sábado, 31 de janeiro de 2015

Islamismo e laicismo

“Um amável leitor me pede que explique mais detalhadamente essa aliança anticrística entre islamismo e laicismo que mencionava em um artigo anterior. Permitir-me-ei ilustrar tal explicação com citações de um irresistível romance de Chesterton que aborda profeticamente essas questões, A taberna errante, dominada pela figura de lord Ivywood, um líder liberal deslumbrado com o progresso humano. A Ivywood move um secreto aborrecimento do cristianismo, que considera uma religião contrária ao progresso; para erradicá-la, propõe mui velhacamente ao Parlamento um plano de modernização da Inglaterra, começando pelo fechamento das tabernas (medida que encobre seu ódio às alegrias cristãs, que sempre se congregaram ao redor do vinho). Assim age o laicismo: envolve-se em conversas fiadas reformistas e modernizadoras, invoca razões de higiene pública e progresso social; mas tais espalhafatos não são senão balbucios com os quais camufla seu ódio constitutivo e medular à fé cristã.
Para ajudar a camuflar esse ódio, Ivywood se mostra partidário de uma “competição de civilizações” que expõe com palavras melífluas e ecumênicas: “Vivemos em uma época em que os homens começam a dar-se conta de que um credo tem tesouros para os outros credos, uma religião tem segredos que revelar às outras, uma fé pode comunicar-se com outra e uma Igreja ensinar outra Igreja. (...) Por que não vamos admitir que por sua vez o Islã pode nos oferecer algo precioso, algo suscetível de semear a paz em milhares e milhares de lares?” Ivywood mostra-se convicto de que o islamismo “é a religião com mais potencial progressista que existe”; e de que pode facilitar “o crescimento perpétuo para a perfeição infinita”, que é o fim último da religião democrática. Naturalmente, a fascinação de Ivywood pelo islã não é senão o disfarce com o qual oculta seu afã por demolir o patrimônio espiritual do cristianismo. Ivywood vê no islã um catalisador; ou, dito mais exatamente, uma antítese hegeliana que facilitará, uma vez derrubadas as barreiras cristãs, uma síntese fundada sobre “a evolução, a relatividade e a expansão progressiva do pensamento”.
Como todo progressista, Ivywood pensa que “o mundo está mal feito”; e, em um rasgo de endeusamento, afirma categórico: “E eu vou refazê-lo à minha vontade”. Em uma passagem particularmente espantosa da novela, Ivywood mostra sua aversão à arte clássica e declara-se por uma arte em que se vão esfumando as figuras, até concluir na pura abstração. Seu interlocutor discorda: “Tudo se pode combinar até um certo ponto, mas além desse ponto a identidade desaparece e com ela tudo mais”. Mas isso é o que Ivywood deseja: “Quero a ruptura de barreiras e nada mais”. Tal confissão aflige e horroriza seu interlocutor: “Mas a ruptura de tais barreiras... talvez signifique a destruição de tudo!” Ao que Ivywood assente, sonhador: “É possível!” Por sorte, para frustrar o desígnio de Ivywood surge Patrick Dalroy, um capitão irlandês, fiel à alegria das tabernas e à fé de seus ancestrais, que sabe que as sociedades entram em colapso quando renegam sua tradição espiritual e cultural. Quando lhe perguntam pelo “grande destino” que aguarda o Império Britânico, Dalroy o resume em quatro episódios: “Vitória sobre os bárbaros. Emprego dos bárbaros. Aliança com os bárbaros. Conquista pelos bárbaros”.
E é que, de fato, não há outro destino senão a conquista pelos bárbaros para os povos que renegaram sua tradição. Por isso laicismo e islamismo, o Jano bifronte da Nova Ordem Mundial, necessitam um do outro como unha e carne.”
(Juan Manuel de Prada, Islamismo y Laicismo)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Don Curzio Nitoglia: Io Non Sono Charlie

