partir desse momento os oficiais do exército dos Estados Unidos receberam ordens estritas de dar suficiente alimento aos prisioneiros de guerra, já meio mortos de inanição, e se proibiu derramar nas ruas o leite destinado aos bebês.
O general Patton não estava preparado para levar a cabo o plano Morgenthau, embora houvesse lutado pelos Estados Unidos... e sem suspeitá-lo, por outros. Mas havia outro general disposto e desejoso de cumprir com tal plano: seu nome era Dwight Eisenhower.
Na Tchecoslováquia, em 1945, os tanques do general Patton haviam penetrado até Pilzen, a 50 quilômetros de Praga, mas Eisenhower lhes ordenou que se retirassem. Todo o país foi abandonado para que o ocupassem as tropas comunistas. O general Sergei Bunyachenko, russo anticomunista, encabeçava 23.000 soldados russos que não queriam regressar à URSS, e ao saberem da retirada de Patton seguiram-no. Mas Eisenhower ordenou que fossem entregues à URSS. Muitos se suicidaram.
O militar russo Andrei Vlasov, ex-comandante do 2º exército soviético, havia combatido um ano contra os alemães. Depois foi derrotado e capturado. Na Alemanha formou unidades russas de voluntários e ao terminar a guerra se apresentou ao quartel do general Patton, comandante do terceiro exército americano, a pedir asilo. O general Patton negociava para que os russos anticomunistas não fossem obrigados a regressar à URSS. Então Eisenhower lhe disse que enviasse o general Vlasov a seu quartel general, mas no caminho foi entregue à NKVD. Pouco depois o degolaram na URSS e passearam sua cabeça enfiada numa vara.
No território alemão não ocupado pelos soviéticos havia cinco milhões de russos que não queriam regressar à URSS. Não eram somente prisioneiros, mas famílias inteiras, mães e crianças. Eisenhower ordenou que o general Patch, comandante do 7º exército, entregasse todos esses russos ao Exército Vermelho.
O general Patch achou aquilo tão cruel que pediu a Eisenhower que lhe desse dita ordem por escrito. E Eisenhower lhe ordenou a 20 de dezembro de 1945: “Todos os cidadãos soviéticos devem ser repatriados sem perguntar se o desejam, e usando da força caso necessário.”
Em muitos casos, efetivamente foi necessário usar tanques contra aqueles infelizes que se negavam a regressar ao paraíso comunista.
O general Patton era um dos militares mais distintos dos Estados Unidos. Interpretando o sentir de muitos companheiros seus, reprovou essa estranha cumplicidade com o marxismo, e disse:
“Imagino o que diriam os mortos quando soubessem que pela primeira vez em séculos abrimos a Europa central às forças de Gêngis Khan. Pergunto-me como se sentiriam eles agora ao saberem que não haverá paz em nossos tempos e que os americanos, até os ainda não nascidos, terão que lutar com os soviéticos amanhã, ou dez, quinze ou vinte anos a partir de amanhã.”
O general Patton se opôs aos abusos cometidos em nome de sua pátria, e ameaçou publicamente mudar-se para a América e fazer que o verdadeiro povo americano ouvisse sua voz, informando-lhe as infâmias cometidas à sombra da bandeira americana.
Não era possível condenar o “cavaleiro das divisões blindadas” em Nuremberg, e portanto se condenou a Patton por trás dos panos, e sentenciaram-no à morte. Mas as pessoas que o julgaram eram as mesmas que haviam condenado os líderes alemães em Nuremberg.
Apesar do fato ter sido abafado, hoje é bem sabido que, por ordem dos agentes da C.I.C (Counter Intelligence Corps), um automóvel “americano” chocou-se com o do general Patton. Como resultado desse “acidente”, o general Patton ficou ferido. O general foi trasladado rapidamente para uma ambulância, mas com tanto azar, que a caminho do hospital a ambulância foi “acidentalmente” abalroada por um pesado caminhão “americano”, e desta vez morreu o general. Nesse momento algo desapareceu de seu bolso: algo que os “vencedores da guerra” temiam, e com muita razão:
“Tenho um pequeno livro negro! - havia dito o general -, “e quando voltar aos Estados Unidos farei explodir a bomba.””

