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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A realeza de Cristo sobre a História


“Há uma verdade fundamental da dogmática cristã que a chamada nova teologia busca obscurecer ou debilitar. É a Realeza universal de Cristo sobre toda a criação e por isso mesmo sobre a história. Sem embargo, esta verdade constitui a substancia mesmo do Kerygma evangélico, que consiste na pregação do Reinado de Deus e de seu Cristo sobre a terra. A Nova Teologia obscurece e diminui a luz desta verdade porque ela se opõe diretamente ao laicismo da vida e da história que em sua versão liberal, socialista e comunista impera hoje sobre os povos. O laicismo constitui a substancia do mundo moderno e a nova busca pactuar com o mundo moderno. Logo se vê impelida a ofuscar e a diminuir uma verdade que tão radicalmente se opõe à sua intenção profunda.
Sem embargo, a encíclica Quas Primas, de Pio XI, sobre Cristo Rei, permaneceu como um documento que desafia os propósitos da impiedade em seu intento de diminuir os méritos deste título glorioso do Redentor. As páginas da Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento, a Tradição dos Padres, a liturgia e os documentos do magistério, abundam em testemunhos desta verdade. Os salmos de Davi cantam sob a imagem e representação de um Rei opulentíssimo e sapientíssimo que havia de ser Rei de Israel.
O teu trono, ó Deus, permanece pelos séculos; O cetro de teu reino é cetro de retidão. Neles se prediz que seu reino não terá limites e que estará enriquecido com os dons da justiça e da paz. Florescerá em seus dias a justiça e a abundancia da paz. E dominará de um mar a outro e desde um a outro extremo do orbe da terra.
Portanto, não é de maravilhar que ao encerrar os livros santos o Apostolo João o chame de Príncipe dos Reis da terra que traz escrito em sua veste e em seu manto: Rei de reis e Senhor dos que domina.
A História, a história concreta dos povos, deve sujeitar-se ao reinado de Cristo. Cristo enquanto homem, por sua preeminência e por direito de conquista da Redenção, tem direito a que os povos o reconheçam em seu caráter de Rei. É evidente que os povos podem se rebelar. E assim canta o salmo: Porque se amotinam as gentes e traçam as nações planos vãos? Reúnem-se os reis da terra e confabulam os príncipes contra Yavé e contra seu ungido. Rompamos o seu jugo, longe de nós suas sujeições... Mas isto é vão. O que mora nos céus sorri. Yavé zomba deles.
A história serve ao reinado de Cristo de bom grado ou de mal grado, mas o serve. É claro que o correto e o que todos devemos desejar e no que devemos nos empenhar é em servi-lo de bom grado.
O diabo, Príncipe deste mundo, tem algum senhorio sobre a história
Teríamos uma imagem muito imperfeita da história se fizéssemos intervir tão somente, como protagonistas principais, o homem e Cristo. Por isso, Santo Tomás na mesma questão em que trata de Jesus Cristo, Cabeça da Igreja, dedica um artigo – o sétimo – a resolver se o diabo é cabeça dos maus. E responde afirmativamente, demonstrando que exerce função de governante quem influi sobre os demais para atraí-los ao seu próprio fim. Pois bem, o fim do demônio é afastar a criatura racional da obediência a Deus, e este fim é alcançado com o afastamento de Deus da criatura com seu livre arbítrio, segundo preceitua Jeremias: Rompeste o jugo e as cadeias e disseste: não servirei. Quando, pois, os homens, pecando, se dirigem para este fim, cai de cheio sob o regime e o governo do demônio, e por isto é chamado de cabeça deles. O nome de Príncipe deste mundo (João 12, 31; 14, 30; 16, 11) que a palavra divina atribui ao demônio não é um mero título, senão que expressa o verdadeiro domínio que o diabo conquistou sobre a história dos homens. É claro que este domínio não é absoluto, mas é muito real e se exerce não apenas sobre o homem individual, senão também, e sobretudo, sobre a ordem temporal e sobre as civilizações.
Digo, sobretudo. Porque a arte do demônio é dominar os meios temporais para por ali perder o interior do homem. Daí que trate de dominar os meios do prazer, da riqueza e do poder para ter amarrado o homem por completo. São estas as três tentações com que se atreveu a atacar ao Senhor no deserto. São as três tentações da tríplice concupiscência, que menciona o Apóstolo São João.
