segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

São João Batista descanonizado


“Graças à grande trapalhada informática com o Citius, veio ter ao meu computador, procedente do Supremo Tribunal de Justiça do Céu, uma cópia da ação de descanonização de São João Batista, intentada por alguns católicos, que se fizeram representar pelo seu advogado. Alega o causídico que o dito João, filho de Zacarias e de Isabel, foi precipitadamente elevado às honras dos altares e que, à luz da misericórdia pastoral, recentemente descoberta pelos referidos fiéis, é muito duvidosa a sua santidade.
A verdade é que a dita mãe do referido João, Isabel, era prima de Maria e, portanto, o filho desta, Jesus, era parente próximo do Batista, o que indicia favorecimento na sua canonização, cujo processo, por sinal, não consta nos arquivos da congregação para as causas dos santos. Também se teme que o alegado santo tenha sido ilicitamente beneficiado pelo fato de dois dos seus discípulos, André e João, terem depois seguido Cristo (tráfico de influências?). Por outro lado, não se conhece nenhum milagre, comprovado científica e canonicamente, que seja devido à sua intercessão. Acresce o fato de viver nas dunas, de se cobrir com peles de animais (quiçá de espécies protegidas), comer gafanhotos (que, desde as pragas do Egito, estão em vias extinção) e de se alimentar de mel silvestre (produto não autorizado pela ASAE), o que indicia comportamentos antiecológicos e, em conseqüência, dignos de grave censura social e eclesial.
Contudo, a principal queixa contra o dito Batista prende-se com a sua ausência de sentido pastoral e a sua falta de misericórdia para com o rei Herodes Antipas, a quem, publicamente, acusou de viver em adultério com a sua sobrinha, Herodíade, mulher de seu irmão Filipe e mãe de Salomé. Ainda que os autos provem ser verdadeira essa convivência marital, é absolutamente lamentável que, em vez de acolher misericordiosamente o simpático governante, João o tenha condenado eticamente, incorrendo assim na santa ira de Herodíade. Ora, numa perspectiva mais inclusiva e gradual, não só se deveria ter abstido de tais pronunciamentos moralistas, como deveria ter participado misericordiosamente no banquete natalício de Herodes Antipas, segundo a famosa tese que afirma que nenhum convidado para uma ceia pode ser legitimamente impedido de nela comer.
Embora os exegetas discutam se este princípio teológico-gastronômico, muito em voga em certos jornais, já constava nas tábuas da Lei, dadas por Deus a Moisés, ou se decorre de algum sermão de Santo Agostinho, ou ainda se se encontra na Suma Teológica, ninguém duvida de que é de fé divina e católica.
Por outro lado, a união de Herodes com a cunhada era, indiscutivelmente, uma relação amorosa e, sendo a caridade a principal virtude cristã, deve prevalecer a atitude pastoral de valorizar esse amor, tendo também em conta o bem da jovem e bela Salomé, que de tão amorosa mãe e do seu extremoso consorte recebia, como bailarina, uma esmerada educação artística, que deve ser também estimulada.
Por último, a forma rude como o dito João tinha por costume dirigir-se às autoridades eclesiásticas, como os fariseus e os doutores da lei, não condiz com o estilo pastoral pós-conciliar, o qual, em vez de apelar à conversão, ou julgar, proibir ou condenar atos objetivamente contrários à doutrina cristã, acolhe, abençoa e louva todas as atitudes de quaisquer seres humanos.
Por tudo isto e o mais que fica por dizer, entendem os queixosos que a sentença não pode ser outra senão a da descanonização de João Batista, correndo a cargo do demandado as custas processuais, sem hipótese de recurso nem apelo, exceto em sede de juízo final.
À margem, lê-se ainda nos autos: aconselha-se vivamente que seja também revisto o processo de um tal Tomás More, que se opôs ao divórcio de Henrique VIII e foi, por esse motivo, executado, sendo portanto igualmente suspeito de atitudes contrárias à misericórdia cristã. Recomenda-se ainda a abertura dos processos de canonização de Herodes Antipas, de Salomé e de Herodíade, padroeiros do amor livre, bem como de Henrique VIII, vítima do fundamentalismo católico. Assinado: o advogado do diabo, bastante procurador e representante dos referidos católicos*.
*Aviso à navegação: com este texto irónico não se pretende negar a prática da misericórdia em relação a todos os homens e, por maioria de razão, a todos os fiéis cristãos, quaisquer que sejam as suas circunstâncias pessoais e familiares, mas apenas recordar que a caridade pressupõe a justiça e que não há pior injustiça do que a de tratar todos por igual. O acolhimento misericordioso que a todos os cristãos, sem excepção, deve ser dispensado, não pode ser feito à custa da verdade moral objectiva, nem do propósito de conversão, que a Igreja a todos convida, como requisito necessário para a salvação.
(Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, Escândalo no Céu: João Baptista Descanonizado!)