“O homem, segundo Aristóteles, é um “animal racional”, feito para conhecer a verdade (princípio especulativo, por si evidente, de identidade e não contradição: “sim=sim, não=não; sim≠não”), e “livre”, feito para amar o bem (princípio prático da sindérese: “faz o bem e evita o mal”). Hoje, os intelectualóides pós-iluministas são todos “Charlie”, quer dizer, intelectualmente sofistas (negação da contradição: “bem=mal”) e moralmente degenerados (perda da sindérese: “malum faciendum, bonum vitandum”), como os caricaturistas parisienses de Charlie Hebdo (“parce defunctis”).
Milhões de pós-europeus finalmente americanizados saem às ruas, arrastados pela sinarquia globalista, para continuar insultando implicitamente a Santíssima Trindade, Jesus, a Virgem Maria, o Papa. Quanto a nós, tratemos de ser homens verazes, que conhecem a verdade e amam o bem, sem ofender e profanar a Divindade.
A ironia* e a sátira são boas, mas devem ser educadas; a vulgaridade, a blasfêmia, o insulto são objetivamente um mal (segundo o oitavo mandamento).
O Ocidente americanista é capaz de matar pela bola, pelo concerto de rock, pela discoteca, pela transgressão, pelas gravidezes não desejadas, pelas enfermidades não suportadas, para importar a democracia, e tudo isso não surpreende a ninguém. Só Deus pode – e mais, deve – ser insultado. A única “religião” que não admite dúvidas, perguntas, demonstrações é a “Shoá”. Certamente, devem-se evitar os excessos da legítima defesa, mas tampouco cumpre animar os que maldizem a Deus e às coisas sagradas.
O iluminismo idealista nos levou a estes paradoxos: 1) a acolhida de etnias e religiões diametralmente opostas à européia (mediterrânea, greco-romana e católica); 2) o insulto que fere e ofende ao que se quis acolher para depois feri-lo, o qual, não havendo perdido sua identidade, responde de maneira agressiva e desproporcional, embora não completamente desprovida de fundamento: “não mistures o sagrado com o profano”.
É mister sermos realistas. O atual estado de degradação do homem (e os fatos parisienses de janeiro de 2015 nos permitem apalpá-lo com as mãos), finalizado pelo niilismo em troca do Deus que o Super-homem havia querido matar – como teorizou Nietzsche – não pode curar-se com remédios naturais. Só a ajuda da Onipotência divina pode remediar tanta ruína. Nem muito menos com as vinhetas, as rajadas de metralhadora e as marchas iluministas e iluminadas. “Esse tipo de demônios só se expulsa com o jejum e a oração”.
Conclusão: sê tu mesmo, animal racional e livre. Faz o bem e evita o mal, isso é todo o homem. Não sejas Charlie ou Charlot, mas um filho de Deus criado à sua imagem e – se vives na graça – à sua semelhança. “Agnosce christiane dignitatem tuam!” Do contrário, “passeia e ri, ó palhaço, e todos aplaudirão”. Cada um escolha o seu caminho.
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*Ironia vem do grego èiròn: aquele que interroga os demais fingindo socraticamente não saber para fazer com que descubram a verdade. Sátira vem do latim sátura e alude a uma composição poética que critica com agudeza as debilidades humanas. Agudeza vem do latim arguere, indicar, demonstrar, e significa espírito sutil, pronto, inteligente, delicado, agradavelmente mordaz. Pelo que, em rigor de lógica, Charlie não é irônico, nem satírico, nem sequer agudo. É ofensivo e insultante, vulgar e desagradável.”

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Duplicidade

Seja vosso falar sim, sim; não, não. Tudo o que disso passa vem do Maligno” (Mt 5, 37)

