segunda-feira, 29 de junho de 2015

Materialismo e liberdade

"Quando o materialismo leva o homem ao completo fatalismo (como geralmente acontece), é inútil fingir que ele é, em qualquer sentido, uma força libertadora. É um absurdo dizer que você se torna sensivelmente mais livre quando usa o livre pensamento apenas para destruir o livre arbítrio. Os deterministas vieram amarrar, não soltar. Eles podem muito bem chamar sua lei de "corrente de causalidade". É a pior corrente que já prendeu um ser humano. Se quiser, você pode falar de liberdade no discurso materialista, mas isso seria tão obviamente inaplicável quanto falar da mesma liberdade para um homem preso num hospício. Se quiser, você pode dizer que um homem é livre para achar que é um ovo cozido. Porém, com certeza o fato mais colossal e importante é que, como um ovo cozido, ele não é livre para comer, beber, dormir, andar ou fumar um cigarro. Da mesma forma, você pode dizer que o cético corajoso e determinista é livre para não acreditar na realidade da vontade. Mas é um fato muito mais colossal e importante que ele não é livre para se levantar, praguejar, agradecer, justificar-se, exortar, punir, resistir tentações, incitar revoltas, fazer resoluções de ano-novo, perdoar os pecadores, derrubar tiranos, ou mesmo dizer 'obrigado' pela mostarda."
(Gilbert Keith Chesterton, Orthodoxy)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Do mal, o pior


