domingo, 30 de outubro de 2016

Russell Kirk: Preconceitos


“Assim como eu e os milhares de leitores de minha coluna diária, todos possuímos preconceitos. Isso nem é de todo uma desgraça. Alguns de nossos preconceitos são tolos e, talvez, perniciosos, mas outros são, simplesmente, as regras necessárias pelas quais vivemos.
“Pré-conceito” significa pré-julgamento: ou seja, decisões a que chegamos rapidamente sem ter de pesar muito as provas. Assim, se os “pré-conceitos” que temos são sensatos ou insensatos, dependerá das fontes de nossas crenças e de nossas preferências mais arraigadas.
É claro que uma pessoa pode nutrir preconceitos tolos a respeito do tom da pele ou dos cabelos de outro ser humano ou sobre a natureza de sua religião. Mas também é verdade, como escreveu Edmund Burke (1729-1797), que por um sábio preconceito a virtude se torne hábito.
Dessa maneira, povos de inclinações saudáveis e de instrução moral decente alimentam um preconceito a respeito do assassinato. Quando ouvimos que foi cometido um homicídio, reagimos a partir de nossos pré-conceitos — e é justo que o façamos. Não perguntamos se o homem assassinado era bom ou se o assassino tinha boas maneiras, ou (supondo que sintamos como se estivéssemos desferindo o derradeiro golpe) podemos conseguir escapar sem sermos notados. Diferente da personagem principal do romance de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), “O Idiota”, não pesamos racionalmente os aspectos benéficos e nocivos de um determinado assassinato para então decidir se iremos eliminar outra vida humana.
Ao contrário, simplesmente obedecemos ao mandamento “Não matarás”, caso sejamos pessoas normais. Ao tomarmos conhecimento de um assassinato, decidimos que independente das circunstâncias particulares, o assassinato é mau e que a justiça deve ser feita. Um preconceito sensato, adquirido desde cedo na vida, nos informa que o assassinato é algo proibido e que não deve ser tolerado por sentimentalismos.
Igualmente, somos capazes de manter uma decente ordem social civil porque a maioria de nós age com base em sábios preconceitos sobre roubo, crueldade e fraude. Não temos de titubear e tentar ponderar as possíveis perdas e ganhos que encerram atividades como a trapaça ou o espancamento do próximo. Se somos bons, a maioria das pessoas é boa por ter hábitos morais. Não temos de realizar uma espécie de cálculo todas as vezes em que somos compelidos a tomar uma decisão moral.
Instilamos, deliberadamente, preconceitos desejáveis desde o início da vida — por exemplo, no ato de dar umas palmadas caso nossos meninos persistam em chutar as canelas de outros meninos. Pais prudentes, de modo acertado, criam suas crianças com preconceitos a respeito de pequenos furtos em lojas, de estilhaçar janelas e de atormentar os cães. Não ensinam aos seus rebentos a perguntar: “Será que alguém vai me assistir torturando aquele cãozinho?”ou “Não seria mais divertido que perigoso dar um jato d’água na Sally?”
Permitam-me acrescentar que pais saudáveis também tentam manter os filhos livres de falsos preconceitos. É uma questão de discriminação precoce, mas criar alguém completamente sem preconceito é educar de modo indeciso e totalmente imoral. Não é errado ser preconceituoso com trapaceiros, mentirosos, fanáticos e demagogos.”

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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Bergoglio e Lutero


