terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Otimismo ou esperança


"Diante das situações terrivelmente difíceis que são vividas na Igreja submersa em uma apostasia quase absoluta; da família que deixou de ser a célula básica de nossas sociedades para passar a ser agentes instrutores das perversidades impostas "culturalmente" pelo globalismo mediático maçônico; de nossas pátrias agonizando pelos ataques a seus excelsos valores fundacionais; e do mundo inteiro que parece a ponto de estourar; não deixa de nos surpreender continuar escutando que temos de ser otimistas. O pior no caso é que esta concepção é pregada até como um "imperativo religioso". Também se pretende que ao sermos cristãos jogamos do "lado vencedor", pelo que não temos de nos preocupar já que as coisas necessariamente se vão resolver, e que devemos pensar que, assim como os asfixiantes problemas mundiais, as difíceis situações particulares vão ter um final feliz se confiarmos adequadamente, ou rezarmos o suficiente. Cabe esclarecer então que nos referimos à pretensão de soluções puramente contingentes e mundanas.
Estas predisposições tão arraigadas no catolicismo moderno, ou melhor modernista, têm sua causa no imanentismo no qual fomos educados nas últimas décadas. E assim este otimismo que se autodenomina cristão não se apóia na realidade e na lógica sucessão dos acontecimentos, mas na ilusa pretensão de deixar a Deus as tarefas que correspondem aos homens, ou supõe que Ele suspenda as mesmas leis da natureza para estas situações que nós consideramos justas e portanto dignas da intervenção divina.
Esquecido então o realismo tomista para ser substituído pelo sentimentalismo carismático que tem raízes indubitavelmente protestantes (em tempos nos quais se homenageia Lutero no Vaticano), não admira que diante do fracasso de tão humanas expectativas, colocadas já não na Providência Divina mas em mundanos desejos, se possa chegar até ao abandono da fé por considerar que esta se fundamenta em um deus que nos decepcionou, e em casos mais extremos até levar a um desespero que pode inclusive terminar em suicídio.
É que se a Graça supõe a natureza, não resulta lógico que todas as situações terrenas se resolvam com intervenções extraordinárias de Deus (como seria o caso dos milagres), sem dar lugar à prática das virtudes na hora de enfrentar a luta cotidiana, a qual o cristão está obrigado a realizar para conseguir a eterna recompensa. Desta forma, muitas vezes cremos que só com nossas orações e boas intenções mudaremos o rumo natural dos acontecimentos e até dobraremos a vontade do malvado (chame-se este Bergoglio, Obama, Ban Ki Moon ou Rockefeller). Tudo isso dizemos sem negar de nenhuma maneira a eficácia das orações que têm que ser sempre o princípio de toda ação, e quando esta última não seja possível, até o único recurso, pondo sempre nas mãos de Deus o destino final de qualquer situação.
Esta perda de objetividade nos leva a substituir a esperança por este otimismo baseado exclusivamente em uma consideração subjetiva do que cremos que deveria acontecer. A esperança também implica um desejo, mas não perde de vista a realidade objetiva, para assim oferecer-nos as ferramentas necessárias para enfrentá-la adequadamente. Muito mais peso tem a esperança, se nos referirmos à mesma como virtude teologal, já que deste modo pomos nossos desejos na correta perspectiva ao buscar um destino transcendente, relegando os desejos imanentes a um segundo plano. Assim diz o Catecismo nº 1817: "A esperança é a virtude teologal pela qual aspiramos ao Reino dos céus e à vida eterna como felicidade nossa, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças, mas nos auxílios da graça do Espírito Santo."
Então, se entendemos que temos que aspirar, antes de qualquer outra coisa, à nossa salvação eterna, bem supremo por excelência, deixaremos de lado a busca desesperada dos "acréscimos" para nos concentrarmos no que realmente importa: a busca do Reino (Mt. 6, 33). Por isso, percebemos, na postura dos eternos otimistas, que não se pede e se espera pelo que mais nos convenha confiando na Vontade Divina, mas que se quer sujeitar a vontade de Deus aos próprios desejos, sem deixar lugar a Sua Providência. E mais que resultados concretos, hoje é imprescindível pedir o auxílio da Graça para que o Espírito Santo nos fortaleça nas virtudes necessárias para não desfalecermos na batalha.
A Nova Ordem Mundial judaica operante no mundo (hoje de fato e proximamente de pleno direito) está impondo o laicismo maçônico, o materialismo tanto marxista como capitalista, o relativismo moral, e até o abandono da ordem natural para substituí-la pela desordem convencional; todos baseados em expectativas puramente mundanas a conseguir-se por meio da deusa Democracia. E nestas circunstâncias, recordo as palavras de um velho e santo cura que nos dizia que ao presenciar tantos desastres naturais, sociais, políticos e até eclesiásticos, muito se alegrava pois isso era um claro sinal de que se devia levantar as cabeças já que nossa salvação estava próxima, segundo o profetizado por Nosso Senhor (Mt. 21, 28), e por conseguinte o cumprimento da súplica que realizamos no Pai Nosso quando dizemos: "Venha a nós o Vosso Reino".
Quem continua pensando que todavia se pode conseguir uma vitória global sobre o inimigo não só põe suas expectativas em sucessos que excedem enormemente suas possibilidades, mas que ademais o distraem do combate que realmente tem à sua disposição, que é o que se leva a cabo defendendo a Verdade e vivendo n'Ela. E afinal de contas, apesar de que se nos acusa de nos conformarmos com o "pássaro na mão, de preferência a dois voando", ainda que resulte paradoxal, embarcamos em uma empresa muito mais laboriosa e humanamente perigosa mas realizável, que os que se empenham na voluntarista expectativa em prol de um "mundo feliz", preparando-se para a chuva de fogo com sombrinhas multicoloridas enquanto insistem que "sempre que choveu, parou".

