sexta-feira, 3 de março de 2017

O juízo temerário (II)

[III]
“Em meu último artigo, mostrei que não pode haver confusão mais grosseira do que a de certas pessoas que identificam os conceitos de “juízo temerário” e suspeita. Evidentemente, uma suspeita, pelo próprio fato de não ser uma certeza, envolve uma forte possibilidade de erro. Nem por isto, qualquer suspeita fundada em indícios seguros deve ser considerada temerária. Desde que não tenha havido desproporção entre os indícios e a suspeita, nenhuma temeridade terá existido.
Formular uma suspeita razoável será, assim, um mal? Não. Pelo contrário, pode implicar em grave violação dos mais elementares deveres o não formulá-la.
Demonstrado isto em meu último artigo, passarei agora, dentro do mesmo assunto, a outra ordem de considerações.
* * *
Analisemos a palavra “temerário”. Que significa ela? Imprudente, inconsiderado.
Assim, qualquer juízo só será temerário se inconsideradamente formado, isto é, se formado sem aquela madura análise que deve preceder todos os nossos julgamentos.
Entretanto, de nenhum modo se deve daí inferir que, quando erramos em nosso juízo sobre alguém, agimos sempre temerariamente. O homem é falível, e as circunstâncias muitas vezes o enganam. Por isto, sempre que se tiver agido com cautela, pode a consciência ficar plenamente tranqüila.
* * *
É curioso notar que nem todo juízo temerário é necessariamente desfavorável. Se é temerário todo juízo imprudente, é óbvio que, quando as conclusões desse juízo forem favoráveis, nem por isto terão deixado de ser temerárias.
Não é necessário dizer que, enquanto o juízo temerário desfavorável pode lesar gravemente os direitos da pessoa por ele alvejada, o juízo temerário favorável é, deste ponto de vista, inócuo. Entretanto, um juízo temerário favorável, não ferindo os direitos da pessoa a quem se refere, pode ferir gravemente os direitos de terceiros. E, neste caso, o pecado daí decorrente será tanto mais grave quanto mais respeitáveis forem os direitos assim desrespeitados, bem como quanto mais numerosas forem as pessoas prejudicadas.
Exemplifico. Um pai tem deveres sagrados para com seus filhos. Se ele, entretanto, levado por uma exagerada complacência, ou por um culposo descuido, forma de seus filhos, temerariamente, um juízo muito melhor do que merecem, viola gravemente seus deveres, pois que se coloca na impossibilidade de corrigir seus filhos. Esse mesmo pai, entretanto, teria talvez escrúpulo em formar uma suspeita legítima quanto a algum empregado, sócio, cliente, etc. Não há nisto um evidente desequilíbrio? Outro exemplo: em geral, os professores conservam sobre seus antigos alunos alguma autoridade moral; entretanto é tão grande a cegueira de muitos deles para com esses produtos de seus esforços educacionais que só vêem neles qualidades e não defeitos; e, em última análise, a influência moral dos antigos professores, em grande número de casos, se torna inteiramente inútil para os alunos. Outro exemplo ainda: os presidentes de setores de Ação Católica ou de associações religiosas têm obrigação estrita de discernir, nos associados, os defeitos que os tornem perigosos aos demais, a fim de que, se inúteis às advertências amistosas, os elementos nocivos sejam eliminados. Conheço, entretanto, um caso concreto de certa associação que tendo relutado durante anos inteiros em expulsar alguns membros, acabou por ficar reduzida a uma inanição absoluta, pela corrupção dos elementos bons que tinha conseguido laboriosamente formar. Não houve, no juízo temerariamente bom das autoridades dessa associação, uma grave falta no cumprimento dos encargos?
Tudo isto posto, é certo que não são só os juízos temerários desfavoráveis que podem acarretar pecados.
* * *
Penso que chocarei muitos leitores se a isto eu acrescentar que minha experiência me tem mostrado que a Igreja e a sociedade têm padecido muito mais dos juízos temerários favoráveis do que dos desfavoráveis que hoje em dia se formam. Entretanto, esta é uma importante verdade. Se o mal tem tantas vezes uma imensa liberdade de ação, se ele conquista círculos de influência cada vez mais largos, se ele estende seu domínio sobre o mundo de modo cada vez mais insolente, enquanto a influência dos elementos bons se retrai, ferida muitas vezes de uma oprobriosa impotência, de uma infecundidade evidente, a que se deve isto senão à confiança por vezes infantil e ridícula com que os bons abrem seus ambientes aos maus?
Ora os pecados contra os interesses da Igreja são, de sua natureza, maiores e mais graves do que os que se cometem contra interesses humanos. Por outro lado, os pecados contra a sociedade são maiores, de sua natureza, do que os que se cometem contra os indivíduos. Tudo isto posto, quem por juízo temerariamente bom prejudica a Igreja e a sociedade, peca mais gravemente do que quem por juízo temerariamente mau prejudica um indivíduo.
* * *
Tudo quanto dissemos sobre os juízos temerários se aplica, ponto por ponto, às suspeitas temerárias. Também há suspeitas temerariamente boas. Quando concebemos uma infundada e temerária esperança de que alguém é bom; quando supomos temerariamente que podemos dar a A, B, ou C as maiores provas de confiança com o intuito de os comover e assim arrastá-los para a Igreja; quando deixamos de exigir deste ou daquele indivíduo as garantias necessárias em matéria de interesses espirituais ou temporais, por julgarmos muito auspiciosa sua fisionomia franca e leal, em todos estes casos cometemos suspeitas temerariamente boas, porque nos teremos deixado empolgar por esperanças infundadas, por aparências enganosas, por ilusões contra as quais um homem sério deve estar premunido internamente. E, assim, prejudicamos seriamente os nossos interesses, os de nossas famílias, de nossa Pátria e, o que é pior do que tudo, os da Santa Igreja. Livre-nos Deus, pois, das suspeitas temerariamente severas. Mas livre-nos também das suspeitas temerariamente indulgentes.
A este respeito, não julgamos dever desmascarar o erro infantil dos que supõem que todo juízo severo, pelo próprio fato de ser severo, é temerário. Achar que um assassino é um assassino, um adúltero é um adúltero, ou um ladrão é um ladrão, constitui para muita gente juízo temerário. Poderá haver opinião mais ridícula? Assim, quando Nosso Senhor chamava os fariseus raças de víboras e sepulcros caiados, cometia juízo temerário? Quando os apóstolos, os Papas, os Padres e Doutores da Igreja estigmatizavam em palavras candentes os erros dos potentados de seu tempo, cometiam juízo temerário? E a caridade, segundo essa estranha moral, consistira em achar pertinazmente, e contra toda a evidência dos fatos, que um assassino é um cordeiro, um adúltero um lírio, e um ladrão uma pomba. Isto não é virtude, mas imbecilidade. Diz-se de Santa Teresa que ela afirmou que a humildade consistia na verdade. É também certo que a caridade não consiste nem no erro nem na mentira.
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Tudo isto está certo, dirá muita gente. Mas deixemos aos que detêm qualquer autoridade, seja na família, seja na sociedade, seja no Estado ou na Igreja, o encargo de formar essas dolorosas certezas e essas tristes suspeitas. Conformemo-nos com nossa condição de súditos, e aproveitemos nela ao menos a satisfação de viver sem preocupações.
Todo o mundo reconhece que para as altas funções - e quantas funções há que, sendo humildes, são altíssimas - é necessária uma preparação remota. Se todos aqueles que exercem no movimento católico, na sociedade ou na família, funções que os obrigam absolutamente a suspeitar do próximo (dentro da medida do justo e do razoável, repetimo-lo), se se preparam para isto só depois de terem recebido nos ombros o peso da autoridade, que espécie de chefes teremos? Não haveria uma analogia entre eles e um general que só começasse a aprender estratégia depois de promovido a essa alta dignidade?
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Tenho a certeza de que a leitura destas reflexões terá causado a muitos leitores, que sofrem de uma caridade neurastênica, de uma violenta e iracunda misericórdia, uma irritação sem nome. Estas linhas lhes terão causado, no fundo da consciência, estranhos e agudos remordimentos. Estavam em tal paz, e de repente o cenário se muda diante de seus olhos. Qual o jornalista impertinente que assim perturba seu sossego?
O mundo está atravessando uma tremenda hora de crise. A “caridade” com que muita gente, fechando os olhos ao perigo, dorme o sono da paz, muito mais se parece com o torpor dos Apóstolos no Horto das Oliveiras do que com uma verdadeira virtude sobrenatural. Se esses membros sonolentos da Igreja militante não querem ouvir nossa voz, meditem ao menos nas palavras de Nosso Senhor:
Una hora non potuistis vigilare mecum?””

