terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A linguagem da cruz e a sabedoria do mundo

“A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina.
Está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e anularei a prudência dos prudentes.
Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo?
Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem.
Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus.
Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
Vede, irmãos, o vosso grupo de eleitos: não há entre vós muitos sábios, humanamente falando, nem muitos poderosos, nem muitos nobres.
O que é estulto no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes; e o que é vil e desprezível no mundo, Deus o escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são.
Assim, nenhuma criatura se vangloriará diante de Deus.”
(I Cor. 18-29)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Catolicismo e esoterismo

“Jesus nos ensinou: “não há nada escondido que não venha a ser conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz, e o que escutais ao ouvido, proclamai sobre os telhados” (Mt. X, 26-27). Essa é a natureza do catolicismo genuíno e realmente anti-subversivo e anti-revolucionário. O segredo do catolicismo é de não ter segredos, tudo o que é escondido, secreto, esotérico não tem nada a ver com o cristianismo e com a verdade, que em grego se diz a-leteia, ou seja, não-escondido. Igrejas católicas estão abertas a todos, os sacramentos são públicos, os sacerdotes se fazem conhecer como tais, a sua doutrina é pregada toda inteira a todos os fiéis. Não existe um nível iluminado, superior ou desconhecido, reservado aos eleitos, aos iniciados ou àqueles que sabem, quer dizer, aos “gnósticos”. O esoterismo é totalmente estranho ao catolicismo. Pode haver pequenos lunáticos marginais ou “iluminados” tentados pelo ocultismo considerado aristocrático, mas eles estão fora da estrada do catolicismo e do Evangelho. Os gnósticos, os iniciados, os esotéricos ostentam, por vaidade, supostos segredos que eles não têm, mas que são fábulas e rejeitam a Revelação pública divina dos verdadeiros segredos ou mistérios sobrenaturais, que superam infinitamente a capacidade do conhecimento humano. A semelhança de Cristo é o caminho da salvação para todos os homens. Mas esse é um dom gratuito de Deus à criatura, que, imitando o Verbo encarnado que se tornou o Homem das Dores, pode se tornar um filho adotivo de Deus. A pretensão esotérica de ser semelhante a Deus, mais do que aos outros homens e crentes comuns, é a estrada que leva à danação. O esoterismo é a contradição per diametrum do cristianismo. De fato, o cristianismo é a religião de Deus que se fez homem para salvar o homem pecador, enquanto o esoterismo é a contra-igreja do homem que pretende fazer-se Deus de si mesmo por meio da gnose. Santo Agostinho nos adverte: “Tu, homem, quiseste ser Deus e te perdeste; Ele, Deus, quis fazer-se homem para recuperar o que tinha se perdido.” (Sermão 188, c. 3, PL XXXVIII, 1004). Então, nós proclamamos com São Paulo: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (I Cor , I, 23).”
(Don Curzio Nitoglia, Il Tradizionalismo Esoterico: Joseph de Maistre, Una Nuova Edizione de “Le Serate di Pietroburgo”)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

FSSPX: à medida que passam os anos


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domingo, 15 de fevereiro de 2015