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Novamente, sedevacantismo


"Talvez um certo número de leitores destes “Comentários” possa irritar-se por mais uma vez voltar ao tema dos papas conciliares não serem totalmente papas, mas a tradução recente para o francês de um artigo em inglês de 1991 mostra por que é preciso demonstrar reiteradas vezes que os argumentos em prol do sedevacantismo não são tão conclusivos como parecem ser. Os liberais não precisam de tal demonstração, porque para eles o sedevacantismo não é uma tentação. No entanto, há certo número de almas católicas atraídas pela graça de Deus para longe do liberalismo em sentido à tradição católica para a qual o sedevacantismo torna-se positivamente perigoso. O diabo não se importa se nós perdemos o equilíbrio para a direita ou para a esquerda, desde que percamos nosso equilíbrio.
Pois, na verdade, o erro do sedevacantismo pode, em teoria, não ser um erro tão profundo e grave como a mentalidade universal apodrecida do liberalismo, mas, na prática, quantas vezes se observa que com o sedevacantismo as mentes se fecham, e que o que começou como uma opinião aceitável (que católico pode dizer que as palavras e ações do papa Francisco são católicas?) tende a tornar-se uma certeza dogmática inaceitável (que católico pode julgar com certeza uma questão tal?), para impôr-se como o dogma dos dogmas, como se a catolicidade de uma pessoa precisasse ser julgada pelo fato de ela crer ou não que não temos nenhum papa verdadeiro desde, digamos, Pio XII.
Uma razão oferecida pelos “Comentários” anteriores para essa dinâmica interna frequentemente observada no sedevacantismo pode ser a simplicidade do nó górdio com a qual se remove um problema angustiante e ameaçador para a fé: “Como podem esses destruidores da Igreja ser verdadeiros papas católicos?” Reposta: Na realidade, eles não são papas, absolutamente. “Oh, que alívio! Já não preciso ficar angustiado.” A mente fecha-se, o sedevacantismo deve ser pregado como se fosse o Evangelho para quem quiser ouvir (ou não ouvir), e na pior das hipóteses, ele pode ser estendido desde os papas até todos os cardeais, bispos e sacerdotes, de modo que um católico outrora crente se transforma num “home-aloner”, que desiste totalmente de ir à missa. Será que ele terá sucesso em manter a fé? E seus filhos? Aqui reside o perigo.
Portanto, para manter nossa fé católica em equilíbrio e evitar as armadilhas atuais tanto à esquerda quanto à direita, olhemos para os argumentos de BpS no artigo de 15 páginas mencionado acima. (“BpS” é uma abreviatura que muitos leitores não identificarão à primeira vista, mas não é necessário que seja explicitada aqui, porque estamos mais preocupados com seus argumentos do que com a sua pessoa). Em seu artigo, ao menos ele pensa e tem uma fé católica no Papado, caso contrário os papas conciliares não seriam um problema para ele. Esta lógica e esta fé são o que há de melhor nos sedevacantistas, mas nem BpS nem eles estão trabalhando a partir do quadro inteiro: Deus não pode deixar de velar por sua Igreja, mas ele pode deixar de velar por seus clérigos.
Aqui está, pois, seu argumento em poucas palavras: premissa maior: a Igreja é indefectível. Premissa menor: no Vaticano II a Igreja foi liberal, uma grande defecção. Conclusão: a Igreja Conciliar não é a verdadeira Igreja, o que significa que os papas conciliares que guiaram ou seguiram o Vaticano II não podem ter sido papas reais.
O argumento parece bom. Entretanto, a partir das mesmas premissas pode-se tirar uma conclusão liberal: a Igreja é indefectível, a Igreja tornou-se liberal, então eu também, como um católico, devo ser liberal. Assim, o fato de o sedevacantismo partilhar suas raízes com o liberalismo deveria fazer qualquer sedevacantista pensar duas vezes. BpS percebe as raízes comuns, e chama-as de “irônicas”, mas são muito mais do que isso. Elas mostram os liberais e sedevacantistas cometendo o mesmo erro, que deve estar na premissa maior. Na realidade, tanto aqueles como estes entendem mal a indefectibilidade da Igreja, assim como confundem a infalibilidade dos Papas. Confira estes “Comentários” da semana que vem para uma análise mais detalhada do argumento de BpS.
*
Para qualquer alma católica que hoje compreende a gravidade da crise na Igreja e se aflige em relação a isto, a simplicidade do sedevacantismo, que rejeita como inválidos a Igreja e os papas do Vaticano II, pode tornar-se uma séria tentação. Pior, a aparente lógica dos argumentos dos eclesiavacantistas e dos sedevacantistas podem tornar esta tentação uma armadilha mental que pode, na pior das hipóteses, levar um católico a perder a sua fé completamente. É por isso que estes “Comentários” retornarão mais detalhadamente ao argumento principal dos muitos argumentos expostos por BpS no artigo de 1991, mencionado aqui semana passada. Eis, novamente, o tal argumento:
Premissa maior: a Igreja Católica é absolutamente infalível (tem a garantia do próprio Deus de que durará até o fim do mundo – cf. Mt. XXVIII,20). Premissa menor: Mas a Igreja Conciliar ou Igreja Novus Ordo, solapada pelo neomodernismo e pelo liberalismo, representa uma absoluta falibilidade. Conclusão: a Igreja Novus Ordo é absolutamente não católica e seus papas são absolutamente não papas. Em outras palavras, a Igreja é absolutamente branca enquanto a Neoigreja é absolutamente preta, de modo que a Igreja e a Neoigreja são absolutamente diferentes. Para mentes que gostam de pensar no preto e no branco sem algo entre eles, este argumento tem muito apelo. Mas para mentes que reconhecem que na vida real as coisas são frequentemente cinzas, ou uma mistura de preto e de branco (sem que o preto deixe de ser preto ou o branco deixe de ser branco), o argumento é muito absoluto para ser verdadeiro. Assim, na premissa maior há um exagero sobre a infalibilidade da Igreja, e na premissa menor há um exagero em relação à falibilidade da Neoigreja. A teoria pode ser absoluta, mas a realidade raramente o é. Vejamos a infalibilidade e a falibilidade conciliar como são na realidade.
Quanto à premissa maior, os sedevacantistas frequentemente exageram a infalibilidade da Igreja, assim como frequentemente exageram a infalibilidade do papa, porque é isto que precisam para suportar seu horror emocional em relação ao que se tornou a Igreja Católica a partir do Concílio. Mas, na realidade, assim como aquela infalibilidade não exclui grandes erros de alguns papas na história da Igreja e somente se aplica quando o papa está seja ordinariamente dizendo o que a Igreja sempre disse, seja extraordinariamente empregando todas as quatro condições da definição de 1870, também a infalibilidade da Igreja não exclui absolutamente algumas grandes falibilidades em certos momentos da história eclesiástica, tais como os triunfos do Islã, do Protestantismo ou do Anticristo (Lc. XVIII,8), senão que exclui absolutamente uma falibilidade total ou uma falha total (Mt. XXVIII, 20). Assim, a infalibilidade não é tão absoluta quanto BpS pretende que seja.
Quanto à premissa menor, é verdade que a falibilidade do conciliarismo é consideravelmente mais grave do que aquela do Islã ou do Protestantismo, porque ataca a cabeça e o coração da Igreja em Roma, algo que estas últimas não fazem. Não obstante, mesmo meio século de conciliarismo (1965 a 2016) não fez a Igreja falhar totalmente. Por exemplo, Dom Lefebvre – e ele não estava sozinho – manteve a fé de 1970 a 1991, seus sucessores fizeram o mesmo, mais ou menos, de 1991 a 2012, e a combatida “Resistência” mantém-se na linha dele; e antes que a Igreja humanamente entre em colapso, num futuro não tão distante, sua infalibilidade inquestionavelmente será divinamente salva, antes do fim do mundo – Mt. XXIV, 21-22. Assim, o conciliarismo como uma falibilidade da Igreja também não é tão absoluto quanto BpS pretende que seja.
Desse modo, seus silogismos precisam ser reformulados – Premissa maior: a infalibilidade da Igreja não exclui grandes falhas, mas tão somente uma falibilidade total. Premissa menor: o Vaticano II foi uma grande, mas não total, falibilidade da Igreja (mesmo se os católicos conscientes de seu perigo tenham de evitá-la por completo, sob o risco de contaminação). Conclusão: a infalibilidade da Igreja não exclui o Vaticano II. Brevemente, a Igreja do próprio Deus é maior que toda a iniquidade do Demônio ou do homem, mesmo o Vaticano II. A falibilidade conciliar pode bem ser de uma gravidade sem precedente em toda a história da Igreja, mas a infalibilidade da Igreja e a infalibilidade dos papas vêm de Deus e não dos homens. Como liberais, os sedevacantistas estão pensando humanamente, todos humanamente demais.”
(Mons. Richard Williamson, Again, Sedevacantism)

