segunda-feira, 25 de maio de 2015

O único modo de ser cristão é ser católico

"O único meio de ser cristão é ser católico, quer dizer, de pertencer não somente pelas simpatias e pelas crenças, mas também pela prática aberta e pública, à Igreja Católica, à Igreja governada pelo papa, à única verdadeira comunidade de Jesus Cristo.
Nunca houve e nunca pode haver senão um único Cristianismo. Se o protestantismo fosse Cristianismo, o Catolicismo não seria o principal. Não é o principal uma questão de forma, mas uma questão de fundo. A instituição de Jesus Cristo não pode ser submetida aos caprichos das pessoas, e o protestante que forja um Cristianismo a sua fantasia não é o verdadeiro Cristianismo, o Cristianismo que Nosso Senhor aportou ao mundo e então confiou o depósito e a difusão à Igreja.
Fez-se em nossos dias um estranho abuso desse glorioso nome de Cristão. Desde o protestante que professa ou rejeita a sua maneira a divindade do Cristo, até o socialista que não vê a liberdade senão na aniquilação da Igreja, toda a multidão dos heréticos é de revolucionários disfarçados de Cristianismo, mas qual Cristianismo!
Ser Cristão é ser Católico; fora dali pode-se ser luterano, calvinista, maometano, mórmon, livre pensador, budista, mas não é, não se pode ser Cristão."
(Mons. Louis-Gaston de Ségur, citando Bossuet, Causeries sur le Protestantisme d’Aujourd’hui)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Ernest Hello sobre a indiferença

“Muitas pessoas que a desconhecem, acusam a Verdade por ser intolerante. Isso merece uma explicação.
Ao ouvi-los, pode-se dizer que a Verdade e o Erro são duas coisas com os mesmos direitos; duas rainhas, ambas legítimas, que devem viver em paz em seu próprio reino; duas divindades, que dividem entre elas a fidelidade do mundo, sem que uma tenha o direito de tomar os domínios da outra. E desse modo de pensar brota a indiferença, que é o triunfo de satã. O ódio lhe agrada, mas o ódio não é suficiente; ele deseja a indiferença.
A indiferença é uma forma particular de ódio, um ódio frio e duradouro que se esconde dos outros – por trás do ar da tolerância. Pois a indiferença nunca é real. Ela é ódio combinado com falsidade.
Para continuar a produzir, dia após dia, uma torrente de ferozes invectivas contra a Verdade, os homens precisam de uma decisão de caráter que eles não possuem.
Conseqüentemente, a posição que eles tomam é não tomar posição. Todavia, um ódio ruidoso é muito mais facilmente explicável, desde que se considere o Pecado Original, que o ódio silencioso. O que me impressiona não é ouvir alguma blasfêmia dos lábios de um homem. O Pecado Original lá está; o livre-arbítrio lá está; a blasfêmia tem sua explicação. O que me precipita na mais absoluta estupefação é a neutralidade.
É uma questão acerca do futuro da raça humana, e do futuro eterno de tudo que no universo possua inteligência e liberdade. É certamente e necessariamente uma questão acerca de tu contigo mesmo, com todos e com todas as coisas. Então, a menos que não te interesses por ti mesmo, nem por ninguém ou nada, essa é certamente e necessariamente uma questão do mais sagrado interesse para você. Toma tua alma, e corra para o calor da batalha. Toma seus desejos, seus pensamentos, suas orações, seu amor. Pegue qualquer arma que possas possivelmente utilizar, e te lance de corpo e alma na batalha em que tudo está em jogo.
Coloque-se no campo de batalha entre os disparos daqueles que amam e os daqueles que odeiam, pois deves auxiliar a um ou a outro. Não te engane sobre isso. O clamor não é aos homens em geral; é a ti em particular; pois todos os dons morais, mentais, físicos e materiais à tua disposição são as tantas armas que Deus colocou em tuas mãos, e te deu a liberdade de usá-las por ou contra Ele. Tu deves lutar; tu és obrigado a lutar. Só podes escolher em que lado estás.
Jesus Cristo, quando veio a este mundo, pediu aos homens tudo que Ele precisava, pois Ele escolheu ser o mais pobre entre os pobres. Ele pediu um lugar onde nascer: isso Lhe foi negado. Todas as estalagens estavam cheias; a porta de um estábulo era a única que estava aberta. Ele pediu um lugar onde morar; isso Lhe foi negado. O Filho do homem não teve um lugar para recostar Sua cabeça. E quanto a sua morte, Ele não teve sete palmos de terra abaixo dos quais Se deitar. A Terra o rejeitou, e Ele foi pendurado entre a Terra e o Céu, numa Cruz.
Ora, Aquele Que então pedia, ainda o faz. Ele pede por um lugar para nascer. Os indivíduos que lotam as estalagens, e que não desocupam seus lugares, mas mandam embora Jesus, para nascer entre uma vaca e um burro, são um admirável símbolo daqueles que estão constantemente sacrificando seus futuros e a si mesmos em nome de ninharias inexpressivamente tediosas e vazias.
De todas as idéias malucas inspiradas pelo demônio, esta é a que é a mais digna dele: A VERDADE É TEDIOSA. A Verdade tediosa! mas é a posse da Verdade que constitui a beatitude. A verdade maçante! mas a Verdade é o fundamento da felicidade extática. Todo o esplendor que percebemos não é senão débeis símbolos da Verdade. Mesmos seus raios distantes causam um êxtase indescritível.
A alma humana é feita para pastagens divinas, não só na Eternidade mas no Tempo. Não há duas fontes da felicidade. Há apenas Uma; mas Ela nunca secará, e todos podem dela beber. Você está apaixonado pelo tédio? É na direção do não-existente que você deve olhar. Mas você ama a Vida, a Felicidade, o Amor? Então vire-se para AQUELE QUE É.
Satã é o Príncipe do Tédio, do desespero, da infelicidade.
Deus é o Mestre do Contentamento. Que os indiferentes se examinem e se repreendam.”

