"A maior epidemia da história do Ocidente foi a Peste Negra no século XIV. Neste contexto, surgiu uma classe de médicos especializados no tratamento da doença que usavam um traje especial, embora houvesse uma variedade de peças de vestuário. O traje de proteção consistia em um sobretudo de tecido pesado, que era encerado, uma máscara com aberturas de olhos de vidro e um nariz em forma de cone, como um bico para segurar substâncias aromáticas e palha. A maioria dos médicos da peste também usavam um chapéu de aba, tipicamente utilizado para identificar sua posição profissional.
Alguns dos materiais perfumados eram âmbar, folhas de hortelã, erva-cidreira, cânfora, cravo, láudano, mirra, pétalas de rosa, estoraque. Isto foi pensado para proteger o médico do ar miasmático ruim. A palha fornecia um filtro para o 'mau ar'. Um bastão ponteiro de madeira era usado para ajudar a examinar o paciente sem a necessidade de tocá-lo.
Embora boa parte desse vestuário já fosse usado nos séculos XIV a XVI, foi o médico pessoal de Louis XIII, Charles de L'Orme, quem ficou famoso por reunir a caracterização completa.
Criou-se um vasto complexo sanitário para o combate da peste. Em Veneza, o clero inventou os lazaretos, uma verdadeira indústria da prevenção e da cura da epidemia. Os doentes eram divididos entre casos suspeitos e confirmados, isolados do mundo externo por 40 dias, dando origem ao termo 'quarentena'. Esse era o primeiro e fundamental passo para reduzir a difusão da doença. Como os hospitais de hoje, os lazaretos eram organizados em repartições e unidades, que de acordo com o lugar ou a época se chamavam 'contumácias' ou 'navios'. Em Portugal, a Rainha Leonor de Lencastre institui as Santas Casas de Misericórdia e a caridade se torna o motor propulsor do combate à doença. Enquanto quem pode refugia-se no campo, é o clero católico quem fica e se sacrifica para tratar dos doentes, juntamente, claro, com os célebres médicos remunerados."
(O Imperialista, em postagem no Facebook de 23.03.2020)
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quarta-feira, 25 de março de 2020
domingo, 6 de maio de 2018
A Jacquerie

“Muito pouco tempo depois da liberação do rei de Navarra, sucedeu uma terrível e grande tribulação em muitas partes do reino da França, em Beauvaisis, em Brie, junto ao rio Marne, em Laon, Valois, a terra de Coucy e os arredores de Soissons. Algumas gentes das vilas camponesas se reuniram sem chefe em Beauvaisis. A princípio não eram nem cem homens e disseram que todos os nobres do reino da França, cavaleiros e escudeiros traíram o reino, e que seria um grande bem destruir a todos. Cada um deles dizia: “É verdade! É verdade! Maldito seja quem por ele não sejam destruídos todos os gentis-homens”.
Então, sem outro conselho e sem outra armadura além de bastões com pontas de ferro e facas, foram à casa de um cavaleiro que estava próxima dali. Destruíram a casa, mataram o cavaleiro, a dama e os filhos, grandes e pequenos, e incendiaram tudo. Logo foram a um castelo e ali ainda fizeram pior, pois prenderam o cavaleiro e o ataram a uma estaca muito fortemente e muitos violaram a mulher e a filha diante do cavaleiro. Depois mataram a mulher, que estava grávida, a sua filha e todos os filhos, e o marido, depois de torturá-lo, o queimaram e destruíram o castelo.
Assim fizeram em muitos castelos e boas casas, e foram crescendo tanto que chegaram a seis mil. Aumentavam porque todos os de sua condição lhes seguiam por todos os lados por onde passavam, de tal modo que cavaleiros, damas, escudeiros, suas mulheres e seus filhos fugiam deles. Damas e donzelas levavam seus filhos dez ou vinte léguas distantes, ali onde pudessem se proteger, abandonando suas casas com todos os seus bens. E todos estes criminosos reunidos, sem chefe e sem armaduras, saqueavam e incendiavam tudo, matando todos os gentis-homens que encontravam, forçando as damas e donzelas sem piedade e sem mercê como cachorros violentos.
Certamente jamais houve entre cristãos e sarracenos os crimes que cometiam estes miseráveis, pois quem cometia maiores atos vis, atos que nenhuma criatura humana deveria jamais nem imaginar, esse era o mais estimado e valorado entre eles. Não me atrevo a escrever nem contar os horríveis e inconvenientes atos que realizavam com as damas. Pois, entre outras vilanias, mataram um cavaleiro e o cravaram em um assador para assá-lo no fogo diante de sua dama e de seus filhos. Depois que dez ou doze forçaram e violaram a dama, quiseram fazê-la comer à força e logo a fizeram morrer de má morte. Tinha um rei entre eles que chamavam Jacques Bonhomme, que era, como então se dizia, de Clermont em Beauvaisis, e o elegeram o pior dos piores.
Estas gentes miseráveis incendiaram e destruíram mais de sessenta boas casas e fortes castelos do país de Beauvaisis e dos arredores de Corbie, Amiens e Montdidier. E se Deus não houvesse posto remédio com Sua graça, a desgraça teria crescido de modo que todas as comunidades teriam destruído os gentis-homens, depois a santa Igreja e a todas as gentes ricas de todo o país, pois assim sucedeu no país de Brie e Artois. As damas e donzelas do país, cavaleiros e escudeiros que puderam escapar, tiveram que fugir a Meaux, em Brie. Assim tiveram que fazê-lo a duquesa da Normandia e a duquesa de Orléans e grande quantidade de altas damas, como qualquer outra, para protegerem-se de serem forçadas e violadas, e logo mortas e assassinadas.
Estas gentes se mantinham unidas entre Paris e Noyon, e entre Paris e Soissons, e entre Soissons e Eu, em Vermandois, e por toda a terra de Coucy. Aí se encontravam os grandes violadores e criminosos, e saquearam entre as terras de Coucy, os bispados de Laon, Soissons e Noyon, mais de cem castelos e boas casas de cavaleiros e escudeiros, matando e roubando tudo o que encontravam. Mas Deus, por sua Graça pôs remédio a tudo isso, o que muito se Lhe deve agradecer, tal e como ouvireis seguidamente.
