sábado, 24 de janeiro de 2015

Walter Braunfels: Prelúdio e Fuga



Manfred Honeck
Staatsorchester Stuttgart

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A descristianização do Canadá

“O Pew Forum, um instituto de pesquisa em ciências sociais baseado em Washington, publicou em 27 de junho um estudo intitulado Alterações no Panorama Religioso do Canadá. Esse último estudo revela que jamais houve tantos canadenses pertencendo a religiões minoritárias, e ao mesmo tempo há um aumento constante no número de canadenses sem filiação religiosa, enquanto a prática regular está em declínio.
É verdade que o hino nacional do Canadá faz referência a Deus (Ó Canadá... Deus mantenha nossa pátria gloriosa e livre) e dois terços dos canadenses ainda se identificam como membros de religiões majoritárias – Católica e Protestante – mas as duas confissões cristãs sofreram uma substancial erosão durante quatro décadas: os protestantes passaram em 40 anos de 41% para 27%, e os católicos de 47% para 39%.
Os que não têm filiação religiosa passaram de 4% em 1971 para quase um quarto da população (24%) em 2011. O aumento nos religiosamente não-filiados no Canadá é semelhante, em certos aspectos, ao crescimento desse grupo – às vezes chamados de “Nenhuns” - nos Estados Unidos. Nos dois países, aproximadamente um dentre vinte adultos, ou 5%, eram religiosamente não-filiados no começo dos anos 70. A desfiliação começou a aumentar fortemente no Canadá durante os anos 80 e nos Estados Unidos nos anos 90. E na última década, os dois países experimentaram um rápido crescimento no número de adultos que dizem não ter nenhuma filiação religiosa.
Atualmente, cerca de 20% da população do Canadá nasceu em outro país. Nos anos 70 e 80, a população de origem estrangeira era menor, vinda principalmente da Europa e a maioria era de cristãos. Nos últimos anos, o crescente número de imigrantes – cerca de metade da população imigrante do Canadá – vinda da Ásia, África, e do Oriente Médio, reforçou a categoria de “outras religiões” com sua filiação ao Islã, Hinduísmo, Siquismo e Budismo. A partir de 2001, quase quatro dentre dez (39%) dos novos imigrantes canadenses pertencem a essas religiões minoritárias, em comparação com a mesma proporção de novos imigrantes (39%) que se identificam como católicos ou protestantes.”

http://www.dici.org/en/news/canada-rapid-transformation-of-the-religious-landscape

domingo, 18 de janeiro de 2015

Liberdade de expressão

“Muitos leitores me expressaram sua perplexidade ante a exaltação e defesa absolutista da liberdade de expressão que nestes dias se fez, vinda inclusive de meios de inspiração cristã ou declaradamente confessionais, para justificar as caricaturas do pasquim “Charlie Hebdo” nas quais se blasfemava contra Deus de modos aberrantes. A esses leitores digo que não se deixem confundir: os que fizeram tais defesas não professam a religião católica, nem se inspiram na filosofia cristã, embora finjam fazê-lo, aproveitando a consternação causada pelos vis assassinatos dos caricaturistas; mas são fanáticos da “religião democrática”, perversão que consiste em substituir a sã defesa da democracia como forma de governo que, mediante a representação política, facilita a participação popular no exercício do poder pela defesa da democracia como fundamento de governo, como religião demente que subverte qualquer princípio moral, amparando-se em supostas maiorias, na realidade massas cretinizadas e sugestionadas pela repetição de sofismas.
Os fanáticos dessa religião necessitam que as massas cretinizadas aceitem como axiomas (proposições que parecem evidentes por si mesmas) seus sofismas, entre os quais se encontra a chamada “liberdade de expressão” em sua versão absolutista. Para criar tais axiomas recorrem ao método antecipado por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo, que consiste na repetição, por milhares ou milhões de vezes, de uma mesma afirmação. No romance de Huxley, tal repetição se conseguia mediante um mecanismo repetitivo que falava sem interrupção ao subconsciente, durante as horas do sono; em nossa época se consegue através da saturação mental por meio da bazófia que nos servem os mass media, infestados de fanáticos da religião democrática que defendem uma liberdade de expressão absolutista: liberdade sem responsabilidade; liberdade para prejudicar, injuriar, caluniar, ofender e blasfemar; liberdade para semear o ódio e estender a mentira às massas cretinizadas; liberdade para condicionar os espíritos e incliná-los ao mal. Os que defendem essa “liberdade de expressão” como direito ilimitado são os mesmos que também defendem uma “liberdade de consciência” entendida não como liberdade para escolher moralmente e agir com retidão, mas como liberdade para escolher as idéias mais perversas, as paixões mais torpes e as ambições mais egoístas e pô-las em prática, pretendendo ademais que o Estado garanta sua realização. Não nos deixemos enganar: os que defendem a liberdade para publicar caricaturas blasfemas estão defendendo uma liberdade destrutiva que só leva à decadência e ao niilismo.
O pensamento cristão nos ensina que a liberdade não é um fim em si mesma, mas um meio para alcançar a verdade. Se à palavra liberdade não se acrescenta um “para quê”, transforma-se em uma palavra sem sentido, uma palavra asquerosamente ambígua que pode amparar as maiores aberrações. Como dizia Castellani, “a liberdade não é um movimento, mas um poder mover-se; e no poder mover-se o que importa é o para onde, o para quê.” Não pode haver uma liberdade para ofender, para provocar ódios, para instigar baixas paixões; não pode haver liberdade para ultrajar a fé do próximo e blasfemar contra Deus. Os cristãos se distinguem porque rezam uma oração na qual se pede: “Santificado seja vosso Nome”. Os fanáticos da liberdade de expressão querem que esse Nome seja eliminado, aviltado e escarnecido, para maior honra de sua religião democrática. Não lhes dêem atenção: quer vistam-se com paletó e gravata, quer com batina e solidéu, estão enganando-os, querem transformá-los em massa cretinizada.”
(Juan Manuel de Prada, Liberdad de Expresión)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O boçal engajado

