domingo, 8 de março de 2015

As revoluções européias do séc. XIX foram tramadas nas lojas maçônicas judaicas

“Na página 340 de sua obra Le Juif etc, já citada, Gougenot des Mousseaux reproduz um artigo do jornal Folha Política, de Munique, em 1862, no qual se destaca a existência na Alemanha, na Itália e em Londres, de lojas diretoras desconhecidas da maioria dos maçons, e nas quais os judeus estão em maioria. “Em Londres, onde se encontra o lar da revolução sob o Grande Mestre Palmerston, existem duas lojas que jamais permitem que cristãos passem por suas portas. É lá que todas as tramas e todos os elementos da revolução são reunidos e depois chocados nas lojas cristãs.” Em seguida, des Mousseaux cita a opinião (p. 368) de um estadista protestante a serviço de uma grande Potência Germânica, que lhe escreveu em dezembro de 1865 que “quando estourou a revolução de 1845 eu me encontrava em relação com um judeu que por vaidade traiu o segredo das sociedades secretas às quais ele estava associado, e que me informou com oito a dez dias de antecedência de todas as revoluções que haviam de estourar em todos os pontos da Europa. Eu devo a ele a convicção inabalável de que todos os grandes movimentos de “povos oprimidos” etc etc são controlados por uma meia dúzia de indivíduos que dão seu conselho às sociedades secretas de toda a Europa.”
(Mons. George F. Dillon, Grand Orient Freemasonry Unmasked)

quinta-feira, 5 de março de 2015

"O que a Santa Maria mais despraz"


Dedicado a Jorge Mario Bergoglio, Bispo de Roma, amigo dos judeus.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Juan Vázquez de Mella sobre a tradição

“O homem se desenvolve e, portanto, inventa, combina, transforma, quer dizer, progride, e transmite aos demais as conquistas de seu progresso. O primeiro invento foi o primeiro progresso; e o primeiro progresso, ao transmitir-se aos demais, foi a primeira tradição que começava. A tradição é o efeito do progresso; mas como o comunica, quer dizer, o conserva e o propaga, ela mesma é o progresso social. O progresso social não chega a ser social se a tradição não o recolhe em seus braços. É a tocha que se apaga tristemente ao alcançar o primeiro resplendor se a tradição não a recolhe ou a levanta para que passe de geração em geração, renovando em novos ambientes o resplendor de sua chama.
A tradição é o progresso hereditário; e o progresso, se não é hereditário, não é progresso social. Uma geração, se é herdeira das anteriores, que lhe transmitem por tradição hereditária o que receberam, pode recolhê-la e fazer o que fazem os bons herdeiros: aumentá-la e aperfeiçoá-la, para comunicá-la melhorada a seus sucessores. Pode também malbaratar a herança ou repudiá-la. Neste caso, chega a miséria ou a ruína: e se edificou algo, destruindo o anterior, não tem direito a que a geração seguinte, deserdada do patrimônio desfeito, aceite o seu: e o provável é que fique sem os dois. É que a Tradição, se inclui o direito dos antepassados à imortalidade e ao respeito de suas obras, implica também o direito das gerações e dos séculos posteriores a que não se lhes destrua a herança das precedentes por uma geração intermediária amotinada. A autonomia selvagem de fazer tábua rasa de todo o anterior e sujeitar as sociedades a uma série de aniquilamentos e criações é uma espécie de loucura que consistiria em afirmar o direito da onda sobre o rio e seu leito, quando a tradição é o direito do rio sobre a onda que agita suas águas.
O anel vivo de uma cadeia de séculos, se não está conforme com os que precedem e quer que só o estejam os que o seguem, pode sair da cadeia para existir por sua conta; mas não tem direito a destruí-la nem a privar os posteriores dos anéis precedentes.
E sendo todas as autonomias iguais, as dos séculos precedentes e as dos posteriores valem mais que as de um momento dado da História, ainda supondo – o que jamais aconteceu – que uma oligarquia não usurpe o nome de todos e não faça passar o capricho dos menos pela vontade dos mais. Logo por cima dessa imaginária autonomia está o dever de subordinar-se à tradição até pelo império das maiorias, que rara vez são simultâneas; mas que, quando se trata das instituições que expressam os grandes feitos de um povo, são sempre sucessivas.
Vede, senhores, como a tradição, ridiculamente desdenhada pelos que nem sequer penetraram seu conceito, não só é elemento necessário do progresso, mas uma lei social importantíssima, a que expressa a continuidade histórica de um povo, embora não tenham parado para pensar sobre ela certos sociólogos que, por se deterem demasiado a admitir a natureza animal, não tiveram tempo de estudar a humana em que radica.
Esta é a razão por que todo homem, ainda que não perceba e sem querer, seja tradicionalista, porque começa por ser já uma tradição acumulada. Que se despoje, se pode, do que recebeu de seus ancestrais e verá que o que resta não é ele mesmo, mas uma pessoa mutilada que reclama a tradição como o complemento de sua existência. O revolucionário mais audaz que, em nome de uma teoria idealista, formada mais pela fantasia que pelo entendimento, se propõe derrubar o edifício social e pulverizar até os blocos de suas fundações para levantar outros de nova planta, se antes de começar a demolição se detém a perguntar-se a si mesmo quem é; se a paixão não o cega, ouvirá uma voz que lhe diz desde os muros que ameaça e desde o fundo de sua alma: És uma tradição compendiada que se quer suicidar; és o último descendente de uma dinastia de antepassados tão antiga como a linhagem humana; nenhuma é mais secular que a tua. Se um só faltasse nessa cadeia de milhares de anos, não existirias; queres derrotar uma estirpe de tradições e és em parte obra delas. Queres destruir uma tradição em nome de tua autonomia e começas por negar as autonomias anteriores e por desconhecer as seguintes; ao inaugurar tua obra, queres que continue uma tradição contra as tradições passadas e contra as tradições vindouras, proclamando a única verdade da tua. Olhando para trás, és parricida; olhando para frente, assassino, e olhando para ti mesmo, um demente que crê destruir os demais quando se mata a si mesmo.
Os homens grandes são aqueles que sabem conservar, em uma sociedade intangível, a herança da tradição; os que não só a conservam, mas que a corrigem; os que, não satisfeitos em conservá-la e corrigi-la, a aperfeiçoam e a aumentam. E o mais tradicionalista não é o que só preserva, mas o que, além de conservar, corrige, o que adiciona e acrescenta, porque segue melhor o exemplo dos fundadores, não se limitando a manter o caudal, mas fazendo o que eles fizeram: produzir e prolongar com seu progresso suas obras.
Por isso os maiores homens da história são os mais tradicionalistas; quer dizer, os que não deixam atrás de si mais que tradição. Só o vulgo que não funda não transmite nada próprio: e muitas vezes, sem as conhecer sequer, repudia as heranças dos demais. Em suma, a autonomia individual é a solidão do isolamento, rompendo a trama social das gerações e interrompendo bruscamente, se a tanto alcança sua força dissolvente, a continuidade da vida de um povo. A tradição é a família agrupada ao redor do mesmo lar, onde se substituem os homens e as chamas, que duram mais que os homens.”
(Juan Vázquez de Mella, Discurso del Parque de la Salud de Barcelona, 17 de mayo de 1903)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Os malefícios dos reality shows (II)

