terça-feira, 31 de março de 2015

O solitário Andreas

“Sempre que se comete um crime, preferivelmente monstruoso, os noticiários televisivos incluem uma reportagem especialmente grotesca na qual vizinhos e conterrâneos do criminoso tratam de esboçar seu retrato. Naturalmente, são retratos atoleimados, cheios de vacuidades e necedades orgulhosíssimas de haver-se conhecido. “Era um rapaz muito calado”, dizem; ou ainda: “Falava de preferência pouco, mas sempre me cedia o lugar no elevador”; ou ainda: “Todas as manhãs cruzava com ele fazendo footing, e nunca deixava de saudar-me”; ou ainda, com uma pitada de patetismo: “Não consigo entender que tenha podido matar cento e cinqüenta pessoas! Se até se negava a fumigar o edifício, por amor aos cupins!”. Naturalmente, uma vez que se soube que o louco Andreas Lubitz havia assassinado com premeditação os passageiros do avião que pilotava, os repórteres viajaram até sua aldeia, para entupir os noticiários com um enxame de vacuidades e necedades de seus vizinhos e conterrâneos.
O que, ao final, resulta diáfano é que Lubitz era um solitário que ninguém conhecia deveras; só que sua vida solitária nem sequer chamava a atenção de seus vizinhos e conterrâneos, pela simples razão de que eles levam uma vida tão solitária quanto ele. E aqui chegamos ao cerne que nos importa. Nada foi criado desde os átomos até os anjos para sobreviver em solidão; e das três tendências naturais do ser humano, a conservação própria, a propagação da espécie e a vida comunitária, no mínimo as duas últimas estão ordenadas a evitá-la. Querer a solidão pela solidão em si mesma (quero dizer, sem anelar um fim mais alto) talvez seja o modo mais aberrante de desobedecer nossa vocação natural; e, talvez para justificar esta desobediência, costuma-se imbuir na pobre gente a crença maluca de que se pode ser eminente contemplativo, místico sutil, filósofo genial e artista arrebatado tão somente com buscar a solidão, que deste modo se apresenta como uma grande medicina espiritual. Mas o certo é que, salvo para uns poucos privilegiados (e mesmo para estes), a solidão é um terrível veneno que cedo ou tarde gangrena as almas, engendrando acídia, abulia, tédio, desespero e angústia, além de transtornos e condutas aberrantes, por ensimesmamento e falta de afetos humanos. É que a vida comunitária, ademais de velar pela saúde física e espiritual do homem, atua como freio moral insubstituível e sentinela daqueles demônios que buscam se aninhar na alma do solitário, para primeiro destruí-la e depois imbuir-lhe idéias criminosas que atentem contra a comunidade.
Refletindo sobre o Quixote, Thomas Mann contrapõe a liberdade cervantina com a liberdade do homem contemporâneo, assinalando a aziaga mania que nosso atual conceito de liberdade tem de “começar pelo eu, pelo espírito, pela solidão”. E enfatiza Mann: “Este processo deve se considerar mórbido, pois termina fazendo do homem um ser enfermo, solitário, melancólico, isolado, incompreendido”. Este afã de desvincular e isolar os homens, transformando-os em mônadas auto-suficientes, tem sido sem dúvida uma das maiores “conquistas” do mundo moderno; pois, desvinculando e isolando os homens, conseguiu adoecê-los, debilitá-los e fazê-los mais manipuláveis. E, inevitavelmente, em um mundo de homens solitários, melancólicos, isolados e incompreendidos é inevitável que surjam monstros como este Lubitz; como é inevitável que seus vizinhos fossem por completo incapazes de detectar sua enfermidade e agora também o sejam de fazer outro retrato seu que não seja um enxame de necedades e vacuidades. É a maldição que caiu sobre um mundo de solitários.”
(Juan Manuel de Prada, El Solitario Andreas)