Quando os gentis-homens de Beauvaisis, de Corbiois, Vermandois e Valois e das terras onde aqueles miseráveis cometiam seus crimes viram suas casas destruídas e seus amigos mortos, pediram ajuda a seus amigos em Flandres, Hainaut, Brabante e Bélgica, e acudiram de todos os lados. Estrangeiros e gentis-homens do país se uniram e começaram a matar e decapitar aqueles miseráveis, sem piedade nem mercê, e os penduravam nos galhos das árvores ali onde os encontravam. O próprio rei de Navarra acabou um dia com três mil, muito próximo de Clermont, em Beauvaisis. Mas haviam se multiplicado de tal forma que se houvessem juntado todos, haveriam sido cem mil homens. Quando lhes perguntavam por que faziam aquilo, respondiam que não o sabiam, mas que como viam os demais fazerem, eles também o faziam. Pensavam que desse modo deviam destruir a todos os gentis-homens e nobres do mundo para que não restasse ninguém.
Nessa época, o duque da Normandia marchou de Paris com toda a sua tropa, sem que se inteirassem os de Paris, pois temiam o rei de Navarra, o preboste dos comerciantes e os de sua seita, pois todos estavam aliados. Dirigiu-se à ponte de Charenton, junto ao Marne e fez um grande chamamento dos gentis-homens onde acreditava consegui-los, e desafiou o preboste dos comerciantes e aos que lhe queriam ajudar. Quando o preboste dos comerciantes ouviu que o duque da Normandia estava na ponte de Charenton e que estava ali reunindo a sua gente de armas, cavaleiros e escudeiros, e que queriam prejudicar aos de Paris, temeu que lhe sucedessem grandes males e que fossem atacar Paris à noite, que naquela época não estava fortificada. Pôs a trabalhar quantos obreiros pôde encontrar, e fez construir grandes fossas ao redor de Paris, muralhas e portas, e trabalhavam noite e dia.
Ao cabo de um ano havia reunido três mil obreiros e foi uma grande empresa a de fortificar em um ano uma cidade como Paris, de tão grande contorno. E os digo que esta foi a melhor ação que o preboste dos comerciantes fez em toda sua vida, pois de outro modo haveria sido saqueada muitas vezes e por muitas causas, tal e como ouvireis depois. Agora quero voltar a aqueles e aquelas que haviam se refugiado a salvo em Meaux, em Brie.
Na época em que aquelas gentes miseráveis saqueavam o país, voltaram da Prússia o conde de Foix e seu primo, o captal de Buch. Pelo caminho, quando iam entrar na França, ouviram a pestilência e os horríveis fatos que acossavam aos gentis-homens. Estes dois senhores sentiram grande piedade. Cavalgaram tanto que chegaram a Chalôns em Champagne, onde os camponeses não haviam entrado. Na vila de Chalôns lhes disseram que a duquesa da Normandia e a duquesa de Orléans, com outras trezentas damas e donzelas e o próprio duque de Orléans, estavam em Meaux em Brie em terrível angústia pela Jacquerie.
Estes dois bons cavaleiros decidiram ir ver as damas para reconfortá-las tudo o que pudessem, ainda que o captal fosse inglês. Mas naquele tempo havia trégua entre o reino da França e o reino da Inglaterra. O captal podia cavalgar por onde quisesse, e quis também demonstrar sua gentileza na companhia do conde de Foix. Em sua tropa deveria haver umas quarenta lanças, não mais, pois como os tenho dito vinham de uma peregrinação. Tanto cavalgaram que chegaram a Meaux, em Brie. Em seguida, foram ver a duquesa e as outras damas, que se alegraram muito de sua chegada, pois todas estavam ameaçadas pelos jacques e os camponeses de Brie, e inclusive pelos da vila, tal e como pude ver. Aqueles miseráveis, ao inteirarem-se de que havia grande quantidade de damas, donzelas e jovens e gentis crianças, se uniram, também com os do condado de Valois, e se dirigiram a Meaux.
Por outro lado, os de Paris, que se inteiraram da assembléia, saíram de Paris um dia em tropel, e se reuniram com os demais. Entre todos deveria haver uns nove mil com grande vontade de crimes. Constantemente lhes agregavam gentes pelos distintos lugares e caminhos que conduziam a Meaux, e todos chegaram às portas da vila dita anteriormente. Os miseráveis da vila não quiseram proibir a entrada aos de Paris, senão que lhes abriram as portas. Entraram no burgo tal quantidade de gentes que encheram todas as ruas até o mercado.
Agora observai a grande graça que Deus concedeu às damas e donzelas, pois, na verdade, teriam sido violadas, forçadas e perdidas, por nobres que fossem, se não houvessem sido salvas pelos gentis-homens que ali estavam, e de modo especial, pelo conde de Foix e meu senhor captal de Buch, pois estes dois cavaleiros vieram para destruir aqueles camponeses.
Quando aquelas nobres damas, que estavam albergadas no bem protegido mercado de Meaux, porque o rio Marne o rodeia, viram tal quantidade de gentes, sentiram medo e terror. Mas o conde de Foix e o captal, com suas tropas que estavam armadas, se formaram no mercado e chegaram até a porta do mercado, que fizeram abrir. Logo se colocaram diante daqueles vilãos negros, pequenos e mal armados, com o estandarte do conde de Foix e o do duque de Orléans, e o pendão do captal, empunhando lanças e espadas, bem dispostos para defenderem-se e protegerem o mercado.
Quando aqueles miseráveis os viram assim formados, esqueceram o furor de antes. Ainda que não fossem muitos contra eles, os primeiros começaram a retroceder, e os gentis-homens a persegui-los e a lançar-lhes lanças e espadas e a derrubá-los. Então os que estavam diante e sentiam os golpes ou temiam recebê-los, retrocederam todos de uma vez de terror, e caíram uns em cima dos outros.
Nisto, todo tipo de gentes de armas saíram das filas e logo ganharam a praça, metendo-se entre os vilãos. Derrubaram-nos aos montões e os matavam como bestas, e os expulsaram fora da vila, pois entre eles não havia nenhuma ordem nem formação. Mataram tantos que se cansaram e caíram fartos, e os lançaram no rio Marne aos montões. Dito brevemente, acabaram com sete mil naquele dia, e não se lhes escapou nenhum ao que não prenderam mais adiante.
