domingo, 28 de setembro de 2014

Pensar e agradecer

“Aborrece-me sumamente ter de ouvir ministros, professores dos vários graus de ensino, jornalistas, estudantes - eles e elas - a dizer: "Houveram encontros", "Poderiam haver mais possibilidades", "Haviam tantas mulheres que os homens tiveram medo", "Podem haver outros mundos."
Seria preciso perguntar-lhes qual é o sujeito do verbo. Não há paciência!
Apareceram agora os resultados dos exames e, mais uma vez, foi o desastre: a Matemática teve uma ligeira melhoria em relação ao ano transacto, mas, mesmo assim, 64% das notas foram negativas, a média geral das notas de Química foi de 6,9 valores e a de Física, 7,7.
Mas, para mim, o mais impressionante foram os resultados dos exames de Português: nota negativa para metade dos alunos, o dobro em relação ao ano passado. A palavra é mesmo essa: um desastre!
E a mim impressionam-me particularmente os resultados dos exames de Português, porque há muito tenho a ideia de que o problema essencial da Matemática, da Física e da Química é mesmo o português, a língua portuguesa. Porque uma língua é um mundo com uma determinada estrutura. O mundo em português e em alemão, por exemplo, não é exactamente o mesmo - Heidegger chamava a atenção para o facto de, em última análise, a sua filosofia só ter sido possível a partir da língua alemã. George Steiner não se cansa de repeti-lo: "Como Freud nos ensina, é preciso virar os grandes mitos ao contrário, eles dizem o contrário do que parecem dizer. Babel, longe de ser uma punição, é talvez uma bênção misteriosa e imensa. As janelas que uma língua abre dão para uma paisagem única. Aprender novas línguas é entrar em novos mundos."
Cá está: quem não domina uma língua - no nosso caso, o português - que mundo tem? Qual é o seu mundo e, sobretudo, qual é a estrutura de mundo que possui? Como pode entrar na Matemática, na Física ou na Química sem a língua que lhe dá um mundo e uma estrutura de mundo?
Sinceramente, gosto de ser fiel ao preceito: ne sutor ultra crepidam - o sapateiro não vá além da sandália! Por isso, peço a compreensão do leitor. É que gostaria de dizer que não há possibilidade de Portugal sair do marasmo e mesmo da pobreza crescente sem forte investimento na educação. Mas, quando digo investimento, não me refiro apenas ao investimento financeiro, porque o que está sobretudo em causa é a mudança de mentalidades e dos métodos de trabalho e inteligência e esforço.
Tive a sorte de ter tido excelentes professores. Devo, porém, acrescentar que talvez aquele a quem mais devo é ao professor da escola primária, como então se dizia. Era o senhor Amadeu dos Carvalhos (Carvalhos é o lugarejo). Foi ele que, durante os três anos da tal escola primária, me ensinou a ler e me introduziu na distinção entre um "que" relativo e um "que" integrante, me explicou como se dividem orações, me obrigou a fazer cópias e a escrever todas as semanas pequenas "redacções", que ele corrigia, ensinando depois um modo melhor de pegar no assunto.
Julgo que é isso que é preciso: ler, ler muito - afinal, ler vem do grego legein, através do latim legere, e em conexão com legein (dizer, reunir) está o Logos, a razão, significando também palavra, argumento, ordem, relato -, aprender a dividir orações, escrever composições literárias - haverá modo melhor de abrir à investigação e obrigar à exposição lógica de um tema, com uma introdução, um desenvolvimento argumentado e uma conclusão? Mas quem estará disposto a corrigir, a dar sugestões outras, todas as semanas?
Voltando aos erros do princípio - "Houveram encontros", "Poderiam haver mais possibilidades" -, o que se passa é que o sujeito é um singular indefinido: "ele" houve encontros, "ele" poderia haver mais possibilidades...
O francês explicita: il y a (há), il y avait (havia) - "ele tem aí", "ele tinha aí". O alemão também é explícito e, na explicitação, é muito interessante: es gibt (há), es gab (houve, havia) - "isso dá", "isso deu, dava". Por exemplo, es gibt Sterne (há estrelas): "Isso dá estrelas". Segundo a língua alemã, na raiz do mundo, há um Dar originário, que dá tudo o que há. Dá sóis, dá animais e ervas, oceanos, dá homens, mulheres, crianças, jovens, dá músicas, belezas antigas e novas...
O que é o Ser? É Dar. Para os crentes, Deus é Dar, esse Dar originário que põe no ser tudo o que há. E, como diz Miguel Baptista Pereira, à maneira de quem dá generosamente, esconde a mão.
Por isso, há o que há e ninguém O vê. Então Heidegger associava denken e danken: pensar e agradecer.”
(Anselmo Borges, 'Têm Havido' Muitos Erros)

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O propósito do ensinamento infalível da Igreja

“Como sabia Atanásio que tinha razão? Sabia-o, porque se agarrou firmemente à definição infalível, sem se importar com o que pudessem dizer as outras pessoas. Nem todo o estudo do mundo nem os altos cargos podem sobrepor-se à verdade de um único ensinamento católico infalivelmente definido. Até o mais humilde dos Fiéis, ancorado a uma definição infalível, terá mais sabedoria que o teólogo mais “ilustrado” que a negue ou a corrompa. Este é todo o propósito do ensino da Igreja infalivelmente definido para nos tornar independentes das opiniões de simples homens, por mais estudiosos que sejam, por mais elevados que sejam os cargos que ocupam.”
(Pe. Paul Kramer, The Devil’s Final Battle)

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Padre Jean de Morgon: A Resistência é uma questão de princípios

