sexta-feira, 1 de maio de 2015

John Dowland: Lachrimae


Jordi Savall
Hesperion XX

terça-feira, 28 de abril de 2015

A quimera da felicidade

"Do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma cousa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das cousas. Tal era o espectáculo, acerbo e curioso espectáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que não lhe podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão."
(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

sábado, 25 de abril de 2015

Dinheiro e democracia

“Para entender o mal-estar que prostra as sociedades democráticas – expresso às vezes como desalento e ceticismo, às vezes como ira e indignação – deveríamos começar por esclarecer que a democracia, tal como nos foi pintada, é uma quimera irrealizável. Existe uma realidade histórica irrefutável: todas as sociedades humanas, com independência da forma de governo que impere nelas, estão regidas de fato por minorias. Sempre tem sido assim e sempre será. E são estas minorias as que realmente decidem, de forma efetiva direta ou indiretamente, sem reservas ou com disfarces, o destino das nações.
Ilusoriamente, às pessoas se fez crer que a democracia acabava para sempre com esta idéia hierárquica subjacente em toda ordem política; quando, na verdade, só se fez esconder, escamotear este elemento (e já se sabe que, quando algo se oculta, é porque não convém mostrá-lo). Assim, apresentou-se uma sociedade regida pela mais absoluta igualdade política, na qual os governantes não o eram em virtude de um princípio hierárquico, mas representativo; e deste modo se conseguiu encobrir um fato gigantesco e inquestionável, que é a rebelião da economia contra a política. Fato que começou a forjar-se no Renascimento, para desencadear-se na Revolução Francesa e alcançar o paroxismo em nossa época, na qual o poder político não só deixou de ser aguerrido defensor do povo contra essas forças econômicas desatadas, mas se tornou serviçal de tais forças, organizado em oligarquias encarregadas de pauperizar o povo, seguindo as ordens da plutocracia internacional (...).
Este poder oculto de uma minoria plutocrática é o que decide no destino das nações, de maneira sempre impiedosa e às vezes em sua desmedida voracidade sem incomodar-se sequer em dissimular a natureza monstruosa de seus desígnios. Assim se explica, por exemplo, como o Fundo Monetário Internacional (apenas um dia depois das eleições européias nas quais as oligarquias que mais servilmente trabalharam a serviço do poder econômico foram arrasadas!) teve a calma de reclamar condições ainda mais inclementes nas demissões, e também subidas nas taxas impositivas; reclamações que as oligarquias acabarão atendendo. Todo este latrocínio institucionalizado conseguiu dissimular-se nos anos anteriores mediante a instauração de um reinado das delícias universais (a busca da felicidade!) que aspirava a conseguir uma sociedade humana animalizada, passiva e covarde, “cidadania” submetida mediante o hipnotismo ideológico à mais depravada servidão espiritual, agarrada ao desfrute frenético dos benefícios democráticos, que podem resumir-se em alegrias paras as braguilhas e enxurrada de subvenções. As alegrias para as braguilhas nos deixaram em um par de gerações sem contribuintes que paguem nossas pensões; e à enxurrada de subvenções sucedeu uma pertinaz estiagem que, ademais, nos pega com as reservas exaustas."
(Juan Manuel de Prada, Dinero y Democracia)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sidney Silveira: A impermeabilidade do Amor – ou “por que sou católico”

