segunda-feira, 29 de abril de 2019

Christopher Fleming: A fortaleza abandonada


"Pouco antes de sua execução por Henrique VIII, o rei da Inglaterra de infausta memória, o bispo São João Fisher pronunciou estas dramáticas palavras: A fortaleza foi abandonada pelos que a tinham que defender.
Não se referia a uma invasão de seu país por uma nação estrangeira ou uma horda de bárbaros; nem sequer se lamentava do cisma provocado por uma luxúria de seu rei. Seu pesar foi sobretudo pela TRAIÇÃO de seus irmãos bispos, que um após outro abençoaram o falso matrimônio entre Henrique VIII e Ana Bolena. Não só pisotearam o sacramento original, ao permitirem o divórcio do matrimônio válido e consumado com Catarina de Aragão, tia carnal do imperador Carlos I da Espanha, como também traíram a mesma Igreja a que Jesus Cristo fundou ao separarem-se de Roma, sob uma nova "Igreja da Inglaterra", cuja cabeça era o rei. Muitos hoje em dia se assombram que todo o episcopado inglês pudesse apostatar desta maneira, com a única exceção do mártir Fisher. Parece inverossímil que os bispos vendessem sua alma para manterem seus postos (e suas cabeças), sabendo perfeitamente o que estava em jogo. No entanto, não deveria nos surpreender o ocorrido na Inglaterra no século XVI, porque está ocorrendo outra vez hoje, diante de nossos próprios narizes.
No domingo passado tive que assistir à Missa do primeiro aniversário do falecimento de um familiar, com o infortúnio de que foi no templo dos jesuítas. Dado que os conheço e que procuro cuidar de minha alma, não costumo pisar em igreja jesuíta, mas me propus isolar-me mentalmente com meu Rosário, como cada vez que tenho que assistir a uma Missa moderna. Ia bem até a metade da homilia. Era uma homilia tipicamente modernista: o importante era a experiência de seguir Jesus. A religião católica se reduzia a uma emoção, a um subjetivismo absoluto, como se a revelação divina não tivesse conteúdo claro e imutável. Tudo era um caminho, uma vivência. Havia ouvido mil vezes a mesma estupidez e continuei rezando sem alterar-me. Logo o sacerdote disse algo que me deixou gelado, algo que não esperava, nem sequer de um jesuíta modernista, neomarxista. Entre uma heresia e outra, pôs-se a falar dos chamados "refugiados", que não são tal coisa, mas isso deixamos para outro artigo. O homem teve a ousadia de dizer, DO PÚLPITO, que quem quisesse fechar as fronteiras aos "refugiados" era porque não cria em Deus. Nesse momento me levantei e saí da igreja.
Dizia que conhecia os jesuítas. Em aula de catequese de confirmação escutei um jesuíta (não o da Missa de domingo passado, mas dá no mesmo, porque seguem o mesmo padrão) negar o dogma da Imaculada Conceição. Eu era muito mais jovem e bem mais ignorante que agora, mas ainda assim sabia que o que ele dizia estava errado. Quando tentava rebater seus argumentos, se enfurecia. Uma vez, por afirmar que era possível estar a favor da pena de morte e ser pró-vida, chegou a insultar-me aos gritos e me expulsou de sua aula. Agora me parece incrível que um jesuíta, com uns 12 anos de formação teológica, pudesse perder a calma pelas objeções de um jovem catecúmeno, que só defendia o que está em qualquer catecismo. Ao final, para poder crismar-me, tive que aprender a morder-me a língua e fingir. A experiência com os jesuítas me ensinou que a Igreja Católica estava seriamente enferma. Os que antes foram os mais ferozes e leais guardiães da fé haviam-se tornado uma quinta coluna. Em vez de lutar pela glória de Deus, como pregava seu fundador, Santo Inácio de Loyola, lutavam, com um ódio realmente diabólico, por destruir o que restava da ordem social cristã.
Nesse momento não entendia as razões desta traição da Companhia de Jesus. Doía-me enormemente comprovar como uma ordem que havia dado tão bons frutos para Deus havia-se apodrecido por completo. Vem-me à cabeça a máxima: "corruptio optima pessima" (a corrupção do melhor é o pior). À época, com o Papa João Paulo II, os jesuítas ultramodernistas, que desde pelo menos a metade do século XX haviam sido a ponta de lança da infiltração modernista na Igreja, ainda eram mal vistos na maioria dos círculos eclesiais. No entanto, desde a eleição do jesuíta Jorge Bergoglio como Papa, viraram a mesa. Já gozam de liberdade absoluta para difundir seu veneno por toda a Igreja, porque a máxima autoridade é um dos seus. Pode-se dizer sem medo de errar que a Companhia de Jesus traiu a fortaleza que tinha que defender, mas a maior traição comete quem está no comando. Vejamos as traições de Francisco.