“São Paulo nos disse, na Epístola aos Gálatas, que Se alguém pregar um evangelho diferente do que haveis recebido, seja anátema. Portanto, não é possível estar em paz com alguém que tem outra doutrina, outro Evangelho. Permitam-me então partir desta palavra de Deus para tratar de aplicá-la à situação atual, de hoje.
Devemos ter a preocupação de pregar a palavra de Deus, a Verdade, e aplicá-la ao tempo presente. Creio que vocês estejam a par dos acontecimentos que abalam o mundo da Tradição. Se não estão, comunico-lhes rapidamente. Alguns sacerdotes deixaram a Fraternidade e também comunidades amigas, as quais tomaram distância das autoridades da Fraternidade.
Tenho a permissão de meu superior de pregar hoje sobre este tema, de explicar-lhes por que esta divisão. É muito importante compreender, pois esta divisão visível, sensível, é resultado de uma divisão muito mais profunda, mais grave, sobre a qual quero falar. É uma divisão dos princípios. É muito importante compreendê-lo, não é uma divisão de pessoas, é uma questão de princípios.
À saída da Missa, vocês encontrarão cópias de um texto que escrevi há algum tempo. Não está assinado, mas fui eu quem o redigiu e assumo a responsabilidade.
Na primeira parte quero demonstrar que nós devemos ser pessoas de princípios. Na segunda parte, quero demonstrar-lhes que se depois de cinqüenta anos nós estamos na Resistência, no combate pela Fé e a Tradição, é porque somos homens de princípios; e em terceiro lugar quero aplicar isto ao que ocorre atualmente; há um problema de princípios na Tradição.
Primeiro ponto: Devemos ser pessoas de princípios.
Baseamo-nos nos ensinamentos do Papa Pio IX, em 1871 disse aos franceses que, desde a Revolução, já não têm a bênção de Deus pois alteraram os princípios. Depois São Pio X em sua encíclica Pascendi que disse que quando se alteram os princípios por menos que seja, as conseqüências são enormes. Depois o Papa Pio XII, recebendo os franceses, disse-lhes que a França não se levantará até que os católicos sejam homens de princípios, homens de doutrina, homens com formação.
Depois citarei o grande Cardeal Pie, que fez um sermão para explicar a seus diocesanos que a Igreja sempre foi intransigente com os princípios, e tolerante na prática com as pessoas. E o mundo, os liberais, são totalmente o contrário: São tolerantes com os princípios e intolerantes na prática. Isto é o que explica o Cardeal Pie.
E Monsenhor Freppel diz que quando abandonamos os princípios, é a ruína. Eles também nos dizem que todas as revoluções não se fazem pelas pessoas, mas que são batalhas pelos princípios.
Portanto, devemos ser homens de princípios, os Papas dizem, a Igreja diz. Se somos homens de interesse, se colocamos os princípios embaixo de nós, de nossos interesses, então vamos à catástrofe, não estamos fazendo a vontade de Deus.
Os princípios não são obrigatoriamente dogmas de fé. Mas se não os respeitamos, há graves conseqüências. Na França e na Inglaterra há um princípio para conduzir em um mesmo sentido pela rua. Embora na Inglaterra conduzam pela esquerda e nós, pela direita. Mas o princípio é o mesmo. E se não queremos respeitar esse princípio, vamos à catástrofe. Assim são os princípios, não necessariamente são dogmas de fé, mas é um princípio que se não respeitamos, vamos à catástrofe, ao acidente.
Segundo ponto: Quero demonstrar que na Tradição, na Resistência que levamos a cabo apesar de nós, resistência ao Papa, aos bispos, é porque é uma questão de princípios. Não estamos contra o Papa, não estamos contra os bispos, pelo contrário, estamos contra seus falsos princípios. Sim. E dou-lhes um exemplo para compreender rapidamente: O Concílio Vaticano I impôs um princípio: Tudo aqui embaixo está ordenado para a glória de Deus. Princípio que é dogmático, está na Sagrada Escritura. O Vaticano I não inventou nada declarando isto. O Vaticano I só recorda o princípio de que tudo aqui embaixo está ordenado e foi criado para a glória de Deus. Mas o Vaticano II colocou outro princípio: Tudo aqui embaixo está ordenado para o homem. Impuseram outro princípio. E Monsenhor Lefebvre, o Padre Calmel, e outros, não aceitaram este novo princípio. Queridos fiéis, dirijo-me aos mais antigos na Tradição dentre vocês, vocês não aceitaram o novo princípio tampouco, pois a nova religião que ordena tudo ao homem ocasionou que vocês se surpreendessem quando, chegando à sua igreja, já não viram o Sacrifício da Missa, e seu sentido católico, inclusive sem conhecer o princípio, fez com que não quisessem voltar à nova missa. Foi graças a estes pioneiros na Tradição que estamos no bom combate pela Fé; se não fosse por Monsenhor Lefebvre e tantos outros, não estaríamos aqui. E eles foram homens de princípios, que não quiseram transigir. Vocês devem saber que Monsenhor Lefebvre não quis nenhuma vez em sua vida celebrar a nova missa. Foi pressionado por alguns, mas Monsenhor era um homem de princípios e se essa missa é má, ele sempre disse: “Não, eu não a vou celebrar!”, nem uma só vez o fez. Se Monsenhor Lefebvre tivesse sido um homem de interesse, teria dito: podemos resolver as coisas, estas pessoas são muito amáveis, elas me darão uma capela, vamos poder resolver as coisas. Outro exemplo: quando o rei da Inglaterra quis se divorciar, o Papa lhe disse que não, não podia se divorciar. O Papa teria podido dizer que sim, é um rei católico, a Inglaterra continuará sendo católica etc. Mas não, não era possível, e como resultado o rei se separou da Igreja e deu-se o cisma. Mas é uma questão de princípios, não podemos fazer um mal para conseguir um bem, disse São Paulo. Não podemos deixar de lado um princípio querido por Deus por um interesse passageiro ou particular contra o bem comum.
Podemos citar muitos outros exemplos. Agora resumo o segundo ponto: Os antigos foram fiéis aos princípios e graças a eles estamos aqui, lutando o bom combate.
Terceiro ponto: Sua aplicação na atualidade.
Onde se situa o problema? Onde se situa a divisão? Não é uma questão de sacerdotes ou de comunidades religiosas amigas. A divisão está nos espíritos em nosso mundo da Tradição. Nos priorados, nos conventos, está nos espíritos, os quais professam um princípio que mantiveram por muitos anos, que Monsenhor Lefebvre nos legou, e agora este princípio já não está mais, e este é o problema. Agora, qual é este princípio? É o princípio de que não podemos firmar um acordo prático com as autoridades romanas se antes não estamos de acordo sobre a doutrina, se não professamos a mesma Verdade. E este é um princípio católico. Vejam as cópias que coloquei à sua disposição, leiam-nas, ali demonstro que é um princípio católico fundado na Sagrada Escritura, nos Padres da Igreja, fundado também na prática da Igreja, a qual é a atitude do Papa diante, por exemplo, dos ortodoxos que, depois do grande cisma, discutiram com Roma para voltarem a se reunir com um acordo prático, mas a Igreja sempre insistiu na questão da doutrina. Sempre. O Primado do Papa e o Filioque. E os acordos que houve com alguns ortodoxos gregos ou russos, eles se tornaram católicos, Roma nunca transigiu com a doutrina. Nunca. Roma sempre foi muito firme na doutrina. Primeiro a doutrina e depois as questões práticas, a questão litúrgica, por exemplo. Mas na Fé não se transige. A Igreja é de fato intolerante com a doutrina, é a Fé, ela não nos pertence, é um depósito que recebemos e não temos direito de tocá-lo. Nem sequer o Papa.
Então, nosso problema atual. Durante anos, e até as consagrações episcopais, Monsenhor Lefebvre buscou as discussões com Roma. Desde 1975, depois da condenação injusta – e nula – de Roma à FSSPX, até 1988, Monsenhor Lefebvre era chamado a Roma e discutia – sobre doutrina. Depois quis um acordo prático cuja assinatura retirou no dia seguinte. Então por isso se pode citar Monsenhor no sentido de ir a Roma, de fazer a experiência da Tradição etc. Mas deu-se conta – inclusive o disse – que havia ido demasiadamente longe com o Protocolo de acordo de 1988, foi muito longe pois transigiu na doutrina, colocou a prática primeiro, ele reconheceu. E depois afirmou que se fosse ter novos colóquios com Roma, era ele quem colocaria as condições (Fideliter 66). Portanto, a posição de Monsenhor Lefebvre desde as consagrações até sua morte é que por princípio diria a Roma se concordava com as encíclicas dos Papas. Dir-lhes-ia: “Está de acordo com esta encíclica? Quanta Cura, Mortalium Animos, etc. etc. etc. Está de acordo com as encíclicas de seus predecessores? E a segunda condição que é muito importante: Está de acordo com reformar o Vaticano II com base nestas encíclicas? Porque o Vaticano II diz o contrário de Mortalium Animos, por exemplo. Está de acordo não somente com a doutrina de seus predecessores, mas também mudar ou fazer retornar o Vaticano II sobre esses pontos principais? Eu não invento nada, está em Fideliter 66. E outras declarações de Monsenhor Lefebvre, por exemplo em Flavigny: Não podemos nos entender até que tenham recoroado Nosso Senhor, que afirmem que Ele deve reinar na sociedade.
Retenhamos então, queridos irmãos, que Monsenhor Lefebvre – depois das consagrações – até sua morte se manteve firmemente neste princípio: Eu colocaria minhas condições – a doutrina. Os ensinamentos dos papas: estão de acordo ou não? Se não estão, inútil dialogar. Isto está escrito em Fideliter 66. Inútil discutir. Inútil! Se não estamos de acordo sobre a doutrina, inútil falar da questão prática. Isto é o que Monsenhor Lefebvre nos legou. E nosso mundo da Tradição sempre esteve perfeitamente unido enquanto este princípio se manteve.
Nas cópias que lhes ofereço se encontram as declarações dos cinco bispos que defendem este princípio. Claramente, Monsenhor Fellay em uma carta aos amigos e benfeitores, em outubro de 2008, afirma este princípio na ordem da natureza: “Mas há uma ordem da natureza, e inverter as coisas nos colocaria inevitavelmente em uma situação insuportável; temos a prova disso todos os dias. O que está em jogo é nada mais nada menos que nossa existência futura.”
Desgraçadamente, depois de algum tempo, depois de terminar com as discussões romanas, vemos, constatamos como pouco a pouco as autoridades da Fraternidade abandonaram este princípio. Digo-o sem zelo amargo, digo-o pacificamente, estou disposto a assumir as conseqüências do que digo, e não podem discutir comigo pois isto é público. Primeiro começou Monsenhor Fellay pouco a pouco. No Canadá colocou como exemplo os ortodoxos, que fizeram acordos sobre a questão do matrimônio etc. Então para Monsenhor Fellay há exceções aos princípios e pode-se transigir. Mas o assunto do matrimônio dos ortodoxos não é questão de fé, é questão de disciplina, completamente diferente. E Monsenhor de Galarreta, nessa conferência que deu em 13 de outubro de 2012 em Villepreux. Ele disse que era uma questão prática, que todos deveriam estar juntos e que podemos sim contribuir com algo, continuaremos o bom combate no interior, como uma ponta de lança no interior, combateremos do interior. E Monsenhor Tissier em uma conferência recente em Toulon disse que Monsenhor Lefebvre sempre buscou um acordo prático. Eu lhe escrevi dizendo-lhe que é certo que antes das consagrações, há citações de Monsenhor Lefebvre neste sentido, mas depois das consagrações deixou bem claro o princípio que se encontra em Fideliter 66: Serei eu quem colocará as condições, etc. Em setembro de 2013, me respondeu, tenho a carta, e me disse: Monsenhor Lefebvre não era perfeito.
Eu não estou contra ninguém. Não estou contra Monsenhor Fellay, nem contra Monsenhor de Galarreta ou Tissier, são bispos, eles me ordenaram sacerdote, mas o que eu digo são coisas públicas, estão publicadas, o do Canadá, de Villepreux, de Toulon, é público. O que quero é que vocês compreendam o problema que há neste momento. Há uma divisão nos espíritos. Este princípio, que se manteve durante muitos anos, agora foi abandonado. Em 2006, a Fraternidade fez um Capítulo geral onde reafirmou solenemente este princípio. E em 2012, o abandonou. Colocou suas condições nas quais se contempla o acordo prático. E Monsenhor Fellay escreveu a Bento XVI em 16 de junho de 2012 onde deixa de lado os problemas doutrinais que não se resolveram, façamos um acordo prático e depois veremos os problemas doutrinais. E Monsenhor Fellay disse a Bento XVI que tinha a intenção de continuar neste caminho. No 2 de julho seguinte há uma reunião de superiores de religiosos em Paris com Monsenhor Fellay e Monsenhor de Galarreta e os padres dominicanos perguntaram a Monsenhor Fellay: Monsenhor, não pode retornar ao princípio do capítulo de 2006? E respondeu: Não, não. Isso já é passado. Quatro anos antes havia dito que era da ordem da natureza, para a qual não há exceção possível.
Este é então, estimados irmãos, o problema atual. Quis que o compreendessem, não procurei tomar partido nem atacar as pessoas, dei nomes, mas são coisas públicas. Peço que meditem sobre estas coisas para que cada um de nós, em consciência, veja qual é a vontade de Deus neste assunto. Isto é o mais importante: Qual é a vontade de Deus neste assunto.
Estamos em uma guerra de princípios, e o mais importante, o primordial é que se dêem conta que todas as revoluções se fizeram sobre os princípios.
Então os sacerdotes estamos diante de um grave problema de consciência, como disse Monsenhor de Galarreta no Capítulo de Albano em 2011: se abandonarmos este princípio, haverá um grande problema de consciência para os sacerdotes. Ele avisou. Desgraçadamente o que vemos hoje, esta separação dos sacerdotes, é porque estes sacerdotes têm um grave problema de consciência e não são os únicos. Que devo fazer neste momento?
Convido-os a rezarem muito, para que sejamos fiéis a este princípio, o qual estou convencido que vem da vontade de Deus, nesta crise da Igreja quanto a nossas relações com Roma.
A condenação do livro do Padre Pivert é porque ele defende o antigo princípio. Não há que buscar outras causas, é porque defende o princípio que tivemos durante 25 anos e que agora foi abandonado.
Estimados fiéis, espero ter falado em conformidade com Deus. Espero não ter causado nenhuma inquietação em nenhuma alma, ao contrário, deve haver paz. Se estamos convencidos da vontade de Deus, só podemos estar em paz. Inclusive se estamos nas piores situações. Pensemos na Santíssima Virgem ao pé da Cruz, Stabat Mater. Ela não entrou em pânico, estava tranqüila apesar da tortura de seu Filho, seu Coração de Mãe Imaculada, que terá sentido? Ela estava em paz. Não soframos com esta situação na Tradição. Peçamos à Santíssima Virgem estar como Ela ao pé da Cruz, tranqüilos e fazendo a vontade de Deus. Ela esteve tranqüila na Cruz pois sabia que essa era a vontade de Deus. E isso foi suficiente para que Ela estivesse em paz. Peçamos essa graça a Nossa Senhora.”