Junto com o diabo e sob o seu domínio também devemos nos referir a influência do Anticristo na história. Na mesma questão oitava, artigo 8, Santo Tomás nos diz que também o Anticristo deve ser tido como cabeça dos maus. Porque embora não o seja na ordem do tempo nem por sua influência, o é pela perfeição de sua malicia. Pois como em Cristo habitou a plenitude da divindade, assim no Anticristo há de brilhar a plenitude da malicia. Esta caracterização do Anticristo como um personagem no qual se concentra, no final dos tempos, a malícia humana, dá uma significação ao processo histórico dirigido a um ponto culminante de malícia. Longe de favorecer a tese que a nova teologia costuma sustentar de um progresso histórico, a ela se opõe e mostra que, embora a história sustente o progresso incessante da edificação do Corpo Místico de Cristo, ela mesma pode empreender e seguir um caminho de regresso. Por outra parte, que o Anticristo haja de encarnar a malícia perfeita não significa que a humanidade tenha que ser assumida pelo diabo tal como a humanidade de Cristo foi assumida pelo Filho de Deus, senão que o diabo lhe a de comunicar por sugestão sua malícia em grau superior a todos os demais. Neste sentido todos os demais malvados que lhe precederam são como que figuras do Anticristo, e por isso, o mistério de iniquidade já está operando. Também, por este lado, há como que uma exigência do progresso do mal na história mesmo, porquanto as figuras nunca chegam a alcançar o grau daquilo cujo significado levam.
Significação da “Sinagoga de Satanás” na história
Com o problema do diabo e do Anticristo está ligado o problema da malícia dos judeus fariseus e de seu significado na história. É claro que o mal não é patrimônio de algum homem, e menos ainda de algum povo. Todos os homens são pecadores e são capazes das piores aberrações. Assim como a graça de Deus tampouco tem relação especial com algum homem nem com um povo determinado. Sem embargo, Deus pode escolher um caminho determinado para nos dispensar sua graça e para permitir expressar-se a malícia humana. De fato, Deus escolheu esse caminho. O povo judeu, como é sabido, foi escolhido diretamente por Deus para nos trazer em seu sangue o Messias Jesus Cristo, que havia de ser a Saúde do mundo. Parte principal desse povo, contrariando toda a tradição autêntica dos Patriarcas e Profetas, carnalizou a esperança do Messias e se sujeitou a uma falsa tradição humana de dominação de outros povos. Parte do povo judeu, sob a influência e o governo desse grupo de fariseus, se constituiu de modo especial desde a vinda de Jesus Cristo no que São João, em seu Apocalipse (2,9), chama a “Sinagoga de Satanás”. Desde então parte do povo judeu dominada por essa minoria cheia de malícia se dedica à tarefa de perversão e de dominação de outros povos. A essa minoria se aplica com toda verdade as palavras que Jesus dirigia aos judeus fariseus: “Vós tendes por pai ao diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.”
São Paulo estampou em letras inalteráveis que ficam como lei da história a conduta dessa minoria de judeus entre as nações. Disse o Apóstolo (1 Tes. 2, 14 ss.):
“Irmãos, vós vos tornastes imitadores das igrejas de Deus em Cristo Jesus da Judéia, pois tivestes que sofrer da parte dos vossos compatriotas o mesmo que eles sofreram dos judeus, aqueles judeus que mataram o Senhor Jesus e aos profetas, que nos perseguem e que não são do agrado de Deus, que são inimigos de todos os homens, visto que nos proíbem pregar aos gentios para que se salvem”.
De acordo com esta lei que enuncia aqui o Apóstolo Paulo, uma minoria farisaica de judeus desempenha na história um papel de inimigos primeiros dos povos cristãos, empenhados em perdê-los, impedindo sua cristianização. Para isso buscam o domínio total da vida dos povos apoderando-se das molas propulsoras do poder: do poder econômico primeiro e em seguida do próprio poder político. Seria longo historiar o processo histórico que cumpre essa minoria farisaica.
Mas uma vez derrubada a sólida estrutura da cristandade medieval, fundada na fé e na caridade, os judeus conseguiram penetrar dentro dos povos cristãos e dali corrompê-los com o liberalismo e escravizá-los com o comunismo. A Revolução moderna – liberalismo, socialismo, comunismo – é o grande instrumento de dominação de que se valem. Com ela conseguiram suprimir a civilização cristã e substituí-la por uma civilização laicista e atéia.
Os cristãos, por sua vez, não têm outra defesa eficaz contra a judaização que uma adesão efetiva à vida cristã, o que implica no cumprimento privado e público da lei natural e sobrenatural. Quando os cristãos se debilitam neste cumprimento, vão caindo de modo insensível, mas seguro, no domínio judaico.
A história consiste em uma disputa entre Cristo e o diabo por apoderar-se dos homens
Do que dissemos fica claro que na história intervêm três protagonistas principais. O homem que, dedicado a múltiplas atividades profissionais, econômicas, políticas e culturais, deverá decidir com seu ato livre e em cada ato que destino e que sentido quer dar ao curo da história. O diabo que, operando através do exterior e, sobretudo, através dos grandes meios do poder, trata de sugerir em cada homem o amor de si próprio. Deus que, agindo no mais recôndito do coração humano, o move suavemente, mas com força, para a prática do amor autentico. Destes três protagonistas, apenas Deus tem um domínio total e soberano sobre a história, que exerce de acordo com os desígnios inescrutáveis de sua sabedoria e vontade.
A história é concretamente o campo aonde o divino semeador semeou a boa semente e aonde o diabo semeou também o joio. É o mar e a rede que se joga no mar e recolhe peixes de toda espécie. Nela, o mal está misturado com o bem e isso na proporção que só Deus conhece, e assim há de ser sempre até o fim da história.