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A ilusão do espiritismo


“É preciso reconhecer que o espiritismo, ou a doutrina da metempsicose ou transmigração dos espíritos, conhecida vulgarmente no Brasil como kardecismo, atrai e cativa muitas pessoas boas, mas incautas, que buscam uma explicação para a breve e atribulada vida terrena do homem.
Com efeito, à primeira vista, o espiritismo, com sua doutrina de “evolução” espiritual, de progresso moral através de sucessivas reencarnações pelas quais o homem se vai libertando de seus defeitos e purificando-se dos seus pecados até alcançar a perfeição ou a condição de espírito superior – o espiritismo diz que os homens perfeitos se transformam em anjos!-, com sua doutrina que nega um juízo inapelável sobre o destino eterno do homem, o espiritismo pode seduzir aquelas pessoas que se sentem frágeis diante da enorme responsabilidade moral implicada no conceito de livre arbítrio ou se acham desconcertadas ante a desigualdade de condições entre os homens. Um Deus que não julga ninguém, que não condena ninguém mas a todos dá oportunidades sem fim de, mais cedo ou mais tarde, chegar a sua meta é um Deus que ilude o homem apegado às suas más inclinações e não lhe impõe à consciência nenhum dever moral irretorquível. Um Deus assim parece realmente facilitar as relações entre a criatura e o Criador. Acresce que o espiritismo, com sua promessa de comunicação entre os vivos e os mortos, por um lado, cativa as pessoas mais débeis na fé que não se conformam com a perda de seus entes queridos e, por outro lado, com a sua propaganda das obras de caridade (ou melhor, de filantropia), conquista aquelas pessoas generosas e abnegadas que têm compaixão pelo sofrimento dos seus semelhantes. Tudo isso, sem dúvida, gera, em nossa cultura naturalista que confia na capacidade de o homem por seus próprios esforços alcançar a sua salvação, um clima de simpatia pelo espiritismo.
Como se sabe, a doutrina da metempsicose não é uma novidade; desde a mais remota antiguidade, contou com ilustres defensores como Pitágoras e Platão, entre outros. Igualmente, entre os antigos israelitas, nos períodos de decadência e ignorância religiosa, surgia a crença na transmigração da alma. Assim, por exemplo, quando Nosso Senhor interrogou os seus discípulos dizendo: Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? responderam-lhe que uns diziam que era João Batista, outros que era Elias e outros que era Jeremias ou algum dos profetas (Mt. XVI, 13-14). Esta resposta mostra-nos que havia entre os judeus ignorantes da sua própria religião uma crença na reencarnação sem nenhum fundamento nas Escrituras. Contudo, o espiritismo moderno, surgido na França no século XIX, não é herdeiro das antigas teorias da metempsicose. Surgiu em ambientes socialistas e revolucionários, influenciados pelo evolucionismo então em voga.
Em nossos dias, os espíritas gostam de citar aquela passagem do Evangelho segundo São Lucas que diz que São João Batista veio com o espírito e a virtude de Elias (Lc, I, 17) como se o precursor fosse a reencarnação do grande profeta que combateu os adoradores de Baal. Ora, Santo Agostinho, em seu belíssimo livro A Trindade explica que uma coisa é o espírito que recebemos para viver (a alma ou princípio vital) outra coisa é o espírito que recebemos para ser santos, quer dizer, o Espírito Santo que nos é dado como Dom. No caso, chama-se espírito de Elias o Espírito Santo recebido por Elias (A Trindade, livro V, capítulo 14).
Entretanto, hoje é muito mais importante uma refutação filosófica (racional) do espiritismo que uma refutação teológica extraída da Sagrada Escritura, tão desprestigiada está a teologia.
Cumpre, em primeiro lugar, dizer que a metempsicose defendida por Platão e fundamentada em mitos e mistérios escatológicos da antiguidade deve-se ao fato de o filósofo não ter conseguido explicar bem o conhecimento humano a partir dos sentidos e, então, propor a teoria do mundo das idéias, segundo a qual o conhecimento se daria por recordação e, conseqüentemente, só ser possível se a alma fosse preexistente. Ademais, Platão não soube explicar bem a união entre a alma e o corpo. Para ele, no homem não há uma união substancial entre corpo e alma. Concebe o corpo como um cárcere da alma. Aliás semelhante equívoco foi defendido por Orígenes que dizia serem as almas preexistentes e, por castigo de uma culpa grave, se transformavam em demônios ou se uniam a corpos materiais.
Ao contrário, Aristóteles e Santo Tomás de Aquino explicaram o conhecimento humano com base na distinção entre conhecimento sensível e conhecimento intelectivo. No homem não há idéias inatas; a alma não é preexistente, o conhecimento não se dá por recordação nem iluminação (salvo uma revelação sobrenatural), mas a partir dos sentidos. A alma (ou princípio vital) é a forma do corpo; é ela que organiza o corpo de um ser vivo e lhe garante uma unidade em suas operações. Como forma substancial de um ser vivo, a alma não pode informar senão o corpo do qual é forma, não pode encarnar em outro corpo, porque é parte constitutiva do homem.
Como explana de modo admirável o Padre Enrico Zoffoli em sua obra Principi di Filosofia: “Toda alma difere das outras da sua espécie segundo a determinada e inconfundível porção de matéria que é destinada a informar. Trata-se de uma distinção profunda, que a caracteriza como substância absolutamente única, inédita, irrepetível. E acrescenta logo a seguir: “À luz da genética pode-se dizer que a individuação deriva de uma entre milhares de bilhões de combinações dos cromossomos maternos com os paternos que fixam o código genético da cada zigoto. Portanto, as diferenças entre as almas dependem da relação de cada uma à particular constituição do corpo ao qual Deus a destina em sintonia (misteriosa) com a causalidade desenvolvida pelos respectivos genitores. (…) Resulta que não seria humana uma alma que, por absurdo, não se relacionasse a um determinado corpo” (o. c. p. 325).
Por conseguinte, é um desarrazoado e contra os dados da ciência genética afirmar que a alma possa reencarnar em diferentes e sucessivos corpos.
O espiritismo, independentemente da boa fé das pessoas que por ignorância o abraçaram como uma filosofia de vida, é uma grave ofensa ao Deus Criador. Efetivamente, a alma humana, por ser imaterial, é incorruptível e após a morte está sob o domínio de Deus, aguardando o Juízo Final e a ressurreição da carne para voltar a unir-se ao corpo de que é a forma. É uma injuria ao Criador, é uma forma de magia diabólica pretender evocar uma alma para entrar em comunicação com os homens aqui na Terra. Nisto só pode haver charlatanismo ou ocasião para que o demônio possa enganar as pessoas que ousam desobedecer à lei de Deus que interdiz tal prática. Ademais, a crença no espiritismo e suas diversas práticas como as mesas falantes, mediunidade etc levam muitas pessoas a perder a sua própria identidade, a não saber mais quem elas são depois de terem “incorporado” tantos espíritos. É, portanto, um grande mal para o homem, também.
Nós católicos, nestes tempos de grande confusão de idéias, de ignorância religiosa, em que parece que os homens, cansados da verdade que lhes impõe graves responsabilidades diante de Deus e do próximo, correm atrás de fábulas e novidades, devemos permanecer firmes na doutrina católica tradicional, na qual não há lugar para nenhuma fantasia perturbadora da nossa mente, mas sempre plena harmonia entre a fé e a razão.”
(Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa, A Ilusão do Espiritismo)