http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pio VI e os expedientes desonestos dos inovadores

“Eles conheciam a capacidade dos inovadores na arte do engano. Para não chocar os ouvidos dos católicos, os inovadores buscaram esconder as sutilezas de suas manobras tortuosas usando palavras aparentemente inócuas que lhes permitiriam insinuar o erro nas almas da maneira mais gentil. Quando a verdade já estivesse comprometida, eles poderiam, com suaves mudanças ou adições na fraseologia, distorcer a confissão da fé que é necessária para nossa salvação, e com erros sutis levar os fiéis à danação eterna. Essa maneira de dissimulação e mentira é maligna, independentemente das circunstâncias sob as quais seja usada. Por muito boas razões não pode ser tolerada em um sínodo cuja principal glória consiste acima de tudo no ensinamento da verdade com clareza e exclusão de todo perigo de erro.
Ademais, se tudo isso é pecaminoso, não pode ser desculpado na maneira como se vê sendo praticado, sob o pretexto errôneo de que as afirmações aparentemente chocantes em certo lugar são depois desenvolvidas segundo linhas ortodoxas em outros, e mais além até corrigidas; como se permitir a possibilidade de tanto afirmar como negar uma proposição, ou de fazê-la depender das inclinações pessoais do indivíduo, não tivesse sempre sido o método fraudulento e insolente usado pelos inovadores para estabelecer o erro. Pois tanto permite a possibilidade de promover o erro como de escusá-lo.”
(Pio VI, Auctorum Fidei)

