Mostrando postagens com marcador Ernest Hello. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ernest Hello. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Ernest Hello sobre a indiferença

“Muitas pessoas que a desconhecem, acusam a Verdade por ser intolerante. Isso merece uma explicação.
Ao ouvi-los, pode-se dizer que a Verdade e o Erro são duas coisas com os mesmos direitos; duas rainhas, ambas legítimas, que devem viver em paz em seu próprio reino; duas divindades, que dividem entre elas a fidelidade do mundo, sem que uma tenha o direito de tomar os domínios da outra. E desse modo de pensar brota a indiferença, que é o triunfo de satã. O ódio lhe agrada, mas o ódio não é suficiente; ele deseja a indiferença.
A indiferença é uma forma particular de ódio, um ódio frio e duradouro que se esconde dos outros – por trás do ar da tolerância. Pois a indiferença nunca é real. Ela é ódio combinado com falsidade.
Para continuar a produzir, dia após dia, uma torrente de ferozes invectivas contra a Verdade, os homens precisam de uma decisão de caráter que eles não possuem.
Conseqüentemente, a posição que eles tomam é não tomar posição. Todavia, um ódio ruidoso é muito mais facilmente explicável, desde que se considere o Pecado Original, que o ódio silencioso. O que me impressiona não é ouvir alguma blasfêmia dos lábios de um homem. O Pecado Original lá está; o livre-arbítrio lá está; a blasfêmia tem sua explicação. O que me precipita na mais absoluta estupefação é a neutralidade.
É uma questão acerca do futuro da raça humana, e do futuro eterno de tudo que no universo possua inteligência e liberdade. É certamente e necessariamente uma questão acerca de tu contigo mesmo, com todos e com todas as coisas. Então, a menos que não te interesses por ti mesmo, nem por ninguém ou nada, essa é certamente e necessariamente uma questão do mais sagrado interesse para você. Toma tua alma, e corra para o calor da batalha. Toma seus desejos, seus pensamentos, suas orações, seu amor. Pegue qualquer arma que possas possivelmente utilizar, e te lance de corpo e alma na batalha em que tudo está em jogo.
Coloque-se no campo de batalha entre os disparos daqueles que amam e os daqueles que odeiam, pois deves auxiliar a um ou a outro. Não te engane sobre isso. O clamor não é aos homens em geral; é a ti em particular; pois todos os dons morais, mentais, físicos e materiais à tua disposição são as tantas armas que Deus colocou em tuas mãos, e te deu a liberdade de usá-las por ou contra Ele. Tu deves lutar; tu és obrigado a lutar. Só podes escolher em que lado estás.
Jesus Cristo, quando veio a este mundo, pediu aos homens tudo que Ele precisava, pois Ele escolheu ser o mais pobre entre os pobres. Ele pediu um lugar onde nascer: isso Lhe foi negado. Todas as estalagens estavam cheias; a porta de um estábulo era a única que estava aberta. Ele pediu um lugar onde morar; isso Lhe foi negado. O Filho do homem não teve um lugar para recostar Sua cabeça. E quanto a sua morte, Ele não teve sete palmos de terra abaixo dos quais Se deitar. A Terra o rejeitou, e Ele foi pendurado entre a Terra e o Céu, numa Cruz.
Ora, Aquele Que então pedia, ainda o faz. Ele pede por um lugar para nascer. Os indivíduos que lotam as estalagens, e que não desocupam seus lugares, mas mandam embora Jesus, para nascer entre uma vaca e um burro, são um admirável símbolo daqueles que estão constantemente sacrificando seus futuros e a si mesmos em nome de ninharias inexpressivamente tediosas e vazias.
De todas as idéias malucas inspiradas pelo demônio, esta é a que é a mais digna dele: A VERDADE É TEDIOSA. A Verdade tediosa! mas é a posse da Verdade que constitui a beatitude. A verdade maçante! mas a Verdade é o fundamento da felicidade extática. Todo o esplendor que percebemos não é senão débeis símbolos da Verdade. Mesmos seus raios distantes causam um êxtase indescritível.
A alma humana é feita para pastagens divinas, não só na Eternidade mas no Tempo. Não há duas fontes da felicidade. Há apenas Uma; mas Ela nunca secará, e todos podem dela beber. Você está apaixonado pelo tédio? É na direção do não-existente que você deve olhar. Mas você ama a Vida, a Felicidade, o Amor? Então vire-se para AQUELE QUE É.
Satã é o Príncipe do Tédio, do desespero, da infelicidade.
Deus é o Mestre do Contentamento. Que os indiferentes se examinem e se repreendam.”

http://angueth.blogspot.com.br

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Amor à verdade e ódio ao erro