A história é o campo da disputa entre Cristo e o demônio pela posse total do homem. Cristo emprega sobre todos meios sobrenaturais operando no interior dos corações aonde se determina verdadeiramente a intenção pela qual o homem age. Nessa intenção do agir humano se determina se o homem aceita a Deus como fim ultimo de sua vida ou, em troca, se aceita a si mesmo. Ao determinar o fim ultimo da vida nessa intenção última, se dá, por conseguinte, sentindo e significação a todos os outros bens em que a vida se desenvolve. Nesta luta se decide o juízo ultimo de todos os acontecimentos humanos, sejam públicos, sejam privados, porque todos eles, seja qual for sua natureza e suas dimensões, se resolvem definitivamente nessa intenção última e suprema aonde o homem decide por Deus ou pela criatura.
Na história há, definitivamente, dois grandes adversários que disputam entre si a totalidade do homem: Cristo e o diabo. Porque se cada ato humano deve decidir-se definitivamente pôr um fim último – Deus ou a criatura, Cristo ou o diabo – toda a história, que por ser humana é determinada por atos humanos, também ela pertence a Cristo ou ao diabo e, em absoluto, só a Cristo na medida em que até o diabo cai sob o seu domínio.
Daí resulta que Cristo é sempre o vitorioso da história, o Senhor da vida e da morte, o Alfa e o Ômega. Triunfa pelo amor e pela misericórdia nos predestinados, triunfa também pela justiça nos réprobos. A história escreve sempre o nome de Cristo e só o nome de Cristo. Cristo que transcende a história é também imanente a todo o devir histórico. Todo o curso da história marcha para Cristo por caminhos que só Deus conhece.
A disputa entre Cristo e o demônio se trava no domínio da civilização temporal
A disputa entre Cristo e o diabo se cumpre no interior do coração do homem. Mas seria um erro concluir daí que o campo da vida temporal do homem é terreno neutro de disputa. De nenhuma maneira. Porque, embora o destino da vida humana se decida no interior do coração, se decide ali sobre o que se faz na vida temporal. O homem desenvolve sua vida em atividades temporais que satisfaçam suas necessidades elementares e façam progredir os meios de satisfazer essas mesmas necessidades. Sua vida de familiar, laboral, cultural, forma o tecido de ações e de atividades de onde emerge a civilização temporal e nas quais há de tecer sua decisão última e seu destino eterno. Daí a importância do sentido que se atribua a essa civilização temporal na relação com a vida eterna.
Essa civilização ajuda com o seu sentido na cristianização da vida ou, ao contrário, a dificulta? É claro que uma civilização que favorece a degradação das ideias e dos costumes, que corrompe a instituição familiar, que paganiza a vida pública, não pode ajudar a catequização de um povo. A civilização chamada ocidental, laicista e de ateísmo libertário, não é propicia para devolver o sentido de Deus às almas. Muito menos o é a civilização ateia e de trabalho forçado dos países comunistas. O fato de que apesar disso Deus consiga influir sobre os corações e salve nessas civilizações a muitos escolhidos, não pode deixar de nos convencer que são civilizações perversas que perdem a muitas almas, que postas em condições propicias e favoráveis à Fé cristã, se salvariam. Com essas civilizações o diabo consegue que a mensagem Cristã não chegue aos gentis e que estes se salvem (I Tes., 2, 14 e ss.).
É claro que deus pode deixar entregue ao domínio temporal dos povos e civilizações em poder do diabo e mesmo assim ganhar a verdadeira batalha, que é a saúde dos escolhidos. Mas o fato de que Deus possa atingir seus fins apesar das civilizações anticristãs, não nos autoriza estimular estas civilizações e deixar de trabalhar pra que impere a verdadeira civilização cristã.
A tarefa necessária, hoje, em prol da civilização cristã
Daí que a Igreja com insistência, desde os dias de Leão XIII, clama pela restauração da civilização ou da Cidade Católica. Mais adiante traremos as recordadas palavras de São Pio X que são clássicas na matéria. Mas podemos citar também as de Pio XI e de Pio XII. Este pontífice deu ao mundo inteiro em 19 de setembro de 1944 uma mensagem sobre este tema da “civilização cristã”. Ali manifesta textualmente que “a fidelidade ao patrimônio da civilização cristã, sua defesa intrépida contra todas as correntes ateias ou anticristãs, é chave de abóboda, que nunca poderá ser sacrificada nem diante de uma vantagem transitória nem diante de qualquer combinação mutável”.