terça-feira, 16 de setembro de 2014

As origens dos Black Blocs

“"Muitos dos jovens que estão usando essa estratégia da violência nas manifestações vieram das periferias brasileiras. Eles já são vítimas da violência cotidiana por parte do Estado e por isso os protestos violentos passam a fazer sentido para eles." Rafael Alcadipani da Silveira, autor do diagnóstico que equivale a uma celebração do vandalismo, não é um músico punk, mas um docente da FGV-SP. O seu (preconceituoso) raciocínio associa "violência" a "periferia" – como se esse sujeito abstrato (a "periferia") fosse portador de uma substância inescapável (a "violência"). Por meio do conhecido expediente de atribuir a um sujeito abstrato (a "periferia") as ideias, as vontades e os impulsos dele mesmo, Silveira oculta os sujeitos concretos que produzem um "sentido" para "protestos violentos". Tais sujeitos nada têm que ver com a "periferia": são acadêmicos-ativistas engajados na reativação de um projeto político que arruinou a vida de uma geração de jovens na Alemanha e na Itália.
No DNA humano estão inscritas as "pegadas" da evolução dos seres vivos. Nas obras de arte encontram-se os sinais de uma extensa cadeia de influências que as interligam à história da arte. Similarmente, pode-se identificar nos textos políticos uma genealogia doutrinária, que se manifesta em modelos argumentativos típicos e expressões estereotipadas. O professor da FGV menciona a "violência cotidiana por parte do Estado". Nas páginas eletrônicas dos Black Blocs pipoca a expressão "Estado policial". Bruno Torturra, o Mídia Ninja ligado a Marina Silva, definiu os Black Blocs como "uma estética" e defendeu a "ação direta", desde que "dirigida aos bancos". Pablo Ortellado, filósofo e ativista, elogiou a "ação simbólica" de destruição de uma agência bancária, que, interpretada "na interface da política com a arte", simularia a ruína do capitalismo. Eu já li essas coisas - e sei onde.
Tudo isso foi escrito na década de 1970 pelos intelectuais italianos que lideraram os grupos autonomistas Potere Operaio, Lotta Continua e Autonomia Operaia. Eles mencionavam as qualidades exemplares da "ação direta" e a eficiência da "violência simbólica". Toni Negri pregava a violência como ferramenta para defender os "espaços" criados pelas "ações de massa" e exaltava o "efeito terrível que qualquer comportamento subversivo, mesmo se isolado, causa sobre o sistema". Avançando um largo passo, Franco Piperno clamava pela "combinação" da "potência geométrica da Via Fani" (referência ao sequestro de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, em Roma, no 16 de março de 1978) "com a maravilhosa beleza do 12 de março" (alusão ao assassinato de um policial, em Turim, pelo grupo extremista Prima Linea, em 1977).
Depois do assassinato de Moro, Negri e Piperno foram processados e injustamente condenados a cumprir sentenças de prisão, que acabaram sendo revertidas. Intelectuais, de modo geral, não sujam as próprias mãos. Os líderes autonomistas não integravam as Brigadas Vermelhas ou a Prima Linea - e, portanto, não deram as ordens que resultaram em atos de terror. Eles apenas ensinaram a seus jovens seguidores, alguns dos quais viriam a militar nas organizações terroristas, que a violência é necessária, eficaz e bela. A responsabilidade deles não era criminal, mas política e moral, algo que jamais tiveram a decência de reconhecer.
Onde fica a fronteira entre a violência "simbólica" e a violência "real"? Na noite de 2 de abril de 1968 bombas incendiárias caseiras explodiram em duas lojas de departamentos de Frankfurt, que já estavam fechadas. A ação pioneira do grupo Baader-Meinhoff, inscrita "na interface da política com a arte", foi cuidadosamente planejada para não matar ninguém. Era a violência "só contra coisas", não "contra pessoas", na frase de Ortellado para justificar as ações dos Black Blocs. O primeiro cadáver do Baader-Meinhoff, um guarda penitenciário, surgiu na operação de resgate de Andreas Baader, em maio de 1970. Depois, vieram outros cadáveres, de chefes de polícia, juízes, promotores ou empresários. Tais personalidade seriam "símbolos" do "sistema" - isto é, segundo uma interpretação possível, "coisas", não "pessoas".
A tragédia alemã precedeu a tragédia italiana, mas não a evitou. No "Outono Alemão" de 1977, um jovem radical desiludido escreveu uma carta amarga, irônica, indagando sobre os critérios para decidir quem tinha mais responsabilidade pela opressão capitalista - e, portanto, deveria ser selecionado como alvo. "Por que essa política de personalidades? Não poderíamos sequestrar junto uma cozinheira? Não deveríamos pôr um foco maior nas cozinheiras?". Os nossos alegres teóricos dos Black Blocs aplaudem o incêndio "simbólico" de uma agência bancária, mas ainda não se pronunciaram sobre o valor artístico da vandalização de edifícios empresariais, shopping centers, delegacias, palácios de governo ou residências. Por que esse "foco" nos bancos?
Eugênio Bucci - ele também! - usou a palavrinha "estética" quando escreveu sobre a suposta novidade do "esporte radical e teatral de jogar coquetel molotov contra os escudos da tropa fardada". Não há, porém, novidade. Ortellado publicou um artigo sobre as fontes da "tática" dos Black Blocs, evidenciando suas conexões com os movimentos autonomistas de "ação direta" na Alemanha e na Itália dos anos 70 e 80, cujos destacamentos de choque servem de modelo aos nossos encapuzados. Ele não diz com clareza, mas as teses políticas que reativam o culto da manifestação violenta se originam precisamente de alguns dos acadêmicos-ativistas daquele tempo, hoje repaginados como mestres grisalhos do movimento antiglobalização.
Os Black Blocs anunciam um "badernaço nacional" para o 7 de Setembro. Mas o "badernaço" intelectual começou antes, na forma dessas piscadelas cúmplices para idiotas vestidos de preto que rebobinam um desastroso filme antigo.”
(Demétrio Magnoli, Nas Franjas do Black Bloc)