“É certo: o mais grave da recente encíclica não reside na adoção de uma controvertida hipótese científica que nem sequer roça nos conteúdos da fé e da moral cristã, nem no emprego – claramente abusivo – de um instrumento do Magistério para convencer os homens que separem o lixo orgânico do inorgânico ou que evitem desperdiçar eletricidade, nem na cansativa transcrição de páginas inteiras do manual escolar de ciências naturais. Tudo isso não é pouco, e em todo caso assinala o paroxismo de um “estilo” adotado pelos últimos pontífices, que já se distingue decididamente do que antes se conhecia como “carta encíclica”. Esta, que não significou senão a adaptação aos tempos instáveis do que outrora foram as bulas pontifícias, aparece depois do Iluminismo como um instrumento para equipar as consciências cristãs – estendido já o alfabetismo e a pública propaganda de opinião – com uma bagagem com a qual enfrentarem os ataques das “Luzes” e do racionalismo. Temos lido por aí que
as encíclicas do século XIX e do começo do século XX são lúcidas e claras. Seu propósito é expor a doutrina católica e defendê-la dos erros modernos, coisa que cumpriram admiravelmente. Rememorando documentos como a Pascendi, Quas Primas, Casti Connubii e outros, pode-se imediatamente recordar a essência dos mesmos e a força de seus argumentos. Pio XII ensinava que a encíclica era o meio normativo pelo qual o Romano pontífice exercia seu ofício de ensinar. Não se pode dizer o mesmo das modernas encíclicas: quem poderia resumir facilmente de que tratam a Redemptor Hominis ou a Populorum Progressio senão nos termos mais vagos?
Em essência, a encíclica pós-conciliar não sabe o que quer ser à medida que se vai desenvolvendo. Os papas continuaram a utilizá-la como um meio de ensinamento, mas em vez de ensinar em
que consiste a doutrina católica, [as encíclicas] esse tornaram cada vez mais na ocasião para que os papas expliquem por que a doutrina católica é o que é.
Isso não é inteiramente mau:
fides quaerens intellectum, certo? Mas em algum ponto do caminho parece que os papas deixaram perder o aspecto declarativo da encíclica com a esperança sobremaneira otimista de que se pudéssemos somente explicar nossa doutrina ao mundo – simplesmente fazendo-os caminhar através de nossos pensamentos, passo a passo – então talvez o mundo aceitaria a mensagem cristã. Talvez se apenas “propuséssemos” humildemente nossa razão para crer em vez de declarar que “possuímos” a verdade, não nos mostraria o mundo sua reciprocidade, não entraria em um “diálogo frutífero” com o cristianismo de maneira que nos enriqueceríamos mutuamente?
Com quanta razão expunha então Rafael Gambra que “a nebulosa dogmática destes tempos dá lugar a uma comunidade no afazer pelo bem da humanidade, pacífica e feliz, a cuja consecução a Igreja parece dirigir todos seus esforços e prédicas. Prédicas que deixam de ser exposição dos ensinamentos eternos que elevam à contemplação de Deus para se tornarem informações sobre o estado do mundo e chamamentos à ação”. Isso, evidente nos abortos assinados pelas Conferências Episcopais, não deixava de sê-lo – embora com algum decoro proporcional à investidura – nos documentos papais do pós-concílio. Francisco herda esta propensão verborrágica e a leva ao cúmulo – leia-se: ao delírio da embriaguez.
Mas então não: já não é o consabido risco do errar por falar demais, nem o de malbaratar os conteúdos da fé em um impossível diálogo com esse mundo que – testemunha a Escritura - “jaz sob o poder do Maligno”. Não são nem sequer os solecismos e os tropeços argumentativos recorrentes em um pontífice que não nasceu para doutor: o mais grave da ecoencíclica é essa igualação de todas as religiões sugerida pela dupla oração final, uma para uso dos católicos e outra para o resto. Igualação antecipada em pontos como o 62 (“não ignoro que, no campo da política e do pensamento, alguns rejeitam com força a idéia de um Criador ou a consideram irrelevante, até o ponto de relegar ao âmbito do irracional a riqueza que as religiões podem oferecer...”), nos quais fala em defesa de todas as religiões em seu conjunto, como advogado de todas elas. Ou o 217, no qual insta “alguns cristãos comprometidos e orantes” a uma “conversão ecológica” que complementaria as deficiências do Evangelho. Enfim, por toda síntese das bondades que devem ser reconhecidas na doutrina de Jesus, brilha uma citação lapidar: “a espiritualidade cristã promete um modo alternativo de entender a qualidade de vida” (222).
É evidente que a todas essas bobagens nos tem acostumado através de seus sermões diários e das entrevistas que concede para escândalo das consciências católicas. Mas não bastava que um pontífice falasse como superior do Grande Oriente: era mister que – por aquilo de que scripta manent – desse a conhecer sua mensagem por escrito. Assim há de agradar à Autoridade política mundial evocada no ponto 175 (a quem o autor da Laudato sii morre de vontade de secundar como xamã), que sem dúvida prefere ver ratificado no papel, convalidado pela imprensa vaticana, aquele velho projeto da fusão de todas as crenças.”

http://in-exspectatione.blogspot.com.br

terça-feira, 23 de junho de 2015

O que devemos pensar sobre a Fraternidade São Pedro?