A exclusiva implicância satânica com o catolicismo

“O Harvard Extension Cultural Studies Club tentou realizar nesta semana uma missa negra, paródia satânica do santo sacrifício da missa. Eles chegaram até mesmo a anunciar que profanariam uma hóstia consagrada durante a sua “celebração”.
Agora, porém, o grupo responsável pela missa negra está afirmando que não tem hóstia nenhuma, porque eles “respeitam todas as religiões e não querem que ninguém se sinta ofendido”. Dizem eles: “Entendemos o poderoso papel da Eucaristia na religião cristã e de forma alguma queremos parecer desrespeitosos das suas tradições”.
A minha primeira impressão ao ler isso foi de que se trata da perfeita imagem da academia do século XXI: eles querem realizar nada menos que uma missa negra satânica, mas sem ofender ninguém!
Depois de uma reflexão mais aprofundada, no entanto, ocorreu-me que este é um poderoso argumento em favor do catolicismo. Vamos pensar da seguinte maneira:
1. A Eucaristia ou é Jesus ou é o mal.
A Eucaristia ou é Jesus ou é mero pão e vinho. Se a Eucaristia é Jesus, então todos deveriam ir à missa para adorar o Senhor. Se a Eucaristia é Jesus, não deveria haver protestantismo, mormonismo, islamismo, ateísmo, etc. Mas se a Eucaristia não é Jesus, então, durante dois mil anos, os pretensos seguidores de Jesus Cristo foram idólatras. E, se este fosse o caso, ninguém deveria ser católico.
Estas são, portanto, as duas apostas. Todo mundo, diante de Jesus de Nazaré, se confronta com uma questão crucial: Ele é Deus, de alguma forma misteriosa, ou não é? Os primeiros cristãos formularam esse dilema como “aut Deus aut malus homo” (ou Deus ou um homem mau). Todo mundo, diante da Eucaristia, se confronta com a mesma disjuntiva: ou é Deus ou é idolatria.
E, é claro, se a Eucaristia é idolatria pagã, então ela é demoníaca! Lembremo-nos de I Coríntios 10,20: “O que os pagãos sacrificam é oferecido aos demônios, não a Deus”. A Eucaristia é Jesus ou é um ídolo? O sacrifício da missa é oferecido a Deus ou aos demônios?
2. Satanás odeia a Eucaristia
A missa negra satânica é uma inversão ritual (e uma zombaria) do santo sacrifício da missa, realizada por satanistas. Existem dois tipos de satanistas: os “satanistas de LaVey” e os “satanistas teológicos”. O Templo Satânico, entidade por trás da missa negra anunciada (e cancelada) nesta semana, é formado por satanistas da corrente de LaVey. Em outras palavras, são ateus que não acreditam em Satanás e que usam o “satanismo” como simples ferramenta para provocar e assediar os cristãos (ao contrário dos “satanistas teológicos”, que de fato acreditam em Satanás e o adoram). Essa história da missa negra nas dependências da Universidade de Harvard, assim como o monumento satânico em Oklahoma, é uma provocação deliberada. Agora: estejam os praticantes desse culto brincando com o ocultismo ou agindo a sério, não há dúvida de que eles estão lidando com forças espirituais perigosamente obscuras. Satanás está agindo nessa história.
E é importante ressaltar que, quando os satanistas (de ambos os tipos) querem zombar de um ritual religioso, podemos apostar que o alvo vai ser o santo sacrifício da missa. Quantas vezes você já ouviu falar que rituais muçulmanos, hindus, judeus ou mesmo protestantes foram submetidos a algum escárnio satânico tão intenso quanto a missa católica?
E esse direcionamento satânico contra a missa não tem nada de novo. Já no século IV, Santo Epifânio de Salamina descreveu uma seita gnóstica que parodiava pervertidamente a santa missa. Sem entrar em detalhes, basta dizer que os membros daquela seita ficaram conhecidos como “borborianos” (“os imundos”).
3. Satanás não expulsa Satanás
A Eucaristia, portanto, ou é Jesus ou é o mal, já que, se não é Jesus, é idolatria. Uma vez que o diabo odeia a Eucaristia, podemos riscar a alternativa “mal”. Vamos considerar, além disso, o Evangelho de Mateus 12,22-28:
Apresentaram-lhe, depois, um possesso cego e mudo. Jesus o curou de tal modo que este falava e via. A multidão, admirada, dizia: Não será este o filho de Davi? Mas, ouvindo isto, os fariseus responderam: É por Beelzebul, chefe dos demônios, que ele os expulsa. Jesus, porém, penetrando nos seus pensamentos, disse: Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir. Se Satanás expele Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, pois, subsistirá o seu reino? E se eu expulso os demônios por Beelzebul, por quem é que vossos filhos os expulsam? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus”.
Esta passagem é importante: ela mostra, por exemplo, que os exorcistas católicos agem por obra do Espírito de Deus quando expulsam demônios. E isso também significa que, se Satanás odeia a missa, podemos ter certeza de que a missa não é do mal.
Se a missa não é demoníaca, se ela não é idolatria, só resta uma opção: a Eucaristia é Jesus Cristo e o sacrifício da missa apresenta Jesus ao Pai. Isto, e, creio eu, apenas isto, é o que explica a tentativa satânica tão teimosa de zombar da missa católica.
Se a única coisa que soubéssemos do catolicismo é que sua forma central de culto, a missa, é alvo da ira satânica, já teríamos uma boa razão para acreditar que o catolicismo é a religião verdadeira. Mas considerando todas as outras provas que a Eucaristia é Jesus, de que a missa é um sacrifício instituído por Deus e de que a Igreja católica é a Igreja fundada por Cristo, Satanás é apenas mais uma testemunha (involuntária) da verdade de Jesus Cristo e da Sua Igreja.”
(John Heschmeyer, The Satanic Case for Catholicism)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

As características das almas tíbias

“Há uma doença mortífera ameaçando a Igreja, sem que ninguém se dê conta: são as almas retardatárias. Vários autores espirituais apontam este fenômeno como causa da grande decadência de seminários, congregações religiosas, paróquias e movimentos eclesiais. Em que consiste este câncer que vai, silenciosa e sorrateiramente, tirando a vida da Igreja?
A maior parte dos cristãos experimentou uma “primeira conversão”: antes, vivia uma vida mundana, entregue ao egoísmo; encontrando-se com Cristo, no entanto, rompeu com o pecado como projeto de vida. O problema é que, por falta de formação espiritual, uma multidão parou nesse estágio. Ao invés de crescer na caridade, acomodou-se, tornando-se uma espécie de “anão espiritual”. O padre Reginald Garrigou-Lagrange, no livro “As Três Idades da Vida Interior”, escreve que:
Certas almas, como consequência de sua negligência ou preguiça espiritual, nunca saem da idade dos principiantes para continuar na dos proficientes; elas são almas retardatárias, algo parecido com esses meninos, mais ou menos anormais, que não atravessam com sucesso a crise da adolescência e que, ainda não sejam crianças, não chegam nunca ao completo desenvolvimento da idade adulta. Da mesma maneira, essas almas retardatárias ficam sem poder ser catalogadas nem entre os principiantes nem entre os adiantados. E são, por desgraça, muito numerosas.
Na mesma obra, o pe. Garrigou-Lagrange cita o trecho de um livro do padre jesuíta Lallemant, no qual ele explica que “uma Ordem religiosa vai até a decadência quando o número de tíbios começa a ser tão grande como o de fervorosos”. A tibieza é uma mornidão na qual a pessoa, apesar de ter rompido com os pecados graves, passa a viver a vida tão somente para si, fazendo das “coisas de Deus” desculpas para empreender coisas para si. O pe. Lagrange compara um sacerdote que assim se comporta a “uma espécie de funcionário de Deus”: a religião torna-se mais um “negócio” que uma ocasião genuína para a conversão e para o crescimento interior.
Quais são as características da alma tíbia?
Primeiro, ela começa com a negligência nas pequenas coisas. Deus chama a pessoa a amá-Lo mais, mas ela cede à preguiça e se torna indiferente à Sua voz. – Mas, preocupar-se até com essas coisas não é “moralismo”? – Não. Combater os pecados veniais e os próprios defeitos não é uma questão de “moralismo”, mas de amor: não se para de ofender a quem se ama por cálculos frios e matemáticos, mas pura e simplesmente porque se ama.
Segundo, a pessoa passa a fugir dos sacrifícios. Com uma visão do “justo”, a pessoa oferece a Deus o seu “mínimo”, a sua obrigação. Ignora – ou finge ignorar – que, deste modo, sem generosidade, não haverá para ela nenhum crescimento espiritual.
Terceiro: não podendo pecar mortalmente, a pessoa se entrega a “pequenos pecados”, a murmurações e zombarias. Santo Tomás de Aquino, ao falar sobre o pecado da zombaria e do escárnio, cita o salmista: “Qui habitat in cælis irridebit eos – O que habita nos céus rirá deles”. Quem faz gozações com os outros será, ele mesmo, objeto de piada.
A triste consequência da pessoa que está neste estado é que, cedendo pouco a pouco aos pecados veniais, ela se vê atada de tal modo a ponto de tornar-se prisioneira de seus pecados. Com razão diz São Bernardo – citado por Garrigou-Lagrange – que “é mais fácil ver um grande número de pessoas do mundo renunciar ao vício e abraçar a virtude do que um só religioso passar da vida tíbia à vida fervorosa”.
O que está por trás da alma retardatária? “[Está] que em tudo, e a propósito de tudo, se busca a si mesmo, ao invés de buscar a Deus”, conclui o pe. Lagrange.
Como remédio para este lamentável estado, é preciso amar mais e esquecer-se de si mesmo. Urge que vivamos para Cristo, que tudo deu e tudo entregou por amor a nós. Como não amarmos de volta um amor tão grande?”
(Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, A Tragédia das Almas Retardatárias)