Quando os gentis-homens regressaram, colocaram fogo na parte baixa da vila de Meaux e incendiaram tudo e a todos os vilãos do burgo que prenderam dentro. Depois desta destruição que se fez em Meaux, não voltaram a se unir em nenhuma parte, pois o jovem senhor de Coucy, que se chamava meu senhor Enguerrand, ia com muitos gentis-homens acabando com todos os que encontravam, sem piedade nem mercê."
(Jean de Froissart, Crônicas)
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sábado, 28 de abril de 2018
O processo de dois camponeses heréticos da aldeia de Bucy

“Visto que conhecemos os heréticos que esse ímpio conde de Soissons amava, podemos mencionar certo camponês chamado Clemente, que vivia em Bucy com seu irmão Evrard, uma vila na vizinhança de Soissons. Freqüentemente anunciava-se que ele era um dos líderes de uma heresia. O infame conde costumava perambular dizendo que um homem mais sábio do que esse Clemente não podia ser encontrado em lugar algum. Esse não é o tipo de heresia cujo ensinamento é abertamente defendido pelos seus mantenedores. Pior, ela rasteja clandestinamente como uma serpente e somente se revela através de seus contínuos deslizes.
Laconicamente, era encorajada pelos seus seguidores: eles declaram que a encarnação do filho da Virgem é uma ilusão; rejeitam o batismo de crianças antes da idade da razão, quaisquer que sejam seus padrinhos; invocam em seu próprio discurso a palavra de Deus, que se sucede através de uma longa recitação de palavras; odeiam o mistério que nós cantamos sobre nossos altares e chamam a boca de qualquer padre de boca do inferno. A fim de ocultarem sua heresia de outros, eles sempre recebem nossos sacramentos. Naquele dia, se consideram obrigados a jejuar e não comem mais nada. Não fazem distinção entre os cemitérios de solo sagrado e qualquer outro tipo de solo. Condenam o casamento e a procriação da prole.
De fato, por onde quer que estejam espalhados pelo mundo latino, esses homens podem ser vistos vivendo com mulheres sem tomar o nome de marido ou esposa. Nem mesmo podem-se ver homens e mulheres se confinarem aos mesmos parceiros: homens dormem com outros homens e mulheres com mulheres, pois asseguram que a relação de homens e mulheres é um crime. Eliminam qualquer descendência que brote de suas relações. Eles mantinham seus encontros em galerias sob o solo, em porões escondidos e sem distinção de sexo. Acendiam velas e se apresentavam para exibirem a uma jovem que – e isso está relatado – posicionava-se inclinada tendo suas nádegas expostas para todos verem.
Em breve, as velas se apagavam e eles gritam ‘Caos!’ de todos os lados e todos tinham relações com a primeira pessoa que tinham em suas mãos. Se uma mulher ficasse grávida no processo, voltavam para o mesmo lugar depois que ela tivesse dado à luz. Uma grande fogueira é acesa e aqueles sentados ao redor arremessam o bebê de uma mão para a outra através das chamas, até que a criança esteja morta. Quando o corpo da criança está reduzido a cinzas, fazem pão com elas e uma parte é distribuída a todos, como um tipo de sacramento e, uma vez tomado, ninguém se salva daquela heresia. Se alguém relê a lista de heresias compilada por Agostinho, percebe que ela é muito parecida com a dos maniqueístas.
Originalmente iniciada por pessoas bem educadas, essa heresia absorveu os camponeses que, alegando estarem absorvendo a vida apostólica, tinham lido os Atos dos Apóstolos e um pouco mais. Então, o bispo Lisiard de Soissons, um homem muito ilustre, intimou-os para o propósito de uma inquirição entre os dois heréticos que mencionamos, diante dele. O bispo começou acusando-os de realizar encontros fora da igreja e com heréticos bem conhecidos por aqueles ao redor deles. Clemente respondeu: ‘Meu senhor, você não leu no Evangelho beati eritis?’ [‘Você deverá ser abençoado?’]. Como era iletrado, pensou que a palavra eritis significava ‘heréticos’ e, além disso, pensou que ‘heréticos’ era para ser entendido no sentido de ‘herdeiros’, ainda que não de Deus, para ser sincero.
Quando foram interrogados sobre suas crenças, eles responderam da maneira mais cristã e negaram manter tais encontros. Mas como essas pessoas tipicamente negam todas as acusações e, em segredo, seduzem os corações e as mentes de pessoas simples, foram sentenciados para exorcismo ao ordálio da água. Enquanto os preparativos para esse ordálio estavam sendo feitos, o bispo me pediu para tomar em particular as opiniões deles. Quando levantei a questão do batismo de crianças, eles responderam: ‘Quem acredita e é batizado será salvo’. Como estava atento que uma boa resposta poderia, nesse caso, ocultar a mais soberba perversidade, perguntei a eles o que pensavam a respeito dos que são batizados de acordo com outra fé, e eles responderam: ‘Por Deus, não nos investigue tão profundamente!’ E para cada uma das questões, acrescentaram: ‘Nós acreditamos em tudo o que você diz.’ Então, eu me lembrei de um daqueles dizeres ao qual todos os priscilianistas costumavam aderir: ‘Faça juramento, perjure, mas não entregue o segredo.’
Então virei para o bispo e disse: ‘Como as testemunhas que os ouviram professar essa doutrina não estão aqui, levem-nos para o julgamento que foi preparado.’ As testemunhas eram certa dama que Clemente havia enlouquecido durante o ano passado, e um diácono que ouviu Clemente dizer as coisas mais perversas. Então, o bispo celebrou a missa e os heréticos receberam os sacramentos de sua mão assim que ele disse: ‘O corpo e o sangue do Senhor pedem por vocês a prova neste dia.’ Mais tarde, esse bispo mais que sagrado dirigiu-se para as águas com Pedro, o arquidiácono, um homem de fé inabalável que havia rejeitado os pedidos dos heréticos para não serem submetidos ao ordálio. Com muitas lágrimas, o bispo recitou as litanias e procedeu ao exorcismo.