“A falta continuada de contato com coisas belas e elevadas mutila a alma. Os dois sintomas mais evidentes de que uma pessoa chegou a tal dramático estado são os seguintes: extasiar-se com tolices e ser indiferente ao sublime. Não raro, são sintomas concomitantes num mesmo sujeito — que se superexcita com ninharias, futilidades ou torpezas, enquanto se mostra apático diante de qualquer beleza de ordem superior. Trata-se de alguém capaz de se entediar mortalmente ouvindo uma sinfonia de Bach ou lendo um parágrafo de Vieira, ao passo que sente arrepios de entusiasmo beatífico ao ouvir uma rima bem feita cantada em ritmo sincopado.
Estamos falando de um arquétipo contemporâneo: o boçal engajado. Pessoa de espírito lânguido, em geral ávida consumidora de produtos culturais alternativos cuja esterilidade artística pode ser medida pela tola pretensão de originalidade. Não se trata, propriamente, de um iletrado ou de alguém oriundo das camadas sociais menos favorecidas. Não: o boçal engajado é homem de classe média, habitué de feiras literárias, freqüentador de bienais de livros, encontros artísticos performáticos e exposições. Tem interesse por leitura, sim, mas sem jamais arriscar-se em autores que ou exijam de sua inteligência um maior esforço abstrativo, ou fujam ao limitado universo estético-político em que se embrenhou.
É, no fundo, uma personalidade timorata que precisa apoiar-se na opinião de grupos ou facções, em meio às quais se sente encorajado a manter o dedo em riste para o mundo, sobretudo como crítico da cultura e da política. As suas convicções são, pois, tanto mais altissonantes quanto mais estejam protegidas pela coletividade a que aderiu apaixonadamente. Palavras gastas como “reacionário” e “careta” ainda são recorrentes nos lábios do boçal engajado — em geral um sujeito simpático a ideologias socialistas e que defende todos os tópicos da agenda globalista contemporânea: aborto, casamento homossexual, ecumenismo, marcha das vadias, aquecimento global, etc. E ai de quem esboçar objeções ao que ele jura de pés juntos serem convicções suas!
Em verdade, o boçal engajado nem de longe imagina ser o produto acabado da sociedade orwelliana em que nos coube viver. É, pois, um autômato a repetir slogans, palavras de ordem e conceitos produzidos pela engenharia social que se apossou da sua consciência, não obstante dando-lhe a febril ilusão de liberdade, capacidade decisória e autonomia espiritual. Neste contexto, malgrado a sua patente curiosidade — medida pela busca constante por se informar até a embriaguez acerca de coisas “interessantes”—, a imersão do boçal engajado em baladas culturais é o fiel retrato de uma candente incapacidade reflexiva, pois o padrão mental em que sucumbe está enquadrado nas bitolas pré-moldadas por certa indústria do entretenimento, voltada a públicos com pretensões vanguardistas e libertárias.
Mentalidade adubada no espírito libertino procedente dos iconoclastismos revolucionários da década de 60, ele considera verdadeiramente geniais autores como Marcuse, Lacan, Deleuze, Sartre, Paulo Freire e diversos outros conformadores das últimas gerações. Mas se porventura o inquirimos com o intuito de aquilatar o seu nível de conhecimento a respeito da obra destas ilustres figuras, constatamos não passar de leituras esparsas de pensamentos ou conceitos isolados, geralmente feitas de segunda ou terceira mão, ou seja: em livros de comentadores que repetem os “dogmas” dos seus ídolos como mantras irredutíveis a qualquer análise um pouco mais criteriosa.
Se o boçal engajado ouve, por exemplo, um lacaniano dizer que o único e verdadeiro amor de uma mãe pelo seu filho acontece quando ela morre no parto, acha isto de uma criatividade sem tamanho. Ou então se vê um sartreano proclamar que a liberdade do homem é construir o seu próprio ser, e que o “Em-si” muitas vezes decai num processo de nadificação em direção ao “Para-si”, cai fulminado de amor místico diante do Ininteligível. Tais frases são edulcoradas numa espécie de psicodélica beberagem, e depois saboreadas, sorvidas, degustadas pelo boçal engajado como um olímpico manjar. A idéia que ele faz da filosofia é, como se pode deduzir, a de doidões fumando ópio e exercitando a inebriante debilidade das suas próprias inteligências.
A irreligião do boçal engajado é um bloco de conceitos auto-referentes, contemporaneamente pinçados dos livros de um Richard Dawkins ou de um Michel Onfray, autores da moda cuja leitura, de sua parte, é tão ou mais superficial do que a que teve a oportunidade de experimentar dos gurus acima mencionados. Portanto, quando ateu, o boçal engajado é o materialista que usa o espírito para perpetrar toda sorte de negações, a ponto de ter o próprio bom senso esmagado pela massa assimétrica de idéias avulsas que, repetidas à exaustão, formam uma imagem inexpugnável em sua mente: a de que a religião é algo irracional. Imaginemos, pois, o que acontece se algum desavisado lhe mostra que uma parcela grandíssima das maiores criações humanas — na filosofia, na música, na arquitetura, na pintura, na escultura, no direito, na poesia, na ciência, etc. — provém do mais profundo espírito religioso...
O fragor de sua inépcia mental tem como invólucro um insano otimismo, sobretudo com relação à reforma política das sociedades a partir das idéias que defende — as quais, de antemão, elevou à condição de verdades universais intocáveis. Assim, com a psique emparedada em tal universo, não é tão raro o boçal engajado subir de degrau na escala da esquizofrenia e se transformar num boçal engajante, ou seja: alguém com discurso violento a arregimentar prosélitos e incautos, não raro apelando ao expediente da detração dos adversários, aos quais são aplicadas as etiquetas que ele julgar apropriadas, conforme as situações se forem apresentando.
Quando apóia campanhas de desarmamento, o boçal engajado se sente um Mahatma Gandhi redivivo a pregar a não-violência, enquanto consome e propagandeia todo tipo de filme, música ou literatura em que a violência beira o infernal, alimentando as potências superiores de sua alma — inteligência e vontade — com imagens prenhes das mais macabras e hediondas possibilidades humanas, que, expostas “artisticamente”, acabam por se difundir nas sociedades. Acontece que, como entronizou a liberdade de expressão como ditame fundamental de sua febril existência, o boçal engajado quebra lanças quando, por exemplo, alguma autoridade sensata proíbe a exibição de películas como A Serbian Film, na qual a mais inocente cena é a do estupro de um bebê que acaba de sair da barriga de sua mãe.
Em síntese, a mente deste opiniático personagem é uma selva impossível de debastar, porque foi alimentada com todo tipo de filosofias da insanidade e de estéticas surreais — em que o belo é uma espécie “antitranscendental” do ser, pois tem pouco ou nada a ver com a realidade das coisas e do espírito. Daí o fato de o boçal engajado não conseguir perceber, por exemplo, que uma sociedade em que nada é censurável está fadada à autodestruição; não será sequer uma “sociedade”, na acepção da palavra, mas o vale-tudo hobbesiano que acaba por deflagrar a luta de todos contra todos. Com a advertência de que, em Hobbes, este é absurdamente o estado “natural” do homem, mas na verdade tipifica o estágio em que a natureza humana se desfez quase por completo, sobrando-lhe apenas a casca de suas reais potências.
O boçal engajado é pan, metro, supra, homo, meta, pluri, hiper-sexual. Noutras palavras: a sua capacidade de protagonizar façanhas eróticas jamais vistas desde a criação do mundo é simetricamente proporcional à sua incapacidade de ordenar a mente. E isto não é uma metáfora, pois a neurociência tem mostrado o quanto a devoção à pornografia e a um erotismo exagerado causam uma pavloviana supermemória — canalizada apenas para dar vazão ao sexo transformado em vício. Resultado: a estimulação mental quase sem descanso ao sexo causa graves deficiências no córtex frontal, área do cérebro ativada quando o homem engendra raciocínios lógicos ou cognições mais complexas, toma decisões importantes, organiza seu discurso, etc. Daí as freqüentes depressões, insatisfações existenciais, dificuldades de concentração, ansiedade e falta de motivação em uma pessoa com o perfil do boçal engajado, que metaforicamente ejacula o cérebro no samsara pornográfico em que jaz.
Haveria muitas outras características a destacar a respeito deste arquetípico homem do nosso tempo, como por exemplo a sua maior propensão a ser manipulado pelas técnicas de propaganda política — tão usuais desde que o mundo se transformou numa sociedade de massas. Mas encerremos este texto apenas observando que o boçal engajado é, fundamentalmente, a subespécie de um boçal muito mais refinado, e por isso superiormente deletério: o boçal liberal. Este último é a indômita e caótica mescla de várias idéias revolucionárias norteadoras dos séculos XX e XXI.
Entre outras coisas, o boçal engajado é irreligioso, como acima apontamos, mas o boçal liberal é o corruptor dos princípios da religião e da civilização, com a promessa de que, se o homem contemporâneo comer dos frutos por ele oferecidos, será livre, autônomo, poderoso. O seu primeiro princípio é retirar Deus das sociedades, na forma da lei, defendendo que os planos material e espiritual são realidades separadas por um abismo infinito. Ora, se o homem pode governar-se autonomamente, por que também não o podem as sociedades?
Assim pensa este sujeito que, consciente ou inconscientemente, opera a máquina de devorar consciências concebida pelo espírito maligno que — segundo dizem — reside entre o tempo e a eternidade.
E hoje atende pelo nome de 666.”
(Sidney Silveira, O Boçal Engajado e a Máquina de Devorar Consciências)