Para a Igreja, esta palavra “civilização cristã” não é uma mera palavra vazia de conteúdo. Ao contrário, a considera apontando para um patrimônio vivo que ainda alimento substancialmente a vida de muitos povos. Por isso Pio XII neste mesmo documento diz umas palavras que merecem ser lembradas: “Europa – expressa- e os outros continentes vivem ainda, em grau diverso, graças às forças vitais e aos princípios que a herança do pensamento cristão lhes dá testemunho quase como uma transfusão espiritual de sangue. Alguns chegam a esquecer este precioso patrimônio, a depreciá-lo, inclusive a desprezá-lo; mas subsiste sempre o fato daquela sucessão hereditária. Até certo ponto um filho pode renegar sua mãe; mas não por isso deixa de estar unido biológica e espiritualmente. Assim também os filhos que se afastam da casa paterna e se consideram estranhos a ela, ouvem sempre, no entanto, às vezes inconscientemente e a seu pesar, como voz do sangue, o eco daquela herança crista, que muitas vezes em seus intentos e em sua conduta lhes preserva de se deixar dominar totalmente e guiar pelas falsas ideias, as que, intencionalmente ou de fato, aderem”.
Nestas palavras se encerra toda uma teologia da civilização moderna que dá sentido àquelas palavras da proposição 80 do “Syllabus” que negava a possibilidade de conciliação da Igreja com a civilização moderna. Porque, com efeito, se esta é a tarefa pesada que a Igreja tem pela frente, fazer a civilização moderna conforme o evangelho, é porque esta civilização se encontra na tentativa absurda de querer edificar-se fora de Deus.
Há que refazê-la totalmente, como ensina Pio XII.
Mas antes de considerar o tipo de tratamento profundo que necessita, a civilização moderna deverá considerar em que espécie de aberração caiu.”
(Padre Julio Meinvielle, El Comunismo em la Revolución Anticristiana)

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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Jean Ousset sobre o Reinado Social de Jesus Cristo

“O homem depende metafisicamente de Deus em seu ser e em seu operar. Donde a relação essencial, metafísica, irrenunciável do homem para com Deus. Mas, do mesmo modo, a sociedade humana, em qualquer de suas formas e em qualquer contexto, tem para com Deus a mesma relação e a mesma dependência que o indivíduo (Leão XIII, “Immortale Dei”). Por isso não pode ser atéia, nem agnóstica e nem laica. A sociedade humana em seu fim temporal é regida pela política. O objeto formal da política é o bem comum temporal: o bem da Cidade temporal. Este bem se fundamenta na ordem moral. A ordem moral depende essencialmente de Deus. Política sem Deus é antipolítica, posto ser o ordenamento ao “mal comum”, à autodestruição da sociedade.
O bem comum não é algo adicionado à sociedade, nem menos ainda algo tirado do indivíduo. O bem comum é o justo ordenamento de toda a vida social em vista à mútua perfeição: da pessoa singular pela comunidade e da comunidade pela pessoa singular. “A sociedade é meio” (Pio XII) para o aperfeiçoamento integral da pessoa humana. Daí que o primeiro BEM no bem comum é Deus; Quem, por outro lado, é o mais comum dos bens.
Também para a Política em seu ordenamento da vida social o primeiro e indispensável pressuposto é Deus. De outro modo, o bem comum temporal é impossível.
Mas manifesta-se Jesus Cristo. A presença de Cristo sobre o mundo não incide apenas no destino do homem, nem apenas nas estruturas espirituais simplesmente. Todo o cosmos é invadido por sua graça, ainda que diversamente.
Por Cristo, a ordem da graça, apoiada na ordem da natureza, tem uma relevância absoluta na ordem temporal. E de duas maneiras: a ordem temporal não pode obstaculizar a ordem da graça; e ademais, a ordem temporal deve ser informada pela graça. “Há que reconhecer que o Evangelho tem a função de informar integramente o pensamento do homem e toda sua atitude teórica e prática. Não se vê outro meio de salvação para a humanidade senão na reconstrução do mundo no espírito de Jesus Cristo. Convençam-se os homens responsáveis desta necessidade absoluta” (Pio XII, 28/10/1954).
Enunciados teológicos como estes: Cristo, recapitulação do universo, Princípio e Fim, Vida do cosmos, Caminho, Verdade e Vida, não estão limitados à esfera estritamente espiritual, pneumática. Excedem com sua dynamis e suas exigências sobre a ordem temporal, e criam uma ordem temporal, e criam uma ordem social cristã, uma sociedade cristã.
Dá-se em Cristo e por Cristo uma reintegração cósmica, cujo primeiro integrante e melhor favorecido logicamente é o homem, o qual se diviniza em Cristo. Mas o que ocorre entre o homem e Cristo por meio de Cristo deve ocorrer entre a sociedade e Cristo por meio do homem. O sentido de Cristo deve penetrar, impregnar, vivificar a sociedade humana para glória do Pai.
Esta última realidade é enunciada, sobretudo a partir de Pio XI, como REINADO SOCIAL DE JESUS CRISTO. Reinado social de Jesus Cristo não quer dizer teocracia, nem o domínio temporal da Igreja. Mas tampouco é um Reinado escatológico, para o fim do mundo, mas desde agora. E não apenas de iure: deve sê-lo de fato. Reinado social de Jesus Cristo significa que o homem e a sociedade humana vivem em Cristo sua metafísica dependência de Deus em uma ordem verdadeira; a ordem essencial da Verdade, da Justiça e do Amor. E significa, portanto, que todas as estruturas da ordem temporal se libertem da escravidão dolorosa da desordem e vivam também elas a liberdade da redenção.