“Ao frisar que o amor é o ato perfeito e supremo da vontade, aponto para a liberdade das ações amorosas, pois ninguém é, nem pode ser, coagido a amar. Da mesma maneira, nenhuma pessoa deixa de amar sob ameaça — ainda que submetida a lancinantes torturas psicológicas, ou mesmo físicas. Se um hipotético sujeito encostasse o cano frio duma pistola 9mm nas têmporas de outro e dissesse “Deixa de amar a tua mãe agora, ou eu te mato!”, nem assim teria o condão de fazer valer o fortíssimo argumento da arma de fogo, pois na prática o amor é realidade impermeável a tiranias de qualquer tipo. A total intangibilidade do amor assegura-lhe a liberdade, à qual podemos atribuir o caráter de infinitude fazendo uso do grandioso instrumento metafísico da analogia entis. Em breves palavras, o amor é a vontade no exercício translúcido e pleno de sua mais absoluta impenetrabilidade.
Se o amor se transforma em hábito, podemos dizer que a liberdade humana realizou-se superiormente. Mas ninguém chega a tal ápice sem vencer obstáculos inescapáveis, como por exemplo tentações, fraquezas, ignorância. A famosa e bela máxima de Plutarco segundo a qual “nem Deus pode dar nem o homem pode receber nada mais excelente que a verdade” vale ainda mais para o amor, pois este não é outra coisa senão a verdade em ato assimilada pela inteligência e querida pela vontade. Em suma, no amor dá-se a comunhão destas duas potências superiores da alma na escolha efetiva do bem. Por isso, as ações humanas ou se orientam a abarcar os transcendentais verum e bonum, ou se degradam progressivamente. Porque sem verdade e sem bondade o amor se transforma na mais cabal das impossibilidades, cedo ou tarde.
Se o universo das relações afetivas de uma pessoa não possui o vetor amoroso, logo ela cai na degradação moral da inconstância, da tibieza, da falsidade. Ao contrário, quem ama acaba por se tornar constante, forte e veraz. O “sim” e o “não” do verdadeiro amante não obedecem a condicionamentos acidentais, ao contrário do “sim” e do “não” de homens que se colocaram culpavelmente em situação de desamor. Estes agem de acordo com momentâneas conveniências, razão pela qual não são confiáveis em hipótese nenhuma. Na realidade, eles pioraram por não amar, e jamais poderão culpar a quem quer que seja por isto. Não há desculpas nem justificativas para a simulação de auto-indulgência que culmina em maldade.
No sentido sublime aqui aludido, nenhum homem é capaz de, sem o auxílio divino, amar. E tal auxílio não vem de outro modelo senão do próprio Verbo Encarnado — que nos revelou de maneira cristalina e objetiva o caminho, a verdade, a vida. Quando penso, pois, por que sou católico, penso nisto: o amor em estado puro dá-Se a mim por completo, sem que eu mereça. Faz-Se humildemente tangível para elevar-me a uma condição superior, intangível. A Sua entrega benevolente não conhece condicionamentos. Ela não é mérito meu, nem apetite d’Ele. É libérrima e eficacíssima.
Jamais conseguirei, nesta vida, fazer jus ao amor perfeito de que sou objeto. Amor que honra o desonrado e dignifica o indigno. Que perdoa o imperdoável e eleva o vil. Amor absolutamente impermeável a todos os seus possíveis contrários. E por isso mesmo eterno.
Até nas ocasiões em que, ritualmente, desce ao tempo na forma de hóstia viva e se faz Presença Real, fonte infinita de bens.”

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terça-feira, 21 de abril de 2015

As práticas dos estrategas socialistas

"Começam com uma idéia de que a sociedade é contrária à natureza; maquinam artifícios aos quais a humanidade tem que se sujeitar; perdem de vista o fato de que a humanidade tem a sua força motora dentro de si mesma; consideram os homens como tendo uma base de matéria prima; propõem dar-lhes movimento e vontade, sentimento e vida; põem-se a si mesmos à parte, incomensuravelmente acima da raça humana - estas são as práticas normais dos estrategas socialistas. Os planos diferem; os estrategas são todos iguais."
(Frédéric Bastiat, La Loi)