“Dentro de poucos dias o papa Bergoglio irá à Suécia participar das comemorações do quinto centenário da revolução luterana.
O gesto do pontífice, embora não nos surpreenda, não deixa de desconcertar-nos. Não nos surpreende porque seu predecessor João Paulo II agia nessa direção, tendo mandado depositar flores na campa do heresiarca, e os teólogos da Nouvelle Theologie, condenados por Pio XII e reabilitados após o Vaticano II, não escondiam sua admiração pelo falso reformador, monge crapuloso, comilão e beberrão, inventor da máquina de genocídio do mundo moderno. Não nos surpreende porque na nova religião há quem chegue a manifestar, senão simpatia, ao menos compreensão por Judas Iscariotes, dizendo que ninguém pode julgá-lo, num esforço vão de inocentar o filho da perdição.
Entretanto, o gesto de Bergoglio nos desconcerta porque de um papa, principalmente em se tratando de um filho de Santo Inácio de Loyola, queríamos poder esperar que seguisse o exemplo de seus irmãos maiores São Roberto Belarmino, São Pedro Canísio e tantos outros gloriosos santos jesuítas.
Com efeito, no quinto centenário da falsa reforma luterana, os católicos tínhamos o direito de esperar que o papa renovasse as condenações de Leão X e do Concílio de Trento contra os erros dos pseudo-reformadores e exortasse os hereges de hoje, herdeiros dos erros do século XVI, a abjurar suas doutrinas heréticas e a voltar para o seio da única Igreja de Cristo.
Tínhamos igualmente o direito de ver a Igreja pronunciando um juízo sobre as  consequências históricas das heresias do século XVI, como o faziam os bons manuais de apologia de antes do Vaticano II (por exemplo, o excelente manual de mons. Cauly). De fato, se cumpre pronunciar-se sobre a terrível efeméride, não se esqueçam as vítimas dos monstruosos hereges. Foram tantos os mártires católicos, foram tantos, também, os pobres camponeses alemães enganados por Lutero e depois esmagados brutalmente numa carnificina horrenda por ordem do mesmo heresiarca.
Realmente, parece que hoje se dá no plano religioso-ecumênico a mesma demagogia que se observa no noticiário policial: não faltam palavras de compaixão pelo bandido e nenhuma palavra de solidariedade pela família da vítima. Sobram palavras de compreensão para os desmandos, blasfêmias e imoralidades de Martinho Lutero e não se diz uma palavra em defesa da Roma dos papas, que Lutero chamava Sinagoga de Satanás e Trono do Anticristo.
No balanço histórico dessa negra efeméride poderia ocupar um lugar de destaque a rainha Maria Stuart da Escócia, outra vítima dos hereges fanáticos do século XVI. A vida dessa rainha infeliz, além de ilustrar perfeitamente a diferença entre a mentalidade católica e a mentalidade protestante, lança uma luz admirável sobre a verdadeira misericórdia divina, tal como a entendeu sempre a Igreja. Lança também uma luz sobre o que seja o verdadeiro ecumenismo. Como se sabe, Maria Stuart, depois de ter cometido vários erros graves em sua vida, caiu em desgraça nas mãos da sua prima degenerada rainha “virgem” e histérica Isabel da Inglaterra. Acusada de uma falsa conspiração forjada pelos protestantes, foi obrigada a comparecer diante de um simulacro de tribunal e condenada à morte por uma sentença iníqua de sua prima herege. Proibida de receber os últimos sacramentos de um sacerdote católico, recusou-se a receber qualquer assistência de um ministro herético e morreu santamente como uma princesa católica.
O filho de Maria Stuart, rei Jaime I da Inglaterra (Jaime VI da Escócia), um demente que participou de toda maquinação do regicídio da própria mãe, poderia ser considerado patrono do ecumenismo dos nossos dias. Com efeito, o celerado monarca, que tinha pretensão de ser teólogo, mandou sepultar o corpo de sua mãe católica na cripta dos reis da Inglaterra na abadia de Westminster e esculpir uma estátua dela ao lado da estátua da megera Isabel I (Quando na verdade Maria Stuart tinha disposto em seu testamento que queria ser sepultada na França católica, da qual fora rainha, junto ao jazigo de sua mãe Maria de Guise).
De fato, o gesto de Jaime I, pondo lado a lado as estátuas da perversa protestante Isabel e da infortunada rainha Maria Stuart, parece reproduzido hoje no século XXI quando a orgia de um falso ecumenismo emascula o sacerdócio, corrompe a doutrina sagrada e provoca a ira divina.”

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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Gustave Thibon: Revolta, a dominante de nossa época


“Existem, nas idéias e nos costumes, dominantes que são peculiares a cada época — como, por exemplo, a libertinagem durante a Regência, o culto da Razão no tempo do humanismo, a apologia da sensibilidade e do irracional no século do romantismo etc. Ora, uma das dominantes de nossa época é a revolta, em todos os domínios, contra os valores tradicionais; revolta que se traduz pela exaltação e prática da violência.
Esse fenômeno se observa em todas as ordens do humano e do social.
Na ordem da amizade, por exemplo. Em muitos meios, a amizade degenerou em camaradagem vulgar e brutal. A integração na turma (e tal palavra não significa necessariamente uma associação de malfeitores) substitui a intimidade entre as pessoas e o intercâmbio de idéias e sentimentos. Ora, a turma busca muito freqüentemente distrações e aventuras mais ou menos sofisticadas de agressividade, e essa violência se multiplica em virtude do gregarismo. O aumento da delinqüência juvenil (blusões pretos ou amarelos) prende-se a essa corrupção do vínculo social. Um fenômeno tipicamente moderno é o dos delitos coletivos cuja multiplicação causa apreensão aos criminologistas. Até no vício e no crime, observa-se essa absorção do indivíduo pela turma…
No plano da sexualidade, muitos jovens se presumem insensíveis, “libertos”, e desprezam indistintamente não apenas a exaltação romântica ou o sentimentalismo sem graça das épocas precedentes, como também tudo o que se relaciona com a ternura ou com o ideal. O coração e a alma afiguram-se-lhes anacronismos e as relações sexuais reduzem-se, para eles, a “conjunções carnais” sem amor e sem mistério ou a manifestações elementares do desejo de potência. Seu ideal é o do macho, não o do amoroso. Observa-se evolução análoga entre certo número de moças cínicas e desavergonhadas, para as quais a rejeição incondicionada dos preconceitos substitui e suprime toda reflexão.
O entusiasmo pelos esportes brutais e perigosos (praticados freqüentemente sem preparação e sem prudência) provém do mesmo estado de espírito. Penso aqui nos riscos gratuitos que assumem — com inconcebível leviandade — tantos jovens “mordidos” pelo alpinismo, pela espeleologia, pela natação, pela navegação a vela, e também nos perigos mortais a que eles expõem seus eventuais salvadores. E nesse delírio de velocidade (a porcentagem dos acidentes causados por jovens é de uma cruel eloqüência) que viola (entre pessoas aliás inofensivas) o mandamento eterno: “não matarás”.
A moda artística e literária não escapa a essa falsa norma. Seu imperativo essencial é surpreender, chocar, desnudar, ultrapassar todo limite e infringir toda regra. Assistimos, em todos os domínios, ao desencadeamento da violência e da disformidade: danças selvagens, música epiléptica, cenas de histeria coletiva nas manifestações duma “vedette” da canção, sacrifício da palavra na poesia e da imagem e da cor na pintura, etc. Nem esqueçamos esse fenômeno sociológico sem precedente que constitui o sucesso sempre crescente da literatura policial e dos filmes de terror, nos quais os instintos sádicos que habitam o coração do homem encontram cada dia que passa novo alimento.”