http://www.estadao.com.br

sábado, 13 de setembro de 2014

A confissão de um banqueiro judeu

“Tenho guardada na memória a conversa de um desses áugures que foi meu vizinho de mesa em um daqueles jantares internacionais... Ele havia se tornado um diretor de um grande banco de New York, um dos que estavam financiando a revolução bolchevique... Um dos convidados perguntou-lhe como era possível que a alta finança protegesse o bolchevismo, um sistema hostil... ao setor bancário... Nosso amigo, que encabeçava uma missão para alimentar os famintos, esvaziou um grande copo de Tokay, parou por um instante, sorveu uma longa baforada em seu charuto enorme... e então disse:
‘Os que se impressionam com nossa aliança com os soviéticos esquecem que a nação de Israel é o mais nacionalista de todos os povos, pois é o mais antigo, o mais unido e o mais exclusivo. Existiu através dos séculos apesar de todos os obstáculos sem qualquer território que lhe desse força. Assim como o papado, é ecumênico e espiritual. Seu reino é deste mundo.
‘É por isso que é o sal da terra, apesar de ser, como dizem nos bulevares, le plus dessale dos nacionalismos, [i.e. ameno] o que leva o mundo a decantá-lo e a espoliá-lo.
Quando digo ‘espoliar’, quero dizer que o vinho de nosso nacionalismo é o mais potável do mundo; tem o melhor buquê, e as nações do mundo o absorvem com a maior facilidade, com prazer e sem dor de cabeça pela manhã.
‘Mas, voltando ao tema do sal, você conhece o ditado dos homens que salgam bacalhau? Sal demais corrói a carne, muito pouco a deixa apodrecer. Esse preceito pode com justiça ser aplicado tanto à mente humana como aos povos da terra. Nós, judeus, aplicamo-lo sabiamente como deve ser aplicado, sendo o sal o emblema da sabedoria. Misturamo-nos discretamente com o pão que os homens consomem.
‘Ministramo-lo em doses corrosivas apenas em casos excepcionais, quando é necessário se livrar dos escombros de um passado imoral, como no caso da Rússia Czarista. Isso lhe explica um pouco por que o bolchevismo agrada aos nossos olhos; é uma banheira de salga admirável para corroer e dissolver, mas não para preservar...
‘Somos uma Liga das Nações que contém os elementos de todas as outras. É o fato que nos qualifica a unir as nações ao nosso redor. Somos acusados de ser o agente que as dissolve. É apenas em pontos que são impenetráveis a essa síntese de elementos nacionais, da qual a nossa é tanto exemplo como meio, que agimos como solvente.
Não quebramos a superfície a não ser para despertar nas profundezas as afinidades que não se reconhecem ainda a si mesmas. Não somos o máximo divisor comum das nações exceto para nos tornarmos seu maior federado comum. Israel é o microcosmo e o germe da Cidade do Futuro.”
(Conde de Saint Aulaire, Geneva versus Peace)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O discernimento da subversão