Depois disso, o acusado jurou que nunca havia acreditado ou pensado em coisa contrária à nossa fé. Atirado dentro do tanque de água, Clemente ficou boiando como um pedaço de palha. Vendo isso, toda assembléia foi arrebatada com júbilo. Deve ser acrescentado que esse teste havia arrastado uma multidão de ambos os sexos e que ninguém conseguiu se lembrar de ter visto algo assim. O companheiro de Clemente confessou seu erro, mas sem expressar qualquer remorso. Com seu irmão condenado, ele foi atirado em uma cela. Dois outros heréticos declarados da vila de Dormans vieram para o espetáculo e do mesmo modo foram arrastados. Nós então fomos ao Concílio de Beauvais para consultar os bispos sobre o que deveria ser feito. Mas enquanto isso, o povo, cheio de fé e temendo a fraqueza do clero, correu para a prisão, forçou-a e queimou os heréticos em uma grande pira acesa fora da cidade. Assim, o povo de Deus, temendo que esse câncer se espalhasse, fez justiça com suas próprias e zelosas mãos.”
(Guiberto de Nogent, De Vita Sua)
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segunda-feira, 26 de março de 2018
A mudança do Estado

“Hoje o Estado dirige a economia e se passa por empresário; supervisiona a educação e administra o ensino em todos os níveis; intervém na vida da família e inclusive promove planos de controle de natalidade. Em plena monarquia absoluta – cujo apogeu na França coincidiu com o reinado de Luis XIV – o Estado não fazia nada disso, embora desse os primeiros passos na política de uma economia dirigida, pálida imagem da que atualmente temos ante nossos olhos. As autoridades sociais daquela época, embora já sem o poder e o prestígio que haviam gozado em séculos anteriores, desempenhavam, em sua esfera de ação, um papel de grande importância, o que implicava numa ampla descentralização na sociedade política. Se nos remontássemos a épocas mais distantes, veríamos o vigor com que essas autoridades sociais, nas monarquias cristãs da Idade Média, limitadas e representativas, cumpriam tarefas que ninguém imaginava que pudessem ser exercidas pelo soberano, ao qual correspondia salvaguardar o interesse de toda coletividade, manter a paz e fazer cumprir a justiça, sem imiscuir-se nem na organização do trabalho que incumbia às corporações de ofício, nem no ensino, nem na assistência social proporcionadas pela Igreja, nem nas Universidades que desfrutavam da autonomia que foi perdida com a intromissão estatal. Mas não era apenas isso. Até mesmo o poder de polícia, a faculdade de tributação e a força armada escapavam das mãos do monarca, pois os senhores feudais mantinham a ordem pública em seus domínios, cobravam impostos e mobilizavam tropas quando ainda não havia exércitos permanentes. Então, o que fazia o rei? Muito pouco. E onde estava o Estado: na verdade, eclipsou-se na sociedade feudal. A Idade Média, como já foi dito, foi a idade de ouro das comunidades, ao irradiar-se as funções do Estado no conjunto orgânico das sociedades. A fragmentação da soberania e a descentralização são as duas marcas características apontadas pelos juristas e historiadores ao caracterizar o feudalismo”.
(José Pedro Galvão de Sousa, El Cambio del Estado)
http://muralhasdacidade.blogspot.com.br
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
A Batalha de Lechfeld
“Enquanto em 955 o rei Otton estava em campanha contra os eslavos, um exército húngaro de mais de 100.000 homens abateu-se sobre a Baviera, devastando-a. A vitória que o rei obteve sobre esse inimigo a 10 de agosto em Lechfeld, junto de Augsburgo, é uma das mais formosas, digna de agradecer-se e cheia de conseqüências.
A Alemanha teve desde então tranqüilidade, a derrota trouxe como efeito para os húngaros a conversão ao Cristianismo e, com isso, a entrada no concerto dos reinos católicos.
A derrota de Lechfeld foi a salvação da nação húngara. Se os húngaros tivessem permanecido pagãos, teriam compartilhado a sorte dos hunos e ávaros, os quais finalmente sucumbiram ante os povos civilizados.
Sem declaração de guerra, os húngaros tinham invadido a Alemanha a mando de três generais: Lehel, Bultzu e Botend. Tentaram tomar Augsburgo, protegida por um simples muro.
O Duque Henrique estava doente em Regensburg. A surpresa foi tão rápida e violenta que o exército bávaro não pôde reunir-se do outro lado do Lech.
Se Augsburgo se sustentasse alguns dias, Otton teria tempo para reunir um exército. Isto ter sido possível foi mérito de Santo Ulrico, Bispo de Augsburgo, fiel partidário do rei.
Com a confiança em Deus própria de um Santo, com o valor de um herói e a prudência de um general, Santo Ulrico dirigiu a defesa da cidade.
Refreiou os temerários, e suas palavras e orações inflamaram o menosprezo da vida nos corações dos tímidos. Um assalto se seguia a outro. Entre a chuva dos projéteis, o Prelado de 65 anos, com ornamentos sacerdotais, sem escudo, montado a cavalo, sem ser ferido por nenhuma seta, inflamava os lutadores, consolava os feridos e dava conselhos e ordens.
– “Ainda nas sombras da morte, não temo, porque Vós estais comigo, ó Senhor” era a máxima do heróico bispo.
Cada dia crescia o perigo, mas também aumentava o entusiasmo da resistência, ao passo que os comandantes dos húngaros tinham de empurrar a chibatadas suas coortes contra os católicos, quando o som dos olifantes surpreendeu os assediantes, que nas suas costas viram ondular ao longe as bandeiras das tropas imperiais.
De fato, Otton avançava com uma tropa escolhida de saxões, caminhando por Weissengur a Denauwort. Chamou a si a Boêmia, a Suábia e as tropas da Baviera:
“Também o Duque Conrado, com uma numerosa cavalaria, chegou ao acampamento, e animados por sua chegada, os guerreiros desejavam que não se diferisse a peleja. No combate, ora a pé, ora a cavalo, era irresistível. Para seus amigos era tão caro na guerra como na paz”.
Os húngaros recolheram-se na margem esquerda do Lech. Um profundo sentimento religioso penetrava o exército alemão.
