sábado, 12 de abril de 2014

O escravo de si mesmo

“A suposição de que a identidade de uma pessoa transcende, em grandeza e importância, tudo o que ela possa fazer ou produzir, é um elemento indispensável da dignidade humana. (...) Só os vulgares consentirão em atribuir a sua dignidade ao que fizeram; em virtude dessa condescendência serão “escravos e prisioneiros” das suas próprias faculdades e descobrirão, caso lhes reste algo mais que mera vaidade estulta, que ser escravo e prisioneiro de si mesmo é tão ou mais amargo e humilhante que ser escravo de outrem.”
(Hannah Arendt, The Human Condition)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A consolação da filosofia

1 INTRODUÇÃO
Boécio em seu livro “A Consolação da Filosofia” vem expor temas que sempre intrigaram e despertaram o interesse do homem, como a felicidade, Deus, o bem, a liberdade... Seu livro, apesar de ter sido escrito em meio à tortura devido ao fato de ter sido preso injustamente por supostamente ter praticado crimes políticos, como roubar dinheiro público, esconder documentos do Senado, entre outros, é uma preciosidade que deve ser lida e que será posteriormente muito utilizada pelos medievais para solucionar diversas questões a fim de se contemplar a verdade. A partir disso, venho apresentar os temas principais que são abordados com maestria pelo autor.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 VIRTUDE
Quando a Filosofia chega para conversar com Boécio, sua primeira ação será retirar as “poesias” de perto dele. Estas poesias não fazem nada mais que incentivar as paixões que fazem com que o homem se apegue ao mundo exterior em vez de se deixar guiar pela própria razão. “São elas que por lamentos estéreis das paixões matam a acuidade da Razão”(Consolação da Filosofia, I.2, p.5). Portanto, as paixões dificultam a prática das virtudes, já que estas estão ligadas à razão e residem no interior do homem. “Abandonando sua própria razão, dirigiu-se às trevas exteriores” (Consolação da Filosofia, I.3, p.5).
2.2 FELICIDADE
Boécio reclama que todos os seus pertencentes foram tirados dele pela Fortuna e por isso ele chora sua perda, sentindo-se infeliz com o rumo que sua vida tomou. A Fortuna responde a ele que todos os bens terrestres pertencem a ela e que por isso ela apenas tomou aquilo que já era seu. Além do mais ela diz: “Acaso existe algum homem que possua uma felicidade tão perfeita que não se queixe de algo? A felicidade terrestre traz sempre consigo preocupações e, além de nunca ser completa, sempre tem um termo” (Consolação da Filosofia, II.7, p.34). Em outras palavras, as coisas materiais são incapazes de trazer uma felicidade plena ao homem, de modo que ele não deseje mais nada, e satisfaça todos os seus desejos. Não! O homem, por mais que possua bens terrestres, sempre deseja mais. A felicidade não pode estar fora do homem, mas dentro: “Por que então, ó mortais, buscais fora de vós o que se encontra dentro de vós?” (Consolação da Filosofia, II.7, p.35). A felicidade pode ser alcançada até mesmo em meio a dores e suplícios, pois as dores e mesmo a morte não são capazes de arrancar a verdadeira felicidade. “Para a verdadeira felicidade, a felicidade que teu coração vê em sonhos mas que não podes contemplar tal como ela é porque tua vista se desvia para as aparências” (Consolação da Filosofia, III.1, p.54). A Filosofia passa a demonstrar que se a verdadeira felicidade coincide com o bem supremo para o qual nada pode ser desejado fora dele, já que nele está a felicidade perfeita, então, os bens terrestres são falsos bens e colocar neles a felicidade verdadeira é ignorância. “Com efeito, todos os homens têm em si o desejo inato do bem verdadeiro, mas os erros de sua ignorância desviam-nos para falsos bens” (Consolação da Filosofia, III.2, p.55).