"Em sua última carta aos amigos e benfeitores, o superior do Seminário de Winona da FSSPX, pe. Le Roux, tece considerações interessantes a respeito da oposição entre subversão e tradição, considerando a primeira não somente como ferramenta, mas como núcleo da Revolução, a qual, por sua vez, institucionaliza o ódio à autoridade.
Estas considerações, no entanto, vão logo servir ao intento principal da carta, que é também o intento dos dirigentes atuais do referido instituto, ou seja, o reforço da própria autoridade pela estigmatização dos resistentes à nova orientação, e isto simplesmente negando a existência desta última. O autor da carta não titubeia em afirmar: “Algumas pessoas, enganadas por suspeitas repetidas e ampliadas pela internet, contraíram um medo irracional de uma suposta traição, inexistente e nunca provada (…). Seus ataques difamatórios (…) são somente ferramentas do espírito de subversão e revolução”.
Sim, querem ganhar pelo cansaço. Mas não nos cansemos. Recordemos então, brevemente, o motivo essencial que levou, leva e levará numerosos sacerdotes, fiéis e comunidades amigas a tomar distância do antigo carro-chefe da Tradição: a sua nova orientação. Em direção a que? À Igreja Conciliar. A prova principal: a resolução do capítulo de 2012, com suas 6 condições “roda-quadrada”, que oficializam a vontade de acordo, ou seja, a vontade de submissão à Roma conciliar, trocando a conversão desta pelas garantias da mesma, confiando, dando fé à Roma que perdeu a Fé (1).
Este é o ponto. Não é preciso que se chegue ao ensino formal de heresias para se constatar a desorientação, fruto da subversão instalada (2). Pois aqui a autoridade suspeita da Roma conciliar passa adiante da Fé, bem comum necessário sem o qual não se alcança a finalidade da Igreja, a salvação das almas, que é sua lei suprema (3). Não há garantias que justifiquem essa vontade de submissão, no máximo elas podem disfarçar sua malignidade, mais ou menos como a falsa justificação protestante cobriria os pecados sem os apagar realmente.
Além disso, essa mudança de orientação devia permanecer conhecida de poucos, e se apresentou esse Capítulo como um triunfo de pacificação, como um alívio, uma resolução dos problemas. Assim, a subversão estava no seu ambiente: o segredo e o falso compromisso, imobilizadores eficazes da maioria (4).
Estas constatações estão longe de ser as únicas, muitos escreveram sobre outros aspectos da crise da FSSPX e da Tradição como um todo. Mas elas são suficientes para mostrar o papel de funcionário sem escrúpulos que faz o pe. Le Roux, negando friamente toda traição e imputando a subversão aos que resistem a ela. Não trabalha com a realidade, mas intenta impor uma visão que, com certeza, não se exerce à luz da Fé.
“Nós não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um certo efeito.”
Josef Goebbels.
(1)- Por mais escandalosa que seja, a declaração de abril de 2012 não é a chaga mais profunda nessa crise. Poder-se-ia até imaginar que, numa situação de pressão, as autoridades da FSSPX chegassem a, finalmente, retratá-la. Não seria o fim da crise, pois outra declaração ambígua poderia tranquilamente sair de uma direção que aceita passar pela contradição nas suas resoluções para se submeter à Roma tal qual ela é.
(2) – Note-se que mesmo na Carta Magna da Igreja Conciliar, os documentos do Vaticano II, as novidades não aparecem de forma evidente, talvez somente em 5% dos textos… Mas os outros 95% não são íntegros. Porque o Concílio como tal foi perpassado por uma atração maligna, expressa sobretudo no célebre discurso de encerramento: a vergonhosa simpatia entre a religião de Deus que quis ser homem e a da religião do homem que quer ser Deus. Hoje muitos constatam o desastre, mas na época poucos o pressentiram. Os pontífices da revolução com tiara e pluvial se encarregaram de fomentar a passividade da maioria: Credo do Povo de Deus, declarações sobre a fumaça de Satanás, algumas punições para os mais radicais, etc. A passividade foi mantida, o desastre aí está, e a estratégia foi tão bem sucedida que a passividade permanece.
(3) – Ainda ecoa nos nossos ouvidos esta triste confissão de desistência contida na resposta do Conselho Geral aos 3 bispos: “Pelo bem-comum da Fraternidade, preferiríamos de longe a solução atual de statu quo intermediário, mas, manifestamente, Roma não tolera mais”.
(4) – Pois a Subversão trabalha mais pela imobilização que pela mobilização da maioria. Isto porque ela quer garantir que a sua minoria ativa trabalhe sem possível concorrência, a fim de que os fins subversivos sejam melhor alcançados. Numa sociedade hierárquica que tanto preza a obediência, como a Igreja, ela então procurará atingir a cabeça, e depois imporá a mudança pela falsa obediência. Falará muito de liberdade quanto estiver para se apossar do comando (durante o Vaticano II muito se falou de liberdade), mas falará mais de obediência quando, ocupado o poder, encontrar resistência.
Ir. Joaquim Daniel Maria de Sant’Ana, FBMV."

http://fbmv.wordpress.com

domingo, 7 de setembro de 2014

O protestantismo e a falta de temor filial a Deus

“Que espécie de psicopata alguém teria que ser para se iludir na crença de que, como se está “salvo”, pode-se pecar descuidada e despreocupadamente, pois Deus está agora “contratualmente obrigado” a perdoar você e recebê-lo no céu? E Jesus Cristo açoitado, crucificado e moribundo? E o fato de que cada um de seus pecados parte o Sagrado Coração de Nosso Senhor? Você se importa? Isso o incomoda? Você chega a pensar nisso? Se você pensa que sua salvação é um mero contrato e que você não precisa se preocupar com seus pecados, então você não tem o mínimo temor filial.”
(Ann Barnhardt, The One about Fear of the Lord)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Todo cuidado é pouco com os liberais

Todo cuidado é pouco com os liberais (hoje em dia querem ser chamados de “conservadores”), tanto os teístas como os coerentes até as últimas conseqüências com sua doutrina. Os teístas poderiam parecer menos perigosos, mas não são. Caberia perguntar-lhes: se o homem se afasta dos mandamentos de Deus, como pode ainda dizer que acredita nEle, e não somente em si mesmo? Como pode dizer que O ama, se não acredita que Ele especificou como quer ser adorado? Um deus que não tivesse detalhado isso ao homem e que deixasse de lado qualquer código moral para aperfeiçoamento de sua criatura racional seria um deus odioso e injusto. Um deus que não se revelasse, que deixasse unicamente à razão natural do homem sua descoberta e nisso terminasse sua relação com o homem, seria um deus sem amor, e com isso não haveria motivo para que tivesse criado nem o homem, nem o universo. Pois não basta crer em Deus, se é verdade que se crê; é preciso também amá-Lo. Além disso, a liberdade que o liberal busca é a de praticar o mal, e o mal não está em Deus. Um liberal teísta é, portanto, uma contradictio in adjecto.
Os liberais coerentes apenas conservam um momento passado da revolução, mas não chegam a considerá-la intrinsecamente má; não gostariam de voltar ao estado anterior a ela, se isso fosse possível. São os que não temem ir até o fim nas conseqüências de sua ideologia, os que esquecem a dimensão sobrenatural e tratam da vida como se o homem por si mesmo e contando somente com suas forças naturais pudesse melhorar as condições de sua existência. Mas não pode, como Nosso Senhor mesmo afirmou. Sem Sua ajuda somos galhos secos que só prestam para ser lançados ao fogo. O homem sem a graça divina é mero joguete nas mãos dos demônios. Nestas condições até suas mais nobres realizações começam a agir contra ele mesmo. Por isso, os artifícios pirotécnicos de estilo podem encantar e atrair seguidores, mas a longo prazo as propostas dos liberais não terão efeito, em razão justamente dessa ausência de consideração da sobrenaturalidade; e tal não poderia ainda ser diferente, considerando que são descendentes espirituais dos mesmos liberais jacobinos determinados a destruir trono e altar. Na sanha de destruição da Igreja, propunham também a destruição dos canais da graça divina; e sem esses canais, a humanidade não tem mais como amenizar os efeitos nefastos do pecado original. Hoje seu discurso pode parecer menos radical, pois foram o segundo momento da Revolução, já ultrapassado por outros mais radicais, um discurso que no entanto guarda ainda este impulso negativo fundamental, que eles deixam para expor em momentos bem escolhidos. Por não acreditarem na existência de uma verdade objetiva e colocarem o homem no lugar de Deus, tais "conservadores" acabam defendendo posições em perfeita negação da lei natural, como os que apóiam a contracepção e o aborto. Isso deveria servir de alerta aos católicos que já são iludidos por sua própria hierarquia; não devem aceitar cegamente suas teses, por mais sedutoras que pareçam, pois no fundo não se ordenam ao pensamento de Deus, padecendo de defeitos fundamentais.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Usura