https://padrepauloricardo.org

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Concílios anulados da Igreja

"Muitos concílios da Igreja no passado foram declarados nulos e sem efeito pelos papas, entre eles:
O Concílio de Éfeso (449) foi regularmente convocado e dele aprticiparam todos os bispos ortodoxos e emissários do Papa Leão Magno. Esse papa anulou os decretos do concílio e chamou-o Latrocinium, ou “Concílio de Ladrões”, termo depreciativo pelo qual é conhecido até o dia de hoje.
O Concílio Quinissexto (692) foi declarado um “sínodo reprovável”. Como autoridade para tal veredito, temos São Beda o Venerável.
O Concílio de Hieria (754) introduziu e abençoou o Iconoclasma herético, com as conhecidas e catastróficas conseqüências para a Igreja. O Papa Estêvão II anulou os decretos desse concílio em 769.
O Concílio de Pistóia (1794), envolvendo o Sacro Imperador Romano José II, os bispos galicanos da França e alguns bispos da Itália, abençoou mudanças litúrgicas que se parecem em grau impressionante com as inovações corrompidas do Novo Ordinário da Missa após o Vaticano II. O Concílio prescreveu que houvesse apenas uma “mesa” em cada igreja; condenou procissões em honra da Santa Virgem e dos Santos, o Rosário, a Via Crúcis, as santas imagens; instituiu uma missa “simplificada” pronunciada inteiramente no vernáculo. O Papa Pio VI anulou os decretos desse concílio em sua bula Auctorem fidei do mesmo ano como “falsos, escandalosos, ofensivos aos ouvidos pios, injuriosos à Igreja, favoráveis aos ataques dos hereges [à Missa Latina tradicional].”
Portanto, muitos concílios da Igreja no passado foram anulados pelos papas, e não será um problema incluir nesse número o Vaticano II, que sequer foi convocado e promulgado como um concílio dogmático, mas meramente como um concílio pastoral. No passado, normalmente levava um século para que esses períodos turbulentos na Igreja fossem resolvidos, e passamos apenas quarenta anos no período pós-conciliar. Mas a resolução dos períodos turbulentos da Igreja envolve bem mais que apenas um papa.
Há tanta confusão hoje em dia que não podemos esperar por uma resolução em breve. Eis porque devemos nesse ínterim seguir o que São Paulo disse: “State et tenete traditiones, quas didicistis sive per sermonem sive per epistulam nostram” [Sendo assim, irmãos, permanecei firmes e conservai as tradições que vos foram ensinadas, tanto de viva voz, quanto por meio das nossas cartas]. O exemplo da Igreja em tempos turbulentos no passado ensina que devemos encontrar a fé católica onde ela hoje existe, fora da seita do Novus Ordo, ou seja, fora da missa conciliar."
(Christopher Pieretti, em postagem no Facebook de 12.04.2013)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A apostasia de Roma