Estes falsos bens são:
1. A Riqueza
2. A Honra
3. O Poder
4. A Fama
5. Os Prazeres Sensuais
2.2.1 A Riqueza
A riqueza não pode ser desejada como verdadeira felicidade, pois quem a tem possui o medo de que ela seja roubada, logo é necessário ajuda externa para protegê-la. Sua posse portanto torna o homem dependente. Quanto mais riquezas um homem tem, mais preocupações ele terá.
2.2.2 As Honras
A honra não pode ser desejada como verdadeira felicidade, pois as honras não fornecem virtude a quem as tem, além de expor os defeitos à mostra. Além disso a honra não possui valor por si mesma, pois ela não distingue quando um sujeito honrado se encontra no meio de povos estrangeiros que não o consideram honrado. Portanto, “aquilo que não tem em si nenhum mérito é avaliado pelas opiniões da multidão, que o exaltam ou o rebaixam” (Consolação da Filosofia, III.7, p.63).
2.2.3 O Poder
O poder não pode ser desejado como verdadeira felicidade, pois todo poder é limitado por mais que se o tenha, e a partir do momento que este poder acaba, inicia-se a tristeza do soberano. Assim como a riqueza, ele também gera medo, pois as pessoas que o têm, estão sempre preocupadas com medo de perdê-lo, por isso é necessário que tenham uma ajuda externa a fim de proteger este poder.
2.2.4 A Fama
A glória não pode ser desejada como verdadeira felicidade, pois muitos podem conquistá-la pelas opiniões errôneas da multidão. Ela não acrescenta nada ao sábio que não pode se deixar levar pelos rumores das opiniões do povo. Além disso, é algo passageiro e tem origem não na pessoa que a tem, mas nos outros que a fazem famosa.
2.2.5 Prazeres Sensuais
Os prazeres sensuais não podem ser desejados como verdadeira felicidade, pois caso assim fosse, ter-se-ia que aceitar que os animais também poderiam adquirir a felicidade já que eles também fazem esforços para se satisfazerem fisicamente. Ainda mais, o exagero do prazer físico pode ser acompanhado por remorsos e por doenças físicas.
Resumindo, a verdadeira felicidade não pode ser encontrada nestes bens que são perecíveis; ela deve ser encontrada em outro local. Este bem procurado deve possuir uma natureza una e simples da qual todos os bens citados acima são apenas cópias.
2.3 DEUS
Deus é o Bem supremo e fonte de todos os outros bens. Para provar a existência de Deus, Boécio utiliza de um argumento que posteriormente servirá de base para o argumento ontológico de Santo Anselmo.
Primeiramente, Boécio estabelece que todo bem imperfeito é uma degradação de um Bem perfeito, e que portanto, se há uma felicidade imperfeita é porque então há uma felicidade durável e perfeita, já que aquela é degradação da verdadeira felicidade. A existência de um imperfeito qualquer pressupõe a existência de um perfeito na mesma ordem, assim como pessoas que nasceram disformes pressupõem a existência de pessoas perfeitas segundo sua natureza.
Resta então provar que o Bem Supremo é o próprio Deus. Boécio parte de uma idéia inata, pois todas as pessoas concordam em afirmar que Deus é o princípio de todas as coisas e que Ele é bom. Daí ele faz a seguinte inferência: “e como não se pode conceber nada melhor que Deus, quem poderia duvidar de que aquilo é melhor que todo o resto seja bom? Portanto, nossos raciocínios mostram que Deus é bom a tal ponto que está fora de dúvida que o bem perfeito também está presente nele” (Consolação da Filosofia, III.19, p.77). Ou seja, se Deus é o ser mais perfeito, também nele deve estar o sumo bem pois, se não, teria de haver outro ser anterior a Deus que possuísse maior perfeição e isto levaria ao infinito, já que se dois soberanos bens existissem, um teria que se diferir do outro por algo. Portanto o Sumamente Bom se identifica com o Sumamente perfeito e este é Deus.
Dado que a verdadeira felicidade é o sumo bem e o sumo bem é Deus, logo é em Deus que está a verdadeira felicidade; “é preciso admitir que Deus é a suprema felicidade”(Consolação da Filosofia, III.19, p.78).
2.4 BEM
Todos os bens estariam subordinados ao Bem Supremo. Todo bem é desejável, e por isso a glória, a fama, a riqueza etc são desejáveis sob a mesma razão de bem, pois participam do Bem supremo. Já que todas as coisas procuram o bem, o bem é o fim de todas as coisas: “Aquilo que sem sombra de dúvida todas as coisas procuram, e, como havíamos concluído que é o bem, temos de reconhecer que o fim de todas as coisas é o bem” (Consolação da Filosofia, III.21, p.86). Portanto, o Bem e o fim se identificam.
Boécio coloca que são duas as condições para a ação humana: a capacidade e a vontade. A vontade é aquela que deseja o bem e a capacidade aquilo que nos permite alcançar o bem desejável. Tanto os maus como os bons procuram o bem, mas o que diferencia um do outro é que os bons são bons por obterem o bem desejado, já os maus por não conseguirem obter, pois são desviados por suas paixões. Boécio parece não levar em conta a solução dada por Santo Agostinho sobre a questão do mal e também não se aprofunda no problema. Ele chega inclusive a estabelecer que os maus não são humanos apesar de terem a aparência de humano; eles se reduziriam a um estado animal, dado o numero de vícios em que caíram: “Dessa forma sucede que, se ele deixa de ser homem por ter dissimulado o verdadeiro caráter do bem incapaz de ascender à condição divina, transforma-se em besta” (Consolação da Filosofia, IV.5, p.106).
2.5 LIBERDADE
O homem, por ter razão e vontade, possui a capacidade de julgar e por isso é livre para tomar suas decisões. Para Boécio, o homem é mais livre quanto mais se conforma à vontade divina e será menos livre quanto mais se vê distante dela. Uma alma que se deixa dominar pelas paixões seria escrava e, portanto, não-livre. A providência divina e a liberdade humana estão intimamente ligadas. O problema que é levantado por Boécio, a partir da questão do livre-arbitrio, é o seguinte: se Deus prevê tudo, como o homem pode ser livre para tomar suas decisões, já que aquele conhece sua intenção, sua vontade e suas ações? Se toda a ação é prevista por Deus, então o homem agiria necessariamente conforme esta previsão, logo, no homem não haveria livre-arbítrio. Boécio não vê diferença entre uma ação prevista que faz com que ela ocorra necessariamente e uma ação que por ocorrer é que ela foi prevista, pois segundo ele tanto uma quanto a outra levam a agir daquela determinada forma necessariamente, já que conceber que Deus pudesse falhar em sua previsão seria um absurdo. Não havendo livre-arbítrio, qualquer recompensa aos bons ou punição aos maus seria um ato de injustiça.
Para solucionar a questão, a Filosofia estabelece que a presciência de Deus não é causa necessária dos acontecimentos. Se não houvesse nenhuma presciência, a realização dos acontecimentos futuros continuaria a ser da mesma forma, pois ações irão ocorrer havendo ou não presciência. Esta, portanto, é apenas sinal dos acontecimentos e não causa ou criação destes acontecimentos. O segundo argumento vem do fato de que o conhecimento em Deus, diferente dos seres humanos, se dá de forma atemporal, já que Ele é eterno; logo, em Deus não há um conhecimento de passado, presente e futuro e, sim, Ele vê tudo num eterno presente, num eterno “agora”, Ele não prevê e por isso chamamos de Providência e não de Previdência.”
(Ricardo Salles, A Consolação da Filosofia de Boécio - Virtude, Felicidade, Bem, Liberdade, Deus)

http://renatosalles.blogspot.com.br/2008/06/consolao-da-filosofia-de-bocio.html

domingo, 6 de abril de 2014

Oração de São Padre Pio

“Jesus, Que nada me separe de Ti, nem a vida, nem a morte. Seguindo-Te em vida, ligado a Ti com todo amor, seja-me concedido expirar contigo no Calvário, para subir contigo à glória eterna; Seguirei contigo nas tribulações e nas perseguições, para ser um dia digno de amar-Te na revelada glória do Céu; para cantar-Te um hino de agradecimento por todo o Teu sofrimento por mim. Jesus, que eu também enfrente como Tu, com serena paz e tranqüilidade, todas as penas e trabalhos que possa encontrar nesta terra; uno tudo a Teus méritos, às Tuas penas, às Tuas expiações, às Tuas lágrimas, a fim de que colabore contigo para a minha salvação e para fugir de todo o pecado – causa que Te fez suar sangue e Te reduziu à morte. Destrói em mim tudo o que não seja do Teu agrado. Com o fogo de Tua santa caridade, escreve em meu coração todas as Tuas dores. Aperta-me fortemente a Ti, de maneira tão estreita e tão suave, que eu jamais Te abandone nas Tuas dores. Amém!”

quinta-feira, 3 de abril de 2014

As profecias de Lúcia de Fátima e Padre Pio sobre João Paulo I

“Coloque-a na categoria das notícias explosivas. Uma reportagem na revista italiana Mensageiro de Santo Antônio diz que o Padre Pio – o incrível estigmatizado italiano que foi canonizado ano passado – previu uma situação que envolvia Albino Luciani – o Papa João Paulo I – antes de Luciani, à época bispo de Vittorio Veneto, ascender ao Trono de Pedro.
Se verdadeira, será a segunda profecia envolvendo um Papa recente atribuída a Pio, que foi canonizado recentemente. Notícias anteriores incomprovadas afirmavam que Pio profetizou a eleição de Karol Wojtyla ao papado.
No caso de Luciani, que foi Papa por apenas 33 dias, a predição estava ligada à promoção de Luciani a patriarca (ou arcebispo) de Veneza. De acordo com um artigo escrito por Renzo Allegri, Francesco Cavicchi, um empresário de Conegliano Veneto [uma vila italiana], foi ver o famoso místico em 1967 para receber aconselhamento espiritual. No fim de sua conversa, o Padre Pio lhe contou: “Você deve formar um grupo de oração em sua cidade natal”.
Chegando a casa, Cavicchi tentou exatamente isso, diz a revista, apelando a Luciani, que na época era seu bispo – mas sem sucesso. “Tão logo Luciani ouviu o nome de Padre Pio mencionado, a conversa foi interrompida bruscamente,” relata a publicação. “'Basta!', disse Luciani, 'Não quero mais falar sobre isso.' Naqueles dias, Pio não era bem visto pelas autoridades eclesiásticas.”
Quando o empresário alguns meses depois contou ao frade capuchinho o que acontecera, diz-se que Pio permaneceu em silêncio por um momento, e então respondeu, “Não se preocupe. O próprio bispo vai procurar por você no tempo devido. E você receberá permissão escrita do patriarca.
Isso parecia impossível, mas Pio repetiu sua afirmação de que tanto o bispo local como o patriarca viriam em auxílio de Cavicchi na formação do grupo de oração. “Agora vá em paz!”, teria dito Pio.
Cavicchi voltou para casa confuso mas viu a predição se materializar de um modo incrivelmente literal. Isso ocorreu um ano após a morte de São Pio quando, em 10 de dezembro de 1969, Cavicchi recebeu uma ligação do secretário do Bispo Luciani, que anunciou que o bispo queria encontrar-se com ele. Quando Cavicchi foi ver o então Bispo Luciani, o futuro papa imediatamente voltou a conversa para Pio, desta vez de um modo bastante simpático. Ele se lembrou do pedido para um grupo de oração e disse que iria tratar do assunto quando de seu retorno de uma viagem a Roma.
Alguns dias depois, surgiram notícias de que o Bispo Luciani havia sido nomeado Patriarca de Veneza e dado a Cavicchi permissão escrita para um grupo de oração – desta forma cumprindo as palavras de Pio de que o empresário iria primeiro falar com um “bispo” e então receber permissão do “patriarca”.
Talvez ainda mais interessante seja que o Mensageiro de Santo Antônio diz que antes de ser Papa, na primavera de 1977, o Bispo Luciani fez uma visita, anteriormente não revelada, à vidente de Fátima, Lúcia dos Santos, em Coimbra, Portugal – na qual a Irmã Lúcia, uma freira no Mosteiro de Monte Carmelo, supostamente profetizou sua eleição como Papa.
A publicação cita o irmão do Papa João Paulo I, Edoardo, que participou da peregrinação, recordando detalhes do dramático encontro.
“Albino disse a seu secretário que permanecesse no quarto de espera”, disse. “O encontro, que deveria durar apenas dez minutos, terminou durando duas horas. Não sei sobre que conversaram. Tudo que sei é que, após o encontro, meu irmão estava profundamente abalado. Na verdade, ele estava tão perturbado com esse encontro que permaneceu completamente em silêncio durante toda a viagem de volta para casa.”
O Mensageiro relata que, após a morte do Papa, soube-se que Lúcia saudou o então Patriarca como “Santo Padre”. “Ela previu sua eleição ao papado, mas também que seu pontificado seria muito curto e que seu sucessor seria um estrangeiro, um Cardeal de Cracóvia”, afirma Allegri. “Essa previsão também foi confirmada pelo próprio Patriarca durante um de seus passeios com um teólogo veneziano, Pe. Germano Pattaro.
Ironicamente, Luciani e seu futuro sucessor, Karol Wojtyla, ficaram amigos após o encontro relacionado a Fátima, e diz-se que o próprio Papa João Paulo I mais tarde previu quem o iria suceder, indicando a pessoa que estava no quarto em frente ao seu no Conclave realizado na Capela Sistina.
Aquela pessoa era Karol Wojtyla – o Papa João Paulo II – que se tornou pontífice depois que o Papa João Paulo I morreu misteriosamente.”
(Michael H. Brown, Report Claims Padre Pio And Fatima Seer Both Issued Prophecies About John Paul I)

