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quinta-feira, 1 de março de 2018

Os erros do catolicismo liberal

"A doutrina católico-liberal, que em sua quintessência é a doutrina revolucionária de 1789, estabelece como princípio e como coisa senão excelente, quando menos muito boa, a separação da Igreja e do Estado, a qual consiste na independência absoluta da sociedade civil que não reconhece a lei divina, a religião revelada e a santa Igreja. Jesus Cristo nos deu o Papa e os Bispos com esta missão: 'Ide e ensinai a todos os povos a observância de minhas leis. Eu estarei convosco até a consumação dos séculos'. Os católico-liberais restringem esta missão aos interesses privados de cada cristão em particular; negam ao Soberano Pontífice e aos Bispos o direito de ensinar aos governantes assim como aos súditos, e o de velar para que Jesus Cristo reine, sem obstáculos, nas instituições públicas e nas leis, dando desta maneira a conveniente direção às sociedades.
Por fim a doutrina católico-liberal desconhece e altera profundamente as relações entre a autoridade e a liberdade, tais como Deus as estabeleceu e conforme a sua Igreja está encarregada de ensinar-nos e de proteger. Altera profundamente a doutrina católica sobre a autoridade em proveito da liberdade, e esta é a razão por que se chama liberal.
Segundo a Igreja a autoridade é o poder ativo estabelecido por Deus para fazer respeitar e executar a lei: segundo o catolicismo liberal, a autoridade é o poder passivo encarregado de amparar com igual proteção a fé e a heresia, a verdade e o erro, o bem e o mal. Com tal que não seja perturbada a ordem material, não deve sair em defesa de Deus e contra o demônio.
Segundo a Igreja, a liberdade é o poder concedido a todos e a cada um em particular de cumprir sem obstáculos a vontade de Deus e seu próprio dever: segundo o catecismo liberal, a liberdade é faculdade concedida a todos e a cada um, de fazer o mal assim como se faz o bem com tal que não altere a ordem material.
Para Jesus Cristo e sua Igreja, a autoridade é o poder que protege o bem e o faz reinar: para o demônio e a Revolução, a autoridade é o poder que protege o mal e o faz reinar; para os católicos liberais, a autoridade é um poder indiferente ao bem e ao mal, a quem protege igualmente. De igual sorte para a Igreja a liberdade é o poder de fazer o bem sem trava alguma; para a Revolução é o poder de fazer o mal também sem travas, e para o catolicismo liberal é o poder de fazer o bem ou o mal indiferentemente.
Assim, pois, esta dupla noção de autoridade e da liberdade que tem a doutrina católica e o sistema liberal se manifesta ostensivamente em suas respectivas obras influindo poderosamente na religião, na ordem social e política, na legislação, na jurisprudência, na educação e na família.
E é por isso mesmo que a doutrina católico-liberal se estende a tudo. Os erros que contém produzem grave dano e suas consequências práticas são incalculáveis. Desvirtua e falseia a noção essencial da autoridade e da liberdade, sobre cuja noção descansam como sobre sua base a ordem religiosa, a ordem civil e a doméstica por completo.
Em seus princípios se encerra o germe de uma grande heresia; mas afortunadamente devemos esperar que a Santa Sede ou o Concílio ecumênico não tardarão em lançar raios de um vigoroso anátema sobre um erro que despreza tantas advertências, e que tende nada menos que a servir de ajuda à Revolução em sua obra de destruição universal.
Assim é que a doutrina católico-liberal é uma alteração sistemática da verdade, da fé e do direito: é uma alteração também sistemática das relações da Igreja com a sociedade civil; e uma negação mais ou menos pronunciada do direito concedido por Deus à Igreja de dirigir espiritualmente aos governos e as sociedades e de inspirar as leis e as instituições públicas; é por fim uma alteração igualmente sistemática da doutrina da Igreja sobre a autoridade e a liberdade. (...)
O que é o liberalismo católico? O que é o catolicismo liberal? É um sentimento falso e perigoso; é um partido importante, ativo, empreendedor, que conspira de fato contra a Igreja e contra a sociedade civil e serve, sem querer, à horrível causa da Revolução; é uma doutrina falsa e muito perniciosa, geradora de heresias e revoluções. Um católico-liberal é um homem que participa em maior ou menor escala desse sentimento, dessa doutrina; está tanto mais enfermo, quanto é mais liberal, e está tanto menos enfermo quanto é mais católico.
O catolicismo liberal é o catolicismo manchado de liberalismo com ideias protestantes e revolucionárias. O liberalismo católico é a heresia e a Revolução que, sob formas moderadas e com o manto de católico, se introduz no seio da Igreja imitando o lobo da fábula, que com pele de ovelha penetrava livremente no redil."
(Monsenhor Louis-Gaston de Ségur, Ofrenda a los Jóvenes Católico-Liberales)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Os princípios de 1789