“Os escritores da Igreja nos contam como nos últimos dias a cidade de Roma vai provavelmente apostatar da Igreja e do vigário de Jesus Cristo; e que Roma será de novo punida, pois Ele se afastará dela; e o julgamento de Deus cairá sobre o lugar do qual Ele havia reinado sobre as nações do mundo. Pois que faz de Roma sagrada, senão a presença do vigário de Jesus Cristo? Que tem ela que a faz querida aos olhos de Deus, que não a presença do vigário de Seu Filho? Saia de Roma a Igreja de Cristo, e Roma não será mais aos olhos de Deus do que a Jerusalém de outrora.
A apostasia da cidade de Roma em relação ao vigário de Cristo, e sua destruição pelo Anticristo, pode ser um pensamento tão novo para muitos católicos, que tenho por bem recitar o texto de teólogos da maior reputação. Em primeiro lugar Malvenda, que escreve expressamente sobre a matéria, afirma como sendo a opinião de Ribera, Gaspar Melus, Viegas, Suárez, Belarmino e Bosius que Roma vai apostatar da fé, expulsar o vigário de Cristo e retornar a seu antigo paganismo. São palavras de Malvenda: — 'Mas a própria Roma, nos últimos tempos do mundo, retornará a sua antiga idolatria, poder, e grandeza imperial. Ela expulsará seu pontífice, apostatará completamente da fé cristã, perseguirá terrivelmente a Igreja, derramará o sangue dos mártires mais cruelmente que nunca, e recobrará seu estado anterior de abundante riqueza, ou até maior do que teve sob seus primeiros governantes.’
Lessius diz: — ‘No tempo do Anticristo, Roma será destruída, como vemos abertamente no décimo-terceiro capítulo do Apocalipse;’ e em seguida: — ‘A mulher que viste é a grande cidade, que tem reinado sobre todos os reis da terra, na qual está simbolizada Roma em sua impiedade, tal como era no tempo de São João, e será de novo no fim do mundo.’ E Belarmino: — ‘No tempo do Anticristo, Roma será desolada e queimada, como aprendemos no décimo-sexto verso do décimo-sétimo capítulo do Apocalipse.’ Sobre tais palavras comenta o jesuíta Erbermann o seguinte: — ‘Todos confessamos, com Belarmino, que o povo de Roma, um pouco antes do fim do mundo, retornará ao paganismo, e expulsará o Pontífice Romano.’
Então a Igreja vai-se dispersar, fugindo para o deserto, e será durante algum tempo como era no começo, escondida invisível nas catacumbas, em cavernas, em montanhas, em esconderijos; por algum tempo parecerá como que varrida da face da terra. Tal é o testemunho universal dos Padres da Igreja primitiva.”
(Cardeal Henry Manning, The Present Crisis of the Holy See)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Por que não sou mais libertário