A ordem temporal não profana, se por profana se entende o que não é santificável. O profano é simplesmente o distinto do que é sagrado pela via sacramental.
A ordem natural, da qual emana primariamente a ordem temporal, tem cunho divino: é o resplendor da ordem eterna em que vive Deus. A ordem temporal, santificável e santificante, deve ser sacralizada, santificada, consagrada e precisamente pelos fiéis (Pio XII). E sacraliza-se a ordem temporal quando se ajusta ao querer divino, e se a entrega como manifestação da vontade de Deus.
De fato, nos encontramos dentro de uma ordem social sem Deus. Ou o que é o mesmo ou pior: dentro da ordem da desordem. Dentro da contradição, da desintegração, da anarquia, inclusive frente à verdade.
Em um grito, no qual não há exagero algum, Pio XII, traça a trajetória deste processo – 12/10/1952: “Não pergunteis quem é o inimigo, nem que vestidos leva. Este se encontra em todas as partes e no meio de todos. Sabe ser violento e astuto. Nos últimos séculos tentou levar a cabo a desagregação intelectual, moral, social, da unidade do organismo misterioso de Cristo. Pretendeu a natureza sem a graça; a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes, a autoridade sem a liberdade. É um inimigo que cada vez se tem feito mais concreto, com uma despreocupação que nos deixa, no entanto, atônitos: Cristo, sim; Igreja, não. Depois: Deus, sim; Cristo, não. Finalmente, o grito ímpio: Deus está morto; mais ainda, Deus jamais existiu. E eis aqui a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre fundamentos que Nós não duvidamos em apontar como principais responsáveis da ameaça que gravita sobre a Humanidade: uma economia sem Deus, um direito sem Deus, uma política sem Deus. O inimigo se preparou e se prepara para que Cristo seja um estranho na universidade, na escola, na família, na administração da justiça, na atividade legislativa, na inteligência entre os povos, ali onde se determina a paz ou a guerra. Este inimigo está corrompendo o mundo com uma imprensa e com espetáculos que matam o pudor nos jovens e nas donzelas, e destrói o amor entre os esposos”.
Convém destacar no pensamento papal as duas presenças: a de Deus e a de Jesus Cristo nas estruturas tipicamente temporais, nas quais nem Deus e nem Cristo podem ser estranhos.”
(Jean Ousset, Introducción a la Política)

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sábado, 22 de março de 2014

A Tradição católica

“Quando falamos de tradição católica não nos estamos referindo somente a uma tradição intelectual, nem sequer a uma completa visão do mundo, mas a uma civilização. (…) Ou seja, a tradição católica implicava costumes, instituições e idéias. Igualmente, as transformações ideológicas revolucionárias conduziram primeiro à fratura das instituições, que por sua vez levou generalizadamente à dos costumes. E a resistência à revolução progressivamente foi ficando no âmbito dos costumes, que, ao não contarem com o apoio institucional, foram também se quebrando, resistindo somente o reduto das idéias. Idéias progressivamente mais depuradas quanto mais se isolavam no cenáculo dos “militantes” ou dos “tradicionalistas conscientes”. Esse é o processo de transformação (desnaturalização) de um tradicionalismo pleno em algo semelhante a uma société de pensée ou, no melhor dos casos, em um gueto de famílias em meio às ruínas.
Contudo, está claro que uma tal situação vem marcada pelo equilíbrio instável. Pois o restante das famílias vai resistindo com dificuldade à pressão exterior, enquanto o agregado ideológico, isolado, tende a fragmentar-se, perdendo o sinal de unidade de toda tradição, de toda civilização. Hoje é muito comum encontrar defesas da moral sexual e familiar mais tradicional pelos mesmos grupos que contribuem para manter uma política que progressivamente torna impossível a manutenção dessa moral. Outros defendem a tradição litúrgica despreocupados com a tradição política. Alguns por fim reivindicam pedaços da cosmovisão tradicional de modo “ideológico”, às vezes “conservador”, outras “revolucionário”. A conseqüência é desoladora para os que querem continuar recebendo a “boa notícia” no seio da civilização que ela gerou para nós. Porque é impossível inculturar o cristianismo na civilização moderna e suas versões atuais, tanto a “forte”, tecnocrática e prometéica (que caberia chamar de hipermoderna), como a “fraca”, desconstrutiva e niilista (que podemos chamar propriamente de pós-moderna). (…)
Nessa situação, a conjuntura impele muitos a salvarem o que se puder de um velho navio naufragado. Enquanto outros se esforçam por lembrar que os despojos à deriva pertenceram a um navio cujas dimensões, características etc são possíveis de conhecer. E tudo se deve fazer. Mas o que não se pode esquecer é que, sem o acolhimento de uma civilização coerente, todos os restos que se salvam, por um lado, estão mutilados, desnaturalizados, e - por outro - dificilmente podem subsistir muito tempo em sua separação. Assim, a solução não pode ser encontrada senão na incessante restauração-instauração (como não recordar o memorável texto de São Pio X?) da civilização cristã, que ademais não poderá ser alheia – exigências da pietas – à Cristandade.”