“Um caso de bilingüismo, como de serpente. Ontem foi fustigar o fantasma das famílias católicas e numerosas de antanho, como se os fantasmas perturbassem em algo a mudança – que parece definitiva e irrevogável – dos hábitos e dos princípios sobre os quais aqueles se cimentam; hoje foi “dá consolo e esperança ver tantas famílias numerosas que acolhem os filhos como um verdadeiro dom de Deus”. Cremos haver falado alguma vez desta surpreendente virtualidade – já que não virtude – da glote de Francisco. A graça gratis data da bilocação, de que dão testemunho as biografias de vários santos, transforma-se nele em notória bilocução. São habilidades adquiridas na escola daquele santo doutor e fundador de ímpar progênie: são Perón.
Mas não somos tão simplórios para aceitar as desculpas de um farsante consumado. Primeiro, porque não cremos – como tantos que se esmeram em cobrir as vergonhas do rei desnudo – que suas palavras sobre a família cunicular devam ser situadas no contexto de sua recente viagem às Filipinas, com o drama da pobreza extrema diante de suas retinas, etc. etc. O verdadeiro contexto das palavras de Bergoglio são seus irritantes dislates de cada dia, que autorizam a presunção de que sua demasia (esse “mais” que excede a límpida locução esperada de um pontífice) vem do subterrâneo. E suas palavras aludiam a famílias católicas, numerosas, como se costumava outrora, filhas daquela Igreja que todavia não havia abraçado as novidades conciliares, a mesma que incita as habituais e coléricas repreensões do pontífice. Como o fez na ocasião desta última viagem, por farta vez:
Faz tempo se dizia que os budistas iam ao inferno. Mas também que os protestantes, quando eu era menino, iam ao inferno, é o que nos ensinavam. E recordo a primeira experiência de ecumenismo que tive: tinha quatro anos ou cinco e ia caminhando pela rua com minha avó, que me levava pela mão, e na outra calçada iam duas mulheres do Exército da Salvação, com esse chapéu que já não se usa e com esse coque. Eu perguntei: “Vovó, essas são monjas?” E ela me respondeu: “Não, são protestantes, mas são boas!” Foi a primeira vez que ouvi falar bem das pessoas que pertencem a outras confissões. A Igreja cresceu muito no respeito às demais religiões, o Concílio Vaticano II falou sobre o respeito a seus valores. Houve tempos obscuros na história da Igreja, deve-se dizê-lo sem vergonha...
Certamente, disse-o sem vergonha. Mas o mais grave do discurso sobre as famílias numerosas, pouco notado em geral e bem apontado em um comentário que nos enviaram a nossa entrada anterior, estriba-se na reinterpretação trapaceira que Bergoglio propicia da Humanae vitae, aquela Encíclica tão resistida de Paulo VI cujo objeto foi assinalar a ilicitude dos métodos contraceptivos, e que Bergoglio refunde como mera condenação do neomalthusianismo. “Havendo relativizado este pronunciamento magisterial, procede a levar a questão [do uso de contraceptivos] ao foro interno”. Já o havia feito seu finado amigo íntimo, o turbulento cardeal Mejía, desde as páginas de sua infame revista Critério nos mesmos dias da publicação daquela Encíclica: “o ensinamento da Sé romana não é um absoluto” porque o da bioética “é a zona mais crepuscular e delicada do exercício do Magistério”, pois embora a Igreja “tenha o direito de proclamar ensinamentos que se refiram à lei natural (...) entramos em uma zona onde o progresso dos conhecimentos humanos, as limitações culturais e as transformações da história têm sua parte”. “O limite – termina Mejía – não é imposto à consciência, mas brota, no ensinamento da Encíclica, das raízes da consciência mesma”. Francisco recolheu o motivo: “a recusa de Paulo VI não se referia a problemas pessoais, sobre os quais pedirá depois aos confessores que sejam misericordiosos e que compreendam as situações”, mas ao neomalthusianismo. Não só têm a ousadia de afirmar que a lei não está nas coisas mas no sujeito, que a consciência é infalível e que um ato mau por seu objeto pode deixar de sê-lo segundo as circunstâncias (e que o pecado está nas ideologias e nos programas, mas não nos atos pessoais), mas pretendem fazer cúmplice desses mesmos e venenosos erros o Magistério. E de passagem, para alívio da multidão, entreabrem-se as comportas de uma mudança de doutrina a respeito dos contraceptivos.
Isso sim: no dia seguinte, elogiando as famílias numerosas.”

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sábado, 24 de janeiro de 2015

Duas doutrinas opostas sobre a família

“Mas vós não representais quaisquer famílias; vós sois e representais famílias numerosas, aquelas que foram grandemente abençoadas por Deus e que são especialmente amadas e apreciadas pela Igreja como seu tesouro mais precioso. Pois estas famílias oferecem um testemunho particularmente claro de três coisas que servem para assegurar ao mundo da verdade e da doutrina eclesiástica e a sensatez de sua prática, e que redundam, pelo bom exemplo, em grande benefício de todas as outras famílias e da sociedade civil mesma.
Onde quer que se encontrem famílias numerosas, estas são sinal da saúde física e moral de um povo cristão; de uma fé viva em Deus e de confiança em sua Providência; da feliz e proveitosa santidade do matrimônio católico.”
(S.S. Pio XII, no Discurso à Associação de Famílias Numerosas, 20 de janeiro de 1958)

“Eu creio que o número de três filhos por família, segundo o que dizem os técnicos, é o número importante para manter a população. A palavra-chave para responder é a paternidade responsável, e cada pessoa, no diálogo com seu pastor, procura como levar a cabo essa paternidade... Perdoem, mas há alguns que crêem que para sermos bons católicos devemos ser como coelhos, não? Paternidade responsável: por isso na Igreja há grupos matrimoniais; os especialistas nestas questões, e há pastores. Eu conheço muitas vias lícitas, que ajudaram nisso. E outra coisa: para as pessoas mais pobres, o filho é um tesouro; é certo que há que ser prudentes, mas o filho é um tesouro. Paternidade responsável, mas também considerar a generosidade desse papai ou dessa mamãe que vê no filho ou na filha um tesouro.”
(S.S. Francisco, na Coletiva de imprensa durante o vôo de regresso de Manila, Vatican Insider, 19 de janeiro de 2015)

