quinta-feira, 24 de maio de 2018

Messianismo político, civilização terminal


“Quando Pôncio Pilatos volta-se à furiosa turba de judeus e pergunta quem ela quer que seja solto, Cristo ou Barrabás, está falando a homens de todos os tempos. Por trás da indagação do præfectus romano da Judéia se oculta um profundo dilema: cimentar a base social em ardilosos estratagemas humanos ou erigi-la sobre a pedra angular das leis divinas, fonte inalienável dos poderes terrenos, conforme assinala o próprio Cristo quando diz ao vacilante algoz à Sua frente que não teria nenhum poder de libertá-Lo ou de condená-Lo, se não lhe tivesse sido dado do alto. A escolha ali simbolizada é entre construir a Pólis depositando total confiança em homens facciosos — hoje o eufemismo social vigente os considera “democratas” integrantes de partidos políticos — ou na sabedoria eterna. Entre tomar como modelo das ações humanas, e portanto da política, o verdadeiro Messias ou os falsos.
Ora, toda sociedade decadente descamba para o messianismo político. Não há exceções históricas. Por esta razão, no caso de Cristo — situado entre uma Roma imperial corrompida, já afastada dos elevados princípios republicanos que a erigiram, e o elitizado e pretensioso judaísmo farisaico —, a escolha não poderia recair senão sobre Barrabás, o revolucionário zelote. Cristo já o sabia por presciência divina, como também tinha a pleníssima noção de que, com o Seu sacrifício, traria ao mundo a possibilidade de reestruturar-se noutros paradigmas: a caridade, e não a cupidez, passaria a servir de fermento para o corpo social, dos estratos mais humildes e desvalidos aos governantes. O caminho foi longo até a Cristandade gerar as autoridades públicas mais sábias e prudentes de que se tem notícia. Mas ela, de acordo com os desígnios da Providência, também estava marcada para decair, e a queda foi lentamente agônica.
Nenhuma sociedade se desfaz sem perder substância espiritual — e o primeiro grande degrau nesta direção é o farisaísmo religioso, a um só tempo formalista e confiante no seu próprio saber. Tal atitude em geral consagra a letra e mata o espírito do qual ela é apenas símbolo; assim, a religião corrompe-se paulatinamente e os estudiosos das coisas divinas começam a sofisticar o discurso a ponto de se sentirem hermeneutas privilegiados das Sagradas Escrituras, embora sem haver recebido nenhum carisma para tanto. Incapazes de humildemente conservar a tradição recebida, reformam-na fazendo uso de palavras e conceitos de sua própria lavra, e após a sofisticação vem sempre a degradação. Em síntese, toda e qualquer civilização começa a ser destruída por maus teólogos, ou seja, por estudiosos novidadeiros das coisas divinas, e com a cristã não poderia ser diferente. A propósito, ponha-se na conta de dois frades franciscanos o lançamento das longínquas sementes do caos espiritual que se espraiou para o terreno da política e, séculos depois, acabou por gerar a modernidade: Duns Scot e Guilherme de Ockham.
Para se ter idéia, na opinião do Doutor Sutil o homicídio, a traição e a mentira não são coisas intrinsecamente más; elas são más tão-somente porque Deus as proibiu — e o fez por Sua libérrima vontade. Para Scot, no horizonte da moral a vontade divina é a única e exclusivíssima fonte do bem e do mal, e, por esta razão, segundo o seu tresloucado parecer, apenas os dois primeiros mandamentos das Tábuas da Lei entregues a Moiséis no Sinai — referentes a Deus — são indispensáveis e universais. Todos os demais são bons apenas porque Deus quis que fossem, mas poderiam ser maus se Ele assim decidisse. Em Scot não existe nenhuma lei necessária na natureza, nem mesmo uma lei eterna da qual provenha, mas só a vontade divina a pairar como que tiranicamente acima de tudo; Ockham repetirá estes princípios voluntaristas e os aprimorará em várias passagens de sua obra. Na perspectiva deste famoso autor insubmisso ao Papado, nada pode ser propriamente inteligível na criação, já que as coisas não se predicam umas das outras, mas apenas predicam-se convencionalmente os conceitos.
Entre os entes de razão e a realidade das coisas criara-se um pântano impossível de atravessar. Ora, não demoraria muito para a política ser inoculada por esta disteleologia irracionalista que foi tomando as universidades e fazendo as cabeças, geradora de um novo tipo de farisaísmo teológico insubordinado à tradição apostólica e ao Magistério da Igreja. A partir deste período, com o hiato estabelecido entre as coisas temporais e as espirituais, primeiramente sobrevirão as revoluções luterana e calvinista, com as suas inumeráveis guerras sangrentas; mais tarde virão as revoluções francesa (liberal-maçônica) e russa (comunista). O mundo escolhera definitivamente a Barrabás, malgrado as reações magisteriais da Igreja; estas porém se foram tornando impotentes perante o novo vetor materialista, libertário e humanista da história.
Os messianismos políticos multiplicam-se na exata medida em que inexistem autoridades espirituais que, de forma solene, custodiem as verdades eternas. A sagração da consciência individual dos homens como instância intocável é concomitante à dessacralização de todas as coisas, e, neste contexto, a débâcle do Magistério da Igreja a partir do Concílio Vaticano II é o acontecimento culminante do século XX, mais que as duas Grandes Guerras, pois representa o odiento fechar de olhos para as coisas políticas tomadas de assalto pelo que há de pior no gênero humano. Falseado e deturpado, o conceito de “dignidade da pessoa humana” se transforma em motor da política pós-moderna ocidental, e de todos os lados é mencionado para justificar os pleitos mais absurdos.
Hoje alguns querem fazer-nos imaginar que estamos perante uma escolha de Sofia: ou o projeto eurasiano russo, em parceria com cismáticos ortodoxos, ou os neocomunismos imperantes sobretudo na América Latina, ou o avanço europeu do Islã, religião a respeito da qual o abade Pedro, o Venerável, escrevera no distante século XII o estupendo Liber contra sectam sive haeresim sarracenorum. Como pano de fundo de todas essas possibilidades, encontram-se as premissas liberais dos que odeiam a Igreja e a querem ver afastada da instância política a todo custo, pois do contrário o reinado material do Anticristo nunca seria possível.
Em tal configuração, convém ter em vista o seguinte: todos os que põem a confiança no Senhor não serão confundidos, como afirma o Salmo que serve de epigrafe a este breve texto. Portanto, é melhor a derrota política com a cruz espiritual às costas do que a vitória política infamante.
Tal confiança verdadeiramente heróica pressupõe que os católicos não abandonem a Igreja, mesmo com a sua Hierarquia fazendo de tudo para os melhores apostatarem, e também não adiram a nenhum desses messianismos políticos, pois se trata de tentáculos do mesmo demônio.
Seja à esquerda ou à direita da depravação.”

http://contraimpugnantes.blogspot.com.br

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Paul Celan: Distantes


Olho no olho, no frescor,
comecemos também algo:
juntos
respiremos o véu
que nos esconde um do outro
quando a noite se dispõe a medir
a distância que ainda existe
entre cada forma que ele adota
e cada forma
que ele nos deu.


https://copodemar.wordpress.com

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Dietrich von Hildebrand e os falsos profetas


"Quem nega o pecado original e a necessidade de redenção do gênero humano, anula o significado da morte de Cristo na cruz e é um falso profeta.
Quem esquece que a redenção do mundo através de Cristo é a única fonte de verdadeira felicidade e que nada no mundo pode ser comparado a este único fato glorioso, este não é mais um verdadeiro cristão.
Quem não aceita mais a absoluta supremacia do primeiro mandamento de Cristo – ama a Deus acima de todas as coisas – e sustenta ao invés que o amor de Deus se expressa somente no amor ao próximo, este é um falso profeta.
Quem já não sabe entender que desejar uma íntima união com Cristo e uma transformação em Cristo é o verdadeiro significado de nossa vida, este é um falso profeta.
Quem proclama que toda moral basta-se a si mesma, e portanto não principalmente na relação do homem com Deus mas nas coisas que concernem ao bem-estar da humanidade, este é um falso profeta.
Quem no dano infligido a nosso próximo vê somente o mal causado a este e não vê a ofensa a Deus que está implícita no mesmo dano, este é vítima do ensinamento de um falso profeta.
Quem já não percebe a radical diferença existente entre caridade e benevolência humanitária, este se tornou surdo à mensagem de Cristo.
Quem se encontra impressionado e comovido pelas "conquistas cósmicas" e pela "evolução" e pelas especulações científicas mais que pela luz da Sagrada Humanidade de Cristo refletida em um santo, ou pela vitória sobre o mundo representada pela vida de um santo, este já não está compenetrado de espírito cristão.
Quem se preocupa pelo bem-estar material do homem mais que por sua santificação, este perdeu o sentido cristão do Universo."

http://in-exspectatione.blogspot.com.br

domingo, 13 de maio de 2018

Se Jesus é Deus, por que diz: “O Pai é maior do que eu”?


"A partir desta passagem Ário insultou a fé dizendo ser o Pai maior do que o Filho, erro que é refutado, todavia, pelas próprias palavras do Senhor. A afirmação 'o Pai é maior do que eu' só pode ser entendida, de fato, a partir do que Ele disse antes: 'vou para o Pai' . Ora, o Filho não vai ao Pai nem vem a nós enquanto Filho de Deus, porque, como tal, sempre existiu com o Pai desde toda a eternidade: 'No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus' (Jo 1, 1). Assim, Ele só pode dizer que vai para o Pai segundo a Sua natureza humana. Quando Ele declara, portanto, 'o Pai é maior do que eu', não o diz enquanto Filho de Deus, mas enquanto filho do homem, segundo o qual não só é menor que o Pai e o Espírito Santo, mas que os próprios anjos: 'Jesus, a quem Deus tornou pouco inferior aos anjos, nós o vemos coroado de glória e honra, por ter sofrido a morte' (Hb 2, 9). Do mesmo modo Ele estava sujeito também aos homens, sabidamente aos Seus pais, como se lê em Lc 2, 51. Assim, portanto, Ele é menor que o Pai segundo a humanidade, mas igual a Ele segundo a divindade: 'Ele, existindo em forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo' (Fl 2, 6-7).
É possível dizer ainda, com Santo Hilário, que também segundo a divindade o Pai é maior que o Filho, ainda que o Filho lhe seja igual, não menor. Porque o Pai é maior do que o Filho não em potestade, eternidade ou magnitude, mas em autoridade de doador ou de princípio. Porque o Pai nada recebeu de outro, mas o Filho, como se disse, recebeu do Pai a natureza por uma geração eterna. O Pai é maior, portanto, porque dá; e o Filho não é menor, mas igual, porque tudo o que o Pai possui, Ele também o recebeu: 'Deu-lhe o nome que está acima de todo nome' (Fl 2, 9)."
(Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Evangelho de São João)

https://padrepauloricardo.org/blog

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Francisco nega a necessidade da fé em Jesus Cristo


“No domingo 15 de abril Francisco visitou a paróquia romana de São Paulo da Cruz. No encontro que teve com crianças da paróquia, uma menina lhe perguntou se os que não foram batizados são filhos de Deus. Ao que Francisco respondeu com outra pergunta, sibilina e maliciosa em grau supremo, fazendo crer à pequena, como bom modernista, que a “verdade” deve ser encontrada nas “profundezas do coração humano”: “E tu? Que pensas disto? Que te diz o coração? As pessoas não batizadas são filhas de Deus ou não?”
Quando a pobre criatura lhe respondeu afirmativamente, Francisco lhe fez saber que ela havia respondido corretamente a sua pergunta e a felicitou por ter um bom “olfato cristão”, já que “todos somos filhos de Deus”, inclusive “os não batizados” e os que professam “religiões muito distintas, e que têm ídolos”.
Por fim, Francisco explicou que a diferença entre os não batizados e os batizados reside no fato de que estes últimos são “mais filhos de Deus” [!!!] que os primeiros. Ou seja, segundo Francisco, o batismo não confere a filiação divina por adoção – só Cristo a possui por natureza – mas provoca em quem o recebe um aumento de “intensidade” em sua original e natural filiação divina – conceito soberanamente absurdo, como se pudesse existir uma gradação na filiação -, a qual deve, por conseguinte, atribuir-se indistintamente a todos os homens, em virtude de seu caráter comum de “criaturas”. O que implica, logicamente, a abolição da distinção entre a ordem natural e a sobrenatural, com todas as conseqüências que isto traz inevitavelmente aparelhadas no plano teológico, a saber, o panteísmo modernista da “imanência vital”, que faz da concepção humana a fonte da revelação divina: reler a respeito a luminosa encíclica Pascendi de São Pio X.
Depois um menino, cujo pai ateu havia morrido recentemente, perguntou-lhe se ele pensa que “está no Céu”, ao que Francisco respondeu de maneira afirmativa, dado que seguramente era uma “boa pessoa”, e aconselhou ao pequeno que lhe falasse e que lhe rezasse (!!!) - Parla con tuo papà, prega tuo papà -. Não lhe pediu que rezasse por ele, o que é o primeiro reflexo que todo bom cristão tem por um ser querido falecido, mas o animou a que rezasse a ele, como se se tratasse de um santo, como se fosse um fato certo e indubitável que seu pai não somente se salvou, mas que, ademais, conseguiu escapar aos suplícios do Purgatório, sendo admitido diretamente nas fileiras gloriosas da Igreja Triunfante, com sua alma resplandecente e imaculada gozando para sempre da visão beatífica...
Estamos aqui diante de uma antítese grotesca da necessária e piedosa obra de misericórdia espiritual que um autêntico Vigário de Cristo deveria ter inspirado na alma desta pobre criatura, explicando-lhe que suas orações em favor de seu pai defunto poderiam ser-lhe de grande proveito, seja ajudando-o a que tenha recebido da parte de Deus a graça da conversão final, seja, em caso de haver-se salvado, contribuindo com suas orações a que saldasse as penas temporais devidas por seus pecados, abreviando assim sua estada purificadora no Purgatório.
Mas não, destas elementares considerações cristãs diante da morte, nem sequer rastros encontramos no discurso bergogliano. Com efeito, graças a Francisco, nem o pai do menino poderá contar com os pios sufrágios de seu filho, nem este conhecerá a verdadeira doutrina cristã sobre a necessidade do batismo – in re ou in voto – e da fé em Jesus Cristo para alcançar a vida eterna.
Francisco mentiu descaradamente a todos estes pequenos que inocentemente acudiram a seu encontro nessa paróquia romana, a quem não somente omitiu brindar o benéfico alimento do ensinamento evangélico mas que ademais enganou com uma malícia diabólica, iniciando-os às elucubrações envenenadas da gnose panteísta.
Não viria mal ao ímpio ocupante de Santa Marta reler a seguinte passagem do Evangelho segundo São Mateus, na qual Nosso Senhor adverte severamente aos que constituem uma ocasião de escândalo para as crianças que crêem n'Ele:
"Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar." (Mt. 18, 6)