(Miguel Ayuso Torres, La Constitución Cristiana de los Estados)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Pe. Álvaro Calderón e a subordinação da ordem temporal à espiritual segundo São Tomás

“A relação dos poderes espiritual e temporal na Igreja pode ilustrar-se mediante a analogia:
O espiritual está para o temporal na Igreja como a alma está para o corpo no homem
A analogia com a alma e o corpo

Quando São Tomás tem que explicar a intervenção do poder espiritual nos assuntos temporais, recorre à analogia da alma e do corpo. À objeção que diz: “a potestade espiritual é distinta da temporal, mas, às vezes, os prelados, que têm potestade espiritual, se intrometem nas coisas que pertencem ao poder temporal”; responde: “a potestade secular se submete à espiritual como o corpo à alma; e por isto não há juízo usurpado se um prelado espiritual se intromete nas coisas temporais com respeito àqueles assuntos nos quais a potestade secular lhe está submetida, ou que a potestade secular deixa a seu cuidado”.
As coisas análogas certamente não são iguais em tudo, mas todas as analogias acima consideradas não são metafóricas, senão próprias, pelo que valem naquilo que têm de mais característico. Ao comparar a constituição do espiritual e do temporal na Igreja com a alma e o corpo no homem, quer-se afirmar, primeiro e principalmente, que:
•Não são duas realidades completas na sua ordem, senão dois co-princípios que constituem um todo único. Assim como o corpo e a alma não são duas substâncias que existem de modo separado, senão que são dois princípios que se complementam para que exista a única substância composta que é o homem, assim também a ordem espiritual e a temporal não são duas sociedades que possam existir de modo separado como realidades completas, senão que são dois elementos complementares da única e mesma realidade social: A Igreja.
•À objeção que diz que a Igreja e o Estado são duas sociedades perfeitas responde-se que são sociedades perfeitas no aspecto jurídico, no sentido em que ambas as potestades são supremas na sua ordem, mas ambos ordenamentos jurídicos têm por sujeitos os mesmos homens e ambos são necessários para alcançar o mesmo e único fim último sobrenatural.
•No segundo lugar, afirma-se que são princípios realmente distintos, com origem distinta e capazes de se separarem: Assim como a alma tem sua origem em Deus e o corpo nos pais, e depois de unidos poderiam separar-se, deixando a alma a sua condição de temporal e passando o corpo a cadáver, assim também o poder espiritual vem de cima e o poder temporal tem suas raízes na história pátria e poderiam separar-se, ficando no Céu a Igreja triunfante e na terra cadáveres de cidades. Mas, assim como a separação total do corpo e da alma implica a morte do homem, também a separação completa do poder espiritual de toda sociedade temporal implicaria a morte da Igreja militante, o que Cristo prometeu que não iria acontecer.
Não é fácil compreender este duplo aspecto aparentemente contraditório pelo qual se tem uma realidade única mas ao mesmo tempo uma distinção real, e só o gênio de Aristóteles pode expressá-lo com as noções de matéria e forma (potência e ato). Para compreender melhor de que modo podem constituir uma mesma coisa, temos que considerar como estes dois princípios se abraçam em mútua causalidade. Temos então que:
•Assim como a alma é forma que vivifica e move o corpo, e o corpo é matéria e instrumento da alma, o mesmo acontece com as ordens espiritual e temporal.
•E assim como a alma e o corpo constituem uma única substância e não têm fins diferentes senão que concorrem ao único fim do homem; assim também a ordem espiritual e temporal constituem um único organismo social e não têm fins diferentes senão que concorrem ao único fim da Igreja: a salvação das almas.
Se agora olhamos para trás, tudo o que temos dito indica onde está o erro: considera-se as duas ordens não como co-princípios, mas como realidades completas. Mas, como dissemos, quando o corpo perde o espírito, não fica um bruto perfeito com sensibilidade; isto é, quando a ordem política não está vivificada pelo poder espiritual da Igreja, tampouco temos uma sociedade natural, senão um cadáver de cidade.
A distinção é subordinação dos ministérios
Estabelecido o anterior, São Tomás diz de que modo Cristo, na sua sabedoria, quis distinguir os dois ministérios, espiritual e temporal: ‟A administração deste reino, a fim de não confundir as coisas terrenas e as coisas espirituais, tem sido encarregada, não aos reis terrenos senão aos sacerdotes, e principalmente ao Sumo Sacerdote, sucessor de Pedro, Vigário de Cristo, que é o Romano Pontífice, a quem têm que obedecer, como ao mesmo Jesus Cristo, todos os reis do povo cristão. Pois a ele, a quem pertence o cuidado do fim último, hão de estar subordinados aqueles a quem incumbem os cuidados dos fins anteriores, e por ele hão de ser dirigidos”.