http://contraimpugnantes.blogspot.com.br

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Eu não sou Charlie Hebdo

“Durante os últimos dias, temos ouvido qualificarem os periodistas vilmente assassinados do pasquim Charlie Hebdo de “mártires da liberdade de expressão”. Também temos assistido a um movimento de solidariedade póstuma com os assassinados, mediante proclamações inassumíveis do tipo: “Eu sou Charlie Hebdo”. E, chegados ao cúmulo do dislate, temos ouvido defenderem um pretenso “direito à blasfêmia”, inclusive em meios católicos. Sirva este artigo para dar voz aos que não se identificam com esse acúmulo de disparates filhos da debilidade mental.
Por volta de setembro de 2006, Bento XVI pronunciou um grandioso discurso em Ratisbona que provocou a ira dos maometanos fanáticos e a censura aleivosa e covarde da maioria dos líderes e meios de comunicação ocidentais. Aquele espetáculo de vileza infinita era facilmente explicável: pois em seu discurso, Bento XVI, além de condenar as formas de fé patológica que tratam de impor-se com a violência, condenava também o laicismo, essa expressão demente da razão que pretende confinar a fé no subjetivo, transformando o âmbito público em um mercado onde a fé pode ser ultrajada e escarnecida até o paroxismo, como expressão da sacrossanta liberdade de expressão. Essa razão demente é a que levou a civilização ocidental à decadência e promoveu os antivalores mais pestilentes, desde o multiculturalismo à pansexualidade, passando logicamente pela aberração sacrílega; essa razão demente é a que defende o pasquim Charlie Hebdo, que, além de publicar sátiras provocadoras e gratuitamente ofensivas contra os muçulmanos, publicou em reiteradas ocasiões caricaturas aberrantes que blasfemam contra Deus, começando por uma capa que mostrava as três pessoas da Santíssima Trindade sodomizando-se entre si. Escrevia Will Durant que uma civilização não é conquistada de fora até que não se tenha destruído a si mesma por dentro; e o desenho sacrílego ou gratuitamente ofensivo que publicava o pasquim Charlie Hebdo, como os antivalores pestilentes que defende, são a melhor expressão dessa deriva autodestrutiva.
Devemos condenar esse vil assassinato; devemos rezar pela salvação da alma desses periodistas que em vida contribuíram para aviltar a alma de seus compatriotas; devemos exigir que as feras que os assassinaram sejam castigadas como merecem; devemos exigir que a patologia religiosa que inspira essas feras seja erradicada da Europa. Mas, ao mesmo tempo, devemos recordar que as religiões fundam as civilizações, que por sua vez morrem quando apostatam da religião que as fundou; e também que o laicismo é um delírio da razão que só logrará que o islamismo erija seu culto ímpio sobre os escombros da civilização cristã. Aconteceu no norte da África no século VII; e acontecerá na Europa do século XXI, por pouco que continuemos defendendo aberrações como as que alardeia o pasquim Charlie Hebdo. Nenhuma pessoa que conserve uma migalha de sentido comum, assim como um mínimo temor a Deus, pode mostrar-se solidária com tais aberrações, que nos têm conduzido ao abismo.
E não esqueçamos que o Governo francês – como tantos outros governos ocidentais –, que amparava a publicação de tais aberrações, é o mesmo que tem financiado em diversos países (e em especial na Líbia) os islamitas que têm massacrado a milhares de cristãos, muito menos pranteados que os periodistas do pasquim Charlie Hebdo. Pode parecer ilógico, mas é irrepreensivelmente lógico: é a lógica do mal na qual o Ocidente tem-se instalado, enquanto espera a chegada dos bárbaros.”
(Juan Manuel de Prada, Yo No Soy Charlie Hebdo)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Contradições do gayzismo apontadas por Olavo de Carvalho