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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Gustavo Corção: A vocação da mulher

“No meu tempo de rapaz houve uma época em que, cansado de estudar as crateras da lua e os anéis de Saturno, passei a interessar-me pela avicultura. E, como sempre misturei às coisas mais práticas um pouco de teoria, comecei por munir-me de um tratado. Ora, esse tratado que então adquiri, começava por essas inacreditáveis palavras: ‘A galinha e as aves domésticas em geral tanto podem ser cuidadas por um homem como por uma mulher’.
Naquele tempo o autor do tratado pareceu-me doido. Assentei comigo mesmo que o era, e que não oferecia grande segurança nos finos problemas de alimentação, do choco e da gosma, um livro que começava com tão colossal quão inútil distinção. Deixei o livro, e poucos meses depois deixei os ovos.
Hoje, entretanto, não sei por que misterioso trabalho da memória, voltou-me aquela primeira frase do avicultor e de repente, descobri-lhe a sabedoria que me escapara na mocidade. Ou então, usando da relatividade, eu diria que o deslocamento de tempo, a modificação das idéias e costumes, acabaram por transformar em sábio o que naquele tempo era insano.
Senão, vejamos. Dizia aquele autor que a galinha pode ser cuidada por um homem ou por uma mulher. Ora, quem diz isto, é porque sabe, e deixa subentendido, que há outras coisas outras atividades, em que não é indiferente o sexo. Ainda mais, o que parece hoje digno de nota naquele texto é o ar, digamos assim, de surpresa, de quase admiração com que o autor reconhece a existência de um gênero de atividade em que a mulher e o homem possam se desempenhar com igual proficiência. Em outras palavras, o que ele dizia lá no tratado de avicultura, podia ser formulado assim: «A mulher e o homem são terrivelmente diferentes; mas apesar disto podem ambos cuidar de galinhas».
É claro que a sabedoria que existe naquele texto, ou que eu porventura lhe empreste, está toda contida na primeira parte da proposição: a mulher e o homem são de fato diferentes. Ambos podem fazer certas coisas, como por exemplo criar galinhas, mas vou agora mais longe que aquele sutil avicultor, e começo a pensar que, mesmo nessa simples atividade, o homem e a mulher não terão o mesmo estilo em avicultura. Ao contrário, na menor das coisas que façam, ficará a marca dos dedos que a fizeram, e como a diferença do sexo vai até a ponta dos dedos, resulta que ficará na coisa cuidada a marca de quem cuidou, homem ou mulher.
O ponto onde quero chegar, com essas considerações que roçam pelo delírio, é o seguinte: devemos acentuar a diferença, ao menos como tática de argumentação, porque um dos vícios de nosso tempo consiste precisamente em procurar a simplificação da uniformidade. A desordem de nosso tempo consiste em tender para o amálgama, para o informe, para a massa, para a sociedade sem classe, para um mundo sem limites, para uma vida sem regras, para uma humanidade sem discriminações.
Ao contrário disto, a sociedade que desejamos construir é uma sociedade ricamente diferenciada, e nitidamente hierarquizada. Só é possível pintar um belo quadro porque o vermelho é diferente do azul; só é possível tocar uma bela música porque há certa consonância nos acordes de quinta e certa dissonância nos acordes de sétima. E só é possível uma bela e boa sociedade de homens se as diferenças de natureza forem levadas até suas últimas conseqüências: quando se admitir, por exemplo, no unânime consenso que a mulher e o homem são diferentes.
A tendência moderna é de atenuar as diferenças. Imaginem o que seria de nós se, por exemplo, os bombeiros hidráulicos resolvessem tornar-se, o mais possível, semelhantes aos avicultores; ou reciprocamente, se os avicultores tentassem trazer para os galinheiros a técnica da solda e do desentupimento. É claro que ao cabo de poucos meses não teríamos nem ovos nem água. Uma sociedade humana não pode dispensar o bombeiro hidráulico, nem o avicultor. Uma sociedade humana, passavelmente organizada, não pode sequer tolerar a idéia de que um cano de chumbo e um ovo sejam aproximadamente a mesma coisa.
Há circunstâncias muito especiais em que todas as pessoas de uma certa comunidade são chamadas a tarefas semelhantes. Nessas circunstâncias triunfa uma certa uniformidade. Trata-se, por exemplo, de um incêndio generalizado? Todos devem acorrer com mangueiras, extintores, areia. Trata-se agora de uma devastadora epidemia? Todos devem trazer sua contribuição de emergência para debelar o flagelo. Trata-se enfim de uma guerra? Todos devem oferecer seus préstimos para a mais breve e decisiva vitória.
Quanto mais nítido e mais próximo é o fim, mais homogênea se torna a necessária contribuição de todos. Mas mesmo nesses casos de fins próximos e nítidos, mesmo na fome, na peste e na guerra, a cooperação verdadeiramente eficaz tem o cunho de organicidade que se constitui pela unidade na diversidade. O concerto dos atos humanos só tem verdadeira ordem e harmonia quando realiza a união de coisas diversas. Vejam na guerra como é bom que existam homens com aptidões diferentes. Vejam no incêndio que os bombeiros, apesar dos uniformes, não são uniformes. Seus gestos, suas atitudes, seus instrumentos, variam tanto como se ali estivessem representando um feérico e harmonioso bailado do fogo. Vejam também na peste que os homens se dividem, tratando estes dos vivos enquanto aqueles cuidam dos mortos.
Ora, o funcionamento normal de uma sociedade, que inscreve todas as vidas e todos os problemas de todas as vidas, é mil vezes mais complexo do que o incêndio, a peste e a guerra, a normalidade é mais rica e mais difícil do que a anormalidade; e o problema social, nas mais intrincadas situações, deve ser tratado com os métodos, os resguardos, as atenções, a harmonia que a normalidade exige. Por isso, mais do que nas situações anômalas, o problema social dos tumultuosos tempos de paz devem ser conduzidos dentro do concerto das aptidões diferentes. E, quanto mais infantil for a criança, e quanto mais mulheril a mulher, e quanto mais varonil o homem, tanto melhor realizaremos em cada situação concreta a ordem, cambiante mas verdadeira, que é o fundamento da felicidade dos povos. O bem, a perfeição da sociedade, está na infantilidade da infância, na feminilidade da mulher, na masculinidade do homem.
O concurso que as mulheres têm trazido ultimamente, lamento dizê-lo, tem mais a marca da uniformidade do que o cunho autêntico da organicidade. Elas vieram ao nosso encontro. A última guerra viu mãos femininas nos tornos mecânicos e no controle dos aviões de bombardeio. E essa situação ainda continua. Elas vieram ao nosso encontro, mas o seu concurso tem sido apenas numérico, quantitativo, mecânico. Vieram ao nosso encontro como pessoas, como braços, como cabeças, mas não vieram como mulheres. O coro das vozes engrossou, mas não se tornou mais harmonioso. O conjunto de gestos se multiplicou, mas não se tornou mais ordenado. Vieram ao nosso encontro para fazer as mesmas coisas. Com os mesmos gestos.
E, se vieram fazer o que nós fazemos, é forçoso convir que se declararam derrotadas naquilo que as diferencia de nós. Se adotaram os nossos gestos, forçoso é convir que uma tal capitulação não merece, senão à custa de uma ginástica verbal, o nome de emancipação. Lembro aqui uma passagem de Chesterton em que ele dizia que o tigre pode emancipar-se das barras da jaula, mas não pode emancipar-se das barras da sua pele tigrina.
O mundo, com essa contribuição da mulher, arrisca-se ao mais terrível dos cataclismas: a ficar reforçado na quantidade, e mutilado na qualidade. Imaginem que pobre música seria aquela em que as flautas andassem constantemente uma oitava acima dos fagotes a lhes imitar todos os contornos melódicos. Seria justo falar na grande emancipação das flautas?
Pois o que eu quero dizer é que a famosa emancipação da mulher é qualquer coisa como andar sempre uma oitava acima de nossos timbres masculinos. Dizem as nossas mesmas frases, mas em falsete.”

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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Os novos legalistas de esquerda


"Comunistas escrevem suas perversas biografias por cima das páginas dos códigos legais. Para os militantes de esquerda radical em início de carreira, uma temporada na cadeia não é uma prisão, e sim uma vitrine. Enquanto o ordenamento jurídico da nação reflete os preceitos morais básicos, os costumes, os direitos por excelência, enfim, as bases da nacionalidade, os revolucionários descumprem as normas legais, cometem crimes, e acusam de autoritarismo os agentes estatais que, fazendo cumprir as leis do Estado Democrático de Direito, defendem a continuidade de sua existência. Para os militantes, violar todas as leis possíveis é uma virtude e uma obrigação, até que o Estado revolucionário seja uma realidade, quando ferrenhamente passam a agir como pretensos “legalistas”.
Estando devidamente implantado o regime, da maneira mais hipócrita possível os militantes criminosos de antanho, convertidos em tiranos ou lacaios dos mesmos, tornam-se os mais obstinados defensores da nova legalidade, a guardar com unhas, dentes e fuzis a tão sonhada legislação draconiana. Muitos daqueles que, no passado, detonaram bombas em locais públicos, assaltaram, seqüestraram, torturaram, mataram pelas costas, enfim, espalharam o caos, o ódio e a desordem e violaram as normas legais em nome da revolução, passam a ser fiscais de leis dotados de uma postura absurdamente pseudo-moralista, que (aos olhos dos ingênuos) até mascara suas origens subversivas.
No Brasil, como em qualquer outro país submetido a um processo revolucionário, os agentes do caos aplicam estas duas visões oportunistas sobre as Leis: violam as leis legítimas (as da ordem anterior) e exigem o estrito cumprimento das leis ilegítimas (as novas normas criadas pela e para a revolução). As leis revolucionárias, que contam com a promoção glamourosa de mídias controladas, artistas engajados, ativistas de esquerda, ongueiros e diversas outros matizes de servidores da tirania, tem seu cumprimento rigorosamente fiscalizado pelos mesmos bandidos que violavam Leis no tempo em que todas tinham como fundamentos os princípios básicos da civilização e serviam à manutenção da ordem democrática. Ou seja: nada pode ser mais hipócrita do que o atual legalismo dos esquerdistas radicais.
A hipocrisia é de fato a grande marca destes novos guardiões das leis (saliente-se, daquelas que lhes interessam). O Estatuto do Desarmamento, maior golpe contra a liberdade da população brasileira, foi arquitetado e promovido, assim como tem seu cumprimento fiscalizado, pelos mesmos agentes (ou herdeiros ideológicos dos mesmos) que, armados com fuzis e metralhadoras ilegais, atiravam em nome da revolução comunista. O Marco Civil da Internet, novo instrumento censurador da esquerda, partiu dos que outrora bradavam contra a “censura” enquanto trabalhavam ativamente para expandir o comunismo pela via cultural. A aprovação de leis que impõem restrições despóticas a liberdade de pensamento é defendida pelos mesmos que sempre a utilizaram indevidamente em seus discursos demagógicos. As leis de restrição a substâncias tradicionais da sociabilidade ocidental são arduamente defendidas pelos mesmos que labutam pela legalização das drogas pesadas produzidas e traficadas por parceiros da camaradagem socialista, e causadoras de destruição da sociedade. Tribunais de exceção, a serviço de terroristas de longa data que outrora pisavam nas verdadeiras leis, são constituídos para acusar, julgar e condenar de maneira parcial e arbitrária, embasados na legislação revolucionária. Enfim, a legalidade brasileira, em parte, tornou-se uma sarcástica palhaçada avalizada por falsos juristas. Um circo, onde os mesmos palhaços que pisoteiam as leis legítimas, fiscalizam o cumprimento das leis ilegítimas, com amplas e animadas platéias de canalhas e idiotas úteis a aplaudirem as palhaçadas.
As leis revolucionárias, obviamente, são em grande parte inconstitucionais, a exemplo da referida lei anti-armas. Não obstante, por todo o aparato que as promove e fiscaliza seu cumprimento, na prática, acabam se sobrepondo à Constituição Federal, criminosamente violada sem que o poder legitimado para defendê-la cumpra seu dever. Muitos tribunais da República, que deveriam observar estritamente a Carta Magna, não o fazem, e dão sucessivas demonstrações de seu comprometimento com a revolução comunista. Recentes julgamentos e suas respectivas decisões demonstram que as mais diversas cortes e os mais variados graus de jurisdição passam por cima da Constituição e da Lei Penal para beneficiar criminosos socialistas e todo o esquema de poder que eles integram e comandam.
No desenrolar deste tripúdio à Constituição Federal, às leis que nela tem fundamento e ao próprio Estado de Direito, os modernos (e falsos) legalistas ameaçam todos os que zelam pela ordem democrática constitucional, que já definha. O legalista de esquerda, que de maneira mais arrogante possível despeja ameaças de processo judicial em cima dos opositores da legalização dos absurdos, é uma figura típica nestes tempos de revolução no Brasil. Qualquer um que fuja dos estereótipos concebidos para o novo homem do “país de todos”, corre o perigo de ser acionado judicialmente em situações que outrora seriam irrelevantes para a Justiça.
