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segunda-feira, 20 de julho de 2020

Se o nosso ar é o lugar da pena dos demônios


“Parece que o nosso ar não é o lugar da pena dos demônios.
1. Pois o demônio é de natureza espiritual. Ora, a natureza espiritual não é afetada pelo lugar. Logo, não há nenhum lugar de pena para os demônios.
2. Demais. O pecado do homem não é mais grave que o do demônio. Ora, o lugar da pena do homem é o inferno. Logo, muito mais o do demônio. Logo, não o é o ar caliginoso.
3. Demais. Os demônios são punidos pela pena do fogo. Ora, no ar caliginoso não há fogo. Logo, esse ar não é o lugar a pena dos demônios.
Mas, em contrário, diz Agostinho que o ar caliginoso é um quase cárcere para os demônios, até o tempo do juízo.
SOLUÇÃO. Os anjos, por natureza, são medianeiros entre Deus e os homens. Ora, está na ordem da divina providência que o bem dos seres inferiores seja obtido pelos superiores. O bem do homem, porém, pode ser obtido duplamente pela divina providência. De um modo, diretamente; induzindo ao bem e retraindo do mal, o que convenientemente se faz pelos anjos bons. De outro modo, indiretamente: p. ex., quando alguém se exerce atacado pela impugnação de um contrário. E era conveniente que esta obtenção do bem humano se realizasse pelos maus anjos, a fim de que não fossem eliminados totalmente, depois do pecado, da utilidade da ordem natural. Assim, pois, duplo lugar de pena é devido aos demônios. Um, em razão da culpa, e esse é o inferno. Outro, porém, em razão da exercitação humana e esse é o ar caliginoso. Mas, como a busca da salvação humana se prolongará até o dia do juízo, até então durará o ministério dos anjos e a exercitação causada pelos demônios. Por isso, até então, também os bons anjos nos serão para cá mandados, e os demônios hão-de exercitar-nos neste ar caliginoso; embora alguns destes estejam também agora no inferno, para atormentar os que induziram ao mal, assim como alguns bons anjos estão com as almas santas no céu. Mas depois do dia do juízo, todos os maus, homens e anjos, estarão no inferno; os bons, porém, no céu.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. Um lugar não é de pena, para o anjo, nem para a alma, porque lhes afete a natureza, alterando-a; mas porque lhes afeta a vontade, contristando-a, enquanto o anjo ou a alma compreende estar num lugar, que não lhe convém à vontade.
RESPOSTA À SEGUNDA. Uma alma, na ordem da natureza, não é superior a outra, como os demônios, na ordem da natureza, são superiores aos homens. Por isso a razão não é a mesma.
RESPOSTA À TERCEIRA. Alguns disseram que a pena sensível dos demônios e das almas, bem como a beatitude dos santos, serão diferidas até o dia do juízo; o que é errôneo e repugna à sentença do Apóstolo: Se a nossa casa terrestre desta morada for desfeita, temos um edifício no céu. Outros, porém, embora não sejam da mesma opinião quanto às almas, são-no quanto aos demônios. Mas é melhor sentir que se deve fazer o mesmo juízo das almas más e dos maus anjos, de um lado, e das almas boas e dos bons anjos, de outro. Donde, assim como o lugar celeste pertence à glória dos anjos e, contudo, esta não diminui por virem eles a nós, porque consideram esse lugar como seu, do mesmo modo pelo qual dizemos que a honra do bispo não diminui quando não se assenta atualmente na cátedra; semelhantemente, embora os demônios não estejam atualmente ligados ao fogo da Geena, quando estão no ar caliginoso, contudo, por isso mesmo que sabem que essa prisão lhes é devida, a pena não se lhes diminui. Por isso diz uma certa Glossa que eles levam consigo o fogo da Geena para onde quer que vão. Nem vai contra o dito da Escritura, que pediram ao Senhor que não os mandasse ir para o abismo; porque assim o pediram reputando por pena se fossem excluídos do lugar em que podem prejudicar aos homens. Por onde em outra passagem se diz que pediam-lhe instantemente que os não lançasse fora do país.”
(Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae)

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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sobre o demônio

“Na vida da espécie humana, o princípio diabólico tem sua própria história. Sobre esta questão, existe séria literatura acadêmica – não relativa, contudo, às últimas décadas. No entanto, são as últimas décadas que lançam nova luz sobre os dois séculos passados. A era do Iluminismo Europeu (começando com os Enciclopedistas Franceses do século XVIII) solapou no interior do homem a crença na existência de um demônio pessoal. O homem instruído não pode acreditar na existência de um tal ser antropomórfico hediondo “com um rabo, garras e chifres” (segundo Zhukovsky), jamais visto por alguém mas retratado em baladas e quadros. Lutero ainda acreditava nele e até arremessava-lhe imundícies, mas os séculos mais recentes rejeitaram o demônio, e ele gradualmente “desapareceu” e apagou-se como um “preconceito ultrapassado”.
Mas foi precisamente então que a arte e a filosofia nele se interessaram. Ao europeu esclarecido só havia sobrado o casaco de satanás, com o qual, fascinado, ele começou a se vestir. Ardia o desejo de descobrir mais sobre o demônio, discernir sua “verdadeira forma”, conhecer seus pensamentos e desejos, “transformar-se” nele ou pelo menos andar entre os homens dele disfarçado...
Assim foi que a arte começou a imaginá-lo e retratá-lo, enquanto a filosofia tratava de sua justificação teórica. O demônio, é claro, “não teve sucesso”, porque a imaginação humana é incapaz de contê-lo, mas na literatura, música, e pintura começou uma cultura de demonismo. A partir do começo do século XIX, a Europa tem estado fascinada com suas formas antidivinas; aparece o demonismo da dúvida; negação; orgulho; rebelião; desapontamento; amargura; melancolia; desprezo; egoísmo; e até mesmo tédio. Os poetas mostram Prometeu, o Filho da Manhã, Caim, Don Juan, e Mefistófeles.
Byron; Goethe; Schiller; Chamisso; Hoffmann; Franz Liszt; e mais tarde Stuck, Baudelaire e outros apresentam uma galeria inteira de demônios ou homens e humores demoníacos. Ademais, esses demônios são inteligentes, espirituosos, instruídos, engenhosos, e temperamentais, numa palavra, charmosos e evocando simpatia, ao passo que os homens demoníacos são a encarnação da “angústia do mundo”, do “protesto nobre” e de certa “consciência maior revolucionária”.
Simultaneamente a doutrina mística defendendo que existe um “princípio negro”, até em Deus, foi ressuscitada. Os Românticos Alemães encontraram palavras poéticas em favor do “despudor inocente”, e o Hegeliano de Esquerda Max Stirner aparece abertamente pregando a autodeificação do homem e o egoísmo demoníaco. A negação de um demônio pessoal é gradualmente substituída pela justificação do princípio diabólico...
O abismo que se escondia além disso foi visto por Dostoievsky. Ele o identificou e com profético alarme procurou os meios de sobrepujá-lo durante toda sua vida.
Friedrich Nietzsche também se aproximou desse abismo, foi atraído por ele, e o exaltaria. Suas últimas palavras, A Vontade de Poder, O Anticristo, e Ecce Homo, contêm direta e aberta propaganda do mal...
Nietzsche designa a totalidade dos sujeitos religiosos (Deus, a alma, virtude, pecado, o além, verdade, vida eterna) como um “monte de mentiras, nascidas de maus instintos das naturezas doentias e daninhas no sentido mais profundo.” “A idéia cristã de Deus” é para ele “uma das idéias corruptas criadas na terra.” Aos seus olhos todo o Cristianismo é apenas uma “fábula grosseira de um taumaturgo e salvador”, e os cristãos “o partido dos ninguéns e idiotas rejeitados.”