“Muitos falam dos princípios de 1789, e quase ninguém sabe em que consistem. Não é estranho; as palavras com que os formularam são tão clássicas e indefinidas, que cada qual as interpreta a seu gosto. As pessoas honradas de curto alcance não vêem neles nada de precisamente mal; os demagogos, por sua vez, encontram neles o que lhes convém. Existe a favor desses princípios estranha emulação de carinho; estão escritos em vinte bandeiras rivais; cada qual os defende contra todos, e todos dizem que os demais os falseiam, ou os comprometem, ou fazem-lhes traição. Procuremos aqui, à luz indefectível da fé católica, não falseá-los, nem comprometê-los, nem fazer-lhes traição, senão compreendê-los bem, medir suas profundidades, e descobrir em seus recônditos mais ocultos a velha serpente, que é a alma verdadeira de tais princípios. Não exageraremos, mas procuraremos examiná-los inteiramente.
Contemplando as obras desses a quem se chama com orgulho de pais da liberdade e fundadores da sociedade moderna, veremos, segundo a expressão de Bossuet, “se aqueles que se nos apresentam como reformadores do gênero humano aumentaram ou diminuíram seus males; se é preciso vê-los como reformadores que o corrigem, ou como flagelos enviados por Deus para castigá-lo.”
A Assembléia constituinte, que em 1789 destruiu, pelo direito do mais forte, a antiga constituição da Igreja na França; que em 4 de agosto suprimiu os justos tributos com que subsistia; que em 27 de setembro despojou as Igrejas de seus vasos sagrados; que em 18 de outubro anulou as Ordens religiosas; e que, por fim, em 2 de novembro roubou as propriedades eclesiásticas, preparando assim o ato herético e cismático a que se deu o nome de Constituição civil do clero e foi promulgada no ano seguinte; essa mesma Assembléia formulou em dezessete artigos o que se chama a declaração dos direitos do homem, e que melhor deveria ter-se chamado a supressão dos direitos de Deus. Esses artigos encerram os princípios sociais que se fizeram célebres sob o nome de princípios de 1789.
Alguns católicos, com o louvável propósito de ganhar para a Igreja as simpatias das sociedades modernas, procuraram demonstrar, não sem algum trabalho, que os princípios daquela célebre declaração não estavam em oposição com a fé nem com os direitos da Igreja. Quiçá pudesse defender-se essa tese, se nessa questão, essencialmente prática, fosse dado ater-se rigorosamente ao valor gramatical das palavras, delas abstraindo o espírito que as anima, que as ditou, que as aplica, e que expressa seu genuíno sentido. Por desgraça os princípios de 1789 não são letra morta: manifestaram-se por fato, leis e crimes enormes que não podem deixar dúvida de seu verdadeiro caráter. A Revolução, a Revolução anticristã os proclama como seus princípios próprios, atribuindo-lhes a glória de suas pretensas façanhas; e os revolucionários não deixam de invocá-los contra a Igreja.
Como, pois, esses famosos princípios não horrorizam os homens honrados? É que neles se encontra a verdade habilmente confundida com a mentira, e esta passa agora, como sempre, à sombra daquela.
Com efeito, vários dos princípios de 1789 são verdades antigas do direito francês ou do direito político cristão, que os abusos do cesarismo galicano haviam relegado ao esquecimento e que a pueril ignorância dos constituintes fez tomar por um descobrimento admirável. Outros são verdades de sentido comum, que ninguém se atreveria hoje em dia a formular seriamente; mas todas essas verdades estão dominadas por um princípio, que dá o verdadeiro caráter a essa declaração, que é o princípio revolucionário da independência absoluta da sociedade: princípio que rejeita a seguir toda direção cristã, que quer que o homem só dependa de si mesmo e não tenha mais leis que sua vontade, sem ocupar-se do que Deus ensina e prescreve por meio de sua Igreja. A vontade do povo soberano substituindo a lei do Deus soberano; a lei humana pisoteando a verdade revelada; o direito puramente natural fazendo abstração do direito católico; em uma palavra, substituir os direitos eternos de Jesus Cristo por esses pretensos direitos do homem: tal é a declaração de 1789.
Até então se havia reconhecido a Igreja como o órgão de Deus em relação às sociedades e aos indivíduos; e se bem é verdade que de alguns séculos para cá não se queria reconhecer na prática esse direito de suprema direção moral, nunca chegou a ousadia até esse ponto de negá-lo formalmente.
Assim, pois, os princípios de 1789, considerados isoladamente distam muito de ser inteiramente revolucionários; mas em seu conjunto, e sobretudo na idéia que os domina, constituem uma audaz rebeldia do homem contra Deus, e um rompimento sacrílego entre a sociedade e nosso Senhor Jesus Cristo, Rei dos povos e Rei dos reis. Nos princípios de 1789, o que vituperamos é esse elemento de rebelião anticristã; longe de repudiá-las, defendemos como nossas as grandes máximas de verdadeira liberdade, de verdadeira igualdade e fraternidade universal, que a Revolução transtorna e pretende haver dado ao mundo.
Em consciência, não pode um católico admitir todos os princípios de 1789. Menos ainda lhe é permitido inspirar-se no espírito que os ditou, que os interpreta e os aplica desde seu aparecimento no mundo.”
(Mons. Louis-Gaston de Ségur, La Révolution)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O único modo de ser cristão é ser católico

