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sexta-feira, 9 de março de 2018

Czesław Miłosz: Depois da Penitência


A hipótese da ressurreição,
Que um cientista deduziu da mecânica quântica,
Prevê o retorno aos lugares e pessoas de que gostamos
Em um ou dois bilhões de anos terrenos
(O que no além-do-tempo é igual a um instante).
Estou contente por estar vivo quando se cumpre a profecia
Sobre a possível aliança entre a ciência e a religião,
Preparada por Einstein, Planck e Bohr.
Não levo muito a sério as fantasias científicas,
Embora respeite as fórmulas e gráficos.
Pedro Apóstolo foi mais conciso
Dizendo: A p o k a t a s t a s i s p a n t o n,
A renovação de todas as coisas.
Porém isso ajuda: poder imaginar
Que cada um de nós, em vez da vida, tem um código
Guardado num depósito para a eternidade, o supercomputador do universo.
Nos desmanchamos em podridão, cinzas, microadubo,
Mas aquela cifra, ou seja, a essência, permanece
E espera, até que por fim se reveste de corpo.
E se esta nova corporeidade
Precisa ser lavada do mal e da doença,
A ideia do Purgatório também entra na equação.
Não é outra coisa que os fiéis numa igreja de aldeia
Repetem em coro, pedindo a vida eterna.
E eu com eles. Sem entender
Quem serei, quando acordar depois da penitência.


Tradução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Czesław Miłosz: Œconomia Divina


Não achei que viveria momento tão singular.
Quando o Deus dos trovões e cumes rochosos,
O Senhor dos Exércitos, Kyrios Sabaoth,
Humilhasse mais duramente os homens,
Permitindo que agissem como bem quisessem,
Deixando-lhes as conclusões e não dizendo nada.
O espetáculo não lembrava, com efeito,
O ciclo de séculos das tragédias da realeza.
Estradas sobre vigas de concreto, cidades de vidro e ferro fundido,
Aeroportos inda maiores que territórios tribais
De súbito careceram de fundamento e ruíram.
Não em sonho, mas à luz do dia, porque amputados de si
Duravam como só dura o que não deveria durar.
Das árvores, pedras do campo, até dos limões na mesa
Fugiu toda a matéria e seu espectro
Não era mais que o vazio, fumaça numa película.
Deserdado dos objetos pululava o espaço.
Toda parte era parte alguma e parte alguma, toda parte.
As letras dos livros se apagavam, vacilavam e sumiam.
A mão não lograva traçar o signo da palmeira, o signo do rio, nem o signo do íbis.
Num alarido de muitas línguas era anunciada a morte da palavra.
O lamento era proibido, porque só lamentava a si mesmo.
Acometidas de inexplicável tormento as pessoas
Despiam-se nas praças, para que sua nudez intimasse o juízo.
Mas em vão ansiavam por horror, piedade e fúria.
Pouco fundamentados
Eram o trabalho e o descanso
E o rosto e os cabelos e os quadris
E toda e qualquer existência.


Tradução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza