quinta-feira, 30 de agosto de 2018

De volta ao básico


“Leio sobre pessoas que se opõem à mais recente heresia de Francisco relativa à Pena de Morte enquanto ainda são factualmente contra ela de uma certa e menor maneira.
Vamos deixar algo claro: o problema com a palavra ‘inadmissível’ não tem nada a ver com a questão de se esta falta de legitimidade é proclamada para todas as situações ou não. Tem, isto sim, a ver com a rejeição de sua legitimidade fundamental.
O Papa Francisco nega que a Pena de Morte seja legítima em princípio; no que, penso eu, resta uma heresia tão grande quanto a Muralha Leonina, e que seria reconhecida imediatamente e sem hesitação por qualquer um em tempos cristãos pretéritos. Mas realmente não ajuda em nada se alguém diz que se opõe a Francisco por declarar que a Pena de Morte é um mal, enquanto ainda pensa que ela não deveria ter lugar em sociedades modernas. Simplesmente não há maneira de reconciliar isto com a doutrina católica.
Afirmar que a psicologia moderna ou métodos de reeducação tornam a Pena de Morte supérflua é o mesmo que dizer que remédios modernos e mundanos atingem partes da natureza humana que o Cristianismo jamais pôde atingir e que ensinou não existirem. Também envia uma clara mensagem de que não apenas a Pena de Morte, mas qualquer outro ensinamento da Igreja pode ser sabotado porque a moderna psicologia nos permitiu um entendimento mais profundo da natureza humana, que pode ser facilmente aplicado, digamos, ao suicídio, à gula, ou ao adultério.
Honestamente, não dou a mínima para supostas defesas da ortodoxia que estão profundamente incorporadas no pensamento do Vaticano II, o qual, para começo de conversa, solapa esta ortodoxia. O desgraçado pontificado de Francisco deve servir como encorajamento para recuperar as verdadeiras raízes do pensamento católico, e não simplesmente dar alguns passos para trás no que é e continua sendo a direção errada.
A solução para flagrante heresia é a verdade de sempre, não a velada heresia de décadas passadas. Já chega do veneno do Vaticano II. Precisamos voltar ao básico e aceitá-lo sem meios-termos.”

https://mundabor.wordpress.com

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Em defesa do preconceito


“As pessoas que desejam derrubar todos os preconceitos não se interessam tanto assim pela verdade, mas importam-se muito mais com a sua liberdade – o que vale dizer, uma liberdade concebida como o mais amplo campo para a satisfação de seus caprichos. O ceticismo dessas pessoas varia de acordo com o assunto. Elas acreditam que, ao apertarem o interruptor, a luz se acenderá, mesmo que lhes falte qualquer conhecimento sobre eletricidade. Todavia, um feroz e insaciável espírito investigativo as domina por completo no exato momento em que percebem que os seus interesses estão em jogo – o que significa, mais precisamente, a liberdade ou licença para que possam agir segundo os seus caprichos. Então, subitamente, todos os recursos da filosofia lhes são disponibilizados, e serão imediatamente usados para desqualificar a autoridade moral dos costumes, da lei e da sabedoria milenar.
Derrubar determinado preconceito não significa destruir o preconceito enquanto tal. Na verdade, implica inculcar outro preconceito. O preconceito que afirma ser errado criar um filho fora do casamento foi substituído por outro que diz que não há absolutamente nada de errado com isso. A ideia de que não gostar de alguém não constitui base suficiente para xingar esse alguém, o fato de relações sociais toleráveis requererem autocontrole, o fato de viver em sociedade implicar o dever de se submeter a limites – tudo isso são noções que infelizmente não foram inculcadas em nossa atual sociedade como preconceitos.
Algumas pessoas desejam escapar das convenções tanto quanto outras desejam escapar da necessidade de ganhar a vida. De fato, não ser convencional tornou-se para elas uma virtude em si, da mesma forma que a originalidade se tornou hoje uma muleta para aquelas pessoas cujas aspirações artísticas excedem em muito o seu talento. Infelizmente, o desejo de se furtar a uma convenção é, em si mesmo, uma convenção.
A filosofia – ou, talvez, a “atitude” seria um termo melhor para descrevê-la – do individualismo radical instila um preconceito profundo em favor do eu e do próprio ego. A vida passa a ser concebida como uma extensão ilimitada da escolha do consumidor, uma rede em volta do supermercado existencial, de cujas prateleiras diferentes estilos de vida podem ser adquiridos, da mesma forma que se faz com os alimentos industrializados, e sem quaisquer consequências mais profundas ou significativas. Aquela pessoa que se diz contrária a toda e qualquer autoridade é, na verdade, somente contrária a algumas autoridades, aquelas de que desgosta. A autoridade que ela realmente respeita, é claro, é a sua.
Um radicalismo individual como esse tem outro efeito paradoxal: aquilo que começa como busca por um individualismo ampliado ou mesmo total termina com o aumento do poder do governo sobre os indivíduos ao destruir toda a autoridade moral que se coloca entre a vontade individual humana e o poder governamental. Tudo aquilo que não é proibido pela lei será ipso facto permissível. Isso, é claro, torna as leis e, portanto, aqueles que as produzem, os árbitros morais da sociedade. A ausência de qualquer autoridade intermediária entre o indivíduo de um lado e o poder político soberano do outro permite que o último se insinue por entre os mais recônditos lugares da vida diária. A falta de autoridades intermediárias, tais como família, igreja, organizações profissionais etc., nos acostumou a esperar, e aceitar, o direcionamento centralizado de nossas vidas, mesmo quando resulta em absurdidades.
Uma coisa é dizer que este ou aquele preconceito é revoltante ou extremamente danoso, outra coisa é dizer que podemos nos virar sem absolutamente nenhum preconceito. Havia, no passado, operações cirúrgicas que causavam mais danos do que benefícios, e sem dúvida isso ainda acontece em alguns casos, mas certamente não há motivos pelos quais a humanidade devesse abrir mão das vantagens salvadoras da cirurgia por uma questão de princípio.
Se a maioria de nosso conhecimento factual sobre objetos particulares se funda na confiança e na autoridade – pois não é dado a nenhum homem, não importa quão brilhante seja, a condição de viver tempo suficiente para ser infinitamente investigador – por que seria diferente em relação à dicta dos julgamentos morais e estéticos? A vasta maioria dos homens simplesmente não consegue levar a vida como se ela fosse constituída de longas séries de enigmas morais e intelectuais.
Mesmo que não seja possível derivar uma afirmação de valor de uma de fato, é necessário e inevitável que façamos afirmações de valor. Na prática, ninguém vive ou poderia viver sem julgamentos estéticos e morais, e refiro-me àqueles que não podem ser meramente deduzidos dos fatos. Bom e ruim, bonito e feio, estão construídos na estrutura mesma de nossos pensamentos, e não podemos eliminá-los, não mais do que podemos eliminar a linguagem ou o sentido de tempo. Infelizmente, nenhum sistema de proposições éticas, ou mesmo nenhum outro sistema de proposições, pode existir sem pressuposições, isto é, sem preconceitos. Existe um ponto para além do qual a racionalidade, ou o naturalismo, não pode ir, mesmo entre criaturas que foram dotadas de razão pela natureza.
Mas não é verdade que muitos preconceitos são de fato danosos, cruéis, estúpidos e malignos? Certamente que sim. Mas, reitero, não é porque alguns preconceitos sejam danosos que podemos viver sem preconceitos. Todas as virtudes levadas ao excesso se tornam vícios, e se tornam manifestações de orgulho espiritual; o mesmo vale para os preconceitos, inclusive os melhores, e o mesmo valerá para a tolerância. Eu não me dedico a examinar os nossos preconceitos; isso seria ridículo. Temos que ter, ao mesmo tempo, confiança e discernimento para pensarmos logicamente a respeito de nossas crenças herdadas, e a humildade para reconhecermos que o mundo não começou conosco, e tampouco terminará conosco, e que a sabedoria acumulada da humanidade é muito maior do que qualquer coisa que podemos alcançar de forma independente. A expectativa, o desejo e a pretensão de que podemos sair nus no mundo, libertos de todos os preconceitos e preocupações, de modo que toda situação se apresente como algo completamente novo para nós, são em igual medida atitudes tolas, perigosas e nefastas.
Essa pretensão é nociva porque não estaremos apenas enganando os outros, mas a nós mesmos, e desconsideraremos aquela pequena e constante voz dentro de nós. Debates estridentes e agressões virão. Quanto mais insistirmos em público a respeito de coisas que sabemos, ou mesmo suspeitamos, que não são verdadeiras, mais veementes e intransigentes nos tornaremos. Quanto mais rejeitarmos o preconceito qua preconceito, mais difícil será para nós recuarmos das posições que tomamos, e recrudesceremos a fim de provar que estamos livres de preconceitos. Um dogmatismo ideológico será o resultado, e todos sabemos a devastação que um dogmatismo como esse pode provocar.
É preciso ter capacidade de discernimento para saber quando um preconceito deve ser mantido e quanto deve ser abandonado. Os preconceitos são como as amizades: devem ser mantidos em bom estado. Por vezes, os amigos se distanciam e por vezes o mesmo deve acontecer aos homens diante de certos preconceitos; mas a amizade frequentemente se aprofunda com a idade e a experiência, e o mesmo deve acontecer com alguns preconceitos. Eles são aquilo que dão caráter às pessoas, mantendo-as juntas. Não podemos viver sem eles.”
(Theodore Dalrymple, Em Defesa do Preconceito)

http://avidaintelectual.blogspot.com.br

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A esquerda e a direita


"Hoje os jornais estão cheios de proposta e artigos que distinguem sobejamente a direita da esquerda política. Eu quis escrever estas linhas porque o ilustre Celso Ming começou seu artigo dizendo que não há diferença entre direita e esquerda e depois todo o resto do artigo foi para mostrar a irracionalidade das posições de esquerda. Por elipse, a antípoda seria a direita. Por que ele disse então que não há diferença? Percebo que parte da imprensa insiste, e lamentavelmente Celso Ming faz coro, que não há diferença, mas há. Pretendo aqui listar algumas das diferenças. Como se sabe, ao lado dos jornalistas engajados com a revolução há outra penca que acha chique ser de esquerda enquanto tal. Praticamente não há jornalista no Brasil que não seja progressista (comuna).
Podemos ver diferença entre esquerda e direita em três campos distintos, pelo menos, sem contar os fundamentos filosóficos por detrás de cada posição, que não serão objeto deste artigo: no campo dos costumes, no campo econômico e no campo do Direito. Comecemos pelos costumes: a esquerda defende a liberação das drogas, do aborto, adora defender o gaysismo, o feminismo, defende as quotas, tudo isso para colocar as minoras incondicionalmente do seu lado. Durante décadas a maioria prejudicada fechou os olhos a essa militância danosa, mas agora não mais, pois as políticas de privilegiar as ditas minorias foram longe demais. A direita repudia tudo isso e afirma categoricamente a igualdade de todos perante a lei, igualdade diante das oportunidades, defende a boa moral cristã e os bons costumes. É no campo dos costumes que vemos já a diferença abissal.
No campo econômico a diferença não é menor: a esquerda tem uma visão de mundo completamente deturpada sobre três questões fundamentais: o que é poupança, o problema da moeda e o comércio exterior. A questão da poupança precede tudo porque a visão distorcida da esquerda afirma que a poupança se gera automaticamente, uma vez gerado o gasto. A direita afirma o princípio de realidade de que o ato de poupar precede o desenvolvimento e é a grandeza fundamental do processo econômico, sem a qual fica tudo estagnado. Na mesma linha, a visão da esquerda sobre a moeda é que ela é instrumento de desenvolvimento e a inflação deve ser tolerada, ignorando que ela é um imposto exorbitante sobre os pobres. Emitir moeda deveria ter licença porque seria onde o processo de desenvolvimento começaria, gerando inclusive a poupança necessária. Essa loucura teórica foi posta em prática por diversos governos, que nos levaram à hiperinflação, de triste memória. Do mesmo modo, a esquerda defende que o comércio internacional seja utilizado politicamente, privilegiando parceiros como Irã e China, em detrimento dos EUA. Essa balela esquece que o motor dinâmico da economia mundial é os EUA, inclusive como fonte geradora de tecnologia. A delirante entrevista de Marcio Porchman confirma a tola visão de mundo.
Já a direita, ao lado de afirmar a sã doutrina de que a poupança é o início de tudo, precede tudo, é pela disciplina monetária rígida e quer fazer dos EUA o óbvio parceiro para alavancar as trocas internacionais, pois o Brasil tem o que vender e o que comprar dos EUA. A isso a esquerda chama de “neoliberalismo”, que na linguagem dos círculos esquerdistas soa como um palavrão da pior espécie. A esquerda se recusa a ver a realidade como ela é. É claro que tudo isso tem consequência: a direita sabe que, em face da evolução da variável populacional, não há outro remédio do que fazer uma profunda reforma na Previdência, já a esquerda acha que tudo se resolveria mediante crescimento econômico manipulado pelos gastos do Estado e a emissão de moeda, como se mais despesa pagasse a despesa anterior ainda por pagar. Da mesma o desemprego desapareceria como passe de mágica se o Estado elevasse desmesuradamente seus gastos, ignorando o fato óbvio que o Estado está quebrado e esgotou sua capacidade de gastar.
Por fim, a questão do Direito, extensivo à Segurança. A direita quer abolir o Estatuto do Desarmamento, vendo o óbvio de que os bandidos continuam bem armados e não há como ignorar isso, que é o fator responsável principal pelas 60 mil mortes anuais de bons brasileiros nas mãos dos bandidos. Ao lado, a questão da redução da maioridade penal como instrumento de dissuasão do surgimento de novos criminosos. Para a direita, Justiça é dar a cada um o que é seu, a esquerda já acha que a ditas minorias podem ter renda e benefícios sem que tenham trabalhado e feito sacrifícios, como nas quotas de concursos públicos. A direita é veementemente contra a liberação das drogas, vendo os malefícios que elas trazem para a juventude. A esquerda vê tudo pelo sinal contrário e, no poder, tem patrocinado as deletérias políticas que prejudicam os brasileiros por ignorarem a realidade como ela é. Liberação das drogas é suicídio coletivo.
No fundo, é isso: a direita vê o real e quer respeitar a realidade como ela é. Já a esquerda tem ideias equivocadas sobre a realidade e quer que o mundo nelas se encaixe. Como a esquerda tem ditado a política nas últimas décadas, enlouquecendo e empobrecendo a Nação, a população cansou dos delírios esquerdistas e quer agora colocar alguém no poder que respeite o princípio de realidade."

http://nivaldocordeiro.net

terça-feira, 21 de agosto de 2018

O sacrifício da Santa Missa é o mesmo sacrifício da Cruz


“A principal excelência do santo Sacrifício da Missa consiste em que se deve considerá-lo como essencialmente o mesmo oferecido no Calvário sobre a Cruz, com esta única diferença: que o sacrifício da Cruz foi sangrento e só se realizou uma vez e que nessa única oblação JESUS CRISTO satisfez plenamente por todos os pecados do Mundo; enquanto que o sacrifício do altar é um sacrifício incruento, que se pode renovar uma infinidade de vezes, e que foi instituído pra nos aplicar especialmente esta expiação universal que JESUS por nós cumpriu no Calvário. Assim o SACRIFÍCIO CRUENTO foi o MEIO de nossa REDENÇÃO, e O SACRIFÍCIO INCRUENTO nos proporciona as GRAÇAS da nossa REDENÇÃO.
Um abre-nos os tesouros dos méritos de CRISTO Nosso Senhor, o outro no-los dá para os utilizarmos.
Notai, portanto, que na Missa não se faz apenas uma representação, uma simples memória da Paixão e Morte do nosso Salvador; mas num sentido realíssimo, o mesmo que se realizou outrora no Calvário aqui se realiza novamente: tanto que se pode dizer, a rigor, que em cada Santa Missa nosso Redentor morre por nós misticamente, sem morrer na realidade, estando ao mesmo tempo vivo e como imolado: Vidi agnum stantem tanquam accisum (Apoc. 5, 6). No santo dia de Natal, a Igreja nos lembra o nascimento do Salvador, mas não é verdade que Ele nasça, ainda, nesse dia.
Nos dias da Ascensão e Pentecostes, comemoramos a subida do Senhor JESUS ao Céu e a vinda do ESPÍRITO SANTO, sem que de modo algum nesses dias o Senhor suba ainda ao Céu, ou o ESPÍRITO SANTO desça visivelmente à Terra.
A mesma coisa, porém, não se pode dizer do mistério da Santa Missa, pois aí não é uma simples representação que se faz, mas, sim, o mesmo sacrifício oferecido sobre a Cruz, com efusão de sangue, e que se renova de modo incruento: é o mesmo corpo, o mesmo sangue, o mesmo JESUS que se imola hoje na Santa Missa. Opus Redemptionis exercetur, diz a Santa Igreja.
A obra de nossa Redenção aí se exerce: sim, exercetur, aí se exerce atualmente. Este santo sacrifício realiza, opera o que foi feito sobre a Cruz. Que obra sublime! Ora, dizei-me sinceramente se, quando ides à Igreja para assistir à Santa Missa, pensásseis bem que ides ao Calvário assistir à morte do Redentor, que diria alguém que vos visse aí chegar numa atitude tão pouco modesta? Se Maria Madalena fosse ao Calvário e se prostrasse aos pés da Cruz vestida, perfumada e ataviada como em seus tempos de desordem, quanto não seria censurada! E que se dirá de vós que ides à Santa Missa como se fôsseis a uma festa mundana?
Que aconteceria, sobretudo se profanásseis este ato tão santo, com gestos, risadas, cochichos, encontros sacrílegos? Digo que, em qualquer tempo e lugar, a iniquidade não tem cabimento; mas os pecados que se cometem na hora da Santa Missa e na proximidade do altar são pecados que atraem a maldição de DEUS: Maledictus qui facit opus Domini fraudulenter (Jer 48,10). Meditai seriamente sobre esse assunto.”
(São Leonardo de Porto Maurício, As Excelências da Santa Missa)

https://pt.aleteia.org

sábado, 18 de agosto de 2018

Bênção do lar católico


"A bênção de Deus desça sobre esta casa e sobre todos que vivem nela. E a graça do Espírito Santo santifique a todos.
O Santíssimo e doce nome de Jesus, no qual está toda salvação, derrame copiosamente saúde e bênção sobre esta casa.
A Santíssima Virgem e Mãe de Deus cuide de todos com sua maternal proteção e livre a todos dos males da alma e do corpo.
A poderosa intercessão do bem-aventurado São José dê a nossos trabalhos prosperidade e muitos méritos a nossos sofrimentos.
Os anjos da guarda protejam a quantos haja nesta casa das emboscadas do maligno inimigo e nos conduzam à pátria eterna.
Desça sobre nós a bênção de Deus, do + Pai, e do + Filho e do + Espírito Santo e permaneça sempre conosco. Amém."

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Marina Tsvetaeva: Insinuar-se


Talvez a melhor vitória seja
sobre o tempo e a atração,
passar sem deixar ondas,
passar sem deixar sombras

nas paredes...

Talvez renunciando
vencer? Quem do espelho se apaga?
Tal como Lermontov no Cáucaso
entrar sem inquietude nas fragas.

É talvez a melhor diversão
com os dedos de Sebastian Bach
do órgão provocar o som?
Despedaçar-se sem deixar

cinzas para a urna...

Talvez por engano
vencer? De toda latitude dar-se alta?
Assim no tempo tal oceano
entrar sem inquietar as águas...