“Enquanto a economia foi considerada uma ‘ciência moral’ (e, diga-se desde já, não pode ser outra coisa, pois depende das decisões dos homens), uma das questões mais debatidas pelo pensamento econômico foi a usura. No entanto, quando os moralistas foram expulsos do pensamento econômico, deixou-se de escrever e pensar sobre ela. Mas quer se diga ou se oculte, o certo é que a usura se encontra no coração do sistema capitalista (na verdade, é a gangrena de seu coração); e também na raiz de todas as desordens econômicas e morais de que hoje padecemos.
Se olharmos para trás (algo que o homem contemporâneo tanto detesta, para não ter que se arrepender de seus erros), comprovaremos que a usura esteve sempre proibida. “Não darás a teu irmão dinheiro a juros, nem lhe exigirás mais grãos que os que lhe houveres dado”, lemos no Levítico. E no Evangelho de São Lucas, Jesus proclama: “Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei o bem, e emprestai, sem nada esperardes”. Aristóteles considerava execrável “o tráfico de dinheiro, que tira lucro da moeda”; e o direito civil da Idade Média o declarou delito. Em sua encíclica Vix pervenit, Bento XIV condenava o pecado da usura, que se comete “quando se faz um empréstimo de dinheiro e, com base unicamente no empréstimo, o mutuante exige do mutuário mais do que lhe havia emprestado”; e no entanto Leão XIII, em Rerum novarum, se referia, em um sentido mais genérico, à “usura devoradora... um demônio condenado pela Igreja mas de todos os modos praticado de modo enganador por homens avarentos”. A condenação da usura foi unânime até a ruptura da Cristandade ocasionada pela Reforma, quando os príncipes protestantes começaram a introduzir legislações que, sob o pretexto de favorecer o comércio e o sistema bancário, confundiam o lucro legítimo com a usura. Desde então, a usura se tornou o ‘pão nosso de cada dia’, também no âmbito católico, ou pseudocatólico.
Na linguagem corrente, por usura entendemos a ‘cobrança de um juro excessivo pelo empréstimo de um capital’. Mas antes de começar a fixar qual é o juro excessivo e qual o juro lícito que se pode cobrar pelo empréstimo de um capital devemos reparar na questão que costuma passar despercebida. E é que a usura se sustenta sobre uma aporia, consistente em aceitar que o dinheiro pode se reproduzir com a mera ajuda do tempo; e que, passado um certo tempo, quem emprestou, por exemplo, cem moedas, pode reclamar cento e dez, independente do uso que se tenha dado a essas moedas. Mas o certo é que o dinheiro é um bem consumível que não se reproduz, pelo que, como assinalava Aristóteles, os juros se tornam um modo de aquisição contrário à natureza e, portanto, devem ser reprovados.
No entanto, do mesmo modo que afirmamos que o dinheiro em si mesmo não pode se reproduzir, não é menos certo que, mediante nosso trabalho, o dinheiro pode gerar um benefício. Pensemos, por exemplo, no proprietário de um terreno que pede um empréstimo para montar um sistema de irrigação que lhe permite multiplicar por três os frutos que esse terreno lhe proporciona. Seria plenamente justo que quem emprestou o dinheiro que permitiu ao proprietário triplicar suas colheitas demande um juro; porque o que faz que um juro seja ou não legítimo não tem a ver com que seja mais ou menos alto, mas com o fato de que o capital emprestado serviu para gerar um benefício. A participação do mutuante na riqueza gerada por seu empréstimo não pode considerar-se usura; usura consiste em crer que o mero empréstimo de dinheiro dá direito a juro. Usura é a cobrança de juros sobre um empréstimo improdutivo, ou de juros superiores ao incremento de riqueza gerado por um empréstimo produtivo.
Pois nossa época se nega a estabelecer uma distinção entre empréstimos improdutivos e produtivos; e impõe a cobrança de um juro como fruto do dinheiro emprestado, independentemente de seu uso. Assim, não só escolheu o dinheiro como padrão e medida de todas as coisas, como afirma que pode se multiplicar por um passe de mágica, desligado dos bens que representa e sem intervenção do trabalho humano. Só que essa multiplicação, enquanto enriquece ilimitadamente alguns, é conseguida ao custo do empobrecimento também ilimitado de outros. Isso é o que está acontecendo em nossos dias: por isso, enquanto a propaganda nos apedreja os ouvidos repetindo que já saímos da crise e que a Espanha volta a “gerar riqueza”, você procura nos bolsos e descobre que estão cada vez mais vazios.”
(Juan Manuel de Prada, Usura)