quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pe. Jean de Morgon: Não ao acordo canônico antes de um acordo doutrinal

“Se Monsenhor Freppel assinalava com razão que o abandono dos princípios conduz inevitavelmente à catástrofe, o cardeal Pie nos deixa uma esperança ao afirmar que um pequeno número de reclamantes é suficiente para salvar sua integridade e manter a oportunidade de um restabelecimento da ordem. Desde o mês de julho de 2012, o capítulo dos superiores da FSSPX parece haver repudiado um princípio que havia mantido firmemente até então, a saber, que não é possível contemplar um acordo prático com o Vaticano, antes que a questão doutrinal se resolva.
No 13 de outubro seguinte, Mosenhor de Galarreta teve por bem nos explicar que:
O que se fez foi voltar a tomar toda a questão doutrinal e litúrgica para fazê-la uma questão prática.
A ordem já não se respeita e não podemos senão temer a advertência de São Pio X:
Se a regra parece um obstáculo para a ação, diz-se que dissimular e transigir facilitam o êxito: então se esquecem as regras seguras, se obscurecem os princípios sob o pretexto de um bem que não é senão aparente. Que restará desta construção sem fundamentos, construída sobre a areia?
O objetivo de nosso estudo é então demonstrar, baseando-nos na Revelação, na Tradição e nas declarações concordantes dos quatro bispos consagrados por Monsenhor Lefebvre junto com este, que o princípio mencionado é absolutamente católico, e não pode sofrer nem o abandono, nem a exceção, sendo querido por Deus mesmo, e não forjado por algum pensador tradicionalista alérgico a qualquer acordo.
I – A Revelação
Tanto no Antigo como no Novo Testamento, é a vontade firmíssima e explícita de Deus que os homens aos quais se digna gratificar com sua doutrina pura e verdadeira se abstenham absolutamente de associar-se com os que professam uma diferente, com risco de prevaricar.
É a primeira recomendação que Ele quer fazer a Moisés, quando conclui a aliança com ele:
Guarda-te de fazer algum pacto com os habitantes da terra em que vais entrar, para que sua presença no meio de vós não se torne um laço. Derrubareis os seus altares, quebrareis suas estelas...” (Êxodo, 34, 12)
Nosso Senhor, por sua vez, freqüentemente advertirá seus discípulos contra o fermento da doutrina dos fariseus e dos saduceus (MT 16,6; Mc 8, 15), contra os profetas falsos vestidos de pele de ovelha (MT 7, 15) que induzirão muitas pessoas ao erro (MT 24, 11) e até os eleitos se isso fosse possível (Mt 24, 24).
Os Apóstolos estarão tão marcados por estas advertências do divino Mestre, que as transmitem com força a seus próprios discípulos:
-“Rogo-vos, irmãos, que desconfieis daqueles que causam divisões e escândalos, apartando-se da doutrina que recebestes. Evitai-os! Esses tais não servem a Cristo nosso Senhor”. (Rom, 16, 17-18)
-“Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado!” (Gal. 1, 9)
-“Se alguém vier a vós sem trazer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis. Porque quem o saúda toma parte em suas obras más”. (2 João 10)
Poderíamos acrescentar outras passagens da Escritura, mas essas são bastante suficientes, estando ditadas pelo Espírito Santo, para convencer-nos que o dever de evitar os fautores da heresia é de direito divino.
II – A Tradição
Os primeiros Padres da Igreja não podiam esquecer estes anátemas doutrinais, e não podem senão repetir em todas as cores a exortação de São Paulo:
Fugi do herege!” (Tito 3, 10)
Fugi dos hereges, eles são os sucessores do diabo que conseguiu seduzir a primeira mulher.” (Santo Inácio de Antioquia)
Fugi de todos os hereges!” (Santo Irineu)
Fugi do veneno dos hereges!” (Santo Antão do deserto)
Não te sentes com hereges!” (Santo Efrém)
E São Vicente de Lérins nos diz:
O Apóstolo ordena esta intransigência a todas as gerações: sempre haverá que anatemizar aqueles que têm uma doutrina contrária à recebida”. É por isso, que no século XIX, Dom Guéranger escreverá a Monsenhor de Astros:
Um dos meios de conservar a fé, uma das primeiras marcas de unidade, é fugir dos hereges”.
Efetivamente, esta “primeira marca da unidade” concerne evidentemente à unidade de fé, a primeira nota característica da Igreja católica, que não pode ter senão “Um só Senhor e uma só fé” (Efésios 4, 5). Esta mesma Igreja adverte solenemente aos futuros subdiáconos assim:
Permanecei firmes na verdadeira fé católica, pois segundo o Apóstolo, tudo aquilo que não provém da fé é pecado (Rom. 14, 23), cisma, estranho à unidade da Igreja”.
Também para melhor compreender não somente a antiguidade, mas sobretudo o caráter absoluto de nosso princípio, deve-se conservar bem gravado em nosso espírito que durante mais de dois mil anos de cisma entre os bizantinos e Roma, jamais, sem exceção, se concluiu um só acordo canônico com as Uniatas antes que houvessem reconhecido a doutrina católica sobre os dogmas controversos (Filioque, Primado do Papa etc).