“A 9 de agosto mandou-se fazer no acampamento um jejum e que todos estivessem preparados para a batalha no dia seguinte. Com o primeiro alvor da manhã puseram-se de pé, deram-se mutuamente a paz, e juraram primeiro a seus chefes e logo uns para com outros o mútuo auxílio. Logo saíram do acampamento com as bandeiras ao vento, em número de oito legiões. O exército foi conduzido por um terreno acidentado e difícil, para que os inimigos não tivessem ocasião de inquietar a expedição com suas setas”.
As três primeiras legiões constituíam-se de bávaros, a quarta de francos a mando de Conrado, a quinta de escolhidos entre milhares de guerreiros, a mando do próprio Otton, em cuja bandeira estava pintado o arcanjo São Miguel, vencedor dos poderes das trevas.
A sexta e sétima divisões as formavam os suavos a mando de Burkhard II, pois não possuíam ainda o direito de lugar à frente no Império.
Os boêmios, como oitava legião, protegiam as bagagens. Uma divisão de húngaros tinha rodeado o exército formando um largo arco. Com um ataque súbito dispersou a legião de boêmios e pôs os suavos em confusão.
Somente Conrado com seus francos voltou a estabelecer a ordem. Otton já tinha formado sua ordem de batalha, e depois de uma alocução entusiasta, lançou-se com os seus contra o inimigo.
A luta foi longa e árdua. A vitória completa pela tarde. Os inimigos que não juncavam o campo de batalha fugiram sem ordem. Poucos chegaram a seu país. Segundo a lenda magiar, só sete, que foram declarados eternamente sem honra e incapazes de a possuir. Em toda parte levantou-se o povo dos campos como para uma caçada.
Matou e queimou os húngaros fugitivos, julgou-os em fossos, e em um dia vingou-se das injúrias de cinqüenta anos!
Os capitães prisioneiros, Botond, Lehel e Bultzu, não foram tratados conforme o direito da guerra, mas enforcados afrontosamente em Regensburg, porque sem declaração de guerra tinham invadido o país.
Mas com o júbilo misturou-se a tristeza pelo favorito do exército, o heróico Conrado, “o qual, sentindo excessivo calor pelo fogo interior e a violência do sol, que estava muito forte naquele dia, abriu a base do elmo para tomar ar, e caiu ferido na garganta por uma seta”.
Debaixo de sua couraça achou-se um cilício, sinal de quão arrependido estava de sua rebelião, a qual expiou com suas heróicas façanhas e seu sangue.
A derrota de Lechfeld teve para os húngaros o efeito de quebrar a força bárbara da nação e fazer com que os elementos mais nobres ali vencessem.
Outra conseqüência da vitória do dia de São Lourenço foi a fundação das Markas, de onde foi-se formando pouco a pouco a Áustria atual (a Ostmark, que depois seria o Österreich).”
(João Batista Weiss, História Universal)
http://heroismedievais.blogspot.com.br
A Alemanha teve desde então tranqüilidade, a derrota trouxe como efeito para os húngaros a conversão ao Cristianismo e, com isso, a entrada no concerto dos reinos católicos.
A derrota de Lechfeld foi a salvação da nação húngara. Se os húngaros tivessem permanecido pagãos, teriam compartilhado a sorte dos hunos e ávaros, os quais finalmente sucumbiram ante os povos civilizados.
Sem declaração de guerra, os húngaros tinham invadido a Alemanha a mando de três generais: Lehel, Bultzu e Botend. Tentaram tomar Augsburgo, protegida por um simples muro.
O Duque Henrique estava doente em Regensburg. A surpresa foi tão rápida e violenta que o exército bávaro não pôde reunir-se do outro lado do Lech.
Se Augsburgo se sustentasse alguns dias, Otton teria tempo para reunir um exército. Isto ter sido possível foi mérito de Santo Ulrico, Bispo de Augsburgo, fiel partidário do rei.
Com a confiança em Deus própria de um Santo, com o valor de um herói e a prudência de um general, Santo Ulrico dirigiu a defesa da cidade.
Refreiou os temerários, e suas palavras e orações inflamaram o menosprezo da vida nos corações dos tímidos. Um assalto se seguia a outro. Entre a chuva dos projéteis, o Prelado de 65 anos, com ornamentos sacerdotais, sem escudo, montado a cavalo, sem ser ferido por nenhuma seta, inflamava os lutadores, consolava os feridos e dava conselhos e ordens.
– “Ainda nas sombras da morte, não temo, porque Vós estais comigo, ó Senhor” era a máxima do heróico bispo.
Cada dia crescia o perigo, mas também aumentava o entusiasmo da resistência, ao passo que os comandantes dos húngaros tinham de empurrar a chibatadas suas coortes contra os católicos, quando o som dos olifantes surpreendeu os assediantes, que nas suas costas viram ondular ao longe as bandeiras das tropas imperiais.
De fato, Otton avançava com uma tropa escolhida de saxões, caminhando por Weissengur a Denauwort. Chamou a si a Boêmia, a Suábia e as tropas da Baviera:
“Também o Duque Conrado, com uma numerosa cavalaria, chegou ao acampamento, e animados por sua chegada, os guerreiros desejavam que não se diferisse a peleja. No combate, ora a pé, ora a cavalo, era irresistível. Para seus amigos era tão caro na guerra como na paz”.
Os húngaros recolheram-se na margem esquerda do Lech. Um profundo sentimento religioso penetrava o exército alemão.
“A 9 de agosto mandou-se fazer no acampamento um jejum e que todos estivessem preparados para a batalha no dia seguinte. Com o primeiro alvor da manhã puseram-se de pé, deram-se mutuamente a paz, e juraram primeiro a seus chefes e logo uns para com outros o mútuo auxílio. Logo saíram do acampamento com as bandeiras ao vento, em número de oito legiões. O exército foi conduzido por um terreno acidentado e difícil, para que os inimigos não tivessem ocasião de inquietar a expedição com suas setas”.
As três primeiras legiões constituíam-se de bávaros, a quarta de francos a mando de Conrado, a quinta de escolhidos entre milhares de guerreiros, a mando do próprio Otton, em cuja bandeira estava pintado o arcanjo São Miguel, vencedor dos poderes das trevas.