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Walter Braunfels: Prelúdio e Fuga



Manfred Honeck
Staatsorchester Stuttgart

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A descristianização do Canadá

“O Pew Forum, um instituto de pesquisa em ciências sociais baseado em Washington, publicou em 27 de junho um estudo intitulado Alterações no Panorama Religioso do Canadá. Esse último estudo revela que jamais houve tantos canadenses pertencendo a religiões minoritárias, e ao mesmo tempo há um aumento constante no número de canadenses sem filiação religiosa, enquanto a prática regular está em declínio.
É verdade que o hino nacional do Canadá faz referência a Deus (Ó Canadá... Deus mantenha nossa pátria gloriosa e livre) e dois terços dos canadenses ainda se identificam como membros de religiões majoritárias – Católica e Protestante – mas as duas confissões cristãs sofreram uma substancial erosão durante quatro décadas: os protestantes passaram em 40 anos de 41% para 27%, e os católicos de 47% para 39%.
Os que não têm filiação religiosa passaram de 4% em 1971 para quase um quarto da população (24%) em 2011. O aumento nos religiosamente não-filiados no Canadá é semelhante, em certos aspectos, ao crescimento desse grupo – às vezes chamados de “Nenhuns” - nos Estados Unidos. Nos dois países, aproximadamente um dentre vinte adultos, ou 5%, eram religiosamente não-filiados no começo dos anos 70. A desfiliação começou a aumentar fortemente no Canadá durante os anos 80 e nos Estados Unidos nos anos 90. E na última década, os dois países experimentaram um rápido crescimento no número de adultos que dizem não ter nenhuma filiação religiosa.
Atualmente, cerca de 20% da população do Canadá nasceu em outro país. Nos anos 70 e 80, a população de origem estrangeira era menor, vinda principalmente da Europa e a maioria era de cristãos. Nos últimos anos, o crescente número de imigrantes – cerca de metade da população imigrante do Canadá – vinda da Ásia, África, e do Oriente Médio, reforçou a categoria de “outras religiões” com sua filiação ao Islã, Hinduísmo, Siquismo e Budismo. A partir de 2001, quase quatro dentre dez (39%) dos novos imigrantes canadenses pertencem a essas religiões minoritárias, em comparação com a mesma proporção de novos imigrantes (39%) que se identificam como católicos ou protestantes.”

http://www.dici.org/en/news/canada-rapid-transformation-of-the-religious-landscape