Isto é o que recordou o Cardeal Ottaviani, Prefeito do Santo Ofício, na véspera do Concílio:
Uma vez reconhecida a verdade, esta verdade sobre a qual a Igreja não pode transigir, todos os filhos que regressem a ela encontrarão esta Mãe disposta a todas as generosidades que Ela pode acordar em matéria de liturgia, de tradições, de disciplina e de humanidade” (Itinéraires nº 70, pág. 6).
III – As declarações de nossos bispos
MONSENHOR LEFEBVRE: “Supondo que Roma nos chamasse, que nos quisesse receber, voltar a falar, então seria eu quem poria as condições. Já não me aceitaria encontrar na situação em que nos deixaram os colóquios. Isso já terminou. Eu colocaria a questão no plano doutrinal. “Estão de acordo com as grandes encíclicas de todos os Papas que lhes precederam? (...) Se não aceitam a doutrina de seus predecessores, então é inútil falar. Enquanto não aceitem uma reforma do Concílio tendo em conta a doutrina desses Papas que lhes precederam, não há diálogo possível. É inútil. As posturas seriam mais claras”. (Fideliter nº 66, nov-dez de 1988)
MONSENHOR WILLIAMSON: “O maior desafio para a Fraternidade nos próximos anos será compreender a primazia da doutrina, de tomar a medida de todas as coisas e de orar em conseqüência. Em nosso mundo sentimental, a tentação constante é a de seguir os sentimentos. Não seguir os sentimentos é o que caracterizou Monsenhor Lefebvre, e sim, neste respeito, nós não o imitamos, a Fraternidade seguirá o caminho da carne, quer dizer, nos braços dos destruidores (objetivos) da Igreja. (...) Doutrina, doutrina, doutrina!” (Angelus Press, 21 de junho de 2008)
MONSENHOR FELLAY: “A clara percepção da questão chave que acabamos de descrever nos proíbe de pôr em um mesmo plano as duas questões. É tão claro para nós que a questão da fé e do espírito de fé é tão primordial, que não podemos contemplar uma solução prática enquanto a primeira questão não encontrar uma segura solução” (...)
“Cada dia nos traz provas suplementares da necessidade de clarificar ao máximo as questões subjacentes (de doutrina) antes de ir mais além em uma solução canônica, que no entanto não nos é desagradável. Mas há uma ordem na natureza, e inverter as coisas nos colocaria inevitavelmente em uma situação insuportável; temos a prova disso todos os dias. O que está em jogo é nada mais nada menos que nossa existência futura
” (LAB nº 73 do 23 de outubro de 2008).
MONSENHOR DE GAGARRETA: “Há evidentemente uma vontade de nos comover, de nos atemorizar exercendo pressão no sentido de um acordo meramente prático, que foi sempre a proposta de Sua Eminência (o cardeal Hoyos). Evidentemente, vocês já conhecem nossa forma de pensar. Este caminho é um caminho morto; para nós, é o caminho da morte. Portanto para nós não é questão de segui-lo. Não podemos nos comprometer a trair a confissão pública da fé. Isto não está em questão. É impossível” (Sermão do 27 de junho de 2008 em Ecône).
Não chegou o momento de mudar a decisão do Capítulo de 2006: Não ao acordo prático sem solução da questão doutrinal” (Informe lido no Capítulo de Albano, 7 de outubro de 2011, difundido por Tradinews).
MONSENHOR TISSIER DE MALLERAIS: “Recusamo-nos a um acordo meramente prático porque a questão doutrinal é primordial. A fé vem antes da legalidade. Não podemos aceitar uma legalização sem que o problema da fé seja resolvido. (...) Trata-se de uma nova religião que não é a religião católica. Com esta religião, nós não queremos nenhum compromisso, nenhum risco de corrupção, inclusive nenhuma aparência de conciliação, e é esta aparência que daria nossa suposta ‘regularização’” (Entrevista a Rivarol do 1º de junho de 2012).
Conclusão
O princípio: “Não ao acordo canônico antes de um acordo doutrinal” é um princípio:
- fundado na Palavra de Deus que nos proíbe formalmente nos associarmos com os que professam uma doutrina diferente da transmitida pela Igreja, “coluna e fundamento da verdade” (1 Tim. 3, 15), em particular por mais de dois mil anos em suas discussões com os cismáticos orientais;
-absoluto, sem sofrer rodeios, redução ou exceção, porque concerne à “ordem da natureza” como justamente escreveu Monsenhor Fellay em outro tempo, e não a um processo convencional.
Em conseqüência. Se é verdade que ninguém se recupera do abandono dos princípios, sobretudo os mais graves porque relacionados à fé, devemos hoje em dia mais do que nunca não somente manter este princípio, mas cuidar para que não seja esquecido, alterado ou evitado, e proclamá-lo, faça chuva ou faça sol, a todas as almas de boa vontade.
Que os Santíssimos Corações de Jesus e de Maria venham em nosso auxílio no verdadeiro combate da fé, e nos guardem sempre em Seu amor!”

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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Brasil merece o totalitarismo

Não sou analista político, não sigo diariamente as movimentações dessa classe de gente parasita, mas certas coisas saltam aos olhos de todos, ou pelo menos dos menos infectados de ideologia, mormente em momentos de transição e crise como este por que hoje passamos. Estas últimas eleições deixaram bastante claros para mim certos pontos que passo a detalhar a seguir.
Em primeiro lugar, o PT não poderá mais ser retirado do poder pela via do voto. Essa era a única ferramenta que se havia deixado meio em neutralidade para disputa com os adversários. Porém, com a invenção das bolsas e a criação de um eleitorado dependente de dezenas de milhões de cabeças, a possibilidade de defenestrar o partido-máfia não existe mais. Isso deve pesar na consciência dos idólatras da democracia, do poder do número e da “vontade popular” rousseauniana. Os petistas continuarão sendo reeleitos enquanto quiserem dar esmolas, enquanto acharem que ainda vale a pena jogar este jogo. Seu sonho é mudar a constituição e ou banir as eleições inteiramente, ou torná-las mera exibição para inglês ver, como acontecia nos países das chamadas “democracias populares” do Leste Europeu; se é que já não são assim, considerando as possibilidades de fraude nas urnas eletrônicas, atestadas por especialistas, e as denúncias recorrentes.
Na democracia há alternância de poder. Doze anos com o mesmo partido na presidência já deveriam soar o alarme para uma inteligência medianamente formada e saudável de que alguma coisa não está funcionando bem. Não se trata mais de democracia, ou ela está nos estertores de morte, pois provou-se que é possível comprar metade de um povo e perpetuar-se no poder.
A frágil democracia brasileira não vai agüentar mais doze anos de PT. Talvez não agüente nem mesmo o retorno de Lula para fechar o ciclo e instaurar o que eles muita vez chamam, em sua perversidade semântica, de “democracia participativa”. Antes que se esgote o planejado ciclo de vinte e quatro anos de Lula-Dilma-Lula que o brasileiro servil e vergonhosamente lhes dará, o país já terá sido completamente dominado e não haverá mais nenhuma reação. Esse golpe será finalizado com a alteração da constituição em pontos chave que a tornarão uma versão brasileira das constituições bolivarianas.
Após o golpe da constituinte, eles poderão desviar todo o dinheiro que iria para as bolsas em direção às contas da Nomenklatura. Toda a oposição terá sido destruída e toda imprensa livre, calada. Não será mais necessário comprar ninguém. Então acontecerá que os piores pesadelos dos que não votavam no PSDB com medo de perder as bolsas e os concursos serão realizados justamente por aqueles em quem constantemente ao longo dos anos votaram, porque já não precisarão desses expedientes para manter-se no poder.
O povo brasileiro, que se destaca no mundo como um dos mais violentos, confirmou que coloca ou mantém essas pessoas no poder, apesar de toda a corrupção comprovada em que se envolveram, porque não lhe interessam os padrões morais de seus representantes, porque admira os criminosos, considera-os mais espertos que se colocaram "além do bem e do mal", e que não é possível governar este país sem corrupção; quase dá a entender que tal comportamento poderia ser descriminalizado. Mas quem faz pouco caso do crime é ele mesmo um criminoso por cumplicidade. Seus heróis são os ladrões e os corruptos. A corrupção não interessa para a maioria, contanto que tenha sua esmola em dia. A eleição mostrou ser para a maioria uma espécie de relação entre senhores e escravos, e escravos voluntários. O senhor ameaça tirar a esmola, ou aterroriza dizendo que o adversário o fará; o povo então vende sua liberdade pela comida. Também isso é sinal do fim da democracia. A “educação revolucionária” do povo, perseguida década após década, atingiu finalmente seu objetivo, convenceu-o de que, se lhe dizem que a corrupção favorece os pobres, então não há nada de errado com ela. Um povo com esse nível moral não merece outro sistema de governo que não o totalitário. Com seus atos pedem e imploram pelo totalitarismo, pelo Grande Irmão que lhes dará sua quota semanal de ração, que lhes tirará o peso da responsabilidade pela própria vida, sem fazerem a menor idéia dos efeitos apocalípticos de sua irresponsabilidade.
Quando a economia entrar em colapso, aqueles que, por interesses meramente pessoais, mesquinhos, umbilicais, ajudaram a manter o partido no poder, que festejaram cada vitória com fogos e buzinas, gritos nas ruas e bandeiras, terão perdido o que justificava sua lealdade e só terão a violência como arma, mas será tarde demais, porque então os instrumentos de alternância política terão sido tão corrompidos que deles só subsistirão simulacros. O Estado terá sido completamente tomado pelo partido. Os mesmos que sempre sustentaram essa máfia, os beneficiários das bolsas e propinas, os idiotas úteis e companheiros de viagem que empurraram o país para o abismo, quando o partido já não precisar mais deles por ter chegado ao controle político total e portanto puder dispensar suas esmolas, voltar-se-ão com fúria contra o partido, mas serão esmagados sem piedade, como sempre costuma acontecer na história do movimento revolucionário.
Com esta eleição, Deus mostrou-se furioso com nosso país, afastou de nós Seu rosto, deixou-nos entregues a nós mesmos bebendo o cálice de Sua ira, para que o povo seja punido com os efeitos de suas próprias escolhas e chegue até as últimas conseqüências do erro assassino no qual gerações insistiram e chafurdaram, mas ainda não conseguiram completamente realizar. Os materialistas dissimulados, por sua vez, os ateus na prática, os hipócritas que lêem sua Bíblia mas votam constantemente naqueles cujo objetivo é a destruição final do Cristianismo, esses não entenderão a mensagem, não aprenderão nada dos fatos, pois dos fatos à mente posta-se o filtro ideológico deturpador e reducionista, a afeição fanática pela Revolução. São os que desprezam o magistério da Igreja, que se desculpam dizendo que o magistério só valeu para sua época, presos a uma camisa de força verbal de interpretação alucinada da realidade, crendo histericamente no que outros lhes dizem, e não no que a realidade abertamente lhes mostra. Deus pedirá contas de todos os seus atos, inclusive de suas escolhas políticas, de alcance geral e, portanto, mais graves. E serão punidos de acordo, pois se não receberam justiça no tempo, recebê-la-ão além do tempo; mas nada será deixado sem a devida paga.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Missa verdadeira somente com doutrina verdadeira