A sexta e sétima divisões as formavam os suavos a mando de Burkhard II, pois não possuíam ainda o direito de lugar à frente no Império.
Os boêmios, como oitava legião, protegiam as bagagens. Uma divisão de húngaros tinha rodeado o exército formando um largo arco. Com um ataque súbito dispersou a legião de boêmios e pôs os suavos em confusão.
Somente Conrado com seus francos voltou a estabelecer a ordem. Otton já tinha formado sua ordem de batalha, e depois de uma alocução entusiasta, lançou-se com os seus contra o inimigo.
A luta foi longa e árdua. A vitória completa pela tarde. Os inimigos que não juncavam o campo de batalha fugiram sem ordem. Poucos chegaram a seu país. Segundo a lenda magiar, só sete, que foram declarados eternamente sem honra e incapazes de a possuir. Em toda parte levantou-se o povo dos campos como para uma caçada.
Matou e queimou os húngaros fugitivos, julgou-os em fossos, e em um dia vingou-se das injúrias de cinqüenta anos!
Os capitães prisioneiros, Botond, Lehel e Bultzu, não foram tratados conforme o direito da guerra, mas enforcados afrontosamente em Regensburg, porque sem declaração de guerra tinham invadido o país.
Mas com o júbilo misturou-se a tristeza pelo favorito do exército, o heróico Conrado, “o qual, sentindo excessivo calor pelo fogo interior e a violência do sol, que estava muito forte naquele dia, abriu a base do elmo para tomar ar, e caiu ferido na garganta por uma seta”.
Debaixo de sua couraça achou-se um cilício, sinal de quão arrependido estava de sua rebelião, a qual expiou com suas heróicas façanhas e seu sangue.
A derrota de Lechfeld teve para os húngaros o efeito de quebrar a força bárbara da nação e fazer com que os elementos mais nobres ali vencessem.
Outra conseqüência da vitória do dia de São Lourenço foi a fundação das Markas, de onde foi-se formando pouco a pouco a Áustria atual (a Ostmark, que depois seria o Österreich).”
(João Batista Weiss, História Universal)
http://heroismedievais.blogspot.com.br
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
O tédio na Idade Média: rabiscos de 800 anos atrás
"A mania de rabiscar nas margens dos livros durante os momentos de tédio é tão antiga quanto a própria leitura, e nem sequer alguns dos manuscritos mais antigos conservados até hoje estão livres da mão ociosa de algum escriba.
Erik Kwakkei há anos estuda os rabiscos e esboços em manuscritos e livros antigos. Segundo Kwakkei, pode-se obter mais informação sobre a origem do escriba e sua educação a partir dos rabiscos do que estudando o estilo no qual foi escrito o livro, muitas vezes circunscrito às normas locais e à ordem religiosa onde a obra foi escrita. Não obstante, quando o tédio deixava a mente livre, estes escribas esboçavam, através dos seus rabiscos, rostos e outras figuras em um estilo que resultava mais natural, tornando, assim, possível desvendar a origem do autor.
Ainda que muitas das descobertas de Kwakkei não passem de testes para ver se uma determinada pena estava escrevendo bem ou para saber se tinha tinta suficiente, alguns outros rabiscos mais elaborados mostram que quando o tédio está à espreita não há nada que se possa fazer. Alguns dos rabiscos foram feitos em livros que haviam sido escritos séculos antes."
Fonte: Perplexos
Erik Kwakkei há anos estuda os rabiscos e esboços em manuscritos e livros antigos. Segundo Kwakkei, pode-se obter mais informação sobre a origem do escriba e sua educação a partir dos rabiscos do que estudando o estilo no qual foi escrito o livro, muitas vezes circunscrito às normas locais e à ordem religiosa onde a obra foi escrita. Não obstante, quando o tédio deixava a mente livre, estes escribas esboçavam, através dos seus rabiscos, rostos e outras figuras em um estilo que resultava mais natural, tornando, assim, possível desvendar a origem do autor.
Ainda que muitas das descobertas de Kwakkei não passem de testes para ver se uma determinada pena estava escrevendo bem ou para saber se tinha tinta suficiente, alguns outros rabiscos mais elaborados mostram que quando o tédio está à espreita não há nada que se possa fazer. Alguns dos rabiscos foram feitos em livros que haviam sido escritos séculos antes."
Fonte: Perplexos
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
A questão dos universais
“Ei-la nos termos mais simples: além das imagens sensitivas, variáveis e particulares, possuímos os conceitos universais, representações intelectivas, necessárias, imutáveis e aplicáveis a um número indefinido de indivíduos.
Ora, sendo as realidades sujeitas à nossa experiência, mutáveis e contingentes, qual o valor objetivo destes conceitos? Com que fidelidade exprimem eles a realidade extrema? Como explicar a contradição aparente entre o caráter de universalidade das nossas idéias e o caráter de individualidade e de contingência das coisas em si? Destas perguntas nasceu a famosa questão dos universais, uma das mais escabrosas e importantes de toda a filosofia. A questão do valor objetivo das ciências está toda aí. Das quatro soluções possíveis originaram-se outros tantos sistemas diversos, conhecidos com os nomes de realismo exagerado, nominalismo, conceptualismo e realismo moderado.
O realismo exagerado, para salvar a perfeita correspondência entre o conhecimento e o objeto, afirma, contra toda a evidência experimental, a existência de realidades objetivas formalmente universais. Platão, entre os gregos, Guilherme de Champeaux, na Idade Média, Ubaghs e La Forêt em nossos dias, são realistas exagerados.
O nominalismo, partindo do mesmo princípio que o sistema precedente, nega a existência dos conceitos universais, concedendo a universalidade somente aos vocábulos ou termos comuns, reduzidos ao simples mister de designar uma coleção de indivíduos ou uma série de acontecimentos. Pode-se duvidar se tal sistema teve adeptos na Idade Média. Entre os modernos, St. Mill, Taine, Ribot e, em geral, os positivistas professam o nominalismo, que então se confunde com o empirismo.
O conceptualismo admite só o valor ideal dos conceitos universais, negando uma realidade extramental que lhes corresponda. O fenomenismo de Kant é uma nova forma de conceptualismo.