http://angueth.blogspot.com.br

terça-feira, 19 de maio de 2015

A questão do aborto

“A espinhosa questão do aborto voluntário pode ser tratada de maneiras muito diversas. Entre os que consideram a inconveniência ou ilicitude do aborto, o tratamento mais freqüente é o religioso. Mas costuma-se responder que não se pode impor a uma sociedade inteira uma moral “particular”. Há outro tratamento que pretende ter validade universal, e é o científico. As razões biológicas, concretamente genéticas, são consideradas demonstráveis, conclusivas para qualquer um. Mas suas provas não são acessíveis à imensa maioria dos homens e mulheres, que as admitem “por fé”: quer dizer, por fé na ciência.
Creio que faz falta um tratamento elementar, acessível a todos, independente de conhecimentos científicos ou teológicos, que poucos possuem, de uma questão tão importante, que afeta milhões de pessoas e a possibilidade de vida de milhões de crianças que nascerão ou deixarão de nascer.
Esta visão há de fundar-se na distinção entre “coisa” e “pessoa”, tal como aparece no uso da língua. Todo mundo distingue, sem a menor possibilidade de confusão, entre “que” e “quem”, “algo” e “alguém”, “nada” e “ninguém”. Se se ouve um grande barulho estranho, me assustarei e perguntarei: “que aconteceu?” ou “que foi isso?”. Mas se ouço baterem à porta, nunca perguntareis “que é?”, mas “quem é?”.
Perguntar-se-á que tem isto a ver com o aborto. O que aqui me interessa é ver em que consiste, qual é sua realidade. O nascimento de uma criança é uma radical “inovação da realidade”: o aparecimento de uma realidade “nova”. Dir-se-á que deriva ou vem dos pais. Sim, de seus pais, de seus avôs e de todos seus antepassados; e também do oxigênio, nitrogênio, carbono, cálcio, fósforo e todos os demais elementos que intervêm na composição de seu organismo. O corpo, o psíquico, até o caráter, vem daí e não é rigorosamente novo.
Diremos que “o que” o filho é deriva de tudo isso que enumerei, é “redutível” a isso. É uma “coisa”, certamente animada e não inerte, em muitos sentidos “única”, mas afinal uma coisa. Sua destruição é irreparável, como quando se quebra uma peça que é exemplar único. Mas não é isso o que importa.
“O que” é o filho pode reduzir-se a seus pais e ao mundo; mas “o filho” não é “o que” é. É “alguém”. Não um “quê”, mas um “quem”, a quem se diz “tu”, que dirá em seu momento “eu”. E é “irredutível a tudo e a todos”, desde os elementos químicos até seus pais, e a Deus mesmo, se pensamos nele. Ao dizer “eu” enfrenta todo o universo. É um “terceiro” absolutamente novo, que se junta ao pai e à mãe.
Quando se diz que o feto é “parte” do corpo da mãe se diz uma insigne falsidade porque não é parte: está “alojado” nela, implantado nela (nela e não meramente em seu corpo). Uma mulher dirá: “estou grávida”, nunca “meu corpo está grávido”. É um assunto pessoal por parte da mãe. Uma mulher diz: “vou ter um filho”; não diz “tenho um tumor”.
A criança não nascida ainda é uma realidade “vindoura”, que chegará se não o detivermos, se não o matarmos no caminho. E se é dito que o feto não é um quem porque não tem uma vida pessoal, deveria ser dito o mesmo da criança já nascida durante muitos meses (e do homem durante o sono profundo, a anestesia, a arteriosclerose avançada, a extrema senilidade, o coma).
Às vezes se usa uma expressão de refinada hipocrisia para denominar o aborto provocado: diz-se que é a “interrupção da gravidez”. Os partidários da pena de morte têm resolvidas suas dificuldades. A forca ou o garrote podem chamar-se “interrupção da respiração”, e bastam uns poucos minutos. Quando se provoca o aborto ou se enforca, mata-se alguém. E é uma hipocrisia ainda considerar que haja diferença segundo o lugar do caminho em que se encontra a criança que vem, a que distância de semanas ou meses do nascimento vai ser surpreendido pela morte.
Com freqüência se afirma a licitude do aborto quando se julga que provavelmente o que vai nascer (o que ia nascer) seria anormal física ou psiquicamente. Mas isto implica que o que é anormal “não deve viver”, já que essa condição não é provável, mas certa. E dever-se-ia estender a mesma norma ao que chega a ser anormal por acidente, enfermidade ou velhice. E se alguém tem essa convicção, deve mantê-la com todas as suas conseqüências; outra coisa é agir como Hamlet no drama de Shakespeare, que fere Polônio com sua espada quando está escondido atrás da cortina. Há quem só se atreva a ferir a criança quando está escondida – se pensaria protegida – no seio materno.
E é curioso como se prescinde inteiramente do pai. Atribui-se a decisão exclusivamente à mãe (mais adequado seria falar da “fêmea grávida”), sem que o pai tenha nada a dizer sobre se deve-se matar ou não seu filho. Isto, logicamente, não se diz, passa-se por cima. Fala-se da “mulher objeto” e agora se pensa na “criança tumor”, que se pode extirpar como um crescimento nojento. Trata-se de destruir o caráter pessoal do humano. Por isso se fala do direito a dispor do próprio corpo. Porém, à parte que a criança não faz parte do corpo de sua mãe, mas é “alguém corporal implantado na realidade corporal de sua mãe”, esse suposto direito não existe. A ninguém se permite a mutilação; os demais, e em último caso o poder público, o impedem. E se eu quiser pular de uma janela, acodem a polícia e os bombeiros e pela força me impedem.
O cerne da questão é a negação do caráter pessoal do homem. Por isso se esquece a paternidade e se reduz a maternidade a suportar um crescimento intruso, que se pode eliminar. Descarta-se todo uso do “quem”, dos pronomes tu e eu. Tão logo aparecem, toda a construção erguida para justificar o aborto desmorona como uma monstruosidade.
Não se tratará precisamente disto? Não estará em curso um processo de “despersonalização”, quer dizer, de “desominização” do homem e da mulher, as duas formas irredutíveis, mutuamente necessárias, em que se realiza a vida humana? Se as relações de maternidade e paternidade restam abolidas, se a relação entre os pais resta reduzida a uma mera função biológica sem duração além do ato de geração, sem nenhuma significação pessoal entre as três pessoas implicadas, que resta de humano em tudo isso? E se isto se impõe e generaliza, se ao final do século XX a Humanidade vive de acordo com esses “princípios”, não terá comprometido, quem sabe até quando, essa mesma condição humana? Por isto me parece que a aceitação social do aborto é, sem exceção, o mais grave que aconteceu neste século que vai se aproximando de seu final.”
(Julián Marías, La Cuestión del Aborto)