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Leia, ouça, veja, mas sobretudo, pense

“Se grandes invenções ou descobertas, como o fogo, a roda ou a alavanca, se fizeram antes que o homem fosse, historicamente, capaz de escrever, também se põe como fora de dúvida que mais rapidamente se avançou quando foi possível fixar inteligência em escrita, quando o saber se pôde transmitir com maior fidelidade do que oralmente, quando biblioteca, em qualquer forma, foi testamento do passado e base de arranque para o futuro. A livro se veio juntar arquivo, para o que mais ligeiro se afigurava; e fora de bibliotecas ou arquivos ficaram os milhões de páginas de discorrer ou emoção humana que mais ligeiras pareceram ainda, ou menos duradouras. Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia.
Milhões de homens, porém, no mundo atual estão incapacitados de escrever e de ler, muito menos porque faltam métodos e meios do que incitamento que os levante acima do seu tão difícil quotidiano e vontade de quem mais pode de que seus reais irmãos mais dependam de si próprios do que de exteriores e quase sempre enganadoras salvações. Mais se comunica falando do que de qualquer outra forma; o que nos dizem muitas vezes nos parece de nenhuma importância, mas talvez tenha havido uma falha na atitude de escutar do que no conteúdo do que se disse; porventura a palavra-chave estava aí, mas estávamos distraídos, ou ansiosos por nós próprios falarmos; e no vento fugiu, a outros ouvidos ou a nenhuns. Ouça.
No tempo em que a antropologia ainda julgava que o homem descendia do macaco notou-se, para os distinguir, que um, mesmo no estádio mais primitivo, desenhava; o outro, mesmo que antropóide superior, nem olhava o desenho. Imagem nos veio acompanhando pela História fora, desde as pinturas ou gravuras rupestres, cujo verdadeiro significado ainda está por encontrar, até cinema ou televisão, sobre cujo significado igualmente muitas vezes nos podemos interrogar e que se tem de arrancar o mais depressa possível ao domínio do lucro, da publicidade ou das propagandas ideológicas para que possam cumprir, como nas formas mais antigas, a sua missão de iluminar, inspirar e consagrar o mundo. Imagem o cerca. Veja.
Mas o que vê e ouve ou lê nada mais lhe traz senão matéria-prima de pensamento, já livre de muita impureza de minério bruto, porquanto antes do seu outros pensamentos o pensaram; mas, por o pensarem, alguma outra impureza lhe terão juntado. Nunca se precipite, pois, a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, exceto o do amor de entender, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos fatos; acredite fundamentalmente na dúvida construtiva e daí parta para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, exceto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível; ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão. A tudo pese. Pense.”
(Agostinho da Silva, Textos e Ensaios Filosóficos)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A aparição dos espíritos das trevas na hora da morte

“Além do que já foi mencionado, a terrível aparição dos espíritos malignos torna a morte ainda mais alarmante para nós. É opinião de muitos dos Padres que todo homem, quando expira, vê o inimigo maligno, pelo menos no momento de exalar seu último suspiro, quando não antes. Quão assustadora é tal imagem, e com que terror deve afetar os moribundos, excede o poder das palavras. Conta-se do Irmão Egídio que um dia, quando orava em sua cela, o diabo apareceu-lhe sob forma tão aterradora, que o Irmão perdeu o poder da palavra, e pensou que sua última hora havia chegado. Como seus lábios não podiam emitir nenhum som, elevou seu coração em súplica humilde a Deus, e a aparição foi embora. Depois, quando contava aos irmãos monges o que lhe havia sucedido, tremia da cabeça aos pés enquanto descrevia o aspecto medonho do adversário da humanidade. Então, dirigindo-se a São Francisco, fez-lhe esta pergunta: “Pai, já chegaste a ver algo neste mundo cujo aspecto fosse tão assustador que seria capaz de matar quem o visse?” E o santo respondeu: “Cheguei, sim, a ver algo desse tipo; não é ninguém menos que o diabo, cuja aparência é tão nojenta que ninguém poderia olhar para ele ainda que de relance sem morrer, a menos que Deus o capacitasse especialmente para isso.”
São Cirilo também, escrevendo a Santo Agostinho, conta o que um dos três homens que voltaram dos mortos lhe revelou: “Quando se aproximou a hora de minha partida, uma multidão de demônios, infinitos em número, vieram e se postaram ao meu redor. Suas formas eram mais horrorosas do que qualquer coisa que a imaginação possa conceber. Seria preferível queimar no fogo que ser obrigado a olhar para eles. Esses demônios amontoavam-se ao meu redor e me censuravam todas as faltas que havia cometido, tentando levar-me ao desespero. E de fato teria sucumbido, não tivesse Deus em Sua misericórdia vindo em meu auxílio.”
Aqui temos o testemunho de alguém que realmente aprendeu com sua própria experiência quão horrorosa é a aparência do inimigo maligno, e que declara que nada pode ser mais horrível que a forma assumida pelo demônio.
Ó meu Deus! Como são espantosos os terrores que tomarão posse do infeliz indivíduo que jaz à beira da morte quando o dragão infernal aparecer, pleno de fúria e ameaçando engoli-lo entre suas mandíbulas ardentes.
Nessa hora de angústia suprema, enviai-me meu anjo da guarda, ó Deus, eu Vos peço, para que afaste o inimigo maligno, do contrário cairei infalivelmente em desespero e perderei toda esperança de minha salvação.
Ó santíssima Virgem Maria!, que esmagaste a cabeça da serpente, está comigo na hora de minha morte e não permitas que a presença do cruel adversário provoque minha perdição eterna.”
(Pe. Martin von Cochem, O.S.F.C, The Four Last Things)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Profecia de Mons. George Michael Wittman