“Todo aquele que ama a verdade odeia o erro. Falar assim parece tanto uma ingenuidade como um paradoxo. Mas o ódio ao erro é a pedra de toque para reconhecer se uma pessoa ama a verdade. Se alguém não ama a verdade, pode – até certo ponto – dizer que a ama e talvez até se fazer acreditar. Mas fique tranqüilo que cedo ou tarde dará sinais de não odiar o erro e com isto se entenderá que não ama a verdade.
Quando um homem, que costumava amar a verdade, não mais a ama, não declara logo a sua defecção; começa a odiar sempre menos o erro. Com isto se trai.
As complacências secretas fazem parte de uma das histórias menos conhecidas pelo mundo.
Quando um homem perde o amor pela doutrina que professava até ontem, seja boa, seja má, conserva o símbolo da doutrina. Mas sente morrer em si a aversão a todas as doutrinas contrárias.
Pelo mesmo fato de ser a caridade uma coisa sublime, a realidade por excelência e a medula dos ossos da criatura, por isso, também o abuso da caridade e o mau uso do seu nome devem ser, especialmente e de modo singular, perigosos. “Optimi corruptio pessima”. Quanto mais belo for o nome, tanto mais é terrível. Portanto, se se revolta contra a verdade armado com o poder que recebeu para a vida, que serviços não prestará à morte?
Ora, volta-se contra a luz o nome da caridade, todas as vezes em que, em lugar de atacar o erro, se chega a um acordo com este, sob o pretexto de poupar o homem. Volta-se contra a luz o nome da caridade, todas as vezes em que se serve deste para ceder na execração do mal. Habitualmente o homem gosta de ceder. A fraqueza é uma coisa agradável à natureza decaída; além disso, a falta de horror ao erro, ao mal, ao inferno, ao demônio, esta falta parece quase uma desculpa pelo mal em nós mesmos, e aí se prepara um pretexto para escusar aquilo que acariciamos em nossa alma. Em geral, a atenuação se localiza e o homem se amansa no confronto da debilidade que o quer invadir, quando começa a chamar “caridade” à acomodação universal com todas as fraquezas, ainda que distantes.
Aqui está um dito de Davi que nunca se escuta: “Que diligitis Dominum, odite malum” (“Vós que amais o Senhor, odiai o mal”).
Quando o mal entrou no mundo nasceu alguma coisa de irreconciliável. A caridade, o amor para com Deus, exige, supõe, implica, ordena o ódio aos inimigos de Deus. Mesmo a nível humano, a amizade não se mede pela vivacidade da ternura, mas antes pela comiseração no sofrimento. Se o amigo está contente, pode-se mesmo faltar à ternura por um momento, e, no entanto, permanecem amigos. Se o amigo sofre na sua pessoa ou na sua honra, devido a um acidente, a uma ofensa qualquer e se se ressente apenas francamente com o seu mal, já não se é mais amigo.
O grande Josafá, cujas dimensões desconhecidas espantam, foi reprovado pelo Senhor; tinha-se aliado com o rei de Israel. Aliar-se com o inimigo é o crime escondido, o delito profundo. Existem crimes evidentes, crimes aparentes. Mas a intimidade que possui tudo tem um crime contra si, que é se aliar com o inimigo. A medida do amor consiste em execrar o inimigo comum. O rei de Israel era inimigo de Deus, mas Josafá se tinha esquecido do que Deus execrava.
A aliança, a aproximação, a vizinhança espiritual do inimigo são crimes contra a intimidade! Ora, esta é a glória quando se trata de Deus, e é mais íntimo de Deus aquele que tem a maior reverência a Sua Majestade. Eis porque o pecado contra o Santo Nome faz os santos estremecerem de horror! Aqueles que sentiram o sopro da glória não se podem reconciliar com os crimes contra a glória. A caridade os impele; eis porque são intratáveis, uma vez que ela os obriga, como uma nobreza superior, a não consentir nas obras do ódio. Quem pactua com o erro não pode conhecer o amor na sua plenitude nem na sua força soberana.
Depois de uma longa guerra, quando não se pode mais com ela, quando o cansaço pode causar a vontade de acalmar-se, os reis foram vistos, fatigados pelos combates, cederem esta ou aquela fortaleza. São concessões que fazem acabar a guerra sem disparar os canhões. Mas as verdades não se tratam como fortalezas. Quando se quer fazer a paz, em espírito e verdade, deseja-se a conversão e não a acomodação. A justiça é inteiramente aquilo que é.
Nas relações entre os homens, quando uma aproximação parece realizar-se sem que o culpado tenha mudado em coisa nenhuma, quando se crê que um aperto de mão possa substituir o arrependimento e o sentimento de culpa, esta aproximação falaz acaba por revelar as dificuldades que traz consigo. É uma segunda separação muito mais profunda do que a precedente. E acontece o mesmo com a doutrina. A paz aparente, que a complacência compra e paga, é contrária tanto à caridade como à justiça, porque cava um abismo onde antes havia um pequeno fosso. A caridade requer sempre a luz, e a luz evita também as sombras do compromisso. Toda a beleza é uma coisa inteira. A paz é, talvez, no final das contas, a vitória mais segura sobre si mesma.
Que se diria de um médico que, por caridade, poupasse a doença de um cliente? O médico poderia dizer ao doente: “Depois de tudo, senhor, é preciso ter caridade. O câncer que o corrói interiormente talvez o faça de boa fé. Vamos! Seja mais gentil; não se deve ser tão duro. Ponha-se no lugar do câncer; nele talvez esteja um animal que tem necessidade de consumir-lhe a carne e o sangue, e o senhor terá a coragem de negar-lhe aquilo que lhe aproveita? O pobrezinho poderia morrer de fome! Por outro lado sou inclinado a crer que o câncer esteja de boa fé e o aconselho a ter um comportamento mais caridoso”.
É o crime do século dezoito: não odiar o mal e fazer-lhe propostas. Mas há uma única proposta para fazer ao mal: a de desaparecer. Qualquer compromisso com ele é uma vitória parcial, mas a vitória total do mal, porque ele não quer expulsar o bem, mas coabitar com ele. Um instinto secreto adverte-o de que, cedendo alguma coisa, cede tudo. E desde o momento em que não é mais odiado, sente-se adorado.
A paz, como se disse, é a vitória segura de si mesma. É uma eliminação. Uma eliminação tão completa que não se tem mais de lutar.”
(Ernesto Hello, L'Homme)

http://excerptos.blogspot.com.br