sábado, 16 de maio de 2015

A formiga e o gafanhoto: duas versões

"Versão Clássica
Era uma vez uma formiga que trabalhava duro, de sol a sol, construindo sua toca e acumulando suprimentos para o longo inverno que se aproximava.
O gafanhoto viu aquilo e pensou: - Que idiota!
E passava o tempo todo dando gargalhadas, cantando e dançando. Assim passou todo verão; ao chegar o inverno, enquanto a formiga estava aquecida e bem alimentada, o gafanhoto não tinha abrigo nem comida, e morreu de fome.
Moral da história: Trabalhe, seja previdente e responsável.
Versão Brasileira
Era uma vez uma formiga que trabalhava duro no sol escaldante de verão, construindo sua toca e acumulando suprimentos para o longo inverno que se aproximava.
O gafanhoto pensou: - Que idiota!
E passou o verão dando gargalhadas, cantando e dançando como nunca. Ao chegar o inverno, o gafanhoto, tremendo de frio, armou uma barraca de lona na entrada da toca da formiga, convocou toda a imprensa para uma entrevista e exigiu explicações: - Por que é permitido à formiga ter uma toca aquecida e boa alimentação, enquanto os gafanhotos estão expostos ao frio e morrendo de fome?
Todos os órgãos de imprensa compareceram à entrevista (SBT, BAND, ZERO HORA, JORNAL DO BRASIL, ESTADÃO, REDE GLOBO, CNN e outros); tiraram muitas fotos do gafanhoto trêmulo de frio e com sinais de desnutrição.
As imagens dramáticas na televisão mostraram um gafanhoto em deplorável condição, sentado num banquinho debaixo de uma barraca, e mais adiante mostraram uma formiga em sua toca confortável, com uma mesa farta e variada.
O programa do Datena apresentou um quadro de 15 minutos, mostrando o gafanhoto cambaleante. O povo brasileiro fica perplexo e chocado com o contraste.
A BBC de Londres manda ao Brasil uma equipe para fazer uma reportagem especial a ser distribuída em rede para toda a Europa. A CBS nos EUA interrompe uma entrevista coletiva sobre a guerra no Iraque, antes da entrega do Oscar, para mostrar como anda a cidadania dos gafanhotos brasileiros.
A notícia recebe apoio imediato de José Dirceu, com a ressalva de que os recursos devem ser dirigidos ao programa Fome Zero do governo Lula, e cogita uma Emenda Constitucional que aumente os impostos para as formigas e ainda obriga as comunidades a promoverem a integração social dos gafanhotos.
A formiga, multada por supostamente não entregar sua quota de folhas verdes ao Ministério das Folhas e não tendo como pagar todos os impostos e contribuições que foram apurados retroativamente, pede falência.
A Câmara Federal instala uma comissão de inquérito para investigar a falência fraudulenta de inúmeras formigas abastadas. O Ministério das Folhas nomeia uma comissão de auditores fiscais suspeitando de que as formigas tenham desviado recursos e sejam suspeitas de lavar folhas.
O gafanhoto decide invadir a toca da formiga e lá acampa.
A formiga pede ajuda da polícia e esta informa que não dispõe de efetivo para atender ocorrências desta natureza e também que há uma orientação do Secretário de Segurança, que deseja evitar confronto com os “sem tocas”. A formiga entra na justiça para obter a reintegração da toca, mas esta lhe é negada: o juiz invocou um novo ramo do direito, "o econômico" e sentencia que a formiga não provou a produtividade da Toca.
O Ministério da Reforma Agrária desapropria a Toca da Formiga, por não cumprir sua função social e a entrega ao friorento e desnutrido gafanhoto.
O Ministério da Justiça examinando folhas do Jornal Última Hora, descobriu que o gafanhoto foi preso no passado, por promover algumas greves, assaltos e seqüestros (crimes políticos), e conseguiu sua inclusão no grupo dos perseguidos políticos com direito a indenização federal e pensão vitalícia.
Agora começa novamente o verão, as formigas trabalham e os gafanhotos cantam e dançam...
Moral da história: E por acaso tem?”
(Autor anônimo. Recebido por e-mail)

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Pe. Nicholas Gruner sobre o sedevacantismo