“Desde a introdução dos novos ritos sacramentais, Roma não havia permitido a nenhuma fraternidade ou congregação religiosa o uso exclusivo dos ritos antigos. Então, em 30 de junho de 1988, o arcebispo Dom Lefebvre consagrou quatro bispos para garantir a sobrevivência do sacerdócio e dos sacramentos tradicionais e especialmente da missa tradicional em latim.
De repente, no prazo de dois dias, o Papa João Paulo II reconheceu (Ecclesia Dei Afflicta, 02 de julho de 1988), a “legítima aspiração” (ao tradicionalismo) daqueles que não apoiassem a posição de Dom Lefebvre e ofereceu dar a eles o que sempre houvera recusado ao arcebispo. Cerca de dez padres da FSSPX aceitaram esta “boa vontade” e se separaram para fundar a Fraternidade São Pedro (FSSP).
A Fraternidade São Pedro está fundamentada sobre princípios mais do que questionáveis, pelas seguintes razões:
1. Ela admite que a Igreja Conciliar tem o poder para:
• desaparecer com a missa de todos os tempos (já que o Novus Ordo Missae não é outra forma dela),
• concedê-la somente àqueles que aceitem as novas orientações da mesma Igreja Conciliar (na vida, crença, estruturas),
• declarar não-católicos aqueles que negam tal poder por palavra ou ação (Uma interpretação de “Todos devem estar cientes de que a adesão formal ao cisma [de Dom Lefebvre] é uma ofensa grave contra Deus e inflige pena de excomunhão.Ecclesia Dei Afflicta), e,
• professar-se de certa maneira em comunhão com quem quer que se chame “cristão”, e ainda assim declarar-se fora da comunhão com os católicos cujo único crime é o de quererem permanecer católicos (Vaticano II, e.g., Lumen Gentium, § 15; Unitatis Redintegratio § 3º).
2. Na prática, os padres da Fraternidade, tendo recorrido a um bispo do Novus Ordo disposto a permitir os ritos tradicionais e disposto a ordenar seus candidatos, são forçados a abandonar a luta contra a nova religião que está sendo instalada:
• eles rejeitam o Novus Ordo Missae somente pelo fato de não ser sua “espiritualidade” e reivindicam a missa tradicional em latim somente em virtude de seu “carisma”, reconhecido pelo papa,
• eles procuram estar em boa relação com os bispos locais, elogiando-os ao menor sinal de espírito católico e silenciando sobre seus desvios modernistas (a menos talvez no caso de uma diocese onde eles não tenham esperanças de conseguirem algo), ainda que, por fazê-lo, acabem incentivando esses bispos em seu caminho errado, e
• observe, por exemplo, a aceitação de todo o coração pela Fraternidade do (Novo) Catecismo da Igreja Católica, a aceitação de professores do Novus Ordo em seus seminários, e aceitação dissimulada da ortodoxia do Vaticano II.
Eles são, portanto, católicos conciliares e não, católicos tradicionais.
Sendo assim, assistir às suas missas significa:
• aceitar o compromisso sobre o qual eles se baseiam,
• aceitar a direção tomada pela Igreja conciliar e a conseqüente destruição da Fé e das práticas católicas, e
• aceitar, em particular, a solidez legal e doutrinária do Novus Ordo Missae e do Vaticano II.
É por isso que um católico não deve assistir às suas missas.”
(F.S.S.P.X, What Are We to Think of the Fraternity of St. Peter?)

sábado, 20 de junho de 2015

A necessidade das paixões

"O ser humano não consegue viver sem paixão. E a paixão é o estado no qual todos os seus sentimentos e idéias se encontram no mesmo espírito. Tu podes pensar, quase ao contrário, que é o estado em que um sentimento se torna todo-poderoso, um único sentimento que atrai a si todos os outros - um arrebatamento! Não, não querias dizer nada? Seja como for, é assim. Também é assim. Mas a força de uma tal paixão é imparável. Os sentimentos e as idéias só ganham continuidade quando se apóiam uns nos outros, na sua totalidade, têm de se orientar no mesmo sentido e arrastam-se uns aos outros. E o ser humano tenta por todos os meios, pela droga, pela ilusão, pela sugestão, pela crença, pela convicção, por vezes apenas recorrendo ao efeito simplificador da estupidez, criar um estado semelhante àquele. Acredita nas idéias, não por elas às vezes serem verdadeiras, mas porque tem de acreditar em alguma coisa. Porque tem de manter os afetos em ordem. Porque tem de tapar com alguma ilusão o buraco entre as paredes da vida, para não deixar que os seus sentimentos se espalhem ao vento. O caminho certo seria o de, em vez de se entregar a estados ilusórios, procurar pelo menos as condições da autêntica paixão. Mas, feitas as contas, embora o número de decisões que dependem do sentimento seja infinitamente superior ao daquelas que se podem tomar com a pura razão, e todos os acontecimentos decisivos para a humanidade nasçam da imaginação, só as questões da razão se mostram ordenadas de forma suprapessoal; para o resto, nunca se fez nada que mereça o nome de esforço comum ou que sugira sequer a consciência da sua desesperada necessidade."
(Robert Musil, Der Mann ohne Eigenschaften)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Por trás do encontro do Papa com Raúl Castro