O cuidado, então, do fim último ou bem comum transcendente pertence ao poder eclesiástico; por outro lado, a busca dos bens imanentes ou fins intermédios, especialmente a justiça ou vida virtuosa da multidão, e também os bens de cultura e prosperidade, correspondem ao poder político. Agora bem, com certeza e sem dúvida possível, a subordinação de fins que aqui está suposta é per se e não per accidens. A doutrina de São Tomás acerca da subordinação das causas e especialmente a dos fins em ordem ao fim último, é muito clara e está desenvolvida em muitos lugares da suas obras. ‟Vemos que as causas ordenam-se de dois modos, essencialmente e acidentalmente:
a) Essencialmente, quando a intenção da causa primeira faz referência ao último efeito, passando por todas as causas intermédias. Como quando o artesão move a mão, e a mão o martelo, que expande o ferro golpeado, ao que se dirige a intenção do agente.
b) Acidentalmente, quando a intenção da causa só se dirige ao efeito próximo. Está fora da intenção do primeiro agente o fato de que novamente por esse efeito se faça algo mais além do que já foi feito, assim como, quando alguém acende uma vela, está fora de sua intenção que essa vela acenda uma outra e assim sucessivamente. Diz-se que o que acontece fora da intenção acontece de modo acidental”.
O fim do poder político estaria subordinado “per accidens” ao fim transcendente se o governante procurara por si mesmo a prosperidade, cultura e virtude de seu povo, sem atender à ordem que estes bens têm com o fim último da salvação. Um rei que governa sem se importar se seu povo vai ou não ao Inferno, é como o capitão do Titanic que só procura o bom passar dos passageiros sem se importar se vai em direção ao porto ou contra o iceberg. Portanto, se os fins estão subordinados per se e essencialmente, também o estão as potestades. Todos os reis e governantes da Terra devem receber da Igreja a razão e medida de seus fins imediatos.
Conclusões:
A Igreja e a Cidade:

Deus pôs como princípio de salvação do gênero humano o mistério da união da natureza divina e humana na única pessoa do Verbo encarnado; mas, dado o caráter social da natureza humana, este mistério devia prolongar-se no mistério do Corpo Místico pela união da sociedade divina e da sociedade humana na única quasi pessoa da Igreja. Figura deste mistério foi o povo escolhido do Antigo Testamento; e o exemplar primeiro desta união das ordens sociais é a Sagrada Família, na qual a hierarquia eclesiástica – Jesus, Maria e José – é perfeitamente inversa à social – José, Maria e Jesus -; mas perfeitamente unida e em paz.
Não se pode pensar a ordem espiritual como constituindo um todo – a Igreja – que depois terá certas relações como outros todos de ordem temporal – os Estados. Como temos repetido talvez até cansar, estas duas ordens são co-princípios quasi substanciais a modo de matéria e forma do Reino de Deus na terra. Não pode haver Cidade sem Igreja nem Igreja sem Cidade.
Isto pode ver-se claramente na mesma instituição dos Sacramentos que são os princípios divinos que comunicam a vida da Cabeça a todo o Corpo Místico. Como indica São Tomás ‟a vida espiritual tem certa conformidade com a vida corporal… e na vida corporal se aperfeiçoa alguém de dois modos: de um primeiro modo com respeito à própria pessoa; de um outro modo com respeito à comunidade da sociedade na qual se vive, visto que o homem é naturalmente animal sociável”. Assim, Nosso Senhor instituiu os cinco primeiros sacramentos em ordem à vida das pessoas individuais, enquanto que em relação à vida de comunidade instituiu o sacramento da Ordem, pelo que se estabelece a hierarquia eclesiástica, e o sacramento do Matrimônio, pelo que se santifica e se incorpora à Igreja a célula mesma de toda a ordem civil. O sacramento do Matrimônio é, portanto, o principio santificador de todo o tecido social, porque todos os poderes civis são certa continuação da pátria potestade.
A Igreja na Cidade:
A Igreja não pode alcançar convenientemente seus fins espirituais sem a cooperação dos poderes civis. É verdade que a Igreja tem a fortaleza de Cristo e é capaz de subsistir ainda no meio de reinos não cristãos. Mas a Igreja sem a Cidade é a Igreja dos mártires, porque os poderes civis não batizados pela Igreja caem inevitavelmente sob o domínio de Satanás e se tornam perseguidores: “Quem não está comigo está contra mim”. E são muito poucas as almas com espírito de mártires, capazes de resistir à violência, senão física, ao menos moral das leis e costumes contrários à lei de Cristo.
Para compreender o que dissemos não é necessário, por desgraça, imaginar os primeiros séculos de cristianismo; hoje já vivemos numa sociedade apóstata cada vez mais anticristã, e as exigências espirituais para salvar-se vão sendo cada vez maiores.
Não é necessário ter vivido muito para perceber que a grande maioria dos homens segue a lei e o costume social: se é costume ir à Missa, então se vai, e se há lei de divórcio, se divorciam. Por isso, quando a Igreja está na Cidade – como a alma no corpo – a maioria das pessoas se salva, mas quando não está, só se salvam almas de exceção.