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domingo, 6 de maio de 2018

A Jacquerie


“Muito pouco tempo depois da liberação do rei de Navarra, sucedeu uma terrível e grande tribulação em muitas partes do reino da França, em Beauvaisis, em Brie, junto ao rio Marne, em Laon, Valois, a terra de Coucy e os arredores de Soissons. Algumas gentes das vilas camponesas se reuniram sem chefe em Beauvaisis. A princípio não eram nem cem homens e disseram que todos os nobres do reino da França, cavaleiros e escudeiros traíram o reino, e que seria um grande bem destruir a todos. Cada um deles dizia: “É verdade! É verdade! Maldito seja quem por ele não sejam destruídos todos os gentis-homens”.
Então, sem outro conselho e sem outra armadura além de bastões com pontas de ferro e facas, foram à casa de um cavaleiro que estava próxima dali. Destruíram a casa, mataram o cavaleiro, a dama e os filhos, grandes e pequenos, e incendiaram tudo. Logo foram a um castelo e ali ainda fizeram pior, pois prenderam o cavaleiro e o ataram a uma estaca muito fortemente e muitos violaram a mulher e a filha diante do cavaleiro. Depois mataram a mulher, que estava grávida, a sua filha e todos os filhos, e o marido, depois de torturá-lo, o queimaram e destruíram o castelo.
Assim fizeram em muitos castelos e boas casas, e foram crescendo tanto que chegaram a seis mil. Aumentavam porque todos os de sua condição lhes seguiam por todos os lados por onde passavam, de tal modo que cavaleiros, damas, escudeiros, suas mulheres e seus filhos fugiam deles. Damas e donzelas levavam seus filhos dez ou vinte léguas distantes, ali onde pudessem se proteger, abandonando suas casas com todos os seus bens. E todos estes criminosos reunidos, sem chefe e sem armaduras, saqueavam e incendiavam tudo, matando todos os gentis-homens que encontravam, forçando as damas e donzelas sem piedade e sem mercê como cachorros violentos.
Certamente jamais houve entre cristãos e sarracenos os crimes que cometiam estes miseráveis, pois quem cometia maiores atos vis, atos que nenhuma criatura humana deveria jamais nem imaginar, esse era o mais estimado e valorado entre eles. Não me atrevo a escrever nem contar os horríveis e inconvenientes atos que realizavam com as damas. Pois, entre outras vilanias, mataram um cavaleiro e o cravaram em um assador para assá-lo no fogo diante de sua dama e de seus filhos. Depois que dez ou doze forçaram e violaram a dama, quiseram fazê-la comer à força e logo a fizeram morrer de má morte. Tinha um rei entre eles que chamavam Jacques Bonhomme, que era, como então se dizia, de Clermont em Beauvaisis, e o elegeram o pior dos piores.
Estas gentes miseráveis incendiaram e destruíram mais de sessenta boas casas e fortes castelos do país de Beauvaisis e dos arredores de Corbie, Amiens e Montdidier. E se Deus não houvesse posto remédio com Sua graça, a desgraça teria crescido de modo que todas as comunidades teriam destruído os gentis-homens, depois a santa Igreja e a todas as gentes ricas de todo o país, pois assim sucedeu no país de Brie e Artois. As damas e donzelas do país, cavaleiros e escudeiros que puderam escapar, tiveram que fugir a Meaux, em Brie. Assim tiveram que fazê-lo a duquesa da Normandia e a duquesa de Orléans e grande quantidade de altas damas, como qualquer outra, para protegerem-se de serem forçadas e violadas, e logo mortas e assassinadas.
Estas gentes se mantinham unidas entre Paris e Noyon, e entre Paris e Soissons, e entre Soissons e Eu, em Vermandois, e por toda a terra de Coucy. Aí se encontravam os grandes violadores e criminosos, e saquearam entre as terras de Coucy, os bispados de Laon, Soissons e Noyon, mais de cem castelos e boas casas de cavaleiros e escudeiros, matando e roubando tudo o que encontravam. Mas Deus, por sua Graça pôs remédio a tudo isso, o que muito se Lhe deve agradecer, tal e como ouvireis seguidamente.
Quando os gentis-homens de Beauvaisis, de Corbiois, Vermandois e Valois e das terras onde aqueles miseráveis cometiam seus crimes viram suas casas destruídas e seus amigos mortos, pediram ajuda a seus amigos em Flandres, Hainaut, Brabante e Bélgica, e acudiram de todos os lados. Estrangeiros e gentis-homens do país se uniram e começaram a matar e decapitar aqueles miseráveis, sem piedade nem mercê, e os penduravam nos galhos das árvores ali onde os encontravam. O próprio rei de Navarra acabou um dia com três mil, muito próximo de Clermont, em Beauvaisis. Mas haviam se multiplicado de tal forma que se houvessem juntado todos, haveriam sido cem mil homens. Quando lhes perguntavam por que faziam aquilo, respondiam que não o sabiam, mas que como viam os demais fazerem, eles também o faziam. Pensavam que desse modo deviam destruir a todos os gentis-homens e nobres do mundo para que não restasse ninguém.
Nessa época, o duque da Normandia marchou de Paris com toda a sua tropa, sem que se inteirassem os de Paris, pois temiam o rei de Navarra, o preboste dos comerciantes e os de sua seita, pois todos estavam aliados. Dirigiu-se à ponte de Charenton, junto ao Marne e fez um grande chamamento dos gentis-homens onde acreditava consegui-los, e desafiou o preboste dos comerciantes e aos que lhe queriam ajudar. Quando o preboste dos comerciantes ouviu que o duque da Normandia estava na ponte de Charenton e que estava ali reunindo a sua gente de armas, cavaleiros e escudeiros, e que queriam prejudicar aos de Paris, temeu que lhe sucedessem grandes males e que fossem atacar Paris à noite, que naquela época não estava fortificada. Pôs a trabalhar quantos obreiros pôde encontrar, e fez construir grandes fossas ao redor de Paris, muralhas e portas, e trabalhavam noite e dia.
Ao cabo de um ano havia reunido três mil obreiros e foi uma grande empresa a de fortificar em um ano uma cidade como Paris, de tão grande contorno. E os digo que esta foi a melhor ação que o preboste dos comerciantes fez em toda sua vida, pois de outro modo haveria sido saqueada muitas vezes e por muitas causas, tal e como ouvireis depois. Agora quero voltar a aqueles e aquelas que haviam se refugiado a salvo em Meaux, em Brie.
Na época em que aquelas gentes miseráveis saqueavam o país, voltaram da Prússia o conde de Foix e seu primo, o captal de Buch. Pelo caminho, quando iam entrar na França, ouviram a pestilência e os horríveis fatos que acossavam aos gentis-homens. Estes dois senhores sentiram grande piedade. Cavalgaram tanto que chegaram a Chalôns em Champagne, onde os camponeses não haviam entrado. Na vila de Chalôns lhes disseram que a duquesa da Normandia e a duquesa de Orléans, com outras trezentas damas e donzelas e o próprio duque de Orléans, estavam em Meaux em Brie em terrível angústia pela Jacquerie.
Estes dois bons cavaleiros decidiram ir ver as damas para reconfortá-las tudo o que pudessem, ainda que o captal fosse inglês. Mas naquele tempo havia trégua entre o reino da França e o reino da Inglaterra. O captal podia cavalgar por onde quisesse, e quis também demonstrar sua gentileza na companhia do conde de Foix. Em sua tropa deveria haver umas quarenta lanças, não mais, pois como os tenho dito vinham de uma peregrinação. Tanto cavalgaram que chegaram a Meaux, em Brie. Em seguida, foram ver a duquesa e as outras damas, que se alegraram muito de sua chegada, pois todas estavam ameaçadas pelos jacques e os camponeses de Brie, e inclusive pelos da vila, tal e como pude ver. Aqueles miseráveis, ao inteirarem-se de que havia grande quantidade de damas, donzelas e jovens e gentis crianças, se uniram, também com os do condado de Valois, e se dirigiram a Meaux.
Por outro lado, os de Paris, que se inteiraram da assembléia, saíram de Paris um dia em tropel, e se reuniram com os demais. Entre todos deveria haver uns nove mil com grande vontade de crimes. Constantemente lhes agregavam gentes pelos distintos lugares e caminhos que conduziam a Meaux, e todos chegaram às portas da vila dita anteriormente. Os miseráveis da vila não quiseram proibir a entrada aos de Paris, senão que lhes abriram as portas. Entraram no burgo tal quantidade de gentes que encheram todas as ruas até o mercado.
Agora observai a grande graça que Deus concedeu às damas e donzelas, pois, na verdade, teriam sido violadas, forçadas e perdidas, por nobres que fossem, se não houvessem sido salvas pelos gentis-homens que ali estavam, e de modo especial, pelo conde de Foix e meu senhor captal de Buch, pois estes dois cavaleiros vieram para destruir aqueles camponeses.
Quando aquelas nobres damas, que estavam albergadas no bem protegido mercado de Meaux, porque o rio Marne o rodeia, viram tal quantidade de gentes, sentiram medo e terror. Mas o conde de Foix e o captal, com suas tropas que estavam armadas, se formaram no mercado e chegaram até a porta do mercado, que fizeram abrir. Logo se colocaram diante daqueles vilãos negros, pequenos e mal armados, com o estandarte do conde de Foix e o do duque de Orléans, e o pendão do captal, empunhando lanças e espadas, bem dispostos para defenderem-se e protegerem o mercado.
Quando aqueles miseráveis os viram assim formados, esqueceram o furor de antes. Ainda que não fossem muitos contra eles, os primeiros começaram a retroceder, e os gentis-homens a persegui-los e a lançar-lhes lanças e espadas e a derrubá-los. Então os que estavam diante e sentiam os golpes ou temiam recebê-los, retrocederam todos de uma vez de terror, e caíram uns em cima dos outros.
Nisto, todo tipo de gentes de armas saíram das filas e logo ganharam a praça, metendo-se entre os vilãos. Derrubaram-nos aos montões e os matavam como bestas, e os expulsaram fora da vila, pois entre eles não havia nenhuma ordem nem formação. Mataram tantos que se cansaram e caíram fartos, e os lançaram no rio Marne aos montões. Dito brevemente, acabaram com sete mil naquele dia, e não se lhes escapou nenhum ao que não prenderam mais adiante.
Quando os gentis-homens regressaram, colocaram fogo na parte baixa da vila de Meaux e incendiaram tudo e a todos os vilãos do burgo que prenderam dentro. Depois desta destruição que se fez em Meaux, não voltaram a se unir em nenhuma parte, pois o jovem senhor de Coucy, que se chamava meu senhor Enguerrand, ia com muitos gentis-homens acabando com todos os que encontravam, sem piedade nem mercê."
(Jean de Froissart, Crônicas)