sábado, 28 de março de 2015

Dom Tomás de Aquino: Uma confissão de Menzingen

“O comunicado de Menzingen de 19 de março, ainda que breve, nos ensina um bom número de coisas. Entre outras, encontramos ali uma confissão: que Monsenhor Williamson foi expulso da Fraternidade São Pio X por causa de sua oposição à política acordista de Mons. Fellay.
Até o presente, Menzingen falava de desobediência: Monsenhor Williamson era um indisciplinado, um mau subordinado que não obedece às ordens recebidas. Agora, Menzingen confessa a verdadeira razão: “as vivas críticas” de Mons. Williamson a respeito das relações de Menzingen com Roma. O mesmo para Mons. Faure. Eis aqui sua falha.
O affaire da carta dos três bispos a Mons. Fellay e a seus assistentes não foi digerido. Relações com Roma, Mons. Lefebvre bem que as teve, mas com a esperança de que Roma se recuperasse, que desse marcha a ré. De fato, Mons. Lefebvre era quem dirigia as negociações e o fazia com uma certeza invencível, porque seu critério foi a fé de sempre. Inclusive, ao fazê-lo, quase caiu na armadilha de Roma. “Fui demasiado longe”, disse.
Pelo contrário, com Mons. Fellay, as coisas acontecem de maneira completamente diferente. Não é ele quem dirige as negociações. Não é ele quem tem a força de dizer a Roma: “Sou eu, o acusado, quem vos deveria julgar”. Não, Monsenhor Fellay não se apresenta como juiz dos erros de Roma. Apresenta-se mais como um culpado “em situação irregular que deve reintegrar-se ao redil e que sofre porque “sua” Fraternidade não o segue.
Abramos um parêntese. Julgar Roma? Não é este o papel dos superiores e não dos inferiores? Decerto. Mas os superiores já julgaram. São Quanta Cura, Pascendi, Quas Primas, etc., que condenam aos papas liberais. É Roma, a Roma eterna, quem julgou à Roma neomodernista e neoprotestante. Monsenhor Fellay parece ter esquecido isto e o faz olvidar com sua “Igreja concreta de hoje em dia”. Fechemos o parêntese.
Monsenhor Williamson bloqueava as negociações de Menzingen. Ele constituía um entrave. Sabíamo-lo bem, mas a casa geral dava outra versão. Agora, ela confessa. São as “vivas críticas” de Mons. Williamson contra sua operação suicídio que foram a causa de sua expulsão. Já era tempo que Menzingen o dissesse. Já o fez agora.
No entanto, Menzingen falseia a questão ao dizer que estas vivas críticas eram sobre “toda relação com as autoridades romanas”. Não. Isto não é verdade. Elas eram sobre a incorporação a Roma, que poria a FSSPX sob o jugo modernista e liberal, pelo qual o demônio trata de chegar ao que Corção chamou “o pecado terminal”: fazer cair os últimos bastiões em uma última e monumental afronta a Deus.
E a isto não poderíamos prestar nosso concurso. O demônio não alcançará seus fins porque Nossa Senhora vela: Ipsa conteret. Eis aqui nossa esperança. Ela não será decepcionada, se nós somos fiéis pela graça de Deus: Fidelis inveniatur.”

Original em http://www.dominicainsavrille.fr

sexta-feira, 27 de março de 2015

Entrevista com Mons. Williamson imediatamente após a cerimônia de consagração de Mons. Faure