A Cidade na Igreja:
O Estado não pode alcançar de nenhum modo seus fins se não estiver na Igreja – como a parte no todo. A Cidade sem Cristo é só um cadáver de cidade, alimento dos demônios carronheiros. Ao ter ficado a natureza humana ferida pelo pecado, os homens ficaram impossibilitados de se ordenar ao bem comum, o que só pode ser feito pela graça, e o poder político se transformou em tirania dos poderosos sobre os deveres: “Teu marido te dominará”. Ainda que o homem não perca toda a bondade natural e possam os reis procurar certos bens temporais, ao merecer pelo pecado ficar sob o domínio de Satanás, a carne e o mundo serão irremediavelmente instrumentalizados pelos demônios para ruína temporal e eterna do gênero humano.
Mas a ordem política ressuscitou, como Lázaro, depois de quatro dias de mil anos, quando Jesus Cristo ordenou: “Dai a César o que é de César”. Desde esse momento começaram a existir cidadãos sob as ordens do César que obedeciam por amor ao Reino de Deus. “Todos hão de estar submetidos às autoridades superiores – pede São Paulo aos romanos – pois não há autoridade senão sob Deus… É preciso submeter-se não só pelo temor do castigo, mas por consciência” e São Pedro: “Por amor do Senhor, estai sujeitos a toda instituição humana… temei a Deus e honrai o imperador.”
Tão bons vassalos não deixaram de obter bons senhores fundando os sólidos reinos cristãos. Mas… ai desta casa varrida e embelezada por Cristo! O demônio do paganismo voltou com outros sete espíritos piores que ele, os demônios da apostasia, e o fim da ordem social vem a ser pior que os começos.”

http://www.fsspx.com.br/exe2/a-subordinacao-da-ordem-temporal-a-espiritual-segundo-sao-tomas/

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A rejeição do reinado social de Nosso Senhor pelo Concílio

“Por fim, um terceiro erro, eles [sacerdotes católicos modernos] rejeitam o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo sob o pretexto de que não é mais viável. Já ouvi isso da boca do Núncio de Berna; ouvi-o da boca do embaixador do Vaticano, Pe. Dhanis, ex-Reitor da Universidade Gregoriana, que veio em nome da Santa Sé me pedir que não realizasse as ordenações de 29 de junho. Era 27 de junho em Flavigny, e eu estava pregando para os seminaristas. Ele me disse, “Por que você é contra o Concílio?” Eu respondi, “É possível aceitar o Concílio, enquanto em nome do Concílio você diz que todos os estados católicos devem ser destruídos, que não deve restar nenhum estado católico, e assim não haver mais nenhum estado onde Nosso Senhor Jesus Cristo reine?” Um tal estado não é mais possível. Mas uma coisa é algo não ser mais possível e outra, aceitar isso como princípio, e conseqüentemente não mais buscar o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas o que dizemos todos os dias no Pai Nosso? “Venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu.” Que reino é esse? Há pouco você cantou no Glória, “Só Vós, Senhor, sois o Altíssimo, Jesus Cristo.” Então vamos cantar essas palavras e logo depois dizer, “Não, Jesus Cristo não deve mais reinar sobre nós.” Não estamos vivendo em contradição? Afinal, somos católicos ou não?
Não haverá paz na terra exceto no reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo. As nações estão em conflito – todos os dias páginas e mais páginas dos jornais tratam disso, como também o rádio e a televisão; e temos agora a mudança do primeiro ministro. Que vamos fazer para melhorar a economia? Que vamos fazer para salvar a moeda? Que vamos fazer para que a indústria prospere, etc. Todos os jornais do mundo estão cheios dessas questões. Mesmo de um ponto de vista econômico, Nosso Senhor Jesus Cristo deve reinar, porque o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo é o reinado dos princípios do amor e dos mandamentos de Deus, que estabelecem o equilíbrio na sociedade, e que fazem reinar a justiça e a paz. É somente com ordem, justiça e paz na sociedade que a economia pode prosperar...
É o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo que nós queremos; e professamos nossa fé, dizendo que Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus.
E é por isso que nós queremos também a Missa de São Pio V, porque a Missa é a proclamação da realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Nova Missa é uma espécie de Missa híbrida, que não é mais hierárquica; é democrática, onde a assembléia toma o lugar do sacerdote, e assim não é mais uma Missa verdadeira que afirma a realeza de Nosso Senhor. Pois como Nosso Senhor se tornou Rei? Ele afirmou sua realeza na cruz. Regnavit a ligno Deus. Jesus Cristo reinou do alto da cruz. Porque Ele subjugou o pecado, Ele subjugou o demônio, e Ele subjugou a morte pela cruz: três vitórias magníficas de Nosso Senhor. Dirão que isso é triunfalismo. Se é então que seja, nós de fato queremos o triunfalismo de Nosso Senhor Jesus Cristo...
Na hora da minha morte, quando Nosso Senhor me perguntar, Que fizeste das graças de teu sacerdócio, não quero ouvir da boca do Senhor, Tu contribuíste na destruição da Igreja com os demais.”
(Arcebispo Marcel Lefebvre, Sermão em Lille, 29.8.1976, reproduzido em A Bishop Speaks: Writings and Addresses 1973-1976)