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domingo, 17 de fevereiro de 2019

Aquele que mente para si mesmo deixa de amar

“Sobretudo não minta para si mesmo. Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar, e para se distrair, na ausência de amor, entrega-se às paixões e aos gozos grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender-se. É por vezes bastante agradável ofender a si mesmo, não é verdade? Um indivíduo sabe que ninguém o ofendeu, mas que ele mesmo forjou uma ofensa e mente para embelezar, enegrecendo de propósito o quadro, que se ligou a uma palavra e fez dum montículo uma montanha — ele próprio o sabe, portanto é o primeiro a ofender-se, até o prazer, até experimentar uma grande satisfação, e por isso mesmo chega ao verdadeiro ódio… "
(Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O Pai


“No mundo estúpido em que vivemos - perfeitamente exemplificado pelo papa estúpido com quem vivemos - a diferença entre o amor paterno e o amor materno é cada vez mais negligenciada. Isso não é meramente um fenômeno religioso. Pelo contrário, eu diria que é o resultado do movimento de “emancipação”, que tornou o homem comum menos masculino, enquanto fazia a mulher comum menos feminina.
Há uma diferença fundamental entre o amor de um pai e de uma mãe. Em suma, consiste nisso: que, embora o amor da mãe seja incondicional e incondicionalmente indulgente, o amor do pai geralmente não é incondicional e, mais importante ainda, não é avesso ao castigo severo necessário, até o ponto da rejeição.
Não é por acaso que a religião cristã sempre identificou Deus como Pai não apenas de um ponto de vista bíblico, mas de um ponto de vista cotidiano; lá, onde a religião é vivida pelos homens e mulheres que trabalham nos campos e alimentam seus filhos. Da mesma forma, não é coincidência que outras religiões identifiquem Deus como mãe.
O cristianismo sempre ensinou que o amor de Deus por nós não exclui a punição final e infinitamente dura. Esse conceito é, devo dizer, viril até o âmago e, portanto, consciente ou instintivamente odiado por todas as feministas loucas que andam por aí, e por padres e prelados efeminados em todo o mundo. O próprio Francisco, em várias ocasiões, falou de um Deus totalmente perdoador e incondicionalmente dedicado que nossos antepassados mal reconheceriam como cristão.
Isso é profundamente anticristão e, portanto, totalmente errado. Vai contra dois mil anos de cristianismo. É uma paródia triste, patética, mas altamente corrosiva da nossa religião. É uma deformação monstruosa da Santíssima Trindade. Corrompe a percepção de Deus, destrói o medo d’Ele e se traduz em uma visão totalmente efeminada do certo e do errado. Essa visão efeminada do certo e do errado produz danos em todos os lugares, pois tudo o que é cristão, desde a pena de morte até a guerra justa, e do casamento até os muros é questionado como "muito severo".
O Papa Francisco não foi quem causou o problema aqui. Ele é apenas um dos muitos que perderam os conceitos básicos de Deus, Justiça e Verdade.
Mas precisamos condená-lo de maneira especial, porque ele trai a Cristo de um modo especialmente grave.”