“Outro fator que contribui para a permanência dos indivíduos em seus espaços pessoais é a questão dos espaços públicos que outrora se prestavam à reunião social, mas hoje se tornaram adversos e estranhos, principalmente nas grandes cidades, pelo aumento da criminalidade, do trânsito intenso de veículos, da poluição, da descaracterização arquitetônica, etc.
Diante de tal cenário, fica a indagação sobre os tipos de elementos representacionais com os quais o sujeito contemporâneo poderá identificar-se.
Os reality-shows
uma alternativa?

Vivemos hoje a alienação decorrente de um sistema econômico que incita ao consumo constante de objetos cada vez mais descartáveis, estabelece relações rápidas e descontínuas, e torna-se "embotadora da cognição, da simples observação do mundo, do conhecimento do outro" (Bosi, 2003, p.24).
Touraine (1999) relaciona a fragmentação de nossa cultura à desagregação social e ao do mercado, das comunidades e de suas próprias pulsões. Sem parâmetros definidos socialmente de espaço e tempo, perdeu-se a noção de continuidade histórica de uma nação ou de uma coletividade territorial.
O fio da História amarra-se no presente contínuo em tempo real, que abate o passado e despreza o futuro. À hegemonia do presente, correspondem as informações ininterruptas veiculadas pela mídia que, por sua rapidez e quantidade, impedem que o indivíduo possa digeri-las e pensá-las.
Por sua vez, Baudrillard (2001) lembra que o século XX presenciou toda a sorte de crimes: Auschwitz, Hiroshima e genocídios, mas o único e verdadeiro crime perfeito foi a queda do homem na banalidade, violência mortífera, que, justamente pela indiferença e pela monotonia, é a forma mais sutil de exterminação. Vivemos hoje numa sociedade que mistura todos em um imenso ser indivisível, em total promiscuidade.
É possível relacionar tal banalização à quantidade de estimulação sensorial a que somos expostos de maneira ininterrupta, sem oportunidade de processar, elaborar e pensar criticamente sobre o que nosso aparato perceptivo é capaz de absorver. Há, então, um empobrecimento do contato com nossa própria subjetividade e a concomitante alienação das experiências cognitivas e afetivo-emocionais. Permanecemos no nível mais superficial da senso-percepção, abdicando das sofisticadas potencialidades de nosso aparato psíquico.
Assolado pela angústia frente à perda de contato com sua própria subjetividade, pressionado pela velocidade do mundo da produção, destituído de seu lugar de agente nas relações sociais sem contrato, sem regras ou sistema de valores definido e impelido ao consumo desenfreado, o ser humano busca eco para suas vivências em "reality shows".
Como disse Novaes (1996), somos atraídos pelo fútil, pela curiosidade ávida de sensacionalismo e pela excitação banal, deixando de lado nossa potência de pensar e agir. Os "reality shows" nos proporcionam tudo isso, adormecendo nossa capacidade crítica já tão abalada pela alienação de nossas consciências.
A versão pós-moderna do teatro grego aparece destituída da profundidade do drama e do impacto da tragédia. As experiências humanas ficam reduzidas a uma gama de pequenos conflitos que retratam a superficialidade e o caráter fugidio das relações sociais. O que se vê é a pulverização dos relacionamentos em atitudes impulsivas, intrigas e falas desarticuladas, denotando manifestações emocionais caricatas e previsíveis.
Segundo Baudrillard (2001), o Big Brother é o espelho e o desastre de toda uma sociedade presa da insignificância que se curva diante de sua própria banalidade. É uma farsa integral, uma imagem reflexa de sua própria realidade. Para o autor, a audiência é grande graças à debilidade e nulidade do espetáculo: ou as pessoas assistem porque ali se reconhecem e/ou assistem para se sentirem menos idiotas que os protagonistas.
Reafirmando essas colocações, pode-se dizer que, em um estilo "fast food", engolimos as ações-reações de personagens vazios, que lutam cegamente por sua sobrevivência individual.
Consumimos a exposição de pessoas que, ávidas por exibirem-se e ganharem fama, ainda que fugaz, submetem-se à superexposição. O narcisismo explícito promove o aparecimento de relações imaturas, permeadas pela escotomização e pela negação das experiências emocionais mais profundas.
Enquanto espectadores, também retornamos a um funcionamento psíquico primitivo, na medida em que ter acesso à vida de outras pessoas em tempo integral confere-nos a realização da onipresença, da onipotência e da onisciência, qualidades essas inerentes às experiências emocionais dos bebês e que mimetizam os atributos imanentes dos deuses. Se, na infância, encarnamos os super-heróis com seus ilimitados poderes, nesse momento, tornamo-nos os "super-espectadores", que realizam o desejo de participar de tudo, negando a exclusão e o limite.
Por outro lado, assistir a tais programas confere-nos a ilusão de que estamos vendo a vida real, tal qual a vivemos. Como vimos anteriormente, toda a técnica está a serviço de tornar o programa o mais real possível. O "como se", que inclui o simbólico e a abstração, dá lugar ao "é agora", numa tentativa de substituir o personagem da ficção pelo indivíduo real. O hiato entre personagem e ator desaparece, numa busca desenfreada pela verdade última das experiências humanas.