A doutrina professada por Bergoglio, portanto, se encontra nos antípodas da revelação divina. Trata-se, pura e simplesmente, de uma heresia manifesta e notória. Isto nem precisa ser demonstrado, pois deveria ser algo perfeitamente claro para qualquer cristão que conhecesse minimamente o catecismo ou que tivesse lido o Novo Testamento. Mais ainda: antes do Vaticano II, qualquer criança cristã teria estado em condições de perceber imediatamente o embuste e refutar sem vacilar tamanha impiedade. Não obstante a evidência flagrante da tolice bergogliana, e para utilidade daqueles que pudessem abrigar dúvidas a respeito, eis aqui algumas citações do magistério da Igreja, para dissipar qualquer tipo de ceticismo:
552. - Que é o sacramento do Batismo? O Batismo é um sacramento pelo qual renascemos para a graça de Deus e nos fazemos cristãos. 553. - Quais são os efeitos do sacramento do Batismo? O sacramento do Batismo confere a primeira graça santificante, pela qual se perdoa o pecado original, e também os atuais, se os há; remite toda a pena por eles devida; imprime o caráter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória e nos habilita para receber os demais sacramentos. (Catecismo maior de São Pio X)
O Batismo é o sacramento da regeneração pela água com a palavra, pois nascendo pela natureza filhos da ira, por ele renascemos em Cristo filhos de misericórdia e filhos de Deus. [...] A lei do Batismo foi imposta por Deus a todos os homens, de modo que se não renascem para Deus por graça do Batismo, são gerados por seus pais para a morte eterna: Quem não renasce da água e do Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus. [...] O Batismo confere à alma a divina graça, com a qual fica justificada, feita filha de Deus e herdeira do céu, e adquire uma formosura divina aos olhos de Deus. (Catecismo do Concílio de Trento)
O primeiro lugar entre os sacramentos é ocupado pelo santo batismo, que é a porta da vida espiritual, pois por ele nos fazemos membros de Cristo e do corpo da Igreja. E tendo pelo primeiro homem entrado a morte em todos, se não renascemos pela água e pelo Espírito, como diz a Verdade, não podemos entrar no reino dos céus. (Concílio de Florença, Decreto dos Armênios, Dz. 696)
Depois da miserável queda de Adão, todo o gênero humano, viciado com a mancha original, perdeu a participação da natureza divina e nos tornamos todos filhos da ira. Mas o misericordiosíssimo Deus de tal modo amou o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito, e o Verbo do Pai Eterno com aquele mesmo único divino amor assumiu da descendência de Adão a natureza humana, mas inocente e isenta de mancha, para que do novo e celestial Adão derivasse a graça do Espírito Santo a todos os filhos do primeiro pai; os quais, havendo sido pelo pecado do primeiro homem privados da adotiva filiação divina, feitos já pelo Verbo Incarnado irmãos, segundo a carne, do Filho Unigênito de Deus, receberam o poder de chegar a ser filhos de Deus. (Pio XII, encíclica Mystici Corporis, §6º)
Poder-se-iam multiplicar ad infinitum as citações, que Francisco de nenhuma maneira pode ignorar, mas com estas basta e sobra. Ao negar a necessidade do batismo e da fé em Jesus Cristo para alcançar a filiação divina por via da adoção, Francisco suprime de fato a distinção entre a natureza e a graça – o que o faz incorrer no erro panteísta -, tornando ociosa a obra da Redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo no altar da Cruz e a missão divina por Ele confiada a seu Corpo Místico, a Igreja.
Concluamos esta breve nota com uma citação do prólogo do Evangelho de São João, que põe mais ainda em evidência, se fosse possível, a heresia naturalista e panteísta que difunde desavergonhadamente e com um cinismo a toda prova Francisco há mais de cinco anos, ante o silêncio ensurdecedor da quase totalidade do clero católico, cachorros mudos e indolentes, incapazes de discriminar uma verdade de fé de uma heresia, tragicamente ineptos para distinguir um legítimo pastor de um lobo voraz disfarçado com pele de cordeiro:
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jn. 1, 11-13).”