Certos políticos já são experts na arte de espalhar ameaças de processo judicial a quem ouse afrontá-los, mesmo que dentro dos limites legais da liberdade de expressão e da imunidade parlamentar. Da mesma forma, militantes devidamente assessorados por advogados comprometidos com a mesma causa abjeta ficam atentos a toda e qualquer “violação” aos ditames radical-esquerdistas convertidos em lei, tal qual raposas na espreita de galinhas, a fim praticarem a nova modalidade de “terror” que assola o Brasil. Sua maior motivação são pescoços dissidentes rolando pelos tribunais, para que sirvam de exemplo aos demais reacionários, ou seja, a nós que ainda estamos vivos, “porque só um cadáver não reage aos vermes que o corroem”, de acordo com as sábias palavras de Georges Bernanos.
Deste processo de violação da ordem constitucional democrática e das leis que a refletem, e de criação de novas leis revolucionárias, processo este assegurado por falsos jurisconsultos e operadores do direito assumidamente ou dissimuladamente comunistas, nasceram estas figuras detestáveis que disseminam ameaças a quem ouse discordar de suas trampas e mentiras convertidas em legislação, ou pior ainda, denunciá-las publicamente.
Assim são os novos “legalistas” de esquerda: tipos hipócritas, farsantes e velhacos ao extremo. Seu lugar apropriado seria a lata de lixo, o esgoto da história. Mas, infelizmente, a tendência é que acabem sendo premiados com as cátedras das mais prestigiadas universidades do país."
(José Fighera Salgado, Leis & Hipócritas)

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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

ISIS e o suicídio do Ocidente


“Da decadência ao suicídio do Ocidente, quer dizer, do diagnóstico de Spengler ao de Solzhenitsyn deveram passar umas poucas décadas e umas quantas comprovações do agravar-se o quadro. O que nem o mais sombrio dos prognósticos ia prever é que o suicídio do Ocidente ocorreria não por mão própria, mas – com o maior dos cinismos – armando sicários de alheia estirpe para tal fim. Pondo entre as mãos de Mustafá a lâmina do açougueiro para depois oferecer-lhe a própria jugular, a dos próprios filhos e ainda a dos ancestrais, se fosse possível revivê-los.
Assim, e confirmando todos os rumores, por estes dias se difundiu a notícia que as forças de defesa iraquianas abateram dois aviões britânicos que jogavam armas para terroristas. Isto de alimentar o ISIS será uma tática de sutilíssimo maquiavelismo para manter o caos no Oriente Médio a fim de assegurar o negócio petroleiro, segundo dizem diversos especialistas, presunção apontada pela experiência da inescrupulosidade que permeia a política exterior dos EUA e da OTAN. Porém cabe notar, sem perda daquilo, que se trata de uma pirueta de extremo risco, uma dessas apostas que, devido à margem de imprevisibilidade de suas conseqüências (nem sempre mansamente redutíveis a coordenadas econômicas), assimilam o trapaceiro ao suicida.
Solzhenitsyn acertou ao assinalar o declive da coragem como o principal dos sintomas dessa morte anunciada do semimundo ocidental: “tal declínio da valentia se nota particularmente nas elites governantes e intelectuais e causa uma impressão de covardia em toda a sociedade [...] Burocratas, políticos e intelectuais mostram essa depressão, essa passividade e essa perplexidade em suas ações, em suas declarações e mais ainda em suas autojustificações tendentes a demonstrar quão realista, razoável, inteligente e até moralmente justificável resulta fundamentar políticas de Estado sobre a debilidade e a covardia. E esse declínio da valentia é acentuado ironicamente pelas explosões ocasionais de cólera e inflexibilidade de parte dos mesmos funcionários quando têm que tratar com governos débeis, com países que carecem de respaldo, ou com correntes desacreditadas, claramente incapazes de oferecer resistência alguma. Porém ficam mudos e paralisados quando têm que se ver com governos poderosos e forças ameaçadoras, com agressores e terroristas internacionais.” É a pegada que deixam no ânimo dois séculos de liberalismo. Faltou ao russo, contudo, colocar a carapuça na liderança vaticana, de fundilhos não menos sujos diante do perigo que os piores politiqueiros destes derradeiros momentos. Já pela terceira ou quarta vez desde que se desencadeou a crise com esses sanguinários se escutou, junto ao Tibre, a balada irenista indispensável: agora foi o Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, que não encontrou melhores paroline (palavrinhas) que as de “apoiar a intervenção na Líbia, mas sob o guarda-chuva da ONU.” Está claro que não são estes tempos de Cruzadas.
Os do ISIS reconhecem a deserção dos nossos e se embravecem ainda mais, como demônios. Não saciados de sangue, movidos por essa imbecil iconoclastia fomentada pelo Alcorão, que os fez um povo incapaz de autênticas realizações culturais, agora a empreendem contra o patrimônio escultórico da civilização suméria. Obra demoníaca se as há: à aniquilação do homem por decapitações massivas e televisadas agregam a aniquilação de todo rastro seu, da história, daquilo que o tempo esmagador e inapelável havia deixado respeitosamente em pé.”