“Querem os católicos verdadeiros a Missa verdadeira. Não lhes basta o sacramento essencialmente válido. É-lhes imprescindível que, qual alimento bem preparado, não apenas se misturem os ingredientes, mas que se perceba o agradável aroma de catolicidade pelo rito católico e nunca pela protestantização modernista que, se bem analisada, não é rito, mas desritualização.
Neste tempo de prolongada e grave crise o fiel corre, porém, o risco de matar sua própria alma ao buscar a Missa verdadeira. É preciso cuidado extremo, o mesmo cuidado que teríamos para rejeitar o alimento envenenado ou estragado. No caso da Santa Missa Tridentina, ela é, via de regra, ontologicamente boa, sacramentalmente válida e ritualmente católica. Mas o Diabo quis atrair às suas mentiras os católicos por meio da própria Missa Tridentina. Ele, o inimigo de Deus, tem conseguido para si sacerdotes até bem intencionados que se dispõem a celebrar ora no verdadeiro, ora no falso rito romano; outros mantêm-se no rito verdadeiro, mas legitimando o direito modernista; finalmente, vêm os piores, que silenciam em si e noutros a condenação ao modernismo e anseiam por colocar-se a serviço de autoridades modernistas, hipocritamente dizendo que não pensam nem fazem nada nessa direção. Esses últimos são os que proíbem os que resistem à Santa Missa verdadeira sem doutrina verdadeira de oferecer o Santo Sacrifício, mesmo privadamente, em suas casas, igrejas, oratórios. Então, se os sacerdotes da Resistência são tratados por uns tais como suspensos de ordens ou mesmo excomungados, como se pretende que um sacerdote da Resistência aceite sem grave preocupação de pastor que os fiéis leigos que o procuram assiduamente assistam e comunguem, ainda que em circunstâncias extraordinárias, mas fora de perigo de morte, nas Santas Missas desses modernistas disfarçados? Afinal, não se dá ou permite a um filho o alimento envenenado, por maior que seja a fome. Pois, se o Santíssimo Corpo do Senhor é bom alimento, não deixará o fiel de receber por isso o eventual mau alimento da ausência de plena comunhão com a verdade expresso nas palavras ou no silêncio omisso do celebrante.
Que os fiéis leigos pensem no alimento que levam para suas capelas particulares e se, depois de nelas acolherem para o oferecimento do Santo Sacrifício algum sacerdote que não acolhe nem visita o sacerdote resistente, podem ainda dizer que estão na mesma comunhão com a verdade em que está este último. As contas, como sabemos, serão prestadas a Deus, no momento que Ele sabe e que pode ser agora.”