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sábado, 28 de abril de 2018

O processo de dois camponeses heréticos da aldeia de Bucy


“Visto que conhecemos os heréticos que esse ímpio conde de Soissons amava, podemos mencionar certo camponês chamado Clemente, que vivia em Bucy com seu irmão Evrard, uma vila na vizinhança de Soissons. Freqüentemente anunciava-se que ele era um dos líderes de uma heresia. O infame conde costumava perambular dizendo que um homem mais sábio do que esse Clemente não podia ser encontrado em lugar algum. Esse não é o tipo de heresia cujo ensinamento é abertamente defendido pelos seus mantenedores. Pior, ela rasteja clandestinamente como uma serpente e somente se revela através de seus contínuos deslizes.
Laconicamente, era encorajada pelos seus seguidores: eles declaram que a encarnação do filho da Virgem é uma ilusão; rejeitam o batismo de crianças antes da idade da razão, quaisquer que sejam seus padrinhos; invocam em seu próprio discurso a palavra de Deus, que se sucede através de uma longa recitação de palavras; odeiam o mistério que nós cantamos sobre nossos altares e chamam a boca de qualquer padre de boca do inferno. A fim de ocultarem sua heresia de outros, eles sempre recebem nossos sacramentos. Naquele dia, se consideram obrigados a jejuar e não comem mais nada. Não fazem distinção entre os cemitérios de solo sagrado e qualquer outro tipo de solo. Condenam o casamento e a procriação da prole.
De fato, por onde quer que estejam espalhados pelo mundo latino, esses homens podem ser vistos vivendo com mulheres sem tomar o nome de marido ou esposa. Nem mesmo podem-se ver homens e mulheres se confinarem aos mesmos parceiros: homens dormem com outros homens e mulheres com mulheres, pois asseguram que a relação de homens e mulheres é um crime. Eliminam qualquer descendência que brote de suas relações. Eles mantinham seus encontros em galerias sob o solo, em porões escondidos e sem distinção de sexo. Acendiam velas e se apresentavam para exibirem a uma jovem que – e isso está relatado – posicionava-se inclinada tendo suas nádegas expostas para todos verem.
Em breve, as velas se apagavam e eles gritam ‘Caos!’ de todos os lados e todos tinham relações com a primeira pessoa que tinham em suas mãos. Se uma mulher ficasse grávida no processo, voltavam para o mesmo lugar depois que ela tivesse dado à luz. Uma grande fogueira é acesa e aqueles sentados ao redor arremessam o bebê de uma mão para a outra através das chamas, até que a criança esteja morta. Quando o corpo da criança está reduzido a cinzas, fazem pão com elas e uma parte é distribuída a todos, como um tipo de sacramento e, uma vez tomado, ninguém se salva daquela heresia. Se alguém relê a lista de heresias compilada por Agostinho, percebe que ela é muito parecida com a dos maniqueístas.
Originalmente iniciada por pessoas bem educadas, essa heresia absorveu os camponeses que, alegando estarem absorvendo a vida apostólica, tinham lido os Atos dos Apóstolos e um pouco mais. Então, o bispo Lisiard de Soissons, um homem muito ilustre, intimou-os para o propósito de uma inquirição entre os dois heréticos que mencionamos, diante dele. O bispo começou acusando-os de realizar encontros fora da igreja e com heréticos bem conhecidos por aqueles ao redor deles. Clemente respondeu: ‘Meu senhor, você não leu no Evangelho beati eritis?’ [‘Você deverá ser abençoado?’]. Como era iletrado, pensou que a palavra eritis significava ‘heréticos’ e, além disso, pensou que ‘heréticos’ era para ser entendido no sentido de ‘herdeiros’, ainda que não de Deus, para ser sincero.
Quando foram interrogados sobre suas crenças, eles responderam da maneira mais cristã e negaram manter tais encontros. Mas como essas pessoas tipicamente negam todas as acusações e, em segredo, seduzem os corações e as mentes de pessoas simples, foram sentenciados para exorcismo ao ordálio da água. Enquanto os preparativos para esse ordálio estavam sendo feitos, o bispo me pediu para tomar em particular as opiniões deles. Quando levantei a questão do batismo de crianças, eles responderam: ‘Quem acredita e é batizado será salvo’. Como estava atento que uma boa resposta poderia, nesse caso, ocultar a mais soberba perversidade, perguntei a eles o que pensavam a respeito dos que são batizados de acordo com outra fé, e eles responderam: ‘Por Deus, não nos investigue tão profundamente!’ E para cada uma das questões, acrescentaram: ‘Nós acreditamos em tudo o que você diz.’ Então, eu me lembrei de um daqueles dizeres ao qual todos os priscilianistas costumavam aderir: ‘Faça juramento, perjure, mas não entregue o segredo.’
Então virei para o bispo e disse: ‘Como as testemunhas que os ouviram professar essa doutrina não estão aqui, levem-nos para o julgamento que foi preparado.’ As testemunhas eram certa dama que Clemente havia enlouquecido durante o ano passado, e um diácono que ouviu Clemente dizer as coisas mais perversas. Então, o bispo celebrou a missa e os heréticos receberam os sacramentos de sua mão assim que ele disse: ‘O corpo e o sangue do Senhor pedem por vocês a prova neste dia.’ Mais tarde, esse bispo mais que sagrado dirigiu-se para as águas com Pedro, o arquidiácono, um homem de fé inabalável que havia rejeitado os pedidos dos heréticos para não serem submetidos ao ordálio. Com muitas lágrimas, o bispo recitou as litanias e procedeu ao exorcismo.
Depois disso, o acusado jurou que nunca havia acreditado ou pensado em coisa contrária à nossa fé. Atirado dentro do tanque de água, Clemente ficou boiando como um pedaço de palha. Vendo isso, toda assembléia foi arrebatada com júbilo. Deve ser acrescentado que esse teste havia arrastado uma multidão de ambos os sexos e que ninguém conseguiu se lembrar de ter visto algo assim. O companheiro de Clemente confessou seu erro, mas sem expressar qualquer remorso. Com seu irmão condenado, ele foi atirado em uma cela. Dois outros heréticos declarados da vila de Dormans vieram para o espetáculo e do mesmo modo foram arrastados. Nós então fomos ao Concílio de Beauvais para consultar os bispos sobre o que deveria ser feito. Mas enquanto isso, o povo, cheio de fé e temendo a fraqueza do clero, correu para a prisão, forçou-a e queimou os heréticos em uma grande pira acesa fora da cidade. Assim, o povo de Deus, temendo que esse câncer se espalhasse, fez justiça com suas próprias e zelosas mãos.”
(Guiberto de Nogent, De Vita Sua)