Segundo Gullo (2004), os "reality shows" são a versão moderna dos grandes circos romanos. Exploram a necessidade do ser humano de ver e participar dos problemas alheios, movido por sua incessante curiosidade, muitas vezes mórbida. Para o autor, quando o cotidiano é retratado nesses programas, torna-se uma farsa, porque tudo é programado, planejado e racionalizado: "o reality show" é o mais baixo nível do cotidiano, mostrado com tecnologia altamente elaborada com o objetivo de captar o telespectador para interesses da produção que visam ao lucro"(Gullo, 2004, p. 1).
Do mesmo ponto de vista, Couldry (2002) e Jones (2003) afirmam que o espectador é iludido ao acreditar que está vendo a realidade, o que lhe confere uma sensação prazerosa. Porém, na verdade, o que se vê é o resultado do desenvolvimento de estratégias da técnica televisiva, que visam a mimetizar o real, produzindo um programa repleto de ambigüidades, que mais se aproxima dos mitos e da novela-documentário ("docu-soap").
Diante disso, parece que já não somos capazes de mergulhar na fantasia, no jogo de sombra e luz da ficção e que vai demandar a ação do pensamento enquanto abstração, análise e síntese. Assim, não há o que pensar, há apenas o que consumir.
Os brinquedos ganharam vida pela magia sedutora das câmeras escondidas do Big Brother. Além de todos os artefatos tecnológicos, desejamos agora brincar com "gente de verdade".
O prazer de assistir também advém da crença de que o outro vive o drama da sobrevivência em nosso lugar: tornamo-nos ingênuos e pueris, por um lado, e sádicos e triunfantes, por outro.
O caráter bufo e satírico do teatro do passado permanece: cada integrante que perde e sai do jogo comemora, paradoxalmente, de maneira esfuziante, seu próprio fracasso, negando qualquer vislumbre de dor. Em uma celebração coletiva, personagem e espectadores compartilham sentimentos de triunfo e desprezo, sinais evidentes da falta de contato com os aspectos inerentes à subjetividade.
É curioso observar que cada integrante que deixa o programa provoca tristeza nos concorrentes que ficam e alegria na torcida uniformizada que os espera do lado de fora. O "non sense" da situação é patente: quem está ganhando chora e quem perde comemora - uma clara inversão de valores que desloca afetos, turva consciências e banaliza a experiência humana. O herói perdedor sai triunfante, com ares de celebridade, é entrevistado pelo apresentador e conversa com os telespectadores via internet, com o intuito de relatar sua grande aventura. É lamentável que essa espécie de Dom Quixote pós-moderno não traga consigo qualquer indagação ou pensamento profundo e, ao contrário do original, nada busque a não ser o exibicionismo e a fama.
Mais surpreendente ainda é que as pessoas em geral não questionam, simplesmente assistem e consomem com voracidade, esperando sempre a próxima versão do programa porque o anterior já foi esquecido, como um dos tantos objetos descartáveis que usamos e dispensamos.
Concluindo, mencionamos a necessidade de o indivíduo representar suas vivências como meio de elaboração e desenvolvimento psicossocial. Consideramos os "reality shows" como uma das versões pós-modernas do teatro grego, surgidas a partir do crescente desenvolvimento tecnológico e das transformações ocorridas no cenário socioeconômico mundial desde o século passado.
Diante do que foi dito, tais programas são retratos fiéis do mundo em que vivemos. A morte do sujeito, a fugacidade das experiências, a desvalorização da história e o culto à imagem são difundidos sem crítica ou reflexão.
Houve um achatamento do hiato existente entre a ficção e a realidade, o que impede os processos de simbolização e abstração inerentes ao pensar. Somos hoje consumidores por excelência, sem capacidade para questionar o que ingerimos, adormecidos em uma passividade aviltante.
O sucesso do "Big Brother" confirma a volatilidade da experiência humana pós-moderna: não queremos sentir, pensar ou agir, abdicamos da angústia existencial para que outros, nem atores e nem personagens, vivam por nós, hipomaniacamente, o que restou do verdadeiro e profundo sentido de nossa existência.
A subjetividade desvalorizada e satirizada é substituída pela superficialidade do real in natura, em que a imagem é soberana.
Portanto, a função desse tipo de programa é aprofundar a alienação, impedindo os processos de pensamento crítico. Para isso, mobilizam-se aspectos primitivos do psiquismo humano através da sedução do espectador, ou seja, acreditando-se poderoso e capaz de decidir o destino dos participantes, o público deixa-se levar pela imagem narcísica refletida na tela. O prazer advém do triunfo e da onipotência, o que acaba criando um círculo vicioso de consumo e audiência.
Apesar de considerações pouco promissoras sobre os espectadores do presente, podemos ainda, como expectadores, antever novos estudos sobre esse tema que visem ao aprofundamento e à reflexão crítica, contribuindo para a conscientização de todos nós.”
(Marília Pereira Bueno Millan, Reality Shows - Uma Abordagem Psicossocial)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Os malefícios dos reality shows (I)