O senhor recebeu o apoio dos sacerdotes nesta consagração?
Sim, houve um grupo de sacerdotes da América Latina e dos Estados Unidos e outros lugares. Há sacerdotes que compreendem, não são numerosos, mas têm valor, têm a fé, e estão decididos a seguir adiante.
O que fez o senhor decidir realizar a consagração agora?
Cada dia era mais razoável diante da ameaça da guerra, que está muito próxima de nós, e por duas vezes foi evitada com a Síria e a Ucrânia, e o Ocidente delinqüente está provocando os russos e chegará o momento em que Putin dirá que já chega e atacará.
Excelência, já começaram a elevar-se as vozes que dizem que o senhor e Monsenhor Faure estão excomungados; que nos pode dizer a esse respeito?
A Verdade é mais importante que a autoridade. A autoridade existe para servir à Verdade, e as autoridades romanas abandonaram a Verdade, graças ao Concílio, e cada dia mais, desgraçadamente. Então seus castigos e suas censuras não têm peso, não têm valor.
Que qualidades considerou de Monsenhor Faure para consagrá-lo bispo?
É calmo, tem experiência, é velho, um pouco menos velho que eu, tem 73 anos, além disso é inteligente e tem a fé. Tem ademais a experiência da Revolução, porque teve que fugir da Argélia em sua juventude, perdeu tudo com esta Revolução e conheceu a traição do General De Gaulle, então compreende o mundo moderno.
Muitos dos sacerdotes jovens quase não têm experiência do mundo moderno nem da Revolução, então não compreendem perfeitamente o mal. Por exemplo, Mons. Fellay não compreende nada do que são as tentações e os perigos do Vaticano II e seu esforço por aproximar-se do mundo moderno. Não compreende, e igualmente muitos dos outros sacerdotes da Fraternidade. São demasiado jovens, e Monsenhor Faure, sendo velho e com experiência, evita esta armadilha da ignorância do que é verdadeiramente a Igreja moderna, o mundo moderno e tudo mais.
A base de Monsenhor Faure será a França. O senhor continuará visitando a América como antes?
Assim está previsto, embora os acontecimentos possam decidir outra coisa. Monsenhor Faure pode voltar à América Latina com bastante freqüência porque ali está seu coração. Provavelmente assim será.
Excelência, haverá mais consagrações?
É bem possível. Esta se fez discretamente, mas na próxima vez serão mais de um os consagrados e se publicará com antecipação.
Será de novo no Brasil?
Não, seria provavelmente na Europa. Graças a Deus tivemos o Brasil para realizar esta primeira consagração, porque está longe da Europa e longe de muitos problemas. Agora já não sou o único bispo e assim o perigo não é tão grande.
Espera da Fraternidade uma condenação a esta consagração?
Espero que não haja pois seria um mal e não desejo à Fraternidade o mal.
Um sacerdote da Fraternidade disse recentemente que a Resistência é um grupo de desequilibrados sem futuro.
Naturalmente, isso é o que disseram de Monsenhor Lefebvre. Mas não se julgam as coisas segundo as posições dos homens, pois são falíveis e podem se deixar enganar.
E se acusa também de orgulho.
Acusaram também Monsenhor Lefebvre de orgulho. Mas defender a Verdade e afirmar que a Verdade está acima de todos os homens, isso não é orgulho, é humildade. Há uma Verdade objetiva acima de nós, acima de Nosso Senhor enquanto homem, no Evangelho de São João ele disse muitas vezes, Eu não vim para fazer minha Vontade, mas a Vontade de meu Pai. Então Nosso Senhor como homem está abaixo de algo que está acima d’Ele. É humilde. E disse aos fariseus: Se Eu dissesse como vós que não conheço a Verdade, seria mentiroso. Se Eu baixasse minhas afirmações, seria mentiroso, baixar as pretensões, minhas exigências, seria levantar-me contra o Pai. As exigências, o absoluto vêm do Pai. Para todos nós, inclusive para Jesus homem.”

Original em http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br

quarta-feira, 25 de março de 2015

Breve Resposta de Dom Tomás de Aquino ao Comunicado de Menzingen

“Menzingen acusa a ordenação de Dom Jean-Michel Faure de ter não nada em comum com as sagrações de 1988. Para tanto, a casa geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X faz certo número de considerações. Examinemos quatro delas:
1) Dom Williamson e Dom Jean-Michel Faure foram expulsos da Fraternidade porque estavam se opondo a qualquer relação com Roma.
Isto é falso. Eles estão contra a maneira pela qual o fazem Dom Fellay e seus assistentes – incluso aqui o capítulo geral de 2012 –, que buscam um acordo prático sem a conversão de Roma.
2) Dom Williamson e Dom Jean-Michel Faure não reconhecem as autoridades de Roma.
Isto é igualmente falso. Nem um nem outro são sedevacantistas.
3) Menzingen insinua que a publicidade do evento foi insuficiente, e a compara com a grande publicidade de 1988.
Comparada com a de 1988, a de 2015 foi realmente pequena, mas considerada em si mesma, não é uma questão menor. Se contarmos todos os que participaram na cerimônia, vemos representantes dos seguintes países: Inglaterra, França, Estados Unidos, México, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Colômbia e Brasil. Uma centena de fieis assistiram à cerimônia. Os meios de comunicação tanto telefonaram, como vieram ao local.
4) A quarta questão se refere ao estado de necessidade.
Dizemos que nos parece estarmos a ver ali a ponta de um iceberg bastante conhecido: o estado de necessidade de 1988 já não seria o de 2015. Roma já não é tão agressiva contra a Tradição como o era em 1988. Eis uma velha canção: Roma muda! Sim! Roma muda... para pior! E isto também na época de Bento XVI.
Conclusão: Menzingen desaprova a sagração de Dom Jean-Michel Faure; mais que isso, a ataca. É normal. Enquanto Menzingen não compreender que está no mau caminho, atacará sempre a resistência para defender sua política de aproximação com Roma.
No fundo, o que está em jogo é aquilo que disse Dom Lefebvre durante seu sermão histórico de Lille em agosto de 1976: Quero que, na hora de minha morte, quando Nosso Senhor me perguntar: “Que fizeste com tua graça episcopal e sacerdotal?”, eu não tenha de escutar de Sua boca: “Tu contribuíste para destruir a Igreja, tal como os outros”.
Nós tampouco. Eis porque continuamos o combate, e para isto precisamos de bispos. Essa é a explicação para a sagração de 19 de março. Não se deve buscá-la em nenhum outro lugar.”

