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segunda-feira, 2 de março de 2020

A inteligência não é o fundo do nosso ser

“A inteligência não é o fundo do nosso ser. Pelo contrário. É como uma pele sensível, tentacular que cobre o resto do nosso volume íntimo, o qual por si é sensu stricto ininteligente, irracional. Barrès dizia isto muito bem: L'intelligence, quelle petite chose à la surface de nous. Aí está ela, estendida como um dintorno sobre o nosso ser mais interior, dando uma face às coisas, ao ser - porque o seu papel não é outro senão pensar as coisas, pensar o ser, o seu papel não é ser o ser, mas refleti-lo, espelhá-lo. Tanto não somos ela que a inteligência é uma mesma em todos, embora uns dela tenham maior porção que outros. Mas a que tiverem é igual em todos: 2 e 2 são para todos 4. Por isso Aristóteles e o averroísmo acreditaram que havia um único noûs ou intelecto no Universo, que todos éramos, enquanto inteligentes, uma só inteligência. O que nos individualiza está por trás dela.
Mas não vamos agora espicaçar uma tão difícil questão. Baste o que foi dito para sugerir que em vão pretenderá a inteligência lutar num match de convicção com as crenças irracionais, habituais. Quando um cientista sustém as suas idéias com uma fé semelhante à fé vital, duvida da sua ciência. Numa obra de Pío Baroja, uma personagem diz a outra: “Este homem acredita na anarquia como na Virgem do Pilar”; o que é comentado por uma terceira: “Em tudo o que se acredita se acredita igualmente”.
Do mesmo modo, sempre a fome e sede de comer e beber será psicologicamente mais forte, terá mais energia bruta psíquica que a fome e a sede de justiça. Quanto mais elevada for uma atividade num organismo, é menos vigorosa, menos estável e eficiente. As funções vegetativas falham menos que as sensitivas, e estas menos que as voluntárias e reflexivas. Como dizem os biólogos, as funções adquiridas ultimamente, que são as mais complexas e superiores, são as que primeiro e mais facilmente são perdidas por uma espécie. Em outros termos: o que vale mais é o que está sempre em maior perigo. Num caso de conflito, de depressão, de paixão sempre estamos prontos a deixar de ser inteligentes. Dir-se-ia que levamos a inteligência presa com um alfinete. Ou dito de outra maneira: o mais inteligente é-o... às vezes. E o mesmo poderíamos dizer do sentido moral e do gosto estético. Sempre no homem, por sua própria essência, o superior é menos eficaz que o inferior, menos firme, menos capaz de se impor.”
(José Ortega y Gasset, O Que é a Filosofia?)

segunda-feira, 12 de março de 2018

Quem queira ter idéias deve dispor-se a querer a verdade

“Hoje, pelo contrário, o homem médio tem as "idéias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Para quê ouvir, se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir, mas, pelo contrário, de julgar, de sentenciar, de decidir. Não há questão da vida pública em que não intervenha, cego e surdo como é, impondo a sua "opinião".
Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "idéias", quer dizer, que sejam cultas? De maneira nenhuma. As "idéias" deste homem médio não são autenticamente idéias, nem a sua posse é cultura. A idéia é um xeque-mate à verdade. Quem queira ter idéias necessita antes de dispor-se a querer a verdade, e aceitar as regras do jogo que ela imponha. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que as regula, uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. Estas normas são os princípios da cultura.”
(José Ortega y Gasset, La Rebelión de las Masas)