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O juízo temerário (I)


“Em artigos anteriores temos mostrado a ação nociva do liberalismo religioso, que timbra em deformar nos católicos as virtudes mais adequadas à luta e ao combate, criando assim o tipo ridículo do “carola” inofensivo e inepto, que o próprio liberalismo é o primeiro a estigmatizar afirmando que a Igreja não é capaz de produzir figuras diversas desta.
Se o liberalismo se empenhou particularmente em iludir as massas católicas a respeito da virtude da fortaleza, é certo que outra virtude, a da perspicácia, também tem sido muito combatida pela propaganda liberal. Muitos católicos se terão por certo espantado quando afirmamos que o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma inigualável escola de energia e heroísmo no sentido mais belicoso da palavra. Sua surpresa não será menor se lhes dissermos hoje que o Evangelho é uma inigualável escola de perspicácia, e que Nosso Senhor Jesus Cristo inculcou reiteradamente esta virtude.
* * *
O que vem a ser perspicácia? É a virtude pela qual nosso olhar, transpondo as aparências enganosas apresentadas pelas pessoas com quem lidamos, penetra até à realidade mais recôndita de sua mentalidade. Assim, diz-se de uma autoridade eclesiástica ou civil que é perspicaz se, através da prolixidade dos conselhos e informações que recebe, sabe discernir a verdade do erro, adotando em conseqüência uma linha de conduta conforme os interesses que tem em mãos. Dentro da mesma ordem de idéias, pode-se dizer que é perspicaz um médico que sabe discernir a existência de uma moléstia através dos mais ligeiros indícios. E no mesmo sentido ainda se chamaria perspicaz o detetive que sabe interpretar as circunstâncias aparentemente mais insignificantes, delas deduzindo com segurança qual foi o autor de um crime. Difícil seria imaginar uma profissão ou condição social em que a perspicácia não fornecesse ao homem os mais inestimáveis recursos para o cumprimento de seus deveres. O pai de família, o professor, o diretor de consciências precisa discernir em seus alunos, dirigidos ou filhos, os mais ligeiros sintomas das crises que se esboçam, a fim de prevenir o que de futuro seria talvez impossível remediar. O homem de Estado não pode deixar de distinguir, por entre as múltiplas manifestações de amizade que seu alto cargo suscita, os amigos sinceros dos insinceros: todo o êxito de sua carreira política está condicionado a esta aptidão. Os advogados, militares, industriais, comerciantes, banqueiros, jornalistas, etc., etc., não podem exercer convenientemente suas funções, nem poupar aos interesses que têm em mãos os mais graves sacrifícios, se não forem munidos de uma perspicácia hoje mais necessária do que nunca.
A este respeito queremos insistir muito especialmente: todo mundo tem, em certas circunstâncias, o direito de arcar com prejuízos que afetem seus interesses individuais. Ninguém, entretanto, tem o direito de expor os interesses de terceiros. Haverá situação mais ridícula do que a de alguém que declare romanticamente haver comprometido os interesses de terceiros que lhes estavam confiados, porque “foi bom demais e confiou excessivamente na bondade alheia”? “Bom demais”? É realmente ser “bom demais” sacrificar ao amor próprio de uma meia dúzia de aventureiros os interesses sagrados confiados à pessoa que assim procura se inocentar? Quem não percebe que essa “bondade” fora de propósito redundou em uma injustiça cruel para com os terceiros prejudicados no caso?
Apliquemos na ordem concreta dos fatos estes conceitos. Um apóstolo leigo que, por “excessiva bondade”, tolera em alguma associação membros gangrenados nos quais confia infundadamente, e que ocasionam a perda de todos os outros, não é um traidor que sacrifica cruelmente os elementos sãos e inocentes aos elementos culpados?
“Se teu pé de escandaliza, corta-o. Se teu olho te escandaliza, arranca-o”. É esta a máxima do Evangelho. Mas quanta perspicácia é necessária para perceber a premência de certas amputações! E, no entanto, o apóstolo leigo que não sabe discernir a oportunidade destes cortes dolorosos, ou não sabe apreciar a utilidade de tais amputações, não é menos inepto nem menos perigoso para o laicato católico do que o médico que desprezasse sistematicamente o emprego dos processos cirúrgicos.
* * *
Não foi outra a razão pela qual Nosso Senhor, além de recomendar a amputação dos membros gangrenados de qualquer sociedade humana, falou de modo todo particular contra os falsos profetas e os lobos disfarçados em ovelhas. Qual a virtude que nos faz evitar os aventureiros arvorados em profetas senão a perspicácia? Qual virtude que nos leva a repelir o lobo metido na pele da ovelha senão a perspicácia? E o que de mais triste do que, por falta de perspicácia, seguir falsos profetas ou abrir o aprisco às falsas ovelhas?
Por isto mesmo Nosso Senhor não se limitou a pregar a perspicácia, mas deu dela exemplos insignes e memoráveis. Assim, quando o Divino Mestre denunciava os fariseus, o que fazia senão estimular a perspicácia de seus ouvintes, desmascarando aqueles sepulcros caiados, brancos por fora e por dentro cheios de podridão? E, entretanto, se o “Legionário” dissesse de alguém - de um violador de tratados e concordatas por exemplo - que é um sepulcro caiado, quem não afirmaria que além de faltarmos com a caridade estaríamos cometendo um juízo temerário?
Em torno deste capítulo dos juízos temerários, quanta teologia de água doce não se tem feito?
É precisamente para desfazer um pouco do ridículo romantismo edulcorado e pietista, que em torno da questão do juízo temerário se tem formado, que escreveremos nosso próximo artigo.
[II]
Grande número de incompreensões a respeito do assunto provém de uma análise superficial da palavra “juízo”. Muitas são as pessoas que receiam fazer uma suspeita desfavorável a terceiros, porque, caso a suspeita não seja comprovada ulteriormente, terão cometido um juízo temerário. Mas uma suspeita poderá ser considerada juízo?
Para decidir a questão, basta recorrermos às noções correntes. O juízo, ou sentença, implica em uma afirmação. Só fazemos um juízo acerca de alguém quando chegamos a uma certeza a respeito desse “alguém”. Uma suspeita não constitui um juízo, e, assim, quem suspeita de outrem não pode, propriamente, formar um juízo temerário, e isto pela simplicíssima razão de que não chegou a estabelecer juízo algum. Com efeito, a suspeita é uma hipótese que formulamos a respeito de uma pessoa. E a hipótese evidentemente não é uma certeza.
Assim, ainda que tenhamos feito sobre uma pessoa uma suspeita infundada, não teremos com isto cometido um juízo temerário.
* * *
Quer isto dizer que podemos arbitrariamente suspeitar do próximo? Evidentemente não. O que se requer neste assunto é simplesmente um uso correto das leis da lógica. Com efeito, há pessoas que tomam às vezes atitudes que, em sã lógica, suscitam uma legítima suspeita. E, neste caso, suspeitar não pode constituir um pecado. Com efeito, se pelo emprego correto das luzes naturais que Deus nos deu chegamos a formular uma hipótese plausível, poderá haver pecado em que demos acolhida a essa hipótese? Evidentemente não.
Em que caso, então, uma suspeita pode ser pecaminosa? Quando se basear em elementos logicamente insuficientes para tal. Ou, em outros termos, quando com elementos insuficientes para formular uma suspeita, nós entretanto a formulamos, quer por leviandade, quer por má vontade, quer por qualquer outro defeito. Trata-se aí, evidentemente, de um mau emprego das regras da lógica e implicitamente de uma injustiça censurável.
* * *