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Religião líquida

"Alguns dias atrás, Jack Tollers escreveu uma postagem na qual destacou algo de que às vezes nos esquecemos ou que, pelo menos no meu caso, não terminamos de dimensionar. Refiro-me ao indeclinável dever que tem a Igreja, e que temos nós seus filhos, de manter e defender a doutrina católica até a última vírgula. Os leitores do blog dirão: "É óbvio", e efetivamente o é, mas pelas características do mundo contemporâneo e dos acontecimentos que nos tocam viver, tendemos a ser muito cuidadosos com as vírgulas da moral – o que está muito bem -, e ser mais relaxados ou desentendidos com as da dogmática. Além disso, tendemos a considerá-las detalhes ou passatempos de especialistas ociosos que não fazem mais que distrair-nos do verdadeiro combate que hoje devemos travar. É um fato que quando nestas mesmas páginas tratamos de temas de liturgia, por exemplo, vários leitores reclamam porque perdemos tempo discutindo coisas tão pouco transcendentes. Trata-se, segundo eles, de discussões bizantinas que não aportam nada à gravidade da hora atual.
O artigo de Tollers, pelo contrário, e seguindo Castellani, considerava que tais detalhes são mais graves que o próprio pecado. Não me vou meter nessa discussão, mas me parece sim fundamental que tomemos consciência da importância impostergável da luta pela pureza, até a última vírgula, da doutrina.
Já sabemos que o pontífice aereamente reinante despreza os teólogos. Publicamente tem dito – e o temos reproduzido neste blog – que deve-se deixar que os teólogos discutam entre eles as diferenças doutrinais que nos separam, por exemplo, dos luteranos, enquanto que o restante dos fiéis devemos trabalhar ecumênica e mancomunadamente sem nos preocuparmos com essas minúcias. Tem dito inclusive, em tom de brincadeira, que gostaria de encerrar todos os teólogos em uma ilha para que ali se cansassem de discutir suas questões doutrinais e deixassem em paz os pastores com odor de ovelha que fazem o trabalho importante. E a verdade é que muitas vezes somos tentados a seguir timidamente o mesmo critério. É que já não têm demasiada importância as modalidades das processões trinitárias, ou se Nosso Senhor gozou ou não da visão beatífica durante sua vida terrena. Em vez de perder tempo com isso, melhor dedicar-se a lutar contra o aborto ou a esclarecer as aventuras de Letícia. E é um erro. Um erro grave em que muitos católicos "vacas de presépio" caem facilmente.
Tomemos um só exemplo histórico dos muitos que poderíamos mencionar. No século IV se realizou o concílio de Calcedônia cujo objetivo foi confirmar a doutrina da Igreja a respeito da natureza de Cristo, já que Eutiques e Dióscoro – dois importantes bispos e teólogos – entendiam que sua natureza humana estava subsumida na natureza divina. Ou seja, no Senhor havia uma só natureza: a divina, e esta é a doutrina que se chamou monofisismo. Um detalhe; uma distinção de teólogos que não mudava em absoluto a pastoral, nem diminuía a pobreza, nem contribuía para a paz social e tampouco contaminava o odor ovino dos pastores da época. No entanto, esta heresia, ao ser condenada por Calcedônia, provocou a separação da comunhão católica do patriarcado de Alexandria, e portanto de todo o Egito, da igreja armênia e da igreja jacobita ou siríaca. Tamanha conseqüência ocasionada pela ranhetice dos bispos calcedônicos! E no entanto nem eles, nem o papa de Roma eram ingênuos ou incapazes de calcular as conseqüências mas, igualmente, consideraram que era preferível perder três grandes igrejas a modificar uma vírgula da doutrina ortodoxa.