domingo, 18 de janeiro de 2015

Liberdade de expressão

“Muitos leitores me expressaram sua perplexidade ante a exaltação e defesa absolutista da liberdade de expressão que nestes dias se fez, vinda inclusive de meios de inspiração cristã ou declaradamente confessionais, para justificar as caricaturas do pasquim “Charlie Hebdo” nas quais se blasfemava contra Deus de modos aberrantes. A esses leitores digo que não se deixem confundir: os que fizeram tais defesas não professam a religião católica, nem se inspiram na filosofia cristã, embora finjam fazê-lo, aproveitando a consternação causada pelos vis assassinatos dos caricaturistas; mas são fanáticos da “religião democrática”, perversão que consiste em substituir a sã defesa da democracia como forma de governo que, mediante a representação política, facilita a participação popular no exercício do poder pela defesa da democracia como fundamento de governo, como religião demente que subverte qualquer princípio moral, amparando-se em supostas maiorias, na realidade massas cretinizadas e sugestionadas pela repetição de sofismas.
Os fanáticos dessa religião necessitam que as massas cretinizadas aceitem como axiomas (proposições que parecem evidentes por si mesmas) seus sofismas, entre os quais se encontra a chamada “liberdade de expressão” em sua versão absolutista. Para criar tais axiomas recorrem ao método antecipado por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo, que consiste na repetição, por milhares ou milhões de vezes, de uma mesma afirmação. No romance de Huxley, tal repetição se conseguia mediante um mecanismo repetitivo que falava sem interrupção ao subconsciente, durante as horas do sono; em nossa época se consegue através da saturação mental por meio da bazófia que nos servem os mass media, infestados de fanáticos da religião democrática que defendem uma liberdade de expressão absolutista: liberdade sem responsabilidade; liberdade para prejudicar, injuriar, caluniar, ofender e blasfemar; liberdade para semear o ódio e estender a mentira às massas cretinizadas; liberdade para condicionar os espíritos e incliná-los ao mal. Os que defendem essa “liberdade de expressão” como direito ilimitado são os mesmos que também defendem uma “liberdade de consciência” entendida não como liberdade para escolher moralmente e agir com retidão, mas como liberdade para escolher as idéias mais perversas, as paixões mais torpes e as ambições mais egoístas e pô-las em prática, pretendendo ademais que o Estado garanta sua realização. Não nos deixemos enganar: os que defendem a liberdade para publicar caricaturas blasfemas estão defendendo uma liberdade destrutiva que só leva à decadência e ao niilismo.
O pensamento cristão nos ensina que a liberdade não é um fim em si mesma, mas um meio para alcançar a verdade. Se à palavra liberdade não se acrescenta um “para quê”, transforma-se em uma palavra sem sentido, uma palavra asquerosamente ambígua que pode amparar as maiores aberrações. Como dizia Castellani, “a liberdade não é um movimento, mas um poder mover-se; e no poder mover-se o que importa é o para onde, o para quê.” Não pode haver uma liberdade para ofender, para provocar ódios, para instigar baixas paixões; não pode haver liberdade para ultrajar a fé do próximo e blasfemar contra Deus. Os cristãos se distinguem porque rezam uma oração na qual se pede: “Santificado seja vosso Nome”. Os fanáticos da liberdade de expressão querem que esse Nome seja eliminado, aviltado e escarnecido, para maior honra de sua religião democrática. Não lhes dêem atenção: quer vistam-se com paletó e gravata, quer com batina e solidéu, estão enganando-os, querem transformá-los em massa cretinizada.”
(Juan Manuel de Prada, Liberdad de Expresión)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O boçal engajado