sábado, 18 de abril de 2015

Dom Tomás de Aquino: A perversão do espírito

“Desde os anos 90, o superior geral da Fraternidade e seus conselheiros mais próximos empreenderam uma tenebrosa tarefa: conduzir a Tradição aos braços da Roma modernista. Conscientes ou não da gravidade de seu crime, é isto o que fazem. Mons. Fellay destrói a obra de Mons. Lefebvre. O infantilismo de Dom Gérard, como o estigmatizou Mons. Lefebvre, retorna desta vez na caneta e no pensamento de Mons. Fellay e seus assistentes: Lendo-os – escreve este a seus confrades no episcopado (carta de 14 de abril de 2012) – pode-se perguntar seriamente se vocês crêem que esta Igreja visível cuja sede está em Roma é a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo (...)”. Mons. Fellay confunde as coisas. Mons. Fellay semeia a confusão, esquecendo as distinções que fez Mons. Lefebvre junto a tantos outros teólogos eminentes e pensadores católicos. “A Fraternidade São Pio X jamais deixou a Igreja. Ela está no coração da Igreja”, escreve com razão Mons. Tissier (Rivarol, 13 de junho de 2012). Mas Mons. Fellay foi seduzido por uma idéia que deitou profundas raízes em seu espírito. A regularização canônica deve ser obtida a qualquer preço. Isto já foi esquecido – dirão alguns. Mons. Fellay acaba de opor-se às declarações de Mons. Pozzo sobre esta questão. Pois bem, Monsenhor Fellay engana os seus. Ele oculta a verdade há anos. Nada retirou de suas afirmações. “Esta situação concreta, com a solução canônica proposta, é muito diferente daquela de 1988” – escreveu em resposta à carta de Mons. Williamson, Mons. Tissier e Mons. de Galarreta.
Mas tudo isto está no passado, repetirão os partidários de Mons. Fellay. Mas então por que o Pe. Alain Nely disse a uma superiora de um monastério: “a solução para a Fraternidade será um reconhecimento unilateral”? E ademais: “Eles não nos pedirão para assinar, não haverá um documento e não será necessária uma assinatura”. Isto ocorreu há aproximadamente um ano.
Com seus passos para diante e passos para trás, Menzingen tem hipnotizado toda sua gente, que crê em sua boa fé. Seja qual for sua duvidosa e muito estranha boa fé na qual eu não creio em absoluto, o fato é que a conduta de Mons. Fellay, considerada em seu conjunto, indica com bastante clareza a causa final que o impulsiona. Esta causa é uma aproximação com uma Roma que supostamente está a caminho de converter-se. Esta causa é o pragmatismo das negociações gradativas de Mons. Fellay, pois Roma não se converterá de uma vez. Como se converterá Roma? Só Deus o sabe. O que sabemos todos é que a Roma modernista pode alinhar uma longa série de túmulos, onde suas vítimas repousam na sombra da morte: Padre Augustin, Dom Gérard, Pe. de Blignères, Fraternidade São Pedro, Campos, Redentoristas, Oásis, Irmãos da Imaculada, etc. Neste belo cemitério todavia há lugar para a FSSPX. Se fosse por Mons. Fellay, a coisa já teria sido feita. Mas para alguns na Fraternidade, as comunidades “Ecclesia Dei” não estão assim em tão má situação. A Fraternidade estaria em boa companhia neste belo entorno.
O que é surpreendente é ver o comportamento dos fiéis. Como explicar a pouca reação de sua parte? E ainda mais dos sacerdotes. Certamente que eles esperam algo pior para agir. Uma assinatura. Mas o Pe. Nely já o disse: “Eles não pedirão a assinatura, não haverá documento”.
A força de Menzingen está em ocultar a verdade. Mas sobretudo sua força está na debilidade dos bons. Menzingen pesou em sua balança a força da Tradição, e pôde dar-se conta de sua debilidade ou de sua ingenuidade. A Tradição tem princípios invencíveis, mas quanto à força de apego a estes princípios, é outra coisa. A isto deve-se agregar a cumplicidade da vida mesma. É mais fácil para quem não tem mulher e filhos tomar uma decisão difícil, mas não é o mesmo para quem tem dez filhos que colocar em uma boa escola. Para os sacerdotes, é outra coisa. Que cada um meça suas responsabilidades.
Menzingen dominou a arte de governar à maneira de Maquiavel. Privacidade dos correios eletrônicos divulgados, processos iníquos dos Padres Pinaud e Salenave. Sanções desapiedadas aos bons sacerdotes que se atrevem a defender o pensamento e as diretivas de Mons. Lefebvre.
Mas estes fatos parecem perder-se nas memórias. Mons. Fellay mudou, dizem alguns. Ele já não quer o acordo. As coisas se arranjarão. Não há fogo na casa. Puro subjetivismo! Puro sentimentalismo!
Quanto mais se analisam os documentos do Vaticano II e sua interpretação pelas autoridades da Igreja, mais nos damos conta que não se trata nem de erros superficiais nem de alguns erros particulares como o ecumenismo, a liberdade religiosa, a colegialidade, mas sim de uma perversão total do espírito, de toda uma nova filosofia fundada sobre o subjetivismo... É gravíssimo! Uma perversão total... É verdadeiramente espantoso” (Mons. Lefebvre, citado na carta de 7 de abril de 2012, dos três bispos a Mons. Fellay e seus assistentes). Está a Tradição mesma começando, também ela, a cair neste abismo? Desgraçadamente parece que sim. Um fraco rei faz fraca a forte gente, dizia um grande poeta português, Luiz de Camões. Mons. Fellay é este rei. Oxalá que não chegue a seus fins e que o amor da verdade possa de novo reflorir no seio da Tradição. Que o pequeno resto “pusillus grex” seja aguerrido para este novo combate, esta crise dentro da crise, esta crise no interior da Tradição, e que a hipocrisia de Menzingen seja conhecida e rechaçada com o vigor que convém aos discípulos d’Aquele que morreu porque veio ao mundo para dar testemunho da Verdade (Cf. João XVIII, 37).”