Quer isto dizer que devemos evitar qualquer suspeita, de medo de errar?
Também não. Seria tão estulto quanto se deixássemos de andar, de medo de escorregar e quebrar a espinha; deixar de respirar, de medo de ingerir micróbios; deixar de comer, de medo de assimilar alimentos nocivos à saúde.
Todos nós sabemos que o homem é falível, e que portanto pode, ainda que contra a sua vontade, fazer uma suspeita ou um juízo infundado. Mas se daí se devesse deduzir que jamais devemos formular contra o próximo um juízo ou uma suspeita, erraríamos, como erraríamos se quiséssemos promover a abolição de todos os tribunais e todas as penas, porque os tribunais se podem enganar e as penas podem eventualmente ser injustas.
Ao formar a respeito do próximo nossas impressões, nossas suspeitas e nossas certezas, usemos sempre de cautela, a que normalmente somos obrigados em questões importantes. Isto posto, estejamos com a consciência tranqüila: não estaremos pecando.
* * *
Por que motivo o receio de julgamentos errados não pode servir de fundamento para que se pleiteie a abolição dos tribunais? A razão é evidente. A supressão dos tribunais daria lugar a injustiças e crimes mil vezes mais numerosos e mais lamentáveis do que uma ou outra injustiça inevitável no funcionamento de qualquer tribunal humano. Isto posto, é no interesse da própria justiça que se deve o homem conformar com um regime judiciário que, falível como tudo que é humano, de quando em vez sacrifica involuntariamente algum inocente.
Este princípio pode ser perfeitamente aplicado ao assunto de que tratamos neste artigo. Qualquer indivíduo que, de medo de formar suspeitas infundadas a respeito dos outros, mantivesse seu juízo perpetuamente em suspenso, causaria males certamente maiores do que os que decorreriam de um uso criterioso de suas luzes naturais. Demonstramo-lo no último artigo. O pai que tivesse receio de formar juízo temerário acerca de seus filhos, procurando observá-los e discernir neles os primeiros sintomas de alguma crise moral, prejudicaria muito e muito mais seus filhos com isto, do que se, involuntariamente, fizesse algum dia uma suspeita infundada, que a falibilidade humana sempre pode deixar passar. Um chefe de empresa econômica, que deixasse de dar a devida atenção a perigosos indícios de desonestidade de seus sócios ou empregados, por medo de fazer uma suspeita temerária, estaria agindo de modo sumamente incorreto. Um político, um diplomata, um professor, um advogado, um diretor de consciências, um apóstolo leigo, que deixassem de dar o devido valor aos indícios desfavoráveis que pudessem notar nas pessoas com quem tratam, seriam certamente muito mais perigosos em determinadas circunstâncias do que inimigos declarados da Religião, da família, dos interesses dos clientes, dos alunos, etc., etc.
A esse respeito, não me posso furtar de narrar uma interessante reflexão do saudoso e grande Dom Duarte. Disse-me certa vez aquele santo e imortal Prelado que “preferia lidar com um canalha do que com um burro” - conservo textualmente a expressão. E acrescentava: “Um canalha inteligente, se jogarmos com ele com inteligência, poderá por nós ser reduzido à inocuidade; mas um burro que dá coices a torto e a direito, o que não se poderá recear dele?” Quem não vê o pleno cabimento desta reflexão do grande e santo Bispo?
* * *
Chegamos ao âmago de nosso assunto. Andam erradamente, e muito erradamente, os que dizem que não querem formar juízos ou suspeitas sobre os outros, porque a tal não têm direito. Distingo. É inconveniente que andemos a fiscalizar as pessoas cuja conduta não se encontra sob o raio de nossa autoridade. Mas que sejamos obrigados a não formar impressões sobre aquilo que naturalmente nos salta aos olhos, na vida de todo o dia, quem ousará sustentá-lo? Quem não percebe que se trata aí de um processo de imbecilização que acaba por ferir os próprios princípios de Fé e de moral? Com efeito, um homem de caráter firme e varonil sente uma dissonância interior cada vez que nota que, em torno de si, as coisas se passam de modo contrário à glória de Deus, à exaltação da Santa Igreja, e da doutrina católica. Deixar de formar juízo sobre o que é evidente, deixar de ouvir o clamor dos indícios veementes, ou é imbecilidade ou fraqueza de princípios. Não há por onde escapar.
Assim, formar juízo e formar suspeitas, quando isto é dirigido pelas virtudes cardeais, e não se orienta pela ação de qualquer inclinação viciosa, é virtude e alta virtude. E deixar de formar juízo ou suspeita quando o caso se apresenta, pode ser defeito, e grave defeito.
* * *
Liricamente, muita gente costuma sustentar que “isto compete à autoridade, e como não tenho autoridade, posso dispensar-me dessa tarefa ingrata”. E muito tolo comentará de si para si “que coração generoso é esse, como lhe dói ver a maldade do próximo”. Certamente, há muita generosidade em doer-se alguém da perfídia do próximo. Mas haverá generosidade em fechar os olhos à evidência, para não sentir essa dor? Ah, como os Santos abriram e até escancararam os olhos a essas dolorosas evidências! Como lhes cortava o coração ver a malícia, a ingratidão, a perfídia, a lascívia dos homens! Quantos juízos encontramos, nas obras dos Santos, juízos severíssimos e tremendos, não só a respeito de um ou outro indivíduo nominalmente considerado, mas ainda a respeito de cidades, povos e países inteiros! Os Santos se doíam, mais do que ninguém, dessa realidade. Mas em vez de lhe fechar estupidamente os olhos, abriam pelo contrário os olhos para as misérias da terra e o coração para o Céu, em magníficos atos de reparação e desagravo a Deus. Como está longe da conduta dos Santos certo romantismo piegas com que tantas vezes nos defrontamos na vida! E como dói ver que essa estupidez romântica vem pregada em nome do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando Nosso Senhor Jesus Cristo chamou os fariseus sepulcros caiados, o que fez senão juízo? E quando aconselhou que tomássemos cuidado com os falsos profetas e os lobos metidos em pele de ovelha, o que fez senão impor-nos à suspeita como importantíssimo meio para a nossa salvação?
Uma vítima da revolução francesa, passando por sob a estátua da liberdade, teve a exclamação famosa: “Ó liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome”. Com quanto direito poderíamos dizer por nossa vez: “Ó caridade, quanta sandice e quanto crime em teu nome se tem praticado”.
* * *
Mas, sobretudo, o que importa notar é que um observador sagaz não se improvisa. Que espécie de autoridade será quem esteve de tapa-olhos, ininterruptamente, durante todo o tempo em que foi súdito? Não é porventura quando se é súdito que se deve adquirir as qualidades de um chefe? A tal ponto é isto verdade, que todos os exércitos e todas as engrenagens das empresas comerciais, etc., têm sua linha fixa de promoções. Não valerá isto para nós? Ingênuos como crianças de berço até o dia em que não cai sobre os ombros uma função de responsabilidade, o que faremos quando depender de nós a defesa dos mais importantes interesses espirituais ou temporais, contra os lobos disfarçados na pele da ovelha?
Decididamente, renunciemos a toda esta pieguice. Ela só serve para prejudicar a Igreja, dando a entender que a descrição que seus adversários fazem do “carola”, tipo imbecil de um sentimentalismo romântico e estúpido, é produto genuíno de seu espírito. Sursum corda. Corações ao alto. Pieguismo não é bondade. Estupidez não é generosidade. Inocentes como as pombas, nem por isto deixemos de ser astutos com as serpentes. É Nosso Senhor que, em termos expressos, no-lo impõe. Queremos porventura ser melhores do que Ele?”

