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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Para um homem se ver a si mesmo

“Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para essa vista são necessários olhos, é necessário luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora, suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?”
(Pe. Antônio Vieira, S. J, Sermão da Sexagésima)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Sidney Silveira sobre a ortodoxia do Pe. Antônio Vieira

“Perguntam-me alguns amigos católicos acerca da ortodoxia do Pe. Antônio Vieira, genial orador sacro, imperador da língua portuguesa, autor das páginas mais belas jamais escritas entre nós. A resposta implica dificuldades, pois dá-la exige separar o inigualável sermonista do homem que, a certa altura de sua trajetória intelectual, deu crédito às "profecias" dum sapateiro português da Beira, trovador afamado na vila chamada Trancoso. Seu nome? Gonçalo Annes, o Bandarra.
Tratava-se de textos escritos mais de um século antes de Vieira debruçar-se sobre eles. Em síntese, eram obras cujo teor messiânico, exaltado pela interpretação retórica do notável jesuíta luso-brasileiro, prognosticava o estabelecimento do Quinto Império (o de Portugal, evidentemente), antes da vinda do Anticristo. Eis o resumo da ópera: o rei D. João IV ressuscitaria para levar a cabo esse Império, o qual duraria mil anos, até o Dia do Juízo.
As trovas de Bandarra tinham claro sabor de milenarismo judaizante, e isto não podia passar ao largo da verruma doutrinária do Santo Ofício. Vieira precisou então se submeter a um duro processo, no momento em que tinha a saúde combalida pelas hemoptises de tísico e pelas febres decorrentes da malária contraída nas missões do Amazonas. Abstraiamos, contudo, estes detalhes para afirmar que quem conhece a doutrina do Magistério da Igreja não pode deixar de dar razão aos inquisidores; chega a ser inconcebível um homem da estatura de Vieira ter descambado numa credulidade tão despropositada.
A Inquisição compeliu inicialmente Vieira a falar do Quinto Império de maneira metafórica, por prudência; ele porém insistiu na interpretação literal: o Império se ergueria na terra, com certeza. Somente quando o Papa condenou as suas proposições, Vieira retratou-se. Mas muito a contragosto, vale destacar, como prova o fato de que, após receber um salvo-conduto de Clemente X, durante o seu exílio em Roma, veio para a Bahia e, mostrando grande pertinácia, continuou a escrever a "Clavis Prophetarum". Na ocasião, o Pe. Antônio já tinha mais de oitenta anos.
Discordo absolutamente de críticos literários como Alfredo Bosi — cujo conhecimento teológico é zero —, para quem o processo movido pela Inquisição tinha razões políticas, insufladas pelas discrepâncias entre dominicanos e jesuítas. Basta compulsar o estupendo arrazoado do Santo Ofício, cuja sentença foi lida para Vieira no dia 23 de dezembro de 1667, para constatar que estavam em jogo questões relativas à fé.
Como se vê, dar uma resposta categórica à indagação mencionada no começo deste breve texto é algo temerário. Meu conselho é filtrarmos a pitoresca espécie de sebastianismo de Vieira e ficarmos com o que, em sua obra, não derroga a fé.”

http://contraimpugnantes.blogspot.com.br

sábado, 22 de janeiro de 2011

O sal da terra

“Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites.”
(Pe. Antônio Vieira, S. J, Sermão de Santo Antônio aos Peixes)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A missão apostólica dos portugueses