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terça-feira, 21 de outubro de 2014

A Síndrome de Esaú do povo brasileiro

“Esta campanha política, relativa à corrida presidencial, apesar de estar se tornando uma disputa acirrada, como não foi vista nas eleições anteriores, em seu conteúdo, porém, não tem sido muito diferente de outras que acompanhamos a cada 4 anos. A tônica principal, de fato, sempre gira em torno de dois temas básicos: economia e corrupção. De alguma maneira, são realmente as duas grandes preocupações do brasileiro e, não coincidentemente, as duas envolvem dinheiro.
O brasileiro, ainda que não esteja entre os cidadãos mais abastados do mundo, valoriza demais sua vida material. Ele é, sem nenhuma dúvida, um consumista. Ele, certamente, mede seu sucesso e seu fracasso pelas conquistas financeiras que obtém.
Não que isso seja um problema, de antemão. A questão é que, diferente de outras nações, que experimentaram a abundância material como consequência da liberdade, o brasileiro está disposto a abandonar a sua, que já não é grande coisa, em favor de uma, ainda que pequena, pretensa prosperidade econômica.
Tanto que não importa o quanto fique claro que o atual governo impõe sobre o país um projeto de poder que beneficia apenas sua rede de conchavos e seus grupos de interesses. Parece que quanto mais se prova que os mandatários do momento fazem parte de uma quadrilha, que tem como uma de suas principais atividades expropriar as riquezas da nação em favor de seu partido, mais algumas pessoas se convencem que eles devem continuar no poder.
E que não venham me dizer que tais pessoas não têm acesso à informação, pois os fatos estão abundantemente sendo divulgados em jornais e na tevê, que alcançam todas as parcelas da população.
O fato é que o brasileiro, em geral, não está muito preocupado com isso. Ele até se incomoda com a corrupção, mas só quando sente que está sendo prejudicado por ela. Se, porém, junto à corrupção vierem benesses estatais que garantam o churrasquinho do final de semana, isso basta para arrefecer muito do descontentamento que poderia surgir.
As campanhas presidenciais giram, de uma maneira ou de outra, em volta do tema financeiro. Isso porque as pessoas têm a convicção que é o dinheiro que resolve todos os problemas de uma nação. Aqueles, no entanto, que valorizam aquilo que há de mais importante sabem que, antes de tudo, a liberdade é a maior riqueza que um indivíduo pode ter. E isso nenhum dinheiro compra.
É uma vergonha, diante dos fatos que têm tomado conta dos noticiários nos últimos anos, que ainda se debata economia. Este já se tornou um assunto menor diante do perigo que o Estado brasileiro está enfrentando. A questão principal é, sem dúvida, a tentativa de tomada do país por um grupo ideológico, que, além de tudo, age como uma máfia.
Quem escolhe um governante porque ele oferece um prato de comida, ainda que isso lhe custe a liberdade, certamente sofre do que eu chamaria de Síndrome de Esaú. No meu caso, porém, ainda que houvesse conquistas econômicas, elas não me convenceriam a querer que tiranos conduzam minha nação. Não troco meus direitos, incluída aí minha liberdade, por um prato de lentilhas.”