“A falta continuada de contato com coisas belas e elevadas mutila a alma. Os dois sintomas mais evidentes de que uma pessoa chegou a tal dramático estado são os seguintes: extasiar-se com tolices e ser indiferente ao sublime. Não raro, são sintomas concomitantes num mesmo sujeito — que se superexcita com ninharias, futilidades ou torpezas, enquanto se mostra apático diante de qualquer beleza de ordem superior. Trata-se de alguém capaz de se entediar mortalmente ouvindo uma sinfonia de Bach ou lendo um parágrafo de Vieira, ao passo que sente arrepios de entusiasmo beatífico ao ouvir uma rima bem feita cantada em ritmo sincopado.
Estamos falando de um arquétipo contemporâneo: o boçal engajado. Pessoa de espírito lânguido, em geral ávida consumidora de produtos culturais alternativos cuja esterilidade artística pode ser medida pela tola pretensão de originalidade. Não se trata, propriamente, de um iletrado ou de alguém oriundo das camadas sociais menos favorecidas. Não: o boçal engajado é homem de classe média, habitué de feiras literárias, freqüentador de bienais de livros, encontros artísticos performáticos e exposições. Tem interesse por leitura, sim, mas sem jamais arriscar-se em autores que ou exijam de sua inteligência um maior esforço abstrativo, ou fujam ao limitado universo estético-político em que se embrenhou.
É, no fundo, uma personalidade timorata que precisa apoiar-se na opinião de grupos ou facções, em meio às quais se sente encorajado a manter o dedo em riste para o mundo, sobretudo como crítico da cultura e da política. As suas convicções são, pois, tanto mais altissonantes quanto mais estejam protegidas pela coletividade a que aderiu apaixonadamente. Palavras gastas como “reacionário” e “careta” ainda são recorrentes nos lábios do boçal engajado — em geral um sujeito simpático a ideologias socialistas e que defende todos os tópicos da agenda globalista contemporânea: aborto, casamento homossexual, ecumenismo, marcha das vadias, aquecimento global, etc. E ai de quem esboçar objeções ao que ele jura de pés juntos serem convicções suas!
Em verdade, o boçal engajado nem de longe imagina ser o produto acabado da sociedade orwelliana em que nos coube viver. É, pois, um autômato a repetir slogans, palavras de ordem e conceitos produzidos pela engenharia social que se apossou da sua consciência, não obstante dando-lhe a febril ilusão de liberdade, capacidade decisória e autonomia espiritual. Neste contexto, malgrado a sua patente curiosidade — medida pela busca constante por se informar até a embriaguez acerca de coisas “interessantes”—, a imersão do boçal engajado em baladas culturais é o fiel retrato de uma candente incapacidade reflexiva, pois o padrão mental em que sucumbe está enquadrado nas bitolas pré-moldadas por certa indústria do entretenimento, voltada a públicos com pretensões vanguardistas e libertárias.
Mentalidade adubada no espírito libertino procedente dos iconoclastismos revolucionários da década de 60, ele considera verdadeiramente geniais autores como Marcuse, Lacan, Deleuze, Sartre, Paulo Freire e diversos outros conformadores das últimas gerações. Mas se porventura o inquirimos com o intuito de aquilatar o seu nível de conhecimento a respeito da obra destas ilustres figuras, constatamos não passar de leituras esparsas de pensamentos ou conceitos isolados, geralmente feitas de segunda ou terceira mão, ou seja: em livros de comentadores que repetem os “dogmas” dos seus ídolos como mantras irredutíveis a qualquer análise um pouco mais criteriosa.
Se o boçal engajado ouve, por exemplo, um lacaniano dizer que o único e verdadeiro amor de uma mãe pelo seu filho acontece quando ela morre no parto, acha isto de uma criatividade sem tamanho. Ou então se vê um sartreano proclamar que a liberdade do homem é construir o seu próprio ser, e que o “Em-si” muitas vezes decai num processo de nadificação em direção ao “Para-si”, cai fulminado de amor místico diante do Ininteligível. Tais frases são edulcoradas numa espécie de psicodélica beberagem, e depois saboreadas, sorvidas, degustadas pelo boçal engajado como um olímpico manjar. A idéia que ele faz da filosofia é, como se pode deduzir, a de doidões fumando ópio e exercitando a inebriante debilidade das suas próprias inteligências.
A irreligião do boçal engajado é um bloco de conceitos auto-referentes, contemporaneamente pinçados dos livros de um Richard Dawkins ou de um Michel Onfray, autores da moda cuja leitura, de sua parte, é tão ou mais superficial do que a que teve a oportunidade de experimentar dos gurus acima mencionados. Portanto, quando ateu, o boçal engajado é o materialista que usa o espírito para perpetrar toda sorte de negações, a ponto de ter o próprio bom senso esmagado pela massa assimétrica de idéias avulsas que, repetidas à exaustão, formam uma imagem inexpugnável em sua mente: a de que a religião é algo irracional. Imaginemos, pois, o que acontece se algum desavisado lhe mostra que uma parcela grandíssima das maiores criações humanas — na filosofia, na música, na arquitetura, na pintura, na escultura, no direito, na poesia, na ciência, etc. — provém do mais profundo espírito religioso...