A primeira visita do Papa Francisco fora de Roma em 2013 foi à ilha siciliana de Lampedusa, onde celebrou uma Missa para os imigrantes que haviam morrido tentando cruzar o Mediterrâneo. Teve o detalhe de felicitar o Ramadã aos muçulmanos presentes. Denunciou a dureza de coração da Europa frente ao sofrimento dos países em guerra e apelou à solidariedade para com os "refugiados". Durante a campanha presidencial estadunidense, disse que o candidato republicano Donald Trump não era cristão, por querer construir um muro na fronteira com o México, em vez de estender pontes. Não perdeu a oportunidade de atacar qualquer grupo político que pleiteia defender suas fronteiras da imigração massiva e descontrolada. Quanto ao maior perigo que ameaça o Ocidente, o Islã, que fez este Papa para proteger a civilização cristã? Não só não a protege, como tem insistido repetidas vezes na grande mentira de que o Islã é uma religião de paz, e nos insta a abrir-lhe as portas da Europa. Em lugar de pregar o Evangelho, prega o indiferentismo religioso. Toda vez que se reúne com seus amigos rabinos e muftis para plantar uma oliveira da paz, poucos dias depois se comete uma nova atrocidade em nome de Alá. Não sai uma só palavra de denúncia de sua boca contra o terrorismo islâmico, porque o alvo de suas invectivas sempre somos os poucos católicos que ainda cremos nos dogmas de fé: os rígidos e intolerantes tradicionalistas. É um homem contagiado com o vírus liberal: o ódio a si mesmo.
Enquanto Francisco se lamenta pelo sistema econômico desumano que existe no mundo, alia-se com os mesmos globalistas que o construíram. Repreende os católicos por "obcecarem-se" com o tema do aborto, enquanto recebe com sorrisos e adulações a marxista e abortista Emma Bonino. Dói-lhe terrivelmente a morte de Fidel Castro, e distribui abraços a todo tipo de indesejáveis no Vaticano. No entanto, nega-se a receber a família de Asia Bibi, uma pobre mulher paquistanesa, sentenciada à morte por ser católica. Permite que se questione a indissolubilidade do matrimônio, e insulta os poucos bispos que lhe formulam perguntas respeitosas a respeito. Frente à ofensiva do lobby gay para legalizar o sodomônio em todo o Ocidente, sua única resposta é "quem sou eu para julgar?" Diante do inverno demográfico da Europa, ocorre-lhe insultar os católicos que querem receber a todos os filhos que Deus lhes queira dar, como sempre se fez, dizendo que "não faz falta parir como coelhos". Ri-se dos católicos que preferem a Missa tradicional, enquanto aplaude vergonhosos espetáculos de tango na liturgia ou lava os pés de uma muçulmana no rito da quinta-feira santa. Quer que todo mundo o veja como um homem humilde, por viajar de ônibus e viver em um apartamento simples, mas se nega redondamente a ajoelhar-se ante o Senhor na Eucaristia.
Até teve a desfaçatez de comparar a evangelização católica das Américas com a expansão sangrenta do Islã. Quem quer que tenha um mínimo conhecimento histórico sabe que o Islã sempre expandiu suas fronteiras com a espada, tal como o fez em seu tempo Maomé. A religião católica também se expandiu com sangue, mas com o sangue de seus mártires. Como jesuíta, Francisco deve conhecer a história de Santo Isaac Jogues, o evangelizador dos índios iroqueses do Canadá. Esse mártir foi torturado tão cruelmente pelos iroqueses que apenas o reconheceram quando conseguiu voltar à civilização e foi proclamado um "mártir em vida" pelo Papa Urbano VIII. Apesar dos evidentes perigos, o santo quis retornar ao Canadá, onde finalmente foi assassinado pelos Mohawks. Se esse mártir tivesse seguido os conselhos do Papa Francisco, que considera o proselitismo "uma solene bobagem", nunca se teria movido de sua França natal. As palavras de Francisco são um insulto à memória de todos os missionários que arriscaram (e em muitas ocasiões perderam) sua vida para trazer almas à Igreja. Equiparar o Islã e outras falsas religiões à religião católica é pior que um insulto: é uma blasfêmia.
Por acaso é melhor esse Papa que os bispos desertores da Inglaterra no século XVI? NÃO, É PIOR. Muito pior. Porque há um agravante importante no caso de Francisco. Ele não corre o perigo de ser torturado e decapitado por agir e falar como deveria. Se dissesse a verdade sobre o Islã, se pregasse a favor da civilização cristã, se defendesse a família e o direito à vida, não lhe aconteceria nada. Simplesmente não gozaria do status de superestrela midiática que tem atualmente. Deixaria de ser um ídolo de todos os progressistas, de todos os inimigos do Ocidente. Os meios de comunicação de massas já não o adulariam como fazem agora. Os futebolistas e diversas celebridades liberais deixariam de visitá-lo no Vaticano. Vê-se que isso é mais importante para ele que seu destino eterno. Deus queira que se arrependa enquanto ainda há tempo."