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domingo, 10 de fevereiro de 2019

O imã que assinou o documento de "fraternidade humana" com o Papa é partidário de matar os apóstatas


"'A liberdade é um direito de toda pessoa: todos desfrutam da liberdade de crença, de pensamento, de expressão e de ação... Por isto se condena o fato de que se obrigue as pessoas a aderirem a uma religião ou cultura determinada, como também de que se imponha um estilo de civilização que os demais não aceitam.'
Este parágrafo citado forma parte do Documento sobre a Fraternidade Humana e pela Paz Mundial e a Convivência Comum assinado ontem com grande fanfarra em Abu Dabi pelo Papa com quem é considerado a máxima autoridade do Islã sunita, o Grande Imã da mesquita egípcia de Al Azhar. Mas é difícil que um muçulmano possa aceitar estas palavras e pretender que os seus o sigam nisto.
Já ontem escrevíamos: o Islã é uma religião real, com textos sagrados, uma doutrina concreta e uma história que contradizem o que está escrito nessa elevada declaração de intenções, e é pouco menos que impossível que semelhante documento tenha eco entre os seguidores de Maomé no mundo real.
Mas parece que nem sequer o signatário muçulmano está de acordo com o que assinou, a não ser que tenha mudado de opinião sem dizê-lo a ninguém. Pode uma autoridade islâmica crer que seja ilícita a execução dos fiéis que se convertem ao cristianismo (ou qualquer outra religião)?
El Tayeb tem fama de moderado, e Sua Santidade mantém com ele uma amizade de anos que se concretizou em vários encontros. É para Francisco uma peça fundamental na estratégia de aproximação entre o cristianismo e o Islã na qual está trabalhando desde o início de seu pontificado. Tem-se posicionado contra a violência do terrorismo jihadista e a favor dos direitos humanos em várias ocasiões, e inclusive no começo de 2016 declarou no Bundestag alemão que o Alcorão garante a liberdade religiosa.
Mas segundo o especialista no Islã e Oriente Médio Raymond Ibrahim, El Tayeb tem uma longa história de jogar com dois baralhos, empregando uma linguagem quando se dirige aos 'kafirun' do Ocidente e outra muito diferente quando fala para sua paróquia. Durante o Ramadã desse mesmo ano no qual tranquilizava os legisladores ocidentais, em seu próprio programa de televisão, confirmou a nunca disputada doutrina islâmica da obrigação de matar os apóstatas:
'Os doutores do Islã e os imãs das quatro escolas de jurisprudência consideram a apostasia um crime e coincidem em que o apóstata deve renunciar a sua apostasia ou ser executado', afirma em um segmento que não se traduziu a nenhum idioma ocidental na web do programa.
Nada que censurar aqui ao imã, nem significa isto que El Tayeb tenha um desejo especial de matar ninguém: simplesmente, uma autoridade muçulmana não pode contradizer por sua conta o que afirma a palavra de Deus incriada, o Alcorão, os hadith, as quatro escolas corânicas e toda a história do Islã. Por outro lado, as grandes pesquisas de opinião confirmam que, no mundo islâmico, o apoio popular à execução de apóstatas é esmagador.
Mas se a execução dos muçulmanos que se convertem a outra religião é obrigatória, também é lícito ao fiel seguidor de Maomé ocultar ao infiel a verdade em proveito da comunidade muçulmana, a ‘taqiyya’. O dilema é evidente: ou El Tayeb mente agora, ou mente quando defende o que a doutrina muçulmana deixa meridianamente claro, em cujo caso sua assinatura não vale nada porque não representa ninguém mais que a si mesmo. Em qualquer dos dois casos, o documento é letra morta.
Da parte católica, o documento surpreende pela total ausência de referência a Cristo pelo Papa, compreensível mas ignoramos se justificável, e por, pelo menos, uma afirmação que tem provocado a perplexidade de muitos comentaristas: ‘O pluralismo e a diversidade de religião, cor, sexo, raça e língua são expressão de uma sábia vontade divina, com a qual Deus criou os seres humanos’.
Ora, Deus não criou o ser humano com toda essa diversidade, ao menos não em religião e língua. Mas assombra ainda mais a idéia de que a ‘diversidade de religiões’ seja algo ativamente querido por Deus. As religiões reais se contradizem, de modo que não podem ser todas verdadeiras; de fato, só poderia sê-lo uma delas. Pode querer Deus que grandes grupos humanos vivam no erro? Uma humanidade finalmente convertida a Cristo e formando uma só Igreja estaria contradizendo a Vontade Divina?”

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

É impossível haver convivência harmoniosa onde inexiste hierarquia

"Onde está perdida por completo a noção de hierarquia, é conseqüente que os idiotas, os maus e os pusilânimes julguem ter direitos para muito além dos seus reais méritos.
A hierarquia começa a instaurar-se, em qualquer comunidade humana, pelo reconhecimento explícito da maior parcela das pessoas de que o melhor e mais importante tem, e deve ter, prioridade com relação ao pior e irrelevante.
Sem hierarquia inexiste autoridade natural e, nestes casos, o "natural" é que os imbecis, os vaidosos, os soberbos se façam autoritários, ou seja, imponham-se aos homens verdadeiramente valorosos de várias maneiras, usurpem lugares devidos a outros (que não eles!) de pleníssimo direito.
A maneira mais usual de isto acontecer, nos tempos que correm, é os falsos coitadinhos contarem com o auxílio do papai-Estado, transformado, por meio duma alquimia diabólica, no garantidor constitucional do rancor dos medíocres contra os excelentes.
As leis hoje vão no sentido de que os Pelés se equiparem aos Zés-Ruelas, e sem reclamar para não serem tachados de criminosos."
(Sidney Silveira, em postagem no Facebook de 24.11.2018)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O encobrimento das investigações vaticanas contra o Cardeal McCarrick