segunda-feira, 31 de março de 2014

O destino de todo protestantismo

“A Igreja Reformada é a ruína de toda verdade, a fraqueza da divisão infinita, a dispersão dos rebanhos, anarquia eclesiástica, Socinianismo envergonhado de si mesmo, Racionalismo revestido como uma pílula, sem doutrina, sem consistência. Essa Igreja, privada tanto do seu caráter coletivo quanto do dogmático, de sua forma e de sua doutrina, privada de tudo que a constituía uma Igreja Cristã, na verdade cessou de existir nas fileiras das comunidades religiosas. Seu nome continua, mas representa apenas um cadáver, um fantasma, ou, se assim o quiserem, a memória de uma esperança. Por falta de autoridade dogmática, a descrença conquistou três quartos de nossos alunos.”
(M. Scherer, L' Etat Actual de L'Église Reformée en France)

sexta-feira, 28 de março de 2014

A corrupção é inerente à democracia

“Pode-se dizer, sem medo de exagerar nem de equivocar-se, que a “corrupção” é gerada pelo próprio “Sistema democrático” e que ela opera como uma espécie de “óleo” que lubrifica e mantém em funcionamento as peças do Sistema. Em sua própria essência se encontra a origem ou germe dessa enfermidade moral, particularmente em tudo que se relaciona com o “dinheiro” ou com o “poder do dinheiro”, conforme o seguinte raciocínio:
- Na sociedade política moderna o Poder Político se fundamenta na vontade geral do povo, que resulta da soma indiferenciada das vontades individuais (maioria) e cujas decisões se caracterizam por serem ilimitadas, inapeláveis e infalíveis (onipotência do número). Somente o número, a quantidade anônima e impessoal, decide – como suposto soberano – sobre o bem e o mal, o justo e o injusto etc, além de eleger os que o representam e governarão. Dessa forma se consagra a primazia da quantidade sobre a qualidade.
- Em termos práticos, a expressão da vontade geral requer – para os políticos que querem ser eleitos – contar com a opinião favorável das multidões. A formação de uma opinião favorável, na sociedade moderna, se realiza através dos meios de comunicação (rádio, TV, internet, jornais e revistas, livros, propaganda das ruas etc). O elemento indispensável para poder ter acesso aos meios de comunicação é o dinheiro. Sem dinheiro não há meios de comunicação nem propaganda. Por sua vez, sem meios de comunicação nem propaganda não há opinião. Sem opinião não há eleitores ou votos favoráveis.
- Por outro lado, incentiva-se a opinião favorável, mui freqüentemente, mediante a demagogia e a adulação à multidão, a qual se transforma – e se comprova em todas as civilizações e épocas históricas – em matéria pronta para ser conduzida por aquele que mais a corrompa e prometa.
- Em conseqüência, o dinheiro é o gerador “nas sombras” de todo poder eleito na sociedade moderna, de todo poder baseado na vontade geral e de todo poder mantido na dependência da opinião.
Conforme o raciocínio exposto, deduz-se por simples lógica que os políticos e a partidocracia têm uma necessidade vital em relação ao “dinheiro”, primeiro para serem eleitos e depois para manterem-se no poder mediante uma nova reeleição. E essa “necessidade vital de dinheiro” ou “caixa” foi-se incrementando com o avanço da modernidade e dos desenvolvimentos tecnológicos e o aumento da complexidade social, só podendo ser satisfeita se o “dinheiro” é obtido por alguma destas três fontes:
- De sua riqueza pessoal, conseguida previamente a ser eleito.
- De alguém (empresa, amigo, agiota etc) que o doa, presenteia ou empresta sob determinadas “condições” que deverão ser cumpridas desde o posto alcançado na função pública.
- Do roubo no exercício da função pública (malversações, propinas, comissões, participação na propriedade etc através dos processos licitatórios ou de concessões etc); ou do roubo ou assalto usando a violência física (carros-fortes, bancos, comércios, particulares etc).
Além dessas três alternativas e alguma eventual variante, os políticos e a partidocracia não têm outras opções para obterem o que é a “matéria prima” para a obtenção de um cargo ou posto eletivo, em qualquer dos níveis do Estado.
Em conseqüência, se nos perguntamos qual é a relação entre o Poder Político e o Poder do Dinheiro, conclui-se o seguinte: enquanto o Poder Político predomina em termos ideais e teóricos sobre o Poder do Dinheiro, na prática e da observação da realidade histórica surge que o Poder Político é servil e subordinado ao Poder do Dinheiro, porque é influenciado por este último. (…)
Ora, essa situação de servidão e subordinação do Poder Político em relação ao Poder do Dinheiro continua no exercício do poder. A razão é simples e responde à ambição humana: os que estão no poder querem manter-se nele durante todo o tempo que possam, para o qual devem ser reeleitos. Chegados a este ponto, vêem-se novamente obrigados a reiniciarem o ciclo perverso descrito anteriormente. Dessa maneira, necessariamente, estarão subordinados ao “Poder do Dinheiro” durante o exercício de seu mandato – porque aquele é a fonte de seu poder e tem capacidade para confirmá-los em cada eleição – e, portanto, deverão ser dóceis a suas ingerências ou ordens. (…)
Os que amam e morrem pela “democracia” inexoravelmente devem se acostumar a conviver com a “corrupção”. Basta de simulação e hipocrisia barata.”
(Santiago Roque Alonso, Dinero, Democracia, Control y Corrupción)

terça-feira, 25 de março de 2014

Progresso e decadência

“O preço do progresso é a morte do espírito. Nietzsche revelou este mistério do apocalipse ocidental quando proclamou que Deus estava morto, que havia sido assassinado. Este assassinato gnóstico se comete constantemente pelos homens que sacrificam Deus nas aras da civilização. Quanto mais apaixonadamente a totalidade das energias humanas se dedica à grande empresa da salvação mediante a ação imanente no mundo, mais se afastam da vida do espírito os seres humanos que se dedicam a esta empresa. E como a vida do espírito é a fonte da ordem no homem e na sociedade, o próprio êxito da civilização gnóstica é o motivo de sua decadência.
Uma civilização pode na verdade progredir e decair ao mesmo tempo, mas não eternamente. Há um limite até o qual se dirige este processo ambíguo. Este limite se alcança quando uma seita ativista que representa a verdade gnóstica organiza a civilização como um Império sob seu comando. O totalitarismo, entendido como a norma existencial dos ativistas gnósticos, é a forma final da civilização progressista.”
(Eric Voegelin, The New Science of Politics)