http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A idade não nos torna mais sábios

“As pessoas imaginam que precisamos de chegar a velhos para ficarmos sábios, mas, na verdade, à medida que os anos avançam, é difícil mantermo-nos tão sábios como éramos. De fato, o homem torna-se um ser distinto em diferentes etapas da vida. Mas ele não pode dizer que se tornou melhor, e, em alguns aspectos, é igualmente provável que ele esteja certo aos vinte ou aos sessenta. Vemos o mundo de um modo a partir da planície, de outro a partir do topo de uma escarpa, e de outro ainda dos flancos de uma cordilheira. De alguns desses pontos podemos ver uma porção maior do mundo que de outros, mas isso é tudo. Não se pode dizer que vemos de modo mais verdadeiro de um desses pontos que dos restantes.”
(Johann Wolfgang von Goethe, Conversações com Johann Peter Eckermann)

domingo, 12 de abril de 2015

O transitório e o duradouro

“Lastimo os que atribuem grande importância ao tema do transitório das coisas e que se perdem em minudências terrenas sem valor. Porque nós existimos precisamente para transformar o transitório em duradouro, e tal só acontece quando somos capazes de apreciar ambas as coisas.
A vida, por mais vulgar que pareça ser, por mais que dê a idéia de se satisfazer com coisas triviais e quotidianas, nunca deixa de se ocupar atentamente, ainda que em silêncio, de certas exigências superiores e de procurar os meios necessários à respectiva satisfação.”
(Johann Wolfgang von Goethe, Máximas e Reflexões)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Desvarios materialistas

