quarta-feira, 29 de junho de 2016
Robert Schumann: Quinteto para piano
I. Allegro brillante
II. In modo d'una marcia. Un poco largamente
III. Scherzo: Molto vivace
IV. Allegro ma non troppo
Menahem Pressler, piano
Emerson String Quartet
domingo, 26 de junho de 2016
Bula Cantate Domino do Concílio Ecumênico de Florença
“A sacrossanta Igreja Romana, fundada pela palavra do Senhor e Salvador nosso, firmemente crê, professa e prega um só Deus onipotente, imutável e eterno, Pai, Filho e Espírito Santo, um em essência e trino em pessoas: o Pai ingênito, o Filho gerado do Pai, o Espírito Santo que procede do Pai e do Filho. Que o Pai não é o Filho ou o Espírito Santo; o Filho não é o Pai ou o Espírito Santo; o Espírito Santo não é o Pai ou o Filho; mas que o Pai é somente Pai, e o Filho somente Filho, e o Espírito Santo somente Espírito Santo. Só o Pai gerou de sua substância o Filho, o Filho só do Pai foi gerado, o Espírito Santo só procede juntamente do Pai e do Filho. Essas três pessoas são um só Deus, e não três deuses; porque as três têm uma só substância, uma só essência, uma só natureza, uma só divindade, uma só imensidão, uma eternidade, e tudo é um, onde não obsta a oposição de relação.
Em razão dessa unidade, o Pai está todo no Filho, todo no Espírito Santo; o Filho está todo no Pai, todo no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo no Pai, todo no Filho. Nenhum precede o outro em eternidade, ou o excede em grandeza, ou o sobrepuja em poder. Eterno, com efeito, e sem começo é que o Filho exista do Pai; e eterno e sem começo é que o Espírito Santo proceda do Pai e do Filho. O Pai, aquilo que é ou tem, não o tem de outro, senão de si mesmo; e é princípio sem princípio. O Filho, aquilo que é ou tem, tem-no do Pai, e é princípio de princípio. O Espírito Santo, aquilo que é ou tem, tem-no juntamente do Pai e do Filho. Mas o Pai e o Filho não são dois princípios do Espírito Santo, senão um só princípio: Como o Pai e o Filho e o Espírito Santo não são três princípios da criação, senão um só princípio.
Aqueles, por conseguinte, que sugerem de modo diferente e contrário, os condena, reprova e anatematiza, e proclama que são alheios ao corpo de Cristo, que é a Igreja. Daí condena a Sabélio, que confunde as pessoas e suprime totalmente a distinção real das mesmas. Condena os arianos, eunomianos e macedonianos, que dizem que só o Pai é Deus verdadeiro e põem o Filho e o Espírito Santo na ordem das criaturas. Condena também quem quer que ponha graus ou desigualdade na Trindade.
Firmissimamente crê, professa e prega que o único Deus verdadeiro, Pai, Filho e Espírito Santo, é o criador de todas as coisas, das visíveis e das invisíveis; o qual, no momento que quis, criou por sua bondade todas as criaturas, tanto as espirituais quanto as corporais; boas, certamente, por haverem sido feitas pelo sumo bem, mas mutáveis, porque foram feitas do nada; e afirma que não há natureza alguma que seja má, pois toda natureza, enquanto natureza, é boa. Professa que um só e mesmo Deus é autor do Velho e Novo Testamento, ou seja, da lei, dos profetas e do Evangelho, porque por inspiração do mesmo Espírito Santo falaram os Santos de um e outro Testamento. Os livros que ela recebe e venera se contêm nos seguintes títulos [Seguem os livros do Cânone].
Ademais, anatematiza a infâmia dos maniqueus, que estabeleceram dois princípios primeiros, um do visível, outro do invisível, e disseram ser um o Deus do Novo Testamento e outro o do Velho.
Firmemente crê, professa e prega que uma pessoa da Trindade, verdadeiro Deus, Filho de Deus, gerado do Pai, consubstancial e coeterno com o Pai, na plenitude do tempo que dispôs a altura inescrutável do divino conselho, para a salvação do gênero humano, assumiu do seio imaculado da Virgem Maria a verdadeira e íntegra natureza do homem e uniu-a consigo em unidade de pessoa com tão íntima unidade, que o que há ali de Deus não está separado do homem; e o que há de homem não está dividido da divindade; e é um só e mesmo indiviso, permanecendo uma e outra natureza em suas propriedades, Deus e homem, Filho de Deus e Filho do homem, igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade, imortal e eterno pela natureza divina, passível e temporal pela condição da humanidade assumida.
Firmemente crê, professa e prega que o Filho de Deus na humanidade que assumiu da Virgem nasceu verdadeiramente, sofreu verdadeiramente, morreu e foi sepultado verdadeiramente, ressuscitou verdadeiramente dentre os mortos, subiu aos céus e está sentado à direita do Pai e há de vir ao fim dos séculos para julgar os vivos e os mortos.
Anatematiza, além disso, execra e condena toda heresia que sugira o contrário. E em primeiro lugar, condena Ebião, Cerinto, Marcião, Paulo de Samósata, Fotino, e todos que de modo semelhante blasfemam, que não podendo entender a união pessoal da humanidade com o Verbo, negaram que nosso Senhor Jesus Cristo seja verdadeiro Deus, proclamando-o puro homem que, por participação maior da graça divina, que havia recebido, por merecimento de sua vida mais santa, se chamaria homem divino. Anatematiza também a Maniqueu com seus sequazes, que com seus sonhos de que o Filho de Deus não assumiu corpo verdadeiro, mas imaginário, destruíram completamente a verdade da humanidade em Cristo; assim como a Valentim, que afirma que o Filho de Deus nada tomou da Virgem Maria, mas que assumiu um corpo celeste e passou pelo seio da Virgem, como a água flui e corre por um aqueduto. A Ário também que, afirmando que o corpo recebido da Virgem não tinha alma, quis que a divindade ocupasse o lugar da alma. Também a Apolinário, o qual, entendendo que se é negada em Cristo a alma que informa o corpo não há n’Ele verdadeira humanidade, sugeriu somente a alma sensitiva, mas a divindade do Verbo substituía a alma racional. Anatematiza também a Teodoro de Mopsuesta e a Nestório, que afirmam que a humanidade se uniu ao Filho de Deus pela graça, e que por isso há duas pessoas em Cristo, como confessam haver duas naturezas, por não serem capazes de entender que a união da humanidade com o Verbo foi hipostática, e por isso se negaram a aceitar a subsistência do Verbo. Porque, segundo essa blasfêmia, o Verbo não se fez carne, mas o Verbo, pela graça, habitou na carne; isto é, que o Filho de Deus não se fez homem, mas o Filho de Deus habitou no homem. Anatematiza também, execra e condena ao arquimandrita Eutiques, que entendendo, segundo a blasfêmia de Nestório, que ficava excluída a verdade da encarnação, e que era mister, portanto, de tal modo estivera unida a humanidade ao Verbo de Deus, que houvesse uma só e a mesma pessoa da divindade e da humanidade, e não podendo entender como se dava a unidade de pessoa subsistindo a pluralidade de naturezas, como estabelecera que havia uma só pessoa da divindade e da humanidade em Cristo, afirmou que não havia mais que uma só natureza, querendo com isso dizer que antes da união havia dualidade de naturezas, mas que na assunção passaram a ser uma só natureza, concedendo com máxima blasfêmia e impiedade que ou a humanidade se transformara na divindade ou a divindade, na humanidade. Anatematiza, execra e condena a Macário de Antioquia, e todos os que pensam de modo semelhante, o qual, se bem que tivesse o entendimento correto da dualidade de naturezas e da unidade de pessoa, errou, contudo, enormemente acerca das operações de Cristo, dizendo que em Cristo foi uma só a operação e vontade de uma e outra natureza. Todos esses com suas heresias, os anatematiza a sacrossanta Igreja Romana, afirmando que em Cristo há duas vontades e duas operações.
Firmemente crê, professa e ensina que ninguém concebido de homem e de mulher jamais foi livrado do domínio do diabo senão por merecimento do que é mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Senhor nosso; que, concebido sem pecado, nascido e morto ao apagar nossos pecados, só por sua morte derrubou o inimigo do gênero humano e abriu a entrada do reino celeste, que o primeiro homem por seu próprio pecado com toda sua sucessão havia perdido; e a quem de antemão todas as instituições sagradas, sacrifícios, sacramentos e cerimônias do Antigo Testamento apontaram como ao que um dia havia de vir.
Firmemente crê, professa e ensina que as legalidades do Antigo Testamento, ou seja, da Lei de Moisés, que se dividem em cerimônias, objetos sagrados, sacrifícios e sacramentos, porque foram instituídas para simbolizar algo por vir, embora naquela idade fossem convenientes para o culto divino, terminaram uma vez vindo nosso Senhor Jesus Cristo, que por elas foi simbolizado, e começaram os sacramentos do Novo Testamento. E que mortalmente peca quem quer que ponha nas observâncias legais sua esperança depois da paixão, e a elas se submeta, como necessárias à salvação, como se a fé de Cristo não pudesse salvar-nos sem elas. Não nega, no entanto, que, desde a paixão de Cristo até a promulgação do Evangelho, não pudessem ser observadas, com a condição, contudo, de que se acreditasse que não fossem de modo algum necessárias para a salvação; mas após a promulgação do Evangelho, afirma que, sem perda da salvação eterna, não podem ser observadas. Declara conseqüentemente como alheios à fé de Cristo todos aqueles que, depois daquele tempo, observam a circuncisão e o sábado e as demais prescrições legais e que de modo nenhum podem ser partícipes da salvação eterna, a não ser que um dia se arrependam de seus erros. Ordena, portanto, absolutamente a todos os que se gloriam do nome cristão que cessem a circuncisão a qualquer tempo, antes ou depois do batismo, pois quer se ponha esperança nela, quer não, não pode em absoluto ser observada sem a perda da salvação eterna. No que se refere às crianças, adverte que, em razão do perigo de morte, que com freqüência costuma acontecer-lhes, quando não se pode socorrê-las com outro remédio que o sacramento do batismo, pelo qual são livradas do domínio do diabo e adotadas como filhos de Deus, não se deve diferir o sagrado batismo pelo espaço de quarenta ou de oitenta dias ou por outro tempo segundo a observância de alguns, mas se deve conferir-lhes tão logo possa fazer-se comodamente; de modo, no entanto, que se o perigo de morte é iminente devem ser batizados sem dilação alguma, ainda que por um leigo ou mulher, se falta sacerdote, na forma da Igreja, segundo mais amplamente se contém no decreto para os armênios.
Firmemente crê, professa e prega que “toda criatura de Deus é boa e nada deve ser rejeitado do que se recebe com ação de graças” [I Tim. 4, 4], porque segundo a palavra do Senhor [Mat. 15, 11], “não é o que entra na boca que mancha o homem”, e que aquela distinção da Lei Mosaica entre alimentos limpos e imundos pertence a um cerimonial que passou e perdeu sua eficácia ao surgir o Evangelho. Diz também que aquela proibição dos Apóstolos, de abster-se “do sacrificado aos ídolos, do sangue e das carnes sufocadas” [At. 15, 29], foi conveniente para aquele tempo em que ia surgindo a única Igreja dentre os judeus e gentios que viviam antes com diversas cerimônias e costumes, de modo que até os gentios observavam certas coisas em comum com os judeus, e ocasião se deu para reunirem-se em um só culto a Deus e uma só fé, e afastou-se toda matéria de dissensão; porque aos judeus, por seu antigo costume, o sangue e as carnes sufocadas pareciam coisas abomináveis, e pela comida do imolado podiam pensar que os gentios tornariam à idolatria. Mas quando a religião cristã se propagou tanto que já não aparecia nela nenhum judeu carnal, mas todos, ao passarem à Igreja, participavam dos mesmos ritos e cerimônias do Evangelho, crendo que “tudo é limpo para os limpos” [Tit. 1, 15], ao terminar a causa daquela proibição apostólica, terminou também seu efeito. Assim, pois, proclama que não se deve condenar espécie alguma de alimento que a sociedade humana admita; nem há de fazer ninguém, seja homem ou mulher, distinção alguma entre os animais, qualquer que seja o gênero de morte com que morram, se bem que para a saúde do corpo, para o exercício da virtude, para a disciplina regular e eclesiástica, possam e devam deixar-se muitos que não estejam negados, porque, segundo o Apóstolo, tudo é lícito, mas nem tudo convém [I Cor. 6, 12; 10, 22].
Firmemente crê, professa e prega que ninguém que não esteja dentro da Igreja Católica, não só pagãos, mas também judeus, hereges e cismáticos, pode fazer-se partícipe da vida eterna, mas irá “ao fogo eterno que está preparado para o diabo e seus anjos” [Mt. 25, 41], a não ser que antes de sua morte se una ao rebanho; e que a unidade no corpo da Igreja é tão forte, que apenas a quem nele permanece são de benefício para sua salvação os sacramentos e produzem recompensas eternas os jejuns, esmolas e demais ofícios de piedade da milícia cristã. E que ninguém, por mais esmolas que dê, mesmo que derrame seu sangue pelo nome de Cristo, pode salvar-se, se não permanece no seio e na unidade da Igreja Católica.”
(Eugênio IV, Cantate Domino)
Em razão dessa unidade, o Pai está todo no Filho, todo no Espírito Santo; o Filho está todo no Pai, todo no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo no Pai, todo no Filho. Nenhum precede o outro em eternidade, ou o excede em grandeza, ou o sobrepuja em poder. Eterno, com efeito, e sem começo é que o Filho exista do Pai; e eterno e sem começo é que o Espírito Santo proceda do Pai e do Filho. O Pai, aquilo que é ou tem, não o tem de outro, senão de si mesmo; e é princípio sem princípio. O Filho, aquilo que é ou tem, tem-no do Pai, e é princípio de princípio. O Espírito Santo, aquilo que é ou tem, tem-no juntamente do Pai e do Filho. Mas o Pai e o Filho não são dois princípios do Espírito Santo, senão um só princípio: Como o Pai e o Filho e o Espírito Santo não são três princípios da criação, senão um só princípio.
Aqueles, por conseguinte, que sugerem de modo diferente e contrário, os condena, reprova e anatematiza, e proclama que são alheios ao corpo de Cristo, que é a Igreja. Daí condena a Sabélio, que confunde as pessoas e suprime totalmente a distinção real das mesmas. Condena os arianos, eunomianos e macedonianos, que dizem que só o Pai é Deus verdadeiro e põem o Filho e o Espírito Santo na ordem das criaturas. Condena também quem quer que ponha graus ou desigualdade na Trindade.
Firmissimamente crê, professa e prega que o único Deus verdadeiro, Pai, Filho e Espírito Santo, é o criador de todas as coisas, das visíveis e das invisíveis; o qual, no momento que quis, criou por sua bondade todas as criaturas, tanto as espirituais quanto as corporais; boas, certamente, por haverem sido feitas pelo sumo bem, mas mutáveis, porque foram feitas do nada; e afirma que não há natureza alguma que seja má, pois toda natureza, enquanto natureza, é boa. Professa que um só e mesmo Deus é autor do Velho e Novo Testamento, ou seja, da lei, dos profetas e do Evangelho, porque por inspiração do mesmo Espírito Santo falaram os Santos de um e outro Testamento. Os livros que ela recebe e venera se contêm nos seguintes títulos [Seguem os livros do Cânone].
Ademais, anatematiza a infâmia dos maniqueus, que estabeleceram dois princípios primeiros, um do visível, outro do invisível, e disseram ser um o Deus do Novo Testamento e outro o do Velho.
Firmemente crê, professa e prega que uma pessoa da Trindade, verdadeiro Deus, Filho de Deus, gerado do Pai, consubstancial e coeterno com o Pai, na plenitude do tempo que dispôs a altura inescrutável do divino conselho, para a salvação do gênero humano, assumiu do seio imaculado da Virgem Maria a verdadeira e íntegra natureza do homem e uniu-a consigo em unidade de pessoa com tão íntima unidade, que o que há ali de Deus não está separado do homem; e o que há de homem não está dividido da divindade; e é um só e mesmo indiviso, permanecendo uma e outra natureza em suas propriedades, Deus e homem, Filho de Deus e Filho do homem, igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade, imortal e eterno pela natureza divina, passível e temporal pela condição da humanidade assumida.
Firmemente crê, professa e prega que o Filho de Deus na humanidade que assumiu da Virgem nasceu verdadeiramente, sofreu verdadeiramente, morreu e foi sepultado verdadeiramente, ressuscitou verdadeiramente dentre os mortos, subiu aos céus e está sentado à direita do Pai e há de vir ao fim dos séculos para julgar os vivos e os mortos.
Anatematiza, além disso, execra e condena toda heresia que sugira o contrário. E em primeiro lugar, condena Ebião, Cerinto, Marcião, Paulo de Samósata, Fotino, e todos que de modo semelhante blasfemam, que não podendo entender a união pessoal da humanidade com o Verbo, negaram que nosso Senhor Jesus Cristo seja verdadeiro Deus, proclamando-o puro homem que, por participação maior da graça divina, que havia recebido, por merecimento de sua vida mais santa, se chamaria homem divino. Anatematiza também a Maniqueu com seus sequazes, que com seus sonhos de que o Filho de Deus não assumiu corpo verdadeiro, mas imaginário, destruíram completamente a verdade da humanidade em Cristo; assim como a Valentim, que afirma que o Filho de Deus nada tomou da Virgem Maria, mas que assumiu um corpo celeste e passou pelo seio da Virgem, como a água flui e corre por um aqueduto. A Ário também que, afirmando que o corpo recebido da Virgem não tinha alma, quis que a divindade ocupasse o lugar da alma. Também a Apolinário, o qual, entendendo que se é negada em Cristo a alma que informa o corpo não há n’Ele verdadeira humanidade, sugeriu somente a alma sensitiva, mas a divindade do Verbo substituía a alma racional. Anatematiza também a Teodoro de Mopsuesta e a Nestório, que afirmam que a humanidade se uniu ao Filho de Deus pela graça, e que por isso há duas pessoas em Cristo, como confessam haver duas naturezas, por não serem capazes de entender que a união da humanidade com o Verbo foi hipostática, e por isso se negaram a aceitar a subsistência do Verbo. Porque, segundo essa blasfêmia, o Verbo não se fez carne, mas o Verbo, pela graça, habitou na carne; isto é, que o Filho de Deus não se fez homem, mas o Filho de Deus habitou no homem. Anatematiza também, execra e condena ao arquimandrita Eutiques, que entendendo, segundo a blasfêmia de Nestório, que ficava excluída a verdade da encarnação, e que era mister, portanto, de tal modo estivera unida a humanidade ao Verbo de Deus, que houvesse uma só e a mesma pessoa da divindade e da humanidade, e não podendo entender como se dava a unidade de pessoa subsistindo a pluralidade de naturezas, como estabelecera que havia uma só pessoa da divindade e da humanidade em Cristo, afirmou que não havia mais que uma só natureza, querendo com isso dizer que antes da união havia dualidade de naturezas, mas que na assunção passaram a ser uma só natureza, concedendo com máxima blasfêmia e impiedade que ou a humanidade se transformara na divindade ou a divindade, na humanidade. Anatematiza, execra e condena a Macário de Antioquia, e todos os que pensam de modo semelhante, o qual, se bem que tivesse o entendimento correto da dualidade de naturezas e da unidade de pessoa, errou, contudo, enormemente acerca das operações de Cristo, dizendo que em Cristo foi uma só a operação e vontade de uma e outra natureza. Todos esses com suas heresias, os anatematiza a sacrossanta Igreja Romana, afirmando que em Cristo há duas vontades e duas operações.
Firmemente crê, professa e ensina que ninguém concebido de homem e de mulher jamais foi livrado do domínio do diabo senão por merecimento do que é mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Senhor nosso; que, concebido sem pecado, nascido e morto ao apagar nossos pecados, só por sua morte derrubou o inimigo do gênero humano e abriu a entrada do reino celeste, que o primeiro homem por seu próprio pecado com toda sua sucessão havia perdido; e a quem de antemão todas as instituições sagradas, sacrifícios, sacramentos e cerimônias do Antigo Testamento apontaram como ao que um dia havia de vir.
Firmemente crê, professa e ensina que as legalidades do Antigo Testamento, ou seja, da Lei de Moisés, que se dividem em cerimônias, objetos sagrados, sacrifícios e sacramentos, porque foram instituídas para simbolizar algo por vir, embora naquela idade fossem convenientes para o culto divino, terminaram uma vez vindo nosso Senhor Jesus Cristo, que por elas foi simbolizado, e começaram os sacramentos do Novo Testamento. E que mortalmente peca quem quer que ponha nas observâncias legais sua esperança depois da paixão, e a elas se submeta, como necessárias à salvação, como se a fé de Cristo não pudesse salvar-nos sem elas. Não nega, no entanto, que, desde a paixão de Cristo até a promulgação do Evangelho, não pudessem ser observadas, com a condição, contudo, de que se acreditasse que não fossem de modo algum necessárias para a salvação; mas após a promulgação do Evangelho, afirma que, sem perda da salvação eterna, não podem ser observadas. Declara conseqüentemente como alheios à fé de Cristo todos aqueles que, depois daquele tempo, observam a circuncisão e o sábado e as demais prescrições legais e que de modo nenhum podem ser partícipes da salvação eterna, a não ser que um dia se arrependam de seus erros. Ordena, portanto, absolutamente a todos os que se gloriam do nome cristão que cessem a circuncisão a qualquer tempo, antes ou depois do batismo, pois quer se ponha esperança nela, quer não, não pode em absoluto ser observada sem a perda da salvação eterna. No que se refere às crianças, adverte que, em razão do perigo de morte, que com freqüência costuma acontecer-lhes, quando não se pode socorrê-las com outro remédio que o sacramento do batismo, pelo qual são livradas do domínio do diabo e adotadas como filhos de Deus, não se deve diferir o sagrado batismo pelo espaço de quarenta ou de oitenta dias ou por outro tempo segundo a observância de alguns, mas se deve conferir-lhes tão logo possa fazer-se comodamente; de modo, no entanto, que se o perigo de morte é iminente devem ser batizados sem dilação alguma, ainda que por um leigo ou mulher, se falta sacerdote, na forma da Igreja, segundo mais amplamente se contém no decreto para os armênios.
Firmemente crê, professa e prega que “toda criatura de Deus é boa e nada deve ser rejeitado do que se recebe com ação de graças” [I Tim. 4, 4], porque segundo a palavra do Senhor [Mat. 15, 11], “não é o que entra na boca que mancha o homem”, e que aquela distinção da Lei Mosaica entre alimentos limpos e imundos pertence a um cerimonial que passou e perdeu sua eficácia ao surgir o Evangelho. Diz também que aquela proibição dos Apóstolos, de abster-se “do sacrificado aos ídolos, do sangue e das carnes sufocadas” [At. 15, 29], foi conveniente para aquele tempo em que ia surgindo a única Igreja dentre os judeus e gentios que viviam antes com diversas cerimônias e costumes, de modo que até os gentios observavam certas coisas em comum com os judeus, e ocasião se deu para reunirem-se em um só culto a Deus e uma só fé, e afastou-se toda matéria de dissensão; porque aos judeus, por seu antigo costume, o sangue e as carnes sufocadas pareciam coisas abomináveis, e pela comida do imolado podiam pensar que os gentios tornariam à idolatria. Mas quando a religião cristã se propagou tanto que já não aparecia nela nenhum judeu carnal, mas todos, ao passarem à Igreja, participavam dos mesmos ritos e cerimônias do Evangelho, crendo que “tudo é limpo para os limpos” [Tit. 1, 15], ao terminar a causa daquela proibição apostólica, terminou também seu efeito. Assim, pois, proclama que não se deve condenar espécie alguma de alimento que a sociedade humana admita; nem há de fazer ninguém, seja homem ou mulher, distinção alguma entre os animais, qualquer que seja o gênero de morte com que morram, se bem que para a saúde do corpo, para o exercício da virtude, para a disciplina regular e eclesiástica, possam e devam deixar-se muitos que não estejam negados, porque, segundo o Apóstolo, tudo é lícito, mas nem tudo convém [I Cor. 6, 12; 10, 22].
Firmemente crê, professa e prega que ninguém que não esteja dentro da Igreja Católica, não só pagãos, mas também judeus, hereges e cismáticos, pode fazer-se partícipe da vida eterna, mas irá “ao fogo eterno que está preparado para o diabo e seus anjos” [Mt. 25, 41], a não ser que antes de sua morte se una ao rebanho; e que a unidade no corpo da Igreja é tão forte, que apenas a quem nele permanece são de benefício para sua salvação os sacramentos e produzem recompensas eternas os jejuns, esmolas e demais ofícios de piedade da milícia cristã. E que ninguém, por mais esmolas que dê, mesmo que derrame seu sangue pelo nome de Cristo, pode salvar-se, se não permanece no seio e na unidade da Igreja Católica.”
(Eugênio IV, Cantate Domino)
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Os fariseus
“Para entender perfeitamente o Evangelho, é preciso que em primeiro lugar conheçamos o ambiente histórico que rodeia a pessoa do Salvador, antes de tudo, as tendências religiosas e políticas que agitavam aquela época. Havia então entre os judeus, além de algumas seitas de menor importância, dois partidos, nos quais se materializavam, como em dois pólos, tanto as energias nacionais do povo judeu como sua mentalidade religiosa: os fariseus e os saduceus.
Prescindamos dos saduceus que mais tarde nos vão ocupar, assim como vamos passar em silêncio a classe dos escribas, mencionados amiúde juntamente com os fariseus; não constituindo um partido político, mas um grupo profissional, os escribas eram os que sabiam escrever e ler e explicavam a Lei de Moisés, como o expressa seu nome e ainda seu título de “rabino”. O que não exclui que a maioria deles politicamente se declarassem a favor dos fariseus.
Já o nome de “fariseus”, que significa os segregados, marca o rumo do partido. Segregando-se da massa que vivia em ignorância religiosa e política, os fariseus aspiravam à realização da Lei de Moisés e das “tradições dos maiores”, as quais desgraçadamente às vezes não eram mais que uma deformação da Lei.
Pela primeira vez aparece o nome dos fariseus em meados do segundo século na época do Macabeu Jônatas (160-143). É o famoso historiador judeu Flavius Josefus quem os reduz a esse tempo (Ant. XIII 5, 9), sendo provavelmente os predecessores deles os chamados “assideus” (piedosos), que eram homens dos mais valentes de Israel e zelosos todos da Lei (I Mac. II, 42), mas que foram perseguidos por Alcimo (I Mac. VII, 16).
Já sob o governo de João Hircano (135-104) os fariseus conseguiram chegar ao poder, mas sem chegarem a se manter; ao contrário, o tirano Hircano, depois de submeter os idumeus e derrubar o templo dos samaritanos no monte Garicim, renegou inteiramente os costumes de seus pais, adotando uma conduta contrária à Lei; o que provocou a resistência encarniçada dos mesmos fariseus que antes foram seus mais valentes companheiros de armas.
O segundo sucessor de João Hircano, Alexandre Janeu, tentou vencer definitivamente a resistência dos rebeldes, desencadeando uma perseguição terrível contra os fariseus, os quais não só sucumbiram como acabaram por ser objeto das torturas mais requintadas já que oitocentos deles foram crucificados no momento em que o rei celebrava a festa triunfal. Mas as vítimas se vingaram, não dando trégua ao triunfador, nem de dia nem de noite, de modo que o rei atormentado de remorsos antes de sua morte aconselhou sua mulher Alexandra a reconciliar-se com seus adversários para não perder o trono. A viúva Alexandra (76-67), acedendo ao desejo do moribundo, chamou os fariseus ao governo, entregando ao mesmo tempo a dignidade de sumo sacerdote a seu próprio filho Hircano II. Esse Hircano é o primeiro sumo sacerdote que dependia do partido dos fariseus.
Devem, pois, os fariseus a chegada ao poder a seu inconteste heroísmo; a sua valentia nas batalhas; a sua tenacidade e fanatismo. Não é mister acentuar que a auréola de heróis lhes valeu um prestígio extraordinário aos olhos do povo judeu. Portanto não é estranho se alguns chamam os fariseus de nacionalistas, tradicionalistas, conservadores, patrióticos, zelosos, enquanto que os saduceus mais ou menos correspondem aos liberais e maçons de nossa época. O ideal dos fariseus era reconstruir e conservar a nação sobre o fundamento das tradições e costumes dos pais. Daí sua luta contra os estrangeiros, os Romanos, que desde o ano 63 dominavam a Palestina. Daí também sua trágica inimizade a Jesus, o verdadeiro Salvador de sua gente. Não cabe dúvida que Jesus teria podido ganhar os fariseus, se tivesse aderido às aspirações nacionais deles. Mas como então se teria realizado o reino de Jesus Cristo? Em lugar do Messias do gênero humano, teria resultado só um Messias político da nação judia. Precisamente por suas falsas idéias políticas, nacionalistas e racistas chocaram-se os fariseus com o Messias, pois esperavam com todas as fibras do coração, e ainda continuam esperando hoje em dia, a reunião dos dispersos restos do povo judeu.
Além de cultivarem um extremo nacionalismo, os fariseus se enredavam em um tradicionalismo religioso não menos extremo, que cedo ou tarde tinha que provocar um conflito com o Senhor. As tradições fomentadas pelos fariseus, por vários conceitos não estavam de acordo com a Lei de Moisés nem com os demais profetas; ao contrário, muitas delas lutavam com a religião legítima de Israel. Quantas vezes Jesus Cristo tentava persuadir seus inimigos cegos de que as tradições às quais se aferravam estavam em luta com a religião que não consiste em mil preceitos sutis mas em “espírito e vida” (João VI, 63)! Aqui se manifesta a vinculação funesta com os escribas que não se cansavam de inventar novos preceitos, novas fórmulas, novas cargas para os ombros da pobre gente, sem que eles mesmos as tocassem com a ponta do dedo (Luc. XI, 46).
Note-se bem: Não era a escassez ou falta de fé em que consistia o pecado dos fariseus, mas antes a ampliação e exageração da fé mediante as tradições. Contrariamente aos saduceus criam na imortalidade da alma, na vida eterna, na existência dos anjos, na liberdade da vontade humana; o que os caracteriza como a nata do povo judeu. Que tragédia da sorte! Considerando-se a si mesmos como os filhos legítimos da fé de Abraão, desfiguravam a fé a expensas do espírito ao ponto que não compreendiam mais a doutrina da vida interior que Jesus pregava.
É o Evangelista Marcos o que no sétimo capítulo de seu Evangelho destaca de maneira claríssima o uso supersticioso que fazem os fariseus das tradições, e ao revés o descuido da observância dos mandamentos de Deus que cometiam sem pestanejar: “Com efeito, os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos; e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os jarros e os pratos de metal” (Marc. VII, 3-4).
Como, por exemplo, os fariseus degeneravam o sábado! Quando, um dia de sábado, os discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas e comer os grãos; ou quando o Senhor curou no dia de sábado um homem que tinha seca a mão, consideravam tal fato como obra servil e pecado mortal. Na verdade, quem crê que o homem foi feito para o sábado, e não o sábado para o homem; quem em dia de sábado retira da vala uma ovelha e não um homem, ignorando que um homem vale mais que uma ovelha; quem não se deixa ensinar nem sequer por “argumenta ad hominem”, tal homem não se pode converter.
É de estranhar, pois, que os fariseus pagassem dízimos até da hortelã, e do endro, e do cominho (Mat. XXIII, 23), e que levassem as Palavras da Lei de Moisés em filactérios ou tiras de pergaminho, nas quais estavam escritas sentenças da Lei mosaica (Mat. XXIII, 5)?
Os pergaminhos cuidadosamente dobrados e colocados em pequenas caixas de couro se atavam à frente e ao braço esquerdo, em cumprimento das mal interpretadas palavras: “Será isso para ti como um sinal sobre tua mão, como uma marca entre os teus olhos, a fim de que tenhas na boca a lei do Senhor” (Ex. XIII, 9), assim como as franjas que levavam os fariseus nas quatro extremidades do manto, traem sua origem de Num. XV, 38-39: “Dize aos israelitas que façam para eles e seus descendentes borlas nas extremidades de suas vestes, pondo na borla de cada canto um cordão de púrpura violeta. Fareis essas borlas para que, vendo-as, vos recordeis de todos os mandamentos do Senhor, e os pratiqueis, e não vos deixeis levar pelos apetites de vosso coração e de vossos olhos que vos arrastam à infidelidade.”
De tal formalismo não teríamos que falar, se não tivesse sido acompanhado de uma vaidade mais que arrogante. Os fariseus são esses “que se vangloriavam como se fossem justos, e desprezavam os outros” (Luc. XVIII, 9); são “os hipócritas, que de propósito se põem a orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens” (Mat. VI, 5), e “que desfiguram seus rostos, para mostrarem aos homens que jejuam” (Mat. VI, 16) e “todas suas obras as fazem com o fim de serem vistos pelos homens” (Mat. XXIII, 5).
Todavia hoje vibra em nossos ouvidos o ai lastimoso com que Jesus anatematizou o farisaísmo: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Devorais as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, sereis castigados com muito maior rigor. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos. Ai de vós, guias cegos! Vós dizeis: Se alguém jura pelo templo, isto não é nada; mas se jura pelo tesouro do templo, é obrigado pelo seu juramento.” (Mat. XXIII, 14-16).
Basta com isso! Deveras; nunca havia entre homens mais antagonismo que o que separava Jesus dos fariseus; jamais as divergências de opinião foram tão inconciliáveis como então na Palestina. O choque foi inevitável; mas a Divina Providência deixou o primeiro triunfo aos fariseus, para reservar o triunfo final à causa de Jesus Cristo. E não se esqueça jamais: o que abriu caminho mais largo à verdade cristã foi fariseu: São Paulo.
Os fariseus morreram. Com a queda de Jerusalém, no ano 70, caiu para sempre o sonho dourado dos fariseus da Palestina. Milhares e milhares dos que assassinaram Jesus Cristo morreram cravados nas cruzes com que o vencedor romano havia rodeado a cidade santa; o resto foi vendido no mercado de escravos de Hebron. Mas não morreu o farisaísmo. Vive todavia o formalismo dos fariseus no Talmude e outros livros judeus; vive seu materialismo religioso, seu ódio a Jesus Cristo e seu fanatismo. O “Sionismo” que está levando os judeus à Palestina não é mais que o último ressaibo do farisaísmo.
E o farisaísmo entre os cristãos? Não falemos desse triste capítulo. Sem dúvida: onde domina um formalismo ou materialismo religioso, ali floresce o farisaísmo. E assim como os fariseus se consideravam como a flor do judaísmo, os fariseus de hoje se têm por bons cristãos.”
(Mons. Juan Straubinger, Los Fariseos)
Prescindamos dos saduceus que mais tarde nos vão ocupar, assim como vamos passar em silêncio a classe dos escribas, mencionados amiúde juntamente com os fariseus; não constituindo um partido político, mas um grupo profissional, os escribas eram os que sabiam escrever e ler e explicavam a Lei de Moisés, como o expressa seu nome e ainda seu título de “rabino”. O que não exclui que a maioria deles politicamente se declarassem a favor dos fariseus.
Já o nome de “fariseus”, que significa os segregados, marca o rumo do partido. Segregando-se da massa que vivia em ignorância religiosa e política, os fariseus aspiravam à realização da Lei de Moisés e das “tradições dos maiores”, as quais desgraçadamente às vezes não eram mais que uma deformação da Lei.
Pela primeira vez aparece o nome dos fariseus em meados do segundo século na época do Macabeu Jônatas (160-143). É o famoso historiador judeu Flavius Josefus quem os reduz a esse tempo (Ant. XIII 5, 9), sendo provavelmente os predecessores deles os chamados “assideus” (piedosos), que eram homens dos mais valentes de Israel e zelosos todos da Lei (I Mac. II, 42), mas que foram perseguidos por Alcimo (I Mac. VII, 16).
Já sob o governo de João Hircano (135-104) os fariseus conseguiram chegar ao poder, mas sem chegarem a se manter; ao contrário, o tirano Hircano, depois de submeter os idumeus e derrubar o templo dos samaritanos no monte Garicim, renegou inteiramente os costumes de seus pais, adotando uma conduta contrária à Lei; o que provocou a resistência encarniçada dos mesmos fariseus que antes foram seus mais valentes companheiros de armas.
O segundo sucessor de João Hircano, Alexandre Janeu, tentou vencer definitivamente a resistência dos rebeldes, desencadeando uma perseguição terrível contra os fariseus, os quais não só sucumbiram como acabaram por ser objeto das torturas mais requintadas já que oitocentos deles foram crucificados no momento em que o rei celebrava a festa triunfal. Mas as vítimas se vingaram, não dando trégua ao triunfador, nem de dia nem de noite, de modo que o rei atormentado de remorsos antes de sua morte aconselhou sua mulher Alexandra a reconciliar-se com seus adversários para não perder o trono. A viúva Alexandra (76-67), acedendo ao desejo do moribundo, chamou os fariseus ao governo, entregando ao mesmo tempo a dignidade de sumo sacerdote a seu próprio filho Hircano II. Esse Hircano é o primeiro sumo sacerdote que dependia do partido dos fariseus.
Devem, pois, os fariseus a chegada ao poder a seu inconteste heroísmo; a sua valentia nas batalhas; a sua tenacidade e fanatismo. Não é mister acentuar que a auréola de heróis lhes valeu um prestígio extraordinário aos olhos do povo judeu. Portanto não é estranho se alguns chamam os fariseus de nacionalistas, tradicionalistas, conservadores, patrióticos, zelosos, enquanto que os saduceus mais ou menos correspondem aos liberais e maçons de nossa época. O ideal dos fariseus era reconstruir e conservar a nação sobre o fundamento das tradições e costumes dos pais. Daí sua luta contra os estrangeiros, os Romanos, que desde o ano 63 dominavam a Palestina. Daí também sua trágica inimizade a Jesus, o verdadeiro Salvador de sua gente. Não cabe dúvida que Jesus teria podido ganhar os fariseus, se tivesse aderido às aspirações nacionais deles. Mas como então se teria realizado o reino de Jesus Cristo? Em lugar do Messias do gênero humano, teria resultado só um Messias político da nação judia. Precisamente por suas falsas idéias políticas, nacionalistas e racistas chocaram-se os fariseus com o Messias, pois esperavam com todas as fibras do coração, e ainda continuam esperando hoje em dia, a reunião dos dispersos restos do povo judeu.
Além de cultivarem um extremo nacionalismo, os fariseus se enredavam em um tradicionalismo religioso não menos extremo, que cedo ou tarde tinha que provocar um conflito com o Senhor. As tradições fomentadas pelos fariseus, por vários conceitos não estavam de acordo com a Lei de Moisés nem com os demais profetas; ao contrário, muitas delas lutavam com a religião legítima de Israel. Quantas vezes Jesus Cristo tentava persuadir seus inimigos cegos de que as tradições às quais se aferravam estavam em luta com a religião que não consiste em mil preceitos sutis mas em “espírito e vida” (João VI, 63)! Aqui se manifesta a vinculação funesta com os escribas que não se cansavam de inventar novos preceitos, novas fórmulas, novas cargas para os ombros da pobre gente, sem que eles mesmos as tocassem com a ponta do dedo (Luc. XI, 46).
Note-se bem: Não era a escassez ou falta de fé em que consistia o pecado dos fariseus, mas antes a ampliação e exageração da fé mediante as tradições. Contrariamente aos saduceus criam na imortalidade da alma, na vida eterna, na existência dos anjos, na liberdade da vontade humana; o que os caracteriza como a nata do povo judeu. Que tragédia da sorte! Considerando-se a si mesmos como os filhos legítimos da fé de Abraão, desfiguravam a fé a expensas do espírito ao ponto que não compreendiam mais a doutrina da vida interior que Jesus pregava.
É o Evangelista Marcos o que no sétimo capítulo de seu Evangelho destaca de maneira claríssima o uso supersticioso que fazem os fariseus das tradições, e ao revés o descuido da observância dos mandamentos de Deus que cometiam sem pestanejar: “Com efeito, os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos; e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os jarros e os pratos de metal” (Marc. VII, 3-4).
Como, por exemplo, os fariseus degeneravam o sábado! Quando, um dia de sábado, os discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas e comer os grãos; ou quando o Senhor curou no dia de sábado um homem que tinha seca a mão, consideravam tal fato como obra servil e pecado mortal. Na verdade, quem crê que o homem foi feito para o sábado, e não o sábado para o homem; quem em dia de sábado retira da vala uma ovelha e não um homem, ignorando que um homem vale mais que uma ovelha; quem não se deixa ensinar nem sequer por “argumenta ad hominem”, tal homem não se pode converter.
É de estranhar, pois, que os fariseus pagassem dízimos até da hortelã, e do endro, e do cominho (Mat. XXIII, 23), e que levassem as Palavras da Lei de Moisés em filactérios ou tiras de pergaminho, nas quais estavam escritas sentenças da Lei mosaica (Mat. XXIII, 5)?
Os pergaminhos cuidadosamente dobrados e colocados em pequenas caixas de couro se atavam à frente e ao braço esquerdo, em cumprimento das mal interpretadas palavras: “Será isso para ti como um sinal sobre tua mão, como uma marca entre os teus olhos, a fim de que tenhas na boca a lei do Senhor” (Ex. XIII, 9), assim como as franjas que levavam os fariseus nas quatro extremidades do manto, traem sua origem de Num. XV, 38-39: “Dize aos israelitas que façam para eles e seus descendentes borlas nas extremidades de suas vestes, pondo na borla de cada canto um cordão de púrpura violeta. Fareis essas borlas para que, vendo-as, vos recordeis de todos os mandamentos do Senhor, e os pratiqueis, e não vos deixeis levar pelos apetites de vosso coração e de vossos olhos que vos arrastam à infidelidade.”
De tal formalismo não teríamos que falar, se não tivesse sido acompanhado de uma vaidade mais que arrogante. Os fariseus são esses “que se vangloriavam como se fossem justos, e desprezavam os outros” (Luc. XVIII, 9); são “os hipócritas, que de propósito se põem a orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens” (Mat. VI, 5), e “que desfiguram seus rostos, para mostrarem aos homens que jejuam” (Mat. VI, 16) e “todas suas obras as fazem com o fim de serem vistos pelos homens” (Mat. XXIII, 5).
Todavia hoje vibra em nossos ouvidos o ai lastimoso com que Jesus anatematizou o farisaísmo: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Devorais as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, sereis castigados com muito maior rigor. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos. Ai de vós, guias cegos! Vós dizeis: Se alguém jura pelo templo, isto não é nada; mas se jura pelo tesouro do templo, é obrigado pelo seu juramento.” (Mat. XXIII, 14-16).
Basta com isso! Deveras; nunca havia entre homens mais antagonismo que o que separava Jesus dos fariseus; jamais as divergências de opinião foram tão inconciliáveis como então na Palestina. O choque foi inevitável; mas a Divina Providência deixou o primeiro triunfo aos fariseus, para reservar o triunfo final à causa de Jesus Cristo. E não se esqueça jamais: o que abriu caminho mais largo à verdade cristã foi fariseu: São Paulo.
Os fariseus morreram. Com a queda de Jerusalém, no ano 70, caiu para sempre o sonho dourado dos fariseus da Palestina. Milhares e milhares dos que assassinaram Jesus Cristo morreram cravados nas cruzes com que o vencedor romano havia rodeado a cidade santa; o resto foi vendido no mercado de escravos de Hebron. Mas não morreu o farisaísmo. Vive todavia o formalismo dos fariseus no Talmude e outros livros judeus; vive seu materialismo religioso, seu ódio a Jesus Cristo e seu fanatismo. O “Sionismo” que está levando os judeus à Palestina não é mais que o último ressaibo do farisaísmo.
E o farisaísmo entre os cristãos? Não falemos desse triste capítulo. Sem dúvida: onde domina um formalismo ou materialismo religioso, ali floresce o farisaísmo. E assim como os fariseus se consideravam como a flor do judaísmo, os fariseus de hoje se têm por bons cristãos.”
(Mons. Juan Straubinger, Los Fariseos)
domingo, 19 de junho de 2016
Como manipular as pessoas para aceitarem qualquer coisa, inclusive o canibalismo

“Ontem, RT traduziu para o espanhol um sugestivo artigo do colunista russo Evgueni Gorzhaltsan publicado em ADME. Gorzhaltsan aplica a «janela de Overton» a um caso extremo: o mecanismo de aceitação pública do canibalismo. Creio, porém, que não seja muito complicado substituir o exemplo por outros: divórcio, aborto, casamento gay, pederastia, incesto, eutanásia etc.
Joseph P. Overton, vice-presidente do Centro Mackinac de Políticas Públicas, postulou que, dentro de determinada área de política pública, por exemplo, a educação, só um pequeno conjunto de políticas, princípios ou medidas se considera politicamente aceitável. Esse conjunto, «janela», não se define pelo que prefiram os políticos, mas pelo que creem poder apoiar sem pôr em risco sua eleição. Essa janela pode estar mais aberta ou ser mais larga, conforme a metáfora que se prefira, conforme mudem as ideias da sociedade que os elege.
Overton atribui os graus de aceitação das ideias públicas a estas categorias:
-Inconcebível ou impensável
-Radical
-Aceitável
-Sensato
-Popular
-Política
Gorzhaltsan coloca o exemplo radical de como converter em aceitável a ideia de legalizar o canibalismo, passo a passo, desde a fase em que se considera uma ação repugnante e impensável, completamente alheia à moral pública, até converter-se numa realidade aceita pela consciência das massas e pela lei. Isso não se consegue mediante lavagem cerebral direta, mas por técnicas mais sofisticadas, que são efetivas graças à sua aplicação coerente e sistemática, sem que a sociedade se dê conta do processo.
Reproduzo o «sugestivo caminho» ao canibalismo legal proposto por Gorzhaltsan segundo as categorias de aceitação de Overton (negritos meus, redação original).
Primeira etapa: do impensável ao radical
Atualmente, é claro, a questão da legalização do canibalismo se encontra no nível mais baixo de aceitação na «janela de possibilidades» de Overton, já que a sociedade o considera um fenômeno absurdo e impensável, um tabu.
Para mudar essa percepção, pode-se, amparando-se na liberdade de expressão, transferir a questão à esfera científica, pois para os cientistas normalmente não há temas tabus. Portanto, é possível celebrar, por exemplo, um simpósio etnológico sobre rituais exóticos das tribos da Polinésia e discutir a história do tema de estudo e obter declarações autorizadas sobre o canibalismo, garantindo, assim, a transição da atitude negativa e intransigente da sociedade a uma atitude mais positiva.
Ao mesmo tempo, é preciso criar algum grupo radical de canibais, embora exista só na Internet, que seguramente será notado e citado por numerosos meios de comunicação. Como resultado da primeira etapa de Overton, o tabu desaparece e o tema inaceitável começa a ser discutido.
Segunda etapa: do radical ao aceitável
Nesta etapa, é preciso continuar citando os cientistas, argumentando que ninguém pode negar-se a ter conhecimentos sobre o canibalismo, já que se alguém se negar a falar disso será considerado um hipócrita intolerante.
Ao condenar a intolerância, também é necessário criar um eufemismo para o próprio fenômeno, para dissociar a essência da questão de sua denominação, separar a palavra de seu significado. Assim, o canibalismo se converte em ‘antropofagia’ e, mais tarde, em «antropofilia».
Paralelamente, se pode criar um precedente de referência, histórico, mitológico, contemporâneo ou simplesmente inventado, mas o mais importante é que seja legitimado, para que possa ser utilizado como prova de que a antropofilia pode, em princípio, ser legalizada.
Terceira etapa: do aceitável ao sensato
Para essa etapa, é importante promover ideias como as seguintes: «o desejo de comer pessoas está geneticamente justificado», «às vezes alguém tem de recorrer a isso, em circunstâncias extremas» ou «o homem livre tem o direito de decidir o que come».
Os adversários reais desses conceitos, isto é, o cidadão comum que não quer ser indiferente ao problema, intencionalmente se convertem para a opinião pública em inimigos radicais, cujo papel é representar a imagem de psicopatas enlouquecidos, opositores agressivos da antropofilia, que incitam a se queimar vivos aos canibais, junto com outros representantes das minorias.
Especialistas e jornalistas, nesta etapa, demonstram que durante a história da humanidade sempre houve ocasiões em que as pessoas se comiam umas às outras, e que isso era normal.
Quarta etapa: do sensato ao popular
Os meios de comunicação, com a ajuda de personalidades famosas e de políticos, já falam abertamente da antropofilia. Este fenômeno começa a aparecer em filmes, letras de música popular e vídeos. Nesta etapa, começa a funcionar também a técnica que supõe a promoção das referências aos personagens históricos de destaque que praticavam a antropofilia.
Para justificar os partidários da legalização do fenômeno, pode-se recorrer à humanização dos criminosos, mediante a criação de uma imagem positiva deles, dizendo-se, por exemplo, que eles são as vítimas, já que a vida os obrigou a praticar a antropofilia.
Quinta etapa: do popular ao político
Esta categoria implica em já começar a preparar a legislação para legalizar o fenômeno. Os grupos de pressão consolidam-se no poder e publicam enquetes que supostamente confirmam uma alta porcentagem de partidários da legalização do canibalismo na sociedade. Na consciência pública se estabelece um novo dogma: «A proibição de comer pessoas está proibida».
Esta é uma técnica típica do liberalismo, que funciona em razão da tolerância como pretexto para a proscrição dos tabus. Durante a última etapa do «movimento das janelas» de Overton do popular ao político, a sociedade já sofreu uma ruptura, pois as normas da existência humana foram alteradas ou foram destruídas, com a adoção das novas leis.
Gorzhaltsan conclui que o conceito de «janelas de possibilidades», inicialmente descrito por Overton, pode ser extrapolado para qualquer fenômeno e é especialmente fácil de aplicar numa sociedade tolerante, em que a chamada liberdade de expressão se converteu em desumanização e onde, ante nossos olhos, são eliminados, um após outro, todos os limites que protegem a sociedade do abismo da autodestruição.”
(Tradução do blog Christe Eleison de um artigo publicado no espanhol De Lapsis.)
http://www.christeeleyson.com
http://infocatolica.com/blog/delapsis.php
quinta-feira, 16 de junho de 2016
A verdade é o fim último do universo
"Ora, o fim último de cada coisa é o que é visado pelo seu primeiro Autor e causa motora. E o primeiro Autor e causa motora do universo é uma inteligência, como veremos mais adiante. Por conseguinte, o fim supremo do universo é o bem da inteligência. Este bem consiste na verdade. Conseqüentemente, a verdade será o fim último de todo o universo, e a grande preocupação primária da sabedoria consistirá no estudo desta verdade. Aliás, foi para manifestar a verdade que a divina Sabedoria, depois de ter revestido a nossa carne humana, declara ter vindo a este mundo: 'Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade' (Jo 18, 37). A seu turno, o Filósofo declara que a Primeira Filosofia é a ciência da verdade: não de qualquer verdade, mas daquela verdade que constitui a fonte de toda a verdade e propriedade do princípio primário do ser de todas as coisas que existem. Esta verdade é o princípio de toda verdade, já que o estabelecimento dos seres na verdade vai de par em par com o seu estabelecimento no ser (I Metafísica, I, 4, 5)."
(Santo Tomás de Aquino, Suma contra os Gentios)
(Santo Tomás de Aquino, Suma contra os Gentios)
segunda-feira, 13 de junho de 2016
Para chegar à Verdade não basta a razão natural
“E porque, onde um cai, ali deve necessariamente ficar estendido se não há quem lhe dê a mão e o ajude a voltar a levantar-se, nossa alma não poderia elevar-se perfeitamente das coisas sensíveis à contemplação de si própria e da eterna Verdade em si mesma se a Verdade, tomando a forma humana em Cristo, não tivesse se constituído em escada, reparando a primeira escada que se quebrou em Adão. Daí que, por muito iluminado que alguém seja pela luz da razão natural e da ciência adquirida, não pode entrar em si para fruir no Senhor se não é por meio de Cristo, que disse: 'Eu sou a porta. O que por mim entrar se salvará, e entrará, e sairá, e achará pastagens'. Mas a esta porta não nos aproximamos senão crendo n’Ele, esperando-O, amando-O. Portanto, se queremos entrar de novo na fruição da Verdade, como em outro paraíso, é necessário que ingressemos mediante a fé, esperança e caridade no mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, quem vem a ser a árvore da vida plantada no meio do paraíso.”
(São Boaventura, Itinerário da Mente para Deus)
(São Boaventura, Itinerário da Mente para Deus)
sexta-feira, 10 de junho de 2016
A verdade gera o ódio
“Por que é que a verdade gera o ódio? Por que é que os homens têm como inimigo aquele que prega a verdade, se amam a vida feliz, que não é mais que a alegria vinda da verdade? Talvez por amarem de tal modo a verdade que todos os que amam outra coisa querem que o que amam seja a verdade. Como não querem ser enganados, não querem se convencer de que estão em erro. Assim, odeiam a verdade, por causa daquilo que amam em vez da verdade. Amam-na quando os ilumina, e odeiam-na quando os repreende. Não querendo ser enganados e desejando enganar, amam-na quando ela se manifesta e odeiam-na quando os descobre. Porém a verdade castigá-los-á, denunciando todos os que não quiseram ser manifestados por ela.”
(Santo Agostinho, Confissões)
(Santo Agostinho, Confissões)
terça-feira, 7 de junho de 2016
Thomas Sowell: Pensar está se tornando obsoleto
“Embora seja humanamente impossível responder a todos os e-mails e cartas que os leitores me enviam, muitos deles são bastante interessantes e intelectualmente instigantes, tanto no sentido positivo quanto no sentido negativo.
Por exemplo, um jovem me enviou um e-mail pedindo as fontes em que eu havia me baseado para citar alguns fatos negativos sobre o desarmamento em um artigo recente. É sempre bom checar os fatos — especialmente se você checar os fatos de ambos os lados da questão.
Em contraste, um outro sujeito simplesmente me criticou por tudo o que eu havia dito nesse artigo. Ele não pediu as minhas fontes e nem quis saber se elas existiam; ele simplesmente saiu fazendo afirmações em contrário, como se essas suas assertivas fossem automaticamente corretas pelo simples fato de estarem sendo pronunciadas por ele, algo que, em sua mente, invalidaria automaticamente tudo o que eu havia escrito.
Ele se identificou como médico, e as alegações que ele fez sobre armas eram as mesmas que haviam sido feitas anos atrás em uma revista médica — alegações que já foram inteiramente desacreditadas desde sua publicação. Ele poderia ter aprendido isso caso houvesse me dado a oportunidade de responder às suas provocações, de um modo que nos engajássemos em um debate. Porém, ele próprio deixou claro desde o início que sua carta não tinha o objetivo de gerar um debate, mas sim apenas de me acusar e me denunciar.
Esse tipo de comportamento se tornou um procedimento padrão no mundo atual.
É sempre surpreendente — e apavorante — constatar quantos assuntos extremamente sérios não são discutidos seriamente hoje em dia; as pessoas simplesmente saem emitindo afirmativas e contra-afirmativas, tudo de maneira generalizada. Seja em debates de internet ou até mesmo em programas de televisão, as pessoas simplesmente tentam calar seu opositor falando mais alto do que ele ou simplesmente recorrendo a frases de efeito de cunho emotivo.
Há inúmeras maneiras de fazer parecer que se está argumentando sem que na realidade se esteja produzindo absolutamente nenhum argumento coerente.
Décadas de educação escolar e universitária simplificada — para não dizer idiotizante — certamente têm algo a ver com a atual situação, mas isso não explica tudo. A educação não somente foi negligenciada no sistema educacional atual, como também já foi quase que completamente substituída pela doutrinação ideológica. A doutrinação que hoje é feita por professores e instituições supostamente educacionais é amplamente baseada na simples vocalização das mesmas pressuposições básicas e não-comprovadas de sempre.
Se as instituições educacionais de hoje — desde escolas a universidades — estivessem tão interessadas em diversidade de ideias quanto estão obcecadas com diversidade racial e sexual, os estudantes ao menos adquiririam experiência ao ver as pressuposições que existem por trás de diferentes visões, e entenderiam a função da lógica e da evidência ao debaterem tais diferenças. No entanto, a realidade é que um estudante pode passar por todo o seu ciclo educacional, desde o jardim de infância até seu doutoramento, sem entrar em contato com absolutamente nenhuma visão de mundo que seja fundamentalmente diferente daquela que prevalece dentro do espectro de opiniões autorizadas e politicamente corretas que domina o nosso sistema educacional.
No que mais, a perspectiva moral da visão ideológica predominante é completamente maniqueísta: as pessoas imbuídas dessas ideias realmente se veem como anjos combatendo todas as forças do mal — seja o assunto em questão o desarmamento, o ambientalismo, o racismo, o homossexualismo, o feminismo ou qualquer outro ismo.
Um monopólio moral é a antítese de um livre mercado de ideias. Um indicativo desta noção de monopólio moral dentre a intelligentsia esquerdista é o fato de que as instituições que estão majoritariamente sob seu controle — escolas, faculdades e universidades — são justamente aqueles que usufruem muito menos liberdade de expressão do que o resto da sociedade.
Por exemplo, ao passo que a defesa e até mesmo a promoção da homossexualidade é comum nos campi universitários — e comparecer a palestras e aulas que fazem tal promoção é frequentemente algo obrigatório nos cursos introdutórios —, qualquer crítica ao comportamento homossexual é imediatamente rotulada de "reacionarismo", "preconceito" e "incitação ao ódio", sujeita a imediata punição.
Enquanto porta-vozes de vários grupos raciais e étnicos são livres para denunciar com veemência "os brancos" por seus pecados passados e presentes, verdadeiros ou imaginários, qualquer estudante branco que similarmente venha a denunciar as transgressões ou os desvarios de grupos não-brancos garantidamente será punido, se não expulso.
Até mesmo estudantes que não defendem ou não promovem absolutamente nada podem ter de pagar um preço caso não concordem com a lavagem cerebral que ocorre nas salas de aula. Recentemente, nos EUA, um aluno da Florida Atlantic University que se recusou a pisotear um papel em que estava escrito a palavra "Jesus", a mando de seu professor, foi suspenso pela universidade. Felizmente, a história veio a público e gerou uma onda de protestos fora do mundo acadêmico.
A atitude deste professor pode ser descartada e ignorada como sendo um caso isolado de extremismo, mas o fato é que o establishment universitário saiu solidamente em sua defesa e atacou implacavelmente o estudante. Tal atitude mostra que a podridão moral que impera na academia vai muito mais além do que um simples professor adepto da doutrinação e da lavagem cerebral.
Estamos hoje vivenciando todo o esplendor do anti-intelectualismo que se espalhou por metástase ao longo de todo o mundo acadêmico. As universidades se tornaram tão dominadas por uma insistência na inviolabilidade de um determinado pensamento grupal, que qualquer professor "forasteiro", que não compactue com a predominância deste pensamento gregário, não mais pode falar a respeito de um determinado assunto sem antes ter sido devidamente credenciado por seus pares. Uma simples pesquisa sobre o tratamento dispensado a acadêmicos que ousam questionar a santidade do aquecimento global mostra bem esse ponto.
Já houve uma época em que um curso universitário era considerado um meio de introduzir as pessoas a uma ampla gama de assuntos que lhes permitiria pensar e falar inteligentemente sobre várias questões que estivessem afetando suas vidas. O pensamento coletivista — que hoje é predominante no meio universitário — rejeita tal ideia, conferindo o monopólio de determinadas questões apenas àquelas pessoas que são reconhecidas como "especialistas" por seus pares.
Este método educacional que recorre à intimidação e à simples repetição de frases de efeito de cunho emocional evidencia a completa falência do sistema educacional. Se professores universitários — teoricamente a nata intelectual da sociedade, pessoas que por vocação e profissão deveriam ser as mais rígidas seguidoras do rigor intelectual — agem assim, como podemos esperar que o restante da população apresente discernimentos mais profundos?
Para sobreviver e progredir, seres humanos precisam saber pensar. Porém, estamos cada vez mais terceirizando esta função para acadêmicos, que por sua vez pautam o conteúdo da mídia. Tal terceirização de pensamento ajuda a explicar por que há hoje uma escassez de pensamentos originais e significativos.
O fracasso do sistema educacional vai muito além da ausência de um aprendizado útil. O real fracasso está naquilo que de fato é ensinado — ou melhor, doutrinado — nas salas de aula, algo evidenciado pelos formandos que as universidades cospem para o mundo, seres incapazes de apresentar qualquer resquício de pensamento original.
Jamais se preocupe em se aprofundar em qualquer assunto: os "especialistas" cujos empregos se resumem a promover a agenda do establishment político e cultural já têm tudo explicado para você.”
http://www.mises.org.br
Por exemplo, um jovem me enviou um e-mail pedindo as fontes em que eu havia me baseado para citar alguns fatos negativos sobre o desarmamento em um artigo recente. É sempre bom checar os fatos — especialmente se você checar os fatos de ambos os lados da questão.
Em contraste, um outro sujeito simplesmente me criticou por tudo o que eu havia dito nesse artigo. Ele não pediu as minhas fontes e nem quis saber se elas existiam; ele simplesmente saiu fazendo afirmações em contrário, como se essas suas assertivas fossem automaticamente corretas pelo simples fato de estarem sendo pronunciadas por ele, algo que, em sua mente, invalidaria automaticamente tudo o que eu havia escrito.
Ele se identificou como médico, e as alegações que ele fez sobre armas eram as mesmas que haviam sido feitas anos atrás em uma revista médica — alegações que já foram inteiramente desacreditadas desde sua publicação. Ele poderia ter aprendido isso caso houvesse me dado a oportunidade de responder às suas provocações, de um modo que nos engajássemos em um debate. Porém, ele próprio deixou claro desde o início que sua carta não tinha o objetivo de gerar um debate, mas sim apenas de me acusar e me denunciar.
Esse tipo de comportamento se tornou um procedimento padrão no mundo atual.
É sempre surpreendente — e apavorante — constatar quantos assuntos extremamente sérios não são discutidos seriamente hoje em dia; as pessoas simplesmente saem emitindo afirmativas e contra-afirmativas, tudo de maneira generalizada. Seja em debates de internet ou até mesmo em programas de televisão, as pessoas simplesmente tentam calar seu opositor falando mais alto do que ele ou simplesmente recorrendo a frases de efeito de cunho emotivo.
Há inúmeras maneiras de fazer parecer que se está argumentando sem que na realidade se esteja produzindo absolutamente nenhum argumento coerente.
Décadas de educação escolar e universitária simplificada — para não dizer idiotizante — certamente têm algo a ver com a atual situação, mas isso não explica tudo. A educação não somente foi negligenciada no sistema educacional atual, como também já foi quase que completamente substituída pela doutrinação ideológica. A doutrinação que hoje é feita por professores e instituições supostamente educacionais é amplamente baseada na simples vocalização das mesmas pressuposições básicas e não-comprovadas de sempre.
Se as instituições educacionais de hoje — desde escolas a universidades — estivessem tão interessadas em diversidade de ideias quanto estão obcecadas com diversidade racial e sexual, os estudantes ao menos adquiririam experiência ao ver as pressuposições que existem por trás de diferentes visões, e entenderiam a função da lógica e da evidência ao debaterem tais diferenças. No entanto, a realidade é que um estudante pode passar por todo o seu ciclo educacional, desde o jardim de infância até seu doutoramento, sem entrar em contato com absolutamente nenhuma visão de mundo que seja fundamentalmente diferente daquela que prevalece dentro do espectro de opiniões autorizadas e politicamente corretas que domina o nosso sistema educacional.
No que mais, a perspectiva moral da visão ideológica predominante é completamente maniqueísta: as pessoas imbuídas dessas ideias realmente se veem como anjos combatendo todas as forças do mal — seja o assunto em questão o desarmamento, o ambientalismo, o racismo, o homossexualismo, o feminismo ou qualquer outro ismo.
Um monopólio moral é a antítese de um livre mercado de ideias. Um indicativo desta noção de monopólio moral dentre a intelligentsia esquerdista é o fato de que as instituições que estão majoritariamente sob seu controle — escolas, faculdades e universidades — são justamente aqueles que usufruem muito menos liberdade de expressão do que o resto da sociedade.
Por exemplo, ao passo que a defesa e até mesmo a promoção da homossexualidade é comum nos campi universitários — e comparecer a palestras e aulas que fazem tal promoção é frequentemente algo obrigatório nos cursos introdutórios —, qualquer crítica ao comportamento homossexual é imediatamente rotulada de "reacionarismo", "preconceito" e "incitação ao ódio", sujeita a imediata punição.
Enquanto porta-vozes de vários grupos raciais e étnicos são livres para denunciar com veemência "os brancos" por seus pecados passados e presentes, verdadeiros ou imaginários, qualquer estudante branco que similarmente venha a denunciar as transgressões ou os desvarios de grupos não-brancos garantidamente será punido, se não expulso.
Até mesmo estudantes que não defendem ou não promovem absolutamente nada podem ter de pagar um preço caso não concordem com a lavagem cerebral que ocorre nas salas de aula. Recentemente, nos EUA, um aluno da Florida Atlantic University que se recusou a pisotear um papel em que estava escrito a palavra "Jesus", a mando de seu professor, foi suspenso pela universidade. Felizmente, a história veio a público e gerou uma onda de protestos fora do mundo acadêmico.
A atitude deste professor pode ser descartada e ignorada como sendo um caso isolado de extremismo, mas o fato é que o establishment universitário saiu solidamente em sua defesa e atacou implacavelmente o estudante. Tal atitude mostra que a podridão moral que impera na academia vai muito mais além do que um simples professor adepto da doutrinação e da lavagem cerebral.
Estamos hoje vivenciando todo o esplendor do anti-intelectualismo que se espalhou por metástase ao longo de todo o mundo acadêmico. As universidades se tornaram tão dominadas por uma insistência na inviolabilidade de um determinado pensamento grupal, que qualquer professor "forasteiro", que não compactue com a predominância deste pensamento gregário, não mais pode falar a respeito de um determinado assunto sem antes ter sido devidamente credenciado por seus pares. Uma simples pesquisa sobre o tratamento dispensado a acadêmicos que ousam questionar a santidade do aquecimento global mostra bem esse ponto.
Já houve uma época em que um curso universitário era considerado um meio de introduzir as pessoas a uma ampla gama de assuntos que lhes permitiria pensar e falar inteligentemente sobre várias questões que estivessem afetando suas vidas. O pensamento coletivista — que hoje é predominante no meio universitário — rejeita tal ideia, conferindo o monopólio de determinadas questões apenas àquelas pessoas que são reconhecidas como "especialistas" por seus pares.
Este método educacional que recorre à intimidação e à simples repetição de frases de efeito de cunho emocional evidencia a completa falência do sistema educacional. Se professores universitários — teoricamente a nata intelectual da sociedade, pessoas que por vocação e profissão deveriam ser as mais rígidas seguidoras do rigor intelectual — agem assim, como podemos esperar que o restante da população apresente discernimentos mais profundos?
Para sobreviver e progredir, seres humanos precisam saber pensar. Porém, estamos cada vez mais terceirizando esta função para acadêmicos, que por sua vez pautam o conteúdo da mídia. Tal terceirização de pensamento ajuda a explicar por que há hoje uma escassez de pensamentos originais e significativos.
O fracasso do sistema educacional vai muito além da ausência de um aprendizado útil. O real fracasso está naquilo que de fato é ensinado — ou melhor, doutrinado — nas salas de aula, algo evidenciado pelos formandos que as universidades cospem para o mundo, seres incapazes de apresentar qualquer resquício de pensamento original.
Jamais se preocupe em se aprofundar em qualquer assunto: os "especialistas" cujos empregos se resumem a promover a agenda do establishment político e cultural já têm tudo explicado para você.”
http://www.mises.org.br
sábado, 4 de junho de 2016
A judaização e protestantização da cultura brasileira

“Chamaram-me a atenção as palavras do ministro da Justiça em seu esforço inútil para explicar o assalto do lulopetismo à Petrobrás. Segundo o egrégio senhor, a má índole do povo brasileiro – que teria a corrupção correndo no seu sangue, a qual seria uma herança antiquíssima, passando de geração em geração, com origem remota lá na nossa querida pátria mãe, o velho Portugal – é que seria a responsável pelo descalabro na maior estatal do país.
É verdade que, infelizmente, no Brasil sempre foi comum a prática da propina, dos presentes, dos agrados para obter todo tipo de vantagem e favor do governo. São famosos os sermões do Pe. Antônio Vieira vituperando os corruptos e corruptores do Reino, que ele, com razão, chama república, para indicar que ao rei competia zelar pela coisa pública. Grandes publicistas e sociólogos brasileiros também denunciaram a confusão entre o público e o privado, o patrimonialismo, a malversação e outras chagas da vida político-administrativa do Brasil. Na época da República Velha, o poderoso PRP distribuía benesses entre os seus apaniguados e tudo se justificava com uma frase pronunciada com aquele sotaque caipira de erre carregado, “Governo é governo”. Mas verdade seja dita: no PRP havia homens de bem, como um Campos Salles, o ermitão do Banharão, do qual sei uma história que vale a pena contar. Um primo dele em dificuldade financeira pediu-lhe um cartório, um pedido corriqueiro naqueles tempos, e o presidente respondeu-lhe: “Você esqueceu que somos primos?” E negou-lhe o pedido.
Apesar desses vícios e defeitos, o brasileiro, tendo-se embebido ao longo dos séculos dos princípios da moral católica, adquiriu uma viva e clara noção da proporção das coisas e da gravidade dos atos. A sapientíssima distinção entre pecado leve e pecado grave, ensinada pelo catecismo, auxiliou muito o brasileiro a ter bom senso, a ter critério para julgar as coisas conforme o espírito da lei de Deus e a evitar a hipocrisia e os escrúpulos de uma consciência mal formada. Por exemplo, Gilberto Freyre diz como o brasileiro dos tempos coloniais sabia distinguir bem a gravidade de um pecado contra a natureza de um pecado de fornicação ou da odiosa heresia.
Como se sabe, o protestantismo recusa a distinção entre pecado mortal e pecado venial. Diz que pecado é sempre pecado, porque aos olhos de Deus não haveria pecadinho e pecadão, como várias vezes ouvi de alunos evangélicos nas aulas de Ética Filosófica. Em tais ocasiões tive ocasião de replicar citando a resposta de Nosso Senhor a Pilatos: “Quem me entregou a ti (os judeus) tem maior pecado” (Jo. XIX, 11). Os evangélicos, em geral, interpretam mal as palavras de Cristo “Quem é fiel no pouco é fiel no muito.” (Lc. XVI, 10). Na parábola do administrador infiel o Senhor nos ensina o desapego dos bens terrenos dizendo que ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e às riquezas; não pretende absolutamente ensinar que as faltas cometidas pelos homens tenham a mesma gravidade.
É curioso observar que esses rigoristas hipócritas que negam a diferença entre pecado venial e pecado mortal quando se lhes oferece um pequeno presente recusam-no como se fosse uma afronta à dignidade ou uma tentativa soez de suborno, mas quando se lhes propõe uma vantagem nababesca ficam de olhos arregalados… É o que conta o Pe. Vieira em um de seus sermões: uma velhinha ofereceu a um juiz um prato de iguarias e ele a despachou em tom de fingida austeridade; já um grande senhor lhe propôs um bom negócio e a coisa mudou de figura. Portanto, o sentido das palavras do Senhor (quem é fiel no pouco é fiel no muito) não é bem o que pretendem os evangélicos fundamentalistas. O fiel no pouco, quer dizer, aquele que faz o uso dos bens terrenos conforme a vontade de Deus, é fiel também no muito, quer dizer, nas coisas sagradas, nas coisas de Deus.
Infelizmente, no Brasil de hoje, em consequência da crise religiosa que vivemos e da diminuição da influência dos valores católicos tradicionais sobre as consciências individuais e sobre as instituições, chega-se a uma situação tão deplorável como a de ouvir um ministro da Justiça equiparando as duas coisas: a “tentação” de uma simples e vulgar propina a um guarda de trânsito ou a um fiscal da limpeza pública etc (por censurável que seja tal prática) e um assalto predatório às riquezas da nação, ainda mais grave porque faz parte de um projeto político de perpetuação no poder e de total açambarcamento da maquina do Estado.
De fato, o Brasil piorou muito no plano moral. Quem lê as crônicas de Machado de Assis comentando as mazelas nacionais daqueles tempos é tentado até a dizer por que não nasci então! Nada se compara à abominação dos nossos dias de lulopetismo. Quem ouviu as histórias do perrepismo conclui que aqueles homens eram heróis e varões impolutos cotejados com essa súcia que nos governa hoje. Quem lê um Euclides da Cunha, um Oliveira Vianna, um Ségio Buarque de Holanda e outros estudiosos do Brasil fica amargurado com o desvio de rota que sofreu nosso país.
Super flumina Babylonis, illic sedimus et flevimus: cum recordaremur Sion (Ps. 136). Junto dos rios da Babilônia… Sim, sinto-me um exilado na própria pátria. O Brasil, para mim, é hoje uma terra estranha. Não me sinto em casa. Fiquei chocado quando há muitos anos uma senhora suíça me disse: “M. l’Abbé, on n’est plus chez nous en Suisse.” Jamais pensei que um dia teria essa sensação no Brasil.
No Brasil de hoje não se julga mais o homem pelos ideais e valores que defende. Banqueiros e petistas da noite para o dia se unem num pragmatismo vergonhoso, onde não se sabe mais quem é quem. E começo a desconfiar que, além de ladrões, são homens rancorosos e vingativos dos seus inimigos. Qualquer um de nós está sujeito a ter sua vida infernizada pelos agentes e militantes de uma gangue instalada nas prefeituras municipais e secretárias de Estado. E pior: é raro encontrar homens que pensem sobre esses problemas e estejam dispostos a lutar até as últimas gotas de sangue contra esse poder das trevas que se apoderou da Terra de Santa Cruz.”
http://santamariadasvitorias.org
quarta-feira, 1 de junho de 2016
Uma sociedade de pessoas por si incomunicáveis só é possível em nível sobrenatural
“O subjetivismo moderno é o fruto abortado de um cristianismo corrompido. A boa nova, anunciada por Cristo, é a da Salvação individual. O Verbo não se encarnou para salvar povos, sociedades, raças, civilizações e humanidade, mas para salvar as almas radicalmente pessoais, encarnadas em corpos que ressuscitarão no último dia. I and my God dizia o Cardeal Newman, e nós diríamos que essa divisa condensa e exprime a essência do cristianismo, mas exprime-a no nível do sobrenatural, segundo uma palavra de Pascal: "Derramei por ti tal gota de sangue", e segundo o mistério da predestinação onde se encontram a total liberdade da ação divina, pela qual os eleitos chegam à bem-aventurança, e a inteira liberdade do homem. A graça, princípio radical de operação propriamente divina no homem, penetra até o centro mesmo da pessoa incomunicável que é sua sede (actimes sunt suppositorum) sem constranger a liberdade, e até, ao contrário, conferindo-lhe seu caráter livre, "porque Deus opera em cada espécie de ser segundo a natureza própria da espécie", de modo que a ação divina é verdadeiramente da própria pessoa:
"É preciso que o homem chegue ao fim último por suas própria operações, per proprias operationes", diz Santo Tomás. E para que a pessoa seja, ela mesma, causa eficiente (ipsa efficiens), é preciso que ela seja renovada, regenerada, disposta por Deus a atos sobrenaturais. O divino entra assim na própria fonte de todas as nossas atividades, no coração de nossa pessoa pelo divino sobre-elevada. Pode-se pois afirmar que o cristianismo é a religião de um Deus que se revela à pessoa, como tal.
Essa é a razão pela qual uma sociedade de pessoas, por si incomunicáveis, é possível mas somente em nível sobrenatural: penetrando até o centro mais íntimo de cada pessoa, e impregnando-a de sua graça, Deus as chama, todas as que ele elegeu, à participação de sua vida divina. Gozam todas de um mesmo bem comum sobrenatural que cada uma reencontra presente em cada uma das outras, naquilo que as constitui propriamente. Compreende-se assim o alcance dos preceitos evangélicos: "Amarás o Senhor teu Deus; e o próximo como a ti mesmo", sendo o segundo semelhante ao primeiro: cada pessoa que ama Deus com amor sobrenatural coincide com seus próprios alicerces e aí descobre a presença de Deus, e então se ama a si mesma com um amor que nada tem de egoísmo e que o próprio Deus move em direção ao próximo, onde está presente de fato ou em esperança; essa pessoa ama então a pessoa do outro como ama sua própria, ambas na sobre-elevação do amor divino. E por aí se vê que, para amar o próximo com amor sobrenatural, único capaz de atingir o próximo como tal, e de quebrar por cima a incomunicabilidade da pessoa, é preciso primeiro amar Deus sobrenaturalmente. O amor do próximo passa sempre pela cabeça do Corpo Místico de Cristo e não seria possível sem essa cabeça. Entrevemos aqui a razão pela qual a Igreja exige uma autoridade suprema que garanta a efusão da graça de Deus em seus membros, e que seja a indefectível guardiã da doutrina.
Uma sociedade "personalista e comunitária" só é possível na altura do sobrenatural. O Reino de Deus não é deste mundo, ainda que esteja no mundo de modo incoativo. A secularização dos conceitos fundamentais sobre os quais está fundado, secularização que não para de se acelerar desde a Reforma, a Revolução e a "Mutação" da Igreja desencadeada pelo Vaticano II, é o empreendimento de destruição das sociedades naturais (e da política natural que lhe corresponde) mais violento que a humanidade pode conhecer: esse empreendimento, em nome da liberdade e da igualdade, dissocia radicalmente as pessoas incomunicáveis que agrupa e amontoa. Por via de conseqüência surge um novo tipo de estado que desempenha o papel da divindade desaparecida e que socializa, graças a um aparelho coercitivo totalitário, ou de tendência totalitária, as condutas pessoais. Não é de admirar que esse tipo de estado tome o nome de Estado-Providência: ele se substitui a Cristo, fonte de todas as graças. E é por isso que o bispo Schmitt, de Metz, um dos corifeus do "personalismo comunitário" proclama logicamente que "a socialização é uma graça".”
(Marcel de Corte, Sartre, Filósofo da Contestação)
http://permanencia.org.br
"É preciso que o homem chegue ao fim último por suas própria operações, per proprias operationes", diz Santo Tomás. E para que a pessoa seja, ela mesma, causa eficiente (ipsa efficiens), é preciso que ela seja renovada, regenerada, disposta por Deus a atos sobrenaturais. O divino entra assim na própria fonte de todas as nossas atividades, no coração de nossa pessoa pelo divino sobre-elevada. Pode-se pois afirmar que o cristianismo é a religião de um Deus que se revela à pessoa, como tal.
Essa é a razão pela qual uma sociedade de pessoas, por si incomunicáveis, é possível mas somente em nível sobrenatural: penetrando até o centro mais íntimo de cada pessoa, e impregnando-a de sua graça, Deus as chama, todas as que ele elegeu, à participação de sua vida divina. Gozam todas de um mesmo bem comum sobrenatural que cada uma reencontra presente em cada uma das outras, naquilo que as constitui propriamente. Compreende-se assim o alcance dos preceitos evangélicos: "Amarás o Senhor teu Deus; e o próximo como a ti mesmo", sendo o segundo semelhante ao primeiro: cada pessoa que ama Deus com amor sobrenatural coincide com seus próprios alicerces e aí descobre a presença de Deus, e então se ama a si mesma com um amor que nada tem de egoísmo e que o próprio Deus move em direção ao próximo, onde está presente de fato ou em esperança; essa pessoa ama então a pessoa do outro como ama sua própria, ambas na sobre-elevação do amor divino. E por aí se vê que, para amar o próximo com amor sobrenatural, único capaz de atingir o próximo como tal, e de quebrar por cima a incomunicabilidade da pessoa, é preciso primeiro amar Deus sobrenaturalmente. O amor do próximo passa sempre pela cabeça do Corpo Místico de Cristo e não seria possível sem essa cabeça. Entrevemos aqui a razão pela qual a Igreja exige uma autoridade suprema que garanta a efusão da graça de Deus em seus membros, e que seja a indefectível guardiã da doutrina.
Uma sociedade "personalista e comunitária" só é possível na altura do sobrenatural. O Reino de Deus não é deste mundo, ainda que esteja no mundo de modo incoativo. A secularização dos conceitos fundamentais sobre os quais está fundado, secularização que não para de se acelerar desde a Reforma, a Revolução e a "Mutação" da Igreja desencadeada pelo Vaticano II, é o empreendimento de destruição das sociedades naturais (e da política natural que lhe corresponde) mais violento que a humanidade pode conhecer: esse empreendimento, em nome da liberdade e da igualdade, dissocia radicalmente as pessoas incomunicáveis que agrupa e amontoa. Por via de conseqüência surge um novo tipo de estado que desempenha o papel da divindade desaparecida e que socializa, graças a um aparelho coercitivo totalitário, ou de tendência totalitária, as condutas pessoais. Não é de admirar que esse tipo de estado tome o nome de Estado-Providência: ele se substitui a Cristo, fonte de todas as graças. E é por isso que o bispo Schmitt, de Metz, um dos corifeus do "personalismo comunitário" proclama logicamente que "a socialização é uma graça".”
(Marcel de Corte, Sartre, Filósofo da Contestação)
http://permanencia.org.br
Assinar:
Postagens (Atom)