sábado, 22 de março de 2014

A Tradição católica

“Quando falamos de tradição católica não nos estamos referindo somente a uma tradição intelectual, nem sequer a uma completa visão do mundo, mas a uma civilização. (…) Ou seja, a tradição católica implicava costumes, instituições e idéias. Igualmente, as transformações ideológicas revolucionárias conduziram primeiro à fratura das instituições, que por sua vez levou generalizadamente à dos costumes. E a resistência à revolução progressivamente foi ficando no âmbito dos costumes, que, ao não contarem com o apoio institucional, foram também se quebrando, resistindo somente o reduto das idéias. Idéias progressivamente mais depuradas quanto mais se isolavam no cenáculo dos “militantes” ou dos “tradicionalistas conscientes”. Esse é o processo de transformação (desnaturalização) de um tradicionalismo pleno em algo semelhante a uma société de pensée ou, no melhor dos casos, em um gueto de famílias em meio às ruínas.
Contudo, está claro que uma tal situação vem marcada pelo equilíbrio instável. Pois o restante das famílias vai resistindo com dificuldade à pressão exterior, enquanto o agregado ideológico, isolado, tende a fragmentar-se, perdendo o sinal de unidade de toda tradição, de toda civilização. Hoje é muito comum encontrar defesas da moral sexual e familiar mais tradicional pelos mesmos grupos que contribuem para manter uma política que progressivamente torna impossível a manutenção dessa moral. Outros defendem a tradição litúrgica despreocupados com a tradição política. Alguns por fim reivindicam pedaços da cosmovisão tradicional de modo “ideológico”, às vezes “conservador”, outras “revolucionário”. A conseqüência é desoladora para os que querem continuar recebendo a “boa notícia” no seio da civilização que ela gerou para nós. Porque é impossível inculturar o cristianismo na civilização moderna e suas versões atuais, tanto a “forte”, tecnocrática e prometéica (que caberia chamar de hipermoderna), como a “fraca”, desconstrutiva e niilista (que podemos chamar propriamente de pós-moderna). (…)
Nessa situação, a conjuntura impele muitos a salvarem o que se puder de um velho navio naufragado. Enquanto outros se esforçam por lembrar que os despojos à deriva pertenceram a um navio cujas dimensões, características etc são possíveis de conhecer. E tudo se deve fazer. Mas o que não se pode esquecer é que, sem o acolhimento de uma civilização coerente, todos os restos que se salvam, por um lado, estão mutilados, desnaturalizados, e - por outro - dificilmente podem subsistir muito tempo em sua separação. Assim, a solução não pode ser encontrada senão na incessante restauração-instauração (como não recordar o memorável texto de São Pio X?) da civilização cristã, que ademais não poderá ser alheia – exigências da pietas – à Cristandade.”
(Miguel Ayuso Torres, La Constitución Cristiana de los Estados)

quarta-feira, 19 de março de 2014

São José

"Rogamos a Vós, Senhor, que nos ajudem os méritos do esposo de Vossa Mãe Santíssima, para que alcancemos por sua intercessão o que não podemos conseguir com nossos méritos." (Coleta da Missa de São José)

terça-feira, 18 de março de 2014

Água benta e as almas do Purgatório

“As almas sofredoras também experimentam um grande alívio quando os túmulos são incensados e borrifados com água benta. A água benta na verdade apenas materialmente umedece a terra, mas em sua virtude beneficente ela refresca as almas do Purgatório, assim como as águas do Batismo caindo sobre a cabeça da criança têm o poder de limpar sua alma. Portanto, cuidai de borrifar com freqüência o lugar de último repouso de vossos amigos com água benta, pois assim suavizareis as chamas que os torturam.”
(Pe. Martin von Cochem, O.S.F.C, The Incredible Catholic Mass)