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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Os verdadeiros males


"Vejo uma objeção a qualquer esforço para melhorar a condição humana: é que os homens são talvez indignos dele. Mas repilo-a sem dificuldade: enquanto o sonho de Calígula se mantiver irrealizável e todo o gênero humano se não reduzir a uma única cabeça oferecida ao cutelo, teremos que o tolerar, conter e utilizar para os nossos fins; sem dúvida que o nosso interesse será servi-lo. O meu processo baseava-se numa série de observações feitas desde há muito tempo em mim próprio: toda a explicação lúcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado. E nunca prestei grande atenção às pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem é exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, é como recusar a alimentação necessária a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de superabundância. Quando se tiver diminuído o mais possível as servidões inúteis, evitado as desgraças desnecessárias, continuará a haver sempre, para manter vivas as virtudes heróicas do homem, a longa série de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doenças incuráveis, o amor não correspondido, a amizade recusada ou traída, a mediocridade de uma vida menos vasta que os nossos projetos e mais enevoada que os nossos sonhos: todas as infelicidades causadas pela divina natureza das coisas."
(Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano)

sábado, 8 de outubro de 2016

Da invasão migratória à guerra civil


"Até os mais resistentes já começam a abrir os olhos. Existe um plano organizado para desestabilizar a Europa mediante a invasão migratória. Este projeto vem de longe. Desde os anos noventa, no livro 1900-2000. Due sogni si succedono: la costruzione, la distruzione (Fiducia, Roma 1990), descrevi este projeto com as palavras de alguns de seus apóstolos, como Umberto Eco e o cardeal Carlo Maria Martini.
Eco escrevia: "Atualmente na Europa não nos encontramos diante de um fenômeno de imigração. Assistimos a um fenômeno migratório (...) e como todas as grandes migrações terá como resultado final uma reordenação étnica dos países de destino, uma inexorável mudança de costumes, uma hibridação indetível que mudará estatisticamente a cor da pele, cabelo e olhos da população." Por sua parte, o cardeal Martini considerava necessária "uma seleção profética" para entender que "o processo migratório em ação desde um Sul cada vez mais pobre para um Norte cada vez mais rico é uma grande oportunidade ética e civil para uma renovação, para inverter o processo de decadência consumista que está na Europa Ocidental."
Nesta perspectiva de destruição criadora – comentava em meu ensaio - , "não seriam os imigrantes os que teriam que integrar-se na civilização européia mas, ao contrário, a Europa é que teria que se desintegrar e regenerar graças à influência das etnias que a ocupam (...) É o sonho de uma desordem criadora, de uma comoção semelhante à que infundiu nova vida no Ocidente na época das invasões bárbaras para gerar a sociedade policultural do futuro."
O plano consistia, e continua consistindo, em destruir os estados nacionais e suas raízes cristãs, não para construir um superestado, mas para criar um não-estado, um horrendo vazio no qual tudo que tenha aparência de verdadeiro, de bom ou de justo desapareça no abismo do caos. A pós-modernidade é isto: não é um projeto de construção, como foi a pseudocivilização nascida do humanismo e do iluminismo que desembocou mais tarde nos totalitarismos do século XX, mas uma utopia nova e diferente: a da desconstrução e tribalização da Europa. O fim do processo revolucionário que há tantos séculos agride nossa civilização é o niilismo, "o nada em armas", segundo a feliz expressão de monsenhor Jean-Joseph Balmes (1802-1879).
Passaram os anos e a utopia do caos se transformou no pesadelo que estamos vivendo. O projeto de desagregação da Europa, descrito por Alberto Carosa e Guido Vignelli em seu documentado estudo L’invasione silenziosa. L'”immigrazionismo”: risorsa o complotto? (Roma 2002), tornou-se um fenômeno de proporções épicas. Quem denunciava este projeto era rotulado de profeta de desgraças. Hoje nos dizem que se trata de um processo indetível. Que deve ser dirigido mas não se pode frear.