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sábado, 18 de outubro de 2014

A sociedade moderna é incapaz de uma verdadeira metanóia

“Em uma passagem do Evangelho de São João, é-nos relatada a bela conversa noturna que Nicodemos mantém com Jesus: ‘Como pode alguém nascer, sendo já velho?’ pergunta Nicodemos. ‘Acaso se pode entrar outra vez no seio da mãe e voltar a nascer?’ E Jesus lhe responde que, com efeito, qualquer homem, não importa quão velho seja, pode voltar a nascer do Espírito. Trata-se de uma das passagens mais inspiradoras do Evangelho, porque nos fala da possibilidade de renovarmo-nos de forma profunda e radical, ressuscitando sobre as cinzas do homem velho. Também é uma das passagens mais definidoras da esperança pregada por Jesus: converter-se é ‘voltar a nascer’; e, uma vez abraçados a essa vida nova, ninguém nos vai pedir contas da vida antiga que decidimos deixar para trás. Não importa o que tenhamos sido, não importa o que no passado tenhamos feito ou deixado de fazer, mas o que fazemos aqui e agora, o que somos a partir deste instante; porque a vida humana está constantemente aberta a um renascimento. Essa é uma idéia de uma grande beleza que ao homem moderno custa aceitar, talvez porque previamente se endeusou: e quem é incapaz de reconhecer seus erros não pode conceber que tais erros possam chegar a apagar-se, sem deixar hipotecas, uma vez que os tenhamos renegado. É deveras esclarecedor comprovar como, em nossa época, muita gente que errou trata de ocultar desesperadamente seu erro; e, quando já não pode fazer nada para continuar ocultando-o, sua vida desmorona por completo: entre as personalidades públicas, tais erros não reconhecidos costumam acabar com carreiras promissoras ou com a condenação ao ostracismo de quem antes havia desfrutado do aplauso do mundo; na vida cotidiana, os consultórios de psiquiatras estão apinhados de pessoas incapazes de reconhecer plenamente o mal que fizeram e de aceitar os efeitos benéficos do perdão.
Mas em que consiste esse voltar a nascer de que se fala nessa passagem evangélica? À conversão os gregos chamavam (e assim aparece designada com freqüência nos textos neotestamentários) metanóia, que significa ‘mudança de mente’, uma mudança radical em nosso modo de pensar e de agir, um encontro com a verdade não só como conhecimento teórico, mas como transformação radical da vida inteira. Naturalmente, tal metanóia não se pode conseguir sem renegar nossos antigos erros. Mas renegar o erro exige coragem, humildade e fortaleza: coragem para julgar em consciência nossa própria vida; humildade para reconhecer o mal que temos causado; e fortaleza para não sucumbir à tentação de voltar a causá-lo. Humildade, coragem e fortaleza, só as pode oferecer a contrição, que é como se chama, ou se chamava, a dor espiritual que nasce de reconhecer o erro e chegar a odiá-lo, com o propósito de não o repetir jamais. Certamente, ainda que detestemos os erros que cometemos, podemos voltar a incorrer neles (já se sabe que o homem é o único animal que tropeça na mesma pedra); mas sem essa dor não pode haver autêntica metanóia. Para abrir-se a uma vida nova, primeiramente deve-se ter valor para odiar a antiga; e renegar os hábitos passados, às vezes inveterados, é talvez o desafio máximo que uma pessoa pode enfrentar.
A necessidade de uma metanóia radical é talvez a mais nobre aspiração de toda pessoa que ainda não tenha extraviado por completo a noção de sua humanidade; mas é também uma obrigação coletiva. Em uma época como a presente, na qual as sociedades afundam por todas as partes, é preciso mudar os costumes e a inteligência das classes governantes, melhorando a fundação das coisas à luz de princípios novos. Mas às sociedades de hoje em dia ocorre o mesmo que ao homem contemporâneo: são incapazes de reconhecer os erros cometidos, e em conseqüência não podem obter os efeitos benéficos do perdão. Essa incapacidade as mantém prisioneiras do mal, incapazes de renegá-lo; isso se percebe muito claramente, por exemplo, nos desejos que todos temos de superar a chamada ‘crise econômica’ que nos atinge... sem renegar os erros que nos levaram a ela; e querendo, além disso, continuar vivendo como fazíamos antes de padecê-la. Essa incapacidade para a verdadeira metanóia, para um voltar a nascer, é conseqüência do endeusamento do homem que se nega a reconhecer sua culpa, que disfarça o mal com a máscara do bem e que, ao fim, se afoga no mal que se tornou seu habitat natural.”
(Juan Manuel de Prada, Volver a Nascer)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Konstantinos Kavafis: O Deus Abandona Antônio

Quando, à meia-noite, de súbito escutares
um tiaso invisível a passar
com músicas esplêndidas, com vozes -
a tua Fortuna que se rende, as tuas obras
que malograram, os planos de tua vida
que se mostraram mentirosos, não os chores em vão.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
diz adeus à Alexandria que de ti se afasta.
E sobretudo não te iludas, alegando
que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
como cumpre a quem mereceu uma cidade assim,
acerca-te com firmeza da janela
e ouve com emoção, mas ouve sem
as lamentações ou as súplicas dos fracos,
num derradeiro prazer, os sons que passam,
os raros instrumentos do místico tiaso,
e diz adeus à Alexandria que ora perdes.