O que ele exalta são “cinismo” e despudor, “o mais elevado que se pode alcançar na terra.” Ele invoca a fera no homem, o “animal superior” que deve ser libertado, sejam quais forem as conseqüências. Ele exige o “homem selvagem”, “cruel” com a “barriga feliz”. Tudo que é “cruel, a fera não disfarçada, o criminoso” o arrebata. “Só há grandeza onde houver um grande crime.” “Em cada um de nós o bárbaro e a besta selvagem afirmam-se a si mesmos.” Tudo na vida cria uma irmandade de homens – idéias de “culpa, castigo, justiça, honestidade, liberdade, amor etc” – “deveriam ser removidas da existência completamente.” “Avante”, ele exclama, “blasfemadores, imoralistas, independentes de todos os tipos, artistas, judeus, jogadores – todas as classes rejeitadas da sociedade!”...
E não há para ele maior alegria do que ver “a destruição dos melhores homens e seguir como, passo a passo, eles chegam à destruição”... “Conheço meu destino”, ele escreve,
Um dia meu nome será associado com a lembrança de algo assustador, uma crise tal que jamais se viu sobre a terra, a mais profunda colisão de consciência, uma sentença conjurada contra tudo que se tem acreditado, procurado, consagrado até hoje. Não sou um homem, sou dinamite.
Desta forma a justificação do mal encontrou suas fórmulas teóricas perfeitamente diabólicas, faltando apenas colocá-las em prática. Nietzsche encontrou seus leitores, discípulos, e admiradores; eles adotaram sua doutrina, combinando-a com a doutrina de Karl Marx, e levaram esse plano à execução 30 anos atrás.
“Demonismo” e “Satanismo” não são a mesma coisa. Demonismo é um assunto humano, enquanto Satanismo é um assunto do abismo espiritual. O homem demoníaco entrega-se a seus instintos selvagens e pode ainda arrepender-se e converter-se, mas o homem no qual, pelas palavras do Evangelho, “Satanás entrou”, é possuído por uma força estranha e sobre-humana e torna-se ele mesmo um demônio em forma humana.
Demonismo é um escurecimento espiritual transitório, sua fórmula sendo vida sem Deus; Satanismo é a escuridão total e final do espírito, sua fórmula a deposição de Deus. No homem demoníaco revolta-se o instinto sem rédeas apoiado pela fria razão; o homem satânico age como instrumento de outrem fazendo o mal, capaz de saborear sua ação repulsiva. O homem demoníaco gravita ao redor de Satanás: colaborando, festejando, sofrendo, fazendo pactos com ele (conforme a tradição popular), torna-se gradualmente o domicílio conveniente do demônio; o homem satânico perdeu-se a si mesmo e tornou-se o instrumento terreno de uma vontade diabólica. Quem jamais chegou a ver tais pessoas ou, vendo-as, não as reconheceu, não conhece o mal primordial aperfeiçoado e não tem entendimento do elemento verdadeiramente diabólico.
Nossas gerações estão dispostas diante de manifestações terríveis e misteriosas desse elemento e até hoje jamais resolveram expressar sua realidade de vida com as palavras certas. Poderíamos chamar esse elemento “fogo negro”, ou defini-lo como inveja eterna; ódio insaciável; banalidade militante; mentiras despudoradas; descaramento absoluto e desejo absoluto por poder; alegria com a ruína dos melhores homens, e Anticristianismo. O homem que sucumbiu a esse elemento perde a espiritualidade, o amor, e a consciência; dentro dele começa a degeneração e a dissolução. Ele se entrega ao vício consciente e à sede de destruição; e termina em sacrilégio desafiador e tormento humano.
A simples percepção desse elemento diabólico provoca, em uma alma saudável, repulsa e horror que podem se transformar em doença corporal genuína, um específico “desfalecimento” (o espasmo do sistema nervoso simpático, disritmia nervosa, e doença psicológica – que pode também levar ao suicídio). Os homens satânicos são reconhecidos pelos seus olhos, pelo seu sorriso, sua voz, suas palavras e atos. Nós, Russos, temo-los visto ao vivo e a cores; sabemos quem são e de onde vêm. Contudo, os estrangeiros até agora não entenderam esse fenômeno e não o querem entender, pois lhes traz julgamento e condenação.
E até este dia, certos teólogos reformistas continuam escrevendo sobre “a utilidade do demônio” e simpatizando com sua moderna insurreição.”
(Ivan Ilyin, On the Devil)