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quarta-feira, 24 de maio de 2017

A falha do romance brasileiro (segundo Manuel Bandeira e Nelson Ascher)


"Dentre os artigos de Nelson Ascher na Folha de S. Paulo, sempre recordo de “O grande romance brasileiro”, publicado em 11 de outubro de 2004.
Partindo de um suposto encontro com certa escritora, finlandesa ou búlgara, Ascher constrói rara, irônica reflexão sobre o nosso romance.
Meses depois do encontro, em que o articulista expôs à escritora os “esplendores de nosso vernáculo”, esta lhe escreve, pedindo-lhe não “obras historiográficas ou tratados sociológicos”, mas romances que retratassem o Brasil. Ascher envia, então, alguns livros à curiosa escritora: “Machado, Mário, Oswald, Graciliano, Guimarães Rosa e Clarice”.
Passado algum tempo, ele recebe novo e-mail: “Obrigada. Os autores que você me mandou são magníficos e, se tivessem escrito em inglês ou francês, seriam universalmente reconhecidos. Lendo-os com atenção e concentrando-me nas entrelinhas fui capaz de vislumbrar algo da especificidade de seu país. Não me entenda mal: mesmo quem não saiba nada sobre sua terra pode se deliciar com eles. Mas aí é que está o problema, pois, embora eu tenha me deliciado, nem por isso creio saber hoje mais a respeito do Brasil do que antes de lê-los”.
Coloca-se, dessa forma, o problema do romance brasileiro, a sua falha: onde estão as “narrativas que, sem prejuízo da qualidade estética, oferecem um painel amplo e razoavelmente explícito do período histórico e da sociedade em que se ambientam”?
E a escritora insiste: “Quais são os melhores romances brasileiros sobre a era Vargas, a construção de Brasília, o golpe de 64, a ditadura militar e a transição para a democracia? Onde estão as sagas que descrevem a trajetória de diversas gerações de uma família italiana, árabe, japonesa ou judia desde sua chegada a Santos no início do século 20 até os anos 90? E as histórias de ascensão e queda individual cujo pano de fundo sejam as transformações de São Paulo ou do Rio?”.
Ela também observa que não há, no Brasil, “uma única variante local notável de um subgênero tipicamente latino-americano, o romance sobre ditadores como O Outono do Patriarca, de García Márquez, ou O Senhor Presidente, de Miguel Angel Asturias”. E completa, indignada: “Impossível, afinal vocês tiveram o ditador mais interessante de todo o subcontinente: quem são Perón, Trujillo, Pinochet e Castro comparados a Getúlio?”.
A resposta de Ascher expõe, com ironia, uma das nossas fissuras culturais: “O dr. Samuel Johnson disse certa vez a um jovem autor que seu manuscrito era bom e original, mas a parte boa não era original e a parte original não era boa. Pois bem: o Brasil produziu ficção boa e realista, mas a ficção boa não é especialmente realista e a ficção realista…”.
Nelson Ascher, que é poeta, tradutor e ensaísta, reflete um pouco mais sobre a questão e faz interessantes suposições sobre os motivos dessas lacunas: “[…] Talvez o país seja demasiadamente extenso e incompreensível, talvez o material necessário para estudá-lo nem sempre estivesse à mão, talvez os autores se sentissem intimidados pelos mestres europeus e norte-americanos ou se dirigissem a um público que, além de reduzido, conhecia o contexto tão bem quanto eles, talvez achassem o país maçante, repetitivo, imutável”.