domingo, 17 de dezembro de 2017

Democracia e totalitarismo

"Sempre há pessoas que se revoltam quando um escritor se atreve a desafiar as convenções do pensamento hegemônico. Chesterton e Belloc, por exemplo, tornavam frenéticos certos leitores do G. K's Weekly cada vez que escreviam que capitalismo e comunismo eram heresias que, sob sua aparência dialética, encobriam uma meta comum; e os leitores mandavam aos periódicos cartas furiosas nas quais os apelidavam de "papistas", ante o que Chesterton e Belloc empunhavam o rosário e os espantavam. Hoje há pessoas que continuam se aborrecendo se um escritor se atreve a equiparar capitalismo e comunismo; mas já ninguém utiliza o insulto de "papista", talvez porque o Papado perdeu ascendência espiritual, ou porque convém fazer que o Papa seja um tipo estupendo. Assim que, quando alguém se irrita contra ti por repetires exatamente o mesmo que Chesterton e Belloc denunciavam há um século, já não te chamam papista, mas "integrista" (e nem sequer faz falta que empunhes o rosário!), que é insídia que, em um mundo tão esquerdopata como o nosso, lança uma condenação indelével sobre o réprobo.
Também se tende a apelidar um escritor de "integrista" quando se atreve a denunciar a deriva totalitária da democracia. Já nos advertia Ortega, esse feroz integrista, que "a democracia, como democracia, ou seja, estrita e exclusivamente como norma do direito político, parece uma coisa ótima. Mas a democracia exasperada e fora de si é a mais perigosa doença de que pode padecer uma sociedade"; pois "quanto mais reduzida seja a esfera de ação própria de uma idéia, mais perturbadora será sua influência, se se pretende projetá-la sobre a totalidade da vida". É que, com efeito, a democracia, nesta fase da história, deixou de ser uma forma de governo para tornar-se uma religião antropoteísta que, enquanto esfuma ou prostitui o mandato representativo, proclama-se instância última para estabelecer o bem e o mal, o justo e o injusto, entregando à aritmética das maiorias toda a regulação da vida humana. Esta "vontade de regular a totalidade da vida humana" – nos recordava Malraux, outro integrista descomunal e lefevriano – é o que caracteriza o totalitarismo; e da deriva totalitária da democracia já nos advertia Tocqueville, sumo pontífice do integrismo, em A Democracia na América: "Cadeias e verdugos eram os instrumentos grosseiros que no passado empregava a tirania, mas em nossos dias a civilização aperfeiçoou até o mesmo despotismo. Os príncipes haviam, por assim dizer, materializado a violência; mas as repúblicas democráticas de nossos dias tornaram-na tão intelectual como a vontade humana que querem reduzir. Sob o governo absoluto de um só, o despotismo, para chegar à alma, golpeava vigorosamente o corpo; e a alma, escapando a seus golpes, se elevava gloriosa por cima dele. Mas nas repúblicas democráticas a tirania deixa o corpo e vai direto à alma. O amo já não diz: "Pensai como eu ou morrereis", mas: "Sois livres de não pensar como eu. Vossa vida, vossos bens, tudo conservareis, mas a partir deste dia sereis estranhos entre nós. Permanecereis entre os homens, mas perdereis vossos direitos de humanidade. Quando vos aproximardes de vossos semelhantes, fugirão de vós como de empestados e até aqueles que creiam em vossa inocência vos abandonarão. Deixo-vos a vida, mas a que vos deixo é pior que a morte".
Esse inferno totalitário já está entre nós. E nele se enlanguescem os empestados, enquanto as massas desprevenidas não estão nem aí e arrotam felicíssimas os vapores da alfafa sistêmica que engolem sem reclamar."
(Juan Manuel de Prada, Democracia y Totalitarismo)

sábado, 17 de agosto de 2013

O despotismo do homem vulgar

“A história européia parece, pela primeira vez, entregue à decisão do homem vulgar como tal. Ou dito em voz ativa: o homem vulgar, antes dirigido, resolveu governar o mundo. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele, automaticamente, mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. Se, atendendo aos defeitos da vida pública, estuda-se a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa, encontra-se o seguinte: 1º, uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil, abastada, sem limitações trágicas; portanto, cada indivíduo médio encontra em si mesmo uma sensação de domínio e triunfo que, 2º, convida-o a afirmar-se a si mesmo tal qual é, a considerar bom e completo o seu haver moral e intelectual. Este contentamento consigo mesmo leva-o a fechar-se em si mesmo para toda a instância exterior, a não ouvir, a não pôr em tela de juízo as suas opiniões e a não contar com os demais. A sua sensação íntima de domínio incita-o constantemente a exercer predomínio. Atuará, pois, como se somente ele e os seus congêneres existissem no mundo; portanto, 3º, intervirá em tudo impondo a sua vulgar opinião, sem considerações, contemplações, trâmites nem reservas; quer dizer, segundo um regime de “ação direta”.”
(José Ortega y Gasset, La Rebelión de las Massas)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O homem-massa

“Numa boa ordenação das coisas públicas, a massa é o que não atua por si mesma. Tal é a sua missão. Veio ao mundo para ser dirigida, influída, representada, organizada – até para deixar de ser massa, ou, pelo menos, aspirar a isso. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. Necessita referir a sua vida à instância superior, constituída pelas minorias excelentes. Discuta-se quanto se queira quem são os homens excelentes; mas que sem eles – sejam uns ou outros – a humanidade não existiria no que tem de mais essencial, é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma, embora leve a Europa todo um século a meter a cabeça debaixo da asa, ao modo dos estrúcios, para ver se consegue não ver tão radiante evidência. Porque não se trata de uma opinião fundada em fatos mais ou menos freqüentes e prováveis, mas numa lei da “física” social, muito mais incomovível que as leis da física de Newton. No dia em que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia – única coisa que pode salvá-la –, compreender-se-á que o homem é, tenha ou não vontade disso, um ser constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. Se consegue por si mesmo encontrá-la, é que é um homem excelente; senão, é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele.”
(José Ortega y Gasset, La Rebelión de las Massas)