“Um dos dogmas mais básicos – e mais psicóticos – da mentalidade revolucionária nas últimas quatro ou cinco décadas é que não existe “natureza humana”: o bicho-homem não tem instintos, não tem programação genética, é uma folha em branco, uma tábua rasa: tudo o que ele faz e pensa é imposto por “estereótipos culturais”. Estes, por sua vez, não surgem da experiência acumulada das gerações, mas são “instrumentos de dominação” criados pela maldita classe dominante.
Se você acredita que é macho só porque nasceu macho, ou fêmea só porque nasceu fêmea, está muito enganado(a). Foi o “aparato de reprodução da ideologia burguesa” que vestiu em você esses modelitos odiosos para que você não percebesse que seu pênis pode ser um sinal de feminilidade e sua vagina uma prova de macheza acima de qualquer suspeita.
Nem precisa perguntar: Sim, a ciência já demonstrou que isso é uma fraude das grossas. E sim, os mesmos que brandem a teoria da “tábua rasa” contra os papéis tradicionais de homem e mulher saem gritando, cinco minutos depois, que o homossexualismo é genético e que tentar mudar um homossexual é crime. Isto é: você não nasce homem nem mulher, mas nasce homossexual. Perguntar como você pode sentir atração por pessoas “do mesmo sexo” sem ter sexo nenhum é homofobia.
Há ainda aqueles que exigem acesso aos banheiros femininos para os transexuais e ao mesmo tempo berram que “é preciso acabar com os estereótipos de macho e fêmea”. Mas o que faz de um transexual um transexual senão o fato de que, nascido num sexo, ele copia os estereótipos do outro? E é preciso ser cego para não notar que a conduta feminina de um transexual é ainda mais estereotipada que a das mulheres.
Um documentário recente* mostrou que na Noruega, o país onde a legislação é a mais igualitária do mundo para homens e mulheres, as pessoas continuam a buscar as profissões que correspondem ao “estereótipo” do seu sexo, com frequência estatística até maior do que o faziam antes de oficializado o discurso equalizante. Os fanáticos da “tábua rasa” dizem que elas fazem isso por pressão da sociedade, mas elas insistem que não: as mulheres escolhem cuidar de bebês, e não de automóveis, porque querem e não porque mamãe mandou. Mas os iluminados acreditam que essas pessoas não têm autoridade para dizer o que querem: quem tem são eles.
É essa a mentalidade por trás de milhares de leis psicóticas com que cérebros lesados impõem a sua deformidade à população, proibindo a saúde mental como se fosse um crime.”

*https://www.youtube.com/watch?v=p5LRdW8xw70
http://radiovox.org

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A ação descristianizadora do Liberalismo (II)