"Costumo me apresentar como um libertário convalescente. Não é uma apresentação inteiramente séria, mas também não é inteiramente frívola.
Por que "convalescente"? A triste experiência nos ensina que qualquer ideologia, até mesmo uma ideologia sólida, como o libertarismo, é entorpecente. A atração da ideologia é a atração da elegância. Tal como Newton reduziu todos os movimentos, das órbitas à queda das maçãs, a três expressões, todo intelectual sonha com uma simples fórmula para explicar a condição humana. O libertarismo se baseia em um único princípio que limita o uso estatal da força à retaliação contra fraudes e transgressões.
Quase todas as regras morais naturais que todos os homens levam em seus corações satisfazem-se pela simples regra de que você pode fazer o que quiser, contanto que deixe seu vizinho livre para também fazer o que quiser. Nenhum vizinho pode roubar, defraudar ou atacar o outro.
O entorpecimento se produz sempre que algo se encaixa perfeitamente à teoria. A moral natural concorda que as guerras para defender inocentes são permitidas, como o é matar em legítima defesa. A moral natural concorda que um homem deve respeitar seus contratos, e assim por diante.
A teoria diz que o estado deve permanecer cuidadosamente neutro em todas as questões culturais e morais: o uso de drogas entorpecentes para uso recreativo, suicídio assistido ou não, poligamia, prostituição, jogos de azar, duelos até a morte (contanto que todos os participantes estejam totalmente de acordo!) ou até mesmo copular com um cadáver no telhado de sua casa à vista das crianças dos vizinhos que brincam em seus quintais, e depois devorar o cadáver, tudo deve ser legal.
Para mim, o feitiço do entorpecimento acabou após três percepções fulgurantes, cada qual tão violenta como um raio.
Educar crianças
A primeira foi quando nasceram meus filhos, e percebi que não podia manter a neutralidade libertária sobre como os educar. Tive de ensinar-lhes a diferenciar o bem do mal, a virtude do vício, e ensinar-lhes prudência, justiça, coragem e fortaleza. Acima de tudo tive que ensinar-lhes que a moral é uma verdade objetiva. Mas ensinar virtude não é como ensinar geometria. Tais coisas só podem ser ensinadas pelo exemplo. Deve fazer parte do ambiente mental. A cultura sempre ensina os valores fundamentais da cultura, com ou sem os pais, porque a virtude é um hábito.
Toda lição moral que eu queria imprimir no espírito de meus filhos era contradita por mil exemplos na mídia moderna. Tentaram de todas as formas ensinar a meus filhos o erro, fazer com que sua sujeira parecesse normal e legal. Estavam tentando drogá-los no vício, na ganância e acima de tudo na luxúria, mas também na apatia moral disfarçada de tolerância, e na inveja disfarçada de igualdade. Nos estados onde se legalizou a maconha, ela está sendo oferecida em balas e refrigerantes, de modo a atrair os jovens e fazer clientes para o resto da vida.
Percebi que a cultura ao meu redor era minha inimiga. Imagine ser um abolicionista antebellum do Sul, tentando educar seus filhos na crença de que todos os homens nasceram iguais, mas com a sociedade escravagista inteira, por milhares de silenciosos exemplos, ensinando o oposto. Mesmo com a melhor boa vontade do mundo, não é possível que um homem mortal proteja seus filhos de tudo que há na cultura. Deveria eu viver então numa caverna?
O libertarismo diz que meus vizinhos não me fazem mal expondo meus filhos à pornografia infantil, contanto apenas que força ou fraude não seja usada. Não há qualquer padrão público e objetivo de decência, honestidade, prudência e justiça presente na teoria libertária: mas uma comunidade libertária não sobreviveria se seus filhos não fossem educados desde a infância a serem decentes, honestos, prudentes e justos. É, em suma, uma teoria que se auto-elimina. É uma teoria para solteiros.
Converter-se ao Catolicismo
O segundo raio caiu quando me tornei católico. O libertarismo diz que o estado deve permanecer neutro em todas as questões de moral. Deve ser amoral. Mas na prática, uma sociedade amoral não permanece neutra. Um católico libertário deve estar disposto a deixar os homossexuais em paz para formarem uniões civis particulares à sua própria maneira, desde que sejamos deixados em paz para praticarmos nossa fé à nossa própria maneira – mas todos, desde fotógrafos de casamentos a confeiteiros de bolos de noivas, que não desejam participar da profanação de nossos sacramentos, serão perseguidos ou forçados à submissão.
Em outras palavras, o estado não pode permanecer neutro entre a Igreja e a Esquerda porque a Esquerda não vai permitir isso. Na prática, o libertarismo é o desarmamento unilateral na guerra cultural.
Ir à guerra
O último raio caiu quando as Torres Gêmeas caíram. O libertarismo simplesmente não pode decidir o que é prudente e justo a ser feito em uma guerra.
Por exemplo: Uma aldeia de fazendeiros está prestes a ser atacada por 40 bandidos. Os aldeões, ao comando do ancião que lidera a aldeia, contrataram sete samurais. O terreno diz que o único lugar defensável é o canal. Há três casas na outra margem do canal. A prudência militar diz que aquelas três casas devem ser queimadas, para não darem esconderijo e cobertura ao inimigo.
Os três proprietários, ouvindo isso, afastam-se das fileiras, jogam longe suas espadas, e declaram que vão defender suas casas sozinhos, separadamente, sem ajudarem ou serem ajudados pela aldeia. Kambei, chefe dos samurais, levanta sua espada contra os três e os persegue de volta às fileiras.
Os libertários devem chamar as ações de Kambei indefensáveis. Mas quando se usa o bom senso, sua ação é louvável, e não apenas justificada, mas exigida por sua missão de salvar os aldeões. Daí, a lógica libertária neste caso de tempo de guerra leva a uma conclusão falsa, ou melhor dizendo, a uma conclusão totalmente falsa: não só falsa, mas o exato oposto da verdade. Enquanto pai, católico, e patriota, percebi que a exultante teoria libertária do interesse próprio por sua natureza mesma se aplica apenas em dias ensolarados, entre adultos, em tempo de paz. É uma filosofia apenas de tempo de paz, e apenas entre homens que seguem certos ideais básicos originados da tradição cultural do Ocidente, ou seja, homens que seguem normas culturais cristãs mesmo que eles mesmos não sejam cristãos."
(John C. Wright, Why I'm No Longer a Libertarian)