“A cordialidade e hospitalidade que o papa Francisco mostrou a Raúl Castro no Vaticano há alguns dias deixou atônitos muitos católicos, e com razão. O ditador foi a Roma para polir sua imagem, e o Pontífice o ajudou.
Durante o encontro, Castro zombou da fé ao brincar que se o Papa se comportasse bem, ele poderia regressar à Igreja católica. Também zombou de todos os refugiados cubanos, vivos ou mortos, ao presentear o Papa com uma peça de arte que mostrava um migrante rezando.
O papa Francisco deu ao ditador uma cópia de sua exortação apostólica de 2013 intitulada A alegria do Evangelho, na qual critica duramente a liberdade econômica. É como pregar aos devotos. Como disse Raúl, "Ele é jesuíta e eu também fui a uma escola jesuíta." É sério.
Sempre é possível que o papa Francisco busque aproximar-se do regime para mudá-lo. Talvez tenha em mente uma versão espiritual do Cavalo de Tróia, que após cruzar as portas do inferno cubano descarregue um exército de anjos.
Com Deus todas as coisas são possíveis, mas suspeito que esta reconciliação com Castro tenha raízes mais mundanas.
O Santo Padre é um filho da Argentina do século XX, definida ideologicamente pelo nacionalismo, pelo socialismo, pelo corporativismo e pelo sentimento antiestadunidense. Não me estranharia descobrir que estas tendências influem em suas opiniões sobre os Estados Unidos e a ilha a 144 quilômetros de suas costas.
Quando a ditadura cubana perdeu seu mecenas soviético no começo da década de 90, quase entrou em colapso. No ano passado, os profundos problemas econômicos voltaram a dar a aparência de que obrigariam uma mudança. À medida que diminuíram os subsídios petrolíferos venezuelanos a La Habana, o podre sistema da ilha ficou à beira do colapso.
Era uma oportunidade para que a Igreja mostrasse solidariedade com o indefeso povo cubano, ou pelo menos tomasse partido. Em vez disso, o Vaticano interveio para ajudar os Castro. Em dezembro nos inteiramos de que o papa Francisco negociou o descongelamento das relações entre Obama e Castro, que, embora seja improvável que gere melhoras nos direitos humanos, já está gerando um renovado interesse em investir com o governo militar.
Alguns católicos trataram de escusar a hostilidade do Papa à liberdade econômica em A alegria do Evangelho argumentando que ele cresceu em uma economia corrupta dirigida pelo Estado e, provavelmente, a confundiu com um sistema capitalista. É um disparate. O estatismo argentino explicitamente denuncia a economia de mercado.
Há outra explicação mais plausível sobre por que o Papa mostra seu desdém em sua exortação por uma "crua e ingênua confiança na bondade dos que possuem poder econômico e no funcionamento sacralizado do atual sistema econômico". Ela se encontra na convicção argentina de superioridade cultural sobre os capitalistas do norte obcecados por dinheiro e sua fé no Estado para protegê-la.
O historiador mexicano Enrique Krauze rastreia sua origem em uma rejeição intelectual aos EUA depois da derrota espanhola na guerra hispano-estadunidense de fins do século XIX. Os exemplos que cita em Redentores, seu livro de 2011, incluem o poeta nicaragüense Rubén Dario e o historiador franco-argentino Paul Groussac, que caracterizaram os estadunidenses como bestas incivilizadas. Ao mesmo tempo, segundo Krauze, o Cone Sul, e a Argentina em particular, importaram a idéia de um "socialismo que luta para melhorar o nível econômico, cultural e educativo dos pobres, enquanto gera um estado nacionalista".
Em 1900, o uruguaio José Enrique Rodó publicou Ariel, no qual enfatiza a "superioridade da cultura latina sobre o mero utilitarismo patrocinado" pelo norte. Rodó foi "o primeiro ideólogo do nacionalismo latino-americano", e sua influência se estendeu por toda a região. "O latino-americanismo, especialmente no sul, também foi anti-ianqueísmo", escreve Krauze.
Cuba volta a ser, 115 anos depois, símbolo da luta entre o Norte e o Sul. Muitos intelectuais latino-americanos não gostam da ditadura, mas detestam a riqueza e o poder dos EUA. Sabem que um colapso completo de Cuba provavelmente trará de volta os estadunidenses. É por isso que toleram o status quo.
Só posso especular sobre as opiniões do Santo Padre sobre Cuba, mas se está ganhando uma duvidosa reputação política. Em agosto de 2014 levantou a proibição ao padre Miguel d'Escoto Brockmann, da comunidade Maryknoll, para celebrar missa. O clérigo comunista, que atuou como ministro de Relações Exteriores do sandinismo marxista, foi degradado pelo papa João Paulo II por recusar-se a se afastar da política.
Depois de levantar a proibição, o padre d'Escoto se apressou a denunciar o querido pontífice polaco por "abuso de autoridade". Também declarou Fidel Castro mensajeiro do Espírito Santo na "necessidade de lutar" para estabelecer "o reino de Deus nesta Terra, que é sua alternativa ao império".
Na semana passada, o reverendo Gustavo Gutiérrez, o peruano que lançou a teologia da libertação, regressou ao Vaticano. Disse aos jornalistas que a Igreja nunca condenou seu pensamento e elogiou as idéias do papa Francisco sobre a pobreza. Não mencionou a pronunciada queda da pobreza no Peru desde que as autoridades se desfizeram de suas idéias. Talvez o Papa fale disso durante sua viagem a Cuba em setembro.”
(Mary Anastasia O'Grady, Behind the Pope's Embrace of Castro)