“É glória singular do Reino de Portugal que só ele entre todos os do mundo foi fundado e instituído por Deus. Bem sei que o Reino de Israel também foi feito por Deus só permissivamente e muito contra a sua vontade, porque teimaram os Israelitas a ter rei como as outras nações; porém, o Reino de Portugal, quando Cristo o fundou e instituiu, aparecendo a el-rei (que ainda não o era) D. Afonso Henriques, a primeira palavra que lhe disse foi volo, quero. Como o Reino de Portugal havia de ser tão filho da Igreja Católica e lhe havia de fazer no mundo tão relevantes serviços, quis Cristo que a sua instituição fosse muito semelhante à da mesma Igreja.
A São Pedro disse Cristo: Tu es Petrus, et super hanc Petram aedificabo Ecclesiam meam (Mt. 16, 18); a D. Afonso disse Cristo: Volo in te, et in semine tuo, imperium mihi stabilire. A Pedro disse: Quero fundar em ti uma Igreja, não tua, senão minha, ecclesiam meam. A Afonso disse: Quero fundar em ti um império, não para ti, senão para mim: Imperium mihi. A Pedro, na instituição da Igreja, não disse in te et in semine tuo, porque, como o império da Igreja era universal sobre todas as nações do mundo, quis que todas as nações tivessem direito à eleição da tiara: o hebreu, como Pedro; o grego, como Anacleto; o romano, como Gregório; o alemão, como Victor; o francês, como Martinho; o espanhol, como Calisto; o português, como Dâmaso. Mas na instituição do Reino de Portugal disse Cristo: In te, et in semine tuo; porque como era reino particular de uma só nação, quis que fosse hereditário e não eletivo, para que continuasse na sucessão e descendência do mesmo sangue. E por que tudo isto, e para quê? Não para o fim político, que é comum a todos os reinos e a todas as nações, senão para o fim apostólico, que é particular deste reino e desta nação. O mesmo Cristo disse nas palavras com que o instituiu: Ut deferatur nomen meum in exteras gentes, para que por meio dos Portugueses seja levado meu nome às gentes estranhas. Ainda então não sabia o mundo que gentes estranhas fossem estas, mas a daí a 400 anos, quando também o mundo se conheceu a si mesmo, o soube. Vede se foi instituição apostólica. De São Pedro disse Cristo: Ut portet nomen meum coram gentibus (At. 9, 15); e aos Portugueses disse o mesmo Cristo: Ut deferatur nomen meum in exteras gentes. Aos Apóstolos disse Cristo: Videte regiones, quia albae sunt ad messem (Lc. 14, 35); e aos Portugueses disse o mesmo Cristo: Ut sint messores mei in terris longinquis. E notai que disse nomeadamente messores, segadores, porque se havia de servir também do seu braço e do seu ferro. Quando Cristo apareceu a el-rei D. Afonso, estava ele na sua tenda lendo a história de Gedeão, não só com um, mas com dois mistérios: primeiro, para que o rei não desconfiasse da promessa, vendo que os seus portugueses eram poucos; segundo, para que os mesmos portugueses entendessem que, como soldados de Gedeão, em uma mão haviam de levar a trombeta e na outra mão a luz (Juízes 7, 20). A Pedro chamou-lhe Cristo Cephas (Jo. 1, 42), pedra, em significação do que havia de ser; os Portugueses primeiro se chamaram Tubales (de Tubal) que quer dizer mundanos e depois se chamaram lusitanos: lusitanos, para que trouxessem no nome a luz, mundanos para que trouxessem no nome o mundo, porque Deus os havia de escolher para luz do mundo: Vos estis lux mundi.”
(Pe. Antônio Vieira, S. J, Sermão de Santo Antônio)

http://casadesarto.blogspot.com/2009/12/vos-sois-luz-do-mundo.html

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O conde de Egmont


"No ano de mil e quinhentos e setenta e oito, quando mais se desaforou a rebeldia herética nos estados de Flandres, profanados os templos e os altares, afrontadas e quebradas as cruzes e imagens sagradas, e fundidos os sinos em artilharia, como se tem feito em Pernambuco, os hereges da populosíssima cidade de Gante formaram um exército de vinte mil combatentes, com que talavam os campos, saqueavam as vilas e destruíam todos os lugares abertos e sem defensa dos católicos. No meio, porém, deste lastimoso desamparo excitou Deus o espírito do conde de Egmont, e de outros senhores tão fiéis e obedientes à Igreja Romana como a seu rei, os quais se quiseram opor à fúria dos hereges; mas não puderam ajuntar mais que um pé do exército de sete mil soldados, inferior em dois terços ao dos inimigos. E que fariam com tão desigual poder? Pintaram nas bandeiras a Virgem, Senhora nossa, e todos, assim soldados como capitães, lançaram a tiracolo os seus rosários, e deste modo armados se puseram na campanha. Os hereges, vendo o pequeno número, e as novas e desusadas bandas dos que saíam a contender com eles, chamavam-lhes, por desprezo, o exército do Padre-nosso; mas os Padre-nossos e as Ave-Marias esforçaram de maneira o seu pequeno exército, que mortos cinco mil dos inimigos, os demais, fugindo, se acolheram à cidade, donde nunca mais se atreveram a sair, e ficou toda a campanha pelos católicos. Isto fez então a Senhora do Rosário, e o mesmo fará em todas as ocasiões, se os nossos soldados, posto que menos em número, seguirem nas bandeiras a mesma insígnia, e se armarem das mesmas armas."
(Pe. Antônio Vieira, S.J, Sermão XII)