https://in-exspectatione.blogspot.com.br

domingo, 6 de maio de 2018

A Jacquerie


“Muito pouco tempo depois da liberação do rei de Navarra, sucedeu uma terrível e grande tribulação em muitas partes do reino da França, em Beauvaisis, em Brie, junto ao rio Marne, em Laon, Valois, a terra de Coucy e os arredores de Soissons. Algumas gentes das vilas camponesas se reuniram sem chefe em Beauvaisis. A princípio não eram nem cem homens e disseram que todos os nobres do reino da França, cavaleiros e escudeiros traíram o reino, e que seria um grande bem destruir a todos. Cada um deles dizia: “É verdade! É verdade! Maldito seja quem por ele não sejam destruídos todos os gentis-homens”.
Então, sem outro conselho e sem outra armadura além de bastões com pontas de ferro e facas, foram à casa de um cavaleiro que estava próxima dali. Destruíram a casa, mataram o cavaleiro, a dama e os filhos, grandes e pequenos, e incendiaram tudo. Logo foram a um castelo e ali ainda fizeram pior, pois prenderam o cavaleiro e o ataram a uma estaca muito fortemente e muitos violaram a mulher e a filha diante do cavaleiro. Depois mataram a mulher, que estava grávida, a sua filha e todos os filhos, e o marido, depois de torturá-lo, o queimaram e destruíram o castelo.
Assim fizeram em muitos castelos e boas casas, e foram crescendo tanto que chegaram a seis mil. Aumentavam porque todos os de sua condição lhes seguiam por todos os lados por onde passavam, de tal modo que cavaleiros, damas, escudeiros, suas mulheres e seus filhos fugiam deles. Damas e donzelas levavam seus filhos dez ou vinte léguas distantes, ali onde pudessem se proteger, abandonando suas casas com todos os seus bens. E todos estes criminosos reunidos, sem chefe e sem armaduras, saqueavam e incendiavam tudo, matando todos os gentis-homens que encontravam, forçando as damas e donzelas sem piedade e sem mercê como cachorros violentos.
Certamente jamais houve entre cristãos e sarracenos os crimes que cometiam estes miseráveis, pois quem cometia maiores atos vis, atos que nenhuma criatura humana deveria jamais nem imaginar, esse era o mais estimado e valorado entre eles. Não me atrevo a escrever nem contar os horríveis e inconvenientes atos que realizavam com as damas. Pois, entre outras vilanias, mataram um cavaleiro e o cravaram em um assador para assá-lo no fogo diante de sua dama e de seus filhos. Depois que dez ou doze forçaram e violaram a dama, quiseram fazê-la comer à força e logo a fizeram morrer de má morte. Tinha um rei entre eles que chamavam Jacques Bonhomme, que era, como então se dizia, de Clermont em Beauvaisis, e o elegeram o pior dos piores.
Estas gentes miseráveis incendiaram e destruíram mais de sessenta boas casas e fortes castelos do país de Beauvaisis e dos arredores de Corbie, Amiens e Montdidier. E se Deus não houvesse posto remédio com Sua graça, a desgraça teria crescido de modo que todas as comunidades teriam destruído os gentis-homens, depois a santa Igreja e a todas as gentes ricas de todo o país, pois assim sucedeu no país de Brie e Artois. As damas e donzelas do país, cavaleiros e escudeiros que puderam escapar, tiveram que fugir a Meaux, em Brie. Assim tiveram que fazê-lo a duquesa da Normandia e a duquesa de Orléans e grande quantidade de altas damas, como qualquer outra, para protegerem-se de serem forçadas e violadas, e logo mortas e assassinadas.
Estas gentes se mantinham unidas entre Paris e Noyon, e entre Paris e Soissons, e entre Soissons e Eu, em Vermandois, e por toda a terra de Coucy. Aí se encontravam os grandes violadores e criminosos, e saquearam entre as terras de Coucy, os bispados de Laon, Soissons e Noyon, mais de cem castelos e boas casas de cavaleiros e escudeiros, matando e roubando tudo o que encontravam. Mas Deus, por sua Graça pôs remédio a tudo isso, o que muito se Lhe deve agradecer, tal e como ouvireis seguidamente.
Quando os gentis-homens de Beauvaisis, de Corbiois, Vermandois e Valois e das terras onde aqueles miseráveis cometiam seus crimes viram suas casas destruídas e seus amigos mortos, pediram ajuda a seus amigos em Flandres, Hainaut, Brabante e Bélgica, e acudiram de todos os lados. Estrangeiros e gentis-homens do país se uniram e começaram a matar e decapitar aqueles miseráveis, sem piedade nem mercê, e os penduravam nos galhos das árvores ali onde os encontravam. O próprio rei de Navarra acabou um dia com três mil, muito próximo de Clermont, em Beauvaisis. Mas haviam se multiplicado de tal forma que se houvessem juntado todos, haveriam sido cem mil homens. Quando lhes perguntavam por que faziam aquilo, respondiam que não o sabiam, mas que como viam os demais fazerem, eles também o faziam. Pensavam que desse modo deviam destruir a todos os gentis-homens e nobres do mundo para que não restasse ninguém.