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Estudos realizados em gêmeos idênticos provam que o homossexualismo não é genético

“Oito grandes estudos realizados em gêmeos idênticos na Áustria, nos Estados Unidos e na Escandinávia durante as últimas duas décadas chegam todos a uma mesma conclusão: os gays não nascem assim.
“Na melhor das hipóteses, a genética é um fator menor”, diz o Dr. Neil Whitehead, PhD. Whitehead trabalhou para o governo da Nova Zelândia como um pesquisador científico durante 24 anos, e então passou quatro anos trabalhando para as Nações Unidas e para a Agência Internacional de Energia Atômica. Atualmente ele trabalha em universidades japonesas como um consultor sobre os efeitos da exposição à radiação. Ele possui PhD em bioquímica e estatística.
Gêmeos idênticos possuem os mesmos genes ou o mesmo DNA. Desenvolvem-se no ventre materno em condições pré-natais iguais. Se a homossexualidade é causada por condições genéticas ou pré-natais e um dos gêmeos é gay, então o seu irmão também deveria ser gay.
“Como eles possuem o DNA idêntico, [a taxa de casos em que ambos os gêmeos são gays] deveria ser de 100%”, observa o Dr. Whitehead. Mas os estudos revelam algo diferente. “Se um gêmeo idêntico apresenta atração por pessoas de mesmo sexo, as chances de que seu irmão também apresente são de aproximadamente 11% para homens e 14% para mulheres.”
Como os gêmeos idênticos são sempre geneticamente idênticos, a homossexualidade não pode ser geneticamente ditada. “Ninguém nasce gay”, ele observa. “Os fatores predominantes que criam a homossexualidade em um gêmeo idêntico mas não criam no outro têm que ser causados após o nascimento.”
O Dr. Whitehead acredita que a atração pelo mesmo sexo é causada por “fatores não compartilhados”, coisas que acontecem com um dos gêmeos mas que não acontecem com o outro, ou alguma resposta pessoal a um evento dada por um dos gêmeos mas não dada pelo outro.
Por exemplo, um dos gêmeos pode ter sido exposto a pornografia ou abuso sexual, mas o outro não. Um gêmeo pode se comportar ou responder de uma maneira diferente aos ambientes familiares e escolares do que o outro. “Essas respostas individuais e idiossincráticas a eventos aleatórios e a fatores ambientais comuns predominam”, ele diz.
O primeiro estudo grande e confiável com gêmeos idênticos foi conduzido em 1991 na Austrália, seguido por um grande estudo nos Estados Unidos em 1997. Depois a Austrália e os Estados Unidos conduziram mais estudos com gêmeos nos anos 2000, seguidos por vários estudos na Escandinávia, de acordo com o Dr. Whitehead.
“Os registros de gêmeos são a base para os estudos mais recentes. Atualmente estes registros são grandes e eles existem em muitos países. Está sendo organizado um registro europeu gigante, com uma projeção de 600.000 membros, mas um dos maiores registros em uso atualmente se encontra na Austrália, com mais de 25.000 gêmeos em sua base de dados.”
Um estudo significativo com gêmeos adolescentes, mostra uma correlação genética ainda mais fraca. Em 2002, Bearman e Brueckman estudaram dezenas de milhares de estudantes adolescentes nos Estados Unidos. A concordância na atração pelo mesmo sexo entre os gêmeos idênticos era de apenas 7,7% para os garotos e de 5,3% para as garotas – abaixo dos 11% e dos 14% apresentados no estudo australiano de Bailey et al conduzido em 2000.
O Dr. Whitehead têm ficado impressionado por quão fluida e mutável a orientação sexual tem se mostrado nos estudos com gêmeos idênticos.
“Pesquisas acadêmicas neutras mostram uma mudança substancial. Aproximadamente metade da população homossexual/bissexual (em um ambiente não-terapêutico) passa a se tornar heterossexual em algum período de sua vida. Cerca de 3% da população heterossexual atual alguma vez na vida já acreditou firmemente ser homossexual ou bissexual.”
“A orientação sexual não é firmemente estabelecida”, ele observa.
O que é ainda mais impressionante é que a maior parte das mudanças ocorre sem qualquer aconselhamento ou terapia. “Estas mudanças não são induzidas por terapia alguma, mas acontecem ‘naturalmente’ durante a vida, algumas delas muito rapidamente”, nota o Dr. Whitehead. “Muitas mudanças na orientação sexual são para a heterossexualidade exclusiva.”
O número de pessoas que mudaram para uma heterossexualidade exclusiva é maior do que o atual número combinado de bissexuais e homossexuais. Em outras palavras, existem mais ex-gays do que gays.
A fluidez é ainda mais pronunciada entre os adolescentes, como demonstrou o estudo de Bearman e Brueckner. “Eles descobriram que, dentre as pessoas que tiveram uma atração romântica por outra do mesmo sexo dos 16 aos 17 anos de idade, quase todas mudaram de atração um ano depois.”
“Os autores eram pró-gay e eles comentaram que os únicos estáveis eram os heterossexuais, que permaneciam com a mesma orientação sexual ano após ano. Os adolescentes são um caso especial – geralmente mudando sua atração sexual de ano em ano.”
Ainda assim, muitos equívocos persistem na cultura popular. Ou seja, o equívoco de que a homossexualidade é genética – tão estabelecida na identidade de alguém que não pode ser mudada. “Os acadêmicos que trabalham no ramo não estão felizes com a maneira pela qual os meios de comunicação abordam o assunto”, observa o Dr. Whitehead. “Mas eles preferem se manter em sua pesquisa acadêmica e não se envolver no lado ativista.”
(Mark Ellis, Identical Twin Studies Prove Homosexuality is Not Genetic)

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Roberto de Mattei: Um Papa violento?


“Contra a evidência, pouco se pode argumentar. A mão estendida pelo papa Bergoglio à Fraternidade São Pio X é a mesma que cai nestes dias sobre a Ordem de Malta e sobre os Franciscanos da Imaculada.
O assunto da Ordem de Malta foi concluído com a rendição incondicional do Grande Mestre e a volta ao poder de Albrecht von Boeslager e do poderoso grupo alemão que ele representa.
Ricardo Cascioli resume a questão nestes termos em A Nova Bússola cotidiana: O responsável pela deriva moral da Ordem foi reabilitado, e despediram quem tentou detê-lo.
O ocorrido supõe um desprezo total pela soberania da Ordem, como se depreende da carta dirigida no passado 25 de janeiro pelo secretário de estado vaticano Pietro Parolin aos membros do Soberano Conselho em nome do Santo Padre, com a qual a Santa Sé interveio de fato na Ordem.
Seria lógico que os outros cem estados que mantêm relações diplomáticas com a Ordem de Malta retirassem seus embaixadores, dado que podem manter relações diretas com o Vaticano, do qual já depende totalmente a Ordem.
O desprezo que manifesta o papa Francisco pela lei se estende do direito internacional ao direito civil italiano.
Um decreto da Congregação dos Religiosos com a aprovação do Papa impõe ao padre Stefano Maria Manelli, superior dos Franciscanos da Imaculada, a proibição de dirigir-se aos meios de comunicação ou falar em público, assim como de participar de qualquer iniciativa ou encontro. E sobretudo, “devolver no prazo de 15 dias a contar do recebimento do presente decreto o patrimônio econômico administrado por associações civis e qualquer outra quantidade a sua disposição de cada um dos institutos”. Quer dizer, devolver à Congregação dos Religiosos os bens patrimoniais dos quais, como afirmou o Tribunal de Apelação de Avellino, o padre Manelli não pode dispor porque pertencem a associações legalmente reconhecidas pelo Estado italiano.
“Em 2017, na Igreja da Misericórdia”, comenta Marco Tosatti, “só faltam tormentos como a garrucha e a máscara de ferro para que o catálogo esteja completo”.
Como se não bastasse, monsenhor Ramon C. Argüelles, arcebispo de Lima (Filipinas), teve notícia de sua destituição por um comunicado da Sala de Imprensa Vaticana.
Desconhecem-se os motivos de tal medida, mas se podem intuir: monsenhor Argüelles reconheceu canonicamente uma associação que agrupa ex-seminaristas dos Franciscanos da Imaculada que abandonaram a ordem a fim de poderem estudar e preparar-se para o sacerdócio com plena liberdade e independência. Trata-se de uma culpa, por tudo que se vê, imperdoável.
Surge a pergunta de se não será Francisco um papa violento, se entendemos bem o sentido da palavra. A violência não é a força exercida de modo cruento, mas a força aplicada de maneira ilegítima, menosprezando o direito, com vistas a alcançar os próprios fins.
O desejo de monsenhor Bernard Fellay de regularizar a situação canônica da Fraternidade São Pio X mediante um acordo que não prejudique de modo algum a identidade de seu instituto é certamente admirável, mas cabe a pergunta: é oportuno colocar-se sob a tutela de Roma precisamente no momento em que se despreza o direito, ou inclusive se o utiliza como um meio para reprimir a quem quer ser fiel à fé e à moral católicas?”