http://adelantelafe.com

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Sede perfeitos

"O problema real da vida cristã aparece onde as pessoas normalmente não o procuram. Ele aparece no instante em que você acorda cada manhã. Todos os desejos e esperanças para o dia correm para você como animais selvagens. E a primeira tarefa de cada manhã consiste simplesmente em empurrá-los todos para trás; em dar ouvidos a outra voz, tomando aquele outro ponto de vista, deixando aquela outra vida mais ampla, mais forte e mais calma entrar como uma brisa. E assim por diante, todos os dias. Mantendo distância de todas as inquietações e de todos os aborrecimentos naturais, protegendo-se do vento. No começo, somos capazes de fazê-lo somente por alguns momentos. Mas então o novo tipo de vida estará se propagando por todo o nosso ser, porque então estamos deixando Cristo trabalhar em nós no lugar certo. Trata-se da diferença entre a tinta, que está simplesmente deitada sobre a superfície, e uma mancha que penetra naquela superfície.
Quando Cristo disse “sede perfeitos”, quis dizer isso mesmo. Ele quis dizer que temos que entrar no tratamento completo. Pode ser duro para um ovo se transformar em um pássaro; seria uma visão deveras divertida, e muito mais difícil, tentar voar enquanto ainda se é um ovo. Hoje nós somos como ovos. Mas você não pode se contentar em ser um ovo comum, ainda que decente. Ou sua casca se rompe ou você apodrecerá."
(C. S. Lewis, Mere Christianity)

