quinta-feira, 8 de julho de 2010

Operação Parricídio (II)


Pesadelo
Não há outra maneira de entender as circunstâncias de pesadelo relativas ao assassinato da Princesa de Lamballe. Essa amiga da rainha foi presa, mas recusou-se a prestar juramento à constituição na prisão de La Force. Como resultado de sua recusa, foi entregue à multidão vociferante. Isso aconteceu pouco antes dos assassinatos do ano de 1792, tão meticulosamente organizados por Danton, um republicano “moderado”. Os protagonistas desse banho de sangue receberam por seu trabalho seis livres cada um e todo vinho que pudessem beber. As celas foram esvaziadas em uma orgia de matança, durante a qual não apenas presos políticos, mas também prostitutas e menores, alguns meras crianças, foram massacrados. Cenas que fazem lembrar os desastres de la guerra de Goya aconteceram em Bicetre e Salpetriere. (O extermínio de prostitutas também foi executado impiedosamente por aqueles favoritos da esquerda, os republicanos espanhóis, provavelmente devido ao alastramento de doenças venéreas entre os bravos defensores da democracia.) No ano de 1792, na queda das Tulherias, a guarda suíça, leal a seu juramento, lutou até o último homem. Os suíços que caíram vivos nas mãos da multidão foram mutilados e cortados em pedaços. Um ajudante de cozinheiro, que tentou defender o casal real, foi untado em manteiga e queimado vivo.
Qualitativamente pior
Por essas e outras ocorrências similares pode-se perceber claramente algo mais: de um ponto de vista puramente quantitativo as atrocidades dos socialistas vermelhos e marrons foram piores que as da Revolução Francesa; contudo, de um ponto de vista qualitativo a coisa inteira muda de figura. Os crimes dos nacional- e internacional-socialistas foram executados em sua maioria em campos de concentração e calabouços por seus próprios bandidos treinados, ao passo que as atrocidades da Revolução Francesa foram cometidas sob o lema de Liberdade, Fraternidade e Igualdade em grande parte pelo próprio povo ou foram no mínimo acompanhadas pelo aplauso dos espectadores deliciados – tudo à luz do dia com total publicidade. Os guilhotinamentos não foram somente feriados gerais; foram eventos sádicos cuidadosamente planejados, durante os quais (para citar apenas um exemplo) um aristocrata com suas mãos amarradas e a cabeça já no cepo era forçado a ouvir um verboso e irônico discurso sobre as vitórias dos exércitos republicanos para que pudesse compartilhá-las com seus antepassados no além-túmulo. A transformação completamente natural de democracia em socialismo, de igualdade política em financeira, teve início já naquela época. Não somente os aristocratas, mas também os ricos, por causa de suas posses, foram entregues a notre chére mère la guillotine. (Na verdade somente 8 por cento dos guilhotinados pertenciam à aristocracia: mais de 30 por cento eram camponeses.)
Os “moderados” deram-se igualmente mal. Cidades como Lyon, Toulon e Bordeaux, lideradas pelos girondinos contra os jacobinos, foram parcialmente arrasadas e seus habitantes, dizimados. Quando o guilhotinamento ameaçava ficar muito devagar, muitas vítimas foram afogadas e outras, executadas com escopeta, de modo que as multidões pudessem se divertir ao vê-las sangrar lentamente até a morte. (Napoleão, jacobino e amigo íntimo de Robespierre, alcançou sua primeira vitória na rendição da “rebelde” Toulon.)
Uma enorme orgia sexual sádica
A Revolução Francesa só se tornou realmente uma enorme orgia sexual sádica depois do esmagamento das insurreições na Bretanha e na Vendéia. Deve-se ter em conta que a Vendéia foi uma revolta de camponeses que teve o apoio da aristocracia. A liderança da Chouannerie era parte camponesa (Cathelineau) e parte aristocrata (Larochejacquelein); além deles, Charles Armand Tuffin, Marquês de la Rouerie e amigo de Washington, perdeu a vida nessa batalha. (Seu cadáver foi desenterrado e decapitado.) O terror envolvido nesse genocídio deliberado foi previamente anunciado pelas atrocidades de Paris, especialmente pela extensa violação de túmulos e cemitérios, pois o homem que se enfurece contra os mortos – contra reis e aristocratas, mas também contra santos – não terá quaisquer escrúpulos de fazer o mesmo contra os vivos. (Devo confessar aqui, no entanto, que a violação de cadáveres praticada pelo lado republicano na Guerra Civil Espanhola – notadamente no cemitério de Huesca – está na mesma categoria daquilo que os republicanos franceses fizeram.) Em prefácio ao livro de Reynold Sechers, Le Génocide Franco-Français, o Professor Jean Mayer diz que o autor muito se conteve e que o pior não podia ser descrito. A verdade é muito mais assustadora.