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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

As grandes epidemias da história


“Em virtude das condições sanitárias das cidades e do desconhecimento da etiologia das doenças infecciosas, grandes epidemias assolaram as Nações no passado, dizimando suas populações, limitando o crescimento demográfico, e mudando, muitas vezes, o curso da história.
Tais epidemias foram genericamente rotuladas de peste, embora muitas delas não tenham sido causadas pelo bacilo da peste (Yersinia pestis) e fossem, provavelmente, epidemias de varíola, tifo exantemático, cólera, malária ou febre tifóide.
Possivelmente a primeira notícia sobre a peste bubônica seja a narrativa que se encontra na Bíblia sobre a praga que acometeu os filisteus. Estes tomaram dos hebreus a arca do Senhor e foram castigados. "A mão do Senhor veio contra aquela cidade, com uma grande vexação; pois feriu aos homens daquela cidade, desde o pequeno até ao grande e tinham hemorróidas nas partes secretas" (Samuel 1:6.9). Decidiram, então, devolver a arca, com a oferta de 5 ratos de ouro e 5 hemorróidas de ouro. "Fazei, pois, umas imagens das vossas hemorróidas e as imagens dos vossos ratos, que andam destruindo a terra, e dai glória ao Deus de Israel" (Samuel 1:6.5). E os hebreus também foram vitimados pela peste após receberem a arca de volta. "E feriu o Senhor os homens de Bete-Semes, porquanto olharam para dentro da arca do Senhor, até ferir do povo cinqüenta mil e setenta homens; então o povo se entristeceu, porquanto o Senhor fizera grande estrago entre o povo (Samuel 1:6.19).
É digno de nota o fato de que os povos daquela época já haviam estabelecido ligação entre os ratos e a peste; do contrário, a oferta de expiação não seria constituída de hemorróidas (bubões) e de ratos. Aliás, esta ligação já havia sido referida em textos antigos da medicina hindu (Susruta, 1000 d.C.)
A palavra Epholim do texto original hebraico tem o sentido de inchação, tumefação, e poderia referir-se a gânglios enfartados (bubões na região inguinal) e não a uma afecção benigna como as hemorróidas. Os gânglios inflamados ou bubões, que caracterizam a peste é que lhe valeram o nome de peste bubônica.
Em edições mais recentes da Bíblia, os seus organizadores tiveram o bom senso de trocar "hemorróidas" por "tumores" (A Bíblia Sangrada. Trad. de João Ferreira de Almeida, 4a. edição, revista e atualizada no Brasil. Milwaukee, Spanish Publications, Inc., 1993, p. 302-3).
As maiores epidemias registradas pelos historiadores foram a peste de Atenas, a peste de Siracusa, a peste Antonina, a peste do século III, a peste Justiniana e a Peste Negra do século XIV. No interregno entre as citadas epidemias, outras de menor vulto foram registradas.
Peste de Atenas
A peste de Atenas ocorreu em 428 a.C. e foi narrada por Tucídides, em seu livro "A guerra do Peloponeso". O relato que deixou da epidemia é tão rico de informações que merece ser conhecido no texto original. Vejamos algumas passagens:
[...] "No começo do verão, os peloponesos e seus aliados invadiram o território da Ática. Firmaram seu campo e dominaram o país. Poucos dias depois, sobreveio aos atenienses uma terrível epidemia, a qual atacou primeiro a cidade de Lemos e outros lugares. Jamais se vira em parte alguma açoite semelhante e vítimas tão numerosas; os médicos nada podiam fazer, pois de princípio desconheciam a natureza da enfermidade e além disso foram os primeiros a ter contato com os doentes e morreram em primeiro lugar. A ciência humana mostrou-se incapaz; em vão se elevavam orações nos templos e se dirigiam preces aos oráculos. Finalmente, tudo foi renunciado ante a força da epidemia.
[...] Em geral, o indivíduo no gozo de perfeita saúde via-se subitamente presa dos seguintes sintomas: sentia em primeiro lugar violenta dor de cabeça; os olhos ficavam vermelhos e inflamados; a língua e a faringe assumiam aspecto sanguinolento; a respiração tornava-se irregular e o hálito fétido. Seguiam-se espirros e rouquidão. Pouco depois a dor se localizava no peito, acompanhada de tosse violenta; quando atingia o estômago, provocava náuseas e vômitos com regurgitação de bile. Quase todos os doentes eram acometidos por crises de soluços e convulsões de intensidade variável de um caso a outro. A pele não se mostrava muito quente ao tato nem também lívida, mas avermelhada e cheia de erupções com o formato de pequenas empolas (pústulas) e feridas. O calor intenso era tão pronunciado que o contato da roupa se tornava intolerável. Os doentes ficavam despidos e somente desejavam atirar-se na água fria, o que muitos faziam...". "A maior parte morria ao cabo de 7 a 9 dias consumida pelo fogo interior. Nos que ultrapassavam aquele termo, o mal descia aos intestinos, provocando ulcerações acompanhadas de diarréia rebelde que os levava à morte por debilidade.
[...] A enfermidade desconhecida castigava com tal violência que desconcertava a natureza humana. Os pássaros e os animais carnívoros não tocavam nos cadáveres apesar da infinidade deles que ficavam insepultos. Se algum os tocava caía morto.
[...] Nenhum temperamento, robusto ou débil, resistiu à enfermidade. Todos adoeciam, qualquer que fosse o regime adotado. O mais grave era o desespero que se apossava da pessoa ao sentir-se atacado: imediatamente perdia a esperança e, em lugar de resistir, entregava-se inteiramente. Contaminavam-se mutuamente e morriam como rebanhos.
As conseqüências da peste foram desastrosas para Atenas. Uma das vítimas da epidemia foi Péricles, o grande estadista, sob cujo governo a civilização grega atingiu o seu apogeu.
Muito se tem discutido sobre a verdadeira natureza desta epidemia de Atenas. A doença que mais se aproxima do quadro clínico descrito por Tucídides é o tifo exantemático; todavia, investigações recentes, utilizando técnicas avançadas de biologia molecular, sugerem tratar-se de febre tifóide. Papagrigoraks e col., em 2006, examinando a polpa dentária de esqueletos exumados de um antigo cemitério de Atenas da época da epidemia, detectaram, pela técnica de amplificação do DNA, a sequência genômica da Salmonella enterica serovar typhi, tendo sido negativas as pesquisas para os agentes da peste, tifo, antraz, tuberculose, varíola bovina e bartonelose.