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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Um dos maiores protagonistas do Vaticano II confessa ter escondido sua vida homossexual


17 de Fevereiro, 2017 (LifeSiteNews) – Gregory Baum, 93, famoso ex-padre católico, revelou em seu último livro que secretamente viveu uma vida homossexual ativa por décadas.
Baum, que foi um peritus ou especialista no Concílio Vaticano Segundo, supostamente redigiu o primeiro esboço do documento conciliar Nostra aetate, a Declaração sobre a Relação da Igreja com Religiões Não-Cristãs. Baum defendeu a eliminação dos esforços da Igreja para encorajar os judeus a reconhecerem Cristo como o Messias e desde então tem-se envolvido com justiça social e a teologia da libertação.
O influente clérigo revela francamente em The Oil Has Not Run Dry: The Story of My Theological Pathway, “Não professei minha própria homossexualidade em público porque tal ato de honestidade teria reduzido minha influência enquanto teólogo crítico.” “Estava ansioso por ser ouvido como um teólogo confiante em Deus como salvator mundi e comprometido com justiça social, teologia da libertação e solidariedade global.”
Baum também foi influente na Igreja Católica no Canadá apesar de suas posições abertamente heréticas sobre a sexualidade, as quais ele publicou em diversos jornais. Sua dissidência pública da declaração da Igreja de 1968 mantendo a proibição da contracepção – Humanae Vitae – foi decisiva na própria dissidência dos bispos canadenses em relação à encíclica do Papa Paulo VI. Como escreveu o principal especialista sobre a dissidência dos bispos canadenses, Monsenhor Vicente Fox, “Se não fosse pela sombra negra de Baum sobre Winnipeg, sua influência sobre alguns bispos, teólogos canadenses e grupos de pressão, a Declaração de Winnipeg dos Bispos Canadenses sobre Humanae Vitae não teria se recusado a endossar o ensinamento da encíclica tal como aconteceu.”
Em seu novo livro, Baum escreve, “Eu tinha 40 anos de idade quando tive meu primeiro encontro sexual com um homem. Encontrei-me com ele em um restaurante em Londres. Aquilo foi excitante e ao mesmo tempo decepcionante, pois eu sabia o que era o amor e o que eu realmente queria era dividir minha vida com um parceiro.”
Ele diz que considerou renunciar ao sacerdócio mas não foi até o fim com a formalidade, preferindo anunciá-la em um jornal de tiragem nacional. Posteriormente casou-se com uma ex-freira divorciada de quem diz que “não se importou, quando nos mudamos para Montreal em 1986, que me encontrasse com Normand, um ex-padre, por quem me apaixonei.” Normand, ele explica, “é gay e acolheu minha afeição sexual.”
Dr. Michael Higgins, vice-presidente da Missão e Identidade Católica na Universidade do Sagrado Coração em Fairfield, Connecticut, em homenagem a Baum publicada na Commonweal em 2011, ressaltou seu papel pivotal durante o Concílio Vaticano II. “O concílio foi feito por Gregory Baum”, escreveu. “Ele trabalhou em várias funções nas comissões encarregadas de preparar documentos... Começando seu trabalho em novembro de 1960, concluiu-o com o final do concílio em dezembro de 1965, um aprendizado que culminou na redação do primeiro esboço de Nostra aetate.”
Pe. Thomas Rosica, um famoso padre canadense e hoje consultor para o Vaticano, recebeu Baum em uma controvertida participação no Centro Católico Newman da Universidade de Toronto em 1996 e em 2012 trouxe-o como convidado especial em seu programa na estação de TV católica canadense Salt and Light Television.
Pe. Rosica, durante a entrevista aduladora com Baum, professou ter conhecido Baum há bastante tempo. “Tenho certamente admirado bastante sua teologia, suas obras, mas também seu amor pela Igreja, seu amor por Cristo, e você ajudou a manter vivo não apenas o espírito do Vaticano II, mas também o autêntico ensinamento do Concílio”, disse o Pe. Rosica sobre Baum.
“Você continua sendo um católico profundamente devoto e fiel, amando Jesus, a Igreja, a Eucaristia”, acrescentou.
Monsenhor Foy, por outro lado, considera que Baum “fez mais do que qualquer pessoa para prejudicar a Igreja no Canadá.”

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Ex-espião da União Soviética: Nós criamos a Teologia da Libertação