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domingo, 22 de março de 2015

Informativo da Iniciativa São Marcel referente à consagração episcopal do Pe. Jean-Michel Faure

“Os que apóiam Sua Excelência o Bispo Williamson, seja como leitores dos Comentários Eleison, seja como contribuintes da Iniciativa São Marcel, ou de alguma outra forma, certamente já sabem da notícia sobre a ordenação, por Sua Excelência, do Bispo Jean-Michel Faure, que se deu no Mosteiro da Santa Cruz em Nova Friburgo – Brasil, na última quinta-feira, dia 19 de março, Festa de São José. A divulgação do acontecimento foi compreensivelmente retida até os últimos momentos que o antecederam, a fim de se evitar, na medida do humanamente possível, quaisquer interrupções na cerimônia, assim como quaisquer outros problemas que poderiam ter surgido conjuntamente.
No entanto, agora que a consagração aconteceu, somos capazes de fornecer aos fiéis e ao mundo em geral explicações sobre o assim chamado “Mandato de Emergência”, que foi lido durante a liturgia.
Como muitos já sabem, entre as primeiras palavras ditas no rito da Ordenação Episcopal está a declaração feita ao bispo ordenante por seu assistente sênior:
“Reverendíssimo Padre, nossa santa Madre, a Igreja Católica, pede que o senhor promova este sacerdote aqui presente aos deveres do episcopado”.
Em resposta, o bispo ordenante pergunta se o assistente tem o “Mandato Apostólico”.
A resposta é: “Nós temos”, à qual o bispo ordenante responde: “Leia-se”.
(Aqueles mais interessados podem consultar depois um útil Ordo online em latim e inglês, extraído do Pontificale Romanum, publicado em 1910.)
Aquilo, porém, que foi lido na cerimônia de quinta-feira em resposta ao convite de Dom Williamson – e que tanto tem a função litúrgica, como serve para uma explanação pública sobre a lógica da cerimônia tal como foi visto pelos participantes – é o que se segue. Os leitores talvez se interessem em saber que os seus primeiros parágrafos seguem de perto a linguagem usada por Dom Lefebvre em 30 de junho de 1988.
MANDATUM APOSTOLICUM
Nós temos o Mandato para consagrar a partir da Igreja Romana, que, em sua fidelidade à Sagrada Tradição recebida desde os Apóstolos, nos ordena a transmitir fielmente essa mesma Sagrada Tradição – a saber, o Depósito da Fé – para todos os homens em razão de seu dever de salvar suas almas.
Pois, de fato, por um lado as autoridades da Igreja de Roma desde o Concílio Vaticano II até os dias de hoje são guiadas por um espírito de modernismo que mina profundamente a Sagrada Tradição, a ponto de distorcer seus próprios conceitos:
Haverá um tempo em que eles não suportarão a Sã Doutrina... afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas, como disse São Paulo a Timóteo em sua segunda Epístola (4, 3-4). Que utilidade teria um pedido a tais autoridades por um Mandato para consagrar um bispo que se oporá profundamente ao seu erro mais grave?
E por outro lado, quanto à obtenção de tal bispo, os poucos católicos que entendem sua importância poderiam esperar, mesmo depois do Vaticano II, que ele pudesse vir da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada por Dom Marcel Lefebvre, tal como os quatro outros ordenados por ele em 1988 com um Mandato de emergência anterior. Infelizmente, quando as autoridades dessa Fraternidade mostraram, por sua contínua mudança de direção, às autoridades romanas que eles estavam tomando a mesmo rumo modernista, essa esperança se mostrou ser em vão.
De onde então poderiam esses fiéis católicos obter os bispos essenciais para a sobrevivência de sua verdadeira fé? Em um mundo que faz guerra política dia após dia, sobretudo contra Deus e Sua Igreja, o perigo para a Fé parece tal que a sobrevivência desta não pode mais ser deixada na dependência de um único bispo totalmente antimodernista. A própria Igreja pede a ele que nomeie um associado, que será o Padre Jean-Michel Faure.
Por esta transmissão de poder da Ordem episcopal, nenhum poder episcopal de jurisdição é assumido ou concedido, e tão logo Deus intervenha para salvar Sua Igreja, que não tem mais nenhuma esperança de resgate humano, os efeitos dessa ordenação e desse Mandato de emergência serão imediatamente colocados de volta nas mãos de um Papa que venha a ser completamente católico.