O fragor de sua inépcia mental tem como invólucro um insano otimismo, sobretudo com relação à reforma política das sociedades a partir das idéias que defende — as quais, de antemão, elevou à condição de verdades universais intocáveis. Assim, com a psique emparedada em tal universo, não é tão raro o boçal engajado subir de degrau na escala da esquizofrenia e se transformar num boçal engajante, ou seja: alguém com discurso violento a arregimentar prosélitos e incautos, não raro apelando ao expediente da detração dos adversários, aos quais são aplicadas as etiquetas que ele julgar apropriadas, conforme as situações se forem apresentando.
Quando apóia campanhas de desarmamento, o boçal engajado se sente um Mahatma Gandhi redivivo a pregar a não-violência, enquanto consome e propagandeia todo tipo de filme, música ou literatura em que a violência beira o infernal, alimentando as potências superiores de sua alma — inteligência e vontade — com imagens prenhes das mais macabras e hediondas possibilidades humanas, que, expostas “artisticamente”, acabam por se difundir nas sociedades. Acontece que, como entronizou a liberdade de expressão como ditame fundamental de sua febril existência, o boçal engajado quebra lanças quando, por exemplo, alguma autoridade sensata proíbe a exibição de películas como A Serbian Film, na qual a mais inocente cena é a do estupro de um bebê que acaba de sair da barriga de sua mãe.
Em síntese, a mente deste opiniático personagem é uma selva impossível de debastar, porque foi alimentada com todo tipo de filosofias da insanidade e de estéticas surreais — em que o belo é uma espécie “antitranscendental” do ser, pois tem pouco ou nada a ver com a realidade das coisas e do espírito. Daí o fato de o boçal engajado não conseguir perceber, por exemplo, que uma sociedade em que nada é censurável está fadada à autodestruição; não será sequer uma “sociedade”, na acepção da palavra, mas o vale-tudo hobbesiano que acaba por deflagrar a luta de todos contra todos. Com a advertência de que, em Hobbes, este é absurdamente o estado “natural” do homem, mas na verdade tipifica o estágio em que a natureza humana se desfez quase por completo, sobrando-lhe apenas a casca de suas reais potências.
O boçal engajado é pan, metro, supra, homo, meta, pluri, hiper-sexual. Noutras palavras: a sua capacidade de protagonizar façanhas eróticas jamais vistas desde a criação do mundo é simetricamente proporcional à sua incapacidade de ordenar a mente. E isto não é uma metáfora, pois a neurociência tem mostrado o quanto a devoção à pornografia e a um erotismo exagerado causam uma pavloviana supermemória — canalizada apenas para dar vazão ao sexo transformado em vício. Resultado: a estimulação mental quase sem descanso ao sexo causa graves deficiências no córtex frontal, área do cérebro ativada quando o homem engendra raciocínios lógicos ou cognições mais complexas, toma decisões importantes, organiza seu discurso, etc. Daí as freqüentes depressões, insatisfações existenciais, dificuldades de concentração, ansiedade e falta de motivação em uma pessoa com o perfil do boçal engajado, que metaforicamente ejacula o cérebro no samsara pornográfico em que jaz.
Haveria muitas outras características a destacar a respeito deste arquetípico homem do nosso tempo, como por exemplo a sua maior propensão a ser manipulado pelas técnicas de propaganda política — tão usuais desde que o mundo se transformou numa sociedade de massas. Mas encerremos este texto apenas observando que o boçal engajado é, fundamentalmente, a subespécie de um boçal muito mais refinado, e por isso superiormente deletério: o boçal liberal. Este último é a indômita e caótica mescla de várias idéias revolucionárias norteadoras dos séculos XX e XXI.
Entre outras coisas, o boçal engajado é irreligioso, como acima apontamos, mas o boçal liberal é o corruptor dos princípios da religião e da civilização, com a promessa de que, se o homem contemporâneo comer dos frutos por ele oferecidos, será livre, autônomo, poderoso. O seu primeiro princípio é retirar Deus das sociedades, na forma da lei, defendendo que os planos material e espiritual são realidades separadas por um abismo infinito. Ora, se o homem pode governar-se autonomamente, por que também não o podem as sociedades?
Assim pensa este sujeito que, consciente ou inconscientemente, opera a máquina de devorar consciências concebida pelo espírito maligno que — segundo dizem — reside entre o tempo e a eternidade.
E hoje atende pelo nome de 666.”
(Sidney Silveira, O Boçal Engajado e a Máquina de Devorar Consciências)