“Nosso mundo está atravessado pelo desconcertante paradoxo de que a filosofia que inspira o liberalismo é determinista, negadora do livre arbítrio e desconhecedora do caráter pessoal do indivíduo humano. Por isso, não é de se estranhar que a maioria dos que combatem a pena de morte defenda a licitude do aborto e da eutanásia. O juízo condenatório de Pio IX na Quanta cura e no Syllabus foi reiterado e sistematizado com precisão admirável no plano doutrinal por Leão XIII, sobretudo em suas encíclicas Immortale Dei e Libertas, que mostram o liberalismo como a colocação em prática do imanentismo naturalista e, por sua vez, advertem que o liberalismo leva ao ateísmo.
Leão XIII insistiu que vem do ateísmo o Estado conceder a todas as religiões iguais direitos. Seu juízo corresponde plenamente à intenção profunda da concessão, pelo Estado liberal, do direito que propugnava Spinoza de deixar que cada um pensasse o que quisesse e dissesse o que pensasse como caminho para que o poder político se constitua na única fonte de idéias morais. Na verdade, estamos vendo isso na vida política interna dos estados e na vida internacional: emanados da ONU e da UNESCO, os critérios e as normas com que se pretende evitar o contágio da AIDS ou controlar a explosão demográfica no mundo dão por pressuposto como algo óbvio que dos poderes estatais ou internacionais não se deve esperar nem se pode aceitar nenhuma normatividade moral de origem religiosa, procedente de qualquer igreja ou confissão.
Deve-se reconhecer que desde a ONU, como desde os poderes políticos estatais, nem se espera nem se aceitaria um juízo moral vindo do mundo religioso. Sociológica e culturalmente, nos encontramos com a trágica exclusividade do islamismo em aparecer como uma resistência explícita à secularização do laicismo em nossa vida coletiva. Se se tivesse atentado para os processos reais que presenciamos e que levaram à descristianização da cristandade ocidental, teríamos que reconhecer dois fatos importantíssimos e de significado decisivo:
Em primeiro lugar, a injustiça sectária que fez evoluir o Estado separado da Igreja até o Estado laicista opressor do direito à presença da fé na educação e na vida social, que não é algo contraditório com os princípios do liberalismo que a Igreja condenou, nem acidental seu dinamismo profundo. Em segundo lugar, a hegemônica influência do sectarismo anticristão nos meios de comunicação social e em todos os âmbitos culturais que conformaram a mentalidade contemporânea antiteísta é algo não só coerente com os princípios do liberalismo, mas algo intentado por "princípios" explicitamente afirmados como a finalidade do próprio liberalismo desde suas fontes filosóficas originárias e capitais.
Ao preparar o envio da palestra pronunciada em Barcelona no último congresso da Cidade Católica, me parece oportuno acrescentar umas notas sobre a filosofia profunda dos nacionalismos, a modo de homenagem ao eminente pensador Rafael Gambra, recentemente falecido, e que durante tantos anos havia colaborado ativamente mantendo a presença do pensamento tradicional em tantos âmbitos da vida espanhola.
Em um iluminador trabalho intitulado Patriotismo e nacionalismo, publicado na revista barcelonesa Cristandade (núm 160, novembro de 1950, pp. 507-508), Rafael Gambra formulou uma análise profunda e fundamental sobre a gênese e o sentido da ideologia nacionalista que me parece oportuno citar literalmente com alguma extensão:
"Para os iluministas, as diversas religiões... eram visões grosseiras, representações populares de uma verdade mais profunda, que é a compreensão racional, científica, do universo. E como complemento deste novo gnosticismo vulgarizado dominou, no ambiente das Luzes, uma filosofia da história segundo a qual vai-se operando lentamente um processo de racionalização no qual a razão vai abrindo caminho através das névoas da ignorância, da superstição e da crença. [...]
"A atitude pessoal do enciclopedista, congruente com esta concepção, haveria de ser idêntica à do antigo sofos grego, que foi herdada pelo gnosticismo: um aristocrático desdém pelas perecíveis crenças do povo e do meio ambiente, e a passividade meramente espectadora do "iniciado" que espera o que necessariamente e no seu devido tempo há de suceder.
"No entanto, no seio do Iluminismo, surgiu uma voz que, se participante do espírito geral do movimento, era dissidente com respeito à filosofia da história... foi a voz de J. J. Rousseau. Para o autor do Emílio, o advento da era racional da humanidade não há de vir no seu devido tempo, em um lento mas necessário abandono dos ídolos, porque a irracionalidade não é meramente um estrato prévio que se transformará em Iluminismo, mas é a causa do mal, do único mal possível, origem da perversão do homem, naturalmente bom... é preciso, em conseqüência, destruir essa sociedade para, sobre ela, edificar a nova sociedade racional, na qual o homem, livre destas influências deletérias... recupere o máximo possível de liberdade, e com isso de espontânea inocência.
"Então surge de um modo explícito o espírito revolucionário, por oposição e em contraste com o plácido espírito enciclopedista que, simplesmente, esperava a revolução. [...]
"Esta organização da sociedade sobre bases racionais a partir de uma ruptura com o passado deveria realizar-se, para ser lógica, sobre a sociedade universal, ou ao menos sobre um ideal universalista, antinacional.
"Entretanto, contra a lógica interna do sistema, o constitucionalismo decimonômico admitiu e se aplicou às nacionalidades existentes, estabelecendo-se para cada nação uma Constituição racional e definitiva que tomava como objeto e qualificativo, precisamente, o nome da nacionalidade. Então surge um novo e estranho sentimento que, como o antigo patriotismo, representa uma adesão afetiva à própria nação, mas que não pode mais se chamar de "patriotismo" porque renega a obra dos pais e antepassados, e se funda sobre uma ruptura com seu mundo e seus valores. Este sentimento é o nacionalismo".
Na continuação, Gambra assinala duas características do nacionalismo como "nova força espiritual do mundo moderno": sua natureza teórica diante da meramente afetiva e existencial do patriotismo... e sua absolutidade.
"Enquanto o patriotismo pode ser um sentimento condicionado e hierarquizado... no nacionalismo a razão de Estado é causa suprema e inapelável, e a nação ou Estado, hipostasiados, comunidade abstrata, constituem uma instância superior sem ulterior recurso".
O fundamentado juízo de Rafael Gambra responde a um conhecimento autêntico das bases filosóficas e os condicionamentos culturais em que se gestou a doutrina nacionalista: o idealismo filosófico, elaborado no contexto cultural do Romantismo alemão. Nesta nota de homenagem a Gambra, não farei mais que enfatizar os traços característicos deste pensamento no doutrinário do nacionalismo catalão. Enric Prat de la Riba, em seu decisivo manifesto La nacionalitat catalana, afirma:
"Descentralização, autogoverno, federalismo, estado composto, autonomismo, particularismo, sobem com o astro novo, mas não o são. Uma Catalunha livre poderia ser uniformista, centralizadora, democrática, absolutista, católica, livre-pensadora. Unitária, federal, individualista, estatista, autonomista, imperialista, sem deixar de ser catalã. São problemas internos que se resolvem na consciência e na vontade de um povo, como seus equivalentes se resolvem na alma de um homem, sem que o homem e o povo deixem de ser o mesmo homem e o mesmo povo pelo fato de passar por estes diferentes estados".
Não posso deixar de recordar a indignação com que lia este texto de Prat de la Riba o padre Orlandis, ao dar-mo a conhecer. Contém um juízo desorientado e desorientador que explica, provavelmente, muitas incoerências internas e debilidades nas posturas políticas que vêem nisto uma inspiração de suas atitudes mas, com sua vacuidade e inconsistência, o significativo parágrafo de Prat de la Riba é coerente com a inspiração filosófica que revela ao escrever "a nacionalidade é um 'Volksgeist', um espírito social ou público".
Para os sistemas idealistas em que se plasmaram estes conceitos, este "espírito do povo" é uma mais próxima e profunda expressão do absoluto que a fé ou o culto religioso. Embora talvez Prat de la Riba não fosse plenamente consciente disso, havia-se certamente contaminado e impregnado daquelas deletérias concepções filosóficas.
Explica-se assim que, para negar que a "unidade católica" possa ser admitida como explicação da existência histórica da Espanha, afirme que "é um contra-senso inexplicável fazer da religião católica, que é por sua natureza universal, um elemento de diferenciação dos povos. Por sua origem, por seu fim, por sua doutrina e por sua missão social, a religião católica é incompatível com a ação nacionalizadora que se lhe atribui".
Poderíamos observar aqui o caráter abstrato e, no fundo, racionalista, que atribui à catolicidade da Igreja, que sempre, ao longo de sua história, assumiu e se compenetrou na vida histórica dos povos, de tal maneira que não só os pensadores católicos, apologistas da fé e da Igreja nos distintos povos, mas a própria autoridade hierárquica da Igreja falou freqüentemente e reconheceu secularmente sua presença geradora de tradição católica nos povos.
Faz pouco tempo, João Paulo II chamou a Espanha de "evangelizada e evangelizadora", e nunca a Igreja deixou de proclamar-se "geradora maternal" da vida coletiva e da tradição de povos como Itália, Irlanda, Polônia, França ou Bélgica. A Santa Sé deu o título de Católica à Coroa espanhola, de Cristianíssima à Coroa francesa, de Fidelíssima à Coroa portuguesa, ou de Apostólica à Coroa da Hungria.
O pensamento implícito do estranho juízo de Prat de la Riba se põe mais gravemente de manifesto se continuamos a leitura do parágrafo em que acaba por negar a possibilidade de que a Igreja católica exerça uma ação formadora da tradição de um povo. Escreve Prat de la Riba:
"Causa de individualização social só poderiam ser as religiões antigas, as religiões naturais, que nasciam em cada povo como os outros elementos da vida popular, como o direito, a língua. Não o poderá ser a religião de todas as nações e línguas".
A extravagância destas afirmações, desenfocadas e errôneas, põe também de manifesto que Prat de la Riba não era consciente de que, na filosofia inspiradora do contemporâneo nacionalismo revolucionário, a negação ou total esquecimento da transcendência do religioso sobrenatural sobre a sociedade e a cultura humana se apóia, precisamente, naquela absolutização do imanente. Não se dá conta de que, estendida como "espírito do povo", universalizada e absolutizada nas filosofias idealistas, a nação passa a ter o papel das religiões gentias e a dar desde logo por "cancelada" a economia sobrenatural e divinizante da Igreja católica, maximamente apta para ser orientadora e geradora de culturas humanas.”
(Francisco Canals Vidal, ¿Por qué Descristianiza el Liberalismo?)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A ação descristianizadora do Liberalismo (I)