O realismo moderado, aristotélico ou tomista, única solução que põe a salvo a objetividade do conhecimento científico e se harmoniza com os dados da consciência, defende o valor real e objetivo das idéias, estabelecendo uma distinção entre o modo por que a coisa existe em si e o modo por que existe na inteligência. Em si, os objetos de uma mesma espécie são singulares e individuais mas participam duma natureza comum, pela qual se assemelham.
Na inteligência, esta natureza comum, despida pela abstração dos caracteres individuais a que se acha unida na realidade, reveste os atributos de universalidade próprios do conceito. O universal, portanto, só existe, formalmente, na inteligência, mas a semelhança real dos seres duma mesma espécie presta-lhe um fundamento objetivo e justifica a aplicabilidade do tipo abstrato a todos os representantes individuais e concretos.”
(Pe. Leonel Franca, S.J, Noções de História da Filosofia)
Ora, sendo as realidades sujeitas à nossa experiência, mutáveis e contingentes, qual o valor objetivo destes conceitos? Com que fidelidade exprimem eles a realidade extrema? Como explicar a contradição aparente entre o caráter de universalidade das nossas idéias e o caráter de individualidade e de contingência das coisas em si? Destas perguntas nasceu a famosa questão dos universais, uma das mais escabrosas e importantes de toda a filosofia. A questão do valor objetivo das ciências está toda aí. Das quatro soluções possíveis originaram-se outros tantos sistemas diversos, conhecidos com os nomes de realismo exagerado, nominalismo, conceptualismo e realismo moderado.
O realismo exagerado, para salvar a perfeita correspondência entre o conhecimento e o objeto, afirma, contra toda a evidência experimental, a existência de realidades objetivas formalmente universais. Platão, entre os gregos, Guilherme de Champeaux, na Idade Média, Ubaghs e La Forêt em nossos dias, são realistas exagerados.
O nominalismo, partindo do mesmo princípio que o sistema precedente, nega a existência dos conceitos universais, concedendo a universalidade somente aos vocábulos ou termos comuns, reduzidos ao simples mister de designar uma coleção de indivíduos ou uma série de acontecimentos. Pode-se duvidar se tal sistema teve adeptos na Idade Média. Entre os modernos, St. Mill, Taine, Ribot e, em geral, os positivistas professam o nominalismo, que então se confunde com o empirismo.
O conceptualismo admite só o valor ideal dos conceitos universais, negando uma realidade extramental que lhes corresponda. O fenomenismo de Kant é uma nova forma de conceptualismo.
O realismo moderado, aristotélico ou tomista, única solução que põe a salvo a objetividade do conhecimento científico e se harmoniza com os dados da consciência, defende o valor real e objetivo das idéias, estabelecendo uma distinção entre o modo por que a coisa existe em si e o modo por que existe na inteligência. Em si, os objetos de uma mesma espécie são singulares e individuais mas participam duma natureza comum, pela qual se assemelham.
Na inteligência, esta natureza comum, despida pela abstração dos caracteres individuais a que se acha unida na realidade, reveste os atributos de universalidade próprios do conceito. O universal, portanto, só existe, formalmente, na inteligência, mas a semelhança real dos seres duma mesma espécie presta-lhe um fundamento objetivo e justifica a aplicabilidade do tipo abstrato a todos os representantes individuais e concretos.”
(Pe. Leonel Franca, S.J, Noções de História da Filosofia)
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Distorções históricas e os templários

"Distorções históricas são difíceis de endireitar. Um erro referente a um composto químico ou aos horários dos vôos de uma companhia aérea se manifestará no tempo devido com uma explosão ou com uma conexão perdida, mas idéias erradas sobre o passado podem persistir por séculos, apesar do diligente trabalho de historiadores, seja porque interesses pessoais beneficiam-se das distorções (a visão whig da história), seja porque a versão fantasiosa é mais divertida.
Isso é particularmente verdadeiro quanto aos Cavaleiros do Templo de Salomão, os Templários. A ordem foi fundada no início do século doze por um cavaleiro de Champagne, França oriental, chamado Hugo de Payens, que, cinco anos após a captura de Jerusalém pela Primeira Cruzada, fez uma peregrinação na Terra Santa com seu senhor feudal e homônimo, Conde Hugo de Champagne. Vendo a necessidade de os cavaleiros protegerem os peregrinos dos saqueadores muçulmanos, mas também percebendo um chamado de Deus para viver a vida de monge, Hugo e oito companheiros formaram uma comunidade híbrida de cavaleiros-monges que faziam votos de pobreza, castidade e obediência e seguiam a regra de uma ordem religiosa mas permaneciam em armas.
Nem todos os líderes da Igreja à época aprovavam essa idéia de uma ordem militar. São Bruno, o fundador dos Cartuxos, tinha sérias dúvidas a respeito da legitimidade moral de matar por Cristo. Contudo, Hugo de Payens encontrou um paladino no líder religioso de seu tempo, São Bernardo de Claraval, que não apenas apoiou a idéia como esboçou uma regra estrita, semelhante à da sua própria ordem Cisterciense, que foi aprovada pelo Papa.
Era uma idéia cujo tempo havia chegado. Todos os governantes da Cristandade Latina desejavam ir às cruzadas mas corriam o risco de usurpação se deixassem seus reinos por pouco tempo que fosse. Os Templários se tornaram seus procuradores. Doações de terra forneceram renda com a qual a ordem pôde equipar cavaleiros, soldados e escudeiros, construir castelos e empregar mercenários. Seu voto monástico de obediência resultou em uma disciplina militar impossível de impor aos cavaleiros vaidosos e temperamentais. Não havia limite ao seu período de serviço, como havia com os vassalos; como celibatários, não tinham filhos a sustentar; e a autoridade dentro da ordem não dependia de vínculos feudais. O líder dos Assassinos Sírios, Sinan ibn-Salman, dizia que não fazia sentido matar um Grão-Mestre Templário pois haveria sempre outro cavaleiro para ocupar seu lugar.