sábado, 31 de janeiro de 2015

Islamismo e laicismo

“Um amável leitor me pede que explique mais detalhadamente essa aliança anticrística entre islamismo e laicismo que mencionava em um artigo anterior. Permitir-me-ei ilustrar tal explicação com citações de um irresistível romance de Chesterton que aborda profeticamente essas questões, A taberna errante, dominada pela figura de lord Ivywood, um líder liberal deslumbrado com o progresso humano. A Ivywood move um secreto aborrecimento do cristianismo, que considera uma religião contrária ao progresso; para erradicá-la, propõe mui velhacamente ao Parlamento um plano de modernização da Inglaterra, começando pelo fechamento das tabernas (medida que encobre seu ódio às alegrias cristãs, que sempre se congregaram ao redor do vinho). Assim age o laicismo: envolve-se em conversas fiadas reformistas e modernizadoras, invoca razões de higiene pública e progresso social; mas tais espalhafatos não são senão balbucios com os quais camufla seu ódio constitutivo e medular à fé cristã.
Para ajudar a camuflar esse ódio, Ivywood se mostra partidário de uma “competição de civilizações” que expõe com palavras melífluas e ecumênicas: “Vivemos em uma época em que os homens começam a dar-se conta de que um credo tem tesouros para os outros credos, uma religião tem segredos que revelar às outras, uma fé pode comunicar-se com outra e uma Igreja ensinar outra Igreja. (...) Por que não vamos admitir que por sua vez o Islã pode nos oferecer algo precioso, algo suscetível de semear a paz em milhares e milhares de lares?” Ivywood mostra-se convicto de que o islamismo “é a religião com mais potencial progressista que existe”; e de que pode facilitar “o crescimento perpétuo para a perfeição infinita”, que é o fim último da religião democrática. Naturalmente, a fascinação de Ivywood pelo islã não é senão o disfarce com o qual oculta seu afã por demolir o patrimônio espiritual do cristianismo. Ivywood vê no islã um catalisador; ou, dito mais exatamente, uma antítese hegeliana que facilitará, uma vez derrubadas as barreiras cristãs, uma síntese fundada sobre “a evolução, a relatividade e a expansão progressiva do pensamento”.
Como todo progressista, Ivywood pensa que “o mundo está mal feito”; e, em um rasgo de endeusamento, afirma categórico: “E eu vou refazê-lo à minha vontade”. Em uma passagem particularmente espantosa da novela, Ivywood mostra sua aversão à arte clássica e declara-se por uma arte em que se vão esfumando as figuras, até concluir na pura abstração. Seu interlocutor discorda: “Tudo se pode combinar até um certo ponto, mas além desse ponto a identidade desaparece e com ela tudo mais”. Mas isso é o que Ivywood deseja: “Quero a ruptura de barreiras e nada mais”. Tal confissão aflige e horroriza seu interlocutor: “Mas a ruptura de tais barreiras... talvez signifique a destruição de tudo!” Ao que Ivywood assente, sonhador: “É possível!” Por sorte, para frustrar o desígnio de Ivywood surge Patrick Dalroy, um capitão irlandês, fiel à alegria das tabernas e à fé de seus ancestrais, que sabe que as sociedades entram em colapso quando renegam sua tradição espiritual e cultural. Quando lhe perguntam pelo “grande destino” que aguarda o Império Britânico, Dalroy o resume em quatro episódios: “Vitória sobre os bárbaros. Emprego dos bárbaros. Aliança com os bárbaros. Conquista pelos bárbaros”.
E é que, de fato, não há outro destino senão a conquista pelos bárbaros para os povos que renegaram sua tradição. Por isso laicismo e islamismo, o Jano bifronte da Nova Ordem Mundial, necessitam um do outro como unha e carne.”
(Juan Manuel de Prada, Islamismo y Laicismo)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Don Curzio Nitoglia: Io Non Sono Charlie