“Ai de mim! Estão chegando dias tristes para a Santa Igreja de Jesus Cristo. A Paixão de Jesus será renovada da maneira mais dolorosa na Igreja e Seu Chefe Supremo. Em todas as partes do mundo haverá guerras e revoluções e correrá muito sangue. Por toda parte serão imensas as angústias, os desastres e a pobreza, porque as enfermidades contagiosas, a carestia e outras desgraças virão umas atrás das outras.
Mãos violentas serão colocadas sobre o Chefe Supremo da Igreja católica; bispos e padres serão perseguidos e se produzirá um cisma, e a desordem reinará entre todas as classes. Tempos virão tão extraordinariamente aziagos que parecerá que os inimigos de Cristo e de Sua Santa Igreja, fundada por Ele com Seu Sangue, estarão na iminência de triunfarem sobre Ela. (...) Sociedades secretas acarretarão uma grande destruição e exercerão um extraordinário poder econômico, e muitos se cegarão por meio deste, e serão infectados com os mais nefastos erros. Contudo, tudo isso será em vão, [porque] serão incapazes de mover a pedra sobre a qual Cristo edificou Sua Igreja: ‘Portae inferi non praevalebunt’.”
(Pe. Paul Kramer, O Iminente Castigo Revelado no Terceiro Segredo de Fátima)

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Otimismo ou esperança

“Freqüentemente escutamos nossos amigos e familiares, ao falarem sobre uma situação difícil, seja pessoal, do mundo ou da Igreja, que temos que ser otimistas. Também se nos diz que ao sermos cristãos jogamos do lado vencedor, pelo que não temos de nos preocupar já que as coisas necessariamente vão se ajeitar, ou que devemos pensar que situações particulares difíceis vão ter um final feliz se confiamos adequadamente.
Estas observações, tão arraigadas no catolicismo moderno, ou melhor no catolicismo modernista, têm sua causa no imanentismo no qual fomos educados nas últimas décadas. E assim este otimismo que se pretende cristão não se apóia na realidade e na lógica sucessão dos acontecimentos, mas em um voluntarismo radical que deixa a Deus as tarefas que correspondem a nós, ou supõe que Ele suspenda as próprias leis da natureza para estas situações que consideramos justas e portanto dignas da intervenção divina.
Esquecido então o realismo tomista para ser substituído pelo sentimentalismo carismático que tem raízes indubitavelmente protestantes, não admira que, diante do fracasso de nossas expectativas, colocadas já não na providência divina mas em nossos desejos, se produza o abandono da fé por considerar que esta se põe em um Deus que nos desapontou ou, em casos mais extremos, leve-nos ao desespero que pode inclusive terminar em suicídio.
Se a graça assume a natureza, não pode ser lógico que todas as situações cotidianas se resolvam com intervenções extraordinárias de Deus, como seria o caso dos milagres. Desta forma, muitas vezes cremos que somente com nossas orações e boas intenções mudaremos o rumo natural dos acontecimentos e até dobraremos a vontade do malvado. Tudo isto dizemos sem negar de nenhuma maneira a eficácia das orações que têm que ser sempre o princípio de toda ação ou, quando esta não seja possível, o último recurso, pondo nas mãos de Deus o destino final de tais casos.
Esta perda de objetividade nos leva a substituir a esperança por este otimismo baseado exclusivamente em nossos desejos. A esperança também implica um desejo, mas não perde de vista a gravidade da situação para poder enfrentá-la adequadamente. Muito mais peso tem a esperança, se nos referimos à mesma como virtude teologal, já que, deste modo, pomos nossos desejos na correta perspectiva ao buscar um destino transcendente, deixando de lado os desejos imanentes. Assim diz o Catecismo n° 1817: “A esperança é a virtude teologal pela qual aspiramos ao Reino dos céus e à vida eterna como felicidade nossa, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças, mas nos auxílios da graça do Espírito Santo.
Assim, se entendemos que temos que buscar como fim último nossa salvação eterna, bem supremo por excelência, deixaremos de lado a busca desesperada do acréscimo para nos concentrarmos no que realmente importa, a busca do Reino, já que, como podemos perceber no otimismo que sempre é voluntarista, não se faz o pedido, confiando à vontade divina o que mais nos convenha, mas que queremos sujeitar a vontade de Deus a nossos desejos, não deixando de nenhum modo lugar à Providência.
Em tempos onde só se promove o laicismo maçônico, o materialismo tanto marxista como capitalista, o relativismo moral e religioso, o abandono da ordem natural para substituí-lo pela desordem convencional, todos baseados em expectativas puramente humanas, não devemos deixar de dizer com esperança “Venha a nós o Vosso Reino”, e desse modo entender que não é a vitória que nos corresponde, mas a luta pela causa de Deus e, abandonando todo otimismo imanentista, pensar em que não seremos julgados por nossos triunfos, mas pelas feridas que adquirimos no Bom Combate pela defesa dos Direitos de Deus.”

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O estado e as comunidades naturais

“Qualquer Estado que se edifique sobre as comunidades naturais e sobre os fundamentos que elas irradiam, vê de tal modo seu poder reduzido à sua justa medida, que raramente procede como manifestação de uma força exterior aos cidadãos. Mas, ao contrário, todo Estado sem sociedade é axiomaticamente coercitivo, policial, armado de um arsenal de leis e regulamentos encarregados de dar sentido às condutas imprevisíveis e anormais dos indivíduos. Sua tendência ao totalitarismo é diretamente proporcional à desaparição das comunidades naturais, à ruína dos costumes, à calamidade da educação.”
(Marcel de Corte, L'Éducation Politique)

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domingo, 7 de fevereiro de 2016

A paixão pela morte como paixão política na obra de Ernst Jünger (II)