No começo do século treze, os Templários tinham-se tornado uma instituição rica e poderosa com fortalezas em Londres e Paris, uma rede de propriedades rurais bem administradas em toda a Europa, e uma forte presença política e militar na Terra Santa. Quase não há casos de cavaleiros corruptos – certamente menos que os de monges corruptos – mas há evidências de uma certa arrogância institucional e de consumo conspícuo: a fortaleza dos Templários em Acre era adornada com quatro leões revestidos de ouro que custaram ‘1.500 bezantes Sarracenos’. Os Templários prestavam contas apenas ao Papa, os bispos ressentiam-se de sua autonomia e os reis, de sua riqueza.
Em 1307, o Rei Felipe da França, buscando um modo de equilibrar o déficit nas finanças reais, decidiu expropriar a propriedade dos Templários. Acusando a ordem de traição, blasfêmia, sodomia e culto ao demônio, ordenou a prisão de todos os cavaleiros em sua jurisdição e exortou os Reis da Inglaterra e de Aragão a fazerem o mesmo. A tortura e o julgamento subseqüentes dos Templários, a procrastinação do Papa à época, Clemente V, e a dissolução da ordem no Concílio de Viena em 1311, são um dos mais vergonhosos episódios na história da Igreja Medieval.
Tão desgraçada como o destino dos últimos Templários – o Grão-Mestre, Jacques de Molay, foi queimado na fogueira em Paris – foi a apropriação da ordem por franco-maçons fazedores de mitos no século dezoito, cuja mistagogia e ofuscação persiste até o dia de hoje. Do Ivanhoe de Walter Scott até O Código Da Vinci de Dan Brown, o retrato dos Templários é tão falso como absurdo. Tal distorção exasperou, e mesmo enraiveceu, a historiadora francesa Régine Pernoud, que já corrigiu muitas de nossas idéias falsas sobre a Idade Média em seu livro Aquela Terrível Idade Média: Desconstruindo os Mitos. Agora, em Os Templários, ela reabilita os devotos cavaleiros Católicos, desmascarando “a incrível produção de alegações fantasiosas atribuindo aos Templários toda sorte de rituais e credos esotéricos, dos mais antigos aos mais vulgares...” Como ressalta corretamente, a verdade é acessível em arquivos e bibliotecas; não é impossível descobrir os fatos. O resultado é uma história excelente e sem adornos que é um prazer de ler.
Onde há controvérsia, ela dá sua opinião baseada em seu vasto conhecimento da Idade Média. Considera que as acusações feitas aos Templários são falsas: “apenas alguns historiadores, determinados a defender a todo custo a memória de Felipe, o Belo, dão qualquer fé às acusações das quais os Templários foram vítimas.” Ela também põe a dissolução da ordem em contexto histórico, comparando-a à supressão da Companhia de Jesus no século dezoito; e mostrando que a lavagem cerebral e a tortura às quais os Templários foram sujeitos pressagiam os métodos dos governos totalitários dos tempos modernos.
Não há santos canonizados entre os Templários. Além dos Grão-Mestres, pouco se sabe acerca dos cavaleiros que juntavam-se à ordem: poucos sabiam ler ou escrever (o que provaria ser uma grande desvantagem quando de sua prisão) e nenhum deixou qualquer registro do que pensava ou do que sofria. Todo cavaleiro que entrava na ordem sabia que provavelmente morreria em batalha. O branco de sua túnica era o dos mártires do Apocalipse, e o vermelho da cruz o sangue que seria vertido. Após a derrota dos Cristãos Latinos na Batalha de Hattin, aos cavaleiros Templários prisioneiros ofereceu-se a escolha de apostasia ou morte. Nenhum escolheu negar Cristo. Todos foram decapitados por extasiados Sufis às ordens de Saladino. Saladino ganhou ao fim a fama de misericordioso e magnânimo na vitória – outra distorção histórica; os cavaleiros Templários, podemos estar certos, ganharam uma recompensa eterna."
(Piers Paul Read, Historical Distortions and The Templars, prefácio ao livro de Régine Pernoud, The Templars: Knights of Christ)
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
O milagre da Idade Média

“Através da confusão da decadência do Império Romano desenha-se uma linha histórica marcada pela era patrística, que culmina com Agostinho, e das ruínas do mundo antigo começa a firmar-se a mais extraordinária e misteriosa experiência histórica: a Cristandade ou Civilização Cristã. Esta idade, ou statio da humanidade, realizada por mais de um milênio no ocidente cristão, se alguém quer admirá-la pelo que ela tem de mais admirável, terá de começar por aquilo mesmo de que ela é acusada pelo trepidante e insensato espírito moderno: terá de começar por admirar sua feição realmente estacionária.
Há na vida comum dos povos o mesmo paradoxo que se observa na vida dos corpos. À primeira vista, e às vezes nas últimas vistas dos espíritos fracos, a vida parece ser antes de tudo um movimento, um crescimento e até uma evolução; é preciso aprofundar o estudo para descobrir que o ser vivo, antes de tudo e principalmente, quer permanecer. Toda a intensa atividade do ser vivo converge para o interesse central que é a mantença de uma forma. Assim também mediríamos a mais profunda e intensa vitalidade de um momento histórico por sua profunda e intensa imobilidade. Enquanto os séculos triviais, ou subservientes ao tempo, têm empenho de passar, como se passar fosse seu ofício próprio, a Civilização Cristã da Idade Média pareceu querer estacionar, não como as civilizações adormecidas ou hibernadas, mas como uma experiência única que mais pareceu querer eternizar-se, pareceu querer rejeitar a História, como se todos os feitos de mais de mil anos tivessem o objetivo de deixar multi-luminosamente abertas até o fim do mundo as rosáceas das catedrais feitas de uma composição impressionista e indelével de pedra e luz.
As trevas da Idade Média – disse o judeu Gustave Cohen – são realmente as trevas de nossa ignorância; e creio que Egon Friedel, outro judeu, disse por outras palavras a mesma coisa.
Rompe-se o equilíbrio no seu esplendor. O século XIII, o maior dos séculos, abre-se para o tormentoso e enlouquecido século XIV. E depois do sombrio corredor de loucuras, luxúrias e flagelações, começa a “via modernorum” pelos dois portões engalanados da Renascença e da Reforma.”
(Gustavo Corção, O Século do Nada)
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