Nessa época, o duque da Normandia marchou de Paris com toda a sua tropa, sem que se inteirassem os de Paris, pois temiam o rei de Navarra, o preboste dos comerciantes e os de sua seita, pois todos estavam aliados. Dirigiu-se à ponte de Charenton, junto ao Marne e fez um grande chamamento dos gentis-homens onde acreditava consegui-los, e desafiou o preboste dos comerciantes e aos que lhe queriam ajudar. Quando o preboste dos comerciantes ouviu que o duque da Normandia estava na ponte de Charenton e que estava ali reunindo a sua gente de armas, cavaleiros e escudeiros, e que queriam prejudicar aos de Paris, temeu que lhe sucedessem grandes males e que fossem atacar Paris à noite, que naquela época não estava fortificada. Pôs a trabalhar quantos obreiros pôde encontrar, e fez construir grandes fossas ao redor de Paris, muralhas e portas, e trabalhavam noite e dia.
Ao cabo de um ano havia reunido três mil obreiros e foi uma grande empresa a de fortificar em um ano uma cidade como Paris, de tão grande contorno. E os digo que esta foi a melhor ação que o preboste dos comerciantes fez em toda sua vida, pois de outro modo haveria sido saqueada muitas vezes e por muitas causas, tal e como ouvireis depois. Agora quero voltar a aqueles e aquelas que haviam se refugiado a salvo em Meaux, em Brie.
Na época em que aquelas gentes miseráveis saqueavam o país, voltaram da Prússia o conde de Foix e seu primo, o captal de Buch. Pelo caminho, quando iam entrar na França, ouviram a pestilência e os horríveis fatos que acossavam aos gentis-homens. Estes dois senhores sentiram grande piedade. Cavalgaram tanto que chegaram a Chalôns em Champagne, onde os camponeses não haviam entrado. Na vila de Chalôns lhes disseram que a duquesa da Normandia e a duquesa de Orléans, com outras trezentas damas e donzelas e o próprio duque de Orléans, estavam em Meaux em Brie em terrível angústia pela Jacquerie.
Estes dois bons cavaleiros decidiram ir ver as damas para reconfortá-las tudo o que pudessem, ainda que o captal fosse inglês. Mas naquele tempo havia trégua entre o reino da França e o reino da Inglaterra. O captal podia cavalgar por onde quisesse, e quis também demonstrar sua gentileza na companhia do conde de Foix. Em sua tropa deveria haver umas quarenta lanças, não mais, pois como os tenho dito vinham de uma peregrinação. Tanto cavalgaram que chegaram a Meaux, em Brie. Em seguida, foram ver a duquesa e as outras damas, que se alegraram muito de sua chegada, pois todas estavam ameaçadas pelos jacques e os camponeses de Brie, e inclusive pelos da vila, tal e como pude ver. Aqueles miseráveis, ao inteirarem-se de que havia grande quantidade de damas, donzelas e jovens e gentis crianças, se uniram, também com os do condado de Valois, e se dirigiram a Meaux.
Por outro lado, os de Paris, que se inteiraram da assembléia, saíram de Paris um dia em tropel, e se reuniram com os demais. Entre todos deveria haver uns nove mil com grande vontade de crimes. Constantemente lhes agregavam gentes pelos distintos lugares e caminhos que conduziam a Meaux, e todos chegaram às portas da vila dita anteriormente. Os miseráveis da vila não quiseram proibir a entrada aos de Paris, senão que lhes abriram as portas. Entraram no burgo tal quantidade de gentes que encheram todas as ruas até o mercado.
Agora observai a grande graça que Deus concedeu às damas e donzelas, pois, na verdade, teriam sido violadas, forçadas e perdidas, por nobres que fossem, se não houvessem sido salvas pelos gentis-homens que ali estavam, e de modo especial, pelo conde de Foix e meu senhor captal de Buch, pois estes dois cavaleiros vieram para destruir aqueles camponeses.
Quando aquelas nobres damas, que estavam albergadas no bem protegido mercado de Meaux, porque o rio Marne o rodeia, viram tal quantidade de gentes, sentiram medo e terror. Mas o conde de Foix e o captal, com suas tropas que estavam armadas, se formaram no mercado e chegaram até a porta do mercado, que fizeram abrir. Logo se colocaram diante daqueles vilãos negros, pequenos e mal armados, com o estandarte do conde de Foix e o do duque de Orléans, e o pendão do captal, empunhando lanças e espadas, bem dispostos para defenderem-se e protegerem o mercado.
Quando aqueles miseráveis os viram assim formados, esqueceram o furor de antes. Ainda que não fossem muitos contra eles, os primeiros começaram a retroceder, e os gentis-homens a persegui-los e a lançar-lhes lanças e espadas e a derrubá-los. Então os que estavam diante e sentiam os golpes ou temiam recebê-los, retrocederam todos de uma vez de terror, e caíram uns em cima dos outros.
Nisto, todo tipo de gentes de armas saíram das filas e logo ganharam a praça, metendo-se entre os vilãos. Derrubaram-nos aos montões e os matavam como bestas, e os expulsaram fora da vila, pois entre eles não havia nenhuma ordem nem formação. Mataram tantos que se cansaram e caíram fartos, e os lançaram no rio Marne aos montões. Dito brevemente, acabaram com sete mil naquele dia, e não se lhes escapou nenhum ao que não prenderam mais adiante.
Quando os gentis-homens regressaram, colocaram fogo na parte baixa da vila de Meaux e incendiaram tudo e a todos os vilãos do burgo que prenderam dentro. Depois desta destruição que se fez em Meaux, não voltaram a se unir em nenhuma parte, pois o jovem senhor de Coucy, que se chamava meu senhor Enguerrand, ia com muitos gentis-homens acabando com todos os que encontravam, sem piedade nem mercê."
(Jean de Froissart, Crônicas)