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quinta-feira, 19 de março de 2015

Entrevista com o Rev. Pe. Faure, consagrado bispo por S.E.R Mons. Richard Williamson em 19/03/2015 no Mosteiro da Santa Cruz em Nova Friburgo

Um pouco de história para começar, Padre: como conheceu a Tradição e Monsenhor Lefebvre?
Em 1968, estando na Argentina, visitei ao Arcebispo de Paraná, que me disse: “quer defender a Tradição? No Concílio, a defendi junto com um Bispo corajoso, meu amigo, Mons. Marcel Lefebvre”. Foi a primeira vez que ouvi falar de Mons. Lefebvre. Fui procurar Mons. Lefebvre na Suíça em 1972, por ocasião da Semana Santa, e então o conheci.
Onde o senhor nasceu? Por que estava vivendo na América do Sul?
Eu nasci na Argélia [1943], e minha família, depois da Independência, adquiriu uma terra na Argentina, perto de Paraná. Minha família foi expulsa da Argélia porque o governo francês entregou o poder aos combatentes muçulmanos, que realizaram massacres espantosos durante o processo de Independência. Meus avós, pais e tios eram agricultores lá, desde 1830.
Continuando com a história, como desenvolveu seu apostolado na FSSPX?
Fui ordenado por Mons. Lefebvre em 1977, em Ecône, e quinze dias depois o acompanhei em uma viagem pelo Sul dos Estados Unidos, México (onde o Governo nos impediu de entrar), Colômbia, Chile e Argentina. Monsenhor me encarregou de começar o apostolado nessa região. No primeiro ano, me ajudaram dois sacerdotes argentinos e, no ano seguinte, outro espanhol (da FSSPX). Criou-se, em seguida, o Distrito da América do Sul, sob minha responsabilidade, e comecei a pregar retiros até o México. Houve, no primeiro ano, por volta de 12 vocações, que se instalaram no Priorado de Buenos Aires, que estava alojado em uma casa muito grande. Em seguida, por volta de 1980, foi construído o Seminário de La Reja (Buenos Aires), do qual Mons. Lefebvre nomeou-me diretor. Lá fiquei até 1985, quando fui nomeado Superior do Distrito do México. Então, foram construídas as igrejas da Capital e de Guadalajara. Atendia, com os Padres Calderón, Anglés e Tam, diferentes localidades desse País. Depois, estive alguns anos na França. Posteriormente, fui nomeado no Seminário da Argentina como professor de História, e lá permaneci até a expulsão de Mons. Williamson da Argentina (2009).
Mons. Lefebvre confiava no senhor?
Monsenhor me deu livre acesso à sua correspondência e me encarregou de certos expedientes. Tinha certa confiança em mim: em 1977, ele me perguntou, em Albano, o que pensava sobre as sagrações. Em outra oportunidade, também em 1977, me confidenciou: “eles estão esperando por mim” (o diretor de Ecône e os professores). Eles sugeriam aceitar a Missa Nova e o Concílio para conservar a Missa Tridentina. Diziam-lhe: “Agora, estamos em confronto com Roma. Se quisermos conservar a Missa (Tridentina), devemos aceitar o Concílio”. Pretendiam que Monsenhor se aposentasse em uma bela casa na Alemanha, mas ele lhes respondeu que eles eram livres para sair se assim o desejassem. E os expulsou.
É verdade que Mons. Lefebvre pediu ao senhor que aceitasse ser sagrado [Bispo]?
Em 1986, estando de visita em Ecône, me chamou de lado, depois de uma refeição, e me perguntou se eu aceitaria ser sagrado Bispo. Conhecendo o que se seguiu, talvez eu devesse ter aceitado.
Então, o senhor não aceitou?
Eu lhe disse que me parecia que Mons. de Galarreta seria mais indicado.
Pode resumir o que aconteceu em 2012?
Naquele ano, estivemos a muito poucos passos do acordo, e fracassou no último momento, provavelmente, pelo caso Williamson. O acordo fracassou por esse assunto e pela carta dos três Bispos. Ambas as coisas fizeram fracassar o acordo.
Diz-se que a chave da estratégia ad intra de Monsenhor Fellay está em ter o apoio do Capítulo Geral. O senhor pode nos dizer algo sobre isso?
O Capítulo Geral foi muito bem preparado por Mons. Fellay, e eles (os acordistas) alcançaram os seus objetivos. Ali entendi o que aconteceu com Monsenhor Lefebvre e seus amigos no Concílio Vaticano II. Ele (Mons. Fellay) havia tomado a decisão de uma política de aproximação a Roma e ajeitou as coisas para obter o apoio geral do capítulo, expulsando Mons. Williamson, que era o único capaz de impedir essa política.
Quais, em sua opinião, devem ser as condições necessárias para fazer um acordo com a Roma?
Mons. Lefebvre nos disse que, enquanto não houver nenhuma mudança radical em Roma, um acordo é impossível, porque essas pessoas não são leais, e não se pode pretender transformar os superiores. É o gato que come o rato, e não o rato que come o gato. Um acordo equivaleria a entregar-se nas mãos dos modernistas; por conseguinte, deve ser rejeitado absolutamente. É impossível. Temos que esperar que Deus intervenha.
