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quinta-feira, 5 de julho de 2018

O vinho causou a surdez e a morte de Beethoven


"Ludwig van Beethoven: a sua obra musical imensa, a sua terrível surdez... e as discussões sem fim sobre as causas da sua morte e das suas doenças. Quase dois séculos depois do seu desaparecimento, a 27 de Março de 1827, aos 56 anos de idade, o caso médico do compositor alemão continua a intrigar médicos e investigadores. E é com alguma regularidade que novas teorias são publicadas em revistas médicas e científicas.
É certo que, neste domínio, o autor da Nona Sinfonia e do Hino à Alegria está longe de rivalizar com o seu compatriota Wolfgang Amadeus Mozart, que morreu algumas décadas antes dele (em 1791), aos 35 anos. Pelo menos 140 causas foram avançadas como estando na origem da morte do compositor de A Flauta Mágica e de Don Giovanni. Mas não faltou imaginação aos especialistas para tentarem explicar os sintomas crônicos - a começar pela surdez - de que sofria Beethoven e identificar a doença que provocou a sua morte.
Retrospectivamente, e tendo fé nas descrições do seu relatório de autópsia, da sua correspondência (excessiva), dos escritos dos seus amigos e dos seus médicos, o ilustre compositor padecia de sífilis, de uma doença inflamatória do intestino, de tuberculose, da doença de Paget (uma patologia de remodelagem dos ossos que pode levar à surdez) e de alcoolismo... É sobretudo a partir das cartas do músico e de documentos dos seus próximos que foi reconstituída, de forma bem precisa, a evolução da sua surdez, cujos primeiros sintomas começaram antes dos 30 anos, acabando por o atirar para o silêncio nos últimos anos da sua vida.
O alívio do álcool
Os escritos de Beethoven e dos seus médicos também se revelaram preciosos para documentar outros problemas de saúde (problemas digestivos e depressão, entre outros), e sobretudo a sua tendência imoderada para a bebida. A correspondência de Beethoven é rica em alusões ao prazer e o alívio que o álcool lhe proporciona, em particular o vinho. No leito da morte, numa altura em que se encontra num estado físico deplorável, com um quadro clínico que indica a falha das funções renais (dores abdominais, icterícia, ascite e edema dos membros), ele ainda quer mais um remédio. "Como poderei agradecer-vos por este excelente champagne, como ele me restaurou, como ele me vai restaurar ainda mais!", escreve o compositor ao barão Johan Pasqualati, naquela que será umas das suas últimas cartas, datada de Março de 1827 (extrato do livro Les Lettres de Beethoven, Actes Sud, 2010).
A autópsia realizada, ao que tudo indica a pedido do próprio, confirma que os seus órgãos estavam minados pelo álcool.
"A cavidade abdominal está cheia a quatro quartos de um líquido avermelhado e turvo. O tamanho do fígado está reduzido a metade. Está compacto e tem uma consistência enrugada, de cor verde azulado, e a sua superfície está coberta de nódulos do tamanho de feijões", está escrito no relatório da autópsia, traduzido do latim por François Martin Mai, cujo artigo foi publicado no Journal of the Royal College of Physicians of Edinburgh em 2006. O baço é descrito como muito inchado, bem como o pâncreas. Os rins estão muito danificados...
Mesmo na ausência de exames dermopatológicos (análise ao microscópio de tecidos), que não existiam na altura, o diagnóstico não deixa margem para dúvidas. Foi uma falha do fígado provocada por cirrose alcoólica, complicada por uma peritonite, que levou Beethoven à morte, concluiu François Martin Mai. A lesão do pâncreas também pode ser explicada pelo excesso de álcool. "Alguns autores sugeriram uma origem viral. Mas as hepatites B e C não eram conhecidas antes do século XX, e a hepatite A não se complica por causa da cirrose", sublinha este médico canadiano.