“A tragédia aérea recente nos permite uma reflexão sobre os desvarios das sociedades que negam as realidades sobrenaturais. Trata-se de uma reflexão que sem dúvida soará estranha a positivistas, materialistas, empiristas e, definitivamente, a todos aqueles que, por preconceitos filosóficos, escrúpulos metodológicos ou simples desinteresse rejeitam toda tentativa metafísica de explicar a realidade através de suas causas últimas e recorrendo a entidades cuja substância (falamos de Aristóteles!) não se submete ao método científico. Desnecessário dizer que isto exclui a maioria de nossos contemporâneos; mas uma das vantagens de envelhecer é que, como o personagem do romance, só se diz a própria canção a "quem comigo vai", deixando os demais tão contentes com sua surdez; e também que se aprende a escrever sem respeitos humanos.
O primeiro desvario é de natureza trágica. A negação da realidade substancial e permanente da alma transformou a psicologia em uma barafunda informe que só estuda "acidentes", percepções ou fenômenos psíquicos, sãos ou avariados. Mas, uma vez negada a existência da alma, resulta de todo impossível compreender (e muito menos combater) enfermidades como a que pôde levar o piloto Andreas Lubitz a precipitar o avião com todos seus passageiros dentro, que não são meras enfermidades dos "acidentes" psíquicos, mas enfermidades da substância anímica, invadida e gangrenada pelo preternatural. Quando nos negamos a considerar as enfermidades da alma, nosso destino inevitável é sofrer cada vez mais enfermos deste tipo, como a experiência (viva o empirismo!) demonstra. Cada vez teremos mais destes tipos que precipitam aviões, mais destes tipos que metralham crianças nas escolas, mais destes tipos que esquartejam mulheres, etcétera. Antigamente, quando se cria na existência da alma, eram chamados de endemoniados; hoje, mais refinada e erroneamente, denominamo-los psicopatas.
O segundo desvario é mais de natureza tragicômica. Nas sociedades religiosas, a vida é uma preparação para a morte, na qual o principal empenho do homem é a salvação de sua alma (que, ao final, permitirá que seu corpo desfrute algum dia da glória). Nas sociedades materialistas, ao contrário, a vida se ensimesma na conservação de sua pobre realidade material; e é-nos prometido que a ciência, a técnica, a democracia, a ginástica e a dietética (o sacrossanto progresso!) velam pela glória dessa vida material (ainda que, ao final, tais promessas bajuladoras se resumam a um saudabilíssimo cadáver com a alma apodrecida). Em uma sociedade religiosa, uma tragédia aérea como a que acabamos de sofrer serviria para escutar sermões formidáveis sobre o poder igualitário da morte, sobre a obrigação de manter nossa lâmpada acesa (porque não sabemos nem o dia nem a hora) e sobre a necessidade de acumular tesouros no céu, onde não há traça nem ferrugem que os corroa, nem ladrões que os roubem; e com isto e com rezar pela alma dos mortos, as pessoas encontrariam consolo e alegria. Em uma sociedade materialista, ao invés, andamos como estouvados buscando caixas pretas, convocando minutos de silêncio ("a casca vazia da oração", chamou-os Foxá) e disparando responsabilidades civis e penais em todo lugar; mas nenhuma destas palhaçadas nos vai devolver os mortos, nem, muito menos, vai buscar a salvação de suas almas.
E telejornais, muitos telejornais, que são os sermões cretinizantes e aturdidores com os quais são adormecidas as sociedades materialistas."
(Juan Manuel de Prada, Desvaríos Materialistas)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Dom Tomás de Aquino: A verdade ocultada, ou a recusa de ver