A teoria “sedevacantista” é falsa
Já há muitos anos que tenho ouvido falar do movimento ou teoria do sedevacantismo: a falsa crença de que não tivemos um Papa verdadeiro desde que o Papa Pio XII morreu em Outubro de 1958, porque os Papas do Vaticano II caíram na heresia e são todos “anti-Papas”.
Compreendo que muitas pessoas sejam tentadas a concordar com esta teoria, devido aos graves escândalos que todos os dias se vêem, não só ao nível das paróquias e dioceses como também, e pior ainda, em Roma e no próprio Vaticano.
Tendo vivido na atmosfera ferventemente católica da Província do Quebec nas décadas de 1940 e 1950, vejo como éramos abençoados ao saber o que um Católico devia ser e devia fazer, em comparação com o que as crianças e os jovens hoje vêem com os seus próprios olhos.
Por outras palavras, às vezes é difícil as pessoas compreenderem como um jovem terá oportunidade de saber o que a Igreja Católica é, porque muitos responsáveis da Igreja parecem ter-se esquecido disso. Por exemplo, o Santíssimo Sacramento é calcado aos pés nas Missas papais, e as pessoas são convidadas para os barulhentos festivais de rock que são os Dias Mundiais da Juventude, e que são mais escandalosos do que os concertos de rock. Estes pobres jovens desorientados assistem a Missas, sim, Missas papais, vestidos de forma desmazelada ou com grande falta de modéstia. Os responsáveis da Igreja não cumprem o seu dever de lembrar a estes jovens que devem vestir-se devidamente e com modéstia para a Santa Missa. E isto é só um exemplo dos muitos ultrajes que nunca tinham sido vistos antes do Concílio Vaticano II.
Ainda me recordo de ver um velho filme caseiro que o meu pai fez nos anos 40, em que as mulheres estavam todas vestidas modestamente, com as saias bem abaixo dos joelhos. Toda a gente aceitava isto. Ninguém pensava que isto ficava mal, ou que custava a usar estas roupas modestas. Como pioramos nestes últimos 60 anos!
Há-de haver escândalos
É compreensível que as pessoas se escandalizassem quando o Papa João Paulo II foi fotografado a beijar o Corão, o livro sagrado dos Muçulmanos, o livro que contém blasfêmias terríveis contra a nossa santa religião católica. Porque se o Papa pode beijar o Corão, parece que tudo pode acontecer.
Para nos conservarmos equilibrados, temos que nos ater à Fé Católica imutável. Precisamos também de nos lembrarmos que Nosso Senhor disse que viriam escândalos nos últimos tempos; mas ai daqueles por quem viessem os escândalos. Algumas pessoas, vendo estes escândalos — como mulheres de seios descobertos a lerem a Epístola e a levarem os dons do Ofertório, numa Missa do Papa João Paulo II, coisa que nenhum Papa tinha alguma vez autorizado — saltam para a conclusão de que ele, portanto, não pode ser o Papa.
Infelizmente, estes Católicos não compreenderam que o Papa, mesmo que seja infalível — não pode ensinar um erro quando define solenemente uma coisa com a sua autoridade apostólica — não quer dizer que não possa pecar, que não possa dar escândalo, que não possa dar mau exemplo.
Devemos ter presente que não é o que os nossos superiores fazem que lhes dá direito ao cargo que ocupam, mas antes a autoridade que lhes é conferida por Deus.
Isto não garante que eles se mantenham fiéis às graças do seu cargo. Tal como todos nós, podem resolver pecar, seguir o caminho fácil, fazer o que o mundo quer que eles façam, fazer o que o demônio quer que eles façam — em vez de fazer o que Jesus quer que eles façam.
Mas como tem havido escândalos há tanto tempo e durante vários pontificados, houve diversas reações perante esta situação:
(1) Fingir que não aconteceu nada.
(2) Dizer que, se o Papa fez isso, é porque está bem, porque ele é o Papa.
(3) Declarar que o Papa e os Bispos não são realmente o Papa e os Bispos, e rejeitar tudo o que eles fazem porque permitem ou fazem escândalo.
(4) Ser fiel a Deus, aos Seus ensinamentos e à Bíblia, que nos dizem que não podemos chamar mal ao bem nem bem ao mal, e que, portanto, devemos resistir ao mal e denunciá-lo, mas sem usurpar para nós o poder de depor os culpados.
Esta reação final, segundo os ensinamentos dos Santos e Doutores da Igreja, é a que está correta.
É como se fosse assim: se alguém rouba um banco, por exemplo, dizemos que está errado. Mas se o assaltante do banco é o nosso pai, ou o presidente, ou um padre, um Bispo, ou até o Papa? É sempre errado.
E se alguém negar a Fé? Nosso Senhor disse-nos: “Se Me negardes perante os homens, também Eu vos negarei perante o Pai”. Mas se o nosso pai, ou o pároco, ou o Papa negarem a Fé? É sempre errado. Seremos julgados pelo que fizermos, e se seguirmos alguém, mesmo que seja o Papa, e negarmos a Jesus Cristo de qualquer maneira, então Jesus também nos negará perante o Seu Pai.
Devemos ser fiéis a Jesus e a Maria e a Deus, e fiéis à Fé Católica e à lei moral da Fé Católica — mesmo se houver pessoas em altos cargos que façam o contrário.
Um julgamento que não podemos fazer
Como Cristo fundou a Sua Igreja sobre Pedro — isto é, sobre o Papado — não podemos, só por nossa conta ou por nossa própria decisão, determinar e declarar que, por o Papa ter beijado o Corão ou feito outras coisas escandalosas, ele não é o Papa, ou mesmo que nunca foi Papa.
Isto está explicado em grande pormenor no artigo de Christopher Ferrara, “Defender o Papado”. Até agora, não tratei deste assunto porque compreendo que estes pobres Católicos estejam escandalizados, e não compreendia até que ponto esta doutrina e movimento se tornaram perigosos.
Mas veio agora à minha atenção que este movimento está a crescer e a dificultar o triunfo de Nossa Senhora. Criou uma grande distração para pessoas que, sem isso, apoiariam a Mensagem de Fátima, e levou-as a não fazer nada. Porque dizem: “Não podemos fazer nada sobre a Consagração da Rússia até se decidir quem é o Papa ou se temos um Papa.” Várias pessoas já dizem isto há mais de 20 anos.
Segundo elas, os escândalos são tão graves que chegaram à certeza, na sua opinião particular, de que não há um Papa. A sua posição não é sustentável. A sua posição decorre de uma incompreensão de certos aspectos da Fé Católica.