http://www.ricardocosta.com

terça-feira, 1 de maio de 2018

O espírito esquerdista é a soma dos Sete Pecados Capitais


"O ESPÍRITO ESQUERDISTA é a soma dos Sete Pecados Capitais — mais a soberba.
1- É VAIDOSO de suas utopias irrealizáveis.
2- É INVEJOSO das idéias alheias, a ponto de não suportar sequer contemplá-las.
3- É AVARENTO em sua torpe visão materialista.
4- É "ACÍDICO", ou seja: odeia a excelência que é chamado a realizar em sua própria vida.
5- É IRADO, a ponto de chegar à cólera irracional perante qualquer objeção ponderada.
6- É GULOSO a ponto de lambuzar-se nos bens que amealha quando chega ao poder.
7- É LUXURIOSO, na medida em que a licenciosidade com relação a qualquer regra moral (não apenas no âmbito sexual) é a sua "forma mentis".
Acima de tudo, É SOBERBO, ou seja: ama de maneira desmedida a excelência que acredita ver em si mesmo."
(Sidney Silveira, em postagem no Facebook)

sábado, 28 de abril de 2018

O processo de dois camponeses heréticos da aldeia de Bucy


“Visto que conhecemos os heréticos que esse ímpio conde de Soissons amava, podemos mencionar certo camponês chamado Clemente, que vivia em Bucy com seu irmão Evrard, uma vila na vizinhança de Soissons. Freqüentemente anunciava-se que ele era um dos líderes de uma heresia. O infame conde costumava perambular dizendo que um homem mais sábio do que esse Clemente não podia ser encontrado em lugar algum. Esse não é o tipo de heresia cujo ensinamento é abertamente defendido pelos seus mantenedores. Pior, ela rasteja clandestinamente como uma serpente e somente se revela através de seus contínuos deslizes.
Laconicamente, era encorajada pelos seus seguidores: eles declaram que a encarnação do filho da Virgem é uma ilusão; rejeitam o batismo de crianças antes da idade da razão, quaisquer que sejam seus padrinhos; invocam em seu próprio discurso a palavra de Deus, que se sucede através de uma longa recitação de palavras; odeiam o mistério que nós cantamos sobre nossos altares e chamam a boca de qualquer padre de boca do inferno. A fim de ocultarem sua heresia de outros, eles sempre recebem nossos sacramentos. Naquele dia, se consideram obrigados a jejuar e não comem mais nada. Não fazem distinção entre os cemitérios de solo sagrado e qualquer outro tipo de solo. Condenam o casamento e a procriação da prole.
De fato, por onde quer que estejam espalhados pelo mundo latino, esses homens podem ser vistos vivendo com mulheres sem tomar o nome de marido ou esposa. Nem mesmo podem-se ver homens e mulheres se confinarem aos mesmos parceiros: homens dormem com outros homens e mulheres com mulheres, pois asseguram que a relação de homens e mulheres é um crime. Eliminam qualquer descendência que brote de suas relações. Eles mantinham seus encontros em galerias sob o solo, em porões escondidos e sem distinção de sexo. Acendiam velas e se apresentavam para exibirem a uma jovem que – e isso está relatado – posicionava-se inclinada tendo suas nádegas expostas para todos verem.
Em breve, as velas se apagavam e eles gritam ‘Caos!’ de todos os lados e todos tinham relações com a primeira pessoa que tinham em suas mãos. Se uma mulher ficasse grávida no processo, voltavam para o mesmo lugar depois que ela tivesse dado à luz. Uma grande fogueira é acesa e aqueles sentados ao redor arremessam o bebê de uma mão para a outra através das chamas, até que a criança esteja morta. Quando o corpo da criança está reduzido a cinzas, fazem pão com elas e uma parte é distribuída a todos, como um tipo de sacramento e, uma vez tomado, ninguém se salva daquela heresia. Se alguém relê a lista de heresias compilada por Agostinho, percebe que ela é muito parecida com a dos maniqueístas.
Originalmente iniciada por pessoas bem educadas, essa heresia absorveu os camponeses que, alegando estarem absorvendo a vida apostólica, tinham lido os Atos dos Apóstolos e um pouco mais. Então, o bispo Lisiard de Soissons, um homem muito ilustre, intimou-os para o propósito de uma inquirição entre os dois heréticos que mencionamos, diante dele. O bispo começou acusando-os de realizar encontros fora da igreja e com heréticos bem conhecidos por aqueles ao redor deles. Clemente respondeu: ‘Meu senhor, você não leu no Evangelho beati eritis?’ [‘Você deverá ser abençoado?’]. Como era iletrado, pensou que a palavra eritis significava ‘heréticos’ e, além disso, pensou que ‘heréticos’ era para ser entendido no sentido de ‘herdeiros’, ainda que não de Deus, para ser sincero.
Quando foram interrogados sobre suas crenças, eles responderam da maneira mais cristã e negaram manter tais encontros. Mas como essas pessoas tipicamente negam todas as acusações e, em segredo, seduzem os corações e as mentes de pessoas simples, foram sentenciados para exorcismo ao ordálio da água. Enquanto os preparativos para esse ordálio estavam sendo feitos, o bispo me pediu para tomar em particular as opiniões deles. Quando levantei a questão do batismo de crianças, eles responderam: ‘Quem acredita e é batizado será salvo’. Como estava atento que uma boa resposta poderia, nesse caso, ocultar a mais soberba perversidade, perguntei a eles o que pensavam a respeito dos que são batizados de acordo com outra fé, e eles responderam: ‘Por Deus, não nos investigue tão profundamente!’ E para cada uma das questões, acrescentaram: ‘Nós acreditamos em tudo o que você diz.’ Então, eu me lembrei de um daqueles dizeres ao qual todos os priscilianistas costumavam aderir: ‘Faça juramento, perjure, mas não entregue o segredo.’
Então virei para o bispo e disse: ‘Como as testemunhas que os ouviram professar essa doutrina não estão aqui, levem-nos para o julgamento que foi preparado.’ As testemunhas eram certa dama que Clemente havia enlouquecido durante o ano passado, e um diácono que ouviu Clemente dizer as coisas mais perversas. Então, o bispo celebrou a missa e os heréticos receberam os sacramentos de sua mão assim que ele disse: ‘O corpo e o sangue do Senhor pedem por vocês a prova neste dia.’ Mais tarde, esse bispo mais que sagrado dirigiu-se para as águas com Pedro, o arquidiácono, um homem de fé inabalável que havia rejeitado os pedidos dos heréticos para não serem submetidos ao ordálio. Com muitas lágrimas, o bispo recitou as litanias e procedeu ao exorcismo.
Depois disso, o acusado jurou que nunca havia acreditado ou pensado em coisa contrária à nossa fé. Atirado dentro do tanque de água, Clemente ficou boiando como um pedaço de palha. Vendo isso, toda assembléia foi arrebatada com júbilo. Deve ser acrescentado que esse teste havia arrastado uma multidão de ambos os sexos e que ninguém conseguiu se lembrar de ter visto algo assim. O companheiro de Clemente confessou seu erro, mas sem expressar qualquer remorso. Com seu irmão condenado, ele foi atirado em uma cela. Dois outros heréticos declarados da vila de Dormans vieram para o espetáculo e do mesmo modo foram arrastados. Nós então fomos ao Concílio de Beauvais para consultar os bispos sobre o que deveria ser feito. Mas enquanto isso, o povo, cheio de fé e temendo a fraqueza do clero, correu para a prisão, forçou-a e queimou os heréticos em uma grande pira acesa fora da cidade. Assim, o povo de Deus, temendo que esse câncer se espalhasse, fez justiça com suas próprias e zelosas mãos.”
(Guiberto de Nogent, De Vita Sua)