sexta-feira, 19 de abril de 2019

As dificuldades para se doar ao governo no Brasil


"Sabem por que até agora já foram doados mais de 800 milhões de euros para a restauração de Notre-Dame, mas quase nada para a restauração do Museu Nacional? Eu explico:
1- Doações em dinheiro pagam até 8% de imposto no Rio de Janeiro;
2- Doações de bens e serviços (digamos que você tenha uma marcenaria ou uma empresa de construção civil e deseje doar bens de consumo ou prestar serviços gratuitamente) recolhem IPI, ICMS, PIS e Cofins;
3- Doações para universidades públicas (o Museu Nacional é administrado pela UFRJ) dependem de aprovação prévia do Conselho Técnico-Administrativo, do Conselho Deliberativo, e do Conselho Gestor, em processo administrativo que pode durar MESES; se a doação for em dinheiro, há necessidade de aprovação pela Procuradoria Geral; apesar de não haver vedação legal, as universidades em geral recusam doação de acessões artificiais (reformas) pela complexidade do processo administrativo exigido por lei;
4- Se o Procurador Geral entender que a doação implica em alguma contrapartida (por exemplo, a colocação de uma placa com o nome do doador, prática comum em todo o mundo civilizado), pode recomendar a abertura de procedimento licitatório (sim, você leu direito - se você quiser DOAR DINHEIRO AO GOVERNO PRECISA ENTRAR NUMA LICITAÇÃO);
5- Você pode contribuir pela Lei Rouanet, abatendo o valor da doação da base de cálculo do seu imposto de renda, mas isso depende da abertura de edital específico pela Secretaria de Cultura - se não há edital, não há como doar por esse caminho;
6- Não importa qual a forma escolhida, se a Polícia Federal, a Receita Federal ou o Ministério Público Federal entenderem que a sua doação importa em desvio de finalidade ou evasão fiscal, você ainda se sujeita a um processo crime, e pode ser preso por doar dinheiro ao governo.
A maior parte da diretoria do Museu Nacional é filiada ao PSOL, partido de gente que, nos últimos 40 anos, trabalhou pra criar a distopia acima descrita.
Vocês passaram a vida semeando ódio contra a "elite" e a classe média, e entuchando imposto sobre tudo o que dava. Agora, não reclamem da falta de solidariedade."
(Rafael Rosset, em postagem no Facebook de 18.04.2019)

terça-feira, 16 de abril de 2019

Naturalismo e revolução


“O Naturalismo consiste na negação da possibilidade da elevação de nossa natureza à Vida Sobrenatural e ordem ou, ainda mais radicalmente, na negação da própria existência daquela Vida e ordem. Se o Naturalismo nega a existência da Vida Sobrenatural, tem seu fundamento no Panteísmo. A razão da última afirmação é clara. Se não há verdade e vida além do âmbito de nossa natureza, então nossa natureza é idêntica à Natureza Divina. O Racionalismo é a aplicação do Naturalismo à razão humana. Envolve a negação ou da existência da Vida Sobrenatural que vem de Nosso Senhor Jesus Cristo ou pelo menos da possibilidade de se poder conhecer essa Vida, mesmo por revelação. Destarte a mente humana é a única fonte de verdade e ordem, com exclusão de Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo.
A palavra Revolução pode ser considerada em dois sentidos. A significação primária é a de uma radical transformação da sociedade empreendida com o propósito de destruir a ordem antiga que se baseava no reconhecimento dos Direitos de Deus através do Corpo Místico de Cristo e da realidade da Vida Sobrenatural da Graça como nossa vida mais nobre e elevada. O segundo significado deriva do anterior. Diz que a palavra é aplicada às doutrinas ou princípios em nome dos quais a transformação social é realizada e às novas instituições estabelecidas em lugar das derrubadas. O objetivo da revolução, portanto, baseia-se na negação dos Direitos de Deus e de nossa Vida Sobrenatural e é a entronização da razão humana como soberana. Em outras palavras, é a inauguração do reino do Naturalismo ou Racionalismo.”
(Rev. Denis Fahey, The Mystical Body of Christ and The Reorganization of Society)

quinta-feira, 11 de abril de 2019

O verdadeiro fundamento

"A posição suprema que teve São Pedro na Igreja militante, em razão da qual é chamado fundamento da Igreja, como chefe e governador, não vai além da autoridade do seu Mestre, antes, lhe é apenas uma participação; de modo que São Pedro não é fundamento da hierarquia fora de Nosso Senhor, mas em Nosso Senhor, tanto que nós o chamamos Santo Padre em Nosso Senhor, fora do qual não seria nada. […] Fundamento é então, Nosso Senhor, e assim também São Pedro, mas com uma notável diferença, que, a comparar com um, se pode também afirmar que o outro não o é. Verdadeiramente, Nosso Senhor é fundamento e fundador, fundamento sem outro fundamento, fundamento da Igreja Natural, Mosaica e Evangélica, fundamento perpétuo e imortal, fundamento da militante e daquela triunfante, fundamento de si mesmo, fundamento da nossa fé, esperança e caridade e do valor dos Sacramentos. São Pedro é fundamento, mas não fundador de toda a Igreja, fundamento, mas fundado sobre um outro fundamento que é Nosso Senhor, fundamento apenas da Igreja Evangélica, fundamento sujeito a sucessão, fundamento da Igreja militante, mas não daquela triunfante, fundamento por participação, fundamento ministerial, não absoluto; enfim, administrador e não senhor e por nada fundamento da nossa fé, esperança e caridade, nem do valor dos Sacramentos."
(São Francisco de Sales, Controvérsias)