Há homens sábios, e alguns deles inteligentes e bondosos, neste movimento que estão enganados em certos pontos fundamentais desta questão. Também há alguns homens arrogantes, muitas vezes os mais novos, que quase não têm instrução teológica formal, e que fazem descuidada e impetuosamente tais declarações, como se Deus lhes tivesse dado uma jurisdição especial para decidir estes problemas e impor as suas opiniões ao mundo católico.
Até os padres sedevacantistas e os seus Bispos auto-escolhidos estão enganados e, infelizmente, isto está a causar um grande cisma na Igreja Católica.
Isto não quer dizer que seja o único cisma; há muitos outros cismas que hoje dividem a Igreja Católica. Mas o que é mais para lamentar, e que é o crime particular deste cisma, é que os sedevacantistas estão a separar-se por sua própria vontade em reação a estes escândalos e pecados evidentes e terríveis contra a Igreja Católica.
Temos, porém, que conceder que ao menos os sedevacantistas compreendem que certas ações papais dos últimos 45 anos são verdadeiramente escandalosas, enquanto que muitos Católicos são tão despreocupados, tão mornos, que nem sequer notam que há um escândalo.
Quem dera que os sedevacantistas viessem a compreender que há realmente um problema, que há escândalos, que devemos fazer alguma coisa a esse respeito, mas que não nos compete depor particularmente o Papa, como se fôssemos superiores ao Papa. Não nos compete tomar, em particular, decisões judiciais como se tivéssemos esse poder e autoridade, quando Deus não nos conferiu tal autoridade.
Mas Deus deu-nos meios, tanto pela nossa Fé como pelas nossas circunstâncias na vida, para resistir a estes escândalos e insistir num plano que libertará a Igreja destes escândalos, e esse plano é a Mensagem de Fátima.
Fátima ignorada
O que está mal nos nossos dias é que há demasiadas pessoas na Igreja que pensam que sabem mais do que a Santíssima Virgem. Muitos sedevacantistas parecem também pensar que sabem mais do que a Santíssima Virgem Maria sobre o que se deve fazer para salvar a Igreja. Mas em regra são certos funcionários do Vaticano que pensam que, para a Igreja poder sobreviver no Século XXI, devem adaptar-se e não fazer ondas, e aceitar o plano dos Illuminati, Maçons e Comunistas para a Nova Ordem Mundial.
Estes funcionários modernistas no Vaticano pensam que devem aceitar a falsidade moderna de que a Igreja Católica não tem o direito, que Deus lhe concedeu, à sua própria voz moral na praça pública. Pensam antes que se devem juntar ao coro de milhares e dezenas de milhares de falsas religiões, na esperança de os governos e os poderosos deste mundo lhes darem umas migalhas de reconhecimento ou prestígio ou poder.
Vão com os outros, recusando-se a obedecer a Nossa Senhora de Fátima. Vão com os outros, tendo o cuidado de não incomodar ninguém, porque, segundo os proponentes desta Nova Ordem Mundial maçônica, uma religião vale tanto como outra qualquer. Na realidade, até esta gente da Nova Ordem Mundial tem a sua religião, mas tem também o cuidado de a esconder a quem não faz parte do seu círculo.
A Maçonaria já foi definida em tribunal como sendo uma religião. É a religião dos deuses cananitas do Velho Testamento. Os Maçons afirmam ser imparciais em matéria de religião, mas, de fato, usam isto como um escudo para poderem propagar os seus rituais pagãos, para propagar as suas crenças e adorar satanás como o seu deus, como o Papa Leão XIII sublinhou. Foi o Papa Pio VIII que escreveu o seguinte sobre os Maçons: “A sua lei é a mentira, o seu deus é o demônio, e o seu culto é torpeza.”
Muitas autoridades atuais no Vaticano, devido à sua ignorância, não vêem que, aceitando o “diálogo,” o “ecumenismo” e a “abertura ao mundo”, já traíram a Nosso Senhor, porque concordaram em aceitar o programa dos Maçons e a Nova Ordem Mundial, que nega de fato que haja só uma Igreja verdadeira, fundada por Jesus Cristo, Que lhes mandou fazerem discípulos de todas as nações. Quer compreendam, quer não, estas autoridades da Igreja venderam Nosso Senhor por trinta moedas de prata, moedas de tributo aos poderes do mundo, tal como Judas fez. Assim como Judas compreendeu, mas tarde demais, que tinha traído o sangue inocente, é possível que estes Judas venham a compreender o seu erro, mas tarde demais para eles.
E quando chegar o momento, as forças do Anticristo ativarão a armadilha e obrigarão a Igreja Católica a ir para a clandestinidade, devido à feroz perseguição que está para cair sobre todos nós, porque os responsáveis foram cegos e guias de cegos.
Ora bem, os sedevacantistas compreendem isto. Mas, infelizmente, apresentaram uma solução falsa. Em vez de rezarem pelo Papa; em vez de promoverem as petições de Fátima, as Cruzadas do Rosário de Fátima, e de divulgarem informações sobre esta grande apostasia predita no Terceiro Segredo; em vez de rezarem pelos cegos e guias de cegos; em vez de fazerem penitência por eles; simplesmente determinaram ver-se livres deles, apenas pelo seu ipse dixit, declarando, por sua conta, que o Papa não é Papa e os Bispos não são Bispos.
O seu “raciocínio teológico” teoriza, por conseguinte, que os Bispos não são Bispos, que os Cardeais não são Cardeais, que a maior parte dos padres não são padres, e que só nos resta um vestígio de um por cento de mil milhões de Católicos — todo o resto se perdeu. Só eles, os sedevacantistas, é que são os verdadeiros Católicos. Alguns deles nem assistem a uma Missa Tridentina se o padre rezar pelo Papa no Cânone.
Reduziram-se, pois, ao que se chama movimento da pequena Igreja, em que dizem: “Ninguém se vai salvar, a não ser tu e eu — e não tenho bem a certeza no teu caso.”
Claro que isto é apresentado em termos muito mais elevados, e por isso engana muito mais gente. Está a impedir bons Católicos de se juntarem ao único plano que salvará a Igreja da crise em que está, salvará a sociedade civil do aniquilamento de nações e todo o mundo da escravidão do Anticristo e dos movimentos anticristãos da Maçonaria, Illuminati, Comunismo, Fascismo — e quaisquer outros “ismos” e frentes que o demônio tenha.”
(Pe. Nicholas Gruner, Defenda a SUA Salvação)