http://www.ricardocosta.com

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Jorge de Sena: Fidelidade


Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

domingo, 22 de abril de 2018

Uma acorde que desestabilizou toda a música


“A uma estrutura objetiva da alma humana corresponde uma estrutura objetiva da música. Ambas podem ser perturbadas pelas opções discordantes dos homens; mas o livre arbítrio subjetivo não pode mudar estas estruturas, nem sua correspondência recíproca. Não é senso comum que assim como é corrente a música suave nos supermercados para estimular as mulheres a comprar, se executa música vigorosa no exército para incitar os homens a marchar? A mercadotecnia e a milícia são atividades demasiado reais para permitir que nelas interfiram as fantasias do liberalismo.
Ainda assim, os liberais fantasiam. Daí, sem dúvida, a atual produção de “Tristão e Isolda” no Covent Garden, que se esforça em “desconstruir” a obra-prima de Wagner, como se descreveu nos Comentários Eleison da semana anterior. No entanto, um artigo de duas páginas incluído nas notas do programa para a mesma produção ilustra a correspondência objetiva entre classes de música e classes de reações humanas. Quisera poder citá-lo todo, mas não se assustem com os detalhes técnicos, leitores, porque estes são precisamente os que provam o ponto.
O artigo foi tomado do livro “Vorhang Auf!” (“Levante-se o Pano!”), de um maestro alemão que ainda vive: Ingo Metzmacher. Centra-se no famoso “Acorde de Tristão”, que aparece pela primeira vez no terceiro compasso do prelúdio. O acorde consiste de um trítono (ou quarta aumentada) fá e si abaixo do dó central (dó4) e acima dele, uma quarta: ré sustenido e sol sustenido. Neste acorde, diz o autor, há uma tremenda tensão interna em busca de uma resolução, mas nas quatro vezes que este acorde aparece nos primeiros 14 compassos do prelúdio, só se resolve na 7ª dominante; um acorde irresoluto de per si e que clama por uma resolução. E quando ao final alcança um acorde estável em fá maior no compasso 18, imediatamente é desestabilizado por uma nota baixa elevando-se um semitom meio compasso adiante, e assim sucessivamente.
Os semitons são de fato a chave, diz Metzmacher, do novo sistema harmônico inventado por Wagner em “Tristão” para expressar o anelo ilimitado do amor romântico. Os semitons “agem como um vírus; não há som que esteja a salvo deles e não há nota que possa estar certa de que não variará para cima ou para baixo.” Os acordes assim fracionados continuamente, reparados e imediatamente fracionados outra vez, constituem uma procissão implacável de estados de tensão irresoluta, que corresponde perfeitamente em música ao desejo mútuo dos amantes, “crescendo imensuravelmente como um resultado da impossibilidade de encontrar-se plenamente.
Mas Metzmacher assinala o preço que se há de pagar: a música baseada no sistema de claves, uma mescla estruturada de semitons com tons plenos, “toma sua força vital de uma habilidade de dar-nos com uma clave particular a sensação de estar em casa.” Pelo contrário, com o sistema de Tristão, “nunca podemos estar certos de que um sentimento seguro não é na realidade uma decepção.” Assim, o acorde de Tristão “marca um ponto de inflexão na história não só da música, mas de toda a humanidade.” Metzmacher entenderia bem o velho provérbio chinês: “quando a modalidade da música muda, os muros da cidade tremem.
Tal como a música tonal subvertida de “Tristão”, assim talvez também esse produtor do Covent Garden tenha tentado subverter “Tristão”. Onde então se detém a desconstrução da vida e da música? Resposta não wagneriana: Nas verdadeiras celebrações da Missa! Com a Nova Missa Maçônica, os verdadeiros católicos nunca se sentirão em casa.”
(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, “Tristan” - Chord)