“Resta, enfim, o sentimento de exaltação voluptuosa experimentado pela proximidade da morte. Jünger evoca-o várias vezes em sua obra. Esse sentimento se manifesta nos sonhos mencionados em algumas passagens de seu diário. Assim, em 2 de julho de 1942: “A nostalgia da morte pode tornar-se violenta, voluptuosa, como aquela do frescor a bordo do esverdeado e luminoso oceano", e uma semana mais tarde, compara-se aos gatos de Baudelaire que "procuram o silêncio e o horror das trevas". Há aqui algo como a lembrança do que descreveu após ser gravemente ferido em seu último combate: "Dessa vez não tinha mais jeito. No instante em que me senti atingido, compreendi que a bala tinha cortado a vida pela raiz (...). E, estranhamente, esse momento foi um dos raros que posso dizer terem sido realmente felizes. Entendi nesse segundo, como um raio, minha vida em sua estrutura mais secreta. Eu sentia uma surpresa incrédula de que ela devesse terminar nesse lugar preciso, mas essa surpresa estava marcada por uma grande alegria". Essa celebração da morte, como espetáculo e como prazer, celebração espantosa aliás num homem de longevidade excepcional, faz eco a alguns textos de Nietzsche, cuja influência na Alemanha foi imensa. Mas, para o caso de Jünger, ela ultrapassa largamente o nível do fantasmagórico ou do jogo do pensamento, pois se alimenta do vivido de uma experiência ao mesmo tempo pessoal e coletiva, muito próxima do indizível, e que procura, entretanto, comunicar-se.
Não se compreende verdadeiramente essa paixão pela morte, se não se apreende a sua dimensão erótica. Eros e Tanatos, vida e morte, estão intimamente emaranhados. Só há vida pela morte. Na guerra moderna, "a destruição atinge de repente o indivíduo em instantes preciosos em que ele está submetido a um máximo de exigências vitais e espirituais". Ao seu contato, os homens sentem estremecer neles o "grande ritmo da vida". É na extrema proximidade da morte, do sangue e da terra, que "o espírito se reveste dos traços mais duros e das cores mais profundas (...). A irrupção do elementar surge como uma dessas devastações onde se dissimula uma passagem. Quanto mais impiedosa a labareda, mais ela destruirá profundamente a herança do passado, mais a nova ofensiva será móvel, animada e sem escrúpulos". Na proximidade da morte há um paroxismo, um grau orgíaco, que Jünger menciona, de forma abstrata, em Le Travailleur [O Trabalhador] mas que descreve em outras passagens com muito mais precisão.
É nos momentos em que a morte se mostra mais ávida, na hora das guerras, das revoluções, das grandes epidemias, que se manifesta a exasperação de uma sexualidade selvagem. A volúpia da morte, a volúpia do sangue se assemelham, de fato, à volúpia do amor rodeado pelos vapores do álcool. “Quanto mais longa é a guerra, mais profunda nela a marca do amor sexual". Homens e mulheres participam dessa erotização. Os encontros são fortuitos, até brutais, reunindo por exemplo um estudante alemão e uma camponesa da Picardia, cujo marido está no front ou então no fundo de uma tumba, e que acalma sua angústia no rápido encontro com o ocupante estrangeiro. A prostituição ocupa um grande espaço nesses jogos de sexo e de morte, cuja onipresença autoriza a suspensão das interdições. Os militares podem então passear nas ruas das lanternas vermelhas, e gozar das prostitutas, "flores de lótus" do asfalto de Bruxelas ou de Lille. Esse erotismo é o mesmo do estupro, sugerido em alguns trechos nos quais Jünger evoca as horas em que ele e seus camaradas percorriam as ruas das cidades e vilarejos estrangeiros como “lansquenets do amor, sedentos de tudo o que lhes caía na mão, porque não tinham nada a perder (...). Viajantes errantes no caminho da guerra, eles as possuíam com mão firme e sem muito sentimento (...). Colhiam ao mesmo tempo a flor e o fruto, pois lhes era necessário achar o amor onde ele se mostrava sem véus".
Essa sexualidade selvagem se reveza com uma sexualidade agora sublimada, cujo objeto são mulheres de sonhos. No romance intitulado Lieutenant Sturm [O tenente Sturm], Jünger evoca essas narrativas que acalentam os jovens oficiais no fundo das trincheiras. Mulheres sem rosto se sucedem: passantes, prostitutas vestidas de seda e envolvidas em perfume, jovens em jardins de verão. Todas oferecidas ao desejo e todas anônimas. Mulheres e combatentes participam de uma mesma desumanização. Mas isso porque seu encontro expressa a extrema proximidade da vida e da morte. Em seu estudo sobre os fantasmas masculinos ligados ao fascismo, que evidencia o inconsciente da política, Klaus Theweleit, que cita muito Jünger, analisou detalhadamente essas múltiplas imagens de mulheres, onde cada uma forma estereótipos complementares uns dos outros. Não se poderia, entretanto, reduzir esses textos de Jünger à expressão de um misticismo guerreiro, nem mesmo à apologia do culto da morte.
A paixão pela morte como paixão política
Na maneira pela qual Jünger fala da guerra manifesta-se, seguramente, uma estética da morte presente até nos seus textos mais críticos em relação ao nazismo e à Segunda Guerra Mundial, tanto em Sur les falaises de marbre quanto em La paix. A guerra é o inferno. Mas na Divina Comédia, são os cantos dedicados ao Inferno, ao pintar o atroz e o horror, os mais belos. Essa referência a Dante, em Jünger, é recorrente. Ela justifica a complacência em achar palavras para representar o intolerável, o polimento de um estilo onde reina a metáfora, e que priva o leitor de qualquer possibilidade de identificação. A escolha das palavras, a escolha das imagens constroem um sentido, eliminam ou minimizam a angústia, o desespero, o caos. É esta estetização assim como a fetichização da técnica, que serviram de argumento a Walter Benjamin, para ver em Jünger, pelo menos no Jünger de Mobilisation totale um teórico do fascismo. "Essa nova teoria da guerra, que estampa a marca da origem mais grosseiramente decadente, nada mais é do que uma transposição sem limites das teses da arte pela arte para o domínio da guerra". Levando-se em conta o conjunto da obra de Jünger, não é aplicável a categoria benjaminiana de "estetização do político", completamente pertinente, em contrapartida, para caracterizar as cerimônias do fascismo.