O artigo não se esgota aí — e, tenham certeza, é muito mais perspicaz do que o injusto resumo que tentei construir.
Fantasia e imaginação no romance brasileiro
Hoje, passados quase dez anos, o que poderíamos responder às justas cobranças da personagem de Nelson Ascher? É o que me pergunto desde que li e guardei o artigo. E até hoje só penso num autor que talvez pudesse satisfazer a insistente escritora: Érico Veríssimo — e seu O tempo e o Vento.
Mas, como em tantos outros casos, a exceção confirma a regra. Uma só obra é muito pouco para a literatura que tem mais de três séculos.
À parte os nomes que, porventura, estejam me escapando, a pergunta central ainda não tem resposta: que outras razões poderiam existir, além das sugeridas por Ascher, para nossos escritores não produzirem o grande romance brasileiro?
Sete décadas antes desse artigo, Manuel Bandeira, numa crônica publicada no Estado de Minas, no dia 9 de setembro de 1933, tratou do mesmo problema.
Bandeira diferencia “imaginação” de “fantasia”, citando o filólogo e crítico literário João Ribeiro, para quem a “pura imaginação” é “aptidão a reproduzir no espírito as sensações, na ausência das causas exteriores que as provocaram”, enquanto define “fantasia” como a “capacidade de organizar as imagens na unidade de uma obra”.
Sobraria imaginação aos romancistas brasileiros, segundo Bandeira. E eles teriam lá o seu tanto de fantasia, suficiente para “representar uma vida, algumas vidas”. Mas o poeta completa: “Desde, porém, que elas são numerosas e as relações se multiplicam e complicam, falta-nos a força do contraponto para compô-las, e nem mesmo se tentará a obra”.
Nossos bons romancistas, salienta Bandeira, apresentam mais “as qualidades de observação e crítica, de introspecção ou de construção e estilo”, mas com um “trabalho da imaginação pouco sensível”.
Bandeira esclarece: “Sem dúvida, os brasileiros somos bem imaginosos. Mas falta-nos a aptidão de combinar tanta abundância de imagens e, sobretudo, de as exteriorizar artisticamente num entrecho que nos dê a ilusão da vida em toda a sua rica versatilidade”.
Manuel Bandeira, contudo, também não tem certeza sobre os motivos desse defeito, ainda que aposte em alguns: “Será por falha fundamental da capacidade criadora ou simples vício de composição, falta de aplicação ou ausência de estímulo?”.
De minha parte, descarto uma “falha fundamental da capacidade criadora”, pois isso seria nos condenar a um atavismo próprio dos piores naturalistas. Aposto mais no “vício de composição” e na “falta de aplicação” — problemas, aliás, que o minimalismo das últimas décadas só acentuou, desculpando a lacuna com justificativas pretensamente estéticas.
Os questionamentos da escritora de Nelson Ascher talvez tenham sido parcialmente respondidos por Manuel Bandeira. Mas as insistentes cobranças dessa “finlandesa ou búlgara” continuam de pé: onde estão os nossos romances “espessos, cerrados, florestais”? “Não há nenhum”, responde Bandeira, “ainda que péssimo”."