Hoje pareceria que a unidade é mais valiosa que a verdade e que, deste modo, torna-se mais importante, ou quase só o que importa, realizar atos ecumênicos, trabalhar juntos pela promoção do homem e rezar juntos em Assis ou qualquer outro lugar, em vez de discutir e esclarecer as vírgulas de nossa fé. A muitos católicos parece mais importante determinar exatamente as condições precisas da moral matrimonial – e que Letícia não se esgueire para o quarto – que afirmar com certeza todos e cada um dos artigos do Credo. E isso tem um nome: joãopaulismo puro, porque o papa João Paulo II foi o primeiro emergente do Vaticano II neste sentido: descuido da dogmática e concentração em moral. Bergoglio, o segundo, e creio o último emergente do mesmo Concílio, tem-se manifestado como o descuido e desprezo de toda a teologia – moral e dogmática – em favor da pastoral. Uma vez mais o dizemos: a ablação do intelecto especulativo e reinado absoluto do intelecto prático.
Este novo conceito de religião que inaugurou o Concílio Vaticano II e que foi referendado por todos os pontífices seguintes propõe, no fundo, uma religião líquida, ou seja, um fluido capaz de ser vertido em qualquer recipiente adotando sem resistências a forma que este tenha. É por isso que os Padres Conciliares falaram de um concílio pastoral que rejeitava qualquer intento de definição, e é por isso que Francisco se nega não somente a definir, mas também a repetir as definições mais óbvias; porque, se define, a religião começa a solidificar-se e já não pode derramar-se em qualquer recipiente e muitos deles ficarão vazios.
Mas o problema desta concepção é que o líquido é incapaz de sustentar estruturas. Ninguém edifica sua casa sobre um lago, sem antes haver fixado firmemente os alicerces no leito firme e rochoso. Os progressistas e neoconservadores pensam que com a doutrina líquida é suficiente simplesmente porque os tempos mudaram e, por isso, pretendem manter tudo o que a Igreja teve e conseguiu durante os duros séculos das estruturas dogmáticas com a tranquilizadora canção de ninar do fluido das ondas. E por manter tudo me refiro a manter os curas celibatários, manter templos e colégios dispendiosíssimos, manter as coletas e todo o aparato necessário que requer a religião. Mas é impossível. Dificilmente um cura conseguirá manter-se celibatário se dá no mesmo ser cura católico ou pastor calvinista; escassamente se encontrarão jovens dispostos a defender sua pureza se Letícia tem permissão pontifícia para regozijar-se e se os católicos estamos impedidos de julgar certas condutas; com muita dificuldade os fiéis contribuirão para a manutenção do culto, se sabem que o trabalho social a que se reduziram as atividades da paróquia da esquina é feito com maior eficácia pela ONG da outra esquina; será quase impossível encontrar jovens que queiram consagrar sua vida às missões se, desde cima, se determina que o proselitismo é daninho, que não se deve converter os judeus e que o ideal pontifício é que os cristãos vivam como irmãos com os muçulmanos.
Dizia Chesterton há várias décadas que é como se o caule de uma roseira murchasse até desaparecer de vista e as pétalas da rosa continuassem ondulando. "É como se pudesse haver raios de sol depois de desaparecer o sol. Não é só a coisa maior de uma coisa, mas a maior e mais forte a que se sacrifica à parte pequena e secundária." Tiraram-se as fundações mas se pretende que o castelo se mantenha em pé. Em outras palavras, o Concílio Vaticano II e os pontífices seguintes infectaram a Igreja com uma enfermidade que só destrói os ossos. A pergunta é quanto tempo mais estes bons homens pretendem que se mantenham os músculos em tensão e a carne com forma humana sem vir abaixo em uma massa informe. Quase uma pergunta retórica; Bergoglio está se encarregando de ir jogando em um caldeirão as cartilagens, órgãos, pelos e pedaços de carne que ficaram informes quando se lhes retirou a estrutura óssea.
Há solução? Humanamente falando, não vejo nenhuma. Já mais de uma geração tem vindo a sofrer este câncer que acabou por carcomer seus ossos. E o problema não é que não possam voltar a regenerar-se; o problema é que a carne atual não os suportaria."