“É com espanto que vemos a verdade, embora pública, sendo ignorada. Mas de que verdade estamos falando? De fatos os mais evidentes sobre a crise atual da Tradição em geral e da Fraternidade em particular, e que estão ao alcance de todos os que os querem conhecer. Verdade desconhecida, ocultada ou simplesmente não procurada; em todos os casos ignorada, para não dizer desprezada.
Alguns afirmam, como Dom Lourenço Fleichman que a resistência apresenta uma “argumentação vazia de fundamentos, baseada em falsas informações” (cf. “Sobre a Sagração Episcopal”).
Se for preciso reiterar o que já foi dito e pregar a tempo e a contratempo, não nos cansemos de fazê-lo, já que a isto nos exorta São Paulo. Se for preciso reproduzir os argumentos e relembrar os fatos, não nos cansemos de repeti-los e relembrá-los. Façamos mais uma vez o diagnóstico da doença que corrói a Tradição e ameaça a todos de morte. Este mal é o Liberalismo católico, pestilência dos tempos modernos, contradição encarnada na pessoa dos que o abraçam. Todos nós, que no mais das vezes nos consideramos imunes a este contágio universal, estamos susceptíveis a sermos vítimas deste mal.
E por isso é mister defender a obra, o pensamento, a linha intransigentemente católica de Dom Lefebvre, que não é outra senão a de São Pio X e a de todo o Magistério da Igreja desde sua fundação até a apostasia desencadeada pelo Concílio Vaticano II.
Mas entremos antes nos detalhes; aqueles detalhes sem os quais somos incapacitados de lograr qualquer diagnóstico real do desastre do qual somos testemunhas. Comecemos, pois, pelo movimento conhecido como GREC (Grupo para Reflexão Entre Católicos), e prossigamos até o dia de hoje numa brevíssima resenha de alguns fatos marcantes que nos apontarão a causa final que os motiva e explica.
Em 1995, pouco antes de falecer, o antigo embaixador da França no Vaticano, Gilbert Pérol, redigiu um artigo de “bons ofícios” com o intento de promover uma aproximação amistosa entre a Fraternidade e a Igreja oficial. A este projeto deu sequência sua esposa, a Sra. Huguette Pérol, e então uma primeira plataforma de trabalho foi constituída em 1998.
Pouco tempo depois este grupo tomou o nome já referido, GREC, e reuniu membros da Fraternidade São Pio X e do clero progressista. Com o passar dos anos este grupo atraiu a atenção do episcopado francês, não menos que a de Roma. O objetivo do GREC, como explica um de seus fundadores, o Pe. Michel Lelong, “é a necessária reconciliação entre a Tradição e Roma” [i]. Objetivo equívoco, pois como diz Dom Lefebvre: “Roma perdeu a fé... Roma está na apostasia” (cf. Conferência aos padres em Ecône por ocasião do retiro sacerdotal, em 1º de setembro de 1987). Mas para o GREC estas palavras de Dom Lefebvre não merecem atenção. São palavras ditas num “momento de angústia”, como diz um dos defensores da linha de Dom Fellay. Os integrantes do GREC creem ver os acontecimentos desde um ponto mais elevado, com mais serenidade, almejando assim uma “impossível reconciliação”, como diz muito bem o Pe. Rioult, reconciliação entre duas realidades opostas: entre a Igreja verdadeira, a Roma eterna, e a Igreja oficial, a Roma modernista. Na verdade aí está todo o drama por que está passando a Fraternidade, pois Menzingen não cessou, desde então, de procurar esta reconciliação preconizada pelo GREC, fazendo uso de sua autoridade para fazer cessar as críticas à Santa Sé, ou seja, aos modernistas que a ocupam.[ii] Está aí a razão de Dom Fellay ter pedido a Dom Williamson de cessar os seus “Comentários Eleison” e de não ter feito fortes críticas à última reunião ecumênica de Assis.
Lembremo-nos, ainda que sumariamente, de outros fatos:
* Resposta de 14 de abril de 2012, por Dom Fellay, aos três outros bispos da Fraternidade, na qual ele diz aos seus irmãos de episcopado que lhes “falta realismo e espírito sobrenatural”;
* Declaração doutrinal de 15 de abril de 2012. Esta declaração levantou uma reação tal, que Dom Fellay se viu impelido a retirá-la. Mas dela não se retratou até o dia de hoje. A Fraternidade não estava e não está todavia “madura” para aceitá-la.
* A 11 de maio de 2012, Dom Fellay dá uma entrevista ao canal de televisão americano CNS (Catholic News Service), na qual ele minimiza a gravidade do documento conciliar “Dignitatis Humanae”.
* Em julho de 2012 se reúne o Capítulo Geral da Fraternidade sem a presença de Dom Williamson, proibido de aí comparecer. O resultado deste capítulo foi o abandono da decisão do Capítulo Geral anterior (2006), o qual estabelecia que não se levaria a cabo nenhum acordo prático com Roma antes de um prévio “acordo doutrinal”. Em outros termos, antes da conversão de Roma.
* Pouco depois é notificada a expulsão de Dom Williamson da Fraternidade, expulsão que este considera nula; e Dom Williamson convida Dom Fellay a resignar o seu cargo a fim de que não se destrua a obra de Dom Lefebvre.