"A palavra liberalismo tem uma diversidade de acepções, com freqüência não precisadas em sua possível conexão. O liberalismo econômico agora quase define a ideologia das atuais "direitas", que preferencialmente gostam de se chamar de "centro". Liberalismo, no mundo protestante, especialmente anglo-saxão, é sinônimo, no religioso e teológico, do modernismo condenado por São Pio X ou do atual progressismo. No século XIX era uma doutrina que se orientava à separação da Igreja e do Estado, e se realizava no reconhecimento obrigatório da igualdade de direitos de todas as confissões religiosas.
Aqui me ocuparei desta terceira acepção, que foi cronologicamente a primeira a difundir-se e que foi objeto de condenações pontifícias, sobretudo nos pontificados de Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII e São Pio X. Pio IX deu-lhe o nome de laicismo e o condenou igualmente. Ora, tanto a palavra liberalismo como a de laicismo, neste sentido de relação entre o religioso e o político, estão praticamente reabilitadas e elaboradas positivamente, o que é um fator decisivo da atual confusão de idéias. Porque o liberalismo, entendido tal como a Igreja o condena, é contraditório com o que o Concílio Vaticano II, precisamente em sua declaração sobre a liberdade religiosa, nomeia como "a tradicional doutrina católica, que se mantém íntegra, sobre o dever moral dos homens e das sociedades para com a verdadeira religião e a única Igreja de Cristo" (Dignitatis humanae, núm. 1).
Buscando razões em defesa do juízo condenatório da Igreja sobre o liberalismo assim entendido, poder-se-iam aduzir muitos fatos que tornam patente o efeito profunda e extensamente descristianizador da política e da legislação liberais. Nesta mesma associação da Cidade Católica, e aqui em Barcelona, o professor Alsina analisou documentadamente a pavorosa decadência da vida religiosa e da fecundidade das famílias cristãs quanto às vocações sacerdotais e religiosas, que sucederam na Espanha como efeito da transição à democracia, com a passagem de uma legislação que proclamava o dever de regular-se segundo a doutrina católica à afirmação da completa "descatolicização" do Estado espanhol.
Vou-me ocupar, nesta ocasião, a raciocinar sobre o acerto do juízo da Igreja – recordemos que os juízos doutrinais não se derrogam pelo silêncio nem pela linguagem mais ou menos precisa com que se propõem questões no campo político ou sociológico – atendendo a uma fonte filosófica fundamental, inspiradora do Contrato social de Rousseau, orientadora do Iluminismo do século XVIII e que está na origem da "desconfessionalização" da sociedade política nos Estados Unidos: refiro-me à doutrina de Spinoza, o judeu holandês inimizado com a sinagoga de seu tempo e mais amigo dos cristãos liberais que eram os republicanos holandeses, opositores do calvinismo de Guilherme de Orange, o que "salvou" a Inglaterra do catolicismo e instaurou e reforçou a confessionalidade no Reino da Igreja da Inglaterra ratificada em seu protestantismo reformado, quer dizer, calvinista.
Bonifácio VIII promulgou uma bula das mais execradas e desprestigiadas, não só pelos inimigos de fora da Igreja, como também pelos de dentro, por todos os regalistas, galicanos e febronianos e, claro está, pelos católicos liberais. Leiamos o ponto de partida e a definição a que chega a bula de 18 de novembro de 1302:
"A fé nos urge e obriga a crer e manter e confessar que é uma a Santa Igreja Católica e Apostólica, fora da qual não se dá salvação nem remissão dos pecados, que é único o Corpo místico, cuja cabeça é Cristo, que é o Cristo de Deus, em cuja Igreja há um só Senhor, uma só fé e um só batismo" (DS núm. 870).
A conclusão que contém a fórmula definidora diz:
"Assim, estar submetido ao Romano Pontífice é absolutamente de necessidade para a salvação de toda humana criatura. Nós o declaramos, afirmamos e dizemos" (DS núm. 875).
No texto da bula se fala das "duas espadas", a espiritual e a temporal. "A primeira, exercida pela Igreja: a segunda, pelos reis e soldados. Porém, com o consenso e segundo a vontade do sacerdote. Pois é necessário que uma espada esteja subordinada à outra, e que a autoridade temporal se submeta à autoridade espiritual" (DS núm. 873).
O tema das duas espadas foi tirado da passagem evangélica na qual os Apóstolos, durante a Paixão do Senhor, aludiram ter "duas espadas". Segundo o magistral estudo do padre Francisco Segarra, esta argumentação e seu contexto não são o definido infalivelmente. O definido infalivelmente é o universal dever de obedecer à Igreja em tudo que é humano, fundado em que a Igreja é a única Igreja de Cristo.
O rei Jaime I da Inglaterra escreveu o tratado Contra a doutrina católica da autoridade pontifícia sobre os reis. O último ato de juízo condenatório de um rei, e declaratório de que seus súditos não lhe deviam obediência, por opor-se ele à Lei divina, é o de São Pio V contra a rainha Isabel da Inglaterra, em uma bula de 25 de fevereiro de 1570 (veja-se História dos papas, de Ludovico Pastor, versão castelhana, vol. XVIII, Barcelona, 1931, p. 180 ss.). Notemos que é o último papa canonizado anterior a Pio X e recordemos que os ingleses católicos não o receberam com adesão entusiasta. Em resposta ao rei Jaime, escreveu Suárez, em 1613, sua Defesa da fé católica contra os erros da seita anglicana com resposta à apologia a favor do juramento de fidelidade e ao Prefácio admonitório do Sereníssimo Rei da Inglaterra Jaime.
Nesta obra de Suárez, a questão decisiva é tratada em sua parte terceira. O rei Jaime defendia que, sendo o poder real de origem divina, era uma usurpação dos papas romanos pretender que tinham juízo e autoridade sobre o poder real. Suárez argumenta contra o rei Jaime partindo do princípio de que não podiam existir no mundo duas autoridades soberanas entre as quais não houvesse nenhuma ordem nem dependência de uma em relação à outra: "Ou a Igreja tem autoridade sobre os reis no que foi confiado à autoridade da Igreja ou, pelo contrário, dever-se-á reconhecer que a Igreja há de se submeter ao poder real". Se não se aceita a autoridade do Papa sobre os reis, deve-se aceitar a autoridade dos reis sobre a Igreja.