“O homem, segundo Aristóteles, é um “animal racional”, feito para conhecer a verdade (princípio especulativo, por si evidente, de identidade e não contradição: “sim=sim, não=não; sim≠não”), e “livre”, feito para amar o bem (princípio prático da sindérese: “faz o bem e evita o mal”). Hoje, os intelectualóides pós-iluministas são todos “Charlie”, quer dizer, intelectualmente sofistas (negação da contradição: “bem=mal”) e moralmente degenerados (perda da sindérese: “malum faciendum, bonum vitandum”), como os caricaturistas parisienses de Charlie Hebdo (“parce defunctis”).
Milhões de pós-europeus finalmente americanizados saem às ruas, arrastados pela sinarquia globalista, para continuar insultando implicitamente a Santíssima Trindade, Jesus, a Virgem Maria, o Papa. Quanto a nós, tratemos de ser homens verazes, que conhecem a verdade e amam o bem, sem ofender e profanar a Divindade.
A ironia* e a sátira são boas, mas devem ser educadas; a vulgaridade, a blasfêmia, o insulto são objetivamente um mal (segundo o oitavo mandamento).
O Ocidente americanista é capaz de matar pela bola, pelo concerto de rock, pela discoteca, pela transgressão, pelas gravidezes não desejadas, pelas enfermidades não suportadas, para importar a democracia, e tudo isso não surpreende a ninguém. Só Deus pode – e mais, deve – ser insultado. A única “religião” que não admite dúvidas, perguntas, demonstrações é a “Shoá”. Certamente, devem-se evitar os excessos da legítima defesa, mas tampouco cumpre animar os que maldizem a Deus e às coisas sagradas.
O iluminismo idealista nos levou a estes paradoxos: 1) a acolhida de etnias e religiões diametralmente opostas à européia (mediterrânea, greco-romana e católica); 2) o insulto que fere e ofende ao que se quis acolher para depois feri-lo, o qual, não havendo perdido sua identidade, responde de maneira agressiva e desproporcional, embora não completamente desprovida de fundamento: “não mistures o sagrado com o profano”.
É mister sermos realistas. O atual estado de degradação do homem (e os fatos parisienses de janeiro de 2015 nos permitem apalpá-lo com as mãos), finalizado pelo niilismo em troca do Deus que o Super-homem havia querido matar – como teorizou Nietzsche – não pode curar-se com remédios naturais. Só a ajuda da Onipotência divina pode remediar tanta ruína. Nem muito menos com as vinhetas, as rajadas de metralhadora e as marchas iluministas e iluminadas. “Esse tipo de demônios só se expulsa com o jejum e a oração”.
Conclusão: sê tu mesmo, animal racional e livre. Faz o bem e evita o mal, isso é todo o homem. Não sejas Charlie ou Charlot, mas um filho de Deus criado à sua imagem e – se vives na graça – à sua semelhança. “Agnosce christiane dignitatem tuam!” Do contrário, “passeia e ri, ó palhaço, e todos aplaudirão”. Cada um escolha o seu caminho.
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*Ironia vem do grego èiròn: aquele que interroga os demais fingindo socraticamente não saber para fazer com que descubram a verdade. Sátira vem do latim sátura e alude a uma composição poética que critica com agudeza as debilidades humanas. Agudeza vem do latim arguere, indicar, demonstrar, e significa espírito sutil, pronto, inteligente, delicado, agradavelmente mordaz. Pelo que, em rigor de lógica, Charlie não é irônico, nem satírico, nem sequer agudo. É ofensivo e insultante, vulgar e desagradável.”

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