* Em 13 de junho de 2012 Dom Tissier de Mallerais se manifesta em entrevista ao jornal “Rivarol” contra a política de acordo, sem, entretanto, citar a pessoa de Dom Fellay. Note-se que Dom Tissier foi transferido de Ecône para um priorado nos Estados Unidos. Os seminaristas perderam assim o contato com o mais antigo colaborador de Dom Lefebvre.
Nos meses seguintes, declarações diversas, públicas e privadas, expressaram e reforçaram a política pragmática da Fraternidade com relação a Roma. “Reconhecimento unilateral” é a fórmula apta a obter a aceitação dos membros da Fraternidade. Mas esta é a mesma solução aceita por Dom Gérard (Barroux – França) em 1988, assim como por Campos em 2002. Um reconhecimento canônico tem sido suficiente, seja ele unilateral ou não, para criar uma dependência em relação às autoridades modernistas e desta feita lhes permitir que aniquilem toda a Tradição. Não são os inferiores que fazem os superiores, mas sim os superiores que fazem os inferiores, como observava Dom Lefebvre. É uma simples questão de bom senso. Mas o bom senso está desaparecendo da superfície da terra.
Convém lembrar igualmente os processos iníquos dos quais foram vítimas os padres Pinaud e Salenave, processos descritos e comentados pelo Pe. François Pivert no livro “Quel droit pour la Tradition catholique?”.
As comunidades religiosas que não aprovavam a política de Menzingen já haviam sido objeto de medidas diversas de pressão e vexação. A lista é longa. Recordemos o adiamento da ordenação dos diáconos dominicanos e capuchinhos em 2012. Os beneditinos de Bellaigue também foram ameaçados de ter a ordenação de seus candidatos delongada. Ora, isso se explica se considerarmos que os superiores destas três casas religiosas haviam estado em Menzingen para manifestar a Dom Fellay o seu desacordo.
No entanto, aqueles que apoiam Dom Fellay dizem que isso são águas passadas: o Capítulo Geral de 2012 deu uma solução satisfatória à questão; o que é falso. Tanto o Pe. Pflüger, primeiro assistente de Dom Fellay, como o Pe. Alain Nely, segundo assistente, retomaram o assunto, seja em conversas privadas, seja em retiros, seja ainda em entrevistas públicas.
Não se pode de modo algum dizer que tudo quanto era problemático está sanado na Fraternidade. Se isto fosse verdade, Dom Williamson teria que ser reabilitado, honrado e escutado, pois que foi sua iniciativa de redigir a carta ao Conselho Geral, assinada também por Dom Tissier e Dom de Galarreta, que salvou a Fraternidade em 2012 de um acordo com Roma. Três bispos contra os acordos era demais para Roma. Era melhor esperar por tempos mais propícios.
Para Dom Lefebvre este momento oportuno expressar-se-ia pela conversão de Roma e pela aceitação das doutrinas contidas nos documentos pontifícios Quanta Cura, Syllabus, Pascendi, Quas Primas, etc. Mas para Dom Fellay, os tempos propícios já chegaram e trazem consigo a diminuição do espírito de combate da parte da Fraternidade, ou seja, o alinhamento (“ralliement”, em francês) que culminou com sua declaração de 15 de abril de 2012 e que continua mesmo sem a assinatura de um acordo.
A conclusão de tudo isso é algo de espantoso e trágico. Estes fatos são públicos, na sua maioria. Por que não há uma maior reação à política de Dom Fellay? Ao que parece é porque o liberalismo e a apostasia já fazem sua obra dentro da própria Tradição. Dom Fellay, ajudado por muitos padres, criou um estado de desorientação tal que muitos fiéis já não são capazes de discernir mais nada do que está acontecendo com a obra de Dom Lefebvre.
É por isso que afirmamos que a verdade sobre estes acontecimentos permanece oculta embora seja pública. Seria a ocasião de citar a famosa frase de Chesterton, que segue: “o mundo moderno é dirigido por uma força oculta que se chama publicidade”. O que importa, como diria um amigo nosso, não são os fatos, mas a versão dos fatos. Ora, a versão triunfante é que Dom Williamson e Dom Faure são desobedientes e que os superiores da Fraternidade são os verdadeiros discípulos de Dom Lefebvre. Isto é falso, como o demonstramos. Eis aí o centro do drama.
Agora é vossa hora e o poder das trevas” (Luc. XXII, 53). Talvez a Resistência tenha de sobreviver como os apóstolos e os discípulos dispersos durante o tempo da Paixão. É útil rememorar uma reflexão do grande pensador brasileiro, Gustavo Corção: “Não creio em nenhuma obra nos tempos atuais que reúna um grande número de pessoas.” Talvez a Resistência permaneça o pusillus grex ao qual Nosso Senhor exortou a não temer porque foi do agrado do Pai lhes dar o reino. Que a proteção da Santíssima Virgem possa nos guardar fiéis até o fim: “Ut Fidelis inveniatur.

[i] Pour la nécéssaire réconciliation, Nouvelles Éditions Latines, 2011, p. 15.
[ii] Ibidem, p. 50.”

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