http://caminante-wanderer.blogspot.com.br

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Pseudofilosofia


“A pseudofilosofia consiste em elucubrações que se apresentam como filosóficas mas que são ineptas, incompetentes, que carecem de seriedade intelectual e que refletem um compromisso insuficiente com a procura da verdade. Em particular, abrange discussões que usam os instrumentos racionais da reflexão filosófica com outros fins que não a investigação séria — como o favorecimento de interesses relacionados com o poder, a influência ideológica, a pompa literária ou algo desse gênero. (Sem dúvida que os filósofos em geral têm tendência para fazer esta acusação de insuficiente seriedade intelectual e falta de força persuasiva aos que aderem a escolas de pensamento rivais, que diferem da sua própria posição em questões de princípios fundamentais.)
Tal inaptidão raramente é professada pelos seus próprios praticantes, mas emerge com as objecções dos oponentes. Alguns exemplos centrais são a teoria da inexistência de verdades atribuída pelo Sócrates platônico aos sofistas da antiguidade clássica, a teoria conflituosa da verdade atribuída pelos acadêmicos medievais aos chamados averroístas, o niilismo radical por vezes atribuído aos céticos renascentistas, e o irracionalismo e relativismo imputado aos existencialistas e pós-modernistas pelos filósofos mais ortodoxos de hoje em dia. Os entusiastas mais radicais do desconstrucionismo inspirado em Derrida constituem uma ilustração vívida — pois não faz sentido tecer elaboradas teias textuais para demonstrar que os textos nunca têm uma construção interpretativa estável. Se os textos são incapazes de transmitir uma mensagem fixa, não faz claramente sentido qualquer diligência no sentido de transmitir esta lição por meio de textos.
O rótulo “pseudo” é particularmente adequado para aplicar aos que usam os recursos da razão para substanciar a afirmação de que a racionalidade é inalcançável em questões de investigação — pois a sua prática trai claramente a sua doutrina. Sobre o que não se pode tratar com força persuasiva filosófica, os filósofos têm de se manter em silêncio.”
(Nicholas Rescher, texto retirado do Oxford Companion to Philosophy)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