Peste de Siracusa
Ocorreu no ano 396 a.C, quando o exército cartaginês sitiou Siracusa, na Itália. A doença surgiu entre os soldados, espalhando-se rapidamente entre eles e dizimou o exército. Manifestava-se inicialmente com sintomas respiratórios, febre, tumefação do pescoço, dores nas costas. A seguir sobrevinham disenteria e erupção pustulosa em toda a superfície do corpo e, por vezes, delírio. Os soldados morriam ao fim do quarto ao sexto dia, com sofrimentos atrozes. O Império Romano foi o grande beneficiário dessa epidemia, vencendo facilmente os invasores.
Peste Antonina
Assim chamada por ter surgido no século II d.C, quando dirigia o Império Romano o Imperador Marco Aurélio, da linhagem dos antoninos. Causou grande devastação à cidade de Roma em 166 d..C., estendeu-se a toda a Itália e, após um declínio temporário, recrudesceu rm 189 d.C.
Foi contemporânea de Galeno, quem assim descreveu os sintomas apresentados pelos doentes: "Ardor inflamatório nos olhos; vermelhidão sui generis da cavidade bucal e da língua; aversão pelos alimentos; sede inextinguível; temperatura exterior normal, contrastando com a sensação de abrasamento interior; pele avermelhada e úmida; tosse violenta e rouquidão; sinais de flegmásia laringobrônquica; fetidez do hálito; erupção geral de pústulas, seguida de ulcerações; inflamação da mucosa intestinal; vômitos de matérias biliosas; diarréia da mesma natureza, esgotando as forças; gangrenas parciais e separação espontânea dos órgãos mortificados; perturbações variadas das faculdades intelectuais; delírio tranqüilo ou furioso e término funesto do sétimo ao nono dia". Vê-se que há certa semelhança do quadro clínico com o da peste de Atenas. Uma das vítimas da peste Antonina foi o próprio Imperador, Marco Aurélio.
A peste do século III
Oriunda do Egito, rapidamente se espalhou à Grécia, norte da África e Itália nos anos de 251 a 266. d.C., devastando o Império Romano. São Cipriano, bispo de Cartago, deixou a seguinte descrição da doença: "Iniciava-se por um fluxo de ventre que esgotava as forças. Os doentes queixavam-se de intolerável calor interno. Logo se declarava angina dolorosa; vômitos se acompanhavam de dores nas entranhas; os olhos injetados de sangue. Em muitos doentes, os pés ou outras partes atingidas pela gangrena, destacavam-se espontaneamente. Alquebrados, os infelizes eram tomados de um estado de fraqueza que lhes tornava a marcha vacilante. Uns perdiam a audição, e outros a visão. Em Roma e em certas cidades da Grécia, morriam até 5.000 pessoas por dia".
Peste justiniana
A peste justiniana foi assim chamada por ter-se iniciado no Império bizantino, ao tempo do Imperador Justiniano, no ano de 542 d.C. Espalhou-se pelos países asiáticos e europeus, porém não teve a importância da grande epidemia do século XIV. Ao atingir Constantinopla, capital do Império (hoje Istambul), no ano de 542, chegou a causar cerca de 10.000 mortes por dia. O pouco que se sabe sobre esta peste se deve ao relato de Procopius, um arquivista do Império. Assim descreve os principais sintomas: "Subitamente os doentes apresentam febre ligeira; passado um dia ou mais surge um bubão em ambas as regiões, inguinal e axilar, ou em outra parate do corpo...a partir daí há diferenças individuais; alguns entram em coma, outros em delírio...Alguns morrem logo, outros depois de muitos dias; e os corpos de alguns mostram bolhas negras do tamanho de uma lentilha... e muitos morrem vomitando sangue..." Este relato de Procopius sugere tratar-se de epidemia causada pelo bacilo Yersinia pestis.
Peste negra do século XIV
Esta foi a maior, a mais trágica epidemia que a História registra, tendo produzido um morticínio sem paralelo. Foi chamada peste negra pelas manchas escuras que apareciam na pele dos enfermos. Como em outras epidemias, teve início na Ásia Central, espalhando-se por via terrestre e marítima em todas as direções. Em 1334 causou 5.000.000 de mortes na Mongólia e no norte da China. Houve grande mortandade na Mesopotâmia e na Síria, cujas estradas ficaram juncadas de cadáveres dos que fugiam das cidades. No Cairo os mortos eram atirados em valas comuns e em Alexandria os cadáveres ficaram insepultos. Calcula-se em 24 milhões o número de mortos nos países do Oriente.
Em 1347 a epidemia alcançou a Criméia, o arquipélago grego e a Sicília. Em 1348 embarcações genovesas procedentes da Criméia aportaram em Marselha, no sul da França, ali disseminando a doença. Em um ano, a maior parte da população de Marselha foi dizimada pela peste.
Em 1348 a peste chegou ao centro e ao norte da Itália e dali se estendeu a toda a Europa. Em sua caminhada devastadora, semeou a desolação e a morte nos campos e nas cidades. Povoados inteiros se transformaram em cemitérios.Calcula-se que a Europa tenha perdido. pelo menos. um terço de sua população.
Esta epidemia inspirou o livro DECAMERÃO, de Giovanni Bocaccio, que viveu de 1313 a 1375. As cenas que descreve no prólogo do livro se passam na cidade de Florença, na Itália. Eis alguns trechos:
"A peste, atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais. Incansável, fora de um lugar para outro, e estendera-se de forma miserável para o Ocidente. [...] Nenhuma prevenção foi válida, nem valeu a pena qualquer providência dos homens".
Assim descreve Bocaccio os sintomas:
"Apareciam, no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na virilha ou nas axilas, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs, outras como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o povo de bubões. Em seguida o aspecto da doença começou a alterar-se; começou a colocar manchas de cor negra ou lívidas nos enfermos. Tais manchas estavam nos braços, nas coxas e em outros lugares do corpo. Em algumas pessoas as manchas apareciam grandes e esparsas; em outras eram pequenas e abundantes. E, do mesmo modo como, a princípio, o bubão fora e ainda era indício inevitável de morte, também as manchas passaram a ser mortais".