"O único meio de ser cristão é ser católico, quer dizer, de pertencer não somente pelas simpatias e pelas crenças, mas também pela prática aberta e pública, à Igreja Católica, à Igreja governada pelo papa, à única verdadeira comunidade de Jesus Cristo.
Nunca houve e nunca pode haver senão um único Cristianismo. Se o protestantismo fosse Cristianismo, o Catolicismo não seria o principal. Não é o principal uma questão de forma, mas uma questão de fundo. A instituição de Jesus Cristo não pode ser submetida aos caprichos das pessoas, e o protestante que forja um Cristianismo a sua fantasia não é o verdadeiro Cristianismo, o Cristianismo que Nosso Senhor aportou ao mundo e então confiou o depósito e a difusão à Igreja.
Fez-se em nossos dias um estranho abuso desse glorioso nome de Cristão. Desde o protestante que professa ou rejeita a sua maneira a divindade do Cristo, até o socialista que não vê a liberdade senão na aniquilação da Igreja, toda a multidão dos heréticos é de revolucionários disfarçados de Cristianismo, mas qual Cristianismo!
Ser Cristão é ser Católico; fora dali pode-se ser luterano, calvinista, maometano, mórmon, livre pensador, budista, mas não é, não se pode ser Cristão."
(Mons. Louis-Gaston de Ségur, citando Bossuet, Causeries sur le Protestantisme d’Aujourd’hui)

segunda-feira, 12 de março de 2012

A Igreja é um poder mais elevado que o Estado

“Como o grau de elevação dos diferentes poderes deriva de sua finalidade última, e como a salvação eterna é uma finalidade evidentemente superior à prosperidade temporal, é claro como o dia que a Igreja é um poder mais elevado que o Estado, e que o Estado é, por conseguinte, estritamente obrigado, de direito divino, a se sujeitar ao poder da Igreja. Ora, o que é de direito divino é imutável, nenhum poder pode destruir isto. (...)
Para cumprir a vontade de Deus e os seus deveres de soberanos, os príncipes cristãos não devem somente se contentar de buscar a felicidade material de seus súditos: isto seria naturalismo; não devem também se contentar de não atrapalhar a ação da Igreja: isto seria indiferença para com o bem, indiferença culpável e que não é permitida; mas eles devem prestar à Igreja o auxílio mais eficaz possível; eles devem, sob a sua direção e como servidores fiéis, impedir o mais possível todos os escândalos que possam alterar a fé ou a moralidade dos seus povos; devem assistir a Igreja com suas palavras, com sua influência, com seu dinheiro e, se preciso, com a sua espada e seus exércitos.
Assim, tudo fica em ordem; e Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem Deus constituiu o soberano Mestre, não somente do céu mas da terra, plenamente reina pela sua santa Igreja, sobre todos os homens, sobre todos os Estados, sobre todas as famílias. Esta é a doutrina católica; este é o ensinamento oficial e tradicional da Igreja, resumido nestes últimos tempos pela encíclica de 8 de dezembro de 1864 (Quanta Cura). A doutrina oposta, condenada com o nome de naturalismo pela Sé apostólica, é a alma da Revolução e dos princípios de 1789.”
(Mons. Louis-Gaston de Ségur, La Révolution Expliquée aux Jeunes Gens)

quinta-feira, 8 de março de 2012

A alma da revolução

“Os “princípios de 1789” são dominados pelo princípio revolucionário de independência absoluta da sociedade, que declara doravante rejeitar qualquer direção cristã, e só depender de si própria, só ter por lei sua própria vontade, não se preocupando com o que Deus ensina e prescreve pela sua Igreja. A vontade do povo soberano substitui a vontade do Deus soberano, a lei humana calca aos pés a verdade revelada, o direito puramente natural abstrai do direito católico; numa palavra, os pretensos direitos do homem tomam o lugar dos direitos eternos de Jesus Cristo: tal é, fundamentalmente, a declaração de 1789.”
(Mons. Louis-Gaston de Ségur, La Révolution Expliquée aux Jeunes Gens)