“REDAÇÃO CENTRAL, 11 Mai. 15 / 12:06 pm (ACI).- Ion Mihai Pacepa foi general da polícia secreta da Romênia comunista antes de pedir demissão do seu cargo e fugir para os EUA no fim da década de 70. Considerado um dos maiores “detratores” de Moscou, Pacepa concedeu entrevista a ACI Digital e revelou a conexão entre a União Soviética e a Teologia da Libertação na América Latina. A seguir, os principais trechos da sua entrevista:
Em geral, você poderia dizer que a expansão da Teologia da Libertação teve algum tipo de conexão com a União Soviética?
Sim. Soube que a KGB teve uma relação com a Teologia da Libertação através do general soviético Aleksandr Sakharovsky, chefe do serviço de inteligência estrangeiro (razvedka) da Romênia comunista, que foi conselheiro e meu chefe até 1956, quando foi nomeado chefe do serviço de espionagem soviética, o PGU1; Ele manteve o cargo durante 15 anos, um recorde sem precedentes.
Em 26 de outubro de 1959, Sakharovsky e seu novo chefe, Nikita Khrushchev, chegaram à Romênia para as chamadas “férias de seis dias de Khrushchev”. Ele nunca tinha tomado um período tão longo de férias no exterior, nem foi sua estadia na Romênia realmente umas férias.
Khrushchev queria ser reconhecido na história como o líder soviético que exportou o comunismo à América Central e à América do Sul. A Romênia era o único país latino no bloco soviético e Khrushchev queria envolver os “líderes latinos” na sua nova guerra de “libertação”.
Eu investiguei sobre Sakharovsky, vi seus escritos, mas não pude encontrar nenhuma informação relevante sobre sua figura. Por quê?
Sakharovsky era uma imagem soviética dos anos quentes da Guerra Fria, quando os membros dos governos britânico e israelense ainda não conheciam a identidade dos líderes do Mossad e do MI-6. Mas Sakharovsky desempenhou um papel extremamente importante na construção da história da Guerra Fria. Ele ocasionou a exportação do comunismo a Cuba (1958-1961); ele manipulou de maneira perversa a crise de Berlim (1958-1961) criou o Muro de Berlim; a crise dos mísseis cubanos (1962) e colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear.
A Teologia da Libertação foi de alguma maneira um movimento ‘criado’ pela KGB de Sakharovsky ou foi um movimento existente que foi exacerbado pela URSS?
O movimento nasceu na KGB e teve um nome inventado pela KGB: Teologia da Libertação. Durante esses anos, a KGB teve uma tendência pelos movimentos de “Libertação”. O Exército de Libertação Nacional da Colômbia (FARC –sic–), criado pela KGB com a ajuda de Fidel Castro; o Exército de Libertação Nacional da Bolívia, criado pela KGB com o apoio de “Che” Guevara; e a Organização para Libertação da Palestina (OLP), criado pela KGB com ajuda de Yasser Arafat, são somente alguns movimentos de “Libertação” nascidos em Lubyanka – lugar dos quartéis-generais da KGB.
O nascimento da Teologia da Libertação em 1960 foi a tentativa de um grande e secreto “Programa de desinformação” (Party-State Dezinformatsiya Program), aprovado por Aleksandr Shelepin, presidente da KGB, e pelo membro do Politburo, Aleksey Kirichenko, que organizou as políticas internacionais do Partido Comunista.
Este programa demandou que a KGB guardasse um controle secreto sobre o Conselho Mundial das Igrejas (CMI), com sede em Genebra (Suíça), e o utilizasse como uma desculpa para transformar a Teologia da Libertação numa ferramenta revolucionária na América do Sul. O CMI foi a maior organização internacional de fiéis depois do Vaticano, representando 550 milhões de cristãos de várias denominações em 120 países.
O nascimento de um novo movimento religioso é um evento histórico. Como foi construído este novo movimento religioso?
A KGB começou construindo uma organização religiosa internacional intermédia chamada “Conferência Cristã pela Paz”, cujo quartel general estava em Praga. Sua principal tarefa era levar a Teologia da Libertação ao mundo real. A nova Conferência Cristã pela Paz foi dirigida pela KGB e estava subordinada ao respeitável Conselho Mundial da Paz, outra criação da KGB, fundada em 1949, com seu quartel geral também em Praga.
Durante meus anos como líder da comunidade de inteligência do bloco soviético, dirigi as operações romenas do Conselho Mundial da Paz (CMP). Era estritamente KGB. A maioria dos empregados do CMP eram oficiais de inteligência soviéticos acobertados. Suas duas publicações em francês, “Nouvelles perspectives” e “Courier da Paix”, estavam também dirigidas pelos membros infiltrados da KGB –e da romena DIE2–. Inclusive o dinheiro para o orçamento da CMP chegava de Moscou, entregue pela KGB em dólares, em dinheiro lavado para ocultar sua origem soviética. Em 1989, quando a URSS estava à beira do colapso, o CMP admitiu publicamente que 90 por cento do seu dinheiro chegava através da KGB3.
Como começou a Teologia da Libertação?
Eu não estava propriamente envolvido na criação da Teologia da Libertação. Eu soube através de Sakharovsky, entretanto, que em 1968 a Conferência Cristã pela Paz criada pela KGB, apoiada em todo mundo pelo Conselho Mundial da Paz, foi capaz de manipular um grupo de bispos sul-americanos da esquerda dentro da Conferência de Bispos Latino-americanos em Medellín (Colômbia).