"Estas lesões apontam para uma fase terminal de cirrose hepática nodular, como aquela que é possível observar nos alcoólicos", confirma o médico Frédéric Maître, dermopatologista do Instituto de Medicina Legal de Paris. "A peritonite é uma complicação clássica nestes doentes, já que o líquido presente na cavidade abdominal infecta facilmente, a partir de uma infecção pulmonar, por exemplo."
Os médicos que realizaram a autópsia descrevem também, muito minuciosamente, a anatomia das partes externa, média e interna das orelhas do compositor surdo. "Não há argumento a favor de uma otosclerose, um diagnóstico em tempos evocado para Beethoven. A lesão principal é a degeneração dos nervos cocleares, que atrofiaram", resume Frédéric Maître. O especialista sublinha igualmente que a autópsia do compositor alemão foi a primeira efectuada por Karl von Rokitansky, que se irá tornar um famoso patologista e que estará na origem da criação de protocolos para estes exames post mortem.
De onde vem o chumbo?
Beethoven seria portanto um alcoólico que, como tantos outros, sucumbiu a uma cirrose? Não apenas. Os exames feitos ao longo da última década aos seus cabelos e mais recentemente a ossos do seu crânio estabeleceram que o compositor sofria também de saturnismo, ou seja, uma intoxicação crônica de chumbo. A história destas "relíquias" é ela própria edificante, como conta o médico de urgências Patrick Pelloux, no seu livro publicado em Março, On ne meurt qu'une fois mais c'est pour si longtemps.
As mechas de cabelo foram cortadas por um jovem admirador, que ajudou a preparar o corpo de Beethoven depois da sua morte. E, após um longo périplo, esses cabelos reapareceram num leilão da Sotheby's. A origem dos fragmentos de crânio é bem mais sórdida. "Durante a autópsia, os médicos esconderam-se atrás das cortinas. Depois esmagaram o crânio e roubaram pedaços de ossos, como um bando de ladrões a pilharem um local histórico", escreve Pelloux.
Mas de onde vinha todo aquele chumbo e que sintomas pode ele explicar?
Em 2007, um médico austríaco, Christian Reiter, avançou com a hipótese que foram as compressas embebidas com chumbo aplicadas pelo seu médico, Andreas Wawruch, cada vez que fazia uma punção para retirar líquido da cavidade abdominal do doente.
A explicação é bem mais trivial, considera a equipa de Michael Stevens (universidade de Utah). "Embora o chumbo possa ser proveniente de numerosas fontes externas, como a louça, as garrafas de vinho, o cristal e a água das estações termais, pensamos que, no caso de Beethoven, a fonte mais provável é o próprio vinho", escrevem eles num artigo publicado em Maio na The Laryngoscope, revista da Sociedade americana de Otorrinolaringologia. "É bem conhecido que naquela época o chumbo era acrescentado ilegalmente aos vinhos baratos para melhorar o seu sabor. Beethoven apreciava particularmente os vinhos adulterados da Hungria."
Para apoiar a sua teoria, estes autores americanos insistem no longo passado de consumidor de álcool de Beethoven, que terá começado a embebedar-se aos 17 anos para afogar a mágoa provocada pela morte da sua mãe. E sublinham também o caráter familiar deste vício, notando que o pai e a avó do músico também morreram de complicações ligadas ao álcool.
A intoxicação de chumbo, que começou bem cedo na vida de Beethoven, pode estar na origem das lesões dos nervos auditivos e, portanto, da sua surdez, considera a equipe de Stevens. E esse saturnismo poderá explicar um bom número de sintomas: as suas alterações de humor, a falência do fígado, dos rins... as suas crises de dores abdominais. Direta ou indiretamente, foi sem dúvida a sua queda para o vinho que matou Beethoven.”