O senhor pode nos dizer o que pensa das visitas de avaliação de diversos prelados modernistas aos seminários da Fraternidade? É verdade que algumas vezes Mons. Lefebvre recebeu alguns prelados. Qual é a diferença agora?
Tratava-se de visitas excepcionais [11/11/1987], durante as quais o Card. Gagnon nunca teve a oportunidade de defender o Concílio, enquanto que, agora, trata-se dos primeiros passos para a reintegração (da FSSPX) à igreja conciliar.
O que acha de um eventual reconhecimento unilateral da FSSPX por parte de Roma?
É uma armadilha.
Entre o Capítulo de 2006 e a crise iniciada em 2012, observa-se uma mudança de atitude por parte das autoridades da FSSPX em relação a Roma. A que se deve essa mudança?
Deve-se à decisão dos superiores de reintegrar-se à igreja conciliar. Desde 1994 ou 1995, foram realizados os contatos do GREC, que foram passos significativos no sentido da reconciliação, como o havia previsto o embaixador Pérol (representante da França na Itália), que é o inventor do levantamento das excomunhões (2009) e do Motu Proprio (2007). Isso devia ter como contrapartida o reconhecimento do Concílio.
O que faria Mons. Lefebvre na situação atual?
Seguiria na linha que nos indicou depois das Sagrações [de 1988], descartando absolutamente a possibilidade de um acordo.
Se, no futuro, o senhor fosse convidado para ir a Roma para falar com o Papa, iria? O que diria?
Em primeiro lugar, consultaria a todos os nossos amigos na Resistência. Eu iria com Mons. Williamson e outros excelentes sacerdotes que levam adiante o combate da Resistência com muito valor. E manteria informados todos os nossos amigos, com toda transparência.
Mons. Fellay disse que a FSSPX está de acordo com 95% do Concílio Vaticano II. O que o senhor acha disso?
Mons. Lefebvre respondeu que todo o Concílio está invadido de um espírito subjetivista que não é católico.
Francisco, sendo eficaz demolidor da Igreja e destruidor da Fé, é verdadeiro Papa?
Em minha opinião, não se pode dizer que Francisco seja pior do que Paulo VI, que foi quem pôs a Igreja em outro caminho; e, então, devemos conservar a atitude que foi a de Mons. Lefebvre, atitude prudencial que exclui o sedevacantismo. Mons. Lefebvre sempre se recusou a ordenar um seminarista que fosse sedevacantista. E essa foi a política da FSSPX até sua morte. Portanto, não nos venham com essa que Monsenhor disse isso ou aquilo.
Qual é o estado de seu processo de expulsão da FSSPX?
As últimas notícias foram que encontrei, no e-mail, por acaso, uma segunda admoestação. A partir de amanhã, então, a FSSPX terá novamente quatro Bispos. Deverão me expulsar rapidamente! Deo Gratias!
Esta decisão de sagrá-lo Bispo deve ter sido muito sopesada e meditada durante muito tempo. Como Mons. Lefebvre, também o senhor, Mons. Williamson e os Sacerdotes da Resistência não quiseram ser colaboradores da destruição da Igreja. É para conservar a Fé intacta que foram perseguidos, condenados e caluniados muitas vezes. Sua sagração episcopal poderá lhe acarretar uma pretensa excomunhão. Quais foram as razões principais para levar a cabo esta sagração?
A razão principal é que não podemos deixar a Resistência sem Bispos. Como o disse Mons. Lefebvre, são indispensáveis Bispos católicos para a conservação da verdadeira doutrina da Fé e dos Sacramentos.
Mons. Lefebvre pensou no senhor para ser sagrado Bispo, e agora Mons. Williamson pôde cumprir esse desejo. Qual será a sua principal preocupação?
Esforçar-me para manter a Obra de Mons. Lefebvre no caminho que ele havia traçado, não desviando nem para a direita nem para a esquerda.
Onde será seu lugar de residência?
Na França, onde pretendemos abrir um seminário perto dos Dominicanos de Avrillé.
O senhor gostaria de dizer algumas palavras aos Sacerdotes e fiéis que ainda estão sob a estrutura da Fraternidade, mas que estão inquietos por causa de seu desvio liberal nos últimos anos?
Que voltem a ler e meditar os textos de seu Fundador.
O senhor pode nos explicar a essência de seu brasão?
No centro, está o Cordeiro do Apocalipse, o Alfa e Ômega, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, anunciado por Isaías. Os corações recordam a Vendéia mártir da Revolução (Francesa); e a Flor-de-Lis é emblema da França católica. O lema, ipsa cónteret (Ela te esmagará) é tomado da Vulgata, Gênesis 3,15, onde Deus promete a vitória da Virgem Maria sobre o dragão.
Há algo que gostaria de acrescentar?
Conservemos a Fé, a Esperança e a Caridade. Não há que duvidar, e é preciso pedir isso a Deus e a Nossa Senhora, que nos mantenham nessas virtudes.
Padre, agradecemos profundamente a Deus, a Sua Santíssima Mãe e a São José, Protetor da Igreja, por esta graça tão grande. Pedimos pelo senhor, para que Deus o conserve e o guarde. Agradecemos-lhe por ter aceito tão tremendo encargo, e a Monsenhor Williamson por tê-lo sagrado como sucessor dos Apóstolos. Deo Gratias!”