O mesmo se dizia do comunismo nos anos sessenta e oitenta, até que chegou a queda do muro de Berlim e demonstrou que na história nada é irreversível exceto a cegueira dos idiotas úteis. Sem dúvida, entre esses idiotas úteis deviam-se contar os alcaides de Nova York, Paris e Londres, Bill de Blasio, Anne Hidalgo e Sadiq Jan, que no 20 de setembro passado, por ocasião da Assembléia Geral das Nações Unidas, em uma carta publicada no New York Times intitulada Os imigrantes são nossa força, fizeram um chamamento a "tomar medidas decisivas para garantir socorro e um refúgio seguro aos prófugos que escapam da guerra e aos imigrantes que fogem da miséria."
As centenas de milhares de imigrantes que chegam a nossas costas não fogem da guerra nem da miséria. São jovens que gozam de saúde perfeita, bem apresentados e sem sinais de feridas nem de desnutrição como as que têm os que procedem de onde há guerra ou fome.
Dirigindo-se ao Parlamento Europeu no 26 de setembro passado, o coordenador da luta antiterrorismo da União Européia, Gilles de Kerchove, denunciou uma infiltração maciça do ISIS entre os imigrantes. Mas ainda que os terroristas fossem uma ínfima minoria entre eles, todos os imigrantes clandestinos que desembarcam na Europa são portadores de uma cultura antitética à cultura cristã ocidental.
Os imigrantes não desejam integrar-se na Europa mas dominá-la; se não pelas armas, com o ventre de suas mulheres e das nossas. Onde quer que se instalam esses grupos de jovens varões maometanos, as européias ficam grávidas, formam-se novas famílias mistas submetidas à lei corânica, e essas novas famílias solicitam ao Estado mesquitas e subsídios econômicos. Tudo isso com o apoio dos alcaides, governadores provinciais e paróquias católicas.
A reação popular é inevitável, e em países com alto influxo migratório como França e Alemanha está se tornando explosiva. "Estamos à beira de uma guerra civil", declarou Patrick Calvar, diretor da Direção Geral de Segurança do Ministério do Interior francês, diante de uma comissão parlamentar (Le Figaro, 22 de junho de 2016). Por sua parte, o governo alemão redigiu um plano de defesa civil de 69 páginas no qual se convida a população a fazer estoque de alimentos e água e "preparar-se de modo apropriado para uma eventualidade que possa pôr em perigo nossa existência" (Reuters, 21 de agosto de 2016).
Quem são os culpados por esta situação? Seria preciso buscá-los em vários níveis. Como é natural, é a classe dirigente pós-comunista e sessentaeoitista, que tomou as rédeas da política européia; são também os intelectuais que elaboraram teorias disformes no campo da física, da biologia, da sciologia e da política; também os lobbies, a Maçonaria e os potentados financeiros que agem às vezes nas trevas e outras à luz do dia. Conhecido, por exemplo, é o papel desempenhado pelo financista George Soros e sua fundação internacional Open Society.
Por causa de um ataque de hackers, mais de 2.500 correios eletrônicos foram subtraídos do magnata húngaro-estadunidense e difundidos na Internet através do portal DC Leaks. Pela correspondência privada roubada de Soros se soube que financia atividades subversivas em todos os campos, desde a agenda LGBT até o movimento pró-imigração. Baseando-se em tais documentos, Elizabeth Yore, em uma série de artigos publicados em The Remnant, demonstrou também o apoio direto e indireto de Soros ao papa Bergoglio e alguns de seus mais próximos colaboradores, como o cardeal Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga e monsenhor Marcelo Sánchez Sorondo.
Observa-se uma objetiva convergência estratégica entre George Soros e o papa Francisco. A política de acolhimento, apresentada como a religião das pontes, oposta à religião dos muros, se tornou o fio condutor do pontificado de Francisco, até o ponto de que haja quem se pergunta se não se favoreceu sua eleição com vistas a oferecer aos artífices da invasão migratória o apoio moral de que necessitavam. O que é certo é que hoje em dia avançam juntas a confusão na Igreja e na sociedade. O caos político prepara a guerra civil, e o religioso abre a porta aos cismas, que são uma espécie de guerra civil religiosa.
O Espírito Santo, nem sempre correspondido pelos cardeais reunidos em conclave, não cessa no entanto de agir, e nutre atualmente o sensus fidei dos que se opõem aos projetos destinados a demolir a Igreja e a sociedade. A Divina Providência não os abandonará."
(Roberto de Mattei, De la invasión migratoria a la guerra civil)

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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Iconoclastas