Na verdade, na hostilidade secular contra a doutrina de Bonifácio VIII estava subjacente a vontade de que o poder humano das autoridades dos estados não tivesse que reconhecer nenhuma dependência nem dever de obediência a respeito dos juízos morais que desse a Igreja sobre as leis e decisões políticas. Esta emancipação do homem diante de Deus, realizada a pretexto de independência do político em relação à autoridade religiosa, que foi amadurecendo desde o regalismo através do Iluminismo das monarquias do despotismo esclarecido, não teria no mundo sua culminação definitiva senão no Estado liberal. Na proposição vinte do Syllabus de Pio IX de 8 de dezembro de 1864, lemos:
"O poder eclasiástico não deve exercer sua autoridade sem permissão nem assentimento da autoridade política" (DS núm. 2920).
Na proposição trinta e nove encontramos condenado o seguinte princípio:
"O Estado da República (quer dizer, o Estado de origem democrática), enquanto origem e fonte de todos os direitos, goza de um direito não circunscrito por limite algum" (DS núm. 2939). Recordo que, nos tempos da ascensão do totalitarismo do Estado nazista, comentavam alguns que Pio IX se havia antecipado a sua condenação. O que na verdade fez Pio IX foi condenar muito explicitamente e com perfeito conhecimento de causa o liberalismo de seu tempo, que fixou o princípio que desde então não fez senão se consolidar e desenvolver em suas conseqüências. A democracia absoluta que agora se apresenta a si mesma como a única forma de poder humano de acordo com a natureza do homem se fundamenta em princípios filosóficos dos quais se deduz logicamente a absoluta independência em relação a Deus da vontade política dos homens.
Spinoza sustenta que "sempre que em um Estado se admita o exercício de uma autoridade independentemente do poder político haverá, necessariamente, divisão e luta, como ocorreu com os reis de Israel, aos quais pretendiam julgar os Profetas". E, a partir daí, sustenta que "só o poder político pode ser fonte da vida moral" e que "os que têm o poder soberano são guardiães e intérpretes, não só do direito civil, mas também do sagrado, e que unicamente eles têm direito a decidir o que é justo e o que é injusto, o que seja conforme ou não à piedade. Minha conclusão, finalmente, é que, de modo a manter o direito da melhor maneira possível e assegurar a estabilidade do Estado, convém deixar cada um livre para pensar o que quiser, e para dizer o que pensa" (Tractatus theologico-politicus, prefácio).
O Tractatus theologico-politicus de Spinoza foi escrito em 1670. Foi mais conhecido como o ponto de partida dos critérios metafísicos e epistemológicos que puseram em marcha a leitura racionalista e modernista da Sagrada Escritura, mas exerceu uma inspiração profunda no mais originário e autêntico do pensamento liberal. Parece muito provável que o verdadeiro criador do edifício político americano, Thomas Jefferson, aparentemente "unitário", era, em seu pensamento profundo, um discípulo de Spinoza, porque fazia já tempo que o unitarismo, que se apresentava como "negador da Trindade", havia evoluído na direção do monismo panteísta e naturalista que se havia expressado de forma tão explícita na obra do judeu não crente, mas "filósofo", Baruch de Spinoza.
Os católicos liberais do século XIX punham em dúvida o acerto e a justiça das condenações pontifícias sobre o liberalismo, e inspiraram praticamente a aceitação dos princípios liberais. Se tivessem analisado as fontes filosóficas do liberalismo, teriam compreendido o profundo acerto das condenações da Igreja.
Na verdade, o Estado moderno de inspiração filosófica deriva praticamente do panteísmo que, com formulações de um monismo estático spinoziano ou de um monismo dialético hegeliano, veio a reinar no Ocidente apóstata do cristianismo a partir da Revolução Francesa. A primeira proposição do Syllabus de Pio IX contém uma admirável síntese de todos os erros contemporâneos nesta sua dupla raiz spinoziana e hegeliana. A proposição condenada diz assim:
"Não existe Divindade alguma suprema e sapientíssima e providentíssima, distinta da universalidade das coisas, e Deus é o mesmo que a natureza das coisas, sujeito, portanto, a mudanças, e Deus, na realidade, se forma no homem e no mundo, e todas as coisas são Deus e têm a mesma substância de Deus; Deus é uma e a mesma coisa que o mundo, e, portanto, o espírito é o mesmo que a matéria, a necessidade que a liberdade, a verdade que a falsidade, o bem que o mal, e a justiça que a injustiça" (DS núm. 2901).
Se os católicos liberais tivessem analisado as fontes filosóficas do liberalismo, teriam podido perceber a razão profunda de sua devastadora influência descristianizadora. O venerável bispo Torras y Bages via a revolução liberal como o Contrato social de Rousseau posto em prática. Acertava plenamente, mas podemos acrescentar que o próprio Rousseau, em seu Contrato social, vem a ser um epígono de Spinoza, em todo o sistema de seu pensamento (exposto na Ethica, no Tractatus theologico-politicus e no Tractatus politici).
Desde o naturalismo integral de Spinoza, não tem sentido o livre arbítrio, a consciência do dever, do mérito e do demérito, ou do bem e do mal, pensados como distintos da utilidade ou do desejo ao qual o homem é impelido necessariamente pela natureza. Se proclamamos a necessidade natural de todas as operações do homem, nos livramos do sentimento de culpa pelo remorso. O próprio Freud é spinoziano. Um mistério presente no mundo contemporâneo descristianizado é a freqüência da linguagem moralizadora, condenatória precisamente do cristão tradicional e da ordem natural das coisas – do matrimônio monógamo e indissolúvel entre homem e mulher, da fecundidade contrária ao aborto, da conservação da vida contrária à eutanásia, de toda a autoridade na família e na escola – para cumprir literalmente a profecia bíblica: "Ai dos que ao bem chamam mal e ao mal, bem!""
(Francisco Canals Vidal, ¿Por qué Descristianiza el Liberalismo?)