A Revolução Alemã, iniciada no ano de 1933, também passou por uma fase relativamente humana; contudo, o dia 30 de junho de 1934 foi um alarme flamejante, seguido de um mergulho íngreme e inelutável, do tipo descrito nas tragédias gregas, no inferno da tirania totalitária de extrema-esquerda. Assim como na Revolução Francesa, o caminho estava aplainado nessa direção desde o começo. O mesmo é verdadeiro para a Rússia. Do mesmo modo que na França foram os escritos dos Enciclopedistas, Morelly, Rousseau, Diderot e Sade e nos países germânicos foram as obras de Haeckel, Chamberlain e Rosenberg junto com as de Hitler e Goebbels, assim também na Rússia foram os livros de Marx, Tschernyschewsky, Plechanow e Lênin que determinaram o desenvolvimento político subseqüente. O que eventualmente aconteceu na Revolução Francesa, notadamente na Vendéia, na Bretanha e em Anjou, foi em sua lógica interna simplesmente a realização do grande ateísmo materialista do primeiro Iluminismo.
Em situações como essa somos novamente obrigados a nos confrontar com o dito de Dostoiévski: “Se não há Deus, tudo é permitido”.
Guilhotinamentos em massa
Até mesmo em Arras, onde o líder jacobino Lebon observava os guilhotinamentos em massa de sua sacada ao lado de sua querida esposa, os cadáveres decapitados de homens e mulheres eram despidos e amarrados juntos em poses obscenas como batteries nationales maníacas saídas das 120 Noites de Sodoma de Sade. Práticas semelhantes aconteceram em Noyades no Loire onde homens e mulheres eram amarrados juntos nus e arremessados ainda vivos ao rio como um “casamento republicano”. Quando a multidão não encontrava mais homens e mulheres suficientes, organizaram o “aperto do nó” de modo homossexual. Carrier, que acabou também perdendo a cabeça, era o encarregado de tudo isso. Ele chamava essas atrocidades de Le flambeau de la philosophie, uma expressão tomada do Marquês de Sade. As principais vítimas dessas atrocidades perpretadas por homens eram naturalmente mulheres (assim como seus filhos, em geral assassinados diante de seus próprios olhos). A misoginia sádica da revolução atingiu proporções inacreditáveis.
A história das atrocidades perpretadas pelos jacobinos em cidades girondinas ainda falta ser contada. Muito do que sabemos refere-se ao pandemônio na Vendéia e nas regiões vizinhas. Lá os republicanos (junto com seus bravos colaboradores girondinos) planejaram nada menos que o completo extermínio da população, mesmo que isso significasse também a destruição de “patriotas” e suas famílias. Ninguém podia ser tão seletivo. Uma “paisagem traidora” inteira com todos seus habitantes deveria desaparecer da face da terra. Estamos falando aqui não apenas do tipo de genocídio praticado pelos internacional-socialistas russos ou pelos nacional-socialistas alemães; estamos falando aqui da satisfação de uma luxúria sexual pervertida, algo empreendido com perfeição diabólica. Saint Just declarara (10.10.1793) que não apenas os traidores mas também os indiferentes deveriam ser exterminados. Danton dissera que aristocratas e padres eram culpados porque colocavam o futuro em questão com sua simples existência, e Robespierre desejava uma “Justiça rápida, rigorosa e inesitante como resultado da virtude e consistência dos princípios democráticos”. Tudo isso concentrou-se na Vendéia, cujo nome foi oficialmente mudado para “Vengee”, ou “vingada”.”
(Erik von Kuehnelt-Leddihn, Operation Parricide: Sade, Robespierre & The French Revolution)

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