terça-feira, 16 de junho de 2015

sábado, 13 de junho de 2015

Pe. Frederick Faber sobre as indulgências

“Há uma grande conexão entre indulgências e a vida espiritual, e o uso de devoções indulgenciadas é quase um teste infalível de um bom católico... Pois desvalorizar indulgências é um sinal de heresia; e o ódio que a heresia tem por elas é um indício da aversão que o diabo lhes tem, o que, por sua vez, é uma medida do poder das indulgências e de sua aceitabilidade por Deus.”
(Pe. Frederick Faber, C.O, Growth in Holiness)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

domingo, 7 de junho de 2015

Francisco, o núncio e o tirano

“Em um dos mais significativos lances simbólicos da "ostpolitik" vaticana em favor do comunismo cubano, o pontífice Francisco recebeu o tirano Raúl Castro e, em meio a sorrisos e amabilidades mútuas, estreitou largamente suas mãos ensaguentadas, chegando a pedir ao líder comunista que rezasse por ele. É uma cena arrepiante e estarrecedora, diante de Deus e da História, e que marcará de maneira indelével o atual pontificado.
“Como já disse aos dirigentes cubanos, eu leio todos os discursos do Papa e sobretudo os comentários que ele faz. E se o Papa segue falando assim, começarei a rezar e retornarei à Igreja. E não o digo em brincadeira” (Página 12, Buenos Aires, 11/05/2015). Foram estas as frases pronunciadas pelo ditador que mais chamaram a atenção. Para não deixar dúvidas sobre a continuidade de seu efetivo pensamento, o tirano reafirmou sua condição de “comunista, do Partido Comunista de Cuba” (Rádio Havana, Cuba, 10/05/2015). Cinicamente, recordou que os católicos cubanos podem pertencer ao Partido Comunista de Cuba, como se na realidade não fossem posições doutrinárias contraditórias e excludentes. E deixou escapar que havia conversado há pouco tempo com o tristemente celebre Frei Betto, um dos líderes da Teologia da Libertação, amigo pessoal de Fidel Castro e autor do livro “Fidel e a Religião” (Vatican Insider, Roma, 10/05/2015).
A alusão a Frei Betto, feita talvez inadvertidamente por Raúl Castro, é importante para conhecer o pano de fundo das declarações, em Roma, do atual tirano. Frei Betto explicou a Fidel Castro, segundo narra o mencionado livro-entrevista, que a melhor tática com os católicos não era persegui-los e fazê-los mártires, mas integrá-los à revolução comunista em torno a metas supostamente comuns a católicos e a comunistas. Fidel já o intuía. Em discurso na Universidade de Havana, já havia traçado essa maquiavélica retificação: “Não cairemos no erro histórico de semear o caminho com mártires cristãos, pois bem sabemos que foi precisamente o martírio que deu força à Igreja. Nós faremos apóstatas, milhares de apóstatas” (cf. Juan Clark, “Cuba: mito e realidade”, Edições Saeta, Miami-Caracas, 1ª. ed. 1990, páginas 358 e 658). Para por em prática essa retificação estratégica, com a finalidade de fazer apóstatas, se chegou a reformar a própria Constituição comunista para permitir o acesso dos católicos ao Partido Comunista, através do enganoso