No socialismo não há diferença entre os poderes político e econômico


"O ideal socialista é, em essência, a atenuação ou eliminação das diferenças de poder econômico por meio do poder político. Mas ninguém pode arbitrar eficazmente diferenças entre o mais poderoso e o menos poderoso sem ser mais poderoso que ambos: o socialismo tem de concentrar um poder capaz não apenas de se impor aos pobres, mas de enfrentar vitoriosamente o conjunto dos ricos. Não lhe é possível, portanto, nivelar as diferenças de poder econômico sem criar desníveis ainda maiores de poder político. E como a estrutura de poder político não se sustenta no ar mas custa dinheiro, não se vê como o poder político poderia subjugar o poder econômico sem absorvê-lo em si, tomando as riquezas dos ricos e administrando-as diretamente. Daí que no socialismo, exatamente ao contrário do que se passa no capitalismo, não haja diferença entre o poder político e o domínio sobre as riquezas: quanto mais alta a posição de um indivíduo e de um grupo na hierarquia política, mais riqueza estará à sua inteira e direta mercê: não haverá classe mais rica do que os governantes. Logo, os desníveis econômicos não apenas terão aumentado necessariamente, mas, consolidados pela unidade de poder político e econômico, terão se tornado impossíveis de eliminar exceto pela destruição completa do sistema socialista. E mesmo esta destruição já não resolverá o problema, porque, não havendo classe rica fora da nomenklatura, esta última conservará o poder econômico em suas mãos, simplesmente trocando de legitimação jurídica e autodenominando-se, agora, classe burguesa. A experiência socialista, quando não se congela na oligarquia burocrática, dissolve-se em capitalismo selvagem. Tertium non datur. O socialismo consiste na promessa de obter um resultado pelos meios que produzem necessariamente o resultado inverso."
(Olavo de Carvalho, Que É Ser Socialista?)

http://www.olavodecarvalho.org

terça-feira, 31 de julho de 2018

O canibalismo moral dos tolerantes


"Só se tolera o que não é bom, e isto circunstancialmente, seja para evitar um mal maior, seja em ordem a um bem mais valioso. Assim, por exemplo, podemos tolerar os defeitos de um amigo para manter a amizade, do cônjuge para não se desfazer o casamento e os nossos próprios para não enlouquecermos, por excesso de escrúpulos.
Tolerância não é algo que se ostente, pois além de tudo não é sequer princípio moral.
A tolerância será boa apenas quando estiver conformada pela virtude da prudência. Em todos os demais casos ela é falha grave ou gravíssima, razão por que tem comumente outros nomes: tolerar o vício é permissividade; tolerar a mentira, cumplicidade; tolerar a maldade, covardia; tolerar o erro, estupidez; tolerar a tirania, suicídio político; tolerar a louvação da mediocridade, assassinato civilizacional.
Apresentar-se como tolerante é velhacaria típica do caráter sucumbido ao espírito de rebanho. O balido dos tolerantes autoproclamados é, pois, o das ovelhas carnívoras prontas a canibalizar quem não adere ao seu grupo.
A intolerância, por sua vez, será boa sempre que representar a adesão a princípios inegociáveis: a verdade, o bem, a beleza moral...
O mundo que quer enfiar a tolerância goela abaixo de todos, como se ela fora dever moral, tem um nome: inferno. Esta é a mais terrível maneira de ser intolerante.
Onde é proibido proibir, impera o mal."

http://contraimpugnantes.blogspot.com.br