O trabalho oficial da Conferência era diminuir a pobreza. Seu objetivo não declarado foi reconhecer um novo movimento religioso motivando os pobres a rebelar-se contra a “violência institucionalizada da pobreza”, e recomendar o novo movimento ao Conselho Mundial das Igrejas para sua aprovação oficial. A Conferência de Medellín alcançou ambos objetivos. Também comprou o nome nascido da KGB “Teologia da Libertação”.
A Teologia da Libertação teve líderes importantes, alguns deles famosas figuras “pastorais” e alguns intelectuais. Sabe se houve alguma participação do bloco soviético na promoção da imagem pessoal ou dos escritos destas personalidades? Alguma ligação específica com os bispos Sergio Mendes Arceo do México ou Helder Câmara do Brasil? Alguma possível conexão direta com teólogos da Libertação como Leonardo Boff, Frei Betto, Henry Camacho ou Gustavo Gutiérrez?
Tenho boas razões para suspeitar que havia uma conexão orgânica entre a KGB e alguns desses líderes promotores da Teologia da Libertação, mas não tenho evidência para comprová-la. Nos últimos 15 anos que morei na Romênia (1963-1978), dirigi a espionagem científica e tecnológica do país, e também as operações de desinformação destinadas a aumentar a importância de Ceausescu no Ocidente.
Recentemente vi o livro de Gutiérrez “Teologia da Libertação: Perspectivas” (1971) e tive a intuição de que este livro foi escrito em Lubyanka. Não surpreende que ele seja considerado agora como o fundador da Teologia da Libertação. Porém, da intuição aos fatos, entretanto, há um longo caminho.”

http://www.acidigital.com

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O liberalismo é pecado


Entrevista com Javier Barraycoa, politólogo e sociólogo catalão.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Uma montanha de mentiras


“A comemoração do septuagésimo aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial veio assentada, como não podia ser de outro modo, sobre uma montanha de mentiras e boatarias que voltam a nos confirmar que vivemos em um mundo incapacitado para qualquer regeneração; pois ali onde não há arrependimento, senão complacência no erro, só podem brotar frutos podres e venenosos. Com razão escrevia Georges Bernanos que “democracias e totalitarismos são os abscessos frios e os abscessos quentes de uma civilização degradada e desespiritualizada”.
Não poderíamos enumerar em um exíguo espaço de um artigo a ingente quantidade de mentiras que nestes dias são celebradas. Assim, por exemplo, trata-se de apresentar a derrota de Hitler como uma façanha das democracias aliadas, quando o certo é que a Hitler derrotou Stalin; e que só o desmoronamento da frente do Leste, conseguido em troca de uma mortandade incalculável de russos, favoreceu operações como o desembarque na Normandia, que o cinema depois magnificou de forma grotesca. Foi Stalin o grande vencedor daquela guerra; e em reconhecimento de sua vitória as democracias aliadas lhe entregaram meia Europa na Conferência de Yalta, para que fizesse com ela o que lhe desse na gana, como efetivamente fez.
Em troca, as democracias aliadas conseguiram que nunca se julgassem seus métodos de "libertação", consistentes em arrasar cidades até não deixar pedra sobre pedra e em bombardear populações civis do modo mais selvagem. Costuma-se recordar o caso extremo de Dresden (onde lançaram bombas de fósforo e napalm pelo gosto de aniquilar vidas inocentes), mas algo muito semelhante se fez com a maioria das cidades alemãs. E, depois deste genocídio indiscriminado, centenas de milhares de mulheres foram violadas pelos "libertadores"; e não somente, por certo, pelos soldados do Exército Vermelho (como pretendeu a propaganda oficial), mas também pelo "amigo americano", que acolhia e protegia em seu Exército as alimárias mais descontroladas.
Porém nenhuma das descomunais mentiras que nestes dias celebramos resulta tão grotesca como pretender que a derrota de Hitler constituiu a derrota de sua ideologia criminosa. Pois a metafísica que iluminava aquela ideologia criminosa correria a refugiar-se, sob disfarce democrático e pacifista, no bando dos vencedores, onde hoje campeia orgulhosa, transformada em Nova Ordem Mundial. Foi, com efeito, a Nova Ordem Mundial que tornou realidade o sonho do nazismo; foi a Nova Ordem Mundial que impôs o paganismo eufórico e endeusador do homem, o desprezo da lei natural e divina, a confiança cega e idolátrica no progresso, o desejo pseudomessiânico de alcançar uma unidade universal de formigueiro, a exaltação do individualismo e por sua vez a deificação alienante da "vontade geral", o triunfo do igualitarismo que conduz os povos à servidão, a aversão às sociedades naturais (unidas por laços de sangue e espírito) e sua substituição por sociedades de massas, a imposição de uma moral estatal, a subministração de prazeres plebeus e direitos de braguilha que mantenham controladas as massas, enquanto se tornam mais e mais egoístas. Foi a Nova Ordem Mundial que consumou, enfim, o sonho hitlerista de uma civilização degradada e desespiritualizada.
Talvez seja este triunfo do nazismo sob disfarce democrático o que a Nova Ordem Mundial celebra com tanto alvoroço, enquanto permite que as massas cretinizadas festejem na montanha de mentiras que criou para sua diversão e lazer."
(Juan Manuel de Prada, Una Montaña de Mentiras)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Juan Vázquez de Mella: A batalha que se aproxima