“Desde a Antigüidade, temos notícia da necessidade de o ser humano representar seus dramas pessoais, suas vicissitudes existenciais ou, simplesmente, os fatos comuns do seu cotidiano. O teatro grego foi, por excelência, a manifestação máxima de tal necessidade, conduzindo a encenação das famosas tragédias que, até os dias de hoje, são admiradas por milhares de espectadores (Bertheld, 2000; Brandão, 2001).
Com o desenvolvimento tecnológico ocorrido fundamentalmente do século XX em diante, a combinação de enredo, imagem e representação ganhou novas roupagens através do cinema, da televisão e, mais recentemente, do computador. Um fenômeno atual que ganhou notoriedade, sobretudo na última década, foi o "reality show", filmagem ao vivo de pessoas comuns convivendo em um espaço fechado durante um tempo determinado.
O programa televisivo que pretendemos discutir é a versão brasileira de um "reality show" que também foi produzido em outros países. Foi criado originalmente por John de Mol e Joop van den Ende em 1999, na Holanda, e recebeu o título de "Big Brother". Tal termo já fora usado por George Orwell, em seu livro "1984", para designar um olho eletrônico que espionava as pessoas com o intuito de manter o domínio de um Estado totalitário sobre tudo e todos.
Trata-se de um programa de entretenimento que consiste no confinamento voluntário de pessoas em uma casa, que se dispõem a ser filmadas durante todo o tempo que ali permanecerem. A duração é de cerca de dois meses e, semanalmente, um dos participantes é eliminado de acordo com votações feitas pelo público e pelos outros integrantes do grupo. A finalidade última do jogo é que apenas uma pessoa consiga permanecer, o que lhe dará o direito de receber um prêmio em dinheiro.
O telespectador acompanha o programa assistindo diariamente a imagens, ao vivo ou previamente editadas, de tudo o que ocorre entre os participantes, desde os atos mais cotidianos até conflitos, brigas e namoros.
A idéia e mesmo o nome do programa apontam na direção da busca da realidade in natura. Sendo assim, a estratégia discursiva central é a criação de efeitos que mimetizem, ao máximo, a realidade (escolha de pessoas comuns, imagens de atos cotidianos, linguagem coloquial, técnicas de filmagem, etc).
Para atrair a atenção do público, enriquecer as imagens e adequar-se à lógica televisiva, a construção simbólica do programa é feita a partir de tarefas e desafios propostos aos participantes que desencadeiam reações, atitudes e conflitos entre eles.
Há, também, a presença de um apresentador que tem a função de organizar o programa, interagindo com os participantes, direcionando os julgamentos e opiniões dos telespectadores e mediando as diversas situações apresentadas (Marcondes Filho, 2002; Curvelo, 2004).
Por tratar-se de uma produção televisiva recente, observa-se que ainda não há literatura abundante a respeito do tema. Entre os trabalhos existentes, encontra-se o de Bucci (2002), que desenvolveu um importante estudo crítico sobre a televisão enquanto meio de comunicação na atualidade do capitalismo superindustrial e da crise do sujeito contemporâneo. Relaciona comunicação, Sociologia e psicanálise para embasar sua teoria a respeito da fabricação de significações sociais pela exploração do trabalho e pela apropriação capitalista do olhar social. Afirma que a televisão, por meio do recurso da imagem ao vivo, constitui-se no telespaço público da contemporaneidade.
Em linha semelhante, abordando diretamente os "reality shows", Olórtegui (2000) também analisa a dissolução das fronteiras entre o público e o privado, provocada, sobretudo, pela televisão, o que marca profundamente a atual crise de sociabilidade. Sugere que os "reality shows" são programas que revelam um indivíduo-telespectador espetacularizado e banalizado em suas relações mediadas pela TV, em que o vazio e a sedução são preponderantes.
Baudrillard (2001), em sua contundente crítica sobre os "reality shows", afirma que o homem moderno, sem um destino objetivo ou metas de vida, lança-se em uma experimentação sem limites de si mesmo. A reclusão voluntária é uma espécie de laboratório de uma "sociedade telegeneticamente modificada". Sugere que, a partir do momento em que a TV e as mídias se tornam incapazes de dar conta dos acontecimentos insuportáveis do mundo, descobre-se a banalidade existencial como o fato mais mortal, como a atualidade mais violenta, como o lugar do crime perfeito. As pessoas ficam, ao mesmo tempo, fascinadas e aterrorizadas pela indiferença de sua própria existência: não há nada a dizer nem nada a fazer.
Por outro lado, alguns autores questionam a utilização do termo "reality", uma vez que se trata de uma representação fora do contexto de vida dos participantes, ou seja, são pessoas que se encontram em um ambiente artificialmente criado e, portanto, não existe a autenticidade propalada (Hill, 2002; Kujundzic; Dorrell, 2002).
Vê-se, portanto, a relevância do tema aqui proposto, pois, sendo os "reality shows" um fenômeno contemporâneo mundial, é mister que seja analisado criticamente do ponto de vista psicossocial, com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre o existir humano na pós-modernidade.