domingo, 10 de maio de 2015

O ensino da gnose

“Para entender corretamente as “Revelações” dos Gnósticos, é necessário libertá-las de toda a miscelânea mitológica com que estão ornadas ou, de preferência, emaranhadas, libertá-las também de um vocabulário obscuro que tinha a pretensão de torná-las veneráveis. Não falaremos nem de Éons, nem de Arcontes, nem de Pleroma, etc...
Dom Lagier, em sua obra sobre “O Oriente cristão” – L’Orient chrétien - enumera várias proposições nas quais pode-se resumir todo o ensino de nossos hereges. Veremos que, a partir destas afirmações estranhas, podem-se extrair todos os grandes erros do mundo moderno.
O Deus de que nos fala o Antigo Testamento é provavelmente uma divindade inferior, ele não é o verdadeiro Deus. Muito acima Dele está o Ser supremo, único princípio de tudo o que existe”.
Os Gnósticos têm praticado um antibiblismo sistemático. Eles inverteram todas as afirmações do Gênesis. Sua cosmologia é uma máquina de guerra construída contra Javé, o Deus criador. O mundo em sua essência é divino. O Ser supremo é um abismo original donde saíram todas as potências espirituais. Esta já é uma primeira forma de panteísmo. Yahavé Sabaoth, o Deus criador do Gênesis, é uma emanação do Ser supremo; ele se revoltou contra ele prendendo numa matéria degradada e má os seres puros, espirituais, emanados do grande abismo. Ele foi um demiurgo (= arquiteto) inábil. Ele é a fonte de todos os males. Eis uma explicação para a origem do mal e a designação do grande culpado, o Deus que os Cristãos adoram.
A matéria, em si, se opõe a Deus”.
Compreendamos bem que esta matéria não é uma emanação do Ser supremo, mas uma criação do demiurgo, obra inábil que vai se opor à perfeição do poder divino, entravar sua expansão. Houve então neste ato criador um erro, uma desfiguração dos seres espirituais, uma “queda original”, não a do pecado de Adão, mas a do Pecado de Javé.
Deus se desdobra e se revela gradualmente por potências celestes, por seres divinos em sua origem”.
Esta é a doutrina da emanação (emanare = difundir-se para fora de si). O mundo é uma divindade que se difunde para fora de si mesmo, por uma extensão de seu ser; o mundo é um Deus-Ser supremo em perpétuo crescimento. Do abismo original, esse Deus engendra uma multidão de seres que são apenas parcelas de si mesmo. O mundo é um perpétuo tornar-se. Ele é divino por natureza, visto que engendrado, e não criado. Infelizmente! Javé formou a matéria, ele desfigurou esse mundo, ele assim entravou a expansão dele, a evolução rumo a essa plenitude divina que os Gnósticos chamam de “Pleroma”.
Ademais, Deus se revela no interior do mundo por seus enviados, seres divinos, engendrados por ele, que, em intervalos regulares, vão recordar aos homens decaídos e prisioneiros da matéria que eles também são divinos. É preciso, portanto, uma revelação contínua: vê-se surgirem aí os primeiros lineamentos da lenda dos Grandes Iniciados. A Gnose é uma “revelação” de uma realidade oculta.
A matéria está mesclada com centelhas divinas; essas centelhas saem de sua prisão material graças ao Cristo que age nos ritos sagrados da magia”.
A alma humana é, portanto, divina (centelha ou brilho de um Deus que se estende a todos os seres). O corpo é um invólucro de terra, uma prisão de que é preciso se livrar para fazer surgir esta divindade que reside em nós. O Cristo é o maior dos Iniciados enviados do alto. Ele vai ensinar aos homens que eles são divinos. “Olhai no interior de vós mesmos e vereis aí vossa própria divindade”, tal é a fórmula repetida no evangelho de Tomás. Por isso, é preciso libertá-los desta prisão material que esconde deles sua verdadeira natureza. Despertai-vos! Entendei, enfim! Conhecei então vosso caráter divino! Não é necessário conquistar à força de vossa ascese uma semelhança com Deus. Já sois divinos, mas não o sabeis. Este conhecimento vos libertará. Esta é a “Salvação pela Gnose” (= conhecimento).
Reencontramos aqui quase as fórmulas modernistas da emanação vital: Deus permanece no homem (manere in = reside em), o homem só precisa voltar seu olhar para o interior de si mesmo para aí encontrá-lo.
A ação do Cristo foi real, mas sua humanidade carnal nunca foi senão uma aparência enganadora: a paixão e a ressurreição são apenas símbolos irreais”.
Evidentemente, um enviado divino não pode ter sofrido a degradação de um corpo material. Ele precisou então tomar a forma material para se fazer conhecer e poder agir de forma eficaz junto dos homens, eles também prisioneiros de seus corpos físicos. Contudo Cristo não tinha de resgatar por uma paixão os pecados dos homens, visto que estes não existem. Há somente um único pecado, o “pecado do mundo”, o pecado deste Javé que desfigurou por sua criação a expansão da divindade. Cristo não veio libertar os homens de suas faltas: ele não lhes ensinou um “caminho”, um caminho a ser percorrido para atingir uma perfeição possível futura. Ele lhes “revelou”, ou seja, “desvendou” o que eles não sabiam, que eles eram Deus, já, desde sempre.
O divino que está acorrentado na matéria, ou seja, a alma humana, não é responsável pela carne que o oprime. O espírito continua puro: ele não é solidário das paixões, nas faltas cometidas”.
Eis enfim onde é preciso chegar! O gnóstico recusa aos homens a responsabilidade de seus atos. Visto que a matéria é má, nosso corpo carnal só pode produzir atos maus. Porém esse corpo é nossa prisão. Nossa alma, “centelha divina”, não pode ter a menor relação com qualquer mal que seja. Como explicar tudo isso? Decompondo o homem em três partes: um corpo material, o “soma”, uma animação propriamente fisiológica, “a psique”, e uma alma espiritual de essência divina, o “pneuma”. Esta estrutura ternária do homem é uma invenção genial: a sede das paixões, a “psique”, é uma potência má ligada à matéria, que ela apóia na existência; é preciso se livrar dela o mais cedo possível. O “pneuma” permanece impassível, espectador indiferente das vãs agitações do corpo.
Esta divisão ternária do homem é encontrada no ocultismo moderno, que utiliza outro vocabulário para designar as mesmas realidades: eles concebem um mundo espiritual, um mundo astral, um mundo material. O homem é composto por um corpo, por um dúplice e por uma alma! Velho procedimento para tirar do homem sua verdadeira responsabilidade e lhe recusar o domínio de seus atos.
Reencontra-se nesta exposição todo o protestantismo. Lutero não afirmou que o homem era incapaz de um ato bom, que as obras são inúteis e que só nos salvamos pela fé?
As leis escritas e as leis naturais foram concebidas por deuses inferiores e não são sempre homologadas pelo verdadeiro Deus, cuja essência ultrapassa qualquer pensamento e cuja natureza é indizível”.
Os Gnósticos são por definição antinomistas, ou seja, eles recusam qualquer lei. Um ser de essência divina não necessita de lei, esta sendo um meio para atingir um fim. Ora, o ser divino é ele próprio seu fim. Além do mais, uma lei é recebida por uma autoridade que os submete a ela. Um ser divino é totalmente mestre de si e não precisa de submissão. Esta lei natural de que falam os Gnósticos é uma construção arbitrária de um espírito malevolente que quer submeter os demais seres aos seus caprichos, é uma sujeição indigna de uma “centelha divina”. Javé quis prender nossa natureza divina num corpo material e nos impor seus caprichos. Eis um grande motivo de indignação para nossos sectários. O verdadeiro Deus é a plenitude da Divindade, o “Pleroma”. Sua essência é conter todos os seres, englobá-los num imenso “Todo”. Não se pode defini-Lo, porque ele transcende todos os limites; ele é o “Grande Tudo”, o “Abismo inominado”. A salvação para a alma divina é se perder nele.
Encontra-se nesta última proposição a revolta daquele que pronunciou o “Non serviam” e que disse para Adão e Eva: “Eritis sicut Deis“, se comerdes da Árvore do Conhecimento (= Gnose).
O culto da serpente.
Existia entre as seitas gnósticas a dos Ofitas ou Naasanes (ophis em grego e naas em hebreu significam serpente): estes são os grandes Gnósticos, aqueles que mais longe penetraram no mistério das revelações: “Veremos a serpente, dizem eles, porque Deus a criou por causa da Gnose, para a humanidade: ela ensina ao homem e à mulher o conhecimento completo dos mistérios do alto”. Eles se reúnem em torno de uma mesa, eles dispõem os pães, em seguida eles chamam, com encantamentos, a serpente que vem se enrolar entre as oferendas. Somente então eles compartilham os pães… Eis aí, pretendem eles, o sacrifício perfeito, a verdadeira eucaristia…
Assim, o círculo é fechado. Todas estas elucubrações pretensamente sábias são destinadas, na realidade, a desviar os Cristãos da adoração do verdadeiro Deus e levá-los rumo à adoração da Serpente, supremo fim da seita: esta celebração satânica se parece, ao ponto de se confundir, com a cena rosacruciana praticada na sexta-feira santa nos rituais maçônicos do 18º grau.”
(Étienne Couvert, De la Gnose à l’Oecumenisme)