A dimensão estética é essencial na relação de Jünger com a guerra, mas é uma dimensão que se quer apolítica. Nesse sentido, ainda que ele se utilize ao mesmo tempo do expressionismo e do futurismo, naquilo que aparece à primeira vista como apologia de um apocalipse bem ordenado, ele se mantém a igual distância de um e de outro. É difícil, se não impossível, propor uma interpretação política única das teses de Jünger. Pode-se achar em Le Travailleur, por exemplo, tanto o elogio da técnica em suas formas industriais e militares quanto sua crítica radical. Tratando-se do fascismo, sua mística guerreira foi a de brigadas de franco-atiradores, e entretanto ele próprio teve nelas apenas um breve contato. Decididamente anti-burguês, anti-democrata e hostil à República de Weimar, ele se aproximou durante alguns anos do que se chamou de nacional-bolchevismo. Ele jamais aderiu ao partido nazista. Em 1927, recusa um posto de deputado no Reichstag, abandona alguns anos depois a Sociedade dos autores, tão logo esta exclui seus membros judeus. Ele provoca a hostilidade de Goebbels. O lançamento do Travailleur, em 1932, suscita o seguinte comentário no Völkischer Beobachter, órgão da imprensa nazista: “Jünger se aproxima da zona de balas na cabeça". Se é inegável, como o mostrou Lukács, existir em Jünger uma forma militante da Filosofia da Vida que "fornece o fundamento da demagogia social irracionalista" e conduz à teoria fascista, Jünger não é diretamente um teórico fascista. Ele também não soube ser um oponente declarado. Se, durante a Segunda Guerra Mundial, ele procurou proteger alguns indivíduos isolados (em particular judeus), sempre foi com muita hesitação, medo e ceticismo. Isolado, o guerreiro impetuoso não tem muita coragem.
É precisamente nisso que a paixão pela morte atinge em Jünger uma dimensão social e política. Em Bellone ou la pente de la guerre [Bellone ou a inclinação para a guerra] Roger Caillois distingue entre a guerra, "luta coletiva, organizada e metódica", e o puro e simples recurso às armas. A guerra, ele precisa, "não é uma simples luta armada, mas uma iniciativa organizada de destruição". A guerra somente autoriza a conscientização e a satisfação da paixão pela morte por ser um fenômeno coletivo no qual o indivíduo se funde à massa. Jünger constata isso no instante que antecede a batalha: "cada um sentiu nesse momento desaparecer tudo que lhe era pessoal, e o medo saiu dele", da mesma forma que Ernst Weiss. Ainda mais, a paixão pela morte só pode legitimamente se desenvolver respeitando-se estritamente as regras da guerra, sem o que não se trata de guerreiros, mas desses que ele - em seu Premier [Primeiro] e Second Journal parisien [Segundo Diário Parisiense], e em Sur les Falaises de marbre - chama de “lêmures", ou seja, os nazistas. Somente a situação codificada e regulamentada da guerra autoriza a liberação da pulsão de morte. Toda pilhagem, toda destruição gratuita, todo ato de sadismo é indigno do soldado, e não poderia deixar de ter conseqüências funestas.
Ora, o código guerreiro é um código político. Seu desaparecimento anuncia o caos. Não sobra mais nada também da estratégia. "A mesa onde estava o tabuleiro de xadrez foi derrubada (...). O caos se aproximava, com novas dimensões nas quais Clausewitz algum jamais havia pensado". Apenas regras políticas permitem a suspensão da censura que pesa sobre sentimentos difusos e polivalentes; Norbert Elias mostrou em O Processo Civilizador (Uma História dos Costumes) como estes se transformaram em objeto de limitações e proibições cada vez mais severas da Idade Média aos nossos dias. A expressão e a satisfação dos desejos que acompanhavam tais sentimentos ficaram reservados a um grupo limitado com um status de casta: o dos cavaleiros, cuja continuação se deu no corpo de oficiais do exército profissional.
Porém, ressalta Jünger, a Guerra de 1914 opera uma "democratização da morte". Todos estão submetidos ao anonimato dos mesmos perigos. A morte não distingue mais combatentes e não combatentes. "As nuvens mortais de gás se estendem sobre tudo o que vive com a indiferença de um fenômeno meteorológico (...), a criança no berço está ameaçada como todo mundo, e mais ainda do que qualquer outro". Não há mais privilégio de classes ligado à guerra. Cada um é igualmente soldado. Com o declínio e mesmo desaparecimento da casta guerreira, "a defesa armada do país não é mais obrigação e privilégio apenas de soldados profissionais; torna-se um encargo para todos aqueles capazes de portar armas". A economia transforma-se numa economia de guerra e, finalmente, guerra e processo de trabalho confundem-se. Jünger compara os soldados da Primeira Guerra Mundial aos lansquenets, corpo de elite devoto e disciplinado, criado no século XV por Maximiliano de Habsburgo, organizado segundo uma ordem racional e animado por um verdadeiro espírito cívico. Roger Caillois vê nesse corpo de lansquenets o esboço de um exército da democracia. O reverso da democracia, com o desaparecimento da casta guerreira, não seria a nação em armas, o soldado-cidadão, a possibilidade para a massa de ter acesso a essa paixão pela morte?
A leitura dos textos de Jünger sobre a guerra e a morte permite abordar fenômenos que nos parecem ainda mais obscuros por serem normalmente objeto de uma censura severa ou, no mínimo, de uma patologização. As lógicas da guerra são múltiplas. Mas não haveria guerra sem paixão pela morte, ainda que vista como paixão vergonhosa, cujo desencadeamento autorizado por políticas acaba por destruir o político.”
(Sonia Dayan-Herzbrun, A Paixão pela Morte como Paixão Política na Obra de Ernst Jünger)