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Cinco Momentos Cruciais na Vida de W. G. Sebald

“Todo autor que aspire a biografar W. G. Sebald deve enfrentar a ficcionalização que o Sebald autor levou a cabo com a vida do Sebald narrador/personagem que aparece em suas obras literárias. Datas de nascimento, de falecimento, seu emprego, a publicação de seus livros e outros acontecimentos certamente são transcendentais na vida empírica de W. G. Sebald, mas não em sua biografia interior e subjetiva, que sem dúvida é mais interessante para seus leitores. No entanto, como se pode distinguir entre fato biográfico e invenção? O próprio Sebald tornou deliberadamente esta distinção uma tarefa difícil, senão impossível: aparentemente seus narradores refletem sua vida real de professor/escritor nascido na Alemanha e residente na Inglaterra, mas seus livros não fazem nenhuma referência a, por exemplo, sua vida familiar com sua esposa e uma filha. O Sebald narrador sempre está sozinho, é o outsider e caminhante por antonomásia; o Sebald autor, não tanto. A seguir apresento uma lista de cinco dos acontecimentos mais importantes na vida de W. G. Sebald, começando por um que tem lugar inclusive antes de seu nascimento. Os primeiros três acontecimentos pertencem diretamente ao âmbito da biografia interior parcialmente inventada do narrador sebaldiano. Os dois últimos – de momentos muito posteriores de sua vida – têm uma validade histórica relacionada com sua própria posição geracional na Alemanha do pós-guerra.
1) A guerra aérea contra a Alemanha
Na noite de 28 de agosto de 1943, 528 aviões aliados bombardeiam a cidade de Nuremberg. Rose Sebald, nascida Egelhofer, se encontra de volta a casa depois de visitar seu marido – à época oficial da Wehrmacht – em Bamberg. Só pode chegar a Fürth, de onde vê Nuremberg em chamas; pouco depois se dá conta de que está grávida. Nascido oito meses depois, em 18 de maio de 1944, Sebald se criou na aldeia de sua mãe, ao pé dos Alpes, no sudoeste da Baviera, perto das fronteiras austríaca e suíça. Aquele lugar bucólico não foi nunca bombardeado, de maneira que Sebald cresceu sem nenhuma noção de destruição. Mas para o narrador de Do natural, no momento em que Rose Sebald se vira para olhar a destruição das instalações onde se celebravam os congressos do partido nazista, cria-se um vínculo pessoal direto do narrador com esta destruição quase bíblica, "como se eu já tivesse visto tudo antes", escreve. Os bombardeios da Alemanha perturbarão sua vida adulta e praticamente toda sua ficção. Ironicamente, Sebald viveu quase trinta anos na costa nordeste da Inglaterra, a pouca distância do lugar de onde os aviões ingleses iniciavam seus ataques aéreos contra a Alemanha.
2) Pais alheios
Em fins de janeiro ou princípios de fevereiro de 1947, Sebald não tem nem três anos quando a família viaja a Memmingen para receber a Georg Sebald, liberado recentemente de um campo de prisioneiros de guerra na França. É um momento arquetípico na vida das famílias alemãs que terá lugar desde o fim da guerra até 1956, quando finalmente são postos em liberdade os últimos prisioneiros alemães de seu confinamento soviético. O pai que regressa, objeto de muitas recordações familiares e de uma grande idealização durante sua ausência, apresenta na realidade uma série de contradições inquietantes a seus filhos: depauperado moral e fisicamente (pesa menos de cinqüenta quilos), mas autoritário e exigente; o usurpador severo em um universo familiar até então encabeçado benevolamente por sua mãe, sua irmã maior Gertrud e seus complacentes avôs maternos, Josef e Theresa Egelhofer. O filho menor, Winfried, nunca perdoará a seu pai. A relação fraturada com Georg Sebald, nome que seu filho compartilha mas que desterrará relegando-o a uma inicial ("W. G." = Winfried Georg), induzirá as decisões mais importantes de sua vida e será um catalisador oculto para sua produção literária.
3) O filósofo natural
O pai "autêntico" ou eleito de Sebald foi seu avô Josef Egelhofer, que serviu de polícia rural na aldeia de Wertach desde princípios do século XX até que se aposentou, nos anos trinta. Homem reconhecidamente sensível, afável e gracioso, não recebeu muita educação formal, mas era inteligente e curioso, sobretudo em relação ao mundo físico que o rodeava. Gertrud Sebald disse que é um Naturphilosoph ou filósofo natural. O Egelhofer aposentado, cuja profissão o havia levado a patrulhar os arredores a pé, levava seu neto a fazer longas caminhadas e lhe dava a conhecer as flores e as ervas, a meteorologia e a geologia das montanhas, mas também os habitantes da aldeia, já que conhecia muito bem suas histórias vitais. É o primeiro e mais querido mentor de Sebald, um papel que se viu reforçado pela ausência de seu genro, Georg, que trabalhava em uma população vizinha e até 1952 voltava a casa só nos fins de semana. Egelhofer morreu em abril de 1956, à noite, durante uma grande tempestade de neve, alguns meses antes de seu neto finalizar a educação primária. Sua morte deixará talvez a marca mais importante dentre todos os acontecimentos da paisagem interior de Sebald. Seu primeiro romance, escrito durante seus estudos universitários mas nunca publicado, gira em torno da longa descrição do funeral e do enterro de seu avô. Mas a presença de Engelhofer também se pode notar nas obras publicadas: no vínculo reverencial entre os narradores jovens de Die Ausgewanderten (em português publicado com o título de Os Emigrantes) e Austerlitz (publicado em português com o mesmo título) e em figuras masculinas de mentores mais velhos e mais sábios como Henry Selwyn, Max Faber ou Jacques Austerlitz, vítimas e sobreviventes melancólicos de uma catástrofe pessoal muito anterior.
4) Uma vida no exterior
A mudança de residência de Friburgo de Brisgóvia (na Alemanha) a Friburgo (na Suíça) em outubro de 1965 marca sua ruptura transcendental, embora involuntária, com a Alemanha e o início de sua emigração, primeiro à Suíça e depois à Inglaterra, onde viverá até sua morte, em 2001. Dita mudança não obedeceu a um plano deliberado para emigrar: o traslado à Friburgo suíça foi motivado por seu desejo de fugir ao entorno rígido e moralmente comprometido do professorado da faculdade de Filologia Alemã da Universidade de Friburgo, onde havia estudado inicialmente. Também lhe deu a oportunidade de estudar sem ter que pagar um aluguel, sem o apoio econômico de seu pai, já que vivia em um andar com sua querida irmã Gertrud e o marido suíço desta, Jean-Paul Aebischer. Durante sua estada em Friburgo, Sebald completa sua licenciatura com menção de nove meses de francês (uma língua que mal tinha estudado antes), trabalhando com um professor vienense que se havia oposto aos nazistas e havia emigrado à Suíça antes da guerra. Aqui começa a conexão de Sebald com as vítimas e os exilados dos nazistas, conexão que continua em relações importantes que estabelece na Inglaterra, onde havia encontrado refúgio grande quantidade de judeus alemães perseguidos. A estada em Friburgo lhe ensinará o que a vida pode oferecer em um país e uma língua estrangeiros quanto à libertação e ao alívio interiores da carga dos crimes de guerra da Alemanha de sua geração. Viver entre não-alemães fez-lhe ganhar consciência daquela carga e ao mesmo tempo tornou-a mais leve. A emigração formava parte do DNA familiar. Nos anos vinte, os três tios e tias maternos de Sebald emigraram da Alemanha aos Estados Unidos e lá permaneceram até sua morte; as duas irmãs de Sebald, Gertrud e Beate, foram morar na Suíça no começo de suas vidas, onde ainda vivem. Mas a emigração também formava parte de sua herança geracional como filho nascido durante o logo depois da guerra, a geração que chegará à maioridade durante os anos sessenta e, muito amiúde, buscará fortuna no exterior.
5) Onde tudo começou
No inverno de 1983, enquanto vivia em Norfolk, na Inglaterra, Sebald recebeu notícias da parte de sua mãe sobre o suicídio de um mestre muito querido da escola primária chamado Armin Müller. Rose lhe mandou recortes de jornal que informavam de sua horripilante morte – o mestre aposentado havia caído sobre os trilhos de trem na periferia de Sonthofen – e graças àqueles recortes Sebald descobriu que Müller, surpreendentemente, havia sido vítima dos nazistas nos anos trinta. Como neto de avôs judeus ou uma quarta parte judeu, no período inicial do regime nazista proibiram-no de ensinar alemão às crianças, muito embora em 1939, paradoxalmente, a Wehrmacht o convocaria aludindo a suas três quartas partes de alemão e serviria à pátria durante seis anos. O descobrimento de Sebald de um exemplo a mais da conspiração do silêncio perpetrada por pais e professores sobre a verdadeira implicação de sua aldeia natal na perseguição nacional-socialista engendra nele emoções contraditórias: raiva porque desde pequeno as figuras de autoridade lhe mentiram, mas também dolo culpável por um mestre querido, já que de repente se dá conta de que nunca havia entendido de todo a autêntica identidade daquele mestre nem a perseguição que havia sofrido no passado. As emoções mescladas são um potente catalisador para sua obra literária e o levam a escrever a história de Paul Bereyter, em Os Emigrantes. Esta história, uma das mais comoventes de Sebald, estabelece o modelo de sua ficção, semidocumental e eticamente comprometida, que se tornará sua assinatura literária."
(Mark M. Anderson, Cinco Momentos Cruciais na Vida de W. G. Sebald)