“Se os sequazes do Estado Islâmico quisessem ferir deveras a doce e humanitária consciência do Ocidente neopagão ter-se-iam filmado apedrejando cachorros ou lanceando touros. Mas como os sequazes do Estado Islâmico não são inimigos do Ocidente neopagão, mas seus paradoxais aliados (em uma estratégia comum desenhada pela Nova Ordem Mundial), filmam-se degolando e decapitando cristãos, o que só provoca indiferença (e inconfessável regozijo), exceto quando os cristãos morrem pronunciando o nome de Cristo (pois então conseguem provocar uma careta de repugnância na doce e humanitária consciência do Ocidente neopagão). Para que o entretenimento do Ocidente neopagão não decaia (já se sabe que os gostos estragados pelo vício demandam variedade), os sequazes do Estado Islâmico filmaram-se agora derribando de seus pedestais estátuas assírias do museu de Mosul, que em seguida martelavam com sanha, até reduzi-las a cacos. Um espectador desavisado poderia confundir o vídeo de marretas com uma performance oligofrênica de Joseph Beuys, ou de qualquer desses trapaceiros que expõem seus bricabraques nessa feira das porcarias chamada ARCO, para pasmo de complexados e esnobes.
Com esse vídeo iconoclasta, os sequazes do chamado Estado Islâmico voltam a nos demonstrar sua paradoxal aliança com o Ocidente neopagão. Pois a iconoclastia bárbara dos islamitas, ao fim e ao cabo, não se distingue demasiado da iconoclastia mais refinada do Ocidente neopagão, que leva séculos destruindo arte com diversos álibis estéticos, ideológicos, filantrópicos ou até religiosos, disfarces bonistas com os quais se encobre o ódio à Beleza e, em última análise, a Quem a criou, semeando sua semente em nossas almas. Esse ódio à Beleza adquire no mundo islâmico uma aparência feroz e tremendista; no Ocidente, tal ódio tem-se manifestado ao longo da História de muitas formas diversas, inflamando às vezes o populacho (pensemos nos latrocínios das hordas revolucionárias, nos espólios do exército napoleônico ou no vandalismo sacrílego de tantos espanhóis transformados em hienas durante a Segunda República e posterior Guerra Civil), mas sobretudo envenenando suas elites, que podem chegar a utilizar seu elitismo como álibi de seus desmandos: pensemos no furor iconoclasta de Lutero e demais “reformadores” protestantes; pensemos na avareza saqueadora de nossos mui ilustres desamortizadores, que fomentaram a desagregação, venda e extravio de nosso patrimônio artístico; pensemos nas burradas pós-conciliares que, com o álibi da reforma litúrgica, despojaram milhares de igrejas de seus altares, silhares, sacrários, retábulos, púlpitos e imagens. Pensemos, enfim, em toda a evolução da “arte contemporânea” sincera, cujo propósito último não é outro senão vilipendiar, cuspir, defecar sobre a Beleza, até manchar sua impressão em nossas almas, cumprindo aquele desiderato de Ivywood, o protagonista de A taberna errante, que pregava que a arte devia “romper todas as barreiras”, até deixar de mostrar formas reconhecíveis, até fundir-se no puro nada, até afogar-nos em seu vômito, para negar mais amplamente o trabalho do Criador.
Nesse trabalho iconoclasta, como na perseguição religiosa, os sequazes do Estado Islâmico e o Ocidente neopagão vão de mãos dadas: a um lhe corresponde fazê-lo do modo mais truculento; ao outro, de um modo mais fino e astuto. Ambos, como a Besta da Terra e a Besta do Mar, caminham juntos, fazendo-se carícias e aconchegos, sob a visão satisfeita (enternecida!) da Nova Ordem Mundial.”
(Juan Manuel de Prada, Iconoclastas)

domingo, 2 de outubro de 2016

Sicut una inter pares


“Celebrando outro dia a Missa da festa de São Mateus, ao rezar o prefácio (Missal Paulo VI, 2º prefácio dos Apóstolos), afirmava, crendo no que rezava, uma proclamação da fé católica e, ao mesmo tempo, um louvor a Cristo, que nos entregou esse mistério de salvação, do qual participamos e no qual vivemos:
“… Porque constituístes a vossa Igreja sobre o alicerce dos apóstolos, para que ela fosse, no mundo, um sinal vivo de vossa santidade e anunciasse a todo o mundo o evangelho da salvação...”
Depois, meditando sobre o celebrado e rezado, perguntava-me se a Igreja, a atual, a pós-conciliar, a que encabeça visivelmente PP Franciscus, podia considerar-se consciente, sapiente e operante segundo esse mistério proclamado e rezado no sobredito prefácio.
A nova edição de Assis (e as anteriores) nos diz que não, que a Igreja que vai a Assis deixou de crer em seu mistério, em sua essência, em sua vocação. A Igreja de Assis se sente cômoda sendo una inter pares.
O enfermo, o anômalo, o desconcertante, é que os que se sentam como iguais à Igreja na mesa de Assis são cismáticos, hereges cristãos, infiéis anticristãos e pagãos contracristãos, um mostruário, alardeavam, de 500 representações de todo o mundo.
Tive um amigo sacerdote que, algumas vezes, me chamava para pedir-me que benzesse uma imagem, ou celebrasse alguma Missa solene, ou pregasse algum sermão. Dava a impressão de que ele mesmo não levava a sério sua potestade, seu ministério, a graça da qual era administrador. Depois de alguns anos, deixou o ministério. Ainda creio que seu caso foi de uma vocação sincera mal formada, mal dirigida e mal vivida. Por isso suas vacilações. Por isso seu incômodo de sentir-se sacerdote e atuar como tal.
A Igreja que vai a Assis parece sentir-se incômoda consigo mesma, duvida de seu caráter sobrenatural, se descoordena de sua missão ultraterrena e se alia com instâncias do mundo com o álibi-desculpa de compartilhar uma mesma vontade sobre a paz. Uma paz que, como conceito, é impossível que seja coincidente essencialmente se se expressa segundo os respectivos credos dos assistentes em Assis. A paz de Cristo não é a paz dos judeus, nem a dos maometanos, nem a dos budistas, nem a dos confucionistas, os jainistas ou os bahai. Não existe uma paz comum entre os homens. A Igreja se desidentifica se convoca uma impossível oração global para uma inexistente e inexistível paz universal.
Para um cristão, para um católico, estremece ver o cenário de Assis enquanto se abandona o Evangelho porque se prefere a convergência vã de todos (que não são todos) à pregação da conversão a Cristo e a sua paz verdadeira, que é dom celestial e não pacto terreal.
Rezamos sem crer o Gloria in excelsis Deo et in terra pax hominibus bonae voluntatis.
… Se é que se reza.”

http://exorbe.blogspot.com.br