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domingo, 27 de novembro de 2016

Machado de Assis e o repulsivo herói de nosso tempo

“No conto “Evolução”, de Machado de Assis, publicado em Relíquias da Casa Velha (1906), Inácio, o narrador, fala sobre sua amizade com Benedito. Movido por um “sentimento de compostura” — que “toda a gente discreta apreciará” —, o narrador oculta os sobrenomes, seu e do amigo, mas o faz principalmente para obedecer à intenção machadiana: apresentar ao leitor o “cheiro” do seu personagem, odor comum a muitas pessoas, como se pode concluir da analogia que Inácio faz com as rosas.
Perceba-se que Machado não utiliza o substantivo “perfume”, preferindo o ambíguo “cheiro”, que pode se referir a um odor agradável ou à fetidez. Trata-se de uma imprecisão que se diluirá ao longo da história.
O artificialismo de Benedito começa a ser construído já no segundo parágrafo: ele tinge os cabelos utilizando um processo eficaz, só percebido por quem partilha da sua intimidade. E ainda que todo o resto seja natural — “pernas, braços, cabeça, olhos, roupa, sapatos, corrente do relógio e roupa”, lista Inácio com sutil ironia, não incluindo no rol nenhuma virtude ou valor —, Benedito é, moralmente, “pacato”; e intelectualmente, “menos original”.
Ser “pacato” em termos de caráter é outra das ambigüidades machadianas, exuberantes de sentido, ressaltada pela narração que afeta naturalidade ao utilizar um tom descomprometido para tratar de certo tema crucial.
Ainda no terceiro parágrafo, a característica de ser “menos original” em termos intelectuais começa a ganhar sua verdadeira dimensão — e iluminar o caráter “pacato” de Benedito.
A descrição de Inácio não deixa dúvidas:
Podemos compará-lo a uma hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter idéias de toda parte e de toda sorte, que se sentavam à mesa com a família da casa. Às vezes, acontecia acharem-se ali duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipáticas; ninguém brigava, o dono da casa impunha aos hóspedes a indulgência recíproca. Era assim que ele conseguia ajustar uma espécie de ateísmo vago com duas irmandades que fundou, não sei se na Gávea, na Tijuca ou no Engenho Novo. Usava assim, promiscuamente, a devoção, a irreligião e as meias de seda. […]
A distância de algumas linhas entre a moralidade “pacata” e a “promiscuidade” do personagem não diminui a contradição do relato — antes, agiganta o comportamento passivo do narrador, cujo pasmo se concretizará somente no último parágrafo do conto.
Mas engana-se o leitor que pensa em Benedito como um relativista ou um hipócrita. O caso é mais complexo.
À descrição da amizade que se aprofunda entre esses dois personagens soma-se a recorrência do comportamento que explica a “menor originalidade”, em termos intelectuais, de Benedito.
O personagem que pode oferecer a Inácio a “mesa de Lúculo” — general romano conhecido por seus fastuosos jantares —, mas não a “casa de Platão”, é um colecionador de lugares-comuns. Falando de política, música, jardinagem ou da mulher que amou, utiliza apenas chavões. “Os princípios são tudo e os homens nada” ou as observações de que a rosa “é a rainha das flores” e a mulher amada tinha dentes que eram “verdadeiras pérolas” encontram-se no mesmo patamar: frases vazias de um repetidor incansável.
Na vida social, apesar da riqueza, Benedito move-se não graças à sua própria vontade. Não obedece aos impulsos genuínos de uma personalidade madura, independente, mas, sempre induzido por Inácio, é o amigo que inflama seu desejo de se candidatar a deputado ou se tornar ministro.
O núcleo da narrativa trata, no entanto, de algo ainda mais grave — e obriga o leitor a retornar, seguidas vezes, num crescendo, à questão moral.
Quando se conhecem, Inácio “compara o Brasil a uma criança que está engatinhando” e “só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro”. Os olhos de Benedito brilham e ele exclama: “Bonita idéia!”.
O pensamento se concretiza na vida de Inácio, que tem personalidade própria: meses mais tarde, na Europa, quando os amigos se reencontram, o narrador trata, com investidores ingleses, da construção de uma estrada de ferro no Brasil.
Benedito não esconde seu deslumbramento diante da notícia. E passa a se comportar da mesma forma, buscando informações em ministérios e bancos. O mimetismo de Benedito é evidente — e vergonhoso.
Ali, em Londres, forma-se o deputado Benedito, mas segundo suas medíocres possibilidades:
[…] Recolheu com muito mais gosto os anexins políticos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto arsenal deles. […] Saboreava-os tanto que eu não sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas, que não forçam a reflexão, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.
Não se trata, portanto, de simples amor aos chavões, mas de viver sugando os outros. O “caráter pacato”, eufemismo machadiano, esconde um parasita voraz — de discursos, atitudes e idéias.
Um ano depois, quando há um novo encontro, Benedito, já eleito, expõe a Inácio o que, meses antes, aprendera com o próprio amigo. E lê um trecho do primeiro discurso que pronunciará na Câmara, concluindo:
[…] E aqui repetirei o que, há alguns anos, dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil é uma criança que engatinha; só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro.
Inácio já escutara sua frase antes, citada por Benedito como se pertencesse a ambos. Agora, vendo-a definitivamente seqüestrada, fica “assombrado, desvairado diante do abismo que a psicologia rasga a seus pés”.
Numa conclusão típica de Machado de Assis, Inácio descobre, mais que a personalidade doentia de um plagiário contumaz, “um efeito da lei da evolução”: não a vitória dos que se mimetizam, mas da própria fraude.
O cheiro de Benedito não lembra rosas. Seu “caráter pacato” exala um fedor nauseante. Como o personagem de Mikhail Lérmontov, Benedito é o repulsivo herói do nosso tempo.”

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