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quarta-feira, 3 de abril de 2019

São Ricardo Bachedine

"Ricardo Bachedine nasceu na Inglaterra em 1197, já em meio a uma tragédia familiar: os pais, que eram nobres e ricos, de repente caíram na miséria. Logo depois, morreram e deixaram-lhe como herança muitas dívidas e um casal de irmãos. Por isso Ricardo teve de deixar os estudos com os beneditinos em Worcester e voltou para casa para ajudar a restaurar as finanças. A situação melhorou e ele voltou para os estudos, deixando as propriedades aos cuidados de um bom administrador, resguardando, assim, os irmãos de qualquer imprevisto.
Ricardo completou sua formação na Universidade de Oxford, onde foi eleito reitor. Desde então, começou sua atuação em prol da Igreja, pois eram anos de grande corrupção moral.
O povo, ignorante e supersticioso, aceitava passivamente a vida devassa dos nobres e do clero, que há muito estava afastado da disciplina monástica. Ricardo, ao contrário, vivia com austeridade e passou a lutar por uma reforma geral nos meios católicos, para com isso elevar o nível de vida do povo, tanto material quanto espiritual. Na universidade, favoreceu a aceitação dos frades franciscanos e dominicanos, que aos poucos instituíram a volta da disciplina e da humildade entre os religiosos e seus agregados.
Essa postura acabou gerando retaliações do rei Henrique III ao bispo da Cantuária, sob a orientação de quem Ricardo agia. Perseguido pelo rei, o bispo buscou exílio na França e Ricardo o acompanhou fielmente até que morresse. Foi neste período que, por insistência do bispo, ordenou-se sacerdote, apesar dos seus quarenta e cinco anos. Os seus talentos e sua dedicação foram recompensados um ano depois, quando o arcebispo da Cantuária consagrou-o bispo de Chichester. Henrique III ficou furioso, apossando-se dos bens da diocese e proibindo Ricardo de assumir seu cargo.
Mas Ricardo não se intimidou, voltou disfarçado de mendigo e, na clandestinidade, atuou durante dois anos, organizando o trabalho pastoral da diocese junto ao povo explorado. Entretanto o papa Inocêncio IV perdeu a calma e ameaçou excomungar o rei, que teve de aceitar Ricardo como bispo de Chichester. Assim, ele pôde atuar com liberdade até morrer, em Dover, no dia 3 de abril de 1253, a caminho de uma cruzada.
Ricardo foi sepultado no cemitério da catedral de Chichester e sua santidade era tanta que, nove anos depois, o papa Ubaldo IV o canonizou. Em 1276, com a presença do casal real dos ingleses e outras cabeças coroadas da Europa, o corpo de são Ricardo foi transferido para um relicário dentro do altar maior da catedral, o qual depois foi destruído pelo cismático rei Henrique VIII, em 1528. Mas suas relíquias foram secretamente levadas para várias igrejas da diocese. Somente em 1990 elas foram reunidas e voltaram para a catedral de Chichester, onde foram depositadas na urna sob o mesmo altar.
São Ricardo é festejado, tanto pelos católicos como pelos anglicanos, no dia 3 de abril, sendo venerado como padroeiro dos cavaleiros e dos cocheiros."

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domingo, 31 de março de 2019