Traduzido por Carla d’Amore

http://farfalline.blogspot.com

terça-feira, 17 de março de 2015

Não existe felicidade desregrada

“Uma época em que tudo é permitido sempre tornou infelizes aqueles que nela viveram. Disciplina, abstinência, cortesia, música, moral, poesia, forma, proibição, tudo isso tem como sentido último conferir à vida uma forma bem delimitada e determinada. Não existe felicidade desregrada. Não existe grande felicidade sem grandes tabus. Até no mundo dos negócios não podemos correr atrás de qualquer vantagem, porque nos arriscamos a não chegar a lugar nenhum. O limite é o segredo dos fenômenos, o mistério da força, da felicidade, da fé e da nossa missão, que é a de nos afirmarmos como ínfimos seres humanos num universo.”
(Robert Musil, O Homem sem Qualidades)

sábado, 14 de março de 2015

As desvantagens do ateísmo

“Parece-nos que o homem feliz não colhe vantagem alguma em ser ateu. É-lhe tão agradável cismar que os seus dias se prolongarão além da vida! Com que desespero não deixaria ele este mundo, se acreditasse separar-se para sempre da felicidade! Debalde sobre a sua cabeça se acumulariam todos os bens do século, que serviriam apenas para lhe tornar mais tormentoso o nada.
O rico pode também contar com que a religião lhe amplie os prazeres, mesclando-os com inexplicável ternura; não se lhe endurecerá o coração, o gozo, escolho inevitável das grandes prosperidades, não o infastiará; que a religião refrigera as sequidões da alma: é o que representa esse óleo santo com que o cristianismo consagrava a realeza, a infância, e a morte, para as salvar da esterilidade.
O guerreiro arremessa-se ao combate: será ateu esse filho da glória? O que busca uma vida infinita consentirá em terminá-la? Aparecei sobre as vossas nuvens fulminantes, soldados inumeráveis, antigas legiões da pátria! Famosas milícias de França, e agora milícias do céu, aparecei! Dizei aos heróis da nossa idade, do alto da cidade santa, que o bravo não cai inteiro no túmulo, e que, após ele, permanece alguma coisa mais que um vão renome.”
(François René de Chateaubriand, Génie du Christianisme)

quarta-feira, 11 de março de 2015

Sigmund Freud e o Talmude

“O Talmud Babilônico (TB) no tratado Kiddushin 40a começa com um ensinamento do Rabino Chanina que: "É preferível que uma pessoa cometa um pecado em privado e não profane o nome de Deus em público".
O Talmud, em seguida, afirma o ensinamento: "Se uma pessoa vê que a sua inclinação para o mal está vencendo ela deve ir para um lugar onde não é conhecida e cobrir-se com roupas pretas e fazer o mal lá".
Muitas autoridades rabínicas clássicas (Tosafot Toch e Tosafot Harosh) reconhecem que esta passagem tolera o pecado.
“Pecado por causa do Céu”
O significado desta terminologia rabínica é fazer algo que é claramente errado (pecado), mas com uma boa intenção (por causa do Céu) (Veja Steinsaltz Iyunim em Kiddushin 40a ad.loc).
Este ensinamento rabínico de um pecado por causa do Céu reconhece que o pecado pode ser necessário, por vezes, e se for feito com sinceridade, tem legitimidade.
Este dogma miserável permeia a cultura judaica e foi herdado até mesmo por aqueles judeus que não eram religiosos. Observamos essa mentalidade talmúdica refletida na atividade judaica em muitos campos tais como política (os "ateus" judeus bolcheviques) e em psiquiatria, como iniciado por Sigmund Freud, que é conhecido por ter representado um afastamento de forma liberal e esclarecida das tradições sóbrias do passado.
Freud, no entanto, de fato, absorve as tradições talmúdicas de sua cultura nativa, incluindo a imoralidade sem escrúpulos que lhe deu um mandato "celestial" para mentir e enganar por causa de um bem mais elevado (pecado por causa do Céu).
O falecido Dr. Frank Cioffi, professor de filosofia na Universidade de Essex, na Inglaterra, afirmou que Freud impôs suas ideias sobre sexualidade e neuroses aos seus pacientes, ao dar voz a elas através das histórias de seus pacientes, independentemente de seus pacientes terem contado realmente essas histórias.
Cioffi: "Quando ele decidiu que a neurose estava enraizada nas fantasias sexuais com nossos pais, por exemplo, Freud determinou que seus pacientes "lembrassem" tais fantasias, quer eles realmente lembrassem delas ou não."
Cioffi fornece evidência da desonestidade de Freud ao citar a própria descrição de Freud de sua justificação para "construir" as declarações de seus pacientes. A descrição pode ser encontrada na biografia em três volumes autorizada pelo famoso psiquiatra, que contém a seguinte declaração dele:
"Muitas vezes nós não conseguimos levar o paciente a recordar o que foi reprimido. Em vez disso produzimos nele uma convicção segura da verdade da construção, que alcança o mesmo resultado terapêutico que uma lembrança recapturada" (Ernest Jones, The Life and Work of Sigmund Freud, Basic Books: 1981).
Em outras palavras, Freud se justificava por enganar seu paciente a acreditar que a fabricação de Freud era a própria realidade do paciente, porque conseguia um "resultado terapêutico". Embora Freud não empregasse termos teológicos, o espírito de sua desonestidade intelectual emanava de uma cultura mergulhada em dissimulação rabínica, no "pecar por causa do céu". Por este meio Deus é feito de cúmplice na impostura.
Para saber mais sobre Freud e Judaísmo leia Judaism's Strange Gods (2011), p. 295-296.”
(Michael Hoffman, Freud and the Talmud: Sinning for the Sake of Heaven)

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