artigo 54, que assegura o “direito” de “professar” e “praticar” “qualquer crença religiosa” contanto que se faça “dentro do respeito à lei”... comunista. Dessa maneira, a Constituição abria as portas do partido aos católicos revolucionários, que em Cuba chegaram a elaborar uma “teologia da colaboração”. O sacerdote René David, professor de Teologia no Seminário de Havana, no documento “Por uma teologia e uma pastoral da reconciliação em Cuba” fez um chamado a uma “reconciliação entre catolicismo e comunismo” esclarecendo que este último “deve ser considerado como uma ideologia na qual o ateísmo de modo algum é substancial, mas constitui um acidente” (revista "Chrétiens de l'Est, Nº. 51, 3º Tr. 1986, supl. nº.11, pag. 33).
É na perspectiva desse longo processo de convergência comuno-católica que se entende que um líder comunista como Raúl Castro, sem deixar de ser comunista e perseguidor de cristãos autênticos, possa, ao mesmo tempo, chegar a “professar” uma “crença religiosa” que coincida com as metas do comunismo ou, pelo menos, que não se oponha a essa ideologia que é, em seu modo, uma religião satânica, de ódio a Deus e a seus mandamentos.
Então, a condição que está presente nas frases de Raúl Castro acima citadas, para que se concretize sua alegada “conversão” (“... se o Papa segue falando assim...”), suscita o maior estremecimento.
Implicitamente, Castro diz que afirmações de Francisco, que ele se encarrega de ler e de comentar com seus sequazes, estariam indo ao encontro dos objetivos comunistas ou, pelo menos, não entrariam em contradição com eles. Castro estaria eventualmente disposto a retornar à “Igreja” que se apresente diante de seus olhos, e segundo seu modo de ver, como diametralmente contrária à doutrina da Igreja que chegou a declarar que o comunismo é “satânico” e “intrinsecamente perverso” (Pio XI, encíclica Divini Redemptoris).
Sobre a real situação de pressão e miséria em Cuba, recordo, aqui, valentes declarações “politicamente incorretas”, do então núncio em Havana, monsenhor Bruno Musarò, pronunciadas no ano passado em sua região natal, e depois das quais, por coincidência ou não, foi retirado da nunciatura em Cuba e nomeado núncio no Egito: “O Estado controla tudo”, e “a única esperança é fugir da ilha”, explicou Musarò, descrevendo a situação de degradação, penúria e opressão dos cubanos; e concluiu dizendo que, inexplicavelmente, “até hoje, transcorrido mais de meio século, se continua falando da Revolução e a ela se exalta, enquanto as pessoas não têm trabalho e não sabem como fazer para dar de comer a seus próprios filhos” (Lecce News, 28/08/2014).
Todos estes arrepiantes e estarrecedores fatos levantam as mais graves perguntas, não somente sobre o ditador Castro e seus sequazes, senão sobre as intenções de fundo da "ostpolitik" da diplomacia vaticana com relação ao comunismo cubano, seus objetivos e metas. Que se pretende? Até onde se vai? Onde se pretende chegar? Quais são as consequências, para a fé e a integridade da doutrina católica, dessas atitudes tão distintas do ensino tradicional da Igreja sobre o comunismo “satânico” e “intrinsecamente perverso”?