Retrata, a seguir, a situação de caos que se instalou na cidade:
Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a autoridade das leis, quer divinas quer humanas desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto outros homens, todos estavam mortos, ou doentes, ou haviam perdido os seus familiares e assim não podiam exercer nenhuma função. Em conseqüência de tal situação permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse.
Uma das maiores dificuldades era dar sepultura aos mortos:
"Para dar sepultura a grande quantidade de corpos já não era suficiente a terra sagrada junto às Igrejas; por isso passaram-se a edificar Igrejas nos cemitérios; punham-se nessas Igrejas, às centenas, os cadáveres que iam chegando; e eles eram empilhados como as mercadorias nos navios".
Em Avignon, na França, vivia Guy de Chauliac, o mais famoso cirurgião dessa época, médico do Papa Clemente VI. Chauliac sobreviveu à peste e deixou o seguinte relato:
"A grande mortandade teve início em Avignon em janeiro de 1348. A epidemia se apresentou de duas maneiras. Nos primeiros dois meses manifestava-se com febre e expectoração sanguinolenta e os doentes morriam em 3 dias; decorrido esse tempo manifestou-se com febre contínua e inchação nas axilas e nas virilhas e os doentes morriam em 5 dias. Era tão contagiosa que se propagava rapidamente de uma pessoa a outra; o pai não ia ver seu filho nem o filho a seu pai; a caridade desaparecera por completo". E continua: "Não se sabia qual a causa desta grande mortandade. Em alguns lugares pensava-se que os judeus haviam envenenado o mundo e por isso os mataram".
Durante a epidemia, o povo, desesperado, procurava uma explicação para a calamidade. Para alguns tratava-se de castigo divino, punição dos pecados, aproximação do Apocalipse. Para outros, os culpados seriam os judeus, os quais foram perseguidos e trucidados. Somente em Borgonha, na França, foram mortos cerca de 50.000 deles.
Atribuía-se, também, a disseminação da peste a pessoas que estariam contaminando as portas, bancos, paredes, com ungüento pestífero. Muitos suspeitos foram queimados vivos ou enforcados. Em Koenisberg, na Alemanha, uma criada que havia transmitido a peste a seus patrões foi enforcada depois de morta e a seguir queimada. Na Itália, o conde que governava a Calábria decretou que todo pestoso fosse conduzido ao campo para ali morrer ou sarar, e ainda confiscou os bens dos que haviam adquirido a peste.
No meio de tanto desespero e irracionalidade, houve alguns episódios edificantes. Muitos médicos se dispuseram a atender os pestosos com risco da própria vida.. Adotavam para isso roupas e máscaras especiais. Alguns dentre eles evitavam aproximar-se dos enfermos. Prescreviam à distância e lancetavam os bubões com facas de até 1,80 m de comprimento. Frades capuchinhos e jesuítas cuidaram dos pestosos em Marselha, correndo todos os riscos. Foi fundada a Confraria dos Loucos, que invocava a proteção de São Sebastião para combater o medo da morte. São Roque foi escolhido o padroeiro dos pestosos. Tratava-se de um jovem que havia adquirido a peste em Roma e havia se retirado para um bosque para morrer. Foi alimentado por um cão, que lhe levava pedaços de pão e conseguiu recuperar-se.
As conseqüências sociais, demográficas, econômicas, culturais e religiosas dessa grande calamidade que se abateu sobre os povos da Ásia e da Europa, foram imensas. As cidades e os campos ficaram despovoados; famílias inteiras se extinguiram; casas e propriedades rurais ficaram vazias e abandonadas, sem herdeiros legais; a produção agrícola e industrial reduziu-se enormemente; houve escassez de alimentos e de bens de consumo; a nobreza se empobreceu; reduziram-se os efetivos militares e houve ascensão da burguesia que explorava o comércio. O poder da Igreja se enfraqueceu com a redução numérica do clero e houve sensíveis mudanças nos costumes e no comportamento das pessoas.
A peste negra foi a maior, mas não a última das epidemias. A doença perseverou sob a forma endêmica por muitos anos e outras epidemias menores, localizadas, foram registradas nos séculos seguintes. Citam-se como surtos mais importantes a peste de Milão, Brescia e Veneza no século XVI; a peste de Nápoles, em 1656; a peste de Londres em 1655 (setenta mil mortes); a de Viena em 1713, e a de Marselha em 1720, que matou metade de sua população.
Entre 1894 e 1912 houve uma outra pandemia que teve início na India que se estendeu à China (10 milhões de mortes). de onde trasladou-se para a costa do Pacífico, nos Estados Unidos. No Brasil, a peste entrou pelo porto de Santos em 1899 e propagou-se a outras cidades litorâneas. A partir de 1906 foi banida dos centros urbanos, persistindo como enzootia em pequenos focos endêmicos residuais na zona rural.
O terrível flagelo da peste inspirou a imaginação criativa de pintores famosos. Os quadros mais notáveis são: A peste em Atenas, do pintor belga Michael Sweerts (1624-1664), A peste em Nápoles, de Domenico Gargiulo (1612-1679), O triunfo da morte, do pintor belga Peter Breugel (1510-1569), e São Roque, de Bartolomeo Mantegna (1450-1523). Inspirou igualmente Albert Camus, prêmio Nobel de literatura, a escrever uma de suas obras mais conhecidas: "A peste".
No Novo Continente as mais importantes epidemias foram as de varíola, trazidas pelos colonizadores espanhóis e portugueses, que dizimaram as populações indígenas, e a de febre amarela, que atingiu os membros da expedição de Cristóvão Colombo e se espalhou para outros países do continente, inclusive o Brasil. Finalmente cabe mencionar a pandemia de gripe, chamada gripe espanhola, oriunda da Europa, em 1918, após a Primeira Guerra Mundial, com cerca de 20 milhões de vítimas."
(Joffre Marcondes de Rezende, À Sombra do Plátano: Crônicas de História da Medicina)