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Eu não sou Charlie Hebdo

“Durante os últimos dias, temos ouvido qualificarem os periodistas vilmente assassinados do pasquim Charlie Hebdo de “mártires da liberdade de expressão”. Também temos assistido a um movimento de solidariedade póstuma com os assassinados, mediante proclamações inassumíveis do tipo: “Eu sou Charlie Hebdo”. E, chegados ao cúmulo do dislate, temos ouvido defenderem um pretenso “direito à blasfêmia”, inclusive em meios católicos. Sirva este artigo para dar voz aos que não se identificam com esse acúmulo de disparates filhos da debilidade mental.
Por volta de setembro de 2006, Bento XVI pronunciou um grandioso discurso em Ratisbona que provocou a ira dos maometanos fanáticos e a censura aleivosa e covarde da maioria dos líderes e meios de comunicação ocidentais. Aquele espetáculo de vileza infinita era facilmente explicável: pois em seu discurso, Bento XVI, além de condenar as formas de fé patológica que tratam de impor-se com a violência, condenava também o laicismo, essa expressão demente da razão que pretende confinar a fé no subjetivo, transformando o âmbito público em um mercado onde a fé pode ser ultrajada e escarnecida até o paroxismo, como expressão da sacrossanta liberdade de expressão. Essa razão demente é a que levou a civilização ocidental à decadência e promoveu os antivalores mais pestilentes, desde o multiculturalismo à pansexualidade, passando logicamente pela aberração sacrílega; essa razão demente é a que defende o pasquim Charlie Hebdo, que, além de publicar sátiras provocadoras e gratuitamente ofensivas contra os muçulmanos, publicou em reiteradas ocasiões caricaturas aberrantes que blasfemam contra Deus, começando por uma capa que mostrava as três pessoas da Santíssima Trindade sodomizando-se entre si. Escrevia Will Durant que uma civilização não é conquistada de fora até que não se tenha destruído a si mesma por dentro; e o desenho sacrílego ou gratuitamente ofensivo que publicava o pasquim Charlie Hebdo, como os antivalores pestilentes que defende, são a melhor expressão dessa deriva autodestrutiva.
Devemos condenar esse vil assassinato; devemos rezar pela salvação da alma desses periodistas que em vida contribuíram para aviltar a alma de seus compatriotas; devemos exigir que as feras que os assassinaram sejam castigadas como merecem; devemos exigir que a patologia religiosa que inspira essas feras seja erradicada da Europa. Mas, ao mesmo tempo, devemos recordar que as religiões fundam as civilizações, que por sua vez morrem quando apostatam da religião que as fundou; e também que o laicismo é um delírio da razão que só logrará que o islamismo erija seu culto ímpio sobre os escombros da civilização cristã. Aconteceu no norte da África no século VII; e acontecerá na Europa do século XXI, por pouco que continuemos defendendo aberrações como as que alardeia o pasquim Charlie Hebdo. Nenhuma pessoa que conserve uma migalha de sentido comum, assim como um mínimo temor a Deus, pode mostrar-se solidária com tais aberrações, que nos têm conduzido ao abismo.
E não esqueçamos que o Governo francês – como tantos outros governos ocidentais –, que amparava a publicação de tais aberrações, é o mesmo que tem financiado em diversos países (e em especial na Líbia) os islamitas que têm massacrado a milhares de cristãos, muito menos pranteados que os periodistas do pasquim Charlie Hebdo. Pode parecer ilógico, mas é irrepreensivelmente lógico: é a lógica do mal na qual o Ocidente tem-se instalado, enquanto espera a chegada dos bárbaros.”
(Juan Manuel de Prada, Yo No Soy Charlie Hebdo)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Contradições do gayzismo apontadas por Olavo de Carvalho

“Um dos dogmas mais básicos – e mais psicóticos – da mentalidade revolucionária nas últimas quatro ou cinco décadas é que não existe “natureza humana”: o bicho-homem não tem instintos, não tem programação genética, é uma folha em branco, uma tábua rasa: tudo o que ele faz e pensa é imposto por “estereótipos culturais”. Estes, por sua vez, não surgem da experiência acumulada das gerações, mas são “instrumentos de dominação” criados pela maldita classe dominante.
Se você acredita que é macho só porque nasceu macho, ou fêmea só porque nasceu fêmea, está muito enganado(a). Foi o “aparato de reprodução da ideologia burguesa” que vestiu em você esses modelitos odiosos para que você não percebesse que seu pênis pode ser um sinal de feminilidade e sua vagina uma prova de macheza acima de qualquer suspeita.
Nem precisa perguntar: Sim, a ciência já demonstrou que isso é uma fraude das grossas. E sim, os mesmos que brandem a teoria da “tábua rasa” contra os papéis tradicionais de homem e mulher saem gritando, cinco minutos depois, que o homossexualismo é genético e que tentar mudar um homossexual é crime. Isto é: você não nasce homem nem mulher, mas nasce homossexual. Perguntar como você pode sentir atração por pessoas “do mesmo sexo” sem ter sexo nenhum é homofobia.
Há ainda aqueles que exigem acesso aos banheiros femininos para os transexuais e ao mesmo tempo berram que “é preciso acabar com os estereótipos de macho e fêmea”. Mas o que faz de um transexual um transexual senão o fato de que, nascido num sexo, ele copia os estereótipos do outro? E é preciso ser cego para não notar que a conduta feminina de um transexual é ainda mais estereotipada que a das mulheres.
Um documentário recente* mostrou que na Noruega, o país onde a legislação é a mais igualitária do mundo para homens e mulheres, as pessoas continuam a buscar as profissões que correspondem ao “estereótipo” do seu sexo, com frequência estatística até maior do que o faziam antes de oficializado o discurso equalizante. Os fanáticos da “tábua rasa” dizem que elas fazem isso por pressão da sociedade, mas elas insistem que não: as mulheres escolhem cuidar de bebês, e não de automóveis, porque querem e não porque mamãe mandou. Mas os iluminados acreditam que essas pessoas não têm autoridade para dizer o que querem: quem tem são eles.
É essa a mentalidade por trás de milhares de leis psicóticas com que cérebros lesados impõem a sua deformidade à população, proibindo a saúde mental como se fosse um crime.”

*https://www.youtube.com/watch?v=p5LRdW8xw70
http://radiovox.org