“Church Militant assevera que, segundo fontes confiáveis, no caso da investigação contra o Cardeal McCarrick está em curso um enorme esforço de encobrimento.
Fazê-lo seria algo extremamente estúpido, mas devo dizer que é 100% Francisco. Uma pessoa sensata pensaria que Francisco se colocaria “à frente do movimento” e lideraria um esforço sério e organizado para mostrar que a Igreja não é dominada por uma máfia invertida. No entanto, Francisco é afligido por problemas imensos, como sua estupidez, sua arrogância, sua incompetência e sua total desconexão da realidade; isso dificulta que ele aja de maneira sã mesmo que - como parece ser o caso - McCarrick & Cia não tenha nada de substancial contra ele.
Como um todo, não estou "preocupado" com o previsível desvirtuamento dessa investigação interna. Como a maioria dos meus leitores, perdi toda a fé na capacidade da Igreja de se reformar e penso que a verdadeira mudança virá da intervenção divina de alguma forma, por exemplo, através de uma série maciça de prisões de cardeais e bispos.
Aqui reside a fraqueza fundamental do pensamento profundamente maléfico e profundamente clericalista de Francisco: ele pode encobrir o quanto quiser, mas no fim das contas a questão está agora fora de suas mãos. As investigações continuarão e será factualmente impossível manipular e controlar uma dúzia ou mais de procuradores-gerais, alguns deles ávidos por troféus vermelhos e escarlates, alguns deles provavelmente ateus ou ferozmente anticlericais e com um interesse substancial em se apresentarem para os eleitores - quando buscarem um cargo mais alto - como executores destemidos e sem respeito a hábitos clericais.
A investigação do Vaticano é, à parte talvez como um exercício de boa fé, tão relevante quanto uma comissão iraquiana para investigar a corrupção, enquanto os tanques americanos avançam em direção a Bagdá.
Francisco nunca foi crível como um aliado contra a perversão da igreja em primeiro lugar. Suas alegadas tentativas - e muito prováveis - de encobrimento são, no final, apenas Francisco sendo Francisco.
Eu confio que a justiça civil tomará seu curso e causará grande dano a esta camarilha de sodomitas. Também confio que os fiéis não sejam bobos de pensar que o Papa Francisco esteja realmente engajado em uma luta contra seus amigos e protetores de toda uma vida.
Estamos aqui diante de um indivíduo profundamente maligno e corrompido, sem nenhum resquício de consciência e nenhum vestígio de catolicismo em seu ser. Seus esforços para encobrir ou minimizar os feitos de McCarrick são amplamente esperados e não são nenhuma surpresa.
Orem por um Conclave em 2019. O resultado será incerto, mas pelo menos nos será dada uma nova chance.”