O objetivo deste artigo é analisar, do ponto de vista psicológico e social, o significado dos programas televisivos denominados "reality shows", mais especificamente o Big Brother Brasil.
O sentido da encenação
Os processos de identificação parecem estar na base do sucesso das representações da vida real, ou seja, a possibilidade de encontrar eco para as próprias experiências pode ser um meio de sentir-se incluído no mundo dos humanos, de encontrar elementos que auxiliem na elaboração de vivências e de amenizar a solidão intrínseca à própria existência humana.
Buscamos, nas manifestações artísticas, o familiar, aquilo que nos conecta com a subjetividade, com experiências emocionais que se reatualizam e ganham forma através da representação do artista.
A imitação da vida nos permite compartilhar a essência humana com os outros: o estritamente pessoal ganha o terreno social. Já não somos os únicos; é possível compreender as situações humanas à luz da esfera cultural. Não estamos completamente sós, pois os outros participam do drama que julgávamos exclusivamente nosso.
Por outro lado, assistir a um espetáculo cênico significa ausentar-se da própria vida, abandonando provisoriamente o lugar ativo de gerir a própria existência. O ator passa a representar a cena real na ficção, assumindo a atividade do viver. A suspensão da atividade permite o descanso necessário à elaboração das experiências vividas. No entanto, à aparente passividade do espectador, corresponde a atividade de observação de si mesmo no outro, o movimento afetivo-cognitivo de compreensão da essência humana.
A lembrança do caráter fictício da encenação tranqüiliza o espectador, oferecendo-lhe condições de experimentar emoções e sentimentos, mantendo-o sob controle, além de poder pensar a respeito do que vê e sente. Do ponto de vista psicológico, podemos dizer que o quantum de energia psíquica mantém-se em um nível suportável, permitindo ao ego colocar seus recursos a serviço da percepção, conscientização, rememoração e elaboração das experiências vividas.
Além de todos os processos psíquicos envolvidos, a encenação promove a reunião de pessoas que compartilham o mesmo espaço-tempo da representação. A convivência une e configura um fenômeno social que propicia, por um lapso de tempo, certo sentimento de cumplicidade capaz de mover os espectadores em manifestações coletivas, que vão do êxtase à decepção, da alegria esfuziante à profunda tristeza, do riso aberto ao choro incontido. Mais do que um movimento catártico, há aqui a possibilidade de tornar público o privado, de socializar o individual, dando-lhe novo sentido.
O cenário contemporâneo
As últimas décadas vêm sendo caracterizadas por profundas mudanças no campo das ciências e das artes, cujas sementes já haviam sido lançadas no final do século XIX e início do século XX. Tais transformações caracterizam o que se denomina pós-modernidade, que, para alguns autores, é a amplificação do paradigma moderno em nossos dias. Sua marca registrada é a revolução tecno-eletrônica, que vem alterando sensivelmente o modo de produção do conhecimento e as relações humanas. Tais avanços tecnológicos têm como ícone a velocidade que está a serviço da otimização das performances, no que tange à produtividade, ao consumo e ao ganho de capital.
A aceleração dos processos e procedimentos da produção e do consumo acaba alterando as formas de pensar e de agir do indivíduo, e, em conseqüência, dos agrupamentos sociais. Hoje é possível obter informações em tempo real e manter contato com o mundo todo a qualquer momento. A conexão rápida dos artefatos eletrônicos vem acompanhada do enorme fluxo de informações e de contatos humanos fugazes e superficiais.
Em outra oportunidade (Millan, 2000), já havíamos discutido tais aspectos:
A aceleração de giro na produção e no consumo vem influenciando a forma de pensar e agir do indivíduo. Como conseqüência, presenciamos a crescente volatilidade e efemeridade de modas, produtos, idéias, valores e práticas sociais.
O instantâneo e o descartável permeiam nossa experiência, desde os utensílios que empregamos no dia a dia até nossa maneira de pensar, viver e nos relacionar (p.64).
Observa-se que a estética superou a ética enquanto foco de interesse intelectual e social; as imagens dominaram as narrativas; o efêmero e o fragmentário triunfaram sobre os valores perenes e universais. Em outras palavras, ocorreu a hegemonia do significante sobre o significado, o que deslocou a importância da História para um segundo plano e imprimiu valor à forma e à imagem.
Assim, a televisão e o computador são, por excelência, os representantes do ideal pós-moderno na medida em que priorizam a velocidade absoluta, tornam desnecessários os deslocamentos espaciais e anulam a importância do tempo e da duração (Pelbart,1996). Ambos disponibilizam a interatividade (sobretudo com a TV digital), convidando as pessoas a se relacionarem, cada vez mais, por meio dos artefatos eletrônicos. Os relacionamentos sociais mediados pelas máquinas concorrem para a redução dos encontros ao vivo e alimentam aqueles de natureza virtual.”
(Marília Pereira Bueno Millan, Reality Shows - Uma Abordagem Psicossocial)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A linguagem da cruz e a sabedoria do mundo