http://www.publico.pt

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Ludwig van Beethoven: Sinfonia n° 3 "Eroica"


I. Allegro con brio
II. Marcia funebre. Adagio assai
III. Scherzo. Allegro vivace
IV Finale. Allegro molto


Herbert von Karajan
Berliner Philharmoniker

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A surdez singular de Ludwig van Beethoven

“É digno de nota que Beethoven chamava sua própria surdez de “singular”. Freqüentemente, mesmo nos seus últimos anos de vida, ele era capaz de ouvir um pouco e por algum tempo. Poder-se-ia quase falar de uma visita periódica de seu “demônio”. Em sua biografia, Marx descreve da seguinte forma a doença: “Já em 1816 se sabe que ele é incapaz de reger suas próprias obras; em 1824 não podia ouvir o barulho do aplauso de uma grande audiência; mas em 1822 ainda improvisa maravilhosamente em rodas sociais; em 1824 estuda com Sontag e Ungher as partes destes na Nona Sinfonia e na Missa Solene, e em 1825 ouve criticamente uma apresentação do quarteto em lá menor op. 132.” Supõe-se que em tais casos urgentes sua força de vontade dava temporariamente nova tensão aos nervos auditivos que gradualmente atrofiavam (diz-se que ele era ainda capaz de ouvir uma ou algumas poucas vozes com seu ouvido esquerdo, mas não as podia perceber se eram muitas), mas tal não era o caso em momentos de menor importância, como o atestam os livros de conversação. Nesses livros, algumas respostas também estão escritas, naturalmente quando não eram para ouvidos de estranhos.”
(Friedrich Kerst & Henry Edward Krehbiel, Beethoven: the Man and the Artist, as Revealed in His Own Words)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

"Plaudite, amici, comoedia finita est"

“Beethoven era um homem inteiramente religioso, embora não no sentido confessional. Criado na fé católica, ele logo adquiriu uma opinião independente sobre assuntos religiosos. Deve-se ter em conta que sua juventude se passou na época do iluminismo e do racionalismo. Quando tempos depois ele compôs a grande missa em homenagem a seu estimado aluno arquiduque Rodolfo – na esperança de obter dele o cargo de mestre de capela quando o arquiduque se tornou arcebispo de Olmütz, mas em vão – ele deu à obra formas e dimensões que se afastaram do rito.
Em todas as coisas, liberdade era o princípio fundamental na vida de Beethoven. Seu livro favorito era “Observações sobre as Obras de Deus na Natureza” (Betrachtungen über die Werke Gottes in der Natur) de Sturm, que ele recomendava aos padres para farta distribuição entre o povo. Ele via a mão de Deus até nos fenômenos naturais mais insignificantes. Deus era para ele o Ser Supremo que ele louvou na parte coral da Nona Sinfonia nas palavras de Schiller: “Irmãos, além daquele dossel de estrelas deve viver um Pai amoroso!” O relacionamento de Beethoven com Deus era o de um menino com seu pai amoroso a quem ele confia todas suas alegrias e tristezas. Conta-se que certa vez ele quase foi excomungado por ter dito que Jesus foi apenas um pobre ser humano e um judeu. Haydn, ingenuamente pio, teria chamado Beethoven de ateu.
Ele concordou com a vinda de um padre a seu leito de morte. Testemunhas afirmam que a função rotineira foi desempenhada de maneira admirável e inspiradora e que Beethoven expressou cordialmente seus agradecimentos ao padre oficiante. Depois que este deixou o quarto, Beethoven disse a seus amigos: “Plaudite, amici, comoedia finita est”, a frase com que se concluíam os dramas antigos. Esse fato originou a afirmação de que Beethoven quis caracterizar o sacramento da extrema unção como uma comédia. Isso entra em contradição, contudo, com sua conduta durante a administração. É mais provável que ele quisesse designar sua vida como um drama; nesse sentido, de qualquer modo, é que as palavras foram aceitas por seus amigos. Schindler diz enfaticamente: “Os últimos dias foram inesquecíveis sob todos os pontos de vista, e ele esperava a morte com sabedoria verdadeiramente socrática e paz de espírito”.
(Friedrich Kerst & Henry Edward Krehbiel, Beethoven: the Man and the Artist, as Revealed in His Own Words)