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Não percamos a oportunidade


"Parece que, infelizmente, há muitos brasileiros, sobretudo entre os católicos, que ainda não se deram conta do momento favorável que vivemos no Brasil hoje. Quando digo momento favorável, não me refiro apenas à esperança bem fundada de que a nossa economia melhore a partir do próximo ano graças às reformas que a nova equipe econômica deve realizar, mas ao clima espiritual que se introduziu na sociedade brasileira e vem se consolidando após a vitória do Bolsonaro. Esse clima espiritual representa, com efeito, um vasto campo para um trabalho de apostolado e de formação doutrinária para debelar de vez, do seio da nossa sociedade, o veneno da mentalidade revolucionária.
A meu ver, chegou a hora de esclarecer uma grande parcela da opinião pública, que nas últimas eleições manifestou não só um descontentamento com a malversação do dinheiro público e o descalabro econômico da era petista mas também uma simpatia pelo discurso conservador sobre os valores morais da religião, da família e da pátria, um apreço por toda a tradição; chegou a hora de esclarecê-la sobre o grande embuste da democracia moderna com tudo que esta tem de ruim: o igualitarismo, a libertinagem, o sufrágio universal, o individualismo, a soberania popular etc.
Chegou a hora dizer claramente que a democracia é o vestíbulo do inferno e os profissionais da grande mídia são quase todos diabos diplomados, conforme aquela figura do velho diabo criada por C. S. Lewis em sua obra As cartas do coisa ruim. Imagina Lewis um velho diabo, bem astuto, paraninfando uma turma de novos diabos, concluintes do curso de tentador, prestes a partir pelo mundo afora para enredar os homens. E diz o velho diabo em seu discurso: “Democracia é a palavra com a qual segurais os homens pelo nariz. O bom serviço, já realizado pelos nossos peritos filólogos na corrupção da linguagem humana, torna desnecessário advertir que jamais deveis ajudar a criatura humana a obter dessa palavra um significado claro e definitivo.”
Por essa alegoria de Lewis vê-se claramente que a democracia moderna é o reino da mentira, o regime do Pai da Mentira, e os jornalistas que a vivem exaltando como o único regime compatível com a dignidade humana na verdade são diabos diplomados pelo velho Diabo e estão a seu serviço para infelicidade dos homens.
Todo o discurso em defesa da democracia, a pretexto de combater regimes totalitários desumanos, na realidade só tem promovido a difusão do erro, como a corrupção dos costumes, o desprestígio da autoridade e o igualitarismo, a tal ponto que hoje desapareceu o respeito devido à autoridade paterna. Hoje em dia os pais mão conseguem mais impor aos seus filhos a disciplina necessária para a vida doméstica e um professor não pode sequer corrigir um erro gramatical cometido por seu aluno porque não se admite mais que a linguagem do professor seja mais escorreita que a do seu aluno. Não se aceita nenhuma forma de superioridade. Cria-se uma mentalidade de ignorância orgulhosa e invejosa. E tudo isto decorre, é claro, do sufrágio universal igualitário. Eu mesmo tive uma vez uma oportunidade de ouvir um soberbo ignorante expressar sua satisfação invejosa porque tanto os ricos quanto os pobres, tanto os inteligentes quanto os burros, na hora da morte e na hora do voto valem a mesma coisa! Quer dizer, o imbecil não temia o juízo de Deus e muito menos tinha consciência do que significa concorrer para os destinos da nação por meio de um voto.
Mas graças a Deus parece que a parte ainda sã da sociedade brasileira está despertando e reagindo. Aqueles que viviam numa letargia foram obrigados a acordar para a realidade nas últimas eleições. Observou-se que muitas famílias que só estavam apreensivas com a crise econômica e com a corrupção tomaram consciência de que o problema do Brasil é de outra ordem, é um confronto com os inimigos de toda a tradição cristã das nossas raízes históricas.
Essa tomada de consciência de que há um confronto com os inimigos da ordem social cristã tradicional está apenas começando. E são pessoas das mais diversas condições sociais que se aproximam de nós, ávidas por ouvir e aprender a verdade, ávidas por redescobrir uma grande tradição espiritual. Para ilustrar a realidade que vivemos hoje no Brasil, vale a pena compará-la com dois momentos históricos do século passado.
Em princípio do século passado havia na França uma juventude já um tanto farta do discurso positivista e cientificista, avesso a qualquer metafísica e hostil às virtudes militares. Raïssa Maritain retrata admiravelmente bem esse ambiente cultural em Grandes amizades. Muitos daqueles jovens franceses se interessaram pela filosofia de Bergson, que, a despeito de suas deficiências, já representava uma abertura para a metafísica, e começaram a querer servir a França no Exército. Foi quando, por assim dizer, redescobriram a grandeza espiritual da França católica. Um desses jovens, Ernest Psichari, neto do célebre escritor Renan, foi servir a França na Mauritânia. O contato com místicos muçulmanos, a consciência moral de que ele tinha de agir com toda a justiça naquela terra miserável de infiéis, foi o meio de que se serviu a Providência para ajudá-lo a voltar para a fé católica, para voltar a amar a verdadeira França, a França de São Luís, a França de Santa Joana d’Arc, a França que qualquer homem educado ama.
Outro momento histórico significativo ocorreu há quase quarenta anos atrás, durante a guerra do Afeganistão; houve então algo semelhante à presença do exército francês na Mauritânia. Os soldados russos, confrontados com um povo que vivia até recentemente sob um regime monárquico quase feudal, um povo profundamente apegado a sua fé e identidade nacional, redescobriram suas próprias tradições e valores religiosos espezinhados pelo comunismo. Há quem diga que isto contribuiu muito para o fim da União Soviética. Que esta não teria ruído apenas em consequência da política armamentista de Ronald Reagan.
Como se vê, parece que a polarização da sociedade brasileira, a radicalização política provocada pelas últimas eleições, poderão ter um efeito benéfico. Mas dependerá do nosso trabalho de esclarecimento, de combate doutrinário, a produção de frutos duradouros. Na França, infelizmente, o momento oportuno vivido no começo do século passado não produziu frutos mais duradouros porque houve a estúpida condenação da Ação Francesa e não se aproveitou a instabilidade política gerada pela crise econômica de 1929 para dar um golpe de estado e derrubar a república como pretendia Charles Maurras.
Não percamos, pois, a oportunidade que a Providência nos oferece para trabalharmos para instaurar um regime de ordem. Para instaurar todas as coisas em Cristo na Terra da Santa Cruz."

http://santamariadasvitorias.org

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Radiografia espiritual do ódio