“A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina.
Está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e anularei a prudência dos prudentes.
Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo?
Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem.
Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus.
Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
Vede, irmãos, o vosso grupo de eleitos: não há entre vós muitos sábios, humanamente falando, nem muitos poderosos, nem muitos nobres.
O que é estulto no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes; e o que é vil e desprezível no mundo, Deus o escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são.
Assim, nenhuma criatura se vangloriará diante de Deus.”
(I Cor. 18-29)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Catolicismo e esoterismo

“Jesus nos ensinou: “não há nada escondido que não venha a ser conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz, e o que escutais ao ouvido, proclamai sobre os telhados” (Mt. X, 26-27). Essa é a natureza do catolicismo genuíno e realmente anti-subversivo e anti-revolucionário. O segredo do catolicismo é de não ter segredos, tudo o que é escondido, secreto, esotérico não tem nada a ver com o cristianismo e com a verdade, que em grego se diz a-leteia, ou seja, não-escondido. Igrejas católicas estão abertas a todos, os sacramentos são públicos, os sacerdotes se fazem conhecer como tais, a sua doutrina é pregada toda inteira a todos os fiéis. Não existe um nível iluminado, superior ou desconhecido, reservado aos eleitos, aos iniciados ou àqueles que sabem, quer dizer, aos “gnósticos”. O esoterismo é totalmente estranho ao catolicismo. Pode haver pequenos lunáticos marginais ou “iluminados” tentados pelo ocultismo considerado aristocrático, mas eles estão fora da estrada do catolicismo e do Evangelho. Os gnósticos, os iniciados, os esotéricos ostentam, por vaidade, supostos segredos que eles não têm, mas que são fábulas e rejeitam a Revelação pública divina dos verdadeiros segredos ou mistérios sobrenaturais, que superam infinitamente a capacidade do conhecimento humano. A semelhança de Cristo é o caminho da salvação para todos os homens. Mas esse é um dom gratuito de Deus à criatura, que, imitando o Verbo encarnado que se tornou o Homem das Dores, pode se tornar um filho adotivo de Deus. A pretensão esotérica de ser semelhante a Deus, mais do que aos outros homens e crentes comuns, é a estrada que leva à danação. O esoterismo é a contradição per diametrum do cristianismo. De fato, o cristianismo é a religião de Deus que se fez homem para salvar o homem pecador, enquanto o esoterismo é a contra-igreja do homem que pretende fazer-se Deus de si mesmo por meio da gnose. Santo Agostinho nos adverte: “Tu, homem, quiseste ser Deus e te perdeste; Ele, Deus, quis fazer-se homem para recuperar o que tinha se perdido.” (Sermão 188, c. 3, PL XXXVIII, 1004). Então, nós proclamamos com São Paulo: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (I Cor , I, 23).”
(Don Curzio Nitoglia, Il Tradizionalismo Esoterico: Joseph de Maistre, Una Nuova Edizione de “Le Serate di Pietroburgo”)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