Tradução de José Paulo Paes

sábado, 11 de outubro de 2014

A morte da inteligência

“Todo processo de despersonalização implica uma corrupção maior ou menor do ato próprio da inteligência: conhecer. Em síntese, quanto menos uma pessoa conhece de si mesma e do mundo à sua volta, mais o caráter torna-se híbrido, mais a sua personalidade esfuma-se e mais se reduz a possibilidade de que enxergue a dimensão dos seus próprios atos. Por conseguinte, decai ao mínimo a chance de arrepender-se do que quer que seja.
A razão é simples: o arrependimento não é outra coisa senão a luz da inteligência que põe a nu os erros cometidos no passado. Mas há precondições psicológicas e espirituais para que ele se dê, sendo a primeira delas a inteligência não estar depauperada por conceitos obscuros ou errôneos nem a vontade desgovernada por paixões sem freio, sobretudo as que afetam as instâncias superiores da alma — como o desespero e o medo, por exemplo.
A realidade que os cristãos sempre chamaram de “pecado contra o Espírito Santo” é o signo eloqüente de que a inteligência se perdeu decisivamente e só um verdadeiro milagre poderá restaurá-la, pois, chegada este ponto dramático, a sua tendência é cair numa espiral interminável de autojustificações. E mais: ambientada ao novo estado mental criado de maneira artificiosa e culpável, a inteligência há de tornar-se crescentemente maliciosa — ao ponto de projetar em tudo a maldade à qual sucumbe. Afogou-se no mundo das mentiras em que escolheu acreditar.
Ora, crer nas próprias mentiras é apenas o ponto intermédio de uma personalidade que perdeu a bússola da luz do intelecto natural, como chamava Santo Tomás ao conhecimento espontâneo dos primeiros princípios da razão especulativa. Daí às patologias mais graves é um salto automático, pois a alma vai perdendo o sentido de unidade e se pulveriza em átomos dispersos pelos quais a leitura dos dados provenientes do mundo real se torna problemática, ou mesmo impossível. O homem então vê o que quer, e não o que é: entre o seu universo psicológico interior e o mundo exterior criou-se um abismo, e o primeiro efeito disso é ele tornar-se incapaz de dar testemunho seguro de si mesmo, ou seja, enxergar os motores dos seus próprios atos.
A isto chamamos corrosão da personalidade, geradora de transtornos os mais aflitivos. O indivíduo chegado a este estágio despersonaliza-se porque se tornou incapaz de contemplar-se no espelho da consciência. O drama desta doença pode ser mensurável pelo seguinte: fazer o caminho de ida às coisas e volta a si mesma é a propriedade básica de toda inteligência sã — a “reditio completa” pela qual o homem orienta-se à transcendência e retorna enriquecido à imanência do seu próprio ato de ser. É, em sentido análogo, como o “torna-te o que tu és” do poeta grego Píndaro, repto no qual vem embutida a premissa de que conhecer a si próprio e conhecer o mundo, no caso do homem, são realidades simultâneas e complementares.
Ocorre que o doente do espírito ao qual este breve texto faz referência perdeu a capacidade de descrever-se com mínimo realismo, assim como de descrever o que está à sua volta. Toda a sua vida a partir deste ponto implicará uma espécie de forçosa auto-santificação e de demonização das demais pessoas, tendo por causa central a corrupção da inteligência.
O fato de que esta doença do espírito hoje seja coletiva — e esteja espraiada indiscriminadamente pelo mundo ocidental — indica-nos o seguinte: a inteligência não está mais em perigo de morte, como escrevera o filósofo belga Marcel De Corte no último quartel do século XX. Ela está morta à espera da ressurreição, e se esta ainda for possível passará necessariamente pelo tesouro da filosofia de Tomás de Aquino.
Filosofia esta que não é outra coisa senão o melhor anticorpo para preservar o senso comum imune aos ataques mais insanos de doutrinas filosóficas indignas deste nome.”
(Sidney Silveira, Corrosão da Personalidade, Sintoma de Morte da Inteligência)

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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O perjúrio de Paulo VI

“É necessário saber acolher com humildade e uma liberdade interior o que é inovador; é preciso romper com o apego habitual ao que costumamos designar como as tradições imutáveis da Igreja” (Paulo VI, La Croix, 4 de setembro de 1970).