"O ódio como desejo do mal alheio
Diz o dicionário que ódio é "antipatia e aversão a algo ou a alguém cujo mal se deseja". Essa definição tão condensada exige uma explicação. Em parte porque o ódio não é simplesmente antipatia, nem tampouco mera aversão. O ódio se opõe em realidade ao amor, primeira tendência do ser humano. E assim como há um amor perfeito, afirmação e doação sem retorno, também existe um amor imperfeito, no qual não se cumpre algum aspecto dessa afirmação e doação. Paralelamente existe um ódio perfeito e um ódio imperfeito.
Quanto à oposição entre o ódio perfeito e o amor perfeito deve indicar-se que se opõem diretamente, visto que o ódio perfeito deseja para outro um efeito mau ou um prejuízo, da mesma forma que, em sentido contrário, a amizade quer para o amigo um efeito bom. Mas há um matiz importante que não deve passar despercebido: é que no ódio perfeito o efeito mau se reveste de aparência de um bem, devido a uma causa externa e em ordem a mim, visto que o dano que se faz a outro aparece como um bem para mim; no entanto, no amor perfeito, dado que o bem que desejo ao amigo é em si intrinsecamente um bem, não é preciso uma relação externa, para que por causa dela se torne um bem e uma coisa apetecível. Não obstante, é certo que o bem desejado para o amigo é também um bem para mim; pois toda amizade pelo outro começa pelo amor a si mesmo: certamente, eu pessoalmente não amaria o amigo se não visse que isso é conveniente e bom para mim.
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Amor perfeito e ódio perfeito
O desdobramento do ódio perfeito é paralelo ao do amor perfeito.
No amor perfeito eu desejo algo bom para o amado, mas não prioritariamente para mim. No amor imperfeito eu desejaria prioritariamente algo bom para mim, ainda que redundasse também no amado.
O ódio imperfeito é a fuga de um certo mal que me desagrada; e assim se opõe inclusive ao amor imperfeito; mas se distingue da ira, a qual deseja o mal de outro sob o aspecto de vingança e de satisfação.
Por sua vez, existe um ódio perfeito, pelo qual desejamos um mal ao outro, e lhe desejamos um mal sob o caráter formal de mal. Não teríamos aqui uma prova de que o mal é querido formalmente como mal, sem roupagem de bem? Não parece que o ódio perfeito deseja o mal a outro porque é para ele um mal? Acaso o ódio perfeito foge do mal? Não será que o deseja como um mal para outro? E, assim, o desejaria sob sua natureza de mal, já que por isso se distingue do ódio imperfeito e da ira.
Ademais o ódio perfeito se opõe diretamente ao amor perfeito; este amor perfeito deseja o bem para o outro, por ser um bem para ele, não por sê-lo para mim – pois assim seria amor imperfeito - ; logo o ódio perfeito, para opor-se perfeita e absolutamente ao amor perfeito, não deve ser levado contra o outro, desejando-lhe o mal precisamente porque é um mal para ele, não porque é um bem para mim, pois isto é próprio do desejo e não se opõe direta e formamente à amizade? Não deveríamos concluir que o ódio perfeito tende ao mal sob a razão formal de mal?
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Desejar o mal a outro
Essa dúvida, entranhada na mais profunda psicologia, traz consigo uma premissa capciosa: a saber, que "o ódio perfeito deseja o mal a outro, sob o aspecto de mal". Deveria entender-se que o ódio perfeito deseja o mal a outro sob o aspecto do mal próprio do objeto, ou do mal em sentido absoluto?
Certamente eu posso desejar algo mau, ou seja, nocivo ou destrutivo para outro, justo para que produza nele efeitos maus; no entanto, o que é um mal para ele, sendo nocivo e destrutivo, se reveste do caráter de um bem aparente, inclusive nesse aspecto pelo qual é destrutivo, visto que destruir meu contrário possui a aparência de bem; e, assim, supondo que estou mal disposto contra outro homem, e supondo que o considero como meu contrário, sua destruição e dano têm uma aparência de bem para mim.
Enquanto provoco um mal a outro, e enquanto represento isso como um bem, tal coisa é desejada sob essa aparência e representação. E ao contrário, quando o bem do outro aumenta, isso parece um mal para mim, que o vejo com maus olhos.
Caetano sublinhava que a vontade não pode querer o mal sob o aspecto de mal pura e simplesmente, ou enquanto mal para mim; mas pode-se desejar um mal a outro que é considerado como contrário; com efeito, o mal para outro que é visto como inimigo se reveste do caráter de bem pelo fato de ser captado como destrutivo do contrário. E, assim, nunca é desejado sob o aspecto de mal formalmente, mas sob o aspecto de bem; desta maneira, quando desejo um mal ao inimigo, como mal para ele, o desejo sob o aspecto de um bem meu que prejudica o inimigo, ou de um bem que destrói o que me é contrário. E destruir o contrário é um bem.
Quanto à distinção entre ódio perfeito e ódio imperfeito deve-se fazer um esclarecimento importante, desde o ponto de vista psicológico: o ódio perfeito deseja o mal a outro sob o aspecto de um bem meu, já que induz um efeito mau em outro, mas isso é para mim um objeto bom ou apetecível. Por outro lado, o ódio imperfeito não deseja o dano a outro, nem deseja um objeto que provoque em outro um mau efeito: a vontade rechaça de si o que lhe é nocivo e o que lhe produz um efeito mau. E neste momento os dois ódios procedem de modo diverso: o ódio perfeito tenta conseguir o efeito mau em outra pessoa; o ódio imperfeito foge do efeito que é mau para mim.
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A ira e o ódio
Por outra parte, o ódio perfeito se diferencia da ira em que esta não contempla o mal enquanto nocivo ou destrutivo do inimigo, mas enquanto vingativo e satisfatório, e assim, comparece como justo ou equitativo. Daí que a ira cesse no momento em que se recebe a satisfação; por sua vez, o ódio não cessa por satisfação alguma, mas persegue até o final o dano e a destruição de outro, enquanto dano ao contrário. E este dano, embora não apareça como o justo e satisfatório, sem embargo, aparece como bem útil ou deleitável, ao destruir o contrário sem buscar a satisfação da justiça, mas somente o dano ao outro. Daí que o ódio suponha uma péssima disposição na vontade: pois enfoca o mal alheio como bem próprio, e somente porque é um mal em outro. Com a presunção desta perversa disposição, o mal de outro se cobre com aspecto de bem, e, ao ter o caráter de um efeito mau para outro, se reveste de bem para mim.
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Um bem para mim
Resta um reparo, a saber: o que é desejado como um bem para mim, acaso não pertence ao amor imperfeito e, portanto, não pode ser objeto formal nem da amizade, nem da inimizade?
Este reparo é facilmente salvável. Porque o objeto formal do desejo não é um bem para mim de um modo qualquer, mas o é com esta condição: que esteja em mim como no sujeito para o qual quero o bem, visto que desejo possuí-lo. Ora, se não o tenho em mim como em seu sujeito, mas o transfiro a outro para o qual o quero, então isso faz que exista um amor perfeito, embora tenha seu início em mim, visto que aquela realidade é querida para outro e não se detém em mim.
E que isso pressuponha uma ordem para mim, não impede o amor perfeito; efetivamente, o amor não pode dar-se na amizade sem que se pressuponha e sem que tenha sua origem em um amor à pessoa destinatária, visto que o amigo é julgado como outro eu. Esta é a razão por que o amor ordenado começa por si mesmo; e as coisas admiráveis para outro têm sua origem nas coisas admiráveis para si mesmo.
Mas isto que acabo de dizer se aplica também ao ódio perfeito; efetivamente, este ódio só pode existir se se supõe o amor a si mesmo, visto que eu odeio o que é inimigo ou contrário, porque é incompatível comigo e porque eu pessoalmente me amo a mim e a minha conservação.
Por isso o amor perfeito e o imperfeito, assim como o ódio perfeito e o imperfeito não podem em absoluto prescindir da relação à própria pessoa que apetece; mas se distinguem em que, no amor perfeito, a pessoa destinatária da coisa querida é distinta do sujeito amante, e assim dita coisa não se detém neste; por sua vez, no amor imperfeito, a pessoa destinatária da coisa querida é o mesmo sujeito desejante, o qual se quer a si mesmo e se detém em si.
Apesar disso, também no amor perfeito, com o qual quero o bem para outro, quero algo para mim, visto que tudo que é querer o bem em proveito do outro é conveniente e bom para mim. Da mesma maneira que querer um mal para outro é um bem para mim; de modo que o prejudicar e destruir a outro foi querido antes e, ao realizar-se, é conveniente para mim.
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Suicídio como fruto do ódio a si mesmo
Acrescentarei um último ponto sobre aquele ódio dirigido contra si mesmo que desemboca no "suicídio". Pareceria que os suicidas se odeiam a si mesmos; por sua vez, parece que neles não há nada de bom que os motive a amar semelhante ação – pois a morte própria não tem causa para ser amada, já que o viver é algo necessariamente amado, quanto a sua especificação, ao não ter nada de mal em si - ; logo o fato de eliminar a vida parece que não pode ser amado sob aspecto algum de bem, visto que retira ou elimina aquilo em que nada de mal aparece.
Bem analisada, esta argumentação margeia importantes matizes de índole psicológica e mesmo ontológica. Quem se suicida ou se odeia, materialmente quer não existir, mas formalmente quer ser o existir de outro modo, visto que o caráter formal de querer não existir é carecer da miséria e do mal. Assim, não deseja não existir de um modo absoluto, mas deseja não existir sob a miséria e as penalidades; e, assim, não odeia a vida absolutamente, mas a odeia como submetida à miséria da qual foge."
(Juan Cruz Cruz: Radiografia Espiritual do Ódio)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