FSSPX: à medida que passam os anos


http://castigatridendomoreselrustico.blogspot.com.ar

domingo, 15 de fevereiro de 2015

A exclusiva implicância satânica com o catolicismo

“O Harvard Extension Cultural Studies Club tentou realizar nesta semana uma missa negra, paródia satânica do santo sacrifício da missa. Eles chegaram até mesmo a anunciar que profanariam uma hóstia consagrada durante a sua “celebração”.
Agora, porém, o grupo responsável pela missa negra está afirmando que não tem hóstia nenhuma, porque eles “respeitam todas as religiões e não querem que ninguém se sinta ofendido”. Dizem eles: “Entendemos o poderoso papel da Eucaristia na religião cristã e de forma alguma queremos parecer desrespeitosos das suas tradições”.
A minha primeira impressão ao ler isso foi de que se trata da perfeita imagem da academia do século XXI: eles querem realizar nada menos que uma missa negra satânica, mas sem ofender ninguém!
Depois de uma reflexão mais aprofundada, no entanto, ocorreu-me que este é um poderoso argumento em favor do catolicismo. Vamos pensar da seguinte maneira:
1. A Eucaristia ou é Jesus ou é o mal.
A Eucaristia ou é Jesus ou é mero pão e vinho. Se a Eucaristia é Jesus, então todos deveriam ir à missa para adorar o Senhor. Se a Eucaristia é Jesus, não deveria haver protestantismo, mormonismo, islamismo, ateísmo, etc. Mas se a Eucaristia não é Jesus, então, durante dois mil anos, os pretensos seguidores de Jesus Cristo foram idólatras. E, se este fosse o caso, ninguém deveria ser católico.
Estas são, portanto, as duas apostas. Todo mundo, diante de Jesus de Nazaré, se confronta com uma questão crucial: Ele é Deus, de alguma forma misteriosa, ou não é? Os primeiros cristãos formularam esse dilema como “aut Deus aut malus homo” (ou Deus ou um homem mau). Todo mundo, diante da Eucaristia, se confronta com a mesma disjuntiva: ou é Deus ou é idolatria.
E, é claro, se a Eucaristia é idolatria pagã, então ela é demoníaca! Lembremo-nos de I Coríntios 10,20: “O que os pagãos sacrificam é oferecido aos demônios, não a Deus”. A Eucaristia é Jesus ou é um ídolo? O sacrifício da missa é oferecido a Deus ou aos demônios?
2. Satanás odeia a Eucaristia
A missa negra satânica é uma inversão ritual (e uma zombaria) do santo sacrifício da missa, realizada por satanistas. Existem dois tipos de satanistas: os “satanistas de LaVey” e os “satanistas teológicos”. O Templo Satânico, entidade por trás da missa negra anunciada (e cancelada) nesta semana, é formado por satanistas da corrente de LaVey. Em outras palavras, são ateus que não acreditam em Satanás e que usam o “satanismo” como simples ferramenta para provocar e assediar os cristãos (ao contrário dos “satanistas teológicos”, que de fato acreditam em Satanás e o adoram). Essa história da missa negra nas dependências da Universidade de Harvard, assim como o monumento satânico em Oklahoma, é uma provocação deliberada. Agora: estejam os praticantes desse culto brincando com o ocultismo ou agindo a sério, não há dúvida de que eles estão lidando com forças espirituais perigosamente obscuras. Satanás está agindo nessa história.
E é importante ressaltar que, quando os satanistas (de ambos os tipos) querem zombar de um ritual religioso, podemos apostar que o alvo vai ser o santo sacrifício da missa. Quantas vezes você já ouviu falar que rituais muçulmanos, hindus, judeus ou mesmo protestantes foram submetidos a algum escárnio satânico tão intenso quanto a missa católica?
E esse direcionamento satânico contra a missa não tem nada de novo. Já no século IV, Santo Epifânio de Salamina descreveu uma seita gnóstica que parodiava pervertidamente a santa missa. Sem entrar em detalhes, basta dizer que os membros daquela seita ficaram conhecidos como “borborianos” (“os imundos”).
3. Satanás não expulsa Satanás
A Eucaristia, portanto, ou é Jesus ou é o mal, já que, se não é Jesus, é idolatria. Uma vez que o diabo odeia a Eucaristia, podemos riscar a alternativa “mal”. Vamos considerar, além disso, o Evangelho de Mateus 12,22-28:
Apresentaram-lhe, depois, um possesso cego e mudo. Jesus o curou de tal modo que este falava e via. A multidão, admirada, dizia: Não será este o filho de Davi? Mas, ouvindo isto, os fariseus responderam: É por Beelzebul, chefe dos demônios, que ele os expulsa. Jesus, porém, penetrando nos seus pensamentos, disse: Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir. Se Satanás expele Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, pois, subsistirá o seu reino? E se eu expulso os demônios por Beelzebul, por quem é que vossos filhos os expulsam? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus”.
Esta passagem é importante: ela mostra, por exemplo, que os exorcistas católicos agem por obra do Espírito de Deus quando expulsam demônios. E isso também significa que, se Satanás odeia a missa, podemos ter certeza de que a missa não é do mal.
Se a missa não é demoníaca, se ela não é idolatria, só resta uma opção: a Eucaristia é Jesus Cristo e o sacrifício da missa apresenta Jesus ao Pai. Isto, e, creio eu, apenas isto, é o que explica a tentativa satânica tão teimosa de zombar da missa católica.
Se a única coisa que soubéssemos do catolicismo é que sua forma central de culto, a missa, é alvo da ira satânica, já teríamos uma boa razão para acreditar que o catolicismo é a religião verdadeira. Mas considerando todas as outras provas que a Eucaristia é Jesus, de que a missa é um sacrifício instituído por Deus e de que a Igreja católica é a Igreja fundada por Cristo, Satanás é apenas mais uma testemunha (involuntária) da verdade de Jesus Cristo e da Sua Igreja.”
(John Heschmeyer, The Satanic Case for Catholicism)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