“Uma das frases feitas e dos lugares comuns que servem de recheio nas dissertações e escritos dos modernos charlatães e sociólogos é, sem dúvida, a de que estamos em um período de transição. Os mesmos que repetem de contínuo a frase não compreendem seu verdadeiro sentido, e procuram traduzi-la de um modo fartamente otimista, supondo que com ela se quer indicar a mudança que se está operando no seio das sociedades entre o antigo regime cristão, fundado no direito católico, e o regime moderno, fundado no direito novo, entendendo por este a democracia individualista ou harmônica que se vai lentamente estabelecendo sobre os restos do antigo mundo, já carcomido e decrépito.
Porém, na realidade, por pouco que se medite e observe, é outra a transição que estamos presenciando e outro muito distinto o combate que se trava no mundo.
O liberalismo individualista e eclético, radical e doutrinário, foi indubitavelmente durante grande parte do século, e ainda o é para alguns espíritos retardatários, o supremo ideal que pugnava por entronizar-se nos povos, e que explicava com suas contendas a convulsão da sociedade moderna, período angustiosíssimo que terminaria de um modo feliz quando as novas idéias houvessem passado dos espíritos aos fatos e graças a elas Cristo descesse do altar para ceder o posto à razão emancipada do jugo de sua Cruz.
Mas ocorreu justamente o contrário do que esperavam os modernos redentores da Humanidade. O mundo por eles combatido foi ao chão na ordem política, mantendo-se firme na social, apesar das violentas acometidas e dos sacudimentos com que trataram de remover seus alicerces seculares. Contudo, a nova criação revolucionária, dando mostras da consistência e solidez do princípio racionalista que lhe serviu de pedestal, não chegou a celebrar o primeiro centenário sem que já apareça fendida toda a fábrica, rachados os muros e a ponto de desmoronar-se com estrépito, apesar de haver empregado a maior parte do tempo, não em acrescentar-lhe novas dependências, mas em eliminar a fachada e colocar no edifício andaimaria, a fim de que pudesse prolongar sua mísera existência, retardando o mais possível o descrédito dos arquitetos. Tudo foi em vão. O edifício político e econômico aí está arruinando-se, como todos os edifícios, a partir do telhado, que é o primeiro que se deteriora e se destrói.
Coisa verdadeiramente notável! A revolução política termina sua evolução precisamente no momento em que começa a espalhar-se por toda parte seu descrédito. Dir-se-ia que Deus esperava que os trabalhadores da nova babel lançassem o primeiro grito de júbilo ao ver o adiantado de sua obra, para castigar sua soberba mostrando-lhes o estéril e miserável da empresa de que se orgulhavam.
Liberdade de pensamento e de palavra contra o dever de absoluta dependência que liga o homem a Deus; soberania individual e coletiva contra a natural subordinação do súdito à autoridade legítima; liberdade econômica contra a relação de caridade e justiça que liga os fortes e poderosos aos débeis e pobres; todas as liberdades revolucionárias estão aí de corpo presente, demonstrando-nos com seus desastrosos efeitos a aberração do princípio que as alimenta.
A luta de seitas, escolas e partidos, desgarrando os espíritos e acendendo a guerra nas inteligências e nos corações; a série interminável de oligarquias que com nomes diversos fazem passar sua vontade tirânica pela que se supunha que havia de brotar da massa social, e, por último, a multidão trabalhadora, que diz a seus libertadores que lhe devolvam a antiga regulamentação, porque tanta liberdade liberal a estrangula com o garrote da miséria; tudo isso constitui o grande processo da revolução, dando-se a morte com a picareta com que se havia proposto não deixar em seu lugar uma só pedra do antigo castelo, cuja beleza e majestade nem sequer quis compreender.
Não é, portanto, o mundo cristão o que se derruba para que sobre seus escombros se alce o paganismo restaurado.
A idéia católica, apesar de todas as propagandas revolucionárias, continua sendo a seiva da qual todavia recebem as nações a vida que lhes resta. Se perdeu seu influxo nos Estados, ainda conserva a divina virtualidade para voltar a exercê-la em tempo não distante com a mesma eficácia de outros séculos. O que cai e desmorona é o edifício liberal, apenas levantado.
Uma nova ordem social e econômica, que em tudo que contém de bom é a reprodução do antigo regime cristão, e que em tudo que contém de mal, que é muito, é a exageração do princípio liberal, cujos efeitos trata de evitar, é o que agora se levanta. A revolução liberal política desaparece, e vai-se começar a social. Seu triunfo será mais efêmero que a primeira, mas não o será o ensinamento que a sociedade deduzirá da catástrofe, porque o dia em que se exponha a última conseqüência social da revolução será o primeiro dia da verdadeira restauração cristã da sociedade.
Na nova luta, os liberalismos individualistas e ecléticos serão afastados pelos combatentes com desprezo, para que ambos adversários possam dirimir sem estorvos nauseantes a suprema questão. E é preciso estarem cegos para não verem que os novos e únicos contendentes serão o verdadeiro socialismo católico da Igreja, que proclama a escravidão voluntária da caridade e o sacrifício, e o socialismo ateu da Revolução, que afirma a escravidão pela força e a tirania do Deus Estado.”