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quinta-feira, 7 de maio de 2015

A palavra divina

“Quando ouço pronunciar uma palavra divina, ou seja, católica, no mesmo instante volvo os olhos ao redor para ver o que acontece, certo como estou de que há de acontecer algo e de que isso que há de acontecer há de ser forçosamente um milagre da justiça divina ou um prodígio da divina misericórdia.
Se é a Igreja que a pronuncia, aguardo a salvação; se quem a pronuncia é outro, aguardo a morte. Perguntai ao mundo por que está pleno de terror e de espanto; por que os ares estão plenos de lúgubres e sinistros rumores; por que as sociedades estão todas perturbadas e em suspense, como quem sonha que lhe vai faltar o pé ou que ali onde vai faltar está um abismo. Perguntar ao mundo isso é o mesmo que perguntar por que treme quem vê entrar um malfeitor ou um demente com uma vela acesa em um armazém de pólvora sem conhecer um e conhecendo demasiado o outro a virtude da pólvora e a virtude da chama. O que salvou o mundo até agora é que a Igreja foi em tempos antigos bastante poderosa para extirpar as heresias, as quais, consistindo principalmente em ensinar uma doutrina diferente da Igreja com as palavras de que a Igreja se serve, teriam levado o mundo há muito tempo a sua última catástrofe se não tivessem sido extirpadas.
O verdadeiro perigo para as sociedades humanas começou no dia em que a grande heresia do século XVI obteve o direito de cidadania na Europa. Desde então não há revolução alguma que não leve consigo para a sociedade um perigo de morte. Consiste isso em que, fundadas todas elas na heresia protestante, são fundamentalmente heréticas; veja-se, se não, como todas vêm dando razão de si e legitimando-se a si próprias com palavras e máximas tomadas do Evangelho: o sanculotismo da primeira revolução de França buscava na nudez humilde do manso Cordeiro seu antecedente histórico e seus títulos de nobreza; nem faltou quem reconhecesse o Messias em Marat, nem quem chamasse Robespierre seu apóstolo. Da revolução de 1830 brotou a doutrina sansimoniana, cujas extravagâncias místicas compunha não sei que evangelho corrigido e depurado. Da revolução de 1848 brotaram com ímpeto em copioso caudal, expressas em palavras evangélicas, todas as doutrinas socialistas. Nada disso haviam visto os homens antes do século XVI. Não quero dizer com isso que o mundo católico não havia padecido já de grandes doenças, nem que as sociedades antigas não haviam padecido de grandes vaivéns e mudanças; só quero dizer que nem esses vaivéns bastavam para derrubar a sociedade por si mesmos nem aquelas doenças para tirar-lhe a vida. Hoje tudo acontece ao contrário: uma batalha perdida pela sociedade nas ruas de Paris basta por si mesma para derrubar ao solo a sociedade européia como ferida subitamente por um raio: e calde come corpo morto calde.
Quem não vê nas revoluções modernas, comparadas com as antigas, uma força de destruição invencível, que, não sendo divina, é forçosamente satânica? Antes de deixar este assunto, parece-me coisa oportuna fazer aqui uma observação importante, que abandonarei à meditação de meus leitores. De duas conversas do anjo das trevas temos notícia exata: a primeira a teve com Eva no paraíso; a segunda, com o Senhor no deserto. Na primeira falou palavras de Deus, desfiguradas a seu modo; na segunda citou a Escritura, interpretada à sua maneira. Seria temerário crer que assim como a palavra de Deus, tomada em seu sentido verdadeiro, é a única que tem o poder de dar a vida, é a única também que, sendo desfigurada, tem o poder de dar a morte? Se isso fosse assim, restaria suficientemente explicado por que as revoluções modernas, nas que se desfigura mais ou menos a palavra de Deus, têm essa virtude destruidora.”
(Juan Donoso Cortés, Ensayo sobre el Catolicismo, el Liberalismo y el Socialismo)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Papa confirma: Cardeal Bertone, o "Oráculo de Fátima", está sob investigação por desfalque