A reserva dos derrotados


“Claro que há muita burrice e rabugice no que tantos profissionais da comunicação vêm escrevendo e dizendo. Assim como o uso do cachimbo entorta a boca, o hábito de falar sozinho sem ser contestado desenvolve deformações políticas. E faz carreira nos totalitarismos.
Não podemos esquecer que em todas as eleições presidenciais havidas entre 1994 e 2014, completando 20 anos e seis pleitos consecutivos, a nação foi constrangida a escolher entre dois partidos de esquerda – PSDB e PT. Contados os períodos dos respectivos mandatos, tem-se quase um quarto de século durante o qual a sociedade foi submetida a uma dieta política servida por legendas que apreciavam o mesmo cardápio. Não se discutiam outros pratos, outras receitas e, na maioria dos casos, o tempero era o mesmo: conversa fiada populista.
Liberais e conservadores, ou a direita (como queiram), ficaram sem pai nem mãe todo esse tempo. Situação inusitada. Algo análogo só se encontrará em países comunistas, creio. Pessoas e partidos que poderiam falar pela direita de modo orgânico no Congresso Nacional estavam, geralmente, capturados, ora por um, ora por outro dos dois projetos de poder em curso. A retórica política tornou-se monótona. Governo e oposição, ambos “de esquerda”, usavam o mesmo vocabulário, o mesmo glossário, se alinhavam com o infame “politicamente correto”, com o globalismo, com intervencionismo estatal, com o populismo de esquerda e suas articulações, com a Escola de Frankfurt, com George Soros e a Open Society. Consequentemente, tinham e têm o mesmo compromisso com a degradação das estruturas que sustentam a civilização ocidental e com uma ordem econômica não capitalista.
O rolar do tempo e a falta de concorrência no mercado das ideias foram criando uma espécie de pseudoconsenso em que qualquer expressão de base conservadora ou liberal era automaticamente repelida e expelida. Por não encontrar eco, sumia. Foi assim que o Brasil, empurrado pela política conforme era jogada, mas também pelas entidades representativas da tal “sociedade civil organizada” – OAB, CNBB, ABI, sindicatos e suas centrais, conselhos – aprendeu a falar a mesma linguagem e fez sumir as mesmas palavras. Quais? Pois é, será bom lembrá-las. Entre outras: ordem, tradição, honra, família, virtudes, princípios, fé, autoridade, capitalismo, propriedade. E mais: liberdade/responsabilidade e direitos/deveres, como binômios não fracionáveis.
O papel destruidor do que descrevo não poupou sequer a nação e sua história. Veio para cima das mesas, nas salas de aula, como refinado produto do saber, o lixo dos acontecimentos. Qualquer modo de contar a história do Brasil servia, desde que lhe suprimisse toda nobreza, todo sentimento de amor à pátria e valorização dos seus elementos unitivos, suas esplêndidas raízes, seus fundadores, suas grandes figuras humanas. Cobranças com vencimento à vista de supostas dívidas ancestrais são úteis a essa máquina de moer cidadania. Nenhuma nação de “credores” deu certo, mas a ideia nunca foi fazer dar certo. A ideia sempre foi trabalhar com os sentimentos menos nobres porque é com eles que se elegem os piores. Se me faço entender. E assim, nossas crianças – pasmem! –, há anos, ouvem a história do Brasil como quem testemunha uma delação premiada na qual o vício é narrado até onde não existe. E na qual toda virtude, merecimento, bem, gratidão e reverência são castigadas com silêncio. Escaneiam a consciência dos mortos e esquecem a própria!
O prêmio por falar mal do Brasil, pela delação histórica, vai para jornalistas, professores e intelectuais militantes. Cabe a eles, nestes dias, como braços do mesmo corpo, a tarefa de substituir, temporariamente, os políticos vencidos pelo descrédito. Para quase todos os efeitos visíveis, são os protagonistas da oposição nesta alvorada de 2019. E eles estão, já se vê, cumprindo seu papel, ostentando as vestes alvas de uma superioridade moral que ninguém confirma.”

http://www.puggina.org