sábado, 27 de maio de 2017

A tragédia do endeusamento da história


"Aprendemos que as essências são determinadas e que os atos, os acontecimentos são contingentes. Na atualidade nos é ensinado o contrário, a saber: que a natureza humana (se é que se tolera ainda o emprego desta palavra) é fundamentalmente contingente, indeterminada, maleável, enquanto os acontecimentos são necessários e que esses nos ‘informam’, nos recriam sem cessar. Para esses pseudometafísicos tudo é obscuro no homem (seu ser, que não é definido jamais, se dissolve no econômico e no social), mas tudo é claro na história. Nós não sabemos o que somos, mas sim, sabemos para onde o tempo nos conduz. É o caminho que cria não apenas o objetivo, mas o próprio viajante... Para tal concepção não é o homem quem faz a história, é a história quem faz o homem. O tempo já não é uma tela a preencher, um instrumento oferecido ao homem para exercer sua liberdade, quer dizer, para realizar seu destino temporal e preparar seu destino eterno; não, o homem é instrumento do tempo, a matéria informe e caótica que recebe sua forma e seu fim desse demiurgo... A história, assim erigida em ato puro e em potência criadora, ressuscita em seu proveito as mais obscuras ideologias das idades bárbaras; nessa perspectiva, todos os sacrifícios humanos são permitidos e exigidos: contanto que a carruagem divina prossiga sua rota luminosa, que importam os seres obscuros triturados por suas rodas? Se, com efeito, tudo que é verdadeiro e tudo o que é o bem residem no porvir, os piores horrores do presente estão justificados: é bom tudo o que conduz a esse porvir, tudo o que se encontre conforme o ‘sentido da história'."
(Gustave Thibon, Revista Itinéraires, julho-agosto de 1956)

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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Uma Europa chamada Roma


“Horas antes do golpe na Turquia tivera lugar em França mais um atentado e mais uma vez o Presidente francês dissera que a França era forte. E os jornais escreviam que “um caminhão matou”, como se o caminhão se tivesse posto em marcha sozinho.
Face ao atentado de Nice repetia-se que havia que compreender os motivos do homem que praticara tal acto sendo que neste contexto o verbo compreender não é sinônimo de adquirir conhecimento para melhor agir sobre o agressor mas sim para aceitar com maior resignação o papel de vítima.
Como sempre o facebook encheu-se de vídeos virais em que os likes fazem as vezes das convicções e o máximo da decisão passa por pintar a Torre Eiffel com as cores da bandeira francesa. Desta vez já nem houve muitas velas nas ruas, talvez para não atrapalhar as corridas atrás dos Pokémons.
De repente, o drama desta Europa, uma Europa que foi capaz de garantir ao maior número de cidadãos um conjunto mais alargado de direitos mas que se condenou a si mesma à decadência, parece-me decalcado desse outro drama vivido por outra civilização extraordinária – o império romano. Um drama que simbolicamente terminou numa noite de Agosto de 410 dC, em Ravena. Nessa noite um mensageiro (há sempre uma mensagem e um mensageiro, o tempo apenas muda a natureza do mensageiro) entrou a correr no palácio de Ravena onde o imperador Honório estava retirado para escapar ao cerco que o rei visigodo Alarico montara em torno de Roma. A notícia é tão grave que os presentes resolvem acordar Honório: Roma caíra às mãos do invasor.
Perante a notícia, o imperador Honório declara consternado “Ainda há pouco comeu da minha mão”. O desalento desconcertante da resposta do imperador leva um dos presentes a esclarecer Honório: Roma, a sua galinha preferida, estava bem. Fora sim a capital do seu império e não a sua preferida que caíra perante o invasor. Honório terá suspirado de alívio pois por momentos pensara que fosse a sua galinha e não a cidade a soçobrar.
Há oito séculos que Roma era inviolável. Mas nesse Agosto de 410 dC, o rei visigodo Alarico atravessara a Porta Salaria e entrara em Roma à frente dos seus homens. O saque começou. A própria irmã do imperador, Gala Placidia, estava cativa de Alarico, um chefe militar que soube tirar partido das fraquezas do outrora grande império.
Valha a verdade que o saque de Alarico foi apenas o primeiro – e nem sequer o pior – dos vários que reduzirão a orgulhosa Roma a um símbolo da decadência. A dado momento os romanos antecipar-se-ão até aos invasores e antes que estes montem mais um cerco abrem-lhes as portas da cidade para que no momento do inevitável saque se mostrassem mais misericordiosos (não mostraram).
A história da reacção de Honório ao saber do saque de Roma foi muito provavelmente romanceada mas tem servido para ilustrar o que bondosamente designamos como decadência do império romano. Perante essa fabulosa civilização que se condenou a si mesma à derrota poucas coisas ilustrarão melhor o comportamento das elites romanas do que esse imperador a chorar a sua galinha e não a sua cidade.
Neste século XXI, Honório, a sua cidade e a sua galinha andam por aí. Simplesmente Roma agora chama-se Europa. E os europeus, tal como o imperador Honório, desdenham dos aliados, não resolvem o essencial, assistem abúlicos aos ataques de que são alvo e perante a catástrofe fazem de conta que não a vêem. Ou apenas vêem a morte da sua galinha – com quantas causas fúteis se entretêm semanalmente os parlamentos da Europa? – e não a queda da sua cidade.
Enquanto escrevo os presos na Turquia contam-se aos milhares e a purga na justiça e entre os militares é profunda. Nas televisões europeias confunde-se apoio e bandeirinhas nas redes sociais com legitimidade. Erdogan entretanto avisa que quem estiver com os rebeldes, está “em guerra com a Turquia”, sendo que o conceito de “estar com os rebeldes” é muito lato. Por exemplo, não entregar à Turquia os oito militares turcos que pediram asilo político à Grécia é sinónimo de estar com os rebeldes? E como vai daqui em diante a Turquia usar os seus controlos fronteiriços para pressionar a Europa a deixar de “estar com os rebeldes”, queira isso dizer o que queira? E o que fazem os líderes europeus caso Erdogan, com menos folclore, mais racionalidade e umas forças armadas purgadas mas bem treinadas, entre na espiral de confronto-amizade-chantagem como durante anos fez Kadafi? Telefonam para Washington e esperam que o presidente norte-americano, seja ele qual for, mobilize os nascidos no Ohio ou no Kansas para reforçarem a presença militar nas bases norte-americanas na Europa, precisamente aquelas contra as quais não houve estudante europeu que não achasse de bom tom manifestar-se?
Na escola aprendíamos como os romanos fizeram o seu império. Na verdade devíamos ter estudado mais como o desfizeram. Porque Honório e a sua galinha não aconteceram por acaso. Eles são o resultado de uma sociedade que se derrotou a si mesma antes de ser derrotada pelos outros. De um império que acabou a ter de pagar para não ser atacado por aqueles a quem antes pagara para que o defendessem.
Da próxima vez que o estrépito de um atentado nos distrair dos Pokémons, em vez de desabafarmos no facebook será bem mais útil ir estudar os romanos. Honório e a sua galinha fazem parte do nosso passado e nós já estivemos mais longe de nos refugiarmos em Ravena”.
(Helena Matos, Uma Europa Chamada Roma)