"Já faz anos que os proponentes da neocatólica "Mensagem de Fátima", que reduz a profecia de Nossa Senhora e os alertas à Igreja a um pedido genérico por oração e penitência, têm-se fundamentado nas declarações do Cardeal Tarcisio Bertone sobre o que a Irmã Lúcia supostamente lhe disse em entrevistas particulares que não foram gravadas.
De acordo com Bertone, entre outras declarações evidentemente inacreditáveis, a Irmã Lúcia "confessou" que Nossa Senhora jamais associou o Terceiro Segredo de Fátima ao ano 1960, ainda que dois envelopes pertencentes ao Segredo tragam a anotação escrita à mão pela Irmã Lúcia do "pedido expresso de Nossa Senhora" de que o Segredo não fosse revelado até 1960. O mesmo Bertone nos garantiu que a Irmã Lúcia "confirmou" que a cerimônia de 1984 consagrando o mundo a Maria havia sido "aceita pelo céu" como a requerida Consagração da Rússia. Obviamente, a Irmã Lúcia jamais teve permissão de tratar dessas questões em público, para que não dissesse algo que o aparato vaticano não quisesse que ouvíssemos.
Então veio a "interpretação" de Bertone do Terceiro Segredo, que ele herdou de seu predecessor, o Cardeal Sodano – o mesmo Sodano que foi essencial no abafamento durante décadas do imenso escândalo envolvendo o Pe. Marcial Maciel Degollado – de que o Segredo "pertencia ao passado" e retrata em sua culminação nada mais do que uma tentativa fracassada contra a vida de João Paulo II em 1981. Um disparate, é claro.
Ora, de acordo com a linha partidária neocatólica sobre Fátima, Bertone junto com Sodano são os "oráculos de Fátima" que devemos consultar para o verdadeiro significado da Mensagem de Fátima em geral e do Terceiro Segredo em particular. Como eles teriam dito, "a Igreja falou" porque Sodano e Bertone falaram. Mesmo? Não acho.
Bertone não era mais confiável que seu predecessor na matéria, e nenhum deles tinha a menor competência em obrigar a Igreja à sua "interpretação" da mais importante de todas as aparições marianas. E agora descobrimos que o Papa Francisco, durante uma conferência de imprensa no vôo para casa vindo de Jerusalém, "confirmou boatos redemoinhando em Roma de que o ex-secretário de estado da Santa Sé, Cardeal Tarcisio Bertone, estava de fato sendo investigado por uma discrepância em torno de 20 milhões (€ 15 milhões) que de algum modo passaram do Banco Vaticano (conhecido como o Instituto para as Obras de Religião) para uma companhia de televisão particular chamada Lux Vide", que é operada por um dos amigos de Bertone (i.e, do "oráculo de Fátima").
Ao mesmo tempo, são numerosas as reportagens a respeito do suntuoso apartamento vaticano que Bertone está renovando para si mesmo às custas dos fiéis, sobre o qual dá evasivas quanto à exata metragem quadrada e irrita-se que outros poderão gozar de um tal luxo depois que ele estiver morto.
Como é irônico, mas também perfeitamente apropriado: os dois prelados vaticanos cujas versões a respeito da Mensagem de Fátima formaram o próprio fundamento da linha partidária neocatólica de que "Fátima está acabada" porque "a Igreja falou" estão metidos até o pescoço em escândalos gigantescos que evidenciam sua total falta de credibilidade. Contudo, são esses os homens em quem o porta-voz neocatólico para o revisionismo de Fátima queria que a Igreja e o mundo confiassem para o significado da visão apocalíptica nessa parte do Terceiro Segredo que nos permitiram ver.
Enquanto isso, graças à conivência desses dois burocratas vaticanos manifestamente desonestos, a explicação de Nossa Senhora para a visão permanece escondida no Vaticano. Que Deus nos ajude a todos, enquanto a crise eclesiástica pós-conciliar que Ela sem dúvida previu atinge um novo nível de intensidade."
(Christopher Ferrara, Pope Confirms: Cardinal Bertone the "Fatima Oracle" Under Investigation for Embezzlement)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

John Dowland: Lachrimae


Jordi Savall
Hesperion XX

terça-feira, 28 de abril de 2015

A quimera da felicidade

"Do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma cousa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das cousas. Tal era o espectáculo, acerbo e curioso espectáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que não lhe podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão."
(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)