Não é por acaso que durante a realização do lamentável Encontro Nacional Eclesial Cubano de 1986, no qual o Episcopado cubano passou do diálogo e da colaboração rumo a uma coincidência com o comunismo e suas próprias metas socioeconômicas, o então arcebispo de Santiago de Cuba, monsenhor Pedro Meurice, chegou a reconhecer: “Nos consideravam uma Igreja de mártires e agora nos dizem que somos uma Igreja de traidores” (cf. "La voz Católica", arquidiocese de Miami, 14 de março de 1986).
(...) O balanço do encontro de Francisco com o tirano é dramático para os cubanos que, dentro e fora da ilha, se opõem à ditadura castrista e anseiam pela liberdade de Cuba. O tirano Raúl Castro prometeu “converter-se” se continuasse vislumbrando coincidências, desde seu ponto de vista revolucionário, com discursos e comentários do pontífice Francisco. Enquanto isso, no sentido diametralmente contrário, recordo com emoção que o motivo de conversão de centenas de presos políticos cubanos, entre os quais me incluo, foi ouvir na sinistra prisão de La Cabaña, no início da revolução comunista, as heróicas exclamações dos jovens católicos que no “paredón” morriam gritando “Viva Cristo Rey! Abaixo o comunismo!” Isso aconteceu até que os comunistas, percebendo que o sangue dos mártires era semente de novos cristãos, começaram a amordaçar os jovens que eram conduzidos ao “paredón”. É o que narro em meu livro de memórias de 22 anos de cárcere. Não foi em vão que o intitulei “Contra toda esperança”, recordando a frase cheia de fé de Abrahão, citada por São Paulo, e que não poderia ser mais atual para os cubanos amantes da liberdade: “Abrahão, havendo esperado contra toda esperança (...) não desfaleceu na Fé” (Epístola aos Romanos, 4-18 e 19).”
(Armando Valladares, Francisco, el Nuncio y el Tirano)

http://www.puggina.org

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O catolicismo é uma religião de combate

“E não me digas que não queres combater; porque no instante mesmo em que mo dizes, estás combatendo; nem que ignoras para que lado te inclinares, porque no momento mesmo em que isso dizes, já te inclinaste para um lado; nem me afirmes que queres ser neutro, porque quando pensas sê-lo, já não o és; nem me assegures que permanecerás indiferente, porque te desprezarei, dado que, ao pronunciares essa palavra, já tomaste teu partido. Não te canses em buscar asilo seguro contra os açoites da guerra, porque te cansas em vão; essa guerra se expande tanto como o espaço, e se prolonga tanto como o tempo. Só na eternidade, pátria dos justos, podes encontrar descanso; porque só ali não há combate; não presumas, contudo, que se abram para ti as portas da eternidade se não mostras antes as cicatrizes que levas; aquelas portas não se abrem senão para os que combateram aqui os combates do Senhor gloriosamente, e para os que vão, como o Senhor, crucificados.”
(Juan Donoso Cortés, Ensayo sobre el Catolicismo, Liberalismo y Socialismo)