“Eu prometo não diminuir ou mudar nada daquilo que encontrei conservado pelos meus probatíssimos antecessores e de não admitir qualquer novidade, mas de conservar e de venerar com fervor, como seu verdadeiro discípulo e sucessor, com todas as minhas forças e com todo empenho, tudo aquilo que me foi transmitido. (...) Portanto, nós submetemos ao rigoroso interdito do anátema, se porventura qualquer um, ou nós mesmos, ou um outro, tiver a presunção de introduzir qualquer novidade em oposição à Tradição Evangélica, ou à integridade da Fé e da Religião, tentando mudar qualquer coisa concernente à integridade da nossa Fé, ou consentindo a quem quer que seja que pretendesse fazê-lo com ardil sacrílego” (Juramento de Coroação Papal prestado e depois quebrado por Paulo VI).

domingo, 5 de outubro de 2014

Beleza é inteligibilidade

“A BELEZA é inteligibilidade, acima de tudo.
Todas as suas demais notas, como proporção, harmonia entre as partes do todo, integridade, unidade, etc., dependem deste radical ponto arquimédico cognoscitivo.
Um dos dramas de sociedades decadentes, como a nossa, é não entenderem o esplendor da beleza. É estarem imersas entre coisas belas e, ainda assim, serem apáticas.
Quando o homem se torna impermeável à beleza, é porque o seu espírito morreu. A ressuscitação passa, pois, por uma completa reeducação da inteligência — que precisa abrir os olhos para os entes reais. A começar pela natureza.
Muitíssimo poucas pessoas compreendem que qualquer reforma política está fadada a um fracasso maior ou menor se a sociedade não estiver educada para apreciar o belo, em suas principais instâncias: do belo moral ao belo artístico; do belo político à fonte de todas as belezas — que tem alcance litúrgico e é, pois, sacra.
O que gerou a situação contemporânea foi a corrupção do ótimo ("corruptio optimi pessima est", diz o ditado latino), e o ótimo é o espiritual.
Portanto, mais e melhor faz quem combate a corrupção da religião do que quem combate a corrupção da política.”
(Sidney Silveira, em postagem no Facebook)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Paciência e fortaleza

"A paciência é para Tomás um ingrediente necessário da fortaleza. A causa de que esta coordenação de paciência e fortaleza nos pareça absurda não reside somente no fato de que hoje tendamos a entender mal em um sentido facilmente ativista a essência da fortaleza, mas sobretudo na circunstância de que aos olhos de nossa imaginação a virtude da paciência veio a significar – como antítese do que foi para a teologia clássica – um padecer incapaz de levar a cabo uma discriminação sensata, ávido de desempenhar seu papel de "vítima" consumido pela aflição, desprovido de alegria e de medula e de braços abertos, sem distinção, a todo tipo de mal que encontre pelo caminho, quando não se lança a buscá-lo de iniciativa própria. Mas a paciência é algo radicalmente diverso da irreflexiva aceitação de toda sorte de mal: "paciente não é quem não foge de um mal, mas quem não se deixa arrastar por sua presença a um estado desordenado de tristeza" (2-2,136,4 ad.2).
Ser paciente significa não deixar que sejam levadas nem a serenidade, nem a clarividência da alma pelas feridas que se recebe enquanto se faz o bem. A virtude da paciência não é incompatível com uma atividade que de forma enérgica permanece ligada ao bem, mas justa, expressa e unicamente com a tristeza e desordem do coração" (1-2,66,a ad.2;2-2,128,1). A paciência protege o homem do perigo de que seu espírito seja quebrantado pela tristeza e perca sua grandeza: ne frangatur animus per tristitiam et decidat a sua magnitude (2-2,128). Daí que não seja a paciência o espelho embaçado das lágrimas de uma vida "quebrada" (como talvez possa sugerir a inspeção do que, sob múltiplos aspectos, se mostra e elogia com este nome), mas o rutilante emblema de uma invulnerabilidade última. A paciência é, como disse Hildegarda de Bingen, "a coluna que não se curva diante de nada" (Scivias,III,22). E Tomás, baseando-se na Sagrada Escritura (Lc,21,19) resume a essência com a infalibilidade de sua pontaria: "pela paciência se mantém o homem em posse de sua alma" (2-2,136,2 ad.2)."
(Josef Pieper, as Virtudes Fundamentais)