sábado, 27 de dezembro de 2014

Mons. Richard Williamson sobre o deicídio cometido pelos judeus

“Em seu segundo volume sobre a vida de Jesus, publicado muitos meses atrás, o Papa Bento XVI fez comentários que levaram jornalistas a concluírem apressadamente que não se devia mais apontar os judeus como responsáveis por deicídio, i. e., pelo assassinato de Deus. Pior ainda, a 17 de maio, o Diretor Executivo do Secretariado da Comissão Episcopal de Relações Ecumênicas e Inter-religiosas dos Estados Unidos disse que quem quer que acuse os judeus de deicídio, em qualquer momento da história, deixa de estar em comunhão com a Igreja Católica. Ao contrário do que muitas pessoas hoje querem acreditar, é hora de lembrar, ainda que brevemente, o que a Igreja sempre costumava ensinar sobre o assassinato judicial de Jesus.
Primeiro, o assassinato de Jesus foi verdadeiramente “deicídio”, i. e., assassinato de Deus, porque Jesus foi das três Pessoas Divinas a que, para além de Sua natureza divina, assumiu uma natureza humana. Que é que foi morto na Cruz? Somente a natureza humana. Mas quem é que foi morto na Cruz em Sua natureza humana? Ninguém senão a segunda Pessoa Divina, i. e., Deus. Portanto, matou-se a Deus, e deicídio se cometeu.
Segundo, Jesus morreu na Cruz para salvar-nos a todos nós, seres humanos pecadores, de nossos pecados, e nesse sentido todos os homens foram e são motivo da Sua morte. Mas somente os judeus (líderes e povo) foram os agentes primeiros do deicídio, porque é óbvio pelos Evangelhos que o gentio que mais se envolveu nos fatos, Pôncio Pilatos, jamais teria condenado Jesus à morte se os líderes judeus não tivessem incitado o povo judeu a clamar por Sua crucifixão (Mt. XXVII, 20). Certamente os líderes instruídos foram mais culpados que o povo ignorante, diz Santo Tomás de Aquino (Summa III, 47, 5), mas todos eles bradaram juntos para que o sangue de Jesus lhes caísse sobre si e sobre seus filhos (Mt. XXVII, 25).
Terceiro, pelos menos o Papa Leão XIII considerou existir uma real solidariedade entre os judeus que clamavam pela morte de Jesus e o conjunto dos judeus dos tempos modernos. No seu Ato de Consagração do Gênero Humano ao Sagrado Coração de Jesus, não fez ele com que toda a Igreja, do fim do século XIX em diante, rezasse a Deus para que tornasse os Seus “olhos de misericórdia para os filhos daquela raça, que certa vez foram o povo escolhido de Deus: de há muito que eles clamaram sobre si o Sangue do Salvador; possa agora descer sobre eles um batismo de redenção e vida”?
Mas Leão XIII não está sozinho em observar uma tal continuidade dos judeus ao longo dos séculos. Eles mesmos não exigem hoje a terra da Palestina com o fundamento de lhes pertencer por direito concedido pelo Deus do Velho Testamento? Já existiu sobre a face da terra uma raça-povo-nação que mais orgulhosamente se reputasse idêntica através dos séculos?
Originalmente criada por Deus para ser berço do Messias, recusou-se coletivamente – que infelicidade! – a reconhecê-lo quando ele veio. Também coletivamente, embora sempre existam nobres exceções, eles se mantiveram fiéis àquela rejeição, alterando sua religião da de Abraão e Moisés e do Velho Testamento para a de Anás, Caifás e do Talmude. De maneira trágica, sua própria preparação messiânica dada por Deus levou-os a rejeitarem aquele que consideram como um falso messias. Até sua conversão no fim do mundo, como a Igreja sempre ensinou que lhes acontecerá (cf. Rom. XI, 26-27), parecem estar obrigados a escolherem continuar agindo, coletivamente, como inimigos do verdadeiro Messias.
Como é possível que Bento XVI tenha perdido verdades tão antigas?”
(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, Ancestral Pride)