Uma triste efeméride: a reforma litúrgica de Paulo VI


"No dia 3 de abril p.f. transcorrerá uma triste efeméride: o cinquentenário da promulgação do missal de Paulo VI, uma obra que representa a criação de um rito litúrgico novo, composto ao sabor da mentalidade moderna, sob a influência da heresia modernista e da maçonaria, feito para agradar aos “irmãos separados” e, consequentemente, em flagrante contradição com a tradição bimilenar da Igreja.
Como se sabe, há uma vasta e douta literatura sobre a reforma litúrgica de Montini, que provocou uma indignação e um clamor, não só entre os católicos, mas também entre os intelectuais em geral, ao menos entre os que reconheciam o altíssimo valor cultural da tradição litúrgica romana que influenciou os costumes e padrões estéticos da mais fina civilização.
No que concerne ao problema teológico gerado pelo rito moderno da missa promulgado por Paulo VI, que suscitou um drama de consciência para os católicos, especialmente para os sacerdotes (um falecido bispo uma vez me disse: “Eu queria continuar com o missal antigo, mas Paulo VI impôs o novo missal a ferro e fogo e, depois, a obediência…), cumpre recordar algumas obras que apontaram os erros e ambiguidades do novus ordo missae, como, por exemplo, o Breve Exame Crítico dos cardeais Ottaviani e Bacci (no qual os autores dizem que o novo rito representa um impressionante afastamento da teologia católica da Santa Missa tal como definida pelo Concílio de Trento), o interessantíssimo estudo Le mouvement liturgique, do Pe. Bonneterre, La reforme liturgique en question, de mons. Gamber, que diz que a reforma de Paulo VI foi mais radical que a de Lutero (a referida obra conta com um prefácio do cardeal Ratzinger), O problema da reforma litúrgica, publicado pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que examina o problema da influência da teologia do mistério pascal sobre o novo rito (a qual teologia empanou o caráter sacrificial da missa no rito moderno). Citaria ainda Temoignage d’un expert au Concile, coletânea de conferências do cardeal Stickler, bem como a trilogia de Michael Davies. Há ainda muitas outras obras excelentes sobre o tema.
Salta aos olhos de qualquer católico que conheça o catecismo que a reforma litúrgica de Paulo VI representa um desastre completo para a preservação da fé. Seria fastidioso mencionar aqui as profanações e sacrilégios perpetrados diariamente na celebração da Santa Missa segundo o rito moderno. Basta pensar na intercomunhão ecumênica promovida na Alemanha, com aval da conferência episcopal daquele país, onde pastores evangélicos e padres católicos “concelebram a Eucaristia” lado a lado, diante da mesa da “ceia” e a comunhão é distribuída entre luteranos e católicos, levando-se em conta apenas a crença de cada um no mistério eucarístico. Aqui no Brasil, como se sabe, houve algo semelhante há alguns meses, no Rio Grande do Sul. E não consta que tenha havido nenhuma censura canônica dirigida aos responsáveis por tamanho sacrilégio. Com efeito, seria uma ingenuidade esperar uma pena, uma advertência que fosse, uma vez que o próprio bispo de Roma, durante uma visita a uma igreja evangélica na Cidade Eterna, de forma sutil, defendeu a intercomunhão. Declarou na mesma oportunidade que no Norte da Argentina, em um território de missão junto aos indígenas, católicos e protestantes se alternam no serviço religioso aos domingos, quando faltam ministros. E com aprovação da Congregação para a Doutrina da Fé.
Entretanto, é preciso reconhecer que a reforma litúrgica é um sucesso absoluto, se considerado o fim que se propôs ao fazê-la. Com efeito, Paulo VI disse a seu amigo Jean Guitton que era seu desejo reformar a liturgia católica expurgando-a de todos elementos, orações e sinais, que não fossem palatáveis aos protestantes. Dito e feito. Por exemplo, as orações do ofertório da missa que Lutero considerava abomináveis foram retiradas e substituídas pela oração da apresentação das oferendas (o fruto da terra e do trabalho do homem, que, segundo eruditos, tem origem na Cabala judaica). Tudo isto sem dizer que o famoso ponto 7 da Institutio generalis do novus ordo dá uma definição protestante da missa, definição que foi remendada, mas não corrigida, diante das críticas que levantou. Tudo só para tranquilizar os católicos que se sentiam angustiados; tudo só para neutralizar qualquer resistência à missa nova.
Considerado apenas o objetivo dos seus autores, a reforma litúrgica de 1969 foi um sucesso, porque logo após a promulgação do novo missal, houve uma declaração da parte dos protestantes dizendo que um dos frutos da “benfazeja” reforma era que os pastores evangélicos poderiam utilizar-se do novus ordo para celebrar a “ceia do Senhor”.
Sabe-se que uma das razões alegadas em defesa da reforma litúrgica era uma suposta necessidade de adaptar os ritos sagrados à mentalidade moderna. Aqui reside o sofisma. Ninguém contesta que o rito da missa conheceu um desenvolvimento orgânico ao longo dos séculos. À medida que surgiam os erros e heresias, a Igreja os debelava por meio da liturgia que expressava a verdade impugnada pelos inovadores. Acontece que na reforma de Paulo VI foi justamente o contrário que se verificou; foi uma reforma para incorporar à vida da Igreja, à sua doutrina, as novidades heterodoxas. Uma reforma feita, na verdade, para agradar aos protestantes, como o confidenciou Paulo VI a seu amigo Guitton.
No século XIX, o padre Roca, sacerdote apóstata e satanista, provavelmente filiado a uma seita maçônica, declarou:
“Creio que o culto divino tal como o regulam a liturgia, o cerimonial, o ritual e os preceitos da Igreja romana, sofrerá proximamente, em um concílio ecumênico, uma transformação que, ao mesmo tempo que lhe devolverá a venerável simplicidade da idade de ouro apostólica, o porá em harmonia com o novo estado da consciência e da civilização moderna.”
“O que quer construir a cristandade não é um pagode, é um culto universal onde estarão englobados todos os cultos.”
Transcorridos 50 anos da reforma litúrgica de Paulo VI, muita coisa mudou na Igreja e no mundo.
Para o bem da Igreja e das almas Deus serve-se de causas segundas. Permitiu que seus servos bons e fiéis como Dom Lefèbvre e Dom Mayer levassem o labéu de uma excomunhão, proferida por um papa que, provavelmente, morreu angustiado por tamanha injustiça que tinha cometido. Tudo isto, certamente, teve um peso enorme para que Bento XVI publicasse o motu proprio Summorum pontificum que, apesar daquela expressão inaceitável ”forma extraordinária do rito romano”, acabou incentivando muitos sacerdotes a abraçar o rito romano de sempre. Com isso, Bento XVI foi obrigado a reconhecer, ainda que implicitamente, que Paulo VI cometia um abuso de poder proibindo o uso do chamado missal de São Pio V e perseguindo os católicos que o queriam seguir. E agora, mais recentemente, Francisco suprime a Comissão Ecclesia Dei Adflicta, que, além de recordar a iníqua condenação de Dom Lefèbvre, tinha o único escopo de trabalhar para promover o sincretismo entre o rito romano tradicional e o rito moderno da igreja ecumenista. Algum bem Deus há de tirar desse enorme desastre que se abateu sobre a Igreja. Um desses possíveis bens seja, talvez, um aprofundamento da teologia católica sobre o magistério da Igreja, como, por exemplo, toda a questão da infalibilidade pontifícia no que diz respeito às leis universais da Igreja.
Passados 50 anos da reforma litúrgica de Paulo VI, a mentalidade moderna e mundana que Montini queria afagar invadiu a Igreja e mudou muito. O feminismo, por exemplo, recrudesceu até mesmo dentro da Igreja. As candidatas a diaconisas que o digam. As mulheres que querem “presidir a eucaristia”, como se viu em recente documento do Regional Norte da CNBB, em preparação para o Sínodo da Amazônia, que o confirmem. E Francisco pregando a diversidade e o pluralismo religioso nas pegadas de seu ilustre predecessor João Paulo II que inaugurou o espírito de Assis, cumpre as palavras do padre apóstata Roca e nos convence da clarividência de Mons. Henri de Lassus em sua obra A conjuração anticristã.
Contudo, non prevalebunt."