As características das almas tíbias

“Há uma doença mortífera ameaçando a Igreja, sem que ninguém se dê conta: são as almas retardatárias. Vários autores espirituais apontam este fenômeno como causa da grande decadência de seminários, congregações religiosas, paróquias e movimentos eclesiais. Em que consiste este câncer que vai, silenciosa e sorrateiramente, tirando a vida da Igreja?
A maior parte dos cristãos experimentou uma “primeira conversão”: antes, vivia uma vida mundana, entregue ao egoísmo; encontrando-se com Cristo, no entanto, rompeu com o pecado como projeto de vida. O problema é que, por falta de formação espiritual, uma multidão parou nesse estágio. Ao invés de crescer na caridade, acomodou-se, tornando-se uma espécie de “anão espiritual”. O padre Reginald Garrigou-Lagrange, no livro “As Três Idades da Vida Interior”, escreve que:
Certas almas, como consequência de sua negligência ou preguiça espiritual, nunca saem da idade dos principiantes para continuar na dos proficientes; elas são almas retardatárias, algo parecido com esses meninos, mais ou menos anormais, que não atravessam com sucesso a crise da adolescência e que, ainda não sejam crianças, não chegam nunca ao completo desenvolvimento da idade adulta. Da mesma maneira, essas almas retardatárias ficam sem poder ser catalogadas nem entre os principiantes nem entre os adiantados. E são, por desgraça, muito numerosas.
Na mesma obra, o pe. Garrigou-Lagrange cita o trecho de um livro do padre jesuíta Lallemant, no qual ele explica que “uma Ordem religiosa vai até a decadência quando o número de tíbios começa a ser tão grande como o de fervorosos”. A tibieza é uma mornidão na qual a pessoa, apesar de ter rompido com os pecados graves, passa a viver a vida tão somente para si, fazendo das “coisas de Deus” desculpas para empreender coisas para si. O pe. Lagrange compara um sacerdote que assim se comporta a “uma espécie de funcionário de Deus”: a religião torna-se mais um “negócio” que uma ocasião genuína para a conversão e para o crescimento interior.
Quais são as características da alma tíbia?
Primeiro, ela começa com a negligência nas pequenas coisas. Deus chama a pessoa a amá-Lo mais, mas ela cede à preguiça e se torna indiferente à Sua voz. – Mas, preocupar-se até com essas coisas não é “moralismo”? – Não. Combater os pecados veniais e os próprios defeitos não é uma questão de “moralismo”, mas de amor: não se para de ofender a quem se ama por cálculos frios e matemáticos, mas pura e simplesmente porque se ama.
Segundo, a pessoa passa a fugir dos sacrifícios. Com uma visão do “justo”, a pessoa oferece a Deus o seu “mínimo”, a sua obrigação. Ignora – ou finge ignorar – que, deste modo, sem generosidade, não haverá para ela nenhum crescimento espiritual.
Terceiro: não podendo pecar mortalmente, a pessoa se entrega a “pequenos pecados”, a murmurações e zombarias. Santo Tomás de Aquino, ao falar sobre o pecado da zombaria e do escárnio, cita o salmista: “Qui habitat in cælis irridebit eos – O que habita nos céus rirá deles”. Quem faz gozações com os outros será, ele mesmo, objeto de piada.
A triste consequência da pessoa que está neste estado é que, cedendo pouco a pouco aos pecados veniais, ela se vê atada de tal modo a ponto de tornar-se prisioneira de seus pecados. Com razão diz São Bernardo – citado por Garrigou-Lagrange – que “é mais fácil ver um grande número de pessoas do mundo renunciar ao vício e abraçar a virtude do que um só religioso passar da vida tíbia à vida fervorosa”.
O que está por trás da alma retardatária? “[Está] que em tudo, e a propósito de tudo, se busca a si mesmo, ao invés de buscar a Deus”, conclui o pe. Lagrange.
Como remédio para este lamentável estado, é preciso amar mais e esquecer-se de si mesmo. Urge que vivamos para Cristo, que tudo deu e tudo entregou por amor a nós. Como não amarmos de volta um amor tão grande?”
(Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, A Tragédia das Almas Retardatárias)

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