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quarta-feira, 4 de junho de 2014

A sociedade sem história

“Não existe, no “Brasil do B”, acusação maior que se possa fazer contra uma pessoa do que chamá-la de “preconceituosa.” Imagino eu que seria preciso entrar numa máquina do tempo e retornar à Idade Média para encontrar, na acusação de bruxaria, uma repercussão semelhante.
Ser chamado de preconceituoso no Brasil petista é como ser chamado de “looser” nos Estados Unidos – não existe ofensa maior, não é mesmo? Xenofobia, homofobia, racismo, sectarismo, machismo, enfim... a lista de barbaridades disponíveis para se acusar alguém não tem mais fim...
Então vamos lá, proponho nesse artigo o seguinte desafio: é possível, do ponto de vista filosófico que alguém viva sem preconceitos? O que define um pensamento como preconceituoso? É o fato dele – conforme o sentido da palavra – ser independente de uma experiência sensível? É o fato de não encontrar respaldo histórico? Ou será que preconceito é definido por uma casta, uma ralé de intelectuais que dita aquilo que deve ser entendido como “conceito” e estabelece como preconceito tudo aquilo que escapa do seu entendimento como sendo justo?
Meus amigos, uma vida plena de razão... rica na capacidade de julgar, não pode – no seu curto período de tempo – formar juízos que sejam todos fundados na experiência. Valores não se constroem dessa maneira pois dependem tanto de uma tradição verbal quanto escrita que são capazes de construir a cultura. O processo de “aculturamento”... as bases da civilização precisaram ser construídos a partir da aceitação de determinadas verdades independentemente da experiência individual. Nesse sentido, pode-se afirmar que seriam esses juízos fundados, sim, em preconceitos... Preconceitos esses capazes de permitir a acumulação de valores culturais sem a necessidade da experiência repetitiva por parte de cada membro da sociedade.
Já escrevi uma vez, e volto aqui a insistir, que vive-se hoje uma certa patologia do tempo. Nada parece, no Brasil, ter origem no passado... Nada se faz para permanecer para o futuro. A sociedade vive um eterno presente em que a construção do saber precisa, segundo os ditames do materialismo dialético, ser construída pela experiência. Ora, decorre daí que tudo aquilo que não seguir esse principio há de ser considerado um “preconceito”. A sociedade contra o preconceito é portanto a sociedade sem cultura haja vista que aceitamos acima que a própria base histórico-cultural de uma sociedade precisa de preconceitos.
Nada há de mais covarde e burro do ponto de vista filosófico do que confundir preconceito com injustiça. A primeira expressão tem cunho descritivo à medida que se refere à formação de determinados juízos que não tem como fundamento a experiência real. A segunda é de caráter qualificativo... freqüentemente utilizada de maneira pejorativa por aquele, ou aqueles, que ungidos por um Deus ou, no caso do Brasil, por um partido político tornaram-se os arautos... os verdadeiros conhecedores de uma verdade hermética chamada “justiça”...
Resta evidente, do que escrevi acima, que é impossível fazer história sem preconceito. Nossa capacidade de julgar, de nos organizarmos em sociedade, de acumular e transmitir saber não se pode – está claro – restringir à observação científica de determinados fenômenos físicos. A história não é uma ciência exata e, quando debruçada sobre ela para aprender seu significado, a razão há que ultrapassar os seus próprios limites utilizando-se inclusive, se necessário, de preconceitos estabelecidos e capazes de lhe fornecer a noção de transcendência tão necessária ao estudo imparcial da própria história.
A luta histérica por uma interpretação da história sem preconceito algum que assistimos no Brasil nada mais é do que uma luta suicida... Uma guerra contínua contra uma sociedade sem preconceitos e que há de terminar um dia... numa sociedade “perfeita” como quer todo marxista – uma sociedade sem história...”
(Milton Pires, A Sociedade sem História)

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