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quinta-feira, 28 de março de 2019

"Russiagate" era mentira: relatório dá vitória inequívoca a Trump


"Donald Trump venceu uma eleição marcada pelo inusitado, pela novidade. O povo deu a vitória a alguém que nunca foi político para dar um sinal claro ao establishment: queremos vocês fora da Casa Branca. Não falo apenas dos democratas, Nancy Pelosi e cia. Falo também de alguns republicanos como John McCain e Paul Ryan – tão envolvidos com o Deep State quanto seus pares à esquerda.
Na ânsia de justificar a derrota por algum truque maquiavélico trumpiano, começaram a levantar as mais variadas justificativas. A clássica e repetida evidência de racismo, machismo e homofobia de metade do eleitorado americano foi a primeira desculpa esfarrapada. Desde a década de 1980, quando o movimento conservador americano dominou o Partido Republicano e recuperou os valores americanos legítimos, essa não cola mais. Alguma outra coisa deveria ser cogitada.
Então veio o Russiagate – uma suposta interferência russa do Kremlin para beneficiar a campanha de Trump. Sendo o presidente russo, Vladimir Putin, um pária para os americanos, o adesivo de fantoche do mesmo seria algo para perseguir e incomodar Donald Trump em seus quatro anos de mandato. Ou melhor: encontrar algo grave que pudesse levar ao sonhado impeachment.
O tempo foi passando e a estratégia de minar a popularidade do presidente parecia estar dando certo. Sua aprovação popular chegou a estar na faixa de 37-42%, nível mais baixo da história. Numa atitude irresponsável e politiqueira, típica de péssimos perdedores, atrapalharam o diálogo necessário entre Washington e Moscou para dar um basta na Guerra da Síria, como também no grupo terrorista Estado Islâmico.
Os democratas fizeram muita fumaça para pouco fogo. A narrativa do Russiagate era sedutora e viciante, mas no mundo real era frágil e enganosa. O procurador Robert Mueller teve uma investigação nas mãos com amplos poderes e orçamento ilimitado para vasculhar a vida de Trump e seus partidários de campanha. O tempo foi passando e nada de Mueller encontrar pelo menos um indício de conluio com os russos.
No domingo veio à tona o que era óbvio e claro para qualquer pessoa bem informada: não houve conluio. Trump foi declarado inocente. Nenhum cidadão americano foi denunciado pelo famigerado Russiagate.
Os 22 meses de perseguição ininterrupta a Trump e a sua presidência não deram em nada na esfera judicial. Acordos comerciais de décadas atrás também foram vasculhados – nada de comprometedor foi encontrado. Toda a narrativa vendida pelos democratas e a grande mídia cai por terra.
Não devemos, entretanto, nos esquecer de quem alimentou tal narrativa. A tríade iluminada CNN-NYT-The Washington Post deu como certa e incontestável as maiores alegações do Russiagate. Especularam o impeachment do presidente Trump já em suas primeiras semanas de mandato. Enquanto o ceticismo por uns foi tratado como colaboracionismo pela mesma tríade, as evidências derrubavam uma por uma as acusações feitas a Trump.
A grande mídia brasileira, sempre certa e cheia de si – apesar de errar previsões e análises faz muito tempo -, engoliu sem questionar a narrativa do Russiagate. Se o crédito que ela tinha para com a população mais esclarecida era inexistente, agora a vaca foi para o brejo mais uma vez. Como mentir descaradamente e noticiar narrativas ao invés de fatos é o modus operandi único da imprensa brasileira, não espere nenhuma retratação ou coisa do tipo.
Ela nunca parou para pensar na possibilidade de o presidente Trump estar certo em suas alegações, e se o fez, foi com o velho silêncio constrangedor. O fato foi trocado pela narrativa, a mentira fez-se verdade como se exige que dois mais dois dê cinco.
Tem que ser muito idiota para acreditar que notícias falsas e anúncios de Facebook pagos por russos fizeram Hillary Clinton perder a eleição de 2016. Além de idiota, precisa ter olhos vendados. Ou um cérebro inútil.
Como coisas tão banais iriam decidir o voto de eleitores pertencentes à mais sólida democracia do mundo? Aceitar o Russiagate e seu modus operandi não era apenas chamar o eleitorado republicano de burro; era jogar no lixo a credibilidade de instituições americanas junto com o seu sistema político.
Recentemente um artigo meu para mostrar o quanto a grande mídia mentiu sobre Trump foi publicado na RENOVA. Mostrei que o interesse da CNN era não apenas partidário, mas comercial: queriam alimentar a mentirosa interferência russa para ter audiência. Qualquer dúvida veja o que diz John Bonifield.
Mesmo que os democratas se apeguem a uma ou outra fala solta do relatório, parece muito claro que acabou. Sua credibilidade está em frangalhos, e Trump sai fortalecido do caso. Com 2020 batendo à porta, veio em ótima hora a revelação de que o Russiagate não passou de uma mentira política mal planejada. A hora de o Partido Democrata pagar por suas mentiras e tumultuarem a presidência de Trump não está muito distante.
Quando a mentira vira regra e o ceticismo é descartado, não há jornalismo, não há democracia, não há justiça. A coragem e a verdade devem prevalecer frente aos interesses políticos repugnantes que usam de artifícios sujos para derrotar seus inimigos de forma indigna.
Acabou da melhor forma possível um carma da política americana. O Russiagate era mentira, seus apologistas estavam a mentir e o presidente Trump é o vitorioso inequívoco do desfecho da investigação. Não só ele. Além dos republicanos e a Casa Branca, a verdade também é a grande vitoriosa. Triunfo tardio, porém, significante."

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