Tradução de Thomas Taborga

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A paixão pela morte como paixão política na obra de Ernst Jünger (I)

“A idéia da morte é o centro da obra do ensaísta e romancista alemão Ernst Jünger. Parece, entretanto, paradoxal falar de sua paixão pela morte como paixão política, quando ele próprio se define como um "anarca", um artista não engajado, "antes de tudo responsável perante sua obra e não perante tal ou qual orientação política". Se auto-descrevendo através de Manuel Venator, o herói de seu livro Eumeswil, Jünger precisa: "Eu não sou oblíquo, mas reto - não comprometido com a direita ou a esquerda, nem com o alto ou o baixo, nem com o Ocidente ou o Leste, mas sim em equilíbrio. Certamente eu me ocupo dessas oposições, mas apenas historicamente, sem aplicação atual: eu não sou engajado". Assim definido, o anarca, homem livre por excelência e logo eminentemente solitário, opõe-se ao anarquista "parceiro do monarca que ele sonha em destruir". À paixão do poder, o anarca opõe a paixão do observador, botânico, como o herói das Falaises de marbre [Falésias de mármore] entomologista como o foi o escritor, ou ainda historiador. Jünger pretende se ligar ao apolitismo que percorre a tradição alemã desde Goethe, que leva a se interessar pelo mundo como representação e não como vontade. Entretanto, a despeito de todas as suas negações, sua relação passional com a morte é de fato uma relação política, da qual convém destrinchar as implicações e os resultados.
Jünger descobre a paixão pela morte por ocasião de sua experiência como combatente na Primeira Guerra Mundial, "o mais considerável e o mais decisivo acontecimento da nossa época". O espetáculo da guerra, que lhe foi então revelado, assemelha-se ao dos vulcões cuspindo fogo. É nessa fúria ardente da cratera que "irrompe a paixão no seu sentido pleno". Jünger está longe de ser o único a ter experimentado, nas mesmas circunstâncias, emoções de uma tal intensidade. Tanto do lado alemão como do francês, as lembranças concordam. Um oficial francês se recorda de seu entusiasmo ao aproximar-se da zona de combate: "Ah! como a vida nos parecia mais bela, agora que de novo a morte nos ameaçava mais de perto e que voltava a esperança da luta aberta, dos golpes diretos, da batalha de fato!". Ele descreve a vida na linha de fogo nos seguintes termos: "Essa vida que nunca deixa o cérebro vazio, que tensiona as artérias e faz bater mais forte o coração". Ernst Weiss, o amigo de Kafka que se suicidou em 1940 em Paris, onde estava em exílio e em "trânsito", segundo a expressão da romancista Anna Seghers, depõe de forma análoga. Ele faz seu herói em Témoin oculaire [Testemunha ocular] - um médico alemão que, durante a guerra de 1914-1918 adere a uma unidade de combate, ao invés de entrar numa unidade de salvamento - escrever: "É preciso ter vivido uma vez o que é o outro, o que as gerações primitivas conheceram e gostaram há milênios, é preciso ter combatido uma vez à baioneta, feliz por estar lutando (...). O interior, a SENSAÇÃO DE ESMAGAMENTO, a esplêndida pulsão animal, a felicidade bárbara, a embriaguez bárbara, isso não se pode descrever".
A paixão pela morte
Da carreira militar do oficial-escritor Jünger, todos concordam em dizer que foi exemplar. Ele tinha, com 18 anos, manifestado seu gosto pela aventura guerreira escapando até Oran e Sidi-Bel Abbès para se unir à Legião Estrangeira. Após cinco semanas, seu pai conseguiu repatriá-lo. Um ano mais tarde, em 1914, depois de concluir o segundo grau em regime de urgência, e assim ter concluído seu contrato com o pai, alista-se como voluntário e irá combater na frente de batalha da França, até 1918. Será ferido 14 vezes e condecorado com a mais alta distinção alemã, a ordem "Honra ao Mérito", criada por Frederico II. Ele terminará a guerra como lieutenant, nas tropas de choque. Durante todos esses anos ele mantém um diário, que publicará e utilizará em diversas obras. De uma certa maneira, pode-se mesmo considerar que a referência a essa experiência, a Primeira Guerra Mundial, crucial para Jünger como para muitos outros, percorre, como um fio vermelho, todo o conjunto de sua obra.
Estourando numa época quando, exceto "algumas expedições de pilhagem e algumas guerras coloniais, os povos puderam gozar de um período de paz relativamente longo (...), a guerra mundial foi uma das guerras mais populares que a história já conheceu". Popular pela dimensão das massas em ação de um lado e do outro do oceano, por discursos brutais, grosseiros mas eficazes, semelhantes a essas “iscas multicoloridas que se utilizam nas caçadas de tocaia, para direcionar a caça em direção ao campo de mira dos fuzis”. Popular pela intensidade da mobilização em que "toda existência é convertida em energia", não apenas nas primeiras idas ao front, mas pelo vivido no combate, que faz brotar afetos complexos e múltiplos relacionados ao que Freud chamou de pulsão de morte. A leitura e a análise dos textos de Jünger permitem definir os aspectos sociais e políticos desta noção, e compreende-se que ela somente pôde ter sido forjada após a experiência coletiva desta guerra.
Jünger a descreve, de fato, como puro vínculo com a morte. Nessa medida, ela transborda o político, pois faz sentido em si mesma. Em Verdun e em Flandres, "a fuzilaria tinha se tornado um absoluto". A narrativa intitulada Orages d'acier [Tempestades de aço], que tenta dar conta desses tempos em que a morte festejava seus "triunfos inauditos", adota uma cronologia inteiramente marcada pelas batalhas e movimentos das tropas, interrompida apenas por uma folga ou por uma estada no hospital. Os acontecimentos externos praticamente não intervêm. A guerra não é confrontada à vida civil, a não ser por alusões às leituras do jovem tenente: Villon, Rabelais, o Tristam Shandy de Sterne, com o qual ele se refere ao outono de 1918. Ela parece também acontecer independentemente do mundo ou do tempo das políticas.
Pouco importam finalmente o inimigo ou as razões da guerra. A maioria dos jovens alemães indo para o front quase não pensava nisso. Se alguém os interrogasse, "raramente teria ouvido que o combate contra a barbárie e a reação, ou pela civilização, pela libertação da Bélgica ou a liberdade dos mares era justo". "O essencial não é pelo que combatemos, mas a maneira como combatemos (...). É esse o termo que nos faz vencer ou morrer. O ser do guerreiro, o envolvimento da pessoa pesam mais do que todas as cogitações sobre o bem ou o mal". Esse tema retorna recorrentemente em toda a obra de Jünger, enriquecido com os anos de múltiplas reflexões. Ele chega a ver na Primeira Guerra Mundial, e a fortiori na Segunda, guerras não nacionais, mas civis, e em dimensões planetárias. O sentimento nacional é apenas um pretexto para a paixão assassina. Jünger toma consciência disso muito cedo: "Eu tinha matado, não posso negar, e não para me defender mas como agressor. Eu devia também admitir que todos os ideais nacionais e heróicos que até então me haviam animado, nesse estado de paixão, já se tinham evaporado como gotas d´água sobre ferro em brasa".
É o mesmo combatendo o mesmo, um e outro soldados desconhecidos sem nome e sem rosto. Quando o inimigo adquire um rosto, vira uma pessoa, possui uma história, torna-se impossível matá-lo. A fúria guerreira se dissipa, como experimentou Jünger na hora da grande ofensiva de 21 de março de 1918. "Eu avançava furiosamente”, conta, “pelo solo negro arado pelas balas, onde ainda se encontrava a fumaça dos gases asfixiantes de nossos obuses (...). Foi então que me deparei com o primeiro inimigo. Um vulto de uniforme marrom estava de cócoras a vinte passos na minha frente, no meio da depressão, canhoneado pela fuzilaria intermitente, as mãos apoiadas no chão. Nós nos percebemos quando me virei de repente. Eu o vi se assustar; manteve os olhos fixos sobre mim, enquanto me aproximava com a arma apontada. Ele devia ter comandado essa seção da trincheira, pois vi condecorações e insígnias hierárquicas na túnica pela qual o agarrei. Com um gemido, levou sua mão ao bolso para tirar, não uma arma, mas uma foto. Ela o mostrava num terraço, cercado de numerosa família. Depois, considerei uma grande alegria ter me dominado e seguido adiante. Exatamente esse adversário me apareceu com freqüência em sonhos. Isso me fez ter esperanças de que os que me seguiam também o tenham poupado”.
Assim, a guerra só é absurda se a confrontarmos a uma lógica externa. Ela possui uma coerência própria. Mas é preciso que ela respeite essa coerência, senão corre o risco de cair no puro desencadeamento da violência e do caos, como ocorreu na seqüência histórica do século XX. A coerência não exclui o sofrimento nem o horror dos campos de batalhas, das aldeias devastadas e dos hospitais de campanha. O medo, que torce as tripas e esvazia o intestino, mistura-se à excitação da caçada. “Treme-se sob o efeito de dois sentimentos contraditórios: a emoção do caçador levada a seu extremo, e a angústia da caça. A gente é um mundo para si, impregnado desse estado de espírito sombrio e assustador que pesa no terreno deserto". Atravessada pelos vapores dos explosivos e dos gases asfixiantes, rodeada de sangue, de excrementos, de construções em chamas e de cadáveres em decomposição, a guerra tem seu odor próprio, pesado, adocicado, nauseabundo. Esse cheiro desperta "uma exaltação quase visionária, como apenas a presença próxima da morte pode produzir". O horror e o desespero, por mais fortes sejam, não deixam de ser uma das dimensões da paixão pela morte. Esta se manifesta no prazer em ir à luta e matar, na fascinação por aquilo que morre ou acabou de morrer, mas também na felicidade de morrer.
A volúpia do sangue
Diferentemente de outros escritores, Jünger ocupa-se menos do prazer de matar do que da embriaguez do combate, no momento em que o medo desaparece, quando cada soldado se funde com a massa. "A morte tinha perdido seus horrores, a vontade de viver repousava sobre um ser maior que nós, e isso nos tornava cegos e indiferentes ao nosso destino pessoal". A fúria cresce, qual uma tempestade, e com ela a força do combate. “Ela chegava com tanto vigor que um sentimento de felicidade, de serenidade me possuía. O imenso desejo de destruição que pesava nesse campo de morte se concentrava nos cérebros, mergulhando-os numa névoa vermelha. Soluçando, balbuciando, nós nos falávamos frases incompletas, e um espectador desavisado poderia imaginar que sucumbíamos perante o excesso de felicidade". Parece que o soldado, após superado seu medo, experimenta uma verdadeira embriaguez, muito mais possante do que a provocada pelo álcool. Ele descobre em si o sentimento de abrigar inconscientemente forças brutais e insondáveis. “É a volúpia do sangue que flutua acima da guerra como uma onda vermelha sobre um navio sombrio”.
As casas queimadas onde uma carniça apodrece, os objetos familiares despedaçados, os jardins abandonados esburacados pelos obuses, as árvores frutíferas quebradas, constituem uma paisagem sombria e fantástica, provocando horror no observador que, entretanto, não consegue desviar seu olhar. "Eu vinha freqüentemente aqui e pensava naqueles que, ainda recentemente, poderiam ter levado uma existência pacífica". A referência a toda uma tradição romântica de estetização da morte fica patente. Essa estética não deixa de lembrar a dos poetas e pintores expressionistas de Berlim que, tendo em primeiro plano Meidner, às vésperas do conflito representavam cenas de apocalipse, verdadeiras premonições da carnificina que não demoraria a se produzir.”
(Sonia Dayan-Herzbrun, A Paixão pela Morte como Paixão Política na Obra de Ernst Jünger)

Tradução de Thomas Taborga

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Theodore Dalrymple sobre Rousseau

“Rousseau difundiu a idéia de que o ser humano é naturalmente bom, e que a sociedade o corrompe. Eu não sou religioso, mas considero a visão cristã de que o homem nasce com o pecado original mais realista. Isso não significa que o homem é inevitavelmente mau, mas que tem de lutar contra o mal dentro de si. Por influência de Rousseau, nossas sociedades relativizaram a responsabilidade dos indivíduos. O pensamento intelectual dominante procura explicar o comportamento das pessoas como uma conseqüência de seu passado, de suas circunstâncias psicológicas e de suas condições econômicas. Infelizmente, essas teses são absorvidas pela população de todos os estratos sociais. Quando trabalhava em prisões, com freqüência ouvia detentos sem uma boa educação formal repetindo teorias sociológicas e psicológicas difundidas pelas universidades. Com isso, não apenas se sentiam menos culpados por seus atos criminosos, como de fato eram tratados dessa maneira. Trata-se de uma situação muito conveniente para os bandidos, pois permite manter a consciência tranqüila. Podem dizer que roubam porque não tiveram oportunidades de estudo, porque nasceram na pobreza ou porque sofreram algum trauma de infância, entre outras desculpas. "Enquanto a sociedade não mudar, não se pode esperar que eu me comporte de outra forma", tal é o discurso corrente entre os presos.”
(Theodore